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Full text of "Annaes das Sciencias e Lettras da Academia Real das Sciencias"

-1^)^ 



:(^^~ 



ANMES 



DAS 



mmm e lettras, 



PUBLICADOS DEBAIXO DOS AUSPIGIOS 



ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS. 



SCIENCIAS lATHEMATICAS, PflYSICAS, UISTORICO-NATURAES, E MEDICAS. 



TOMO I. 

PRIMEIRO ANNO. 
MARCO DE 1837. 



LISBOA 

NA TYPOGRAPHIA DA MESMA ACADEMIA 

1857 



^CJ^ 



^ 



INDICE 

DOS ARTIGOS CONTIDOS N'ESTE MMERO. 



ig«e» 



I'Afi . 
IXTRODUCCAO ^ 

THABALHOS APRESEMADOS A' ACADEMIA. 

NOT.v sobie a exislcncia de urn novo acido gordo en- 
conlrado no scbo do brindao 1 

A PRODUCCAO DO suLFATO DE SODA DO volcao da ilha do 
Fogo no Archipelago de Cabo-Verde !> 

ARTIGOS E NOTICIAS SCIENTIFIGAS. 

NOTiciA zooLOGicA sobrc a cabra-nionlez da serra do Ge- 
rez ^l 

REVISTA ESTRANGEIRA. I80G '^2 

OBSERVATORIO METEREOLOGIGO DA ESCOLA POLYTECHNICA . J>1 



ANNAES 



SCIENCIAS E LETTMS. 



^. los /.:&.' 



ANNAES 



DAS 



Se WUS E LETTRAS. 

PITBUCADOS DEBAIXO DOS AUSPICIOS 

ACADEMIA REAL DAS SC»ENCIAS. 



SCIENCIASMATHEMATICAS, PHlSICAS, HISTORICONATIRAES, 

E m\ 




VWNV¥,\WO \W0. 



LISBOA 

NA TYPOr.RAPHlV n\ MESM\ \G\DEMIA 

1857 



liYlRODUCCAO. 



A scicncia 6 o podcr crcador que cnriqiiece o mundo com 
cssas porlontosas maravilhas que o engrandccem , o civili- 
sam, e Ihe mulliplicam as forcas. Vivendo separada do vul- 
go , escondida, coino myslcriosa divindade, no gabinete do 
homem esludioso, no laboratorio do investigador ousado raai 
egoisla, a scicncia foi, por muitos seculos, do exclusivo do- 
niinio de poucos , e consumiu quasi todos os seus esforcos 
cm discussoes estereis, em buscar a explicacao de faclos mal 
observados , em satisfazer o orgulho dos seus privilegiados 
cultores. Iloje a transformacao e completa : a scicncia e de 
lodos e para todos. 

numero dos homens, que conhecem a scicncia, e ho- 
je immense ; e esses homens , indagadorcs infatigaveis dos 
factos, analysadores attentos das realidades, buscam penelrar 
OS segrcdos da natureza uns, outros applicar ao bem da hu- 
inanidade cada nova conquisla do saber huraano. Muilos dos 
phcnomenos naturaes, que cram desconhecidos oumal inter- 
pretados quando a scicncia sc conservava nas rcgiocs obscu- 
ras de um falso philosophismo, acharam facil e singela ex- 
plicacao logo que se pediu a propria natureza a revelacao 
dos seus segrcdos. As forcas tao limiladas do liomcni, mul- 
liplicaram-se rapidamenle logo que clle, conhccendo as Icis 
que regem as forcas naturaes , soube aproitriar-sc d'cllas , 
dominal-as, dlrigil-as, applical-as em proveilo proprio. 



M 

i: bclla c nobre a niissiio do sabio, que, scrvindo-sc dos 
podcrosos mcios da analyse , dos inslruincnlos rigorosos do 
obsorvacao , procura , dcsprcocciipado do todas as ideas do 
applicaeao util , pcnelrar os inlimos sogredos do universo ; 
inedir, calcular asforeas que o regem ; reconhecer as Irans- 
fonnacocs por que passaui os corpos que o compoeui, quer 
scjam aslros luminosos , que caminhcm no inconiniensura- 
vol cspaco , quer scjam seres microscopicos, que so agitem 
n'uma gota de orvalho ; colleccionar no seio da lerra os do- 
cuiuenlos, que podeni servir para nosoxplicar a hisloria gran- 
diosa d'csta nossa passageira habilacao ; combinar os faclos 
inulliplos c coniplcxos, dados pela observacao, para d'elles 
tiedu/.ir leis gcraes , que guieni o espirito no caniinho das 
fuluras descoberlas. Cada um dos doscobrimenlos do sabio 
e unia nova gloria para o cspirilo humano , e a origein se- 
gura dc progresses rcaes para a huuianidade, A hisloria dos 
invcnlos do nosso seculo ahi esla para denionslrar que ho- 
je OS esludos scienlificos nao sao eslerois , quo a sociedado 
por dies so civilisa, sc ennobreoc, se liberla do pesado ju- 
go (la nuUeria, para n)ais dcsassonibradanienic se poder eni- 
juMihar na sublime larefa dc desinvolver os melhoramcnlos 
nuiraes. 

K lao inlima a relacao cnlre a sciencia e a sociedado , 
quo sc nao pode esperar nada de um povo onde a sciencia 
niio progride, que nao pode haver esperanca no fuluro on^ 
do a luz da sciencia nao brilha. Em lodas as relacoes ma- 
leriaos e moraes da vida, om lodas as induslrias, em lodas 
as arles a cnconlrani hojo as nacoes civilisadas. 

homem , obrigado a luolar com as forcas da nalure- 
/a , forradu a enipregar a accao muscular para veneer re- 
sislencias podcrosas , cur\a a fronle para o solo , a quo o 
Irahalhct o agrilhaa como escravo. A sciencia , descobrin- 
(lo as iiiachinas , apodorando-se das forcas do vapor o su- 
jeilando-as a sua vonlade , liberla uma poi'cao cousidera- 



VII 

\el (la himianidadc , da a socicdade forcas siipcriorcs as 
do quo olla d'aiilcs podia dis|)or , lorna niais considoravcl 
c niais cconomica a produccao dos ohjeclos do niaior nc- 
ccssidadc , quo podom agora dicgar a todos, quando antos 
cram privilogio do poucos, c islo augmcnlando o numero do 
Irahalhadors quo liram as subsislencias pcla agricullura c 
pola induslria. 

Luclando com os vcnlos contraries , ou com as corrcn- 
los o[»poslas , naula inal podia conlar com os rcsultados 
do uma longa viagem, chcia sompro do inccrlczas, do pori- 
gos, do inovita\ois contratcmpos : applicando a forca do va- 
por a prcpulsao dos navios, a scicncia diminuiu os porigos 
das viagons, abbroviou-lhes a duracao, regularisou o inul- 
liplicou ascommunicacocs cnlro ospovos scparados pelos va- 
rios loni[)csluosos marcs. 

Em lorra cram oulr'ora as viagens tambcm vagarosas , 
inccrtas, pcnosas, principalmcnle para os pobres a qucm fal- 
lociam os rocursos para viajar nas diligoncias , ou para so 
fazor conduzir rapidamonlc por vigorosos cavallos dc posla. 
Applicando a locomocao em terra , a fccunda descobcrla da 
machina do vapor, a scicncia, dcscnrolando sobrc aseslradas 
OS carris doforro, poz sobro cllos as podcrosas locomotivas, 
que voani com a rapidcz do vcnto, arraslando comsigo via- 
jantcs emorcadorias. IIojc os ricos podcm viajar rnais com- 
niodamcnlc, c com muito maior volocidado do que d'anlcs ; 
e ao mcsmo tempo os pobres podcm aproveilar-so da vanta- 
gem da velocidadc, islo 6, da cconomia do tempo, (|ue pa- 
ra estes c a rriais preciosa, e muitas vezes a unica liquoza. 

A necessidade decommunicar, a traves doespaco, o j)en- 
samenlo, levou a adopciio doimportantc lelegrapbo acrco, do 
Iclegraplio inventado polo abbade Chappe. I'^ste lclegraph<i 
liiiha graves inconvenienles, porque mil accidcnlos interrom- 
piam sou trabalho , lrai)allio nioroso e iiiconipleto , quo 
iiial podia salisfazer as necessidades semprc ciesceiites do 



VIM 

unia socicdade activa. Fixaram os homens da scicncia a al- 
tcncao sobre a cleclricidade , para d'ella obterem urn cabal 
conhccimcnto , com o qual podessem resoher muitas ques- 
toes theoricas e pralicas ; do cstudo da electricidade nasceu 
a descobcrta da pilha, que da uma corrente eleclrica cons- 
lanle, e depois a descoberla do electro-magnetisnio , islo e , 
da acciio de uma corrente eleclrica sobre aagulha magncln 
ca. Desdc este momcnto o telegrapho cleclrico estava desco- 
bcrlo ; aqui a applicacao pralica nasceu dos conheoimcntos 
sclenlificos adquiridos pelo estudo da electricidade. 

Foi ainda o estudo da electricidade que levou ao dcsco- 
brimcnlo da galvanoplaslia, uma das suas mais admiraveis 
applicacoes. A decomposieao dos saes melalicos dissolvidos 
por uma corrente eleclrica, e a deposicao regular do metal 
em camadas sobre os corpos convenientemente preparados , 
e collocados no polo negativo da pilha, foi a origem da gal- 
vanoplaslia, que ja lem produzido rcsultados maravilhosos, 
c que 6 destinada a um brilhanle fuluro industrial. 

A electricidade , nas suas formas variadas , acha ainda 
cada dia applicacoes novas. Os relojos eleclricos, os moto- 
res eleclro-magneticos, a luz eleclrica, com a qual se podo 
quasi imitar o clariio do sol , a dislribuicao de signaes ins- 
tanlaneos sobre as vias ferrcas, para evilar os perigosos ac- 
cidenles, eassegurar assim avida dos viajanles , sao oulras 
lantas applicacoes desle fluido raaravilhoso as necessidades da 
sociedadc., Esta muilo lojige ainda a electricidade de ler da- 
do tudo quanto d'ella se devc cspcrar para o bem da huma- 
nidadc ; c, comtudo, quantas maravilhas se podem ja pro- 
clamar como scndo gloria para o nosso seculo , c sublime 
galardao da scicncia ! 

Que grande cxemplo do poder da sciencia e tarabem a 
magnifica descoberla da photograpliia ! Humildc c impcrfci- 
la quando saiu das maos dos scus invcnlores, Nicpce c Da- 
gucrrc, a pholographia dc\u a sciencia lodos os scus pro- 



gressos. A luz c hoje um mcio infallivel de obler desenhos 
da mais primorosa perfeicao ; e, em breve, por ella se al- 
cancarao gravuras, que reproduzam economica e indefinida- 
mente as mais exactas imagens dos moniimentos, das paiza- 
gens, dos objectos mais preciosos d'arte. 

A descoberta da illuminacao a gaz e uma das mais pre- 
ciosas applicacoes dachimica aindustria doseculo XIX. Pe- 
lo gaz mudou a physionomia das cidades, as sombras da noi- 
te desappareceram dos grandes centros de populacao, e com 
ellas OS crimes , as violencias, as indecorosas manifestac(5es 
do vicio, que d'anles deshonravam mesmo as primeiras ca- 
pilaes do mundo. A luz , mais barata e ao mesmo tempo 
mais brilhante , entrou com profusao nas salas d'cspectacu- 
lo , nas fabricas grandiosas , e ao mesmo tempo foi alegrar 
c dar conforto a humilde officina do pobre operario. 

Um seculo, que se pode gloriar com estas e outras des- 
coberlas , um seculo , em que se pode escrever o Cosmos, 
monumento sublime levantado aos prodigies da sciencia mo- 
derna pela mao doillustre barao de Humbold, nao pode dei- 
xar de considerar a sciencia como a principal origem do seu 
poder, como a fonte d'pnde emanam em abundancia a civi- 
lisaciio , a moralidade , a riqueza e a felicidade dos povos. 
Propagar os conhecimentos scienlificos, fazer com que che- 
gue a todos a noticia das successi\as invencoes , que vao 
de dia para dia accrescenlando os thesouros da sciencia , e 
hoje um importantissimo service que em todas as nacocs es- 
tao fazendo as publicacoes scienlificas periodicas. Como a 
sciencia e um dos elementos essenciaes davida social, c pre- 
cise que ella se encontre nao so nos grandes tratados , que 
poucos podem compulsar, senao tambcm em publicacoes me- 
nos oslentosas e Iranscendentcs , que por todos possam ser 
coiisultadas com proveito. A marcha dos progresses do es- 
pirilo huniano 6 lao rapida, que mal podem acompanlial-a as 
grandes publicacoes didalicas ; isto lorna neccssarias aiuda 



as publicacocs iwriodicas, onde se vao successivamenlc con- 
signaiulo os faclos nolaveis que illuslreni e accresccnleni a 
sciencia. 

Estas foram as razoes que movcram as duas classes da 
Acadcmia Real das Sciencias de Lisboa a palrocinar uma 
publicacao scientilica periodica, onde se consignassem os re- 
sullados prmcipaes dos scus proprios trabalhos, e a exposi- 
cao de lodos os faclos nolaveis do muiido sclenlifico ; cum- 
prindo assim urn dos preceitos dos sous estatulos, e conlrl- 
buindo para se dcrramarcm no paiz os conhecimenlos uleis, 

A realisacao d'este nobre intento da Academia ha de ser 
empenho dos redaclores d'estes Annaes scientificos e lilte- 
rarios. A parte primeira d'estes Annaes, que se publica de- 
baixo dos auspicios da primeira classe, e exclusivamente des- 
tinada as sciencias matheinaticas , physicas , hislorico-natu- 
raes, e medicas, e as suas variadissimas applicacOes. Alcm 
da historia dos trabalhos da primeira classe da Academia, e 
do resumo das suas Memorias, contera outros trabalhos scien- 
titicos, e uma revista scientilica estrangeira. 

fim, a que esta publicacao se dedica, explica a pro- 
teccao com que a Academia se dignou honral-a. 



lO.lO DE AISDRADE CORVO. 



X)O(XX)O()C<)WO(>()C<X>0a^^ 



TU ABALHOS APRESENTADOS A ACADEMIA. 



NOTA 

SOJJRE A. liXlSTENGIA DE UM NOVO ACIDO GORDO ENCONTRADO NO 
SEBO DO BRINDAO. 



.r. Chevreuil, no estiulo monumental que fez sobre a 
composicao das matcrias gordas, abriu um campo vaslissi- 
mo para as investigacoes da sciencia e para as suas appli- 
cacoes industriaes. 

Ao descobrimento dos acidos niargarico e stearico, que 
sao hoje os productos usuaes, com que se fabricam as pre- 
ciosas velas stearicas, que tornaram lao commoda, elegante 
e economica a illuminacao interior dos edificios, seguiu-se 
do acido palmitico, que lem as mesmas applicacoes, e a 
de alguns outros acidos gordos menos abundanles, menos 
economicos, e de qualidadcs physicas menos utilisaveis no 
servico da illuminacao. 

A. grande e consideravel extensao, que a industria das 
velas stearicas leve n'cstes ultimos annos, a par de outras cau- 
sas, clevou extraordinariamenle o valor c o consummo das 
malerias primas que podcm fornccer os acidos gordos pro- 



2 ANNAliS 

prios para a illiiminacSo ; o que se pode apreciar pclo con- 
sideravel increinenlo que tevc o commercio do oleo de pal- 
ma, que no principio do seculo era insignificantc, eque hojc 
se eleva a niuitos niilhocs de toneladas. 

As gorduras animaes, que o commercio da Europa e da 
America trazcm ao mercado, sao ja insufiicienles para o fa- 
lirico do sabao, para a preparacao das velas, e para a lu- 
brificacao das machinas ; de sorte que todo o descobrimenlo 
Icndenfe a fornecer novos productos utilisaveis d'este genero 
(• por si mesmo um descobrimenlo importanle. 

Em 1853 eu e Mr. Bouis fizemos conhecer ao mundo 
industrial e scienlillco um producto novo em que exisle o 
acido palmilico, e que nao deve tardar a apparecer no mer- 
cado para concorrer vanlajosamente com o oleo de palma. 
Este producto e o sebo vegetal da mafurra, quepodc ser for- 
necido em larga escala pelas nossas possessoes da Africa 
oriental. commercio de Mocambique recebeu ja o anno 
passado a encommenda de 2:000 arrobas d'este novo pro- 
ducto. 

Hojc venho aprcsentar a Academia as primeiras investi- 
gacoes sobre outro producto analogo, lalvez mais precioso 
do que o primeiro, e ale agora desconheeido na Europa. E 
ainda um sebo vegetal extrabido da semente do brindao 
{brindonea indica) que cresce espontaneamente nas terras 
do districto de Goa 

sr. Rivara , secretario-geral do governo da India 
porlugueza, lendo nos jornaes da Europa a noticia que eu e 
Mr. Bouis demos a Academia das Sciencias de Paris da exis- 
tencia do acido palmitico no sebo da mafurra, e avaliando a 
imporlancia d'aquolle (icscobrinicnto, Icmbrou-se de me en- 
viar uma porcao das semcnles de que se extrahc o sebo do 
brindao, para que eu, esludando-as, podcsse reconhecer a 
sua naturcza c as applicacoes dc que fosse susccptivel. Aqui 
Ihc agradcco publicamenlc aquclla rcmessa que me foriieccu 



DAS SCIENCIAS E LETTRAS. d 

nova occasiiio de scr iilil ao nieu paiz o de Irabalhar no 
adiantamento das sciencias. 

Os botanicos conheciam ja o hrindoneiro da India — Du- 
Fetit Thouars descreveu esta planla com o nome de brindonia 
Imlica, collocando-a na familia das Guttiferas. — nosso 
celebre Garcia da Horta deu no sen livro das drogas da In- 
dia uma breve noticia do fructo d'aquella planta. 

brindoneiro cresce espontaneamenle nas terras de Goa, 
preferindo os iogares humidos, junto as correntes de agua. 
Os habitanlcs d'aquella provincia utilisam o fructo em di- 
versos empregos. Da casca fazem uma especie de carii, do 
succo, que e cor de sangue e acido, fazem uma limonada 
refrigerante ; e das sementes extrahem, por meio de agua 
quente e da pressao, um sebo vegetal que serve na prepara- 
cao dos alimentos, em usos medicinaes, e que ate os pobres 
cmpregam na illuminacao. 

meu estudo por emquanto tem-se limitado a semenle, 
que era a unica materia que tinha a minha disposicao, e of- 
ferece ella vastissimo campo para interessantes invesligacoes, 
de que irei successivamente dando conta a Academia. 

A sementc do brindao, depois de separada do seu epis- 
perme, tem quasi a forma e a grandeza de um feijao ordina- 
rio ; e convexa de um lado e concava do outro, a sua super- 
ficie e rugosa, e a sua cor vermelha-pardacenta e nao se di- 
vide em dois lobolos. peso medio do grao e de O^^jSiS. 
Este grao e duro e secco, como os do cafe ; o seu sabor e 
pouco pronunciado. 

No estado de seccura e endurecimento em que recebi es- 
tas sementes, nao cedem materia alguma pela simples pres- 
sao. Para Ihe extrahir a materia gorda e necessario que- 
brar as sementes, humedecei-as no vapor ou na agua quente 
e subjeital-as. a prensa. sebo, que no estado de fusao se 
aparta da agua carregada de materia extractiva, nunca fica 
tuo branco como o que vem direclaraente da India. 



As semcntcs, traladas pelo clhor no apparelho desloca- 
dor de circiilacao conlinua, deram-nic proxiinamente iU por 
ccnlo de maleria gorda, solida, consistcnie, e ligeiranienl(> 
amarcllada. 

Esta maleria funde a ^iO''. alcool dissolve d'ella uma 
peqiiena quanlidadc, falvez aquella que se acha acidificada 
cspontaneanicnle, como acontocc nas oulras materias gordas. 

A scmentc, exhausta de materia gorda pelo elher, seiido 
tratada pelo alccfol de 40°, forneceu tintura parda-esciira, 
Esta deixoii pela evaporaciio do alcool iim extracto da mes- 
ma cor, que em parte se dissoheu na agua fervente, fican- 
do insoluvel uma substancia resinosa vermelha. A solucao 
aquosa, scparada da rcsina, dcpositou pelo resfriamenlo uma 
porcao do materia tambem resinosa, conservando a materia 
extractiva escura e uma porcao notavel de assucar incrysta- 
lisavel. 

Determinando a quantidade de azote, contido na semente 
normal, achei 1,72 por 100, e no bagaco, ou residuo, que 
fica dcpois de separada a materia gorda pela agua e pela pres- 
Silo, achei 2,f)8 por 100 do mesmo principio. 

SEflO DO DRINDAO. 

Fiz a saponificacao d'este sebo pela soda, e obtivc urn 
sabao alvo c asselinado muito facil de lavar. Estc sabao tern 
a nola\cl propriedade de prender uma grandc porcao de agua, 
cujo pt^so pode ser ires vezes mais considcravcl do que o da 
materia gorda saponificada. 

sabao de soda foi decomposto pelo acido chlorhydri- 
co, que scparou os acidos gordos immcdiatamentc crystalisa- 
veis. Sendo cstes submettidos a prcnsa, scparei um acido li- 
quido cscuro e um acido solido branco c brilhantc como a 
madreperola. A quanlidadc d'esle acido solido e cgual a lii) 
por cento do sebo vegetal. 



])AS SCIENCIAS E LETTR\S. li 

acido solido foi purificado pclo alcool no qual crysla- 
lisou facilmenle em bellas escamas assetinadas, brilhantes, e 
nuiito Icves. Fundc a 74° e solidifica-sc a G9°. Tcm porcon- 
scguintc um ponto de fusao superior ao do acido slearico, 
que funde a 70°. 

Esla circumslancia desperlou-me logo a idea , de que o 
acido solido do sebo do brindao era uni acido desconheci- 
do, e passei a analysal-o. 

A media de muitas analyses deu-me os seguinles resulla- 
dos. 

Carbonio ■. 74,41 

Hydrogenio 12,64 

Oxygenio 12,9:) 

Que corresponde a formula 

Sendo a formula bruta, que representa a composicao do 
acido stearico, G^" H^^ 0% hoje adoptada por muitos chy- 
micos, differe d'ella e do novo acido em um equivalenle de 
agua. 

Para verificar os resullados da primeira analyse prepa- 
re! OS saes de prata, chumbo, potassa, baryta, e o ether 
d'este acido. 

As analyses dos Saes de prata e de chumbo e a do ether 
foram sufficientes para me confirmar na idea de que o aci- 
do solido, separado do sebo vegetal do brindao, era um aci- 
do inteiramente novo. 

Eis-aqui os resultados das minhas analyses : 

sal de prata, que foi preparado com as dissolucijes 
alcoolicas do acido e do azotato de prata, depois de muito 
lavado com o alcool c com a agua, e um sal branco, pulve- 
loilenlo e muito leve. 



ANNAES 

Rcduzitlo pela accao do calor deu 27 por 100 deprala. 
A sua analyse olcmcnlar doii o seguinle rosullado : 

Theoria 
Carboneo. ... 5'3,7o — Hi 
Hydrogenio. . . 8,96— }) 

Praia 27,00— 27 

10,29— 10 

{)w so (radiiz na scguinte formula : 

mesmo resultado c confirmado pclo calculo, pois que 
sendo 27 a quantidadc de prala contida em 100 de sal, c 
corrcspondendo a esla porciio de metal 29 de oxido de pra- 
la, leremos 

29 oxido de prata 

71 acido. 

100 

Sendo IIG o cquivalcnlc do oxido de prala, sera 284 o 
cquivalenlo do acido, mas aeste numero corrcspondem exa- 
clamente 36 equivalentes de carboneo, 86 de hydrogenio e 
4 de oxygenic, como so vc na seguinte dcmoiistracao : 

(G . . . . 36X6 = 216 

28i|n .... 36 36 

(0 . . 4X8= 32 

284 . 

Nao pode por conseguintc ficar a mcnor duvida de que 



DAS SCIENGI\S E LETTRAS. 7 

a composlcilo do sal de prata 6 tal como nos a rcprcsenla- 
mos na formula achada, e d'aqui se deduz que o novo aci- 
do L' monobazico e deve rcpresenlar-se pela formula 

Dar-lhe-hei o nome dc acido brindonico. 

A analyse do brindonato de chuinbo confirma ainda o 
que levo exposto. 

Estc brindonato foi preparado com as solucoes alcooli- 
cas do acido brindonico e do acetato de chumbo, e purifi- 
cado por lavagens com o alcool. 

A analyse d'esle producto deu 26,48 por 100 dc chum- 
bo. A esla quantidade de metal corrcspondem 28,5* do seu 
proloxido, logo o sal sera consliluido por 

2 8, J") de protoxido de chumbo 
71, J> de acido brindonico 



100,0 

Fazendo o calculo aciuimos que a composicao em cqui- 
valenlcs e de 

112 de PbO 

284 de C^'' H^*^ 0". 

Exactamente o mesmo que achamos no brindonato de 
prala. 

A analyse elemenlar confirmou ainda directamente estc 
resultado, porque me deu o seguinte : 

Carboneo 54,55 

Hydrogenio 9,03 

Chumbo 26,48 

Oxygenio 9,94 

Da qual se deduz a formula 

Toji. I.- MA«goi)E 1857.-1/ Classk. 2 



8 AN'NAES 

Ainda o clhcr briiulonico vciu corroborar a opiniao (iiic 
cu havia formado pclas analyses dos sacs do prala e cluiiiibo. 
Kis-aqui o resullado da analyse d'csle elher : 

Carboneo 7fi,63 

Hydrogeniu 12,81 

Oxygenio 11,56 

Da qual sc deduz a formula brula C'" W' ()■' on a for- 
mula racional 

C 11' 0, C' 11"^ ()'. 

J. M. d'oMM-IHA I'lMEMKL. 



DAS SrjENCIAS T. I.rTTRAS. 



A PUODUCCAO DO SULFATO DE SODA 

M) VOLtAO DA ILIIA DO FOCO XO ARCHIPELAGO DE L\m\m 



lienluima das nolicias scientificas, que so. lecm publicado 
sobrc a Ilha do Fogo, contom dociinicnlo algiini honi claro 
e aulhcntico da cxistcncia e formagao do sulfalo do soda cn- 
Irc OS productos das erupcoes volcanicas, que em epochas di- 
versas sc teem manifestado n'aquella ilha. Uma iinica mc- 
moria inedita do Joao da Silva Feijo, natiiralisla a quern, 
no fim do seculo passado, o govcrno incunibiu o esludo das 
ilhas dc Cabo-Verde, e na qual descrcvc a erupcilo que levc 
logar em 27 de Janeiro de 1785, menciona alguns produ- 
ctos, de cuja descripcao, exlremamentc succinia e incom- 
pleta, se podc suspeitar queja n'essa epocha o sulfate de so- 
da apparecia entre as malerias de origem volcanica. 

Confrontando a descripcao de alguns d'csscs productos 
(que elle oi)servara e recolhera na propria localidade, c diz 
haver remetlido para a colleccao do museu da Academia), 
com a apparencia e caracteres dasamoslras que ultimamenle 
recebi, encontro muitas analogias quo me fazem suspeilar a 
idcntidade das substancias apcsar da divcrsidade dos nomes. 
Examinando porein a colleccao dos productos mineraes do 
archipelago de Gabo-Verde, que a Academia possue, nao en- 

2* 



1 ANNAES 

c-onlrei ali aquclles a que Feijo so refcre na sua Memoria, 
nein cnlre elles doparci com o sulfato dc soda. 

Mr. Charles Saintc-Claire Dcvillc, distincto gcologo fran- 
cez, visitou em 1842 a ilha do Fogo, e na sua Yiagcm Geo- 
logica as Anlilhas, Tenerife, e ilha do Fogo, descrevc larga 
lucidamcntc as suas observacoes sobre o nosso \olcao ; po- 
I'oiu lao curia e rapida foi a sua visita, que ncm p(klc cn- 
Irar ua cralera, nem descer ao examc minucioso dc todos os 
produclos curiosos c inlcressantcs que necessariamcnle dc- 
vem tcr acompanhado as diversas crupcoes (raquelle vol- 
cao ; fora das considcracocs puramente geologicas d'aquella 
forniaeao volcanica cousa alguma se enconlra na sua Memo- 
ria que podcsse scrvir-me de guia. 

Nos ensaios sobre a slatislica das possessoes porlugue- 
zas do Ultramar, de Lopes de Lima, apenas se le, a pag. 30 
do 1.^ vol., que tmla dasilhas de Cabo-Verde, o seguinle: 
<( Ua na ilha (do Fogo), como fica dilo, muito enxofreepe- 
« (Ira pomes, e lambem sulfalo de soda, sal ammoniaco e 
« boas pedras de filtrar. » 

N'csta falla, quasi absolula, de indicacoes precisas, nao 
podcmos senao aventurar conjecluras mais ou menos plausi- 
veis, ate que observacoes ulleriores, feilas por homens com- 
petentes nos proprios logares, tragam luz sufficiente a uma 
questao, no meu entcnder, liio importante como c a da for- 
macao espontanea pela acli\idade das forcas naturaes, e em 
quanlidade exploravcl, de urn sal que nas artes chimicas 
rcprescnta funccOes dc primeira ordem debaixo do ponlo de 
visla induslrial. 

est u do, que fiz sobre as amostras, que me enviou o 
Conselho Ullramarino, nao me permilte duvidar da existen- 
cia do sulfalo de soda na ilha do Fogo como producto das 
rcc(!nlcs crupcoes. ofllcio do adminislrador, a que ja me 
rcfcri, diz que cslc sal provcm da cralera form ada pola cru- 
pcao, que leve logar cm 1847 ; porcm o cxame, que cu fiz 



DAS SCIENCIAS !• LlilTTRAS. If 

em 1838 sobrc a amoslra que cnlfio nic roinotleu o sr. vis- 
conde dc Sii, mostra claramente que ja nas erupcoes ante- 
riorcs a inesma substancia apparecera, e que por isso luio q 
um produclo privaiivo d'esta ultima crupcao. 

As amoslras mcncionadas com as N."' 1 e 2, no oflicia 
do adminislrador, sao ambas elks de sulfalo de soda 

produclo, que lem o N.° 1, existc na cratera foruia- 
da pcla erupcao da 1847 rcveslindo metadc do muro da mes- 
ma cralera, e acha-se tambem accumulado cm parte na sua 
base, como se d'elle se houvera destacado. E, como parece, 
uma verdadeira efflorescencia, que se manifesfa n'aquella for- 
macao volcanica. Este producto parece ser o que existe eiu 
maior quantidade, e o local em que elle se encontra 6 ac- 
cess! vel scm menor risco. 

producto N.° 2 foi colhido em uma pequena planicie, 
(juc existc no interior da cratcra, e apparcce em muito me- 
nos proporcao do que o priraeiro. 

Apresentarei em primeiro logar os resulfados da analyse 
chymica d'cstes dois produclos, e farei dej)ois algumas con- 
sidcracoes theoricas para explicar a sua formacao natural, 
c oulras dcbaixo do ponto de vista utilitario, para mostrar ;» 
conveniencia da sua exploracao, no caso de poder extrahir- 
se quantidade avultada que cntretenha um trabalho regular. 

EXAME CniMICO 1)0 PFxODUCTO N." 1. 

Este producto e uma substancia branca, ligciramcnte cu- 
ja, um pouco pulvcrulenta com apparencia salina, em crys- 
tacs extremamente miudos e desaggregados como os que re- 
sultam dos saes eiflorcscentes. sou sabor e salgado e amar- 
goso ; a agua dissolve-o quasi con^plctamente niesmo a tcm- 
peratura ordinaria, dcixando apenas um pequeno residuo (er- 
roso, correspondenle a 19 por 10,000 do peso da materia; 
a sua dissolucao mostra uma rcaccao iigeiramcnfc acida so- 



12 A.NN\i:S 

brc pnpol azul de lurncsol. Dissolvida a quculc, c fillraila 
a dissolucao, osla deposila polo ivsfrianionlo os cryslacs do 
sulfato de soda cm lao grando quanlidadc tpic o cryslalisa- 
dor sc cnchc complclamcnto d'clles. As aguas macs, dcpois 
de novanicnle concenlradas, dcposilam, ainda cotii alguns 
crystacs de sulfalo dc soda, os sacs cslranhos cii] niiudos 
cryslacs. 

Eis-aqui o rcsultado da analyse a quo a nialcria foi suji- 
nicllida rcduzido a partes cenlcsimaes : 

Sacs soliiveis J)0,8l 

Materia iiisoliivcl .... 0,1!) 
Amia 9,00 



100,00 

Gs sacs soluvcis produziram 

Acido siilfurico ')2,S6 

Chloro 0,4;> 

Alumiiia 1,07 

Cal 0,1 i 

Magnesia 2,15' 

Soda 30, 9G 

Polassa 4,58 



92,81 



Mostia esla analyse quo o produclo sc podc considcrar 
mil sulfalo dcsoda do lilulo de 71 por 100 de sulfalo puro, 
ou de 7i) [)or 100 comprehendcndo lainhcni coino materia 
mil sulfalo de polassa. 



DAS SGIENGIAS E LETTR.VS. 13 

KXAMK DO PRODUCTO N." 2. 

Eslc produclo 6 iima subslancia branca, cryslalina, em 
massas agf^lonieradas e exteriormente irregulares, mas po- 
deiulo facilmenlc dividir-se em peqiienos cryslacs transparen- 
les, incolores c perfeilamente limpidos, apresentando apcnas 
na superficie das massas o aspeclo dc um sal efflorescentc. 
sen sabor e evidcntemente o do siilfato de soda ; a sua 
reaccao 6 acida ; a agua dissolvc-a complclamcnte scm dei- 
xar residiio scnsivel. Submetlida a accao do fogo, esta sub- 
slancia ai)resenla primciramenle a fusao aquosa, c dcpois a 
fusao ignea. Sendo calcinada ao rubro, perde, pela accao do 
fogo, proximamcntc o8 por 100 do sou peso, e o residuo 
aprcscnla a seguinle composicao : 

Acido sulfurico o4,li 

Chloro 0,23 

Soda 12,20 

Polassa 0,32 



Fiz lambem a analyse da maleria normal scm a scccar 
nem calcinar, delerminando o acido sulfurico, o chloro e os 
alkalis dircclamenlc e a agua por dilTerenca ; o rcsullado 
d'esla analyse, reduzido a paries cenlcsimaes, foi o seguinle : 

Acido sulfurico 32, .jO 

Chloro 0,11 

Soda 13,7o 

Polassa 0,1 o 

Agua :.'3,'i5) 

100,00 



14 ANNAES 

A primcira d'eslas analyses mostra que a materia calci- 
iiada e o sulfalo de soda dc 96 por 100 de sulfalo puro, e 
a scgunda quo a materia, tal como sc encontra na cralera, 
e suifato hydratado, conlendo grandc excesso de acido, 
\islo que, para neulralisar os 13,75 de soda, se requerem 
apenas 17,80 de acido sulfurico, restando por conseguinle 
dos 32, oO, que pela analyse achei, 14,70 que conslilueni 
uma parte do sal no estado de bisulfalo, como aquclle que 
se obtem na preparacao do acido chlorhydrico, quando nas 
fabricas de productos chymicos se decompoe o sal mariuho 
pelo acido sulfurico em cylindros ou relortas. 

E notavel a differenca que existe entre o sal N." 2, co- 
Ihido na cratera, e o N." 1 efflorescente sobre a rocha que 
constitue o muro, ialvez exterior da mesma cralera. Mas es- 
ta differenca pode bem explicar-se suppondo que o sal N." 1, 
atravessando a rocha, em que existem a cal, a magnesia, e 
oxido de ferro para vir efilorescer na sua face externa, 
cedera aqucllas bases o excesso de acido que trazia. 

Reconhecida assim a existencia do suifato de soda quasi 
pure, entre os productos do volcao da. ilha do Fogo, seja- 
mc permittido aventurar algumas conjecturas para explicar 
a sua formacao. 

E bem sabido que o sulfalo de soda apparece em mui- 
tas localidades nao so dissolvido nas aguas, principalmente 
n'aquellas que conleem o chlorurelo de sodio, mas tambem 
elllorcscenle sobre os terrenes ou sobre as rochas. Charles 
de Gimbcrnal cncontrou-o nas galerias pralicadas em um 
banco de gesso perto dc Muhlingen no cantao d'Argovia na 
Suissa, cstando os cryslaes d'este sal associados aos do sul- 
fate de cal , e nao em betas ou bancos intercalados com os 
do gesso, mostrando por isso serem os dois sacs de forma- 
cao contemporanea, e havcrem sido depostos no meio da dis- 
solucao cm (jue ambos simultancamenle se achavam. Caza- 



DAS SCIEiNCIAS E LETTRAS. i'i 

scca enconli'ou lambem o sulfalo de soda em cryslacs anhydros 
perlo de Aranguez em Hespanha nas salinas dc Esparlines. 

Niio ha muilo tempo que foram descoberlos jazigos im- 
porlanles de sulfalo de soda no Valle do Ebro, nos conlins 
da Navarra e de Caslella-Velha, principalmenle perlo de Lo- 
dosa, c hoje e ja este sal explorado em Alcanadia e Ando- 
zilha. Porem n'eslas e em oulras circumstancias, em que o 
sulfalo de soda se tern encontrado, a sua formacao parecc 
ser devida a reaccoes pela via humida. Klaproth allribuia a 
exislencia do sulfalo de soda nas aguas mineraes e na de al- 
guns lagos da Auslria, da Hungria e da Siberia, a decom- 
posicao do chlorurelo de sodio pelo acido sulfurico emana- 
do do interior da terra e provenienle da decomposicao das 
pyrites ou da combuslao do enxofre. Berselius reproduziu 
esta mesma hypothese nas suas interessantes observacoes so- 
bre as aguas de Carlsbad. 

Ate agora nao temos visto mencionado o apparecimenlo 
notavcl e preponderante de sulfalo de soda nos terrenos de 
origem ignea, nem mesmo enlre os produclos das erupcoes 
volcanicas. abbade Monticelli, na sua monographia das es- 
pecies volcanicas do Vesuvio, diz que o sulfalo dc soda se 
nao lem ale agora encontrado isolado, nem em proporcao 
predominantc, nos produclos salinos do Vesuvio. ^ Assim a 
sua apparicao em quantidade consideravcl, e quasi no csla- 
do de pureza enlre os produclos do volcao da ilha do Fo- 
go, e urn facto novo para a sciencia e digno a muilos res- 
peitos da altencao dos sabios. Explicar as condicOes prova- 
veis da sua formacao nao me parece coisa muilo diflicil, nem 
e necessario recorrer a hypotheses que as circumstancias lo- 
caes nao possam justificar. 

' Soda solfala. — Noo si e Irovala finora isolata, o almcno in 
proporzioDc predominantc nc mescugli saline del A^esiivio. E' per lo 
piu mcscolala con imuriali c solfali dc soda e di polassa. 



1 6 ANAAES 

Eni muilas das ilhas do Archipelago dc Cabo-Vcrdc ap- 
f)areccin claros indicios da exislcncia dc iiin ^randc deposi- 
to dc sal gemma, que sc manifcsia principalmcntc pclas fon- 
les Salinas das ilhas dc Maio, Boa-Vista e do Sal. Apesar 
dc nao ha^er um esliido completo da geologia do Archipe- 
lago dc Cabo-Vcrdc, pode lalvcz suppor-se, scm grandc tc- 
iiicridadc, que csla formacilo do sal gemma se estendc por 
debaixo da ilha do Fogo, onde tem sido atravessada nas di- 
vcrsas cpochas pelas erupcoes das malerias abrasadas, que 
constiluiram aquella formacao volcanica. N'estas circumslan- 
cias enxofre, que, ardendo, sc converlc em acido sulfuri- 
co em presenca do oxygcnio c da agua, pode converter o 
sal niarinho em sulfalo dc soda, c este, arrastado pelos va- 
porcs aquosos, vem apparccer na cratera, ou atravcssa as ro- 
chas para edlorcscer a superficie. 

E esta uma hypothcse que offercco a consideracao dos 
geologos para explicar a origcm do sulfalo de soda na cra- 
tera do volcao da ilha do Fogo ; hypothese concebida longe 
dos logares em que o phenomeno se manifesta, e desprovida 
da obscrvacao rigorosa dos factos que a podiani auctorisar. 
Assim nao a quero dar seniio pelo que ella vale, e cspero 
que observacoes nlteriores a confirmem ou corrijam, porque 
a verdade esta nas coisas e nao nas opinides. Todo o cffcito 
tem a sua causa, e quanto mais uotavel aquellc c, tanlo 
maior c mais impaciente se mostra a nossa curiosidade cm 
dcscobrir-lhc uma explicacao que esteja em harmonia com 
OS principios do que nos chamamos scicncia. Esta e a mi- 
nha desculpa. 

Do interior da mcsma cratera, formada pela crupciTo dc 
1817, sc exlrahiu outra substancia salina que veio com o 
N." 3, que se encontra misturada com fragraentos do enxo- 
fre, c repousa sobre uma camada de cinzas volcanicas, que 
n'a(|uellc logar pareccm ainda cstar nocstado pastoso, eain- 
da qucntcs, c que pelo resfriamento cndureccm scm se aglu- 



DVS SCIENCIAS K LETTUAS. 17 

Unarcm considcravelmenle, o que mc induz a acrodilar quo 
esse aniollecimcnto e devido a penctracao dos vapores da 
agua e niio a um estado de semifusiio. 

A materia salina N." 3 tern um sabor styplico como o 
do sulfate de ferro , apresenta uma reaccao muito acida , e 
e soluvcl em grande parte na agua mesmo a tcmperatura or- 
dinaria. Aquccida sofre a fusao aquosa , emitte os vapores 
do acido sulfurico e os do enxofre, que se sublima e p(klc 
recolher-se convenienlemente. A dissolucao d'csta subslan- 
da, sendo concentrada, deposila os cryslacs de sulfato de cal, 
entrc os quaes se nolam alguns, em pequcna quantidade, que 
sao evidentemenle de alumen, Os ensaios qualitativos feilos 
sobre esta materia mostraram simplesmente a existencia do 
acido sulfurico e do ferro em grande quantidade, da alumi- 
na, da cal, da soda e vestigios da magnesia. 

A analyse quantitativa deu-me os segulntes resultados, 
referidos a 100 partes : 

rsoluvel noHCl. 3,72"^ 
Kesiduo insohivel na agua? insoluvel noIICl ^<j'^'2? 5*,n() 

(.Enxofre . . . . 1,72) 

Acido sulfurico 31), '2.') \ 

Alumina 3,25' J 

Proloxido de ferro '3,'jO ( ^^ ^ ,^, 

Lai e magnesia 2,001 

Soda 9,75' 

Agua e pcrdas 22,20/ 



100,00 

Esta mistura de sulfatos nao oft'erece grande interesse, c 
por isso nos abstemos por emquanlo de fazer a seu respei- 
to mais amplas consideracoes. 

Nuo diremos o mcsrao do sulfato de soda, que se pode 



18 ANNAES 

tornar urn objccto do importante cxplora^'fio, se sc verilicar 
que a quanlidadc em que ellc existc e consideravel, ou que 
pelo trabalho das forcas subtcrrancas successhamcnle so pro- 
duz, para vir apparecer ellloresccnle a Iraves das rochas que 
formain a cralera do volcao. 

Dcpois que Leblanc crcou o processo, justamentc cele- 
bre, para a fabricacao do carboualo de soda arlilicial, a pro- 
duccao do sulfato d'esta base, materia prima d'aquelle pro- 
cesso, ficou scndo uma das operacoes de maior imporlancia 
na chimica industrial. 

E decompondo o sal marinho pelo acido sulfurico que 
cste sulfato se obtem ; mas esla decomposicao, na grande es- 
cala era que a requcr a fabricacao da soda, eacompanbada 
de inconvenientes que difiicultosamente se vencem, quando 
se nao seguem rigorosamente as boas praticas que a scien- 
cia tem ultimamenle aconselbado. Eslcs inconvenicntes nas- 
cem principalmcnte do desinvolvimento do acido chlorhydri- 
co, cuja condensacao e dispendiosa edifiicil, e requer appa- 
relhos complicados, sempre sujeitos a deterioracao em um 
trabalho permanenle e que tem por fim reproduzir grandes 
massas de sulfato de soda. Por eslas razocs as fabricas de 
productos chimicos , em que sc pralica o processo de Le- 
blanc, nao sao toleradas nas visinhancas das povoacoes, e 
ate sao malquislas nos campos em que florece a agricullu- 
ra, porque, quando se deixa perder o acido chlorydrico que 
se escapa dos apparelhos, inipregna-se a atmosphera com os 
vaporcs corrosives d'aquelle acido, e as planlas, que elle 
banha, dcfinham e acabam por morrer. 

Oulro inconvenientc, que acompanha tambem a fabrica- 
cao artificial do sulfato de soda, provem da necessidado de 
produzir quantidades enormes dc acido sulfurico, que deman- 
dam a construccao de apparelhos colossacs, e conserva tri- 
butarios da Sicilia, pelo enxofre, os fabricanles de quasi to- 
dos OS paizes industriaes da Europa. 



DAS SCIENGIAS E LETTRA.S. 19 

Todas eslas condicoes, desfavoraveis d produccao artifi- 
cial do sulfalo de soda, desperlaram desde longo tempo no 
animo de alguns chimicos o desejo de haver aquelle sal per 
meio de processos mais commodos c que nao fossem acom- 
panhados dos mesraos inconvenientes. Mr. Balard tentou ex- 
trahil-o das agiias do mar, onde elle nao existe formado, 
mas que encerram tudo quanto e necessario para o produ- 
zir , e ja creou , e poz em pratica industrial um trabalho 
mclhodico de exploracao das marinhas, que fornece quanti- 
dades avultadas de sulfato de soda cryslalisado, e cujos re- 
sultados tendem a generalisar-se. Este trabalho requer con- 
dicoes especiaes de temperatura, e, mais que tudo, boa e in- 
telligente direccao na applicacao das regras, o que obsta ate 
certo ponto a sua geral adopcilo por todos os possuidores de 
marinhas, que, na maior parte dos casos, e principalmenle 
no nosso paiz, nao se acham habilitados para comprehender 
nem os processos novos nem as suas vanlagens, c que por 
indolencia propria vivem aferrados as velhas rotinas, com 
uma conslancia digna de melhor causa. 

sr. D. Ramon de Luna , joven professor de chimica 
em Madrid, tenta pela sua parte aproveitar o sulfato de ma- 
gnesia, de que ha grandes depositos na nossa Peninsula, pa- 
ra substituir ao acido sulfurico, decompondo por meio d'el- 
le sal marinho em presenca de uma temperatura elevada, 
c obter assim por modico preco o sulfato de soda. 

Por mais felizes e bem combinadas que sejam eslas e ou- 
tras tentativas tendentes todas ao mesmo fim, nunca ellas 
poderao luclar com a produccao natural do sulfato de soda 
fabricado pelas forcas gigantes que no interior da terra pro- 
movem as reaccoes mais poderosas, de que nascem ao mes- 
mo tempo as rochas igneas que endurecem a superficie da 
terra, e os saes que a agua dissolve. 

A produccao do sulfato de soda do volcao da ilha do Fo- 
go pode bem comparar-se ao trabalho de uni gigantesco for- 



\]i) do siilfalo alimmlado o govcrnado pela podorosa mfio (k^ 
(Ircador para facilitar aos homcns a materia prcciosa com 
que cllcs devcm fabricar laiUas coisas iilcis o tanlos prodi- 
gies d'artc. 

Sc a existcncia ou formacao successiva d'esle sal se rca- 
lisa em grande quantidade no volcao da ilha do Fogo, o 
que muilo bem podc aconlecer, sera esse, nao so um facio 
novo para a sciencia, mas Uimbeni uma origcm do forluna 
para os, ale aqui deploraveis, habitantes d'aquelia ilha, um 
gi-andc alimcnlo para o commcrcio dc Cabo-Yerde, um po- 
dernso recurso para a nossa induslria chimica, e para mim 
uma grande salisfaciio em haver concorrido para o fazer co- 
nhocido da Academia e do men paiz. 

Lisboa '20 de Marco de 185(5. 

.1. M. Di: OLivr.mv pimi:ntel. 



D\s sciKNCiAS i: li;ttras, il 



ARTSGOS E ^OTiCIAS SCSE^TIFICAS. 



NOTICIA ZOOLOGICA 

SOBRE A CABUA-MONTEZ DV SEKRA DO GEREZ. 



A exploraciio scienlifica de paizes remolissimos, tenlada por 
um sublime esforco de coragem, de amor pela sciencia, de 
abnegacao individual, e realisada sompre a custa de iiiaudi- 
tos sacrificios de toda a especie, pode dizer-se a muilos res- 
peitos mais adianlada do que a de varias rcgioes situadas 
em muito maior proximidade, e ate mesmo no coracao do 
mundo civilisado. 

Nao sao difficeis de perceber as causas principaes d'este 
contracenso apparente : arroslando com as fadigas d'uma via- 
gem exlensissima e os perigos d'um clima morlifero, pondo a 
vida a merce das hordas barbaras de selvagens inhospitos, 
abandonando, talvez para sempre e na quadra mais \icosa 
da existencia, a patria e a familia, cede o naturalisla a im- 
pulses irresistiveis, ao amor da sciencia, a nobre ambicao 
de deixar um nome que viva eternamente na posteridade, e 
ate ao proprio atlractivo das difficuldades e dos perigos. De 
mais, se conscgue triumphar de tantos obstaculos, a recom- 
pensa, como elle a deseja pcio menos, e sempre segura. 



Estudar porein as produccOcs naturaos d'um paiz ondc 
a seguranoa individual c geralmente manlida, siluado a pou- 
cos dias do viai:;cni, c que lanlos outros, de aninio nienos 
avenluroso, podonio visilar, e cmprcza que por niuilo niais 
facil nao deve por forma alguma lentar quern cnconlra em 
si doles dc inlelligencia e de coracao para muilo maiores 
commellimcntos. 

Nfio deve pois causar-nos admiracao que ate os eslran- 
geiros saibam tao pouco do nosso paiz. De nos nao fallarei : 
as sciencias naturaes, c cm especial a zoologia, temol-as li- 
do semprc em religiosa quarentena ; e, se a occasiao me pa- 
rccesse opportuna, poderia fallar bem largamente dos emba- 
racos que cosUimam mover a quem se da a lacs esludos, os 
que mais valioso auxilio Ihe deveriam preslar. Console-nos 
ao mcnos a csperanca de que algum dia se nao podera dizer, 
com verdade, dos homens de sciencia, o que dizia dos poc- 
tas nosso immortal Camoes — que para elles em Portugal 

«Foi semprc um hospital o Capitolio. » 

Tenlar dentro dos limiles, infclizmcntc acanhados, de 
minlias forcas a cxploracao zoologica do nosso paiz, Icm si- 
do, n'estcs ullimos tempos, posso dizcl-o, a principal prcoc- 
eupacao do mcu espirilo. Sinlo, e cada vez mais, a necessi- 
dade de que alguem comece a invesligar o que por ca exis- 
le, que nos vamos pouco a pouco lavando da deshonra que 
pesa sobre nos, de apenas conhecermos das nossas coisas o 
que nos dizcm os estrangeiros. Pouco poderei fazer, sei-o 
pcrfeilamcnte ; mas conseguirei lalvez, abrindo o exemplo, que 
outros facam mais e melhor : reslar-me-ha so a gloria de 
haver feito o chamamento ; e essa e remuncracao sobeja dos 
esforcos que houver cmpregado. 

Comecarei \\o\v pnr descrevcr a cabra-montez que vive 



DAS SCIENCIAS E LETTRAS. 23 

em Portugal na scrra do Gerez, c que so n'esta serra se tern 
cnconlrado ; da sua apparicuo em outra qualqucr das nos- 
sas monlanhas ncm ha nolicia nem tradicao, antes rccebi in- 
formacoes unanimes de que e animal inteiramente desconhe- 
cido po nosso paiz, com cxccpcao unica d'aquelle ponlo da 
nossa provincia do Minho. 

D'esta especie existiam noticias, e noticias muito anti- 
gas, dadas ja por escriptores nacionaes, que n'ella fallaram 
incidentalmente ao tratar de outras coisas do Minho, ja por 
estrangeiros, e entre esfes, especialmente por Link e HofF- 
manseg, naturalistas alemaes de inquestionavel merito, a 
quern se deve muito do que hoje se sabe da Flora e Fauna 
portuguezas. Acontece porem que nem os auctores nacionaes 
(estranhos a zoologia quasi todos, e meros compiladores de 
Link OS mais modernos) nem os estrangeiros nos deram no- 
eoes exaclas da interessante especie em que fallaram sem- 
pre mais ou menos concisamente. 

Pedindo venia para aqui fazer uma rapida enumeraciio 
bibliographica, citarei como tendo-nos dcixado documento 
escripto da existencia da cabra-montez no Minho, os ^ se- 
guinles : 

P. Carvalho da Costa — Corographia Porlugueza — I. 
p. 139. 

P. Rebello da Costa — Descrip. topograph, c historica 
do Porto. 

P. Nascimento Silveira — Mapp. brev. da Lusit. ant. e 
Gallis. Brae. L p. 15'. 

Argole — De Antiquit. Convent. Brae, august. L.I). C. 
4 — n. 4. 

Fr. Joao de Jesus Maria — Pharmacop. dogm. IL 'i'd. 

' Dcvo a indicacao dos auctores nacionaes, que em tempos an- 
ligos citaram a existencia da cabra-montez nasserras do Gerez, ao 
meu antigo condiscipulo na universidade o sr. Pereira Caldas. 
Tom. T.-Marto dk 1S57.-1.' Cias^e. 3 



24 \XN\F.S 

Fr. rjirisl. dos Hcis — licflox. expor. nielhodico-bolani- 
cas— I'l'i. 

I),. (;„j;|;, — Topof!;rapliia niedica do disliiclo do Braga. 
Link I'l HolTiiiaiiseiig — Voyages en Portugal. 
Dr. liebello de Carvalho — Nolic. do Gerez c das.suas 
aguas Ihorniaos. 

jN'uma Mcnioria, que live a honra do aprcsenlar a 1.' 
classe da Academia Real das Sciencias, e a salisfacao de ver 
adiniltida para a colleccao das Memorias da nossa prinieira 
corporacao scientifica, dei a caracteristica d'esla especic, fun- 
dada no exanie de cinco individuos, qualro fcmeas dc varias 
edades c um macho de quatro annos, lodos offerecidos ao 
museu dc Lisboa e a eschola polylechina por ElRci o Sr. 
1). Pedro V; Rei-naluralisla, que, assenlando ascicncia no 
Ihrono, nos deixa esperar para a terra em que nascemos um 
futuro de rehabilitaciio scientifica. N'esta noticia tracarei a 
descripcao da cabra do Gerez, fundando-me em observacoes. 
mais complelas ; porquc no museu de Coimbra , onde re- 
ccntementc me Iransportei, pude enconlrar individuos dos 
dois sexos e perfeitamente adultos, capturados em diversa 
estacao ; cujo exame veio corroborar a minha anterior des- 
cripcao e completal-a, confirmando umaboa parte do que so 
conjecturalmente podia entao affirmar. 

As dimensoes do macho perfeitamente adulto do museu dc 
Coimbra sao : 

Da cxtrcmidade do focinho a da cauda 168 centimetros, 
altura da cernelha 76 cenlim., altura a garupa 81 cenlim. 
corpo d'este animal e esvelto e ao mesmo tempo ro- 
busto ; OS membros sao desinvolvidos e fortes ; a cabcca, de 
mediana grandeza, apresenta uma convexidade bem apparcnle 
na sua face anterior, logo por diante dos chifrcs, e vac es- 
treitando successivamente ate a ponta do focinho. 

Os cxemplarcs do museu dc Coimbra foram capturados 
no oulomno de 18o2, o do macho mais no fim d'esta csta- 



DAS SCIKNGIAS E LKTinAS. 2/) 

cao que o da femea ; eslao portanto ambos, mas o primciro 
mais que a segunda, com a pcllagcm do inverno. 

A cor dominante em ambos c um pardo Unto de ruivo 
claro com certa mcscla pouco distincta dc acinzentado ; tal e 
a cor do tronco superiormente, das taboas do pescoco e fa- 
ce externa dos membros. 

No macho a regiao frontal, a nuca c a face anterior dos 
quatro membros, sac negras, mas na face superior da cabe- 
ca apparecem muitos pellos cinzentos esbranquicados de mis- 
lura com os negros, que preponderam. Sobre a ponta da 
espadua nota-se uma grande malha negra quasi rcdonda, 
que se reune a do lado opposto por meio de uma especie de 
cruz da mcsma cor, siluada sobre a parte inferior e media do 
peitoril, e inferiormente continua-se com a cor negra da fa- 
ce anterior das maos, que vem morrer n'ella. Em toda a li- 
nha dorsal ale a extremidade da cauda reina uma risca lar- 
ga e bcm distincta da mesma cor ; uma igual risca se pro- 
longa horisontalmente da face anterior dos pes pelo ventre 
ate proximamenle ao meio d'esta regiao. 

No bordo dorsal do pescoco exisle uma crina bem ap- 
parente, erecla, e de cor acinzentada, mas apresentanda de 
cspaco era espaco porcoes largas formadas unicamente de 
pellos negros. E de suppor que de inverno, quando a muda 
se houver completado, a crina se torne inteiramente ne- 
gra. 

Todo ventre, a conlar laleralmente dos limifes Iraca- 
dos pelas riscas negras horisontaes, o bordo inferior do pes- 
coco, peitoril, a face interna dos membros, a extremidade 
do focinho e face inferior da cabcca, finalmcnte uma malha 
situada de cada lado da cabcca por dianle e por baixo da 
orelha, sao d'uma cor amarellada, com pequenos cambian- 
les no tronco, n'umas partes para mais claro, n'outras para 
mais carregado. 

macho, e so o macho, Icm barba ; esta mcde 10 cen- 

3* 



liinolios iiproximatlamonlc , c c quasi ncgra mcsclada ligoi- 
ranionlc do ciiizcnlo. 

Os cornus do macho, do forma triangular na base c cn- 
siformes na ponta, dirigem-sc para cima, inclinam-so dopois 
para traz e para fora, e no sou lerco terminal curvam-se di- 
rcclamcnle um para o outro : arrcmcdam assim com muita 
pcrfciciio a figura d'uma milra. Pelos scus bordos internos 
ficam perfeitamcnlc contiguos na base. 

A direccao dos cornos. resulla d'um movimento dc tor- 
sao que clles experimentam logo ao partir da base, c que 
tern logar de dentro para fora. — Assim das Ires faces que 
se Ihe notam bem distinctas na porcao inferior — unia e in- 
terna inferiormente, depois successivamenie se torna anterior 
e conlinua-se direclamente com a face anterior da porcao en- 
siforme ; outra face anterior na base, passa gradualmente a 
scr externa e vae morrer no bordo exterior da porcao ensi- 
forme ; fmalmente, a terceira face e primeiro posterior, e de- 
pois desdobra-se em face posterior e bordo interno da ultima 
porcao do corno. Dos tres bordos, dois sao bem salientes, 
— que separa a face interna — anterior da face anterior 
externa, e o que esta nos limites da primcira d'estas e da 
face posterior; esta ultima apresenla em toda a sua conti- 
guidade com a face posterior um sulco profundo muito ca- 
racteristico. E pelo contrario muito obtuso o tcrcciro bordo, 
qual fica siluado entre a face externa c a face posterior. 

As dimensoes dos appendices frontaes do macho no exem- 
plar do museu de Coimbra sao : 

Comprimento 49 centim. 

Allura 43 » 

A porciio ensiformc mede um pouco mais de 1'2 ccnli- 
melros. 



DAS SCIENCIAS li LETTRAS. 27 

Na porciio triangular os cornos nao aprcscnlam verda- 
dciros borddeks ou anncis, mas uiiicamcnte sulcos Iransvcr- 
saes irregiilarmcnle espacados e profiindos, os quaes recor- 
lani OS bordos e lornam sinietricamente accideutadas as fa- 
ces. Na ultima porcao as faces e bordos sao lisas. 

A femea 6 mais pequena que o macho. No exemplar do 
Goimbraachei — 137 centim. de comprimeiito total, 05 cen- 
tim. de altura a cernellia e 70 centim. a garupa. A cor ge- 
ral d'esta nas partes superiorcs c inferiores e analoga intei- 
ramentc a do macho ; differc por^m em que a risca negra 
dorsal e menos pronunciada, em que nao mostra as riscas 
horisontaes, e em que as malhas negras sobre a ponla da es- 
padua sao pequenas e pouco distinctas. Como este exemplar 
foi capturado, antes do do macho, no principio dooutomno, 
creio-me auctorisado para suppor que eslas diiferencas sao 
apenas o resultado do diverso periodo da muda nos dois 
exemplares. Completa a muda, os sexos nao devem apresen- 
tar ditferenca notavel na cor. Em que porem sc distingue 
perfeitamente a femea do macho e na ausencia da crina c 
da barba, e no tamanho, direccao e forma dos cornos. Ef- 
fectivamente estes appendices na femea mais adulta que po- 
demos examinar, modem apenas 18 centim. de comprimen- 
to e cerca do 10 centim. de circumfercncia na base ; diri- 
gcm-se para cima, e mui brandamente para traz'e para fo- 
ra ate pequena distancia da ponta, d'onde passam a inclinar- 
se para dentro; finalmente, saosub-triangulares, sem bordo 
algum saliente neni faces bem distinctas, em toda a porcao 
divergente, e no quarto terminal niostram-se comprimidos 
lateralmente. Por quasi toda a e\tensao do corno se notam 
sulcos transversaes completes, mais supcrliciaes e menos si- 
luiosos que nos cornos do macho. 

A pellagem de veriio dos dois sexos distingue-sc da quo 
havemos descriplo, pela ausencia de riscas negras dorsal c 
lateracs, c do malhas negras sobrc as espaduas c peitoril, 



*8 ANNVF.S 

polo lom mais vivo da cor riiiva no corpo c incmbros, e po- 
la cor uniformc cinzcnla da crina (no macho). 

Concluida a dcscripcao da cabra do Gcrez, cabc aqui 
indagar qual e o logar que Ihe compete na Fauna da Eu- 
ropa. Confundir-se-ha ella, por seus caracteres, comalguma 
especie anteriormenle conhecida, ou devera conceder-se-lho 
foro de especie nova? 

Se podesscmos acccitar hoje a opiniiio de Link e Iloff- 
manseg a lal respeilo, de siestava aquestao resolvida. Para 
elles a cabra do Gerez e, neni mais nem menos, do que o iEga- 
grus. — Sem me delcr agora a disculir esla opiniao, hojo 
perfeilamento insustenlavel, dcvo comludo notarque, na epo- 
cha em que ella foi apresentada, nem a diagnose das espe- 
cies zoologicas era feita com o rigor que hoje sc exige, nem 
podia surprender uma assercao que enconlrava por si a 
crenca, geralmenle partilhada pelos zoologistas, de que a espe- 
cie das regiocs mais inferiores do Caucaso devia encontrar- 
se em varias cadeias de montanhas da Europa. 

que e sem duvida muilo para estranhar e que nas pou- 
cas linhas, em que esles auctores nos deixaram urn esboco 
descriplivo da cabra do Gerez, se encontre, por exemplo, que 
a femea nao lem cornos ! A razao d'um similhante erro seria 
para mim absolulamente inexplicavel, se nao tivesse por assen-^ 
tado que a confianca em informacoes de pessoas incompe- 
tcntes, com que se procura supprir muila vez a falta de ob- 
servacSes proprias, c a causa principal dos crros que sc teem 
propalado na zoologia descriptiva. 

Nao se pode considerar a cabra do Gerez especificamcn- 
tc idenlica nem a cabra dos Alpes nem a dos Pyrcnous : 
conhecendo-se a caracteristica d'estas especics, nao se hesi- 
tara um instantc em tirar csta conclusao. Ila porem ainda 
lima lerceira especie curopca, descoberla por Schimper na 
Sierra neimda da Andaluzia, c (|uc se teni verilioado exislir 
em muilas outras montanhas do rcino visinho, laes como 



DAS SCIENGIAS E Ll^TTUAS. 29 

Sierra de Greda e Sierra de Francia ; e csla, a C. hispa- 
nica de Schimper, 6 effcclivamenle ideiilica a nossa cabra du 
Gerez. 

No trabalho mais desinvolvido, que sobre esle mesmo as- 
sumpto havia apresentado a Academia das ScLsncias, mos- 
trei-me mais inclinado a que a cabra do Gerez sc distinguis- 
se, como especie, mesmo daC. hispauica. Esta opiniao, pii- 
ramente conjectural, nascera de nao achar iiidicadas iia uui- 
ca dcscripcao, que coiihecia, d'esla ultima espocie, varios ca- 
racteres que a cabra do Portugal me apresentava, eque, por 
Ihe serem peculiarcs e importantes, me parecia que se deve- 
riam tomar em consideracao, semprc que sc Iratasse de des- 
crever esle animal ; embora a descripcao devesse ser rcsu- 
mida, embora fosse Iracada simplesmeiitc sob o ponto de vis- 
ta de a discriminar da G. ibex e da C. pyrenaica. 

Felizmente nas sciencias de observacao os factos teem a 
prceminencia sobre o syllogismo, c as conjccluras, por mc- 
Ibores que sejam as razoescm que secsleiem, nao tcm cur- 
so iivre na sciencia, antes de reccberem confirmacao aulhcn- 
tica que as legitime. Urgia, porlanto, ouexlreinar como es- 
pecies distinctas a cabra do Gerez c a G. hispanica, ou con- 
fundil-as n'uma so especie ; e inhibido de resolver de prom- 
pto e por mini so a questao, nao hesitei em recorrer a au- 
\ilio eslranho. 

dislinclo zoologista de Hespanha, D. Marianno de la 
Paz Graelles, e o illustre conservador do muscu de Stras- 
bourg, Mr. Schimper, foram consuUados sobre cstc objeclo, 
liveram presentes todos os documenlos do proccsso, e pres- 
laram-se ambos a pronunciar o julgamcnlo com a bene\o- 
lencia que para todos os objectos de sciencia se cncontra 
sempre nos que sao deveras cuitores d'ella. Foram unani- 
mes cm decidir, ({ue a cabra do Gerez e a capra hispanica 
sao uma c a mesnia especie ; e esta e lambem a opiniao que 
nao duvido hoje manifeslar francamcnlc. 



30 AISNAES 

A cabra do Gcrcz quadra perfeilamcnte a caracterislica 
dc C. hispanica , que so pode ler na monographia de gen. 
Ibex do Sehinip. ' ; a omissao dc caraclercs imporlantes con- 
signados na minha descripciio, depois das explicacoes que 
oblivcnios dos dois citados zoologislas, nao tem a significa- 
cao que a principio nos inclinavamos a dar-lhe. 

So a cabra do Gerez nao ^ uma especie distincliva e pe- 
culiar do nosso paiz, a sua apparicao em Portugal unica- 
menle n'essas montanhas, em quanlo que no reino visinho 
vivo dessiniinada por todo elle em varias serras ^ do sou aci- 
denlado tcrritorio, parece constituir um facto assaz curioso 
de geographia zoologica. 

Na serra do Gerez e nos sitios mais escarpados d'ella c 
que sc encontra pois a nossa cabra : os morros e quebradas 
do Rio do Ilomem, Cantarello, Rio de Gambeiro, Portas- 
ruivas e Borrageiro , sao os pontos em que mais costuma 
apparccer este animal, mostrando-se de ordinario em reba- 

* Eis a diagnose da C. hispanica por Schimp. : 
<(C. majinitudine caprae syriacae : Yellere estate brevipili, coda- 
rio nuUo, dorso laleribusque fulvesccnte fuscis, fascia lalerali ob- 
scurius fusca ; ventre et artibus inlernis sordide albis, capite corpo- 
li pellidiorc, macula alba postauriculari ; occipite macula nigra in 
striam dorsalem nigram Iransientem ; cauda brevi , flocco apicali 
nigerrimo ; barba maris brevissima nigra, femina? nulla ; pedum pars 
anteriors nilide nigra. Cornubus maris magnis, crassis, basi trian- 
gularibus carinatis, nodosis, semispiralibus. » 
« Femina minor, cornubus parvis, compressis. » 
^ As localidadcs, onde o sr. Graclls me diz haver encontradocm 
llespanha a C. hispante, sao, alem das montanhas da Andaluzia, on- 
de primeiro a encontrou Schimper, as serras de Greda, de Gala e 
dc Francia ; adirma cste sabio zoologista que se achara em outras 
do seu i)aiz, e presume que no nosso devera ser tambem cncontra- 
da pelo menos na Serra da Eslrclla. Ale agora tudo me leva a crcr 
que nao cxiste n'esta ultima , nem em ncnhuma outra das nossas 
montanhas, alem da serra do Gerez. 



DAS SCIENCIAS E LETTRAS. .'U 

nhos mais ou menos nuinerosos, as leuieas com as crias c 
ainda os machos novos, em quanto que o macho adulto cos- 
tuma viver isolado, na estacao da caca pelo menos, c se dei- 
xa vcr muita vez solifario e immovel sobre os serros mais 
alcantilados das montanhas. 

Nao pudc ainda colher informacoes seguras quanto a cpo- 
cha da reproduccao, nem me consta que fosse ja determina- 
da nem para esfa especie nem para a C. pyrenaica, que e 
ha mais tempo ainda conhecida como especie distincta. 

Consta-me porem que nos primeiros mezes do verao, 
quando as serras do Gerez comecam a ser visitadas, costu- 
mam apparecer as femeas acompanhadas das crias ja des- 
involvidas ; e por isso supponho que a este respeito nao dif- 
ferira naturahiiente a nossa cabra-montez da cabra dos Al- 
pes. 

Se algum dia podcr emprender a exploracao zoologica 
do nosso paiz, conto comeear as minhas investigacoes pelas 
provincias do Norte, e procurarei completar entao a noticia 
que nSo desejo estender mais sobre informacoes eslranhas c 
nao vcrificadas. As dimcnsocs, que ja leva este artigo, e\l- 
gcm tamljcm que o de aqui por conckiido. 

Lisboa 20 de Janeiro 18o7. 

J. V. [{. 1)11 BOCAGE. 



3i ANwrs 



REVISTA ESTRANGEIRA. 

1856. 



\)s Irabalhos do espirito humano progridem n'esle seculo 
com niaior rapidcz do que cm qualquer das cpochas , ain- 
da as mais brilhantes , da hisloria das sciencias. Incansa- 
vcl e guiada por principios dediizidos de iima observacao ri- 
gorosa dos factos, a scicncia augmcnta cada anno, com o pre- 
cioso Iribulo de novas descobertas, o riquissimo thesouro de 
conhecimenlos , de que hoje esla de posse a sociedade das 
nacocs civilisadas. A descoberta de noYos astros , que vem 
accrescentar a lisla dos corpos celestes , sobre que se deve 
lixar esludo dos astronomos ; a demonstracao experimen- 
tal de factos physiologicos que nos revelam algumas das con- 
dicoes importantcs d'essa mysteriosa forca, que sedcnomina 
Aida; a analyse da composicao chimica dos corpos orga- 
nicos c inorganicos, ou o descobrimento de novos processos 
chimicos applicaveis a industria ; as applicacoes importanles 
das forcas da naturcza, ou o estudo das leis com que essas 
forcas obram, domodo por que ellas manifcstam as suas ac- 
coes ; cmfim , a cxploracao do todas as multipliccs provin- 
cias do vaslo impcrio das sciencias faz com que cada anno 
quo passa mcreca ser honrosamentc inscripto na historia 
brilhanle do progrcsso moderno. 



DAS SCIENGIAS E LETTRAS. 33 

anno de 185'6 nao foi assignalado por iima d'cssas 
descobeiias grandiosas, que Iransformam as sciencias, ou dao 
a industria novos e incspcrados recursos com que ella pode 
affoitar-se a desusadas emprezas ; mas tudo progrediu para 
aperfeicoamenlo scientifico e industrial, n'esse anno em que 
felizmcnte lerminou uma guerra assusladora para aEuropa. 
Depois daexposicao universal de Paris, d'essc congresso pa- 
cifico, em que as nacoes buscaram por patentes todas as ri- 
quezas da industria e da arte moderna , c dar uma exacta 
mcdida das suas forcas productoras, muitos problemas alla- 
mente imporlantes ficaram estabelecidos com clareza , e es- 
perando uma prompla solucao ; e na resolucao d'esses pro- 
blemas que principalmente se acha hoje fixada a atlcncao 
dos homens de sciencia ; e, se o anno de 1836 os nao dei- 
xou resolvidos atodos, pelo menos adiantou muito a sua so- 
lucao. Ao mesmo tempo que a tcchnologia se occupou d'es- 
ses pontos intercssanles, a sciencia pura, a sciencia que Ira- 
baiha para satisfazer o curioso espirito humano , para des- 
cobrir a verdade pelo intercsse da propria \crdade ; scien- 
cia pura, que quasi sempre tern aberto o caminho aos des- 
cobrimenlos induslriaes , nao ficou parada, antes provcitosa- 
mente progrediu na sua ardua mas gloriosa tarefa. N'esia 
Revisla faremos a resenha dos factos scientificos mais nota- 
veis do anno de 1836 , para nos servir de ponto de parti- 
da, determo decoraparacao, nos successivos estudos que fi- 
zermos dos trabalhos scientificos do presenle anno. Para a- 
preciar com justica e lucidez o valor dos factos , assim na 
hisloria das sciencias como na historia moral e polilica dos 
povos, e necessario conhecer os precedentes que os provo- 
caram, as causas que Ihes deram origem. 

— Os phcnomenos naluraes, que maior influencia teem so- 
bre OS homens, siio aquclles que se passam cm regioes inacces- 
siveis a sua accao direcia ; c enire eslcs occupam o primeiro 
logar OS phcnomenos aslronomicos. Esludaroceo, conhecer c 



34 AxNNAES 

calalogar os aslros que povoam os iiicommcnsuravcis cspacos, 
descobrir ascausas que ospoem em niovimcnto cas leisd'cs- 
se moviniento, penelrar os segrcdos da sua conslituiciio c das 
transformacoes que por vezcs n'elles se passam, iiidagar so 
no cslado presente de alguns d'elles se pode encontrar a ex- 
plicacao da cosinogonia de todos, foi sempre oempenho dos 
aslrononios de todos os seculos ; luinca , por6m , o estudo 
physico do ceo se fez com tanta perfeicao como no nosso 
seculo. A posse de lunetas de grande alcance , do lelesco- 
pios como OS de Herschel , de Lassel , e de lord Rosso , a 
multiplicidade de observalorios astronomicos bem organisa- 
dos, a facilidade das viagens pelas diversas regioes do glo- 
bo , a consideracao com que as sciencias sao hoje tratadas 
por todos OS governos esclarecidos, explicam estes nolaveis 
progressos modernos da astronomia. 

Empregando um instrumento nao menos poderoso do que 
OS mais poderosos telescopios, a analyse mathematica, o sr. 
Le Verrier, pelo estudo das perlurbacoes de movimenlo do 
planeta Urano, descobriu, em 1846, sem olhar para oceo, 
a existencia de um desconhecido planeta , de que o cclebre 
astronomo pode fixar aproximativamente a posicao, de mo- 
do que, noobservatorio deBerlini, o poderam observar, ape- 
nas a descoberta do novo astro foi positivamente annunciada. 
Desde esse memoravel facto scientifico , uma das grandes 
glorias dos tempos modernos , o estudo minucioso do ceo 
tem feito achar um consideravel numero de pequenos plane- 
las telescopicos, constituindo um grupo situado enlre Marte e 
Jupiter, isto e, n'esse espaco que os antigos aslronomos con- 
sideravam como um hiato, por se nao haver descoberlo ahi 
astro algum que satisfizesse a lei da regular distribuicao dos 
planetas em roda do sol, conhecida pelo nome de lei de Ti- 
tius, e pela qual, parece, que as distancias dos planetas ao 
so! sao aproximadamenle duplas umas das outras. De trin- 
ta esetc planetas que secontavam em I800, onunicro d'cs- 



DAS SCIENGIAS E LETTRAS. 3.3 

tcs aslros, que fazeni parte do syslema solar , subiu a qiia- 
rcnla e dois durante 185'6 ; quatro d'csles planetas forani 
dcscobertos cm Franca pelos srs. Chacornac e Goldschmidt, 
c urn em Oxford pelo sr. Pogson. 

Urn vasto campo se abre as exploracoes e esludos dos 
aslronomos nas profundezas das regioes celeste^, onde cxis- 
Icm essas eslrelias duplas, que se movem em roda umas das 
outras, essas nebulosas que os poderosos telescopios podem 
transformar a nossos olhos n'uma multidao de pontos bri- 
Ihantes, todos da mesma cor, ou de cores variadas, como en- 
cantado Ihesouro de gemmas preciosas , soes maravilhosos , 
que brilham a inconcebivel distancia da terra. Os descobri- 
mentos dos dois Herschel, de Slruve, de Dowes, de Lassel 
mostram o muilo que ha ainda por conhecer na immensida- 
de doespaco. Nao ^ inaUera\eI o aspeclo do ceo estreliado : 
ha ahi lambem subitos apparecimentos de fulgurantes estrcl- 
las que brilham algum tempo , para depois se extinguirem 
totahnente ; outras estrellas , sem desapparecer , variam de 
brilho, chegando a apresentar-se como as bellas estrellas 
da primeira grandeza, quando, poucos annos antes, apenas 
se mostravam como estrellas de grandeza muito menor; ou- 
tras teem variacoes periodicas de brilho, e d'estas da o ce- 
lebre Cosmos uma relacao que consta de vinte e quatro d'es- 
tes astros variaveis. 

Qual e a natureza d'essas estrellas ephemeras, que bri- 
lham e se apagam sem deixarem vestigios da sua passagem 
no ceo? Que destino teem? — Seha facto seguro e invaria- 
vel no universo physico, e o da nao destructividade da ma- 
teria. As forcas da natureza nem criam, nem deslroem a ma- 
teria, transformam-na. Partindo d'esta inconteslavel verda- 
de, OS astronomos teem proposto diversas explicacoes para 
dar conta d'este extraordinario phenomeno. Tycho-Brahe sup- 
punha que a celebre estrella, que em 1572 se mostrou co- 
mo de primeira grandeza, c que urn anno depois ja era qua- 



Mi ANN MS 

si invisivcl , se linha formado iraquclla 6pocha pcla agglo- 
nicracao da maleria cosmica ospalhada no univorso. Ou- 
tros allribiii'm esia visibilidado subila a aproximacao do as- 
tro , c (losapi)arocinieiUo a sua passagcm para mais ro- 
inotas rcgiOes ; o que Arago impugnou, provaudo que, para 
isso, era ncccssario que a eslrclla eslivesse animada de uma 
velocidad« cxccssivaniente maior que a da luz, a qual, per- 
corrc OS cspacos com a incomprchcnsivel rapidez de 300000 
kiloinclros por scgundo dc tempo. Suppondo ns estrellas flo- 
ras, que ale hoje a aslronoraia tem observado , doladas de 
urn lento movimcnto de rotacao e de faces diversamenlc 
illuminadas , conio parccc succeder nas estrcllas variavcis 
periodicas, alguns astronomos teem altribuido a esla causa a 
seu apparccimcnto e desapparecimento no ceo : para dar for- 
ca a esla Iheoria era necessario provar, que esses estranhos 
successos dc apparecimenlo e exlinccao de estrellas se ma- 
nifeslavam em periodos rcgulares. Foi isto que fez o Sr. II. 
Goldschmidt a respeito da eslrclla que em 1609 appareceu 
na Cauda do Scorpiao. Recorrendo ahisloria da astronomia, 
sr. Goldschmidt buscou provar que ha n'esta conslellacao 
uma eslrclla que se lorna visivel so periodicamenle, com in- 
tervallos dc 401) annos e 70 dias : foi esla eslrclla visivel no 
anno de 393, no anno de 798 proximamente, como consta 
pelos livros dos aslronomos arabes, em 1203 e em 1609. 
Indagacoes eguaes sobre outras d'essas estrellas ephemeras 
podem lancar muita luz sobre esle objeclo. sr. Liouvillc 
chamou a altencao dos aslronomos sobre mais duas estrellas 
que se apresenlam periodicamenle variavcis. Quanlas ques- 
loes esliio aiuda sem solucao em aslronomia , quanlos phe- 
nomcnos interessanles a obscrvacao pode descobrir ainda nos 
astros ! Aos observadores, coUocados em logares privilegia- 
dos pela pureza da almosphera, cumpre sondar com o leles- 
copio esses segredos do ceo : e esla uma das missoes do 
nosso fuluro obscrvalorio. Foi paia aleancar observacocs 



DAS SCIENOIAS E LETTR\S. 37 

foilas nas condicocs favoraveis que da unia almosphera pu- 
ra e transparcntc, que o Sr. Smyth , astronomo real d'Es- 
cossia, foi encarregado no anno passado de uma missao as- 
Ironomica ao pico de Tencriffe. Os resultados d'esta missao 
correspondcram inteiramcnte as esperancas dos astronomos 
inglezes ; e viu-se que o alcance e poder das lunelas cresce 
exlraordinariamente com a transparencia da atmosphcra em 
que se fazem as observacoes. que so telescopios colossaes 
podcm descobrir nos nebulosos paizes do Norte, podem-n'o 
tornar -visivel lunetas de menos poder no ceo puro das re- 
gioes meridionaes. 

A pholographia, que tantos servicos tem prestado ja a 
arte, a induslria, as sciencias historico-naluraes, e tambem 
susceptivel de ulilissimas applicacoes na astronomia. Sao 
prova d'islo as imagens dalua, obtidas em diversas phases do 
eclipse que tevc iogar em 13 d'Outubro de 1856 , pelos 
Srs. Bertschet e Arnault , com uma luneta poderosa , e as 
obtidas no observatorio romano dirigido pelo R. Padre Sec- 
chi. As duvidas, que havia sobre a possibilidade de obter ima- 
gens sensiveis com os raios pouco intensos do luar, achani- 
se destruidas pela experiencia , e as applicacoes da pholo- 
graphia a representacao rigorosamente exacta dos objeclos 
celestes hao de ter rapido incremento, e dar resultados que 
induam energicamente sobre os progresses de algumas par- 
tes d'esta sciencia. Com a pholographia chegar-se-ha a lixar 
a representacao dos phenomenos passageiros do ceo , como 
se consegue ja conservar a imagem das preparacoes micros- 
copicas. 

Baixando os olhos das grandes alturas celestes, o homem 
enconlra na terra muilos segredos que descobrir, muitos fa- 
ctos interessantes que explorar. estudo da terra, que tem 
preoccupado tanto a sciencia, esta longe de se poder considerar 
complete ; os astronomos, que trabalhara incessantemente pa- 
ra saberera a forma, anatureza physica, os movimenlos nao 



;{8 ANNAES 

SO (Jos astros do nosso systcma, sonao lambcm dascstrcllas, 
de que os olhos dcsarmados nom mcsmo podem suspeilar a 
cxislcncia, ainda nao conhccem ao certo a forma exacta da 
terra. As medidas ja fcilas do algumas linhas principaes do 
nosso globo, provani que ha n'elle grandcs irregularidades, 
que niio ha dois moridianos , por exemplo , que sc possam 
considcrar cguaes. numero das medidas feitas e ainda limi- 
ladissimo, para que se possa concluir coisa alguma com per- 
feita seguranca, e, o que e ainda maisnolavel, algumas d'es- 
sas medidas, que passavam por scr rigorosas, parece apre- 
sentarem consideraveis erros. Os defeitos, que podiam resultar 
dc lodos OS processes anligos, applicados a dcterminacao das 
dilTerencas de longitude de dois logares, podiam ser baslanle 
consideraveis : esses processos consisliam na dcterminacao 
do tempo em que se observava um phenomeno astronomico, 
e na avaliaciio das diffcrcncas de longitude pelas differencas 
do tempo da observacao. N'estes ullimos annos o emprego 
do telegrapho electrico , que conduz os signaes com quasi 
inapreciavel rapidez, tern dado aos observadorcs, collocados 
nos dois pontos de que se qucr conhccer a differenca exacta 
de longitude , meio de se annunciarem muluamenle o justo 
memento das obscrvacoes astronomicas. 

Para dar a este methodo ainda um maior rigor , o sr. 
Le Ycrrier e um olTicial d'cslado maior, o sr. Rozet , auxi- 
liados pelos srs. Villarceau e coronelBlondel, eslabeleccram 
um systema composto de duas lunetas meridianas, cada uma 
na sua cslacao, e de um apparelho electrico que inscreve, por 
um signal obtido chimicamcnte n'um chronographo, o mo- 
mento em que os observadorcs notam a passagem no meri- 
diano, da estrella por elles escolhida para a sua dctermina- 
cao dc longitudes. Depois de ensaios feitos em Paris entre 
dislancias de que se podia dircclamcnte obter uma rigorosa 
medicao , e que dcram em resultado que a cxaclidao podia 
levar-sc a um ccntcssimo de segundo, os srs. Le Ycrrier e 



DAS SCIENCIAS E LETTllAS. 39 

Rozet passaram a applicar o methodo entre Paris e Biirges. 
resullado de muilas observacoes foi extraordinario. A dif- 
fercnca de longiludcs d'estes dois pontos, que distam entre 
si 240 kilometros, dada pelas triangulacoes do estado maior 
differe, da oblida pelo novo processo, a enorme quantidade 
de 150 metres ! Sera inexacto o novo methodo nos sens re- 
sultados? Nao e provavel. N'este caso ve-se,que asmedicoes 
da terra, feitas ate hoje, sao de uma exactidao mui contes- 
tavel. 

Ha muito que pelas observacOes dos phenomenos astro- 
nomicos era conhecido o movimento da terra em torno do 
seu eixo ; mas esse movimento, insensivel para os que habi- 
tam este planeta, tornou-se claro e palente pelos resultados 
da celebre experiencia do pendulo do sr. Foucault. Um pen- 
dulo, suspendido de modo que possa oscillar, variando livre 
e successivamente de posicao o piano das suas oscillacoes, 
tende, posto em movimento, aconservar o parallelismo d'esse 
piano de oscillacoes comsigo proprio ; d'aqui resulta que a 
terra, gyrando por baixo d'elle, da a este piano um movi- 
mento apparente de rotacao, cuja direccao e, no nosso he- 
mispherio, da esquerda para a direita. Corao esse movimen- 
to lento do piano d'oscillacao e evidente, e nao pode ser de- 
vido senao a rotacao da terra , torna esla bella experiencia 
visivel para nos esta rotacao. No polo este movimento do 
piano de oscillacao deve ter a maxima velocidade, no equa- 
dor e esta claramente nulla , nas regiOes intermedias varia 
com a latitude, e pode servir para a determinacao d'esta. A 
terra, porem, tem, alera do movimento de rotacao, um mo- 
vimento de translacao, pelo qual descreve a sua orbita em 
Yolta do sol ; ora, uma nolavel observacao chamou a atlen- 
cao sobre um movimento que e produzido nos pendulos em 
repouso por este movimento de translacao da terra. sr. 
abbade Panisetti observou, que um pendulo de um metro de 
comprimento posto, com todas as imaginaveis precaucoes, em 

Tom. I.-Marcode 1837.-1.' CLAS::iE. ^ 



i ANWES 

coinploU) roi)ouso, oscilla, quando v, abandonado livrcmcnle 
as accoos das forcas cxlcriorcs da naliircza , e que as suas 
oscillacocs allingeni a sua maior amplitude ao cabo de meia 
hora, scndo cssa amplitude de 0,00003.") dc metro, e o nu- 
mcro de oscillacoes cm cinco minulos 297 ; com pendulos 
maiores o numero das oscillacoes diuiinue, mas a amplitude 
cresce. Um pendulo de 16 melros da 7o oscillacoes em cin- 
co miiuitos, temlo por amplitude 0,00058. sr. Arthur, 
doulor em sciencias , n'um trabalho apresentado a Acadc- 
mia das Sciencias de Pan's, mostrou que cis oscillacoes do 
pendulo em repouso sao resullado do movimenlo de transla- 
cilo da terra. 

— A electricidade, e as suas numerosas applicacoes, sao 
objeclo do conlinuados e fructiferos estudos dos physicos. 
Kste poderoso agente da nalureza de que os antigos conhe- 
ciam a e\istencia pelo phenomeno simples da attraccao dos 
corpos ligeiros pelo alambre friccionado , este mysterioso 
fluido que produz o rayo, que incendeia, que deslroe, que 
fundc OS mais refractarios metaes, os corpos mais infusiveis, 
e hoje uma das forcas que o homem emprega no seu servi- 
co, e de que elle, com razao, espera ainda novas maravi- 
Ihas. 

Desde que Volta, ja no fim do seculo passado, sobrepon- 
do discos de metaes differentes, separados por outros discos 
nao metalicos, descobriu o modo de produzir electricidade, 
que co'nlinuamente se renova, uma corrente continua dc ele- 
ctricidade, OS estudos sobre as propriedades d'este fluido teem 
rapidamente progredido, e as suas applicacoes tornado de dia 
para dia maior importancia. Um descobrimento de 1820, 
feito per (Ersted, mostrou que uma corrente electrica tem 
a propriedade de agitar, c desviar da sua direccao Norte-Sul, 
uma agulha niagnetica, fazcndo-a tomar uma direccao trans- 
versal aquclla que a corrente segue (d'este descobrimento 
nasceu o lelegraphoeleclrico). Com uma corrente electrica, 



D.VS SCIENC1\S !• [.F.TTHAS. 41 

coiuluzida por um fio mctalico, podem-se fazcrexecularmo- 
vimeiUos a uma agulha magnetica collocada a grande dis- 
tancia, e, combinado um systema de signaes, fica assim or- 
ganisado um telegrapho, pelo qual o pcnsamento se communica 
instantatieamenle : c este o syslema de coiislruccao do tele- 
grapho inglez. celebre Arago, descobrindo que uma cor- 
rente eleclrica c&rcando uma barra de ferro fazia d'ella um 
maguele de grande forca , fez dar a sciencia um passo im- 
portante, e ministrou a telegraphia eleclrica novos meios de 
aperfeicoamento. Empregando esta accao das correntes ele- 
ctricas sobre uma barrinha oa agulha de ferro , a telegra- 
phia pode fazer com que um ponteiro marcasse sobre um 
mosti'ador lettras ou cifras quaesquer , e, mais ainda, com 
que OS despachos telegraphlcos fossem impressos com lettras, 
signaes, ou pontos e fcndas n'um papel preparado para os re- 
ceber. 

sr. Breguet, por uma modiQcacao na armadura dos 
sous lelegraphos, e uma combinacao de molas, conseguiu cons- 
truir um telegrapho impressor , sem grandes mudancas nos 
apparelhos usados por este dislincto constructor. Os srs. Di- 
gney, quasi ao mesmo tempo, conseguiram comhinar um ap- 
parclho, que se adapta sem complicacao aos telegraphos de 
mostrador, de modo que se podem obter despachos impres- 
sos, sem alterar muito o machinismo actualmente usado, nem 
seu modo de obrar. Segundo a opiniao do sr. Babioet, 
que apresentou este telegrapho inventado pelos srs. Digney, 
a Academia das Sciencias de Paris, cm sessao de 22 de de- 
zembro de 1856, este systema tern grandes vanlagens sobre 
todos OS outros. 

Dois projectos colossaes de telegraphia eleclrica, eslabe- 
lecida entre a Europa e a Africa, e entre a Europa e a Ame- 
rica, que ha Ires annos ainda eram apenas admittidos como 
possiveis, por poucos d'esses homens a quern a experiencia 
tern dado uma confianca quasi absoluta na sciencia , apro- 

4 * 



42 AANA.ES 

\iniarani-se da sua complela realisacao no anno finilo. Em 
18.")0 unia sim|)les oxpcriencia com um fio eleclrico lancado 
dc Douvres a Calais, moslrou a possibilidade de cstabclecer 
uma permancnlc communicacao entre a Gra-Brelanha e a 
pAiropa conlinonlal ; e em novembro dc 1852, o resullado 
oblido com o cabo lancado enlre Douvres e Calais animou di- 
versas companhias a ligar a Inglaterra com a Hollanda e 
com a Bclgica. sr. Brett , o principal promoter do esta- 
bclecimenlo das communicacoes telegraphicas sub-marinas , 
organisou uma companhia para ligar a Europa a Africa, atra- 
vessando o Medilcrraneo, pela Corsega e a Sardenha, a quern 
esla empreza foi concedida pelo governo francez, cm 1853 ; 
e ja em agosto de 1856 annuncia\a da ilha de Galita , si- 
tuada na cosla de Tunis, a sua chegada com o cabo-subma- 
rino em perfeilo estado, havcndo atravessado mares de uma 
profundidade superior a 2000 metros. A uniao da America 
do Norte com a Europa nao tardara muito que se estabele- 
ca ; OS esludos acham-se quasi completes ; uma sondagem mi- 
nuciosa indicou o melhor caminho para a linha sub-marina, 
que nao lera a atravessar mares excessivamente profundos, 
como se receava. Receava-se tambem que nao fosse possi- 
vel a uma corrente electrica chegar de Londres a New-York ; 
um dislincto physico escrevia, acerca da uniao telegraphica 
da Inglaterra com a New-York, ainda ha bem poucos annos 
estas desconsoladoras palavras : « Nao posso considerar es- 
tas ideas como serias, e a Iheoria das correntes poderia dar 
provas sem replica da impossibilidade dc uma tal transmis- 
sao (a dos signaes enlre a Europa e a America), ainda quan- 
do se nao livessem em conta as correntes que por si mesmas 
se estabelccem n'um longo fio electrico , e que sao muito 
sensiveis entre Douvres e Calais. » Experiencias do sr. Whi- 
lehouse desmenliram as previsoes do sr. Babinet : as men- 
sagcns podem atravessar, com sufficienle rapidez e seguran- 
ca , distancias superiorcs a que vae da Inglaterra a Ncav- 



DAS SCIENCIAS E LETTRAS. 43 

York, por urn fio nao interrompido. Nao tardara pois que a 
America e a Europa possam unir-se pelos lacos niagicos do 
telegrapho electrico ; em breve um despacho lelegraphico irii 
do velho ao novo miindo com a rapidez do pensamento. 

As vantagcns do systema de locomocao accelerada, so- 
bre todos os outros, sao hoje incontestaveis : todos reconhe- 
cem que os caminhos de ferro, onde se movem com pasmo- 
sa velocidade as poderosas locomotivas, sao o primeiro agen- 
te da transformacao social e economica por que o mundo es- 
ta passando ; nenhuma opposicao se levanta hoje contra os 
caminhos de ferro, a nao ser n'algum d'esses paizes onde a 
ignorancia domina, e que longos annos consumiram as for- 
cas em luctas estereis, scquestrados da communhao dos po- 
vos civilisados. A locomocao accelerada e a mais brilhanle 
das invencocs modernas , e a sciencia nao tem perdido um 
instante em a estudar , accrescentando-lhe os recursos , di- 
minuindo-lhe os defeilos, dofando-a de meios de seguranca. 
Tudo se passa com tal rapidez nos caminbos de ferro, e os 
mais leves descuidos podem ter lao funestos resultados, que 
nao convem confiar s(3 a vigilancia do homem o seu regular 
andamento e seguranca : nao e possivel tambem, nem con- 
viria dispensar a responsabilidade e a iniciativahumana, em 
assumpto de tao grandc importancia, c de que depende a vi- 
da dos viajantes. A sciencia cumpria por a disposicao dos 
erapregados dos caminhos de ferro signaes seguros, e rapidos 
que OS avisassem, a tempo, de tudo que se passa em toda a 
extensao da linha confiada a sua vigilancia. Foi isto que a 
sciencia conseguiu com a electricidade, cuja marcha c infi- 
nitamente mais veloz do que a das locomotivas. Por em re- 
lacao, por meio dos signaes electricos, os chefes de estacao 
entre si , e com o machinista e chefe de Irem dos comboys 
em marcha, eis o problema que a sciencia procurou resol- 
ver, e resolvcu por mais de um systema. 

Um dos mclhores e mais simples syslemas de signaes 



4i ANNAES 

elcclricos para os caminhos de ferro e o do sr, Tycr , que 
data de 1852 ; csle syslema tern produzido optiinos rcsulla- 
dos no caminho de ferro do Londres a Douvres, sobre que 
passam per dia 300 trcns, scm que tenha havido accidenle 
algum funesto ; c de grande simplicidade, e foi no anno de 
1856 cxpcrimenlado em Franca onde foram soleranemenlc 
rcconhecidas as suas e\cellenles qualidades. Os apparelhos 
do sr. Tyer conslam de uma so agulha de signaes, para as 
corrcspondencias das estacocs, para as locomotivas em mar- 
cha, e d'eslas para as estacOes, e de dims agulhas de signaes 
para a correspondencia das estacoes. Estabelecida acorren- 
te eleclrica , que so passa por uma linha nao inlerrompida 
dc corpos conductores da electricidade (os fios metalicos, 
por exemplo) , e dado o signal pela accao da corrente so- 
bre a agulha de signal, esta nao pode ssr tirada da posicao 
em que fica senao por uma nova impulsao electrica com- 
municada pelo que manda os signaes, e nao pclo que os re- 
cebe : de modo que todo o engano e impossivel. Os signaes 
sao poucos e simples : caminho livre, caminho occupado, 
Irem etc. A communicacao, enlre os Irens em movimenlo e 
as estacoes, nao e preciso que seja continua, basla que se fa- 
ca de distancia em distancia, sendo o minimo d'esla, um ki- 
lometro, para estradas muifo frequcnladas, o que correspon- 
de a um signal por cada dois minuios, com uma velocidade 
media de oito legoas por hora. Esta communicacao consc- 
gue-se pela installacao, exterior e parallelamente aos carris, 
de uma barra metalica de 6 metros de comprimento, ligada 
por fios com as estacoes, sobre que passa um arco ou mola 
metalica que esta fixa ao lado das locomotivas ; por esle mo- 
do se estabelece a communicacao electrica e se transmittem 
opporlunamente os signaes. Se esta breve exposicao foi en- 
tendida , lodos podem juigar da simplicidade c eflicacia do 
syslema do sr. Tyer, que a expcriencia tern juslilicado. 
Osr. Ijcllcmarcinvcnlou um appareliio simples, por mcio 



DAS SGIENCIAS E LETTRAS. 4.'> 

do qual a locomolica, caminhando com a maxima velocida- 
de, interrompe instantaneamente a corrente electrica que exisle 
entre as duas estacoes, anterior e posterior ao logar em que 
esta passa, dando assim occasiao a um signal electrico. ap- 
parelho e uma simples mola que a locomotiva faz baixar no 
seu rapido movimento, por meio de uma alavanca que ella 
enconlra sobre a via, alavanca que esta em relacao com um 
parafuso, o qual, depois decarregar namola, retoma logo a 
sua posicao, deixando esta livre, o que restabelece a com- 
municacao electrica entre as duas estacoes. Como este inter- 
ruplor electrico e muito simples, pode-se collocar um de ki- 
lometro em kilometro, de modo que o frem em marcha da 
signal para as estacoes sempre que passa diante das batisas 
onde as distancias estao marcadas, sabendo-se por esta for- 
ma, acada instanle quasi nas estacoes, o logar lixo onde se 
ucham os trens , do que resulta ncccssariamcnte a maxima 
seguranca. — Em Hespanha osr. Fernandes de Castro, en- 
genheiro de minas, por uma disposicao particular c engenho- 
sa de correntes electricas, conscguiu que se produzissc um 
signal de alarma n'um irem em movimento , quando sobro 
a via se acha outro trem ou obstaculo, que possa dar ori- 
gem a um sinistro. 

Sao as rapidas descargas electricas, que teem logar entre 
as nuvens, durante as trovoadas, acompanhadas de vivissi- 
ma luz, que dura apenas instantcs, de luz e tambem acom- 
panhada a pequena descarga de uma machina electrica ; re- 
gularisar e tornar permanente esta luz, rival da luz do sol, 
foi empenho dos physicos logo que se descobriu a pilha, 
onde a electricidade continuadamente se reproduz. A pillia, 
que tem nas suas duas extremidades fios metalicos conve- 
nientemenle fixados, e aproximados pelas suas pontas livres, 
produz uma corrente electrica que passa constanlcmente de 
um para o outro fio ; e e no logar onde se faz esta passa- 
gem da electricidade entre os dois fios , isto c , nas pontas 



4f) AiNNAES 

(I'esles, quo se produz urn vivissimo calor, capaz de fundir 

OS corpos mais rofraclarios. Se esles fios liverem, nas suas 

extremidades aproxiniadas, carvoes cortados em ponla , os 

dois carvoes collocados a distancia de alguns niillimelros, 

soffrem uma violenta ignicao, e lancam uma luz viva e bri- 

lliante, que so se pode comparar a do sol. As correntes ele- 

ctricas, produzidas pclas pdhas ordinarias, estao longe de se 

aprescniar regulares , e de intensidade invariavel , o que c 

uma oausa de intermitencias desagradaveis na luz electrica ; 

ao passo que a luz se produz pela ignicao das pontas do 

carvao, estas pelo proprio facio da combuslao encurlam, e, por 

conseguinte, afaslam-se uma da outra, segunda causa de di- 

minuicao e irregularidade da luz electrica. Obtcr uma cor- 

rento de intensidade quasi inalteravel, e podendo durar por 

muitas horas ; dispor urn apparelho, pelo qual as pontas de 

carvao se manlenham sempre a mesma distancia, apcsar de 

se irem oonsumindo pela combustao, eis o que era necessa- 

rio para a luz electrica se tornar susceptivel de applicacao 

a illuminacao publica. Nas noites de 26 e 27 de outubro 

de 1856 , quatro candieiros electricos, situados no alto do 

Arco do Triumpho em Paris, lancavam uma luz poderosa a 

enorme distancia, de modo que a trezentos metres se podia 

ler com facilidade, apesar dos reverberos nao serem dos mais 

adequados ao fim que se queria alcancar. As luzes assim 

oblidas pelos apparelhos dos srs. Lacassagne e Thiers con- 

servaram-se perfeilas mais do tres horas. 

Os apparelhos dos srs. Lacassagne e Thiers fundam-sc 
n'um principio simples, pelo qual se obtem, que as pontas 
de carvao se mantenham sempre a distancia conveniente, pa- 
ra que a luz seja de regular intensidade. A ponla de car- 
vao ligada ao fio ner/alivo da pilha esta fixa, o carvao po- 
sitivo, c inferior, que e dos dois o que se consomc com maior 
rapidez, esta preso na extremidade dcum fluctuador move), 
(i supcrlicie dc um deposito dc mcrcurio ; esle deposito dc 



DAS SGIENCIAS E LETTRAS. 47 

niercurio couimunica com outro que o alimenla, por via de 
uiu canal que a armadura de um electro-iman fecha mais ou 
menos, segundo a correnle clectrica que passa pelos carvoes, 
e mais ou menos intensa. Quando as ponlas de canao con- 
sumidas se acham affastadas, a corrente necessariamenle di- 
minuc, entiio a armadura do electro-iman affasta-se do canal 
de communicacao entre os dois depositos em que esla a pon- 
ta de carvao fluctuante, a qual sobe em consequencia d'is- 
to, ficando d'este modo os dois carvoes outra vez a conve- 
niente distancia, a luz com a mesma intensidade, a corrente 
electrica com a mesma forca, e o tubo de communicacao por 
onde passa o mercurio, fechado pela armadura do electro-iman. 
A este systema, que serve para manter as pontas de carvao 
sempre a mesma distancia , os inventores do novo appare- 
Iho para a luz electrica , juntaram um regulador electro- 
metrico, ou regulador da corrente , com o fim de tornar a 
corrente electrica de invariavel intensidade, de moderar es- 
ta intensidade dando-lhe as proporcoes convenientes, c de a 
medir a cada instanle ; este regulador assegura a luz electri- 
ca umaegual intensidade, o que ella nao tinha ate aqui, rc- 
sultando d'isso graves difficuldades para a sua applicacao 
aos usos communs. As experiencias do Pan's indicam a pro- 
xima realisacao de um novo progresso na illuminacao das 
cidades : em poucos annos a luz electrica vira subslituir pro- 
vavelmente a illuminacao a gaz, que e muito menos brilhan- 
te, e em que se despende parte das materias combustiveis, 
, de que a industria tanlo carece , e que de dia para dia sq 
vao tornando menos abundantes. 

Aproveitar a luz o mais possivel, para d'ella obter a ma- 
xima claridade, e a origem das descobertas das diversas for- 
mas de candieiros hoje empregados, dos revcrberos, que en- 
feixam os rayos de luz para os dirigir sobre determinados 
pontos, da conibinacao dc lentcs, quo dao os poderosos re- 
sultados que sc alcancara por meio dos pharoes de moderna 



48 AiSNAKS 

conslruccuo. Obler, por meios economicos, unia illuminacao 
inlensa, foi o inn a que sc propozcrani os srs. Moll e Ro- 
bert, cnipregaiido lentcs dc agua cm forma scmi-csplierica, 
c reflectorcs concaYos, tambcm corlados em espheras de vi- 
dro, cobertos de uma camada brilhanle de prala por urn 
processo economico da galvanoplaslia. 

Aslenles d'agua consistem n'um vidro piano e circular, 
a que se fixa, por uma virolade metal, umacalole ou scmi- 
esphera de vidro , cxactamente chela d'agua ; estas Icnles 
sao de grandc purcza e forca. Applicadas conjunctanicntc 
com OS reflectores concavos a uma luz produzida n'um can- 
diciro de novo syslema, deram um resultado excellenle nas 
experiencias que se fizeram, produzindo effeito egual ao de 
um pharol de segunda ordem, visivel a mais de 20 kilome- 
tres de distancia. 

Na feitura dos espelhos concavos, de que se serviram os 
srs. Molt e Robert, empregou-se a galvanoplaslia, que e 
uma das importantes applicacocs da eleclricidade em corren- 
te, produzida pela pilha. De dia para dia a galvanoplaslia 
vae tomando maior incremenlo, e o seu use sc vae genera- 
lisando na induslria. Quando uma correnle eleclrica penelra 
n'um banho chimico, tendo melaes em dissolucao , arrasla 
cstcs, e deposila-os com grande regularidade sobre qualquer 
chapa esculpida , que eslcja no Irajecto da correnle, e da 
d'esta um molde perfeilo , em que se podem encontrar os 
traces mais dclicados, os maiores primores d'arte fielmente 
reproduzidos. Medalhas preciosas, estatuas de grande bclle- 
za, OS mais delicados objectos d'arle, flores, fructos, tudo a 
galvanoplaslia sabe moldar com rigorosa exactidao , e in- 
conleslavel belleza ; o cobrc, o bronze, a prala, o ouro, os 
melaes ordinaries, e os mctaes preciosos podem egualmenle 
servir para estas reproduccOes arlislicas e industriaes. sr. 
Oudry, que possue perlo de Pan's umacxlensa e imporlanto 
fabrica de galvanoplaslia , onde sc repetem diariamenle as 



DAS SCIENCIAS E l.KTTR^S. 49 

niaravilhas d'esla induslria scientifica, nao conlcnlc com lo- 
das estas applicacOes da nova industria , ousou e conscguiu 
dispor um systeiiia, pelo qiial se podem cobrir de uma capa 
metalica, pecas colossaes, forrar mesmo um navio de cobre, 
pela gahanoplaslia. Os navios de ferro, desprotegidos, sof- 
frem com a accao corrosiva das aguas do mar, e com a ra- 
pida occidacao ; as algas e molluscos fi\am-se-lhe no costa- 
do, delurpam-lhe a forma, carregam-no exteriormente, e fa- 
zem-lhe cm breve perder a faculdade de sulcar rapidamente 
as ondas ; para evitar estes inconvenientes, emprega-se nos 
navios do ferro apintura com o minium, mas a poiica dura- 
cao d'esta, e a difficuldade de a renovar, sao inconvenientes 
graves que ate hoje nao tinham podido remediar-se. A ap- 
plicacao immediata do cobre sobre o ferro , em vez de de- 
fender OS navios, comprometter-Ihes-hia a sua existencia, e fa- 
cil e de perceber o porque. Os metaes em contacto, cm da- 
das condicocs, produzem electricidade que continuamenle so 
rcnova , electricidade como a que se produz nas pilhas ; o 
cobre sobre o ferro produziria uma verdadeira pilha, na qual 
ferro tomaria a electricidade positiva, e o cobre a electri- 
cidadade opppsta, a negativa ; por esta razao o ferro ficaria 
sujeilo a ser rapidamente atacado pcla agua do mar, e a sua 
destruicao seria rapida, em todos os pontos, onde por qual- 
quer circumstancia ficasse a descoberto. sr. Oudry, pelo 
seu processo, consegue depositar galvanicamente o cobre nao 
immedialamente sobre o ferro , mas sobre um inducto, ap- 
plicavel a frio, muito adherente, e estabclecendo separaeao 
enlre os dois metaes. Esle mesmo methodo e perfeitamente 
applicavel aos navios de madeira , que lanlo necessitam de 
um forro de cobre , c a que sem o inducto do sr. Oudry 
nao seria possivel, sem grandc difficuldade, applicar o metal 
por galvanoplastia, Os navios cobertos com o inducto, c met- 
lidos n'uma caldeira perfeitamente fechada , c onde esteja 
uma dissolucao de sulfalo de cobre, cobrcra-sc de uma capa 



.')0 ANNAES 

d'esle metal em poucos dias, logo que so cstabclcca a cor- 
retile eleclrica. cuslo d'esle proccsso, o mais porfeilo do 
lodos para forrar do cobrc os navios , 6 pouco elevado , e 
calcula-sc proxiinamcntc cm novo mil reis por metro quadra- 
do. Esla descoberta ticha na industria muitas e interessan- 
tes applicacoes ; hoje o ferro fundido , por exemplo , appli- 
ca-sc em pccas de grandes dimensoes, fontcs monumentaes, 
estatuas , gradarias, comportas de canaes etc. ; para evitar 
rapida ruina, usa-se pintal-as, operacao que eneccssario re- 
novar muilas vezes, e que esla longe de ser de uma elTica- 
cia completa ; o uso da galvanoplastia resolve o problema, 
e da a eslas pecas uma duracao indefmida, e ate uma bel- 
leza inconleslavel. 

{Continua.) 

JOAO DE AMDRADE COR\0. 



1)\S SCIENCIAS E LETTRAS. 



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OHSKllVATOniO MFTEREOLOGICO DA 
ESCHOLA POLYTKCHMCA. 

RECAPITL'LACAO ANNUA DE (1855). 



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OBSERYATORIO METEREOLOGICO DA 
ESGHOLA POLYTECHNIC A. 



RECAPITULACAO ANNUA (DE 1855). 



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KSCHOLA POLVTECIINICA. 

RECAPHILMAO ANNUA (DE 18.j5). 



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Dezembro d 
Janeiro de 
Fevcreiro . 
Marco .... 

Abri'l 

Maio 

Junho .... 

Julho 

Agoslo. . . . 
Sctembro. . 
Outubro . . 
Novembro. 








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PUBLICADOS DEBAIXO DOS AUSPICIOS 



ACIDEMIA REAL DAS SCIENCIAS. 



SCIENCIAS MATHEMTICAS, POYSICAS, HISTORICONATCRAES, E MEDICAS. 



TOMO I. 

PRIMEIRO ANNO. 

ABRIL DE 1857. 



LISBOA 

Nl TYPOGRAPHIC DA MESJIA ACADEMIA 

1857 



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INDICE 

DOS ARTIGOS CONTIDOS n'eSTE M'MERO. 



TRABALHOS APRESENTADOS A' ACADEMIA. 

PAG. 

EXTRACTO (la Memoria do sr. Beirao lida a Academia 
Real das Sciencias , que tern per titulo = Algumas 
coDsideracoes acerca das restriccoes a que e neces- 
sario sujeilar a cultura do arroz, a fim de conciliar 
a maxima utilidade d'esla industria agricola com o 
menor risco para a salubridade publica. = . . . . o") 

RELATORio sobre oestudo do oleo derecino ealcool ca- 
prylico feilo por Mr. Jules Bouis 70 

NOTICIAS SCIENTIFIGAS. 

ALUMIMO 80 

REVISTA ESTRANGEIRA. 1838 101 

OBSERVATORIO METEOROLOGIGO DA ESGOLA ^OLYTECHNICA . Hi 



DAS SCIENCIAS E LETTR.VS. 58 

TRABALHOS APRESENTADOS A ACADEMIA. 



EXTRACTO 



MEMORIA DO SENHOR BEIRAO 

LIDA a' ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS , QUE TEM POR TITULO = 
ALGUMAS CONSIDERACOES a'cERCA DAS EESTRICCOES A QUE e' tiE- 
CESSARIO SUJEITAR A CULTURA DO ARROZ, A FIM DE CONCILIAR A 
MAXIMA UTILIDADE d'eSTA INDUSTRIA AGRICOLA COM MENOR RIS- 
CO PARA A SALUBRIDADE PUBLICA.= 



estudo que o auctor tem feito sobre esta materia, o exa- 
me miniicioso , a que procedeu , sobre lodos os dados olTi- 
ciaes que o governo possue ; e finalmente a decisao da Aca- 
demia julgando a Memoria digna de ser impressa nas suas 
colleccoes , sao garanlias sufficienles da importancia do as- 
sumplo, e da maneira cuidadosa por que foi tralado. 

auclor da 3Iemoria, depois de referir a opiniao deto- 
das as commissoes creadas nos diversos districlos onde ex- 
iste cultura d'arroz para darem sua opiniao acerca da inno- 
cencia, ou nocividade d'esta cultura ; depois de fazer egual 
exame aos relatorios apresentados por todas as commissoes 

Tom. I.-AcBii. DE 1857.-1.' Classe. 5 



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filiaes nos divcrsos concclhos do dislricfo adminislralivo de 
Lisboa ; apresenta urn niappa cslalislico , cxlrahido d'cstcs 
Irabalhos ofliciacs , que ajuda a resolver de uma maneira 
pratica muilas das questOes de hygiene publica , e de poli- 
cia niedica , relalivas aos arrozaes , concluindo a sobredila 
Memoria com alguns corollarios onde a opiniao do auctor ap- 
parece bascada sobre todas aquellas informacocs. 

E , sobre ludo , licerca d'estes corollarios que nos cha- 
manios espccialmcnle a attencao dos nossos leitores , apre- 
senlando-Ilie aqui asprincipaes consequencias, lacs quaes se 
enconlram na citada Memoria. 

Assim, por exemplo, com relacao a dislancia que deve 
haver enlre os povoados c as searas d'arroz , diz o auctor ; 

« A distancia absoluta que deve medear entrc o arrozal 
e a povoacao tem sido , na legislacao dos diversos paizes , 
marcada de differentes modos ; umas vezes lendo relacao a 
maior ou menor populacao, scguindo essa dislancia a razao 
direcla d'essa populacao, como no Piemonte ; oulras vezes 
a dislancia e calculada pelo resultado das experiencias ac^r- 
ca do rayo d'influencia que se lem altribuido a cullura do 
arroz. Diremos com franqueza que a primeira base c desti- 
luida de loda a razao scientifica , e tem so a seu favor um 
motivo utililario que nos parece pouco conforme com o z6- 
lo e desvelo que a lodo o governo compete acerca da saude 
publica , tanto das grandes como das pequenas povoacoes : 
a segunda base c summamente arbilraria , porque os faclos 
observados devidamenle ainda nao provam ate onde se es- 
tende o rayo da supposla accao malefica dos arrozaes, Por 
conseguinte a distancia absoluta, que deve medear do arro- 
zal ao povoado , ou nao deve marcar-se, ou, a marcar-se, 
nao passa de uma fixacao diclada antes pela necessidade da 
creacao de um minimo preciso e indispensavel, do que por 
forca de razoes hygienicas, fortes e concludentes. 

« Mas algumas consideracoes locaes podem fazer com que 



DAS SCIENCIiS E LETTRAS. 5*7 

essa (lislancia seja ainda menor do que aquella que geral- 
mente searbitrar para collocar asdiversas povoacoes a abri- 
go da supposta accao infecciosa dos arrozaes. Se uma mon- 
tanha , se uma floresla se achar enlreposta ao arrozal e ao 
povoado, a cultura d'esla graminea pode fazer-se niuilo pro- 
xima do cenlro da povoacao sem risco algum, porque n'es- 
se caso o obslaculo mechanico mellido entre a seara do ar- 
roz 8 a povoacao impedira que as correnles do venlo tragani 
do arrozal para os habilantes das povoacoes mais proximas 
OS efluvios mephiticos n'elle desinvolvidos. E o mesmo que 
se tern observado com os panlanos , e com outros focos in- 
fecciosos. 

« A direccao dos ventos nos mezes que decorrem d'a- 
gosto a oulubro e uma oulra circumstancia, que deve fazer 
variar muilo a dislancia do arrozal ao povoado. Se ex- 
ceptuarmos a opiniao singular e iiisustenlavel de Parent- 
Duchdlelet sobre a innocencia da athmosphera dos panla- 
nos e dos charcos , todos os oulros auclores de hygiene 
publica desde Varrdo , Columella, Vitruvio , e Land- 
si ate Rigaud de Lille , Moscati , e Tardieu , lodos con- 
cordam que , seja qualquer que for a materia de natureza 
especial que pode produzir o miasma, este e sempre possi- 
vel condensar-se mais ou menos , e produzir seus terriveis 
effeitos com maior ou menor energia, bem como ser levado 
pelas correnles dos venlos amaiores ou menores distancias, 
infeccionando, em quanto conserva cerlo grau de condensa- 
pao, OS seres vivos que respiram esse ar assim empregnado, 
inclusivamente alguns vegetaes (C. Gasparin) : esla doutri- 
na, ou antes, esta consequencia dos factos mais bem averi- 
guados em todas as partes do mundo, trouxe comsigo a de- 
signacao de area catlim aquella localidade ate onde se es- 
tende o rayo da accao malefica da athmosphera paludosa. 
Na Asia as margens do lago Elton , e do Aral ; na Africa 
OS panlanos do Senegal ate a Gafreria , e o Delia do Nilo ; 



5 * 



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na America a omhocadura do Mississipi, c os lagos dos Es- 
lados-Unidos ; c iia Eiiropa a Escossia , a Irlanda , S. Pe- 
tcrsbourgo, Roma c Veneza , confirmam dcsgracadamcnlc a 
exislencia d'osia fimesla area. 

« A logislacao, por consequencia, quando marcar a dis- 
lancia a que os arrozacs podem ficar das divcrsas povoacoes, 
deve altender forcosamenle a esla circumslancia ; cpor isso 
essa dislancia devera ser maior quando as povoacoes ficarcm 
aS. ou aN.O. dosarrozaes, emenor quando cstiverem aN. 
ou a E. , por isso que os vcntos mais conslantcs em Portu- 
gal, n'aquclles mezes, sao os do quadranlc dc N. a E. Al- 
deagallega, as Rilvas, Alcochele, eCarroca d'Alva sao, en- 
tre oulros, exemplos que se podem adduzir. 

« Se por Ventura qualquer lavrador quizer converter urn 
pantano, um charco, um sapal, n'uma seara d'arroz, n'es- 
se caso a legislacao dcve ate favorecer essa empreza agrico- 
la, ainda que o arrozal fique mesmo as porlas dos morado- 
res do povoado ; porque, por muito vicioso que seja o me- 
Ihodo de cullura adoptado para o arroz cm qualquer locali- 
dade , muito peior para a saude d'esse povo e o charco, o 
pantano, e o sapal : Alcacer do Sal e um documenlo irre- 
Iragavel d'esta verdade ; os pantanos, e sapaes das margens 
do Sado foram convertidos em searas d'arroz por alguns la- 
vradores d'aquella villa , e desde logo o estado de salubri- 
dadc da populacao foi outro absolutamente ; o numero dc 
sezoes , e o dos obitos annuaes , com relacao a populacao , 
baixou logo consideravelmente ; e nole-se que a cullura do 
arroz n'este concelho lem apenas dez annos de duracao. 

«Mas no que sera necessaria toda avigilancia e impar- 
cialidade da parte das auctoridades locaes , e na confeccao 
dos rcgulamentos pelos quaes se hao dc dirigir, e no mode 
de classificar bem e precisamente o charco e o sapal, e que 
nao vao por abuse, ou patronato , permiltir que se conver- 
tam em arrozacs , nao esses focos permancntes d'infeccao , 



DAS SCiENCIAS E LETTRAS. 5*9 

nias sim varzeas e campinas que podcriam servir para ou- 
tras ciilfuras innoccnlissiraas , mas miiilo menos lucralhas 
do que os arrozaes : porque esla ambicao desenfreada de lucres 
espanlosos, e que lem, per abuse oudesleixo das auctorida- 
des, feito com que povoacoes salubres se tenham tornado in- 
hospitas, c com que algumas vezes a populacao lenha feilo 
justica por suas proprias maos, o que e sempre anarchico e 
inloleravcl. 

« direilo, porlanlo, de propriedade, que tao ousada- 
damente se invoca, niio podera ser exercido, quanlo a esla 
cmpreza agricola, sem algumas reservas, ou reslricc(5es, fei- 
las em beneficio da coramunidade , e para manlcr o eslado 
mais lisonjciro que fur possivel da salubridade dos povos ; 
objecto esle que nao pode deixar de mereccr a mais desve- 
lada soUicilude da parte dos governos, e ao qual devem ser 
sacrificados , dentro dos limiles do juslo , os lucres , por 
maiores que sejam, que possam provir da cultura doarroz, 
quer aos parliculares, quer ao fisco. Seri'a mesmo facil de- 
monstrar que uma industria qualqiier , por mais lucrativa 
que fosse , augmentando a insalubridade de um paiz , dizi- 
mando seus habitantes, eimpossibilitando outros para o Ira- 
balho denlro de um curto espaco de tempo, lornaria esse es- 
lado pobre e miseravcl , porque Ihe roubava d'uma manei- 
ra singular a mais copiosa fonte da sua riqueza — o agente 
do trabalho. E por isso nao so os principios humanitarios , 
mas ate os economicos , dictam e ordenam imperiosamenle 
taes restriccOes. » 

Mas na verdade a innocencia do arrozal depende cs- 
sencialmente do proccsso da rega ; esla e a opiniao do au- 
ctor da Memoria, que a enuncia do seguinte modo, 

« E sobre o modo das errigacoes que a auctoridade local 
deve ser exercida com a maior vigilancia, e com o mais e- 
nergico rigor. E o processo de rega, aquantidade da agua, 
seu esgoto c renovamento o que influe decidlda c exclusi- 



60 ANNAES 

vamcule sobrc a salubridadc ou insalubriiladc do arrozal. E 
esla uina con> icciio profunda a que chegsiinos dcpois do cs- 
ludo que havcmos fcilo acerca do objecto , e dcpois , sobre 
tudo, dalcilura e nicdilacao dos diversos relatorios parciacs, 
que fazcni a parte mais imporlante d'esia Memoria. 

« Quanto mais o arrozal se aproxima das condicoes do 
panlano pelo \icioso nielhodo dc sua irrigacOio , lanto mais 
nociva c a saude pubh'ca acultura do arroz. arrozal nao 
se pode considerar como foco d'infec^ao senao quando a sua 
irrigacao dcixa de ser feita segundo os principios da scien- 
cia. Diversas causas influcm para que o arrozal se convcr- 
la n'um foco d'infeccao paludosa ; mas duas sao , quanto 
a nos, as principaes : falta d'agua, e mau methodo no pro- 
cesso d'irrigacao ; o mau methodo no processo d'irriga- 
cao pode provir, ou de ignorancia do lavrador, ou de mcs- 
quinhcz no grangeio da sua scara. Quando a vistoria de- 
monslrasse que a agua de que o lavrador podesse dispor pa- 
ra a irrigacao do seu arrozal nao fosse a sufBcienle para o 
irrigar pcriodicamente , e que os alagamentos nao podiam 
deixar dc conservar sempre a mesma agua sem renovacao , 
e de mais a mais com pequena allura (algumas pollcgadas) 
taes culturas d'arroz deviam ser absolulamente prohibidas ; 
mas quando o arrozal , lendo agua sufficienle , se lornasse 
um foco d'infeccao por ncgligencia , ignorancia , ou indcs- 
culpavel ambicao do lavrador, clle deveria ser coegido aa- 
manhar o arrozal em conformidade com os preceilos dos rc- 
gulamentos policiaes , que previamenle se Ihe deviam com- 
municar. 

« estudo d'esia imporlante qucslao torna evidenle quo 
as irriga^oes fcitas por corrente continua , por corrente in- 
Icrmillente , mas denlro em periodos curios , e por infillra- 
cao, sao innoccntcs para a saude publica ; mas que a irri- 
gacao por eslagnacao e summamente nociva, nao so a sau- 
de dos Irabalhadorcs cmpregados no grangeio do arroz, mas 



DAS SCIENCIAS E LETTRAS. 61 

iwesmo a dos habilantes mais proximos doarrozal. fincces- 
sario comludo advcrtir que os primeiros Ires proccssos d'ir- 
rigacao, poslo que innocentes em si, podem tornar-se noci- 
vos em virlude do desprezo , que pode dar-se , d'um cerlo 
numero de circumstancias que os fazem apro\imar-se da ir- 
rigacao por exlagnaciio ; taes sao, por cxemplo, a ma col- 
locacao e direccao dos alagamcntos, uns a respeito dos ou- 
tros , que pode fazer com que a agua se nao renove junto 
dos seus angulos , e so no meio , o que produz a putrefac- 
cao das substancias organicas n'essas paries onde a agua se 
conserva eslagnada ; o deposito onde a agua, que ja serviu 
a irrigacao, nao tiver esgolo, e for muilo proximo da sea- 
ra , que faz que esse deposito seja um verdadeiro panla- 
no ; a natureza do sub-solo nos arrozaes regados especial- 
mente por infiltracao, podendo fazer, pela sua impermeabi- 
lidade, com que a agua com os detriclos putridos seja con- 
duzida por infdtrac3o subterranea a longas distancias , pro- 
duzindo bastantes dos males das aguas encharcadas. 

«E tambem necessario advertir que a agua que tem de 
servir a rega dos arrozaes nao seja uma mislura d'agua do- 
ce com a agua salgada ; porque n'esse caso o arrozal par- 
licipara de toda a malignidade dos panlanos que conteem 
a mistura das duas aguas, e que sao os mais nocivos para 
asaude: em Portugal da-se este inconveniente n'alguns con- 
celhos cullivadores d'arroz. 

« Quando o arrozal e regado por agua correnle periodi- 
camente, os combros devem ser mais altos, e a quanlidade 
d'agua conlida nos alagamentos deve chegar a uma altura 
muito maior do que aquella onde deve chegar quando o ar- 
rozal e regado por agua corrente, pois que nas aguas esla- 
gnadas a accao do calor solar favorece a pulrefaccao das 
substancias organicas so ate certa profundidade ; ora , se a 
essa profundidade a accao solar enconlra ja o solo coberto de 
diversas substancias organicas, a pulrefaccao tera logar n'u- 



62 ANNAES 

ma maior cscala, c a accao niorbifica tl'essc arrozal sera niui- 
to analoga a dos sapaes ; inconvcnicnlc que se nao da no 
mclhodo d'irrigacao contiiuia, ou pcrenne. 

« Por incidenle diremos que , a \ista de todas cslas re- 
flcxoes c circumslancias, se deixa ytr a ulilidade e absolu- 
la necessidade da instruccao agricola , creando lavradorcs 
esclarecidos que nao so cullivem as suas terras scm prejui- 
zo da saude publlca, mas de quern o governo se possa ser- 
\ir para a exccucao das suas ordens n'esle e n'oulros as- 
sumplos de policia agricola. Eu espero confiadaniente que , 
passados alguns annos, quando o Insliluto Agricola de Lis- 
boa liver disseminado pelo paiz umavultado numero desous 
alumnos , a cultura do arroz , bem como todas as praticas 
agricolas, se exccutarao com lal grau de perfeicao , e com 
lanta racionalidade , que a accao do governo quasi que se 
podera dispensar para este e para oulros muitos ramos d'ap- 
plicacao rural. Nao 6 esta de cerlo a menor vanlagem al- 
cancada por esta insliluicao, que tantas difficuldades e tan- 
tas contradiccoes tem vencido ! » 

Depois d'estas duas circumslancias, referindo-se o auclor 
anatureza do solo, sobre oqual assenta o arrozal, conliniia : 

« Depois de lodas as consideracoes e reslriccOcs que de- 
vem serfeltas acullura do arroz, quanto adistancia em quo 
arrozal deve flcar do povoado, e quanto as regras que so 
devem seguir no processo da irrigacao , deve a auctoridade, 
por meio de vistorias de peritos, conhecer qual e a natureza 
do solo e do sub-solo da localidade onde tem de se estabe- 
lecer o arrozal : a experiencia tem demonslrado, e a scien- 
cia confirmado, que os solos calcareos, com sub-solos mais 
ou menos permcaveis, sao aquelles onde os arrozaes se po- 
dem eslabcleeor , e por consequencia permitlir com menor 
risco para a salubridade publica ; circumslancia esta que 
pode e deve modlficar , ale certo ponto , as restriccoes im- 
postas c roclamadas pelas oulras consideracoes. » 



DAS SCIENGIAS E LETTRAS. 63 

aiictor da Memoria liga grande imporlancia a hygie- 
ne do Irabalhador, entendendo que a infeccao miasmatica 6 
tanto menor quanto melhor e a condicao hygienica d'aquel- 
le, e dos habitantes das proximidades do arrozal ; assim diz 
ainda o mesmo auctor : 

« A hora do dia em que o trabalho da cultura do arro- 
zal, especialmenle a monda e a ceifa, deve principiar eaca- 
bar, e urn objeclo de tanla importahcia , que nao deve es- 
quecer nos regulamcntos que houverem de se fazer para a 
cultura do arroz. A experiencia tern denionstrado constante- 
mcnle que o espaco do dia que dccorre desde o comeco do 
trabalho ate que o sol nasca, e aquelle que vai desde o seu 
occaso ate que o trabalhador largue o trabalho, sao os dois 
periodos do dia em que a infeccao miasmatica do arrozal se 
\erifica com maior intensidade , e que ataca um maior nu- 
mero de individuos. Nas localidades nimiamenle sazonaticas, 
as pessoas que , pela sua posicaio social , ou pela sua pru- 
dencia , nao se expoem tanto n'estas duas epochas do dia , 
sao tambem aquellas menos accommettidas das febres inter- 
mittentes e paludosas. Esta circumstancia e evidentemente 
reconhecida nas nossas possessocs africanas, onde reinam en- 
demicamente estas febres. A sciencia tem-se encarregado de 
dar umaexplicacao satisfactoria d'este facto. Sendo pois isto 
assim como acabamos de referir , e da maior utilidade que 
OS regulamcntos que houverem de se fazer , para evilar os 
males provenientes da cultura do arroz , previnam esta hy- 
pothese , ordenando que os Irabalhos d'intretenimento das 
searas so possam principiar uma hora depois do sol nasci- 
do, e acabar uma hora antes do seu occaso. 

« Mas , relativamente a hygiene do trabalhador, que sc 
emprega na cultura do arroz , nada ha que tcnha uma in- 
flucncia tao decidida sobre a sua saude como a qualidade 
da agua que elle bebe. Muitas vezes se tem attribuido a in- 
fluencia do arrozal o que e simples c unicamentc efFeilo da 



6i A.NNAES 

pessima agua de que usam os desgracados trabalhadores da 
cullura do arroz : esla circunislancia verifica-se nao so com 
relacao a csta cultura , mas a respcito de outras que Iccm 
iogar em algumas povoacoes do Sul do Tejo, c com espccia- 
lidade nas Icsirias, no tempo das ceifas. D'este modo nos ve- 
mos que nos concelhos de S, Thiago do Cacem, de Cezim- 
bra , e da Moila e Alhos Vedros , a ma qualidade da agua 
que bebcm os Irabalhadores dos arrozaes concorre lao pode- 
rosamente para a manifestacao das febres inlermiltenles de 
que estes desgracados sao viclimas , como a propria infec- 
cao paludosa dos alagamenlos do arroz quando o processo 
d'irrigacao e vicioso, e feilo contra todos os preceitos da 
sciencia. Nas lesirias do Ribatejo tem-se observado milhares 
de vezes que os trabalhadores sujeitos as mesmas causas in- 
fecciosas sao comludo accommellidos, ou nao accommellidos, 
das febres intermitlentes, segundo elles fazem uso , ou dei- 
xam de fazer , da agua encharcada do campo para beber. 
Uma bilha d'agua potavcl trazida d'uma localidade diversa 
d'aquella onde tem Iogar o trabalho basta muitas vezes para 
preservar estes desgracados d'uma moleslia que , Irazcndo 
apos si a cachexia paludosa, os impossibilita para sempre da 
adquisicao dos meios de sua parca subsistencia ! traba- 
Ihador dos nossos campos , o mallez propriamente dito, e o 
homem mais infeliz, e mais desconsiderado que se pode ima- 
ginar , trata-se com muito mais cuidado d'um boi, ou d'uma 
besla, do que d'estes desgracados que, por ignorancia pro- 
pria , e por deshumanidade indcsculpavel dos proprietarios 
da terra , raras vezes attingem a virilidade dolados de boa 
saude ! » 

« A ultima providencia que lembraremos, como da maior 
imporlancia para tornar innocente a cultura do arroz , vem 
a ser a do cuidado na hygiene do trabalhador empregado 
no grangeio do arrozal : alguma coisa jd disscraos a este res- 



DAS SCIENCIAS E LETTRAS. 65 

peito, fallando da agua que bebeni os Irabalhadores dos ar- 
rozaes, e geralmcnle os das lesirias ; mas e necessario cui- 
dar de mais alguma coisa do que da agua que bebeni esles 
desgracados. Urn grande numero dos relalorios que tcmos 
examinado, sao uniformes em declarar que a experiencia de- 
monstra que o Irabalhador empregado na cullura do arroz 
esta tanlo mais abrigado da accao mephilica dos miasmas 
panlanosos quanlo mais salubre e mais restaurante e a sua 
suslenlacao , quanlo mais dislante fica do arrozal , quanlo 
mais bem reparado anda , e quanlos mais commodos goza 
em sua casa, no cenlro da sua pobre familia ; e que, pelo 
contrario, o mallez que nao esta ainda acliraalado, que vi- 
ve miseravclmenle, que dorme na casa de malla, mal cober- 
lo, e sem alinho ou conforlo algum, passando mesmo algu- 
mas noiles, no tempo da ceifa, no proprio campo , exposto 
a todas as vicissitudes alhraosphericas , esse infelizmentc e 
pr^sa das febres inlermillenles e paludosas , as quaes chega 
a conlrahir repetidas vezes no mesmo anno, acabando quasi 
sempre pela cachexia paludosa, tao conhecida nas margens 
do Tcjo, do Sado, e do Mondego. 

« Se a legislacao obrigasse a pagar maiores salarios aos 
Irabalhadores do arrozal, ou se o dono da seara fosse obri- 
gado a minislrar aos Irabalhadores d'esta cullura, especial- 
menle no tempo da monda e da ceifa, uma boa alimentacao, 
e mesmo alguma bebida alcoolica, o vinho por exemplo , eu 
eslou convencido que a saude do Irabalhador do arrozal nao 
teria nada a soffrer, ou soffreria muito menos do que actual- 
menle sofFre , e os lucros da cullura do arroz sao taes que 
podem muito bem com lodas estas despezas. N'algumas lo- 
calidades , onde a cullura do arroz e feita menos empirica- 
menle, tem-se nolado que os Irabalhadores do campo gozam 
de melhor saude e de melhor apparencia , depois da intro- 
duccao d'esta cullura ; e a razao c porque os desgracados 
Irabalhadores, alcancando melhorcs salarios do que anterior- 



66 ANN.VKS 

menle tinhani , ficnm por isso nas circunislanclas de sofficr 
menos privacocs do que soffriam antes da cultura do arroz. 
Tanto pode a hygiene ! 

« Taes sao as consideracocs que o estudo aturado d'esia 
qucsliio, e exame escrupuloso e desprevenido dos diversos 
relatorios feitos ac6rca da cultura do arroz, com referenda a 
saude publica, me suscitaram, e que tcnho o prazer d'apre- 
sentar como base d'uma legislacao racional e esclarccida 
acerca d'um assumpto tao transcendente. » 

Finalmente a 3fcmoria que exlraclamos acaba com a re- 
commendacao de duas praticas agricolas as quaes o auclor 
suppoe estar ligada ate certo ponlo , a inocuidadc do arro- 
zal; eslas duas praticas sao — 1.' a de alqueivar o arrozal 
logo depois da ceifa — e 2/ a de fazer a cultura do arroz 
por meio de afolhamentos de dois ou mais annos. 

Eis-aqui como o auctor se expressa : 

« Ha dois assumplos praticos na cultura do arroz de que 
a legislacao, que deve regular estaindustria, se deve encar- 
regar e ordenar ; e vem a ser o alqueive do arrozal depois da 
colheita, e a pratica dos afolhamentos na dircccao d'csta cul- 
tura. Pelos relatorios que exlractamos e commentamos n'es- 
la Memoria se deixa \cr que em multas localidades a epo- 
cha em que apparece maior numero de febres miasmaticas, 
em volta dos arrozaes, e logo depois da ceifa : duas razoes 
explicam satisfactoriamente esta coincidcncia , e provam ao 
mesmo tempo que nao e propriamente n'esta planta , nem 
n'esta cultura, que exisle o quid especial que desinvolve as 
febres ; mas sim que as endemias das visinhancas dos arro- 
zaes dcpendem simples c cxclusivamcnte do mau methodo 
da cultura, e do pcssimo systema da irrigacao , que o faz 
aproxlraar das circumstancias do pantano e do charco : cs- 
sas duas razoes sao : — primeira — o ficarcm os alagamen- 
tos do arrozal quasi em secco, e mesmo em sccco, e por conse- 
qucncia os delrictos animacs cvegctacs, qucn'cllesexistiam. 



DAS SCIENCIAS E LETTRAS. 67 

em circumslancias muilo favoraveis para apodrecereni, e islo 
nos mezes d'agosto e setembro debaixo da accao de uni sol 
abrasador : segunda — o sobrevirem as primeiras agiias do 
outono achando os alagamentos feitos, e os comoros Icvanta- 
dos ; e per isso a agua eslagnando produz os mcsmos effei- 
tos dos charcos e dos panlanos ; easfebresautumnacs sao o 
resultado d'esta incuria, e d'este desleixo agricola e hygie- 
nico. Os regulamenlos, porlanto, devem prevenir esle gran- 
de mal, e esta poderosa causa d'insalubridade publica , or- 
denando os alqueives scguidos o mais proximamente que for 
possivel a ceifa dos arrozaes, 

«Em alguns concelhos productores d'arroz ja se observa 
esta boa pratica, como em Alcacer do Sal ; porem como el- 
la torna o amanho do arrozal mais despendioso e por isso 
que nao tem sido seguida em toda a parte ; mas logo 
que OS lavradores se convencerem, o que e facil, que o al- 
queivar cedo e retribuido largamente pela colheita futura , 
elles , por seu proprio interesse , e independentemente das 
consideracoes hygienicas, o farao. Este alqueive, misluran- 
do com solo o fundo dos alagamentos, ricos em materias 
organicas , e quasi turfosos, sera um poderoso adubo para 
as terras, adubo que perdera toda a sua energia e fertilidade 
deixando-o esterilisar por uma evaporacao longa e inutil, e 
alem d'isso a camada mais profunda do solo tera mais tem- 
po para se meteorisar , e por isso no anno seguinte nao se 
encontrara crua, e como tal improductiva. Por outro lado, 
se alqueive nao destroe , logo depois da ceifa , os alaga- 
mentos, estes com as primeiros aguas do outono, enchem-se, 
e reassumem o caracter de verdadeiros charcos , os quaes 
tendo entao, alem de todos as outras substancias organicas, 
orestolho que ficou da seara ceifada, dentro em pouco tem- 
po se tornam um foco poderosissimo d'infeccao. Mas sera 
sempre possivel alqueivar logo depois da ceifa , nos mezes 
d'agosto e selembro? A nalureza do solo, omodo por que o 



C8 ANXAFS 

anno correu, c a qualidadc dos inslrumenlos agricolas ado- 
plados pelo lavrador, e que hao do rcsolver a duvida ; com- 
ludo, esta ultima circumslancia, machinas aratorias apcrfei- 
coadas, e urn podcroso mcio de rcsolver convenienlcmenle, 
nilo so esta, mas oulras muitas difticuldadcs agricolas : oxa- 
la que o seu conhccimenlo eslivcsse mais \ulgarisado pelo 
paiz, onde rcsta a fazcr tudo n'estc scnlido. 

« Uma outra providencia, que nao dcvc csquecer na Ic- 
gislacao que tiver de regular a cullura do arroz, \cm a ser 
a de obrigar o cultivador a fazer as searas do arroz por raeio 
de folhas, ou pelo systema chamado alterno. Ligamos a esta 
disposicao summa imporlancia. Se os nossos agricullores ti- 
vessem pleno conhecimcnto da sciencia que professam, e dos 
seus verdadeiros interesses, a cullura do arroz eslaria ja ha 
muito sujeita ao systema alterno , independentemente das 
vantagens que d'esse systema podem resullar para a saude 
publica : um systema de cultura que nao cansa jamais a 
terra, e que a fertilisa constantemcnte, nao deve ser regei- 
tado, nem esquecido, quando a agricultura se considera eco- 
nomicamente ; mas o nosso proposilo e tralar d'esle systema 
de cultura, com relacao ao arroz, pelo lado hygienico, e da 
salubridade publica. Se a cultura do arroz necessariamente 
ha de fazer com que alguns mezes do anno o lerreno conle- 
nha OS alagamentos com agua estagnada, espccialmente quan- 
do a rega niio e feita por agua corrente, e evidente que no 
systema de folhas, ou scja biennal, tricnnal, ou quadriennal, 
a mcsma supcrficie de terreno deixara de ofTerccer esta qua- 
lidade semi-paludosa um anno, dois annos, ou tres annos, 
conforme a alternacao f6r de dois, tres, ou quatro annos ; e 
por isso OS inconvenientes que a saude publica causam os 
arrozacs \eriricar-se-hao menor numero de vezcs n'um dado 
periodo. Mas , redarguir-nos-hao dizendo : primo ; alguns 
terrenos destinados para os arrozaes, os panlanos, os sapaes, 
nao sao proprios para outras culluras : secundo ; e se nos 



DAS SCIENCIAS E LETTRAS. 69 

annos em que se nao cultivar o arroz o lerreno nao deixar 
de ser um pantano, a saude publica nao so nao melhorara, 
mas peiorara , segundo os nossos principios. Reflectiremos 
porem que terrenos so proprios para uma especie de cultu- 
ra nao se conhecem : os melhoramentos feitos ao solo pelos 
diversos processos da sciencia criam aptidoes para culturas 
ate enlao desconhecidas ; mas quando o sapal, ou o panta- 
no, deixa de se fabricar para o arroz, e fica de pousio co- 
mo pantano, ou sapal, entao, com lal negligencia e despre- 
zo de todos os bons principios e uteis praticas, diremos que 
mais vale o arrozal constante. Porem quando a sciencia agri- 
cola estiver divulgada e generalisada pelo nosso paiz, quan- 
do iavrador souber conciliar a pratica esclarecida de seus 
avos com os progressos seguros e firmes das doulrinas agro- 
nomicas, espero eu que se nao facam d'eslas objeccoes, fi- 
Ihas da insciencia e da ambicao illimitada dos seareiros. » 



70 ANNAF.S 



RELATORIO 



SOBRE ESTUDO CHIMICO DO OLEO DE RICINO E ALCOOL 
CAPRYLICO FEITO POR Mu. JULES BOUIS. 



RELATOR — J. M. DE OLH EIRA PIMENTEL. 



Us iniporlanles trabalhos de Mr. J. Bouis, offerecidos como 
litulo de admissao para socio correspondenle d'esla Acade- 
mia , teem por objcclo o estudo chimico dc materias que 
nao so interessam a sciencia , mas que sao lambcm para 
nos, corao possuidores de extensas colonias na Africa, e na 
qualidade de habitanles do Meio-Dia da Europa, objecto da 
maior imporlancia industrial. 

Versam csles trabalhos sobre as propriedades e compo- 
sicao chimica do oleo de ricino , sobre o alcool caprylico , 
que d'elle se obtem, sobre o oleo de purgueira, e finalmen- 
le sobre o sebo vegetal da mafurra, que Mr. Bouis estudou 
conjunctamenlc comigo. 



DAS SCIENCIAS E LETTRAS. 71 

D'estes trabalhos o mais completo, o mais extenso, e o 
mais rico de factos inleiramente novos e o primeiro , e se- 
ra tainbem aquelle de que especialraente nos occuparemos 
n'este relalorio. 

esludo ou invesligacoes chiraicas sobre o oleo de 
rlcino e sobre o alcool caprylico, obtido por uma reaccao 
exlremamente notavel d'aquelle oleo , fazem o objecto de 
uma extensa Menioria, que serviu de these apresentada por 
Mr. Bouis a faculdade das sciencias de Paris. 

Mr. Bouis dividiu a sua Memoria em duas partes. Na 
primeira descreve as suas iuvestigacOes sobre o oleo de ri- 
cino , e indica com especialidade as reaccoes novas que 
obteve. 

Na segunda occupa-se da preparacao do alcool capryli- 
co, das suas propriedades, e dos composlos a que esta sub- 
stancia nova pode dar origem. 

Dividiremos tambem este relalorio em duas paries cor- 
respondentes as da Memoria , seguindo passo a passo este 
interessante estudo, para o fazer conhecido da 1.° classe da 
Academia, que tem de o julgar como tilulo de admissao. 



PRIMEIRA PARTE. 



oleo de ricino, extrahido das semenles de uma plan- 
ta da familia das euphorbaceas , que os bolanicos chamam 
ricinus communis , e a qua I tambem se dao os nomes de 
palma christi e de carrapaleiro, era ja conhecido e empre- 
gado em medicina desde epochas remolas. As suas proprie- 
dades singulares, e tao differentes das dos outros oleos , ti- 
nham attrahido a attencOio dos chimicos, e por isso foi este 
oleo objecto de Irabalhos nolaveis, entre os quaes, os mais 
recentes , sao os de Bussy , Williamson, Tilley e Playfair, 

Tom. I.-Abbii- de 1857. -I." Classe. 6 



7i ANXvrs 

que todos dies enriciueceram a hisloria d'este corpo com iio- 
\os faclos c obsenacoes imporlaiites ; porl^m dcixarani-na 
aiiida lao incomplela, que 31r. IJouis enconlrou no scu eslu- 
do largo canipo para investigacocs e dcscobrimenlos oxlre- 
niamenle interessantes. 

No Irabalho do Mr. Bouis cncontramos em primeiro lo- 
gar a indicacao das proveiiiencias e usos do oleo dc rici- 
no , e ale do emprego da planla c suas differcnlcs partes , 
mencionando , com parlicularidade , a applicacao moderna 
das folhas para iiutrir o bombix ci/nlia , de cujo casulo se 
comeca a extrahir uma cspecie dc scda , que pode vir aiu- 
da a ter consumo lao geral como o da seda ordinaria. 

Descrcvc depois Mr. IJouis as propricdades physicas do 
oleo ; c Icndo delerminado a sua composicao chimica , en- 
tra no csludo particular da accao dos diversos agenlcs , e 
das reaccoes novas a que o oleo foi submettido. 

Na aceiio do calor sobre o oleo de rlcino se enconlram 
logo circunistancias singulares dignas de nolar-se , porque 
sao caraclerislicas c excepcionaes. Assim todos os oleos gor- 
dos dao em geral, pela distil lacao , o acido sebacico. Entrc 
OS productos distillados do oleo de ricino nao apparece es- 
tc acido , e , que e mais notavcl ainda , este mesmo oleo 
fornece , por nieio dc uma reaccao particular, descoberla 
por Mr. Bouis, o acido sebacico com facilidade, como logo 
faremos ver. 

Na dislillacao s6cca do oleo de ricino , quando o aque- 
cimenlo se nao modera, obtem-se uma substancia esponjosa, 
elastica, inodora, insipida, pcgajosa e amarellada , o que 
nao aconlece com os outros oleos. Esta substancia, depois 
de lavada, apresenlou a Mr. Bouis uma composicao defini- 
da, que elle represenfa pela formula C' II" 0^ Com ella 
obteve saboes de potassa e de ammomia, e de cuja solucao 
na agua, precipitou urn sal de baryta insoluvel, e para o 
qual a analyse dcu a scguinlc formula : 



DAS Sr.lENCIAS E LKTTRAS. 73 






A formacao d'csla materia esponjosa pode c^itar-se nio- 
derando a distillacao do oleo, e, n'esse caso, os produclos 
sao OS que foram observados e dcscriptos por Mrs. Bussy 
e Lecanu. 

Estes produclos sao, ali'm dos gazes, urn oleo volalil, 
para o qual 3Ir. Bussy achou a composicao da aldehyde 
oenanthylica , e a que da o nome de mminlhol ; um acido 
gordo, solido, branco-Hacarado, que 6 o acido ricinico ; um 
acido gordo, liquido , que a ' coagula em massa cryslali- 
na , acido elaiodico ; e finalmcnie a agua e o acido acc- 
tico. 

Havia ja muilos annos que 3tr. Poutet linha dcscobcrlo 
facto imporlante da solidificacao dos oleos gordos nao si- 
cativos, quando tratados pelo azotato de mercurio, e sabre 
esta accao estabelecera elle um melhodo pratico para reco- 
nhecer a falsificacao dos oleos. Mr. Boudel mostrou depois 
que esle phenomeno era devido a accao do acido hypoazo- 
Uco, e estudando-o, em rclacao a diversos oleos, observou 
que oleo de ricino era , entre os oleos sicativos , o unico 
que se solidiftcava , e deu o nome de pahiina ao producto 
solido oblido por esle meio. 

Os alkalis Iransformam facilmenlc a palmina em acido 
palmico. Para nao confundir esles nomes com o de acido 
palmilico, extrahido do oleo de palma, Mr. Cierhardt e Mr. 
Bouis adoplaram os nomes de ricinelaidina e acido rkinc- 
laidico , que recordam a origem d'estcs corpos. 

Mr. Bouis esludou cuidaclosameDtc as pronriediulos c 

6* 



i i ANNAKS 

composicao do acido licinelaidico, do seu clher , e da rici- 
nelaidina, e, disculindo os trabalhos dos chimicos que o 
prcccdoi'aiu ou acompanharam n'cste esludo, eslabclece para o 
acido a formula G'*^ IF* 0' ; para o ether C'-^ H" 0% CMP 0; 
e para a ricinelaidina a formula G^* H'* 0'*, que se pode 
dcsdol)rar em dois equivalcnlcs de acido ricinclaidico, e um 
dc glycerina com perda de quatro equivaienles de agua. 



G'» H^* 0'* = 2 (G^^ H' 0*) -+-G« IV 0" — 4H0 



„. . , . ,. Acido ricine- r^ • „ 

Uicinelaidina , . ,. (jlycenna. 

laidico 



Sao tambem muito interessanles , debaixo do ponto de 
vista Iheorico, as observacoes de Mr. Bouis sobre a compo- 
sicao c reaccoes do (cnanlhol e da oenanlhyne, que d'esta 
deriva, pela accao do acido phosphorico anhydro. 

As propriedades singulares do oleo de ricino manifes- 
tam-se ainda de uma maneira notavel , na reaccao que so- 
bre elle exerce o acido azotico , que e inteiramente diversa 
da que esle corpo produz com os outros oleos e materias 
gordas. 

« Quando se faz actuar o acido azotico diluido sobre o 
oleo de ricino, a reaccao e ordinariamente viva, e e por is- 
so prudenle empregar rctorlas de grandes dimensoes. A ma- 
teria tumefaz-se e desinvolvem-se vapores nitrosos ; depois 
torna-se vermelha , espessa e mais densa do que o acido ; 
distilla cntiio um liquido conlcndo baslante acido cyanhydri- 
00 e acido (Dnanthylico que vem a supcrficie do liqui- 
do em forma de gotas oleosas. Accelerando rapidamenle a 
operacao, a quantidade do acido ananlhylico c considera- 
vel, e encontra-se, como residuo na retoria, um acido bran- 



DAS SCIENCUS E LETTR\S. 73 

CO, que apresenia a composicao e propriedades do acido su- 
berico. Se, pelo contrario, a reacciio caminha lenla, a pro- 
porcao do acido cyanhydrico e mais forte, e na retorla, an- 
tes que oleo se transforme em acido suberico, depositam- 
se cryslaes bem definidos, que lem a forma de folhas de fc- 
to como as do sal amraoniaco ; estes cryslaes sao duros, pou- 
co soluveis no alcool e na agua ; fundem-se pela accao do 
calor, tumefazem-se e desinvolvem vapores acldos que se vo- 
latilisam. » 

acido suberico 6 o mesmo que se oblem pela accao 
do acido azolico sobre a cortica. 

As indagaeoes de Mr, Bouis sobre a accao que as disso- 
lucoes alkalinas diluidas exercem sobre o oleo de ricino, 
confirmam em geral o que outros chimicos tinham ja obser- 
vado, e mostram claramenle que os acidos contidos n'esle 
oleo diflferem essencialmente dos que procedem da saponifi- 
cacao das outras materias gordas. 

lira facto curioso e inleressante resultou da observacao 
que elle fez sobre a transformacao do oleo de ricino em 
presenca do gaz ammoniaco. Mr. BouUay , tendo nolado 
que ammoniaco produzia com o oleo das azeilonas um 
amide derivado do acido margarico, ao qual dcu, por is- 
so , nome de margaramide , e obscrvando que outros 
oleos se comportavam com o gaz ammoniaco do mesmo 
modo , emittiu a idea de que a margaramide era um pro- 
ducto que se podia obter de todos os oleos em virtude da 
mesma accao ; porSm Mr. Bouis achou que o oleo de ri- 
cino dava, pelo mesmo processo, um amide particular, que 
denominou recinolamide. Mr. Carlet, que assistiu em par- 
te aos trabalhos de Mr. Bouis no laboratorio de Mr. Pcli- 
got, no Conservalorio das Artes, intcntou um estudo par- 
ticular sobre este objeclo, e obteve para os di versos oleos 
amides diversos. Este estudo ainda nao foi publicado . po- 
r6m uos ja vimos a colleccao d'estes amides , bem diver- 



7G ANNVE8 

SOS uns (los oulros ate pelos caractcrcs physicos, Pode, a 
visla il'eslos factos , gencralisar-sc o phenonieiio, c admil- 
tir que a cada corpo gordo iieulro corresponde urn amide 
particular. 

Mr. Bouis ^cri^lcou que o recinolamidc, saponificado con- 
Ycnicnlcmeiile , sc transformava em acido ricinolico. Esla 
parte do seu cstudo foi a mais fccunda em resultados intei- 
ramenlo novos , que o levaram a descoberta do alcool ca- 
prylico, e dc urn processo, extremamenle curioso e interes- 
sante , para prcparar cm grande escala , e ate debaixo do 
ponlo dc visla industrial, o acido sebacico. 

wQuando se aquece, diz elle, o ricinolamide com a po- 
tassa ou a soda muito concenlrada, chega um momcnto em 
que a materia se tumefaz e distilla um oleo volatil mais le- 
ve que aagua, gozando da aroma particular. » Este liquido 
e alcool caprylico. 

No sabao, quo fica na retorta , e que Mr. Bouis achou 
pela primeira vez o acido sebacico, o mesmo acido que Mr. 
Thenard tinha descoberto nos produclos da dislillacao das 
materias gordas. E note-se bem que o oleo de ricino e tal- 
vez unico em cujos produclos dislillados se nao encon- 
Ira este acido. Mr. Bouis verificou, por experiencias posi- 
tivas, que o acido sebacico nao existia no ricinolamide, mas 
era um producto da decomposicao do acido ricinolico em 
prescnca da polassa. 

As formulas cxplicam perfeilamcnle esta transformarao 
cm que o acido ricinolico se dcsdobra em acido sebacico, 
alcool caprylico c hydrogenio : 



C'« IP* 0*^4-1 (KO, HO) = C" I^O'H-C'^ IV O'-hi H. 

Acido rici- Sebacato de Alcool ca- 

nolico. polassa. prylico. 



DAS SCIENCI\S E LUTTRAJs. 77 

« Dcpois de ler verificatlo , diz o auclor da Memoria , 
que acido ricinolico, conlido no olco de ricino , expcri- 
mcnlava o dcsdobramenlo ]a racncionado , cu dcvia esperar 
que mesnio resultado se produzisse por mcio dc um pro- 
ccsso mais expedito, opcrando dircclanicnle sobre o oleo, e a 
experiencia confirmou a previsao. » 

« Ate hoje nao se preparava o acido scbacico senao pc- 
la dislillacao do acido oleico ou dos corpos gordos que con- 
teem a oleina. Esla operacao, repugnanle pelo cheiro, tern 
ainda o inconvenienle de nao produzir senao quanlidades 
niinimas de acido sebacico. meio, que eu emprcgo, per- 
niitle obtcr .rapidanientc cstc acido em grande quantidadc 
e no eslado de pureza. N'este processo o cheiro desagra- 
davel dos corpos gordos em decomposicao 6 subsliluido pe- 
lo cheiro aromatico do alcool caprylico. » 

D'esta curiosa reaccao lirou Mr. Bonis um melhodo dc 
ensaio para reconhecer a pureza do oleo de ricino , que 
muilas vezes se enconlra falsificado no comniercio. me- 
lhodo ordinario consisle cm cxaminar a solubilidadc no al- 
cool , que e caracter especial d'esle oleo ; mas , se os ou- 
tros oleos neulros nao silo soluveis no alcool , sao-n'o cm 
geral os acidos gordos liquidos, alguns dos quaes se podcm 
confundir na apparencia com os oleos. Assim, a prova pelo 
alcool, pode-se tambem junlar a da polassa, que edecisiva. 
Em uma relorta se introduzem tli grammas de oleo de ri- 
cino, ou supposlo tal ; junlam-se-lhe 10 ou 12 gr. dc po-, 
tassa causlica, dissolvida na menor quanlidade possivel de 
agua, e dislilla-se a mistura. Devcm obler-se, se o oleo for 
puro, 5 cenlimetros cubicos de um liquido volatil e aroma- 
tico mais leve que a agua. A mistura dos oleos estranhos 
reconhccer-se-ha pcla maior ou menor proporcao d'cste li- 
quido, que c alcool caprylico. 

alcool caprylico c o acido sebacico, produzidos pcla 
reaccao da potassa conccnlrada sobrc o oleo de ricino, nao 



78 ANNAES 

s3o unicanicnlc duis proiluctos intcrcssnntes para os chinii- 
cos , conio nuiilos d'aquelles com que a chimica organica 
todos OS dias se enriquccc , sao dois produclos que tarde 
ou ccdo hao de ter na indiislria imporlancia de priraeira or- 
dcm. 

alcool caprylico, que 6 urn liquido perfeilamentc in- 
color e Iransparcnte, tern aroma agradavel e suave. E um 
dos melhores dissolventes das materias gordas e das resi- 
nas, e pode erapregar-se na preparacao dos vernizes. Bas- 
ta projectar um pedaco de resina n'este liquido para a ver 
desapparccer. A propria gomma ou resina copal dura, que 
lao didicilmente se utilisa, amolece logo n'esle alcool e acaba 
por n'elle se dissolver. Ainda mais : o alcool caprylico, ar- 
dendo, eomo arde com luz branca e belia, pode servir na il- 
luminacao, e substituir vantajosamenle os liquidos chamados 
gazogenios, que teem por base a essencia da terebintina ou 
OS oleos provenientes da distillacao do carvao de pedra, dos 
schislos e das turfeiras , sobre todos os quaes tem a vanla- 
gem de nao erailtir mau cheiro , nem de se inflammar fa- 
cilmente ou de produzir vapores explosivos. Ello e alguns 
dos sous derivados podem ate servir na perfumaria e na 
confeitaria como os ethers compostos que hoje se empre- 
gam. 

acido sebacico apresenta, pel a sua parte, a proprie- 
dade notavel de endurecer os acidos gordos provenientes da 
distillacao das materias gordas, e que por si sos nao se po- 
dem vantajosamente empregar na fabricacao das velas. A 
mistura de 5* por 100 do acido sebacico da a esles acidos 
uma rijeza superior a do melhor acido slearico. 

Estas applicacoes teem ja sufliciente importancia para 
fazer emprender em grande escala a cultura do palma chris- 
ti, independenteniente da creacao do bombyx ckynlia , que 
e actualmenlc objecto de grandes esperancas, e para a qual 
se fazem tentativas serias no Sul da Franca c em Argel. 



DAS SCIENCIAS E LETTRAS. 79 

Sc a Academia nos permitle, apresenlaremos em oii- 
Ira sesstio o relatorio sobre a segunda parte do Irabalho do 
Mr. Bonis ; mas nao podemos deixar de concluir esla pro- 
pondo-o dcsde ja para nosso socio corrcspondenle. 



J. M. D OLIVKIUA I'l.MlLMEL. 



80 \N.\.\K»> 



^OTICIAS SCIEMIFICAS. 



O ALUMINIO. 



fracarei rapidamcnlc a hisloria do novo metal , que no 
curio espaco de dois annos Icm excitado \ivanienle a altcn- 
cao publica , c que , apenas recrutado pela chimica para o 
scrvico da socicdadc , promctte ja scr um dos mais nobrcs 
chefes da brilhanfe Icgiao dos mctaes. Escreverei a historia 
do aluminio sem o rigoroso apparato da sciencia, para que 
lodos a cnlcndam e possam bem avaliar de quanlo somos 
dcvedores aos illuslrcs sabios, que, por sou lalenlo e vigi- 
lias, nos alcancaram conquisla de lao subido valor. 

A historia do descobrimento e emprego dos diversos nie- 
tacs e a historia dos progressos do cspirilo humano, Foram 
incontestavelmenlc utilisados pclos homcns , nas prinieiras 
cpochas da civilisacao , os nietaes que a nalurcza offerccia 
no estado nalivo, estado em que as suas preciosas propric- 
dadcs physicas nao seachavam occullas por ncnhuma coin- 
binacao. brilho, a cor e a sonoridade d'esses corpos de- 
viam altrahir a altencao e dcsperlar a curiosidade dos ob- 
servadores ; a dureza, a malcabclidade, a ductilidade, e fi- 
nalnicnlc a docilidade com que se preslavam as necessida- 
dcs da vida, facilitaram o seu emprego. ouro, a prala e 
cobre foram por isso seguramenle os primeiros mctaes uti- 
lisados. Sc nos faltam documcntos historicos para apoiar es- 



DAS SCIENCIAS E LETTRVS. 81 

la assercao, Iraz ella em sen abono as razoes liradas da na- 
tureza das coisas e corroboradas com observacoes colhidas 
pelos dcscobrldores de novas terras , enlre povos quasi sel- 
vagcns, oil surprendidos iios primeiros periodos da civilisa- 
cao. Qiiando os nossos primeiros navcgantes sallaram nas 
praias do Brazil, enconlraram nasmiios dosindigenas osmais 
singelos instrumentos fabricados dc ouro ; ChristoMlo Colom- 
bo e seus companheiros , descobrindo a America , ficaram 
maravilhados de \er aquelle metal empregado pelos habilaa- 
tes d'essas regioes quasi incullas em ornatos e utensilios de 
preslimo ; os Mexicanos c Peruvianos trabalbavam e empre- 
gavam a prata e o ouro com profusao, e desconbeciam ain- 
da fcrro e outros metae^. 

Antes que oshomcns soubessem exlrahir o fcrro dos mi- 
ncraes em que elle exisle , era o cobre , e a preciosa liga 
que elle constitue com o eslanho, o bronze, cmpregados na 
fabricacao das armas e dos instrumentos metallicos mais u- 
suaes. chumbo e o estanho , cujos mlneraes abundam e 
facilmente sereduzem, eram ja conhecidos nas epochas mais 
remolas dos tempos historicoe. Nao ha muito mais dc 3.000 
annos que o fcrro 6 conhecido. Nos tempos heroicos daGrc- 
cia, descriptos nos poemas de Ilomero, linha ainda estc me- 
tal usos muito restrictos comparalivamente aos do bronze ; 
e assim devia ser, porque a metallurgia do ferro suppoe ja 
conhecimentos que se nao adquirem senao por longa prati- 
ca e madura reflexao. 

Quando a civilisacao romana se perdeu no mcio das 
inundacoes dos barbaros , eram apcnas conhecidos o ouro , 
a prata, o mercurio, o cobre, o estanho, o chumbo e o fcr- 
ro ; OS sete mclaes consagrados pelos antigos aos scle cor- 
pos celestes que constituiam esse grupo de aslros a que a 
terra perlcnce. 

Depois que as espessas trcvas, que involveram por lan- 
tos seculos a Europa , comccaram a dissipar-se, alguns ou- 



82 ANNAES 

Iros nielacs, duranle a cdade-media, forain doscoberlos pc- 
las invesligacOes dos alchimislas ; mas, ale o fim do seculo 
passado, nao se enriqueceii dc nianeira nolavel a lista d'es- 
les corpos. A partir do momcnlo cm que Lavoisier lancou 
OS fundamenlos dachimica analytica, e que os descobrimen- 
tos n'esle campo se teem succedido com rapidez admiravel. 
Nao e ja ao acaso ou a fortuna de um ou outro observador 
que se devcm as novas conquistas n'esla provincia da scien- 
cia ; e sim ao estudo premedilado, ao exame judicioso, e a 
reflexao perspicaz que somos hoje devedores do augmcnlo 
progressivo dos nossos conhecimentos sobre omundo physi- 
00. genio creador de Lavoisier pode adivinhar a compo- 
sicao das terras e prognoslicou a descoberta de novos me- 
taes. Sir H. Davy , observando a poderosa influencia das 
forcas eleclricas sobre as combinacoes chimicas , submetteu 
OS alkalis a accao vigorosa de energicas correnles galvani- 
cas e dcscobriu dois singulares e curiosos melaes , o sodio 
CO potassio. Este descobrimenlo fixou na historia da chirai- 
ca uma das suas mais. notaveis epochas. A sciencia adqui- 
riu poderosos inslrumenlos de analyse com estes dois novos 
metaes, e as theorias de Lavoisier receberam uma brilhan- 
te confirmacao. Quando hoje reflectimos na espantosa influen- 
cia que as experiencias de Davy c as concepcoes theoricas 
dc Lavoisier teem exercido sobre os progresses da chimica, 
nao podemos recusar-lhe o tribute de admiracao que c devido 
ao genio d'aquelles sabios, e regosijar-nos com justo orgu- 
Iho por esses Iriumphos do pensamento humano na revela- 
^ao dos mais occullos scgrcdos da natureza. 

Estas reflexoes conduzem-nos a tracar, clara e posiliva- 
mente , a raya que separa os dois campos tao differenlcs , 
cm que trabalharam dc uma parte os ambiciosos alchimis- 
tas, e da outra os chimicos modcrnos. 

A alchimia dos hermclicos e a chimica dos philosophos 
d'cste seculo teem cnlrc si, segurameule, muilos pontes de 



DAS SCIENCUS E LETTRAS. 83 

contaclo, e origem commum, mas a indole dos Irabalhos de 
urn e outro campo e inteiramente differente. Os primeiros , 
durante doze seculos , dirigiram conslantemente o sen pen- 
samento e os seus esforcos para asolucao de um unico pro- 
blenia — a Iransformacao dos melaes yis cm melaes nobres 
— OS segundos procuram a verdade em tudo, unicamenle a 
verdade, e as suas legitimas consequencias. A transforma- 
cao de certos melaes em outros, ou, mais geralmente, a Irans- 
formacao da materia, nao era problema desarrazoado a que 
faltassem os fundamentos. A observacao das profundas mo- 
dificacijes, deque a materia esusceplivel, devia naturalmen- 
le excitar a curiosidade dos sabios e promover investigacoes 
tendentes a descobrir os meios de que a natureza se serve 
para conslituir, com lao poucos elemenlos, tanta diversida- 
de de corpos, e para reproduzir a vontade a materia debai- 
xo de uma oulra forma. Era este um problema que a scien- 
cia justificava , e que os moraiistas mais rigorosos nao po- 
diam com razao taxar de ambicioso e inconveniente. Mas 
as paixoes humanas deram-lhe n'essas epochas rcmotas uma 
direccao falsa e pertenciosa , limitando-o ao fim unico de 
transformar em ouro os metaes menos preciosos. Foi o sa- 
crificio da verdade a lorpe ambicao de alcancar o meio mais 
poderoso de dominar e corromper a socicdade. Grandes ta- 
lentos se sacrificaram n'esta brutal campanha ; apoderou-se 
dos ambiciosos investigadores um frenesi eslulto ; surgiram 
as mais loucas aberracoes do espirito, os maiores desvarios 
eate crimes para alcancar aconquista ddL pedra philosophal; 
do grande magister , que, em dose minima, devia conver- 
ter em ouro e prala quantidades incalculaveis dos outros me- 
taes. = « A alchimia, diz Hcefer, ou antes a sede de ouro, 
foi causa de muitos crimes. trabalho, a paciencia, o ve- 
neno, o assassinate, tudo era bom para alcancar a posse de 
um segredo imaginario, a pedra philosophal. » 

Doze seculos detrabalhos e fadigas, de erros e crimes, fo- 



81 \NX\KS 

ram pcrdiilos quasi complclanienle para a sciencia. Pelo nieado 
do IG." seculo comecaram alguns homens de boa vonladc a 
scparar-so das vistas anihiciosas e exciusivas dos alchimis- 
las, c lancaram os priinciros fuiulamentos da sciencia pura, 
que no seguinlc seculo surgiu triumphante pclos esforcos dc 
tres sociedadcs iiluslres , as quaes dcram impulso poderoso 
ao niovinicnto do espirito huniano, niovimento, que, sem in- 
lerrupcao , Icni conlinuado ate aos nossos dias. A prinieira 
d'estas sociedades nasceu na Italia , onde as artes ha\iam 
resurgido , foi a academia del Cimcnto fundada em IGol , 
e que por tanto tempo illustrou a Toscana ; as outras foram 
a Sociedadc Real de Londres, creada em 1602, c a Acade- 
mia Real das Sciencias de Pan's, fundada cm 1666, e est as 
ainda hoje sc acham a frentc do progresso intellectual das 
nacoes modernas. 

A chimica do prescnlc seculo nao procura transformar 
OS metaes \is em metaes nobrcs , mas busca descobrir os 
iniimos segredos da natureza na composicao dos corpos ; naa 
faz ouro com a pedra philosophal, mas lira das pedras e 
das terras metaes, que, apesar de nao serem o ouro , ncni 
por isso deixam de ser preciosos para os usos da sociedade. 

As experiencias de Davy e dos sens continuadores ha- 
viam posto fora de duvida que a cal, a baryta, c a stron- 
ciana eram effectivamcntc combinacoes do oxigenio com me- 
taes particulares que elle chegou a separar pelos mesmos 
meios de que se havia servido para obter o sodio c o potas- 
sio, istoe, pelas correntes eleclricas fornecidas por uma for- 
te pilha galvanica. Foi um grandc passo dado na sciencia , 
foi a confirmacao experimental e irrecusavel da revelacao 
que nos havia fcito o genio de Lavoisier ; mas a induslria 
ainda nao colheu osresullados d'estas experiencias. Nos sa- 
bemos, e vcrdade, que na cal, n'esse corpo tao abundante 
k superficie da terra, existe um metal, mas nao temos ain- 
da OS meios de o separar de um modo economico, que nos 



DAS SCIEXCI.VS E LETTRAS. 8S 

habililc para esludar as suas propriedades, para reconhecer 
se convcm enipregal-o nos mesraos usos em que emprcgamos 
OS oulros nietaes inenos abundantes , port^m mais faceis do 
cxtrahir do que elle. Eis-aqui um inlcressanle problema que 
a chimica ha de, mais cedo ou mais larde, rcsolvcr. 

A alumina, que e a base da argila , essa terra por ex- 
cclloncia , lao vulgar e tao abundante na crusta do globo , 
resisliu obslinada aos poderosos meios de decomposicao que 
Davy, Berselius e OErsted empregaram para a reduzir. To- 
dos oschimicos sabiam que n'eila havia um metal ; mases- 
te metal parecia querer zombar dos esforcos da seiencia. 
Passaram vinte annos , durante os quaes a existencia do a- 
luminio continuou aser admitlida com o simples fundamen- 
lo da analogia , sem que uma unica experiencia posiliva o 
podesse separar das suas combinacoes ; mas e tal o po- 
dcr que as boas theorias exercem sobre os homens da seien- 
cia, que nenhuma voz auctorisada p6z em duvida o alumi- 
nio, antes, pelo contrario, as provas indircctas adquiriram 
nova forca, ale que, em 1827, Mr. ^Voehle^, distincto chi- 
mico alemiio, recorrendo a poderosas accoes chimicas, po- 
dc reduzir o metal , e confirmar a verdade theorica com a 
experiencia directa e positiva. 

A seiencia tinha demonstrado que o potassio e o sodio 
eram dolados das mais energicas alTinidades chimicas, e co- 
mo taes podiam servir de poderoso meio para decompor ou 
reduzir as composicoes mais refraclarias. Mr. Wo<3hler teve 
a feliz idea de substituir a accao chimica d'estes metaes ao 
emprego dascorrentes galvanicas, ate entao impolentes para 
separar o aluminio dos elementos com que se achava com- 
binado. Atacou o chlorureto de aluminio pelo potassio com 
auxilio de uma temperatura elevada dentro d'um cadinho 
de porcelana : a experiencia juslificou a idea. potassio 
apoderou-se do chloro para constituir o chlorureto de potas- 
sio, c aluminio ficou isolado. Para separar eslcs dois pro- 



8« ANXAES 

duclos (la reaccuo, Iralou a materia pcla agua ; esla dissol- 
veu sal , e o aluininio appareceu cnlfio em p6 melallico, 
que Mr. Woehler nao pode fundir, e que, pelo estado phy- 
sico em que o obteve, considerou como extreraamenle oxi- 
davel. Era ja o aluminio, mas em condicoes pouco favora- 
veis para rcvelar lodas as suas preciosas qualidades. 

A experiencia de Woehler nao Irouxe unicameale com- 
sigo descobrimento de um novo melal, creou alem d'isso, 
que ainda e mais importanle, um novo melhodo de reduc- 
cSo , a cujo emprego se deve o haver sido accrescenlada a 
lista dos melaes com o glucinio, com o yltrio, que o mesmo 
chimico obteve, e com o radical da magnesia, que mais lar- 
de foi isolado por Mr. Bussy. 

Quatro novos metaes produziu o melhodo de Mr. AVoeh- 
ler , mas todos estes melaes eram pulverulentos , pareciam 
infusiveis, facilmenle se oxidavam e deconipunham a agua 
a lemperaluras pouco elevadas. Avista d'eslas propricdadcs 
foram classificados com o nome de metaes lerrosos em urn 
grupo a parte dos metaes uteis , e pareciam condemnados , 
como diz Mr. Figuier , a envelhecer obscuraraenle no qua- 
dro da Iheoria, sem receber fora d'ella a menor applicacao. 

Esla facto moslra claramenle a necessidade de nao aban- 
donar o estudo de um corpo sem que o exame das suas pro- 
priedades se complete , variando indefinidamente os melho- 
dos de produzir, de o purificar e de o fazer entrar em re- 
lacdes com os outros. « Nas sciencias , diz o citado auctor, 
OS resullados geraes constituem preciosos instrumeutos de 
investigacao ; por^m estes melhodos, que sao a riqueza, eo 
orgulho de uma sciencia, teem algumas vezes mais lustre do 
que utilidade, porque geram frequentemente graves obstacu- 
los ao descobrimento de novos factos. » 

Assim novo esludo , a que foram recentemenle sub- 
metlidos os corpos a que me refiro , moslrou que o alumi- 
nio e glucinio devem ser collocados a par do ferro, e o zin- 



DAS SCIENCIAS E LETTRAS. 81 

CO, que eslava collocado junto a esle ultimo metal, dove, na 
classilicacao, aproximar-se do magnesio com o qual tcm im- 
porlanles analogias. 

Mas eslas consideracocs puramenle theoricas nao me de- 
vem affaslar da narra^rio encetada. 

Mr. Henry Saintc-Claire Deville, conhecido ja por mui- 
tos e preciosos IrabaUios de invcstigacao chimica, submelleu, 
em 18oi, o aluminio a novo exame, com o (im particular 
de determinar o seu equivalentc , e rcpelindo c variando a 
experiencia de AVoehclr, obleve rcsultados inesperados, que 
accrescenlaram a illustracao do seu nome e deram a indus- 
tria uma nova riqueza. 

Ainda que o processo empregado por Mr. Deville era, 
em quanto ao fundo, o mesmo de que se havia servido Mr. 
AVoehler, e so dilTeria na forma dos apparelhos, o aluminio, 
que obteve, manifestou logo propriedades physicas tao diver- 
sas e tao nolaveis, que o brilhantc fuluro d'este metal, que 
constitue, pelo menos, a quinta parte das argilas, se revc- 
lou immediatamente a sua perspicaz inlelligencia. 

Com effeito, em vez de um p6 metallico, infusivel e oxi- 
davel, sem prestimo industrial, Mr. Deville alcancou um me- 
tal brilhante e branco como a prata, inalteravel como ella, 
ou mais do que ella, fusivel a um fogo de forja, e mais do 
que cobre , leve como o vidro , sonoro como o crystal , 
ductil , maleavel e tenaz como os metaes preciosos , fmal- 
mente um metal applicavel aos usos industriaes, domesticos, 
c artisticos. 

E nao e so pelas qualidades physicas que estc novo me- 
tal se lorna estimavel debaixo do ponto de vista ulilitario. 
Concorrem tambem para Ihe alcancar a nossa estima as suas 
propriedades chimicas. Os agentes athmosphericos nao o al- 
teram : emquanto os metaes que nos empregamos nos uteu- 
silios ordinarios , o chumbo , o zinco, o estanho, o ferro e 
cobre, nao podcm em presenca do ar luimido conservar a 

Tom. I. - Abril de 1^57. - I .' Clisse. 7 



88 AXNAF.S 

cor c brilho dc que gozam quaiulo saeni das niaos do ar- 
tifice , porque logo einbaciani c so oxidain niais ou nienos 
profundamcnlc , o aluminio conserva indefmldanienle o sen 
aspccio c sen lustre em presenca do ar s^cco ou humido, 
coino aconlcce a prala, ao ouro, c Ji plalina. 

A prala nao resistc a accao do gaz sulfhydrico, que tiio 
frcquentenionle se acha na athmosphcra e que nascc da de- 
coniposicru) das matorias organicas principalmente das dc- 
jcccoes animacs ; por isso ella facilmente cnnegrece, quando 
se nao rcsguarda d'cstas cmaiiacoes : o aluminio nao se rc- 
scnle da acciio d'csse gaz ; n'este ponto leva vantagem d prala, 
e, se ale aqui os ornamentislas nao podiam conseguir nas de- 
coracoos exlcriores dos edificios e conslruccoes artisticas or- 
nalos que produzissem o effeilo da prala, podem seguramcnle 
obtcl-os hojc com o aluminio. Os acidos alacam difilcilmen- 
le aluminio ; o acido chlorhydrico 6 o unico que o dissol- 
ve ; OS acidos azolico e sulfurico diluidos e frios nao exer- 
cem sobre ello a menor accao, ainda que o seu conlacto se 
prolongue por nuiilo Icmpo. Esla qualidade, esla resislencia 
a accao dos acidos, e uma das mais preciosas que se podem 
appelecer cm um melal para o pod^rmos empregar na fabri- 
cacao dos inslrumenlos e ulcnsilios usuacs , principalmenle 
d'aquelles que se dcslinam aos usos domesticos. E na rea- 
lidade cu eslou anlevendo que havcmos dc cnconlrar , mais 
tarde ou mais cedo , nas maos de todos, o aluminio Iraba- 
Ihado debaixo das formas mais variadas era ulensilios e ins- 
lrumenlos dc uso commum, subsliluindo com reconhecida 
vanlagem ja o cobre , ja o cslanho , ja a prala e as ligas 
d'estes diversos melaes. 

Mas nao se creia que exaggeramos, e que, arrebalados 
pela scduccao da novidade, n'um enlhusiasmo improprio de 
philosophos, vamos anlepor o novo mclal cm ludo e por lu- 
do aos melaes anligos. As nccessidades do homem civilisado 
siio ja muitas c variadas, e lodos os dias apparccem novas 



I)AS SCIENCIVS E I.ETTRAS. 89 

com progresso da clvilisacao — sera islo iim bem? ou imi 
mal? — nao o sei , nem e queslao para resolver aqui ; o 
que e verdade eque para muilas dasnossas precisoes, limi- 
iando-nos mesmo as industriaes, as materias de que dispo- 
mos nao sao de sobojo. emprego do cobre, por exemplo, 
que em muilos casos seria mais vantajoso do que o do fer- 
ro , acha-se limilado pela escassez da sua produccao , e o 
mesmo se pode dizer a rcspeito de todos os oiilros. Apesar 
de que aluminio se assimiiha aos metacs preciosos e riva- 
lisa com elles debaixo de muilos pontos de visfa, nao se de- 
ve nem pode d'ahi concluir que Ihe ha de fazer concorrencia 
nos empregos especiaes e particulares d'aquelles mefaes. Nao 
se pode com razao recear que o aluminio , nascido hontem 
d'esia argila (ao vulgar , d'esfe barro sem valor que calca- 
mos aos nossos pes , venha hoje desenlhrouisar os melaes 
nobres, e usurpar-lhes o logar que elles occupam na socie- 
dade desde os tempos mais remotos da civilisacao. Bem lon- 
ge d'isso, senhorio do ouro e da prata esia cada vez mais 
segui-o, seu imperio nao se abala facilmente. Profunda e 
sem exemplo seria a revolucao nas ideas e costumes dos ho- 
mens que tirasse a prata e ao ouro a primazia que sempre 
tiveram eque determinou, por assentimento commum, a sua 
escolha para representantes dos valores. 

aluminio , de origem tao democralica como o ferro , 
iiiio appareceu agora para dominar e corromper a socieda- 
de ; veio, como esse metal tao popular, para se ennobrecer 
pelo trabalho, para ser util e servical dentro dos limiles das 
suas faculdades. 

Quando xMr. Deville rcvclou as interessantes proprieda- 
des do aluminio , nao fallou logo quem , seduzido pela sua 
apparencia , o quizesse inculcar como substiluinle da prata 
para a fabricacao da moeda. Se esfa apreciacao fosse exa- 
cla,^osseus resultados economicos lancariam grande pertur- 
bacao no systema liionetario. Felizmenle para os economis- 

7* 



90 AXNAFS 

las as condicoes parliculares d'esle melal inhibem-o da con- 
correncia para esle ciiiprego especial. 

Examincmos osla qucslilo economica, que ^ uma das mais 
iniporlanles que se podem levantar n'esle momenlo em que 
uni novo melal \ae entrar no scrvico da sociedade. em- 
prego do ouro e da prala na fabricacao das joias e da moe- 
da, dc prefercncia a todos os outras melaes , depende de 
condicoes cspeciaes que se nao rcalisam noaluminio, A bel- 
leza do aspeclo, a homogenidade, a perfeila dcvisibilidade e 
a inallcrabilidade da maleria, nao sao qualidades sufficientes 
para delerminar a escolha de um melal para iaes usos. E 
tambcm neccssario que as circumslancias naluraes em quo 
csles melaes se enconlram , e os processos para a sua ex- 
Iraccao sejam dc tal ordem que o valor do producto nao 
possa flucluar cnlre limiles muito affaslados, islo e, que seja 
proximamenle invariavel. Convem alera d'islo que as Irans- 
formacoes , que hajam de soffrer nos seus diversos empre- 
gos, nao possam influir consideraYclmcnle no \alor da ma- 
teria principal ; para salisfazer a esta ultima condicao e ne- 
ccssario que se prcstem a facil separacao das ligas e combi- 
nacoes em que possam cxislir e que ale conservem n'ellas 
um valor proporcionado a quanlidade cm que entram. 

Sao OS melaes nobres, e principalmenle o ouro e a pra- 
ta , OS unicos que satisfazem a todas estas condicoes. Em 
primeiro logar os jazigos , em que se enconlram e os seus 
processos metalurgicos s5o Iaes , que, apesar da descoberla 
de novas minas, conservam elles o seu valor, em relacao as 
outras mercadorias, quasi invariavel, denlro dos longospe- 
riodos em que se pode dividir a marcha progressiva da ci- 
vilisacao dos povos. Os diversos produclos, em que entram 
esles metaes, teem geralmcnte o valor que elles Ihes deter- 
minam. As combinacoes chimicas em que enlram o ouro e 
a prala teem, na grande maioria dos casos, um preco pro- 
porcional a quanlidade de metal que enccrram. 



D\S SCIENCIAS E LKTTRXS. 91 

aluniinio nem pode satisfazer a esla ullima condicao, 
neni prometle conservar urn valor invariavel. Assuas com- 
binacoes naluraes c artillciaes siio muilas, muito vulgares e 
do valor quasi nullo. Que vale o barro, que vale a argila, 
em cuja composicao elle enlra pela quinta parte em peso? 
Se aluminio, que no estado melallico lem ja um certo va- 
lor, se achar ligado com oulros metaes, nao podera separar- 
se sem o convertermos em alumina ououlra qualquer combi- 
nacao chimica de preco insignificante. preco do aluminio 
nao depende da sua abundancia ou escassez na nalureza, de- 
pende das despezas que houvermos de fazer com a sua ex- 
traccao. Hoje e estc metal mais caro do que a prata , em 
p6so egual ; amanha podem os processes aperfeicoar-se, e o 
seu custo de produccao descer rapidamenle a ponto de o 
lermos por um preco inferior aquelie por que obtemos o co- 
bre. 

Nao e portanto para subsliluir o ouro e a prata na re- 
presentaciio dos valores , na fabricacao dos objeclos precio- 
sos , que devemos feslejar o descobrimento do aluminio. 
seu dcslino e outro, e nao Ihe faltarao empregos, em que el- 
le seja util a sociedade. A fabricacao de vasos, einstrumen- 
tos, em que a resislencia a accao do ar athmospherico e dos 
agentes chimicos seja condiciio essencial, ofTerece ja grande 
multiplicidade de empregos em que o aluminio pode ser uti- 
lisado com mais vantagem do que no servico monetario. 

Nao e possivel desde ja assignar de maneira positiva 
quaes devam ser as applicacoes de um metal tao novo e in- 
leressante como e o aluminio. 

Nao sepodc resolver convenientemenle esta questao, an- 
tes de haver a chimica estabelecido os processos mais eco- 
nomicos de extraccao do novo metal. Em quanlo elle con- 
servar preco elevado, por que ainda actualmente se pro- 
duz , seu emprego reslringir-se-ha nccessariamente a fa- 
faricaciio d'afjuelles inslrumcntos cujo valor depende princi- 



9 2 \XN\ES 

palmcnlc dc certas propriedades cspeciaes da maleria , c , 
mais que tudo , do Irabalho do artifice ; inslmmenlos oin 
que prcco da nifio d'obra exccde consideravelmcnle o va- 
lor da maleria. A inaltcrabilidade do aluminio , o sen bri- 
Iho, cor, ductilidade e leveza tornam-o desde ja prefer! vel 
aos oufros metaes para a fabricaciio de muilas coisas prc- 
ciosas , laes como relogios , balancas , cscalas gradiiadas e 
inslrumenlos de astronomia e geodozia ; a sua complela ino- 
xi^idade pormille-nDs indical-o tambeni como vanlajoso pa- 
ra construir instrumentos cirurgicos, porque do scu conta- 
clo com OS lecidos e liquidos dos nossos orgaos nao podc re- 
sullar maleria alguma nociva ou \enenosa. 

Quando por^m o preco do aluminio for comparavel ao 
do eobre, enlao este iillimo melal sera substiluido pelo no- 
vo em todos os usos em que hoje se emprega o cobre no scr- 
vico domeslico. Dado csle caso , nao pode haver hesitacao 
na esoolha. cobre oxida-se e perde a sua cor ebrilho em 
presenca do ar ; os acidos e as materias gordas , que ser- 
vem na preparacao dos alimentos, atacam-o facilmente e ge- 
ram productos venenosos ; o cheiro, que emille, quando so 
csfrega, ou simplesmente quando se Ihe toca com as maos, 
e exlremamenlc desagradavel e rcpugnante, e d'ahi proveni 
a necessidade que tcmos de revcslir com eslanho ou dc lim- 
par conslantemcnte as pecas de cobre. Nenhum d'estes in- 
convenienles apresenta o aluminio. 

Quando quizermos comparar, debaixo do ponto de vis- 
la economico, o aluminio ao cobre, apraln, ou aoutro qual- 
quer molal , e necessario allender a nma circumstancia ca- 
pital que deriva da sua pequena dcnsidade. Pode o preco do 
aluminio scr superior ao dc qualquer d'eslcs melaes, em pe- 
so egual, c comludo scr, industrialmenle fallando, maisba- 
rato do que qualquer d'elles. A dcnsidade do aluminio e re- 
presenlada pelo numero 2,o6, ado cobre por 8,96, e a da 
prala porlO,oi. Qucr islo dizer que com urn kilogramma dc 



D.VS SClliNCIAS E LliTTRAS. 9^3' 

aluminio posso fabricar , por exemplo , lanlas pecas como 
fabricaria com 9/o de cobre ou com 4/1 de prala. D'esle 
modo devemos preferil-o ao cobre, ainda mesmo que o sou 
prcco seja egual a tres \ezcs e meia o d'cste melal , e, em 
muilos casos, conviria empregal-o em vez da prala , ainda 
quando o sen preco fosse qiiatro vezes mais elevado do que 
d'esla ullima. 

Em prescnca deloda csta discussao, que senao pode la- 
xar deociosa ou inlempesliva, ninguem podcra negar a gran- 
de iufluencia que o descobrimento do aluminio tern de exer- 
cer sobre asarles induslriaes, sobre apralica das scicncias, 
sobre os commodos da vida, e, finalmenle, sobre a econo- 
mia dos povos e riqucza das nac(5cs. Nenhum dos melaes , 
que foram descobertos depois d'aquelles que nos legou a ci- 
vilisacao anliga, sem mesmo exceptuar o zinco e a plalina, 
que lanlos servicos teem prestado a induslria, as arles e as 
sciencias, nenhum d'elles, repilo, se apresentou cercado de 
uma aureola lao brilhante eesperancosa como o metal daar- 
gila, que a terra nos occultou por tanto tempo, para o re- 
velar achimica, asciencia mais investigadora e perseAei'an- 
te do quantas cultiva o engenho humano. 

A chimica, nao so descobriu o aluminio e patcnleou as 
valiosas propriedades d'esle melal , mas alem d'isso tracou 
a induslria o caminho que aha de conduzir a resolucao do 
problcma economico da sua exlraccao. Que o aluminio cxis- 
te em quanlidade incalculavel e superior a dos oulros me- 
taes a superficic da terra, e urn facto incouleslavcl, poj-que 
elle entra de 20 a 25' por 100 na constiluicao da argila ; 
que a sua exlraccao e facil e pouco complicada, mos!rain-o 
cvidenlemenle as cxperiencias de Mrs. Deville c Yoohler ; 
mas que esta operacao seja desde ja lao economica, como 
com bons fundamcnlos se espera que vcnha a ser, ainda sc 
nao pode asse^erar. 

Dcscreverei o processo adoptado por Mr. Deville , e as 



94 ANNAES 

suas recenfes niodificacoes para habililar os leilores com (o- 
dos OS dados necesgarios para formarein oseu juizo sobre cs- 
ta imporlantc queslao. 

Ja no principio d'esle arligo disse qual era a operacao 
fundamental da cxlraccao do aluminio ; repetil-a-hei ainda 
para lornar mais clara esla exposicao. metal obtem-se re- 
duzindo o chlorureto de aluminio pelo sodio ; com o auxi- 
lio dooalor, este metal apodera-se do chloro para constiluir 
sal marinho (chlorureto de sodio) eliberta-se o aluminio, 
que apparcco no eslado de botao melallico se a operacao for 
convenientemente conduzida. 

Assim a produccao do novo metal esta , por emquanlo, 
dependente do sodio edo chlorureto de aluminio, ou de uma 
combiuacao chimica d'estc corpo que funccione do mesmo 
niodo. A ncccssidade de empregar o sodio como corpo re- 
duotor e a que torna o processo caro ; nao porque o sodio nao 
oxista emgrande quantidade nanaturcza, pois que elle cons- 
litue com o chloro o sal marinho, tao abundante nas aguas 
do mar e nos immensos depositos do sal gemma , mas por- 
que a sua exlraccao 6 ainda hoje despendiosa , apesar dos 
grandes melhoramenlos de que tern sido objecfo. A prepa- 
raoao do chlorureto de aluminio que era , ainda ha pouco 
tempo , simples curiosidade de laboratorio , e ja fabricacao 
corrente, que nem embaraca pelas difficuldades, nem exige 
consideravel dcspeza , e que at^ se pode dispensar quando 
podermos dispor de um mineral que existe na Groelandia , 
a cryolite, e que fornece o aluminio com amesma facilida- 
de do que o seu chlorureto. 

Mas supponhamos, por emquanto, que nos e neoessario 
preparar o chlorureto de aluminio. Obtem-se este corpo di-= 
rigindo uma corrente de chloro gazoso sobre a mistura in- 
tima, c proviamenfe calcinada, da alumina com o alcatrao, 
ou, que, em ultimo resultado, c a mesma ooisa, sobre a 
mistura do alumina c carvao muito dividido , quo se acha 



[ 



DAS SCIENCIAS fi LlvTTR.VS 95 

conlida em um grande cylindro de ferro ^ similhanle as re- 
lorlas em que se prepara o gaz da illuminacaio. chloro e 
completamente absorvido, e o aluminio, cedendo o seu oxi- 
genio ao carvao, combina-se com o chloro econstitue o chlo- 
rurelo, que, sendo volalil a IcraperaUira clevada em que se 
cffeclua a reaccao, vae condensar-se nas paredes de uma ca- 
mera proxima em massa cryslallina amarellada que facil- 
menle se deslaca. A alumina para esla operacao foi primei- 
ramente oblida por Mr. Deville , calcinando o alumen am- 
moniacal , cujo preco , por moderado que seja , influe um 
pouco sobre o valor do producto. N'esle ponto a industrla 
portugueza pode lisongear-so de haver concorrido para sim- 
plificar a queslao. sr. Sebastiao Betamio d'Almeida, cu- 
jo saber em chimica industrial lodos reconhecem , apresen- 
lou na Exposicao Universal de Paris amostras de alumina pu- 
ra , obtidas com os kaulinos das pegmatites do Porto , por 
um processo seu extremamente economico. A instancias mi- 
nhas Mr. Deville examinou esta alumina, e tao apla a jul- 
gou para a fabricacao do chlorureto , que nao teve duvida 
em a recommendar aos industriaes , que se propoem a ex- 
traccao do novo mefal, e fez d'ella mencao na Memoria que 
apresentou a Academia das Sciencias de Paris em abril do 
anno passado. preco do chloro tende sempre a diminuir 
com aproveilamento do gaz chlorhydrico, que ate aqui era 
desprezado nas fabricas de productos chimicos. 

Pelo que respeita a preparacao do sodio , o progresso 
tern sido mais rapido do que se podia suspeitar em tempos 
pouco affaslados, Quando Mr. Deville comecou a occupar- 
se da preparacao do aluminio , custava o sodio em Paris , 
nos armazaes de productos chimicos, de 900 a 1.000 fran- 
cos por kilogramma. As modificacOes introduzidas por Mr. 
Deville , e que haviam ja sido indicadas por Mr. Mareska, 
de Gand , para a extraccao do polassio , rcduziram logo o 
custo da produccao d'aquellc metal a 10 francos, islo e, u 



96 AN^AES 

centcssima parlc do seu antigo valor. E loda csta cspanlosa 
reducciio dc prcco nasccii, principalmentc, dc que os novos 
nielhodos permilliam trabalhar cm grande escala. Iloje a 
cxlraccao do sodio e uma simples dislillacao da mislura do 
carbonalo de soda com ocarvao de pedra ecom acre. An- 
tigamenle (c qiiando digo aniigamenle , refiro-mc apenas a 
uma epocha de que somentc nos separara trcs annos) nao se 
via sodio scniio em pcquenos globulos mcrgulhado no oleo 
de naphla , nas colleccoes dos cliimicos ; hoje fabricam-sc 
grandes porcocs d'csic corpo, que se manuseam sem risco, 
sem receio , e com tal confianca que pareceria incrivel aos 
chimicos de ha trinta annos. 

Sendo pois os maleriaes primarios para a produccao do 
aluminio aquelles que servem para obler o seu chlorurclo e 
sodio, e nao sendo esles de prcco clevado, deve necessa- 
riamente chegar-se , farde ou cedo, a rcsolucao do proble- 
ma que tern por objeclo a fabricacao economica do novo me- 
tal. = « A historia dos progresses da indiistria , principal- 
mentc n'estes ullimos annos, diz Mr. Devillc, demonslra cla- 
ramente que os problemas cuja solucao depende da econo- 
mia da mac dc obra c da invencao de apparclhos , acham 
sempre resolucao, com tanto que as materias primarias se- 
jam vulgarcs c dc baixo prcco. » 

Consullemos oque a theoria nos diz n'csle caso particu- 
lar. Sobre os dados theoricos cslabeleceu Mr. Devillc a con- 
ta do que c noccssario despcnder para obler 2 cquivalcntcs 
ou 28 kilogrammas de aluminio. Esta e a seguinle : 

fr. c. 
3 cq. dc chloro, ou 108 kilog. (a 60 fr. os 100 kilog.) 64,80 
1 cq. de alumina, ou '62. kilog> (a 30 fr. os 100 kilog.) 15,60 
3 cq. de carbonalo de soda, ou lo9 kilog. {a 40 fr. os 

100 kilog.) -63,60 

2 eq. de aluminio ou 28 kilog. 144,00 



I 



DAS SCIENCI\S li LETTRAS. 97 

, Por esle calculo o preco das materias rigorosamcnlB nc- 
cessarias para produzir uni kilogramma dc aluininio sube 
apcnas a 4 fr. V6 cenlessimos ; quaiitia insignificanle, que, 
ainda mesmo quando fosse vinte vezes maior , seria ainda 
acccUavel pela induslria. 

A difficuldade esta presenlenicnle em estabelecer urn prc- 
cesso dereduccao com lodas ascondicOes economicas de. boa 
opcracaio induslrial. Nenhum dos que ale agora se tem pos- 
to em pralica salisfaz complelamente a estas exigencias. 
melhodo adoptado por Mr. Deville , quando na fabrica de 
Javel , a expensas do imperador Napoleao 3.°, cstabeleceu 
as suas invesligacoes para a produccao economica do no\o 
metal , era a rcproduccao em grande escala das operacOes 
que havia pralicado no seu laboralorio , seguindo o pensa- 
mento primordial do Mr. Voehler. 

Em uma relorta , ou cylindro de ferro, fazia volatilisar 
a lempcralura moderada o chlorurcto impure de aluminio. 
Esle purificava-se , passando a traves de outro cylindro a- 
quecido aorubro obscuro, econtendo ponlas oumiucalha de 
ferro. Ao sahir d'esle cylindro , os vapores do chlorurelo 
puro de aluminio cntravam denlro dc um largo lubo de co- 
bre no qual se achavam nuiitas canoas ou barquinhos de 
cobre que conlinham fragmenlos dc sodio melallico. N'esla 
parte do apparelho e que tinha logar areaccao entre os va- 
pores docblorurelo e o metal alkalino, em resullado da qual 
se rcduzia o aluminio. 

Um processo d'esla ordem nuo se presla a um Irabalho 
tiio expedilo como se requer nas exploracoes induslriaes , 
ncm oseu rcndimcnto em materia ulil salisfaz ao que a Iheo- 
ria promette. Todavia Mr. Deville, empregando-o , obteve 
grandes porcoes dc aluminio puro , que serviram para de- 
monslrar amplamonle as valiosas qualidadcs do novo mclal. 
3Ir. Housscau , fabricanlc dc produclos chimicos para uso 
dos laboratories scicnlificos , conlinuou a ser^ir-se do mes- 



98 A\NAKS 

mo processo com ccrla vantagem , prcparando as quanlida- 
des avultadas dc aluminio que Ihe cram pedidas pelo com- 
mercio. 

Mr. Rose, chimico de Bcrlim, muito conhecido nomun- 
do scienlifico , e o Dr. Percy , de Londres , obtiveram de- 
pois aluminio reduzindo a cryolite pelo sodio. A cryolite 
6 um fluorureto duplo de aluminio e de sodio, que o com- 
mercio Iraz ja em quanlidade consideravel de um nolavel de- 
posilo que se cxplora na Groclandia. Areduccao d'esle mi- 
neral pelo sodio 6 operacao facil. Pulverisa-se a cryolite 
mislurada com melade do seu peso de sal marinho ; este p6 
colloca-se , em camadas allernadas com talhadas de sodio , 
cm um cadinho de porcelana al6 o encher ; a ultima cama- 
da deve ser de cryolite pura coberla de sal marinho. Aque- 
ce-se entao o cadinho rapidamente at6 terminar a reaccao ; 
agita-se a materia fundida com uma vara de porcelana e dei- 
xa-se resfriar. Quebrando entao o cadinho acha-se o alumi- 
nio no fundo em grosses globules melallicos. 

Mr. Deville, auxiliado por Mrs. Morin eDebray, repro- 
duziu este processo no seu laboratorio daEscola Normal de 
Pan's, empregando, em vez da cryolite, a mislura de chlo- 
rureto duplo de aluminio e sodio, fluorureto de calcio, esal 
marinho. resultado d'esta experiencia, que eu presenciei 
muitas vezes, foi excellenle. As proporcoes empregadas em 
cada experiencia sao as seguinles : 

Chlorurcto duplo de aluminio e sodio - - iOO gr. 

Sal marinho 200 

Fluorureto de calcio 200 

Sodio melallico 75 

aquecimenlo do cadinho faz-sc lentamenle ate que a 
reaccao tcrmine , e depois elcva-se a tempcralura proximo 
d'aquclla a que sc funde a prata , c agita-sc a materia por 



DAS SCIENCIAS E LETTRAS. 99 

muito tempo com vara de porcelana, para facililar a reuniSo 
dos globulos do aluminio. produclo d'esla operacao e , 
termo medio, urn botao de melal que pesa 20 grammas , e 
5 grammas de pcquenas grenalhas , ao todo 2o grammas de 
melal. Assim por 3 de sodio se oblem 1 de aluminio; a 
theoria indica que a produccao deve ser maior , pois que a 
2 5 de sodio corresponde 1 de aluminio, e esle ha de ser o 
resullado, quando a operacao sefizer em grande escala eem 
apparelhos convenienles. 

Tal era o cslado da queslao quando eu parli de Franca 
em novembro del855 ; mas as lentalivas induslriaes come- 
caram ja , e as recentes nolicias prometlem urn resullado 
proximo e feliz. Eis-aqui o que se le no relalorio apresen- 
tado por Mr. Girardin asociedade livre (Temulalion du com- 
merce el de V Industrie de la Seine-Inferieiire : « Uma so- 
cicdade , de que faz parte um dos nossos principaes fabri- 
cantes de soda , e que ^ dirigida por um dos discipulos de 
Mr, Deville , consliluiu-se em Rouen com o fim de produ- 
zir aluminio, eno principio d'este anno (1836) vimos bar- 
ras d'esle metal bem mais volumosas do que aquellas que 
publico admirava em 185o na rotunda do Panorama. A 
industria, esclarecida pela sciencia, marcha rapidamente em 
nossos dias, e e certo que, dentro em pouco tempo, o pre- 
co do kilogramma de aluminio descera, nao a 10 ou 5 fran- 
cos como asseverava ultimamenle um sabio parisiense , mas 
a limites acceitaveis no commercio. » 

A sciencia mostrou que da argila se podia tirar em quan- 
tidade inexgotavel um metal que, pelas suas valiosas quali- 
dades physicas e chimicas , occupa o meio termo entre os 
metaes nobres e os melaes vulgares ; bello e inalteravel co- 
mo OS primeiros, ductil, maleavel, tenaz e abundante como 
OS segundos. A induslria trala hoje de o produzir baralo , 
para facililar o seu emprego em ulilidade das artes e da eco- 
nomia domeslica. A sociedade espera que a poderosa allian- 



100 



ANNAES 



ca da scioncia com a induslria , que lanlas conquislas tern 
alcancado no mundo physico em bcneficio da humanidadc c 
da civilisacao, vcnca lodos os obslaculos c Icvanlc mais um 
novo padiiio do gloria, que brilhc a par dos invcntos admi- 
ravels quo honram n'cslo seciilo o ciigenho humano. 



J. M. nE OMVniUA IMMRNTEI.. 



DAS SCIENCIXS E LETTRAS. 101 



REVISTA ESTRANGEIRA. 

1856. 

(CONTINUACAO.) 



Aproveilar a forca , applicando-a por meio dc orgaos aos 
Irabalhos \ariados da industria, e a que se encaminham os 
esforcos da mechanica industrial. Sujeitando ao seu dominio 
OS agentes naturaes, a sciencia tern libertado os operarios do 
trabalho puramente mechanico, para Ihes confiar mais ele- 
vados encargos, e tern ao mesmo tempo augmentado os re- 
cursos da industria , desinvolvido a sua accao productiva, 
ampliando o campo das suas exploracOes. 

A eleclricidade, essa forca prodigiosa que lao pasmosos 
phenomenos produz na natureza, e de que a industria se sa- 
be aproveitar, como meio de transmittir o pensamento, de re- 
produzir os mais bellos modelos das artes plasticas , de ai- 
lumiar com intensissima luz , nao podia ser descuidada co- 
mo principio productor de movimento, como motor. Obtido 
pela pilha o meio de ter uma corrente electrica nao inter- 
rompida, a idea de aproveitar essa corrente como motor nao 
podia deixar de nascer no espirito dos homens de sciencia ; 
e effeclivaraente os esforcos tem-se mulliplicado para conse- 



lOi ANNAKS 

guir eslc iniporlanle fim. Maisdcuni motor clectrlco seacha 
hoje em iiso na iiuluslria. 

Niio c ulil per era a applicacao da electricidadc para a 
produccao de grandcs forcas, pelas diiriciildades da conslruc- 
ciio dos apparelhos, e sobre tudo pcio preco clcvado por que so 
csla forca sc podc obler ; para as pcqucnas forcas porem, 
nada egiiala a rcgularidade, exaclidao, e intelligencia com 
que a elcclricidadc opera. No eslabelecimcnto industrial dc 
um celebrc constructor de instrumentos dc precisao , o sr. 
Froment , e no laboratorio de um illustre homem de scicn- 
cia, sr. Ville, a elcctricidade exccuta verdadciros prodi- 
gies : cumprindo com exaclidao rigorosa minuciosas e difii- 
ceis tarefas , Irabalhando e parando por si , como e quan- 
do 6 necessario, a elcctricidade parcce, nas machinas, dota- 
da de intelligencia, dominada pela vontade. sr. Bonelli , 
applicando a elcctricidade aos teares de seda, deu um ma- 
gnifico exemplo de que a industria fabril deve tirar provei- 
to. sr. Bonelli nao so consegue , pela elcctricidade, exe- 
cutar com perfcicao todas as operacoes da tecedura da seda 
de uma so c6r, mas, por um aperfeicoamento introduzido na 
sua machina, no anno passado, consegue tecer com muitas 
c6res. E maravilha v^r trabalhar o apparelho do sr. Bonel- 
li, compondo os mais finos e regulares estofos de seda, sem 
que intervenha n'esse Irabalho delicado a mao do homem. 

Na relojoaria acha a elcctricidade tambem uma util ap- 
plicacao, ou como motor, ou como meio transmissor de si- 
gnaes. A electricidadc, como motor, e notavel pela sua re- 
gularidade e duracao do movimento, mas n'isto nao apre- 
senta vantagens consideraveis sobre os motores ordinarios 
bem construidos : a sua utilidade, como meio de transmiltir 
as indicacoes da hora simultaneamente a muitos mostradores, 
e incontestavel, principalmente nos caminhos deferro, ondc 
as differencas dos rclojos nas estacoes podem dar causa a in-i 
convenientes e perigos gravissimos. Por apparelhos bcm com- 



DAS SGIENCIA.S E LETTRAS. 103 

blnados, c hoje facil e economico transmitlir, de iima pcndula 
a muitos mostradores collocados a diversas distancias , as 
exactas indicacoes do tempo : os srs. Froment, Gamier, Hou- 
din, Verile e outros, teem feito dar passos notaveis a relo- 
joaria electrica. Algunias cidades possuirao em breve, e oulras 
possuem ja, urn systema completo de relojos cleclricos, e le- 
rao assim uma indicacao de liora em toda a parte, em vez 
das desegualdades de relojos, quasi inevitaveis, no actual sys^ 
tema. Em Marselha, o concelho municipal, resolveu, cm Ja- 
neiro de 185'6 , que uns relojos electricos, collocados nos 
candleiros de gaz, e dando a hora exacta do dia e noitCj fos- 
sem estabelecidos segundo os melhores syslemas adoptados 
n'estes interessantes apparelhos. 

A eleclricidade produzida em corrente tambem pode daf 
forcas muito consideraveis , e por vezes se tem empregado 
esta forca a propulcao dos navios. Sobre o Neva lancou o 
sr. Jacobi um barco movido por uma forca electrica de mui- 
tos cavallos ; n'um lago d'Inglaterra, proximo de Swanseg, 
ha um barco movido por uma forca superior a que obteve 
sr. Jacobi. sr. Lacombe tem feito estudos imporfantes 
sobre este complicado problema da applicacao da eleclrici- 
dade a propulcao dos navios , e em Memorias apresentadas 
a Academia das Sciencias de Pan's, deu a descripcao com- 
pleta e a theoria da machina electrica, com a qual julga ter 
alcancado a solugao completa d'este empenho. A experien- 
cia decidira. 

Em quanto a electricidade se nao torna na mao dos ho- 
mens de sciencia e dos constructores um motor poderoso , 
economico e seguro, pertence ao vapor o primeiro logar en- 
tre as forcas de que a industria pode dispor. Neuhum mo- 
tor, na verdade, emais regular, mais inalleravel, maisobe- 
diente, mais rigoroso , mais seguro, mais preslante do que 
vapor. Successivos aperfeicoamentos, progressos conslan- 
tes, simplificacao progressiva, tem feito das machinas de va- 

ToM. I.- Abhu DE 1857,-1,' Cla»se. 8 



104 ANNAES 

por principal agente da induslria , o permancnte auxiliar 
da civilisaciio. E o vapor que poo cm movimcnto as locomo- 
tivas e os navios , que tern cncurlado as distancias , quo 
tern aproxiniado os povos, e liarmonisado o pcnsamcnlo c 
OS sentimentos da humanidadc ; 6 o vapor que cxecula cs- 
sas multiplices operacoes da variadissima induslria do nosso 
tempo, e que poc ao alcance de lodos, productos que d'an- 
les so OS privilegiados da fortuna podiam possuir. 

Para sc prcslarem a usos tao variados, as machinas "de 
vapor devcm necessariamente lomar diversas formas, ter di- 
mensoes dilTercntcs, apresentar grandes ou pcquenas forcas, 
sujeilarem-se obedienlcs a vontade dos homens que as cra- 
pregam : e assini succede. As machinas de vapor, fixas so- 
bre uma solida base, poem em movimcnto os varios utensi- 
lios de uma fabrica , as rodas ou o helice que dao mo- 
vimcnto aos navios. Assentes sobre rodas, que ellas pro- 
prias movem por variadas combinacocs de orgaos , as ma- 
chinas de vapor, dotadas de grande forca, constitutem as lo- 
comotivas que voam sobre os carris com pasmosa veloci- 
dade. As locomovcis, que tantos e tao variados servicos po- 
dem preslar aagricullura, sao machinas de vapor do mcnor 
volume possivel, de alia pressao, unidas a caldeira tubular, 
e assentes sobre iim carro que permilte transportal-as com 
a maior facilidade. 

As machinas fixas, do mesmo modo qua as outras, apre- 
senlam, como elementos essenciaes, urn cylindro dentro do 
qual resvala urn embolo era cujas faces o vapor exerce a 
sua pressao ; a haste do embolo, por orgaos apropriados , 
transmitle o movimcnto aos apparelhos destinados a executar 
trabalho que, pelo emprego da forca da machina de va- 
por, se deseja alcancar. As formas das machinas fixas sao 
' variadas, e podem ter uma posicao vertical, obliqua, eho- 
risontal. A disposicao vertical das machinas com dois cylin- 
dros, segundo o principio denominado de Woolf, foi a mais 



tl\S Sr.lENCIAS E LETTRAS. lOl) 

geralmenle adoplada por muito lempo ; hoje as machinas ho- 
risontaes com um cylindro unico parece merecerem a prefe- 
rencia da industria, pcla simplicidade da sua construccao, fa- 
cilidade com que se assentam de um modo seguro, pequeno 
YolumGj e diminuto preco. principio da simpllficacao , c 
uma espccie de impulsao que leva hoje tudo para os mo\ inicn- 
los accelerados, tern feito propagar o uso das machinas acce- 
leradas, que, tendo as ^antagens do seu pequeno volume, fa- 
cilidade de transporte, simplicidade de orgaos, apresentam so 
defeito de se gastarem rapidamente, e de consumirem pro- 
porcionalmente maiscombuslivel, defeito este que nao esen- 
sivel nas machinas de pequena forca. embolo n'estas ma- 
chinas anda 2 metros e meio por segundo , proximamente, 
que e uma rapidez por extrcmo superior a das anligas ma- 
chinas. Ao passo que estas machinas de cylindro horisonlal, 
de grande ou pequena velocidade, teem ido adquirindo maior 
imporlancia, teem ido perdendo a que liveram por quasi dez 
annos as machinas de cylindro oscillanle, pelos defeitos ine- 
\itaveis que n'ellas apresenta a distribuicao do vapor , a 
facilidade com que se desarranjam, e o considcravcl cousu- 
mo de combuslivel a que dao logar. 

Nas locomotivas, o intcresse de produzir grandes forcas, 
tem levado a adoptar grandes caldeiras lubulares , onde a 
superficie, pela qual se faz o aquecimenlo da agua, lenha o 
maior desinvolvimenlo possivel. Obter uma grande forca e 
uma grande velocidade, tornar faceis as vollas nas eslradas 
onde as curvas sao muito pronunciadas , alcancar que os 
Irens possam subir aclives consideraveis, sao as questoes a 
resolver na construccao das locomotivas. engenheiro aus- 
triaco, o sr. Engerth, articulando horisontalmente os carros 
sobre que assentam a caldeira e o tender, lornou possiveis 
as voltas curias nas curvas de pequeno rayo ; prolongando 
a caldeira sobre o lender, e accrescenfando assim a superfi- 
cie do aquecimento, augmentou a potencia, e, por uma com- 



lOG ANNAES 

binaciio tic rodas conjugadas c muilo proximas , conseguiu 
que as locomotivas com os comboys ascendessem por acli- 
\es sensiveis , chegando ate 25' millimclros por melro. 
sr. Minotlo , que pretende subsliluir um systema de rodas 
cm forma de cunha na circumfereneia, engrenando pelo con- 
tacto, em vez de engrenarem por denies, julga poder alcan- 
car a subida dos comboys por consideraveis aclives , esla- 
belecendo nos caminhos de fcrro, a meio da ^ia, um carril 
curvado em cunha, no qual corre, estabelecendo adherencia, 
uma roda com os bordos cor (ados em cunha. Pelo systema 
do sr. marquez de JoulFroy , esla roda media, desiinada a 
estabelecer a adherencia entre a locomoUva e um carril cen- 
tral, adherencia que permitte a subida das estradas com acli- 
ve , tem as caimbas de madeira cortada transversalmente 
as fibras, e o carril e ligeiramente eslriado. 

emprego da forca do vapor nos trabalhos da agricul- 
tura , e a origem de uma radical e importanle transforma- 
cao d'esta industria. As locomoveis, prestando o meio de 
transporlar a toda a parte, onde a forca e precisa, uma ma- 
china de vapor, facilitam os trabalhos da debulha por meio 
de machinas ; os esgotamentos, as irrigacoes, por meio de 
bombas e outras machinas hydraulicas, e todas as operacoes 
das artes agricolas. A locomotiva, que no anno passado ap- 
pareceu no concurso agricola de Chelmsford, abre mais lar- 
go campo as applicacoes do vapor. Esta pasmosa locomoti- 
va tem a faculdade de caminhar sobre os prados , os cam- 
pos lavrados, os terrenes menos compactos e mais deseguaes. 
Por um mechanismo admiravel , a locomotiva lanca diante 
(las suas rodas os carris sobre que deve resvalar, e logo que 
OS tem percorrido, estes levantam-se pela propria impulsao, 
para irem desenrolar-se outra vez diante da locomotiva, que 
pode assim caminhar em todas as direccocs com a mais es- 
tupenda facilidade. 

JVao se limitam a islo os invenlos importantes de que a 



DAS SCIENCIAS E LETTRAS. 107 

agriculliira pode tirar utilidade. Arrotear o solo, cnipregan- 
do a poderosa forca do vapor, tern sido n'estes ultinios an- 
nos desejo e a esperanca dos agricultores, o empenho dos 
conslructores de machinas. desejo vae ser satisfeito, a es- 
peranca realisada , conseguido o difficil cmpcnho, resolvido 
arduo problema. Pelo systenia do sr. Fowler; o inventor 
da machina , da charrua que na profundidade de metro ou 
metro e meio colloca os tubos de barro deslinados para o 
esgotamento subterraneo ou draijnagem ; uma locomovel , 
collocada n'uma das extremas do campo, ao longo da qual 
se vae successivamente deslocando, poe em movimento uma 
cadeia sem fim, transversalmente estendida no campo, e a 
que esta fixada uma charrua de quatro folhas, podendo tra- 
balhar em dois sentidos oppostos como as charruas e ara- 
vessas dobradas : as grandes friccoes que soffrem as cadeias 
e outros inconvenientes que a experiencia torna palentes, op- 
poem-se a applicacao vantajosa d'este systcma. Se a inven- 
cao do sr. Fowler deixa o problema nao resolvido, nao suc- 
cede mesmo a do sr. Barrat e irmaos. A machina de ca- 
var, a cavadora dos srs. Barrat, e uma machina de vapor 
similhante a uma locomotiva, com cylindro gerador de va- 
por , caixa de carvao, reservatorio d'agua e condensador , 
com a forca de oito cavallos , e pezando dez mil kilogram- 
mes. Da forca do vapor emprega-se parte era por em movi- 
mento nove enxadas postas em linha, e que se movem inde- 
pendcntemente umas das outras ; cada uma d'estas enxadas 
arranca a cada enxadada uma massa de terra de dois me- 
tros e meio de comprimento, dezesete cculimetros de largu- 
ra, e meio metro de profundidade ; a oulra parte da forca 
emprega-se em fazer caminhar lentamente a machina (17 
cenlimetros por cada golpe das enxadas) sobre quatro largas 
c fortes rodas. N'um minuto dao as enxadas quarenta gol- 
pes, e a machina carainha pouco mais de scis metros e meio, 
correspondendo isto ao arroleamenlo de hectare c meio (310 



108 ANN.\ES 

bracas quadradas) por dia de dez horas do trabalho. N'uma 
experiencia foita no parque de Ncuilly, a cavadora fez iini 
trabalho superior ao das melhorcs charruas, dividindo c \ol- 
tando a terra, enlerrando a relva, arrancando as raizes e as 
pedras, e deixando a terra lisa, horisontada e prompla para 
recebcr a semenle. A machina 6 ainda pesada, os sens or- 
gaos complicados, falla-lhe a simplicidade necessaria para ha- 
ver unia verdadeira solidcz , dizem os crilicos ; mas e fora 
dc duvida que o problema esla resolvido, e que os aperfei- 
coamentos acabarao de destruir todas as difflculdades que 
ainda hojo sc apresenfam. Ja se pode confiadaraente prever 
que n'uma epocha proxima a forca do vapor entrara nos 
principaes trabalhos mechanicos da agricultura , facilitan- 
do-os, aperfcicoando-os, e tornando-os menos dispendiosos. 
A construccao das locomoveis, das locomolivas de carris mo- 
veis, c da machina de cavar, sera necessariamenle a origem 
de grandcs maravilhas agricolas. 

Nao tem sido s6 em variar as formas , em modificar e 
simplificar os orgaos, em aperfoicoar a construccao, em re- 
duzir volume , em augmentar a velocidade e abaixar o 
preco das machinas de vapor, que se teem occupado os me- 
chanicos, Muilos constructores habeis , muitos homens emi- 
nentes na sciencia teem trabalhado para descobrir combina- 
coes novas , tendo por fmi aproveitar melhor a forca pro- 
duzida pelo calorico, e diminuir a despeza do combuslivel. 

Todas as vozes que uma machina thcrmica produz forca, 
necessariamenle ha uma perda do calor. A forca e n'este ca- 
80 a transformacao d'outra forca de natureza diversa, o ca- 
lor. Se, por exemplo , um cmbolo fccha dcntro de um cy- 
lindro uma massa dc ar aquecida a 50 graos , uma parte 
d'esla temperalura sera devida a pressao exercida sobre o 
ar, comprimindo-o : effeclivamentc a compressao do ar pro- 
duz calor, a dilatacao d'csle c acompanhada de resfriamen- 
tq. Sc ar fcchado pelo embolo deutro da capacidadc da 



DAS SCIENCIAS E LETTRAS. 109 

cylindro for aquecido al6 70 graos, o embolo seru levanla- 
do pcla forca que rcsulla d'este aquecimcnto, o ar, leiido 
unia capacidade niaior porondc so espalhar, dilatar-se-ha, e 
dilalando-sc, lonia iima temperatiira inferior aos 70 graos. 
A parte do calor perdida foi a forca que ievanlou o peso do 
embolo. 

A sciencia delerminou aproximadamente a relacao cnlrc 
calor e a forca, ou o equivalente mechanico do calor ; is- 
to e, scgundo o sr. Joule, elevar um gnio a tempcraUira de 
urn kilogrammo d'agua, o que se loma corao a unidade de 
calor, e equivalente a forca necessaria para levantar um pe- 
so de 427 kilogrammos aum melro d'altura n'um segundo. 
As machinas de vapor sao uma solucao do problema da con- 
versao do calor em forca ; ora as machinas , ainda as mais 
perfeitas, ale estes ultimos tempos, nao aproveitavam senao 
a vigessima parte da forca contida em gcrmen no carvao 
que n'ellas se consome , ou ainda muilo menos, segundo o 
sr. Regnault. Aproveitar o mais possivel o calor , tranfor- 
mando-o em forca, e uma das questoes que a mechanica e 
a physica teem procurado resolver por systemas diversos : o 
fim de todos e obter que a forca se produza, dispendendo-se 
na sua produccao a quanlidade de calor que estriclamenlc 
represcnta a potencia mechanica obtida, e que so aproxima- 
damente se podera alcancar. 

Na construccao das caldeiras tem-se introduzido diversas 
modificacoes, com o fim de augmentar o mais possivel o con- 
tacto da agua que se quer cvaporisar, com superficies aque- 
cidas pelo contacto do fogo. As caldeiras dos srs. Farcot, 
Beaufume, Clavicres , Durenne etc., sao todas conslruidas 
com intento de obter vapor aquecido com a menor des- 
peza possivel de combustivel ; as caldeiras devem porem sa- 
tisfazer a outra condicao, a de poderem ser facilmente lini- 
pas dos dcposilos dc sacs calcareos que , pelo uso, rapida- 
mente se formaui no seu interior. Tendo em altencao eslas 



110 ANNAES 

duas condicOes, focilidadc do aquecimcnlo, e vaporisacao da 
agiia, iimpcza prompla e segura, o sr. Boutigny dispoz uma 
caldcira, que, denials, tern a vantagom imporlanle de occiipar 
urn pequeno espaco, A caldcira do sr. Boutigny , formada 
por um cylindro vertical, feohado por uma tampa a que cs- 
lao adaptados os orgaos ordinarios de uma caldcira de va- 
por , e internamenle dividida par diafragmas metallicos, cri- 
vados de buracos por onde cae em ohuva a agua de alimcn- 
tacao ; a superfioie interna do cylindro e os diafragmas, em 
estando aquecidos , produzem uma rapida vaporisacao da 
agua, de modo que dentro dacaldeira quasi que naohase- 
nao vapor, Os depositos formando-se quasi exclusivamente 
no diafragma superior, que e, como os oulros, facil de lirar 
para fora da caldcira, a limpeza, por este modo, faz-se com 
muila rapidez e (acilidade. 

Oulros apparelhos vaporisadores, outras caldeiras mere- 
cem a altencao dos constructores, pela economia de combus- 
tivel a que dao logar, e entre estes a caldeira do sr. Belle- 
ville , formada de uma serpentina de ferro , tendo na parte 
interna a fornalha, e onde a agua, chegando pela parte de 
baixo, se vaporisa quasi instantaneamente, e sae depois pe- 
la parte superior da serpentina em vapor secco, e sobre-aque- 
cido ; porem e no organismo, por assim dizer, da machina 
que hoje se acha fixada a attencao dos que procuram uma 
golucao nova, e mais perfeita que a actual, do problema da 
transformacao do calorico em potencia mechanica. 

Nas machinas hoje usadas na industria, o vapor d'agua 
e empregado no estado de saturacao, e depois lancado para 
fora da machina, ou condensado, perdendo-se assim todo o 
calorico que foi preciso emprcgar para reduzir a agua a va- 
por, isto e, uma enorme quantidade de calorico. sr. Du 
Tramblay invcntou uma machina era que simultaneamente 
actuam vapor da agua, e o de outro liquido que se vapo- 
Visa a uma tcmperatura pouco elevada, o ether ou o chlo- 



DAS SCIENCIAS E LETTRAS. Ill 

roformio. vapor d'agiia, depois de haver exercido a sua 
accao na machina , vae ainda carregado de calorico p6r-se 
em contacto com reservatorios de elher ou chloroformio, que 
se vaporisam por esle modo , vao actuar mechanicamente 
n'um cylindro deslinado para este fim, e condensam-se de- 
pois pela agua fria. Tem-se buscado tambem empregar o ar 
quenle em vez do vapor ; e a invencao deEricson, que em- 
pregava o ar quente resfriando-o depois por uma combina- 
cao engenhosa de t6as melallicas, invencao que hoje se acha 
quasi tolalmenle abandonada, depois de ter feito nascer vi- 
vas esperancas , e um dos ensaios mais imporlantes n'este 
genero. A machina de Siemens, regenerative engine, em que 
se empregam leas metaliicas, como no systema Ericson, pa- 
ra lirar o calor ao vapor depois de Ihe haver aproveitado a 
forca, evilando assim a perda d'esle agente verdadeiro da ac- 
cao mechanica das machinas, tern recebido successivos aper- 
fcicoamenlos, e parece destinada a realisar uma economia de 
mais de 50 por cento no combuslivel. 

As machinas regenerativas de Siemens construem-se ja 
em differentes officinas, e experiencias rigorosas teem vindo 
confirmar as previsoes do seu auctor. Nos dias 9 e 10 de 
julho de 1856, uma machina d'este systema, construida na 
fabrica de Farcot , proximo a Pan's , da forca nominal de 
quatro cavallos, foi experimentada, e os resullados das ex- 
periencias foram : 

Forga em cavallos determinada pelo freio, 4 cavallos, e 
8 decimos. 

Numero de horas de marcha 6,07. 

Numero de voltas por minuto 5o,43. 

Carvao consumido oo kilogrammos (total) ; por cada 
hora 8,81 kil. ; por cada hora c forca de um cavallo , 
1,89 kil. 

Agua consumida, 303 kil. (total) ; por cada hora 49,9a 
kil. ; por cada hora e forca de um cavallo, 10,60 kil. 



112 ANNAES 

Tensao media do vapor cgual a 6 allimosplieras 22 cen- 
tesimos. 

Nas melhores machinas do systcnia geral, c da forca de 
4 a 5 cavallos, o consumo c : em carvao por hora e por for- 
ca de cavallo 3,2o kil. ; em agua 32 lilros; o que da uma 
economia de 1,25' kil. no carvao, e 20 lilros na agua, van- 
tagem cnorme que desde ja assegura uma elevada posicao 
as machinas do syslema Siemens. 

Na Prussia a machina Siemens alcancou (ambem impor- 
tantes triumphos. Em Slellin, uma machina da forca de 37 
cavallos foi experimenlada durante algumas semanas , Ira- 
balhando dia e noite sem inlcrrupcao, e o seu consumo em 
combuslivel foi apenas egual a quarta parte do que conso- 
mem as machinas ordinarias ; esta experiencia attrahiu a 
attencao de todos os constructores alemaes, e muilas machi- 
nas d'este systema se acham ja funccionando ou em cons- 
truccao. 

Ao mesmo tempo que estas experiencias davam lao no- 
taveis resullados com a machina rcgeneradora de vapor , 
experiencias feilas em Inglatcrra provavam que outro sys- 
tema , do amcricano Welhered , 6 lambem susceptivel 
de grandes applicacoes , e produz uma consideravel econo- 
mia de combustivcl. systema do sr. Wethered consiste 
na mislura em proporcoes quasi eguaes de vapor elevado a 
alto grao de aquecimcnlo, sobre-aquecido, ao vapor ordina- 
rio , augmenlando-se por este modo a temperatura e a po- 
lencia mcchanica d'este. Uma corveta a vapor, a Dee, 6 mo- 
vida por uma machina d'este systema, e na viagem de en- 
saio que se fez em agosto, viu-se que a nova machina dava 
uma economia de combustivcl de mais de 30 por 100. 

Guiado pcla idea de que o vapor pode adquirir a forca 
que dispcndeu no trabalho mechanico, logo que se Ihe res- 
litua calor que se Iransformou em forca, o sr. Seguin, co- 
nhccido pelos seus imporlaDlcs services scicnlificos, procu- 



DAS SCIENCUS E LETTRAS. 113 

rou conslruir a machina que ello denomina puhnonar , cm 
que se eniprega sempre o mesmo vapor , reslituindo-lhe a 
cada movimento completo do cmbolo o calor que perdeu em 
produzir o effeito mechanico. vapor, na machina do sr. 
Seguin, serve de intermediario entre o calor e a forca, pas- 
sando, por meio de dilatacoes e condensacoes successivas , 
por diversos estados de Icmperatura c de tensao. 

Seri'a nccessario entrar em longos e minuciosos prome- 
iiores, para dar idea complela dos mulliplices problemas que 
se ligam com a queslao da applicacao do calorico como po- 
tencia mechanica, mas o que lemos dilo parece-nos sulliciente 
para se perceber o eslado cm que ficou a sciencia e a arte 
da construccao, n'este ponto, o anno passado. 

{Conlhma.) 

JOAO DE A-M)RADE CORVO. 



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\NNAES 



OBSERVATORIO METEOROLOGICO DA 
ESCHOLA POLYTEClIiMGA. 

LATITUDE -4-38° 43' 13", 4. LONGITUDE -+-9" 8' 19", 3 Green- 
wich. ALTITUDE 97,9 rnelros. distancia ao Tejo 1,226. 







RECAPITILACAO ANNLA 


(DE 1856). 














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PUBLICADOS DEBAIXO DOS AUSPICIOS 



ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS, 



SCIEIIAS MATOEMATICAS, PfiYSICAS, HISTORICO-NATCRAES, E MEDICAS. 



TOMO I. 

PRIMEIRO ANNO. 

]\IAIO DE 1837. 



IISBOA 

Nl TYPOGRAPHIA. DA MESMA ACADEMIA 



1857 



INDICE 



irOS ARTIGOS CONTIDOS N ESTE MMERa, 



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TRABALUOS APRESENTADOS A' AGADEMIA. 

PAG. 

ESTUDOs sobre a viciacSo do ar alhmospherico . . . . 11'J^ 

REvisTA (los trabalhos chiraicos uo correnle anna de 

1857 139 

REVISTA E&TRANGEiRA. 185'6. (Conlinuacuo) l.'JS^ 

MORTE do sr. barao Luiz Agoslinho Gauchy 119 

OBSERVATORio metcorologico do Infanle D. Luiz, na Es- 

cola Polytechnica 180 

VARIEDADES -. 181 



DAS SCIE?^CIAS E LETTRAS. 119 

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TRABALHOS APRESENTADOS A ACADEMIA. 



ESTIDOS SOBRE A mmU DO AR ATHMOSPHERICO. 



A \ida dos seres organisados esta tao intimamente ligada a 
constltuicao da alhmosphera da terra, que as nienores per- 
turbacoes na composicao do ar podem influir profundamen- 
tc sobre o modo de ser dos entes que povoara o nosso glo- 
bo. 

ar influe sobre a vida organica nao so pelos seus com- 
ponenles chimicos , mas tambem pelas suas coiidicoes phy- 
sicas. A pressao, a temperatura, a luz , o eslado eleclrico 
do ar exercem seguramente influencia capital sobre o exer- 
cicio das funccoes vitaes ; mas e principalmente na com- 
posicao chimica do ambiente que residem as condicoes in- 
dispensaveis para se exercerem as Iransformacoes organi- 
cas de que depende a vida. 

A permanencia das relacoes ponderaes entre as quanti- 
dades de azote , oxigenio , acido carbonico e agua, parecc 
regulada pelo Creador de um modo providencial para a ex- 
istencia dos seres vivos do actual periodo cosmico. Se estas 

Tom. I. - Maio de 1857. — i .' Classe. 9 



120 ANN.VES 

rela^oes se alterassem por uma causa qualquor , dcvia no- 
cessariamcntc scguir-sc outra ordcm de coisas na organisa- 
clio, seres differentcs e vida divcrsa. 

Mas esta pcrmancncia que, pelas muilas analyses que se 
leem feilo nas diversas regiOes do globo, esta completamen- 
te provada, e promette longa duracao nas acluaes condicoes 
pliysicas, e unicamcnte cm relacao a massa total da athmos- 
phcra. mesmo nao se pode dizer do ar dos espacos limi- 
tados. 

Sao innumcraveis as causas que tendem a alterar cons- 
lanlcmcnte a composicao chimica do ar , as quaes na ver- 
dade correspondcni outras que compensam os efFeitos das 
prinieiras , mas que nao actuam no mesmo tempo e logar. 
Se dc uma parte a respiracao dos auimaes e as combustOes 
tendem a diminuir a quanlidade de oxigcnio, c a augmen- 
tar as proporcoes normaes do acido carbonico e da agua da 
athmosphera, por outro lado a alimentacao dos vegetaes, a 
custa do acido carbonico , decompoe quantidades enormes 
d'este gaz c restitue ao ambiente o oxigcnio livre. Mas es- 
las causas, actuando separadamente, podcm occasionar em es- 
pacos limitados , modificacoes profundas que influem pode- 
rosamente sobre as funccoes vitaes dos seres que vivem 
n'esses espacos. 

Ninguem hoje desconhece a influencia que a alteracao 
do ar exerce sobre as pessoas obrigadas a viver ou a derao- 
rar-se por algum tempo nas casas e logares fcchados, ondc 
uma boa e regular \entilacao nao renova constante e suffi- 
cicntcmente a athmosphera. 

Limitando as nossas consideracoes simplesmentc aos lo- 
gares em que os homens vivem e se reunem, as habilacoes 
particulares , aos hospitaes, as prisoes, aos theatros, aulas, 
Icmplos , casas dc asscmblcas e olTicinas, as causas princi- 
paes da alteracao do ar sao jii bastante numerosas para me- 
recerem serio exame. Em primeiro logar, a respiracao podc 



i)AS SCIF.NCIAS E LETTRAS. 121 

SO (Ic per si exercer nolavel influcncia sobre a composicao 
do ar dos espacos fechados. Desdc Lavoisier atohoje, as re- 
petidas observacoes c as expcriencias feitas por chimicos e 
physiologistas de grande nome e saber, leem esclarecido su- 
pcrabundanlemente csta queslao : escusado c rcproduzil-as 
aqiii, e basta citar os trabalhos de Lavoisier, Segiiin, Hum- 
boldt, Gay-Lussac, Menssis, Dumas, Andral e Gavarret, Re- 
gnault e Leblanc , para dar forca c aucloridade ao que le- 
\amos dito. 

As funccOes respiralorias consomem o oxigenio, e pro- 
duzem o acido carbonico e a agua a custa do carvao c do 
hydrogenio do organismo. Pode-se calcular que a quanlida- 
de de carbonio e do sou equivalcnle de hydrogenio , quei- 
mados por cada individuo durante uma hora, sobe a 10 gram- 
mas, que corresponde a um consumo de 26^'', 666 milli- 
grammas de oxigenio no mesmo tempo. 

ar alhmospherico conlem, segundo as rigorosas ana- 
lyses feitas por Mrs. Dumas e Boussingault, 230,2 de oxi- 
genio em p^so, ou 208 em volume por 1000, alem de uma 
pequena quantidade de acido carbonico, variavel cntre 3 e 6 
por 10000 de ar em volume, e da agua no estado gazoso, 
cujas proporcoes variara tambem, segundo a temperatura e 
outras causas physicas, entre 6 e 9 por 1000 dear. D'aqui 
pode ja concluir-se a alteracao produzida pela respiracao no 
ar que se nao renova. As expcriencias feitas por Mr. Du- 
mas sobre a sua propria respiracao, quando estava em todo 
vigor da sua existencia aos 20 annos deedade, em 1820, 
mostram que um homera pode fazer de 15 a 17 inspiracoes 
por minuto, e o ar expirado contem, saindo dos orgaos res- 
piratorios de 3 a 15 por 100 d'acido carbonico , tendo per- 
dido de 4 a 6 por 100 de oxigenio. 

A respiracao e transpiracao cutanea viciam ainda o ar de 
outromodo, isto e, pela exhalacao dos vapores da agua carre- 
gados de substancias organicas que entram promptamente em 

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122 ANNAES 

{Iccomposicao c produzcm os miasmas , que so donunciam 
por um chciro cxlrcmanionle (lcsaj:;ra(laY(,'l o infeclo, (pie lao 
facilmentc sc perccbc (|iiaiulo cnlramos nas casas em que sc 
acha muila gcnlc reunida. A accao d'csles miasmas 6 por- 
Ventura mais nociva e seguramenle mais incommoda do que 
a superabundancia do acido carbonico nas alhmospheras li- 
mitadas. Que o digam os que se teem \isto obrigados a en- 
Irar de noile nas enfermarias dos hospilaes , nas salas das 
prisocs, nas aulas mal ventiladas, e nas partes mais eleva- 
das dos theatres em noites de grande concorrencia. 

A estas causas tao poderosas da viciacao das alhmos- 
pheras limitadas, devemos ajuntar tambem a que provem da 
combuslao das materias que servem para a illuminacao ar- 
tificial. As experiencias de Mr. Peclet mostram que uma ve- 
la stearica de 10 por kilogramma, ou das de 5 por arratel, 
queima 13 grammas da sua materia por hora , e consome 
5 do oxigenio conlido em 43a litres d'ar, e uma lampada 
de gaz queima por hora 42 grammas de carburetos de hy- 
drogenio, consumindo 5 do oxigenio contido em 1680 lilros 
de ar. 

D'estas combustoes resulta , como todos sabem , aci- 
do carbonico e agua, que, nao sendo facHmentc Iransporta- 
dos, por meio de uma boa ventilacSo , para a athmosphera 
exterior, ficam viciando ar do espaco em que foram pro- 
duzidos. 

Nao sao unicamenle as quantidades excossivas de acido 
carbonico e agua, e a prescnca dos miasmas, que acompa- 
nham a transpiracao e perspiracao pulmonares, que tornam 
irrespiravel e damnoso ar dos espacos fechados , onde se 
accumula muila gente e se queima grande porcao de mate- 
rias combustiveis , e ainda a elevacao de tcmperatura, que 
n'esses logares se produz, que vem aggravar todos esses 
inconvenientes. Com a elevacao de temperatura a trans- 
piracao augmenta ; ao principio, a cvaporacao produz res- 



DAS SCIENCI.VS E LETTRVS. 123 

friamcnto , que compensa momcntancamentc o cxcesso de 
calorico , mas, pouco a poiico , o ar salura-se de vapo- 
rcs d'agua e a transpiracao nao pode conlinuar livremen- 
te ; a agua condcnsa-se sobre a pelle e cslabelece-se um 
suor incommodo ; comecam entao a exaKar-sc as funccoes 
rcspiratorjas e circiilatorias ; a face injecta-se ; manifes- 
ta-sc a cephalalgia niais ou menos violcnla , sobrevem sec- 
cura e aspereza de garganla, e segiie-se muitas vezes a syn- 
cope. 

Se a todas estas caiisas geraes de viciacao das athmos- 
pheras limiladas nos accrescentarmos ainda oiitras muitas 
especiaes e occasionaes, como sao oacido sulfuroso, que se 
produz na combuslao do gaz da illuminacao mal depurado, 
oxido de carbonio que se forma nos focos de combuslao 
em que se queima o carvao ordinario, e principalmente os eflu- 
vios infeclos que emanam dos canos de despejo que , prin- 
cipalmente em Lisboa, eslao em communicacao com o inte- 
rior de muitas casas parliculares e edificios publicos , nao 
poderemos deixar de conhecer quanto e importante e neces- 
sario o estudo d'estas questoes , que lao intimamente se li- 
gam com a salubridade publica. 

Nao soraos nos, por certo, os primeiros que emprende- 
mos investigacoes d'esta natureza. Este campo tem sido fe- 
lizmente explorado por homens de muilo lalento c saber , 
entre os quaes se encontram os primeiros nomes da chimi- 
ca ; mas, se esles teem adquirido para a scicncia resultados 
importantes e capitacs , nem por isso se devcm considerar 
inuteis as investigacoes de modestos obscrvadores que dese- 
jam seguir o caminho tracado pelos mestres. 

Juslificam esta nossa empreza o estado imperfcito em que 
se acham os mais notavcis edificios publicos de Lisboa rela- 
tivamente a ventilacao, c mais que ludo o mcthodo irracioiial 
adoplado para a rcmocao das dejcccoes por meio dos canos 
do despejo construidos n'esles ultimos tempos , c que der- 



1 2 i ANNAES 

raiiiam inccssantemcnlc no ar das ruas e das casas lorrcn^' 
t(3S dc vai)ores fetidos c pestilcntos. 

trabalho, que hoje aprcsenlamos a Academia, c o co- 
nicco dc lima seric dc csludos tendentes a demonstrar a ne- 
ecssidadc dc inlroduzir : 1 ." na construccao dos edificios pu- 
blicos parliculares as condicoes dc uma boa vcnlilacao pa- 
ra rcnovacao do ar puro e salubre ; 2." no syslcma dc lim- 
peza da cidade , os mcios necessaries para evitar o dcrra- 
mamcnlo dos cfluvios pestilcntos que surdcm dos canos do 
dcspcjo c que lanto nos incommodam com grave risco da 
saudc. 

A primeira parte d'este estudo nao c dc natureza tal 
que possa offercccr facto algum completamente novo , c an- 
tes a confirmacao experimental do que e ja bcm conhecido 
na sciencia ; tcndo dirigido em particular a nossa attencao 
para as viciosas condicoes em que se acha o mais notavel 
thealro dc Lisboa, foi particularmcnte d'elle que nos occu- 
pamos, mostrando a necessidade dc provcr a sua ventilaciio, 
abstendo-nos por emquanto de discutir os meios mais con- 
venicntcs para a levar a effeito sem grande transtorno da 
construccao actual c sem grande dispendio. 

Comecamos, como dcviamos, pclas analyses do ar reco- 
Ihido em diversos logares e condicoes, e, como nao adopfa- 
mos em tudo o methodo seguido por Leblanc no scu primci- 
ro estudo do ar dos espacos fochados, achamos convenicnto 
dar primciro uma idea do apparelho que empregamos, afim 
de que os rcsullados que oblivemos possam melhor scr dis- 
cutidos e avaliados. 

Em uma rigorosa analyse do ar dos espacos fechados, 
conviria detcrminar com loda aexaclidao: 1." as quantida- 
dcs relativas do oxigenio, azote, acido carbonico c agua, que 
silo OS principaes componentcs do ar : '2.° as proporcOes 
mais ou mcnos avultadas dos corpos que accidentalmcnte so 
podem cnconlrar nas alhmosphcras limiladas , como sao o 



DAS SCIENCIAS E LETTRAS. 12.J 

gaz sulfuroso, o oxido de carbonio, os carburelos dc hydro- 
gcnio, gaz sulfhydrico, os vaporcs aiiimoniacacs, e fmal- 
nicnte os miasmas ou materias organicas em decomposicfio, 
que OS vapores da agua suspendem na alhmosphera, c quo 
sao a causa mais poderosa da viciaciio do ar em certas lo- 
calidades. 

Esfa segunda parte e seguramentc a mais difficil, c ain- 
da at6 hoje nao conseguiu a chlmica dcterrainar rigorosa- 
menle nem as proporcoes iicm a nalureza definida do que so 
chamam miasmas. Sabe-se apenas que sao materias organi- 
cas complexas, em decomposicao, e que, actuando sobrc os 
corpos organisados como verdadeiros fermentos, pcrturbam 
a regularidade das funccOes vitaes, ou actuam como se fos- 
sem subslancias venenosas, e sao causa de graves enfermi- 
dades. 

No seguimento d'este trabalho teremos occasiao de dis- 
cutir mais amplamente tudo o que se refere a esta segunda 
parte da analyse, quando tratarmos do exame do ar que sac 
pelas aberturas ou sargetas da canalisacao dos dcspejos da 
cidade. 

Presenteraente limilar-nos-hemos an exame das alteracoes 
que sofTrc o ar limilado nas quantidades relativas dos sens 
componentes normaes , oxigenio , azote , acido carbonico e 
agua. 

Debaixo d'este ponto de \ista, a analyse pode fazer-se 
em duas operacoes successivas. As quantidades relativas de 
oxigenio e azote determinam-se com sutTiciente rigor pelos 
meios eudiomelricos. As proporcoes do acido carbonico e 
agua, contido n'um dado volume de ar, obtcem-se pelo au- 
gment© dc p^so das materias absorventes d'cstes dois cor- 
pos, sobre os quaes se faz passar, lenta e regularmente, a 
quantidadc de ar submeltida a analyse. E o methodo csta- 
bclccido por Mrs. Bruner e Boussingault. No processo d'cs- 
tes dois chimicos, a passagem do ar sobrc os corpos absor- 



126 ANNAES 

vcntes 6 dclorminada pelo escoamenlo da agua conlida em 
urn aspirador, c ciijo volume da a medida do ar sujeilo a 
analyse. 

Lcblanc modificou cstc processo, recolhcndo o ar dos lo- 
gares cm balOes, em que previamente se havia feito o \acuo ; 
Iransporlando cstcs para o laboratorio e adaptando-os ao ap- 
parelho, que conslava de tubos com as raalerias absorven- 
tcs , (acldo sulfurico para a agua , e potassa para o acido 
carbonico) e outros dois baloes vasios, e de capacidade egual 
a dos primeiros, os quaes serviam de aspiradores, Esle ap- 
parclho tem a vantagcm inconteslavel de ser facilmente trans- 
porlavel , e de recolher promptamente o ar no momento c 
logar que se deseja ; porem requer complela seguranca nas 
junccoes das difFerentos partes para conservar o vacuo, con- 
dicao esscncial para o bom rcsultado da analyse, 

Nos preferimos seguir antes o methodo de Bruner e Bous- 
singault, dispondo o apparelho do seguinte modo : 

Apparelho. Consta o apparelho de que nos servimos Fig. 

1.° De um aspirador de zinco da capacidade de 113£,25, 
munido superiormente de um tubo T com torneira por ondc 
se faz a aspiracao do ar ; de um funil F de longa cauda pop 
onde se introduz a agua no aspirador, tanto para o cncher, 
antes do comeco da experiencia, como depois para deslocar 
ar , privado do acido carbonico e agua , que dcve servir 
para a dcterminacao do azote e oxigenio , e que tem saida 
pelo lubo R munido de torneira ; finalmcnte de um thermo- 
metro t que indica a temperatura interior do apparelho. Na 
parte inferior esle apparelho termina por um tubo recurva- 
do D, com torneira , pelo qual se esgota a agua , que de- 
lermina a aspiracao. A curvatura d'este tubo inferior ser- 
ve como de valvula hydraulica para obslar a entrada do 
ar para dcntro do aspirador. Ucpousa o nosso aspirador 
sobre uma tina para ondc cscorre a agua durante a expe- 
riencia. 



Anm4x>o ^ 



/(XhJ. 




LlTd n counter 



DAS SCIENOIAS E LETTRAS. 127 

2." Do apparelho condensador que consla das seguinles 
partes : 

S. 2 tiibos em U emparelhados e commuuicando entrc 
si, nos quaes sc conlem a pcdra pomes embebida em acido 
sulfurico concenlrado e fenido, e onde se prende a agua do 
ar aspirado. 

V. Pequcno tubo testimunha com chlorureto de calcio , 
ou acido phosphorico , e que serve para verificar que toda 
a agua foi absorvida nos tubos S. 

P. 2 tubos em U similhanlemente dispostos como os tu- 
bos S , mas contcndo , o posterior pedra pomes embebida 
n'uma dissoluciio muilo coiicenlrada de potassa caustica , e 
anterior, no primeiro ramo potassa solida em fragmentos, 
e no segundo chlorureto de calcio separado da potassa pelo 
amianlho. N'estes tubos fica unido a potassa todo o acido 
carbonico do ar. ^ 

v. Finalmenle urn tubo testimunha com chlorureto de 
calcio e potassa, que serve para verificar se a absorpcSo foi 
completa. 

Toda esta segunda parte do apparelho estava disposla 
em um caixilho de madeira , podendo fechar-se para facili- 
tar transporte sem deslocar os tubos, cuja communicacao 
com ar era interrompida pelas torneiras collocadas nos ra- 
mos extremes. 

Marcha da operacdo. Os tubos condensadorcs, em cada 
uma das experiencias, foram pcsados no laboratorio ; ligados 
depois entre si e collocados no caixilho, cram transporlados 
ao logar da experiencia, para onde se conduzia o aspirador 
e ali se fazia a ligacao d'este com os tubos, 

A temperatura c pressao do ar eram convenientemenle 
observadas durante o curso da experiencia. 

Para verificar se o apparelho funccionava com seguran- 
ca e regularidadc, ausculta^a-se de tempos a tempos o aspi- 
rador , no qual eslroudo regular e succcssivo das bolhas 



128 ANN.M'S 

d'ar iiulicava a luarclia da oporacao. Quando o orificio do 
lubo por ondo enlrava o ar so I'ecliava, o som dcixava do 
ouvir-se, e pouco dcpois cessava a queda da agua pelo tu- 
bo de esgolo. 

Terniinada a expcriencia , o apparelho condcnsador era 
Iransporlado ao laboratorio, para serem novamenle pesados 
OS tubos. 

ar recolhido no aspirador, e livre ja do acido carbo- 
nico, scrvia para as analyses cudiometricas, com o fun dcre- 
conhecer as proporcOes de oxigenio e azote n'elle conlidas. 
Para esle cffeilo dcslocava-se, por nieio da agua, que se in- 
troduzia pelo fund , e era recebido em campanulas gradua- 
das, onde rigorosameiile so media. Estas analyses for am fei- 
tas por meio do phosphoro, segundo o processo ordinario. 

EXPERIENCIAS. 

As primeiras experiencias foram feilas no laboratorio com 
lim do verificar se o apparelho fuuccionava regularmentc. 

No did 16 rfe marco. 

Ar submettido a analyse . . 11 3, £2 5 
Pressilo 0,70 2"^'" Temperatura 12°, 4 

Agua = 0,940 

Acido carbonico 0,062 

Peso do ar privado do acido carbonico c correclo da 
temperatura, pressao e humidade = 13!')*',5 

Composicao do ar em peso : 

Agua 6,70 por 1.000 

Acido carbonico. . . 0,15 » » 



D\S SCIENCIAS li LETT1!\S. 129 

Composicrio do ar nil volume : 

Agua 10,7 por 1.000 

Acido carbonico. . . 0,29 » » 

No did 18 (Je mar CO. 

Prcssao 0,7oi>'" Toniperalura 10", fi 

Agua = 0,572 

Acido carbonico = 0,103 

Peso do ar correclo = 135^' 

Em peso : 

Agua 4,20 por 1.000 

Acido carbonico. . . 0,85 » » 

Em volume : 

Agua 6,70 por 1.000 

Acido carbonico, . . 0,53 » » 

N.B. Esta experiencia foi feita junto da chamine, pro- 
ximo dos fornos que se achavam accesos. 

Analyse feila no theatre de S. Carlos em a noite de Id de 
marcOy durante a 3.' recUa das Vesperas Sicilianas. 

A capacidade da sala, incluindo a parte occupada pclos 
caniarofes, e aproximadamentc de 5.500 iiietros cubicos. 

apparelho estava collocado na torrinha N.° 98 na par- 
te mais clevada da sala. tubo de cntrada recebia o ar do 
interior da casa na allura do parapeito da torrinha. A ex- 
periencia coniecou antes do espcctaculo, as G'* iO' ; ainda o 



130 AXNAKS 

luslrc nilo cslava acceso. A tcmporalura do ar n'aqiiclla al- 
liira era de 19", ado aspirador 14" e a da alhmosphcra ex- 
terior de 10". 

As 7'' 30', depois de acceso o lustre, a tcmpcratura su- 
biu a 22°. Quando o cspectaculo comecou, as 8^, o Ihcr- 
niomelromarcava jii28'. Nasala, comprehendendo plateas c 
caniarotcs, eslavam para mais de l.UOO pcssoas. Os lumcs 
do lustre, orchesta e banqueta subiam a 325. 

A temperalura foi subindo regularraentc , durante o cs- 
pectaculo, urn grao por bora, marcando finalmcnle o ther- 
niomelro, depois da meia noile, 32", 5. 

Os resultados d'esta experieneia foram os seguintes : 

Agua 1,691 

Acido carbonico 0,335 

peso do ar, recolhido no aspirador, correcto da tem- 
peratura , humidade e pressao achou-se ser egual a ^27^^ 

Logo a coniposicao do ar em peso era : 

Agua 13,30 por 1.000 

Acido carbonico . . 2,64 » » 

Ou em volume : 

Agua 21,33 por 1.000 

Acido carbonico . . 1,07 » » 

Deter minacao do 0. e do Az. 

Ar secco c correcto 142'*' 

Azote 113",68 

Oxigenio 28 ,32 

142 ,00 



DAS SCIENCIAS E LETTRAS. 131 

Oil em volume : 

Azote 80, OG 

Oxigenio 19,94 

Em peso : 

Azoic 78,11 

Oxigenio 21,89 

Sendo a composicao do ar normal 

Em volume : 

Azote 79,19 

Oxigenio 20,81 

E em p5so : 

Azote 76,99 

Oxigenio 23,01 

Sendo por conseguinte a differenca entre o ar normal e 
ar viciado representada por uma diminuicao no oxigenio 
correspondente a 

Em p^so de oxigenio . 1,12 por 100 
Em volume » .0,87 » 

Fizemos mais tres analyses do ar nas enfermarias do hos- 
pital de S. Jos6j cujos resultados transcrevemos. 

1.' 

A primcira foi feita na enfermaria de S. Amaro na noife 



132 ANNAES 

de 8 (Ic abril. Ksta cnformaria, dcslinada a docncas cinirgi- 
cas, conlinha f)l docntcs do scxo masculino. A cxpcricncia 
fcz-sc dc noilc, c principiou depois dc fcchadas as janellas, 
e acccsos os dois bicos dc gaz que a illuniinam. A capaci- 
dade da sala c dc 3.390""=. 



mm 



Pressao baromelrica .... 0,7(12 

Tcmpcratura do ar 18" 

Agua 0,810 

Acido carbon ico 0,490 

Peso do ar corrccto c privado do acido carbonico 137° 

Coniposicao em peso : 

Agua 5,91 por 1.000 

Acido carbonico . . 3,57 » » 

Em volume : 

Agua 9,i7 por 1.000 

Acido carbonico . . 2.33 » » 

Determinacao do oxigcnio c azoic : 

Ar 163^'= 

Azote 129 

Oxigcnio 3i 

Composicao correcla 

Em volume : 

Azote 79,25 

Oxigenio 20,75 



D\S SCIENCIAS E LETTRAS. 133 

Em poso : 

Azote 77,11 

Oxigenio 22,89 



2. 



Na cnfermaria de partos, em a noite de 9 d'abril. — Es- 
la cnfermaria e dividida cm duas salas , que communicam 
por lima porta. 

A sala maior, cuja capacidade c de 1.303"'% continha 
4')doentes; asalamenor, cuja capacidade ^ de 335""", con- 
linha 12 doentcs puerperas e algumas creancas. 



7mm 



Pressao barometrica . . . . 0,757' 
Temperatura da casa ... 20° 

A sala maior e illuminada por dois bicos c a menor so- 
men tc por um ; a experiencia comecou ao anoitccer dcpois 
de fechadas as janellas e recolhidos os doentes. 

Agua 0,440 

Acido carbonico 1,362 

Peso do ar privado do acido carbonico e correclo = 135^' . 

Composicao em peso : 

Agua 3,25 por 1.000 

Acido carbonico .. 10,00 » » 

Em volume : 

Agua S,20 por 1.000 

Acido carbonico . . 3,25 » » 



134 A\N\ES 

3." 

Na enfcrniaria de S. Pedro, dcslinada a doenles dc ci- 
nirgia. 

A capacidadc da ciifcrmaria e dc li Gfi'"% conU'in 31 doen- 
les do sexo masculino ; 6 illiiniinada por dois bicos dc gaz, 
e duranlc o dia tern iima venlilacuo regular pela parte su- 
perior das jancUas. 



mm 



Pressao baromctrica .... 0,765 
Teniperatura da casa ... 18" 

Peso do ar privado do acido carbonico e correcto = 137^' . 

Coniposicao cm pSso : 

Agua 3,20 por 1.000 

Acido carbonico . . l,r>0 » » 

Em volume : 

Agua 5,10 por 1.000 

Acido carbonico . . 0,98 » » 

N'esta analyse fcz-se tambcm a determinacao do oxigenio 
e azole. 

Ar 163''= 

Azote 130^ 

Oxigenio 33 

Composicao em volume : 

Azote 79, n 

Oxigenio 20,53 



t)AS sr.iENr.i.vs e lettras. 13S 

Em peso : 

Azote 77,33 

Oxigcnio 22,67 



Em prescnca d'cslas analyses e c\ idente que nos logarcs, 
em que fizemos as nossas experiencias, o ar soffre viciacao 
nolavel em quanto a sua composicao. 

Nao nos parcceu absolulamente necessario, por emquan- 
to, investigar aexistencia de outros gazes que se podcm ac- 
cidentalmenle encontrar no ar dos espacos limitados. E to- 
davia muito frequcnle nas casas illuminadas pelo gaz a cx- 
istencia do acido sulfuroso, que sedenuncia inimedialamen- 
le pelo seu cheiro e pela impressao desagradavel que produz 
nos orgaos da respiracao ; mas nao se pode dizer com Yer- 
dade que entrc nos seja urn producto conslanle da combus- 
tao do gaz fornecido pela Gompanhia Lisbonense da illumi- 
nacao. Na noite, em que fizemos a analyse do ar no Ihea- 
tro de S. Carlos, dispozemos um apparclho destinado ado- 
sagem d'este corpo , e reconhecemos que o ar analysado o 
nao continha. 

Apesar d'este resultado negativo , achamos convenientc 
descrever o apparelho de que nos servimos , e que nos pa- 
rece muito proprio para as analyses d'esta ordem. Consta 
elle de um aspirador, que delermina a passagem do ar a tra- 
ces de um tubo de 5 espheras, chamado de Liebig, conlen- 
do acido azotico puro. gaz sulfuroso, que existir no ar, 
submeltido a analyse , con\erter-se-ha, pela accao oxidante 
d'aquelle acido, em acido sulfurico, que depois se precipita 
no estado de sulfato de baryta , pelo azotalo d'esta base, c 
de cujo peso se deduz aquantidade do gaz sulfuroso. Expe- 
riencias feitas no laboratorio nos haviam prcviamenle do- 
Tom. I. - Maio de 1^57. — 1 .' Classe. 1 ^ 



136 ANNAES 

monstrado a clTicacia crcste nicio , que nuo dcixarenios de 
ompregar cm occasiao opporliina. 

No thcalro do S. Carlos a viciaciio do ar, produzida pe- 
la rospiraciio e Iranspiracao do lanlos cciilenarcs dc indivi- 
duos que ali seajunlam, c pela combuslao dc tanlo gaz quo 
fornece a luz para illuminar lao vasla sala, e ainda aggra- 
vada pela clevacao de lempcratura que se manifcsta princi- 
palmenle nas ordens superiores de camarotcs , nas galcrias 
(' nas varandas. ar qucnte c saturado dc humidade, que 
ali sc respira , e na realidade insupporlavel. E necessario 
conscrvar constanteiiientc aberlas as portas dos camarotes pa- 
ra rcccber algum allhio do ar dos corredores. A humidade 
e lal que muitas \ezes as paredes , apcsar de serem de na- 
tureza absorvcnle , escorrem a agua que condensam. Na 
grande casa do pavimento superior do Iheatro, que corres- 
ponde a sala do especlaculo, eque communica com csta pe- 
la aberlura do tecto sobre o lustre, da-se muitas vezes o phe- 
iiomeno de iima verdadcira chuYa pela condensacao dosva- 
porcs que ali enlram por essa abertura. E no pa\imcnlo 
d'esta casa onde se pintam os grandes pannos de decoracao 
do scenario , e os artistas acham frcquenlemente o seu tra- 
balho perdido ou alterado por csta imperlinente chuva. 

A vista de tantos c tao graves inconvenientcs parece im- 
possivel que ainda no anno de 1857 se nao haja estabeleci- 
do , a todo custo , urn systema qualquer de ventilacao , 
que, pelo menos, os attenuasse , ainda que de todo os nao 
rcmovessc. 

E comludo de rigorosa justica confessar que o actual com- 
missario regio, o sr. D. Pedro de Brito do Rio, nos palen- 
teou OS mais sinceros desejos de Icvar a effcito essa obra tao 
util como necessaria , e nos confiamos em que, se elle con- 
tinuar a presidir ;i administraeao d'aquelle theatro , ha dc 
cmpregar todos os mcios dc a realisar cm breve tempo. 

Nao insistiremos mais sobrc a convenicncia de cslabclc- 



DAS SCIENCFAS E LETTRAS^ 137 

cer em todos os logarcs habitados , em que o ar se \icia , 
por tanlas e tao poderosas caiisas, os meios ciTicazcs dc veii- 
lilacilo ou rcnovacao do ar. E esla uma verdade que todos 
reconhecem. Limilamo-nos simplesmente a recommendar a 
aucloridadc publica que se nao descuide em salisfazer esta 
imperiosa necessidade. 

Muito se tem Irabalhado e escripto n'este seculo sobre a 
ventilacao e aquecimenlo das casas e edificios publicos. 

A hygiene propoe simuUaneamente a chimica, a physi- 
ca e a mechanica estes dois problemas — 1 ." Rcnovar cons- 
lanlemente o ar limitado, de modo que a sua composicao se 
niio affasle da composicao normal do ar livrc. — 2.° Mau- 
ler a lemperatura dos espacos habitados n'ura grau coiive- 
niente para o exercicio das funccoes vitaes. 

Estes dois problemas andam sempre unidos, mas a sua 
resolucao nao aprcsenta sempre as mesmas difliculdades em 
todos OS logares e em todos os climas. Enlre nos torna-se 
clla mais facil ou mais economica para certos casos, e nota- 
vehnente no thealro de S. Carlos , onde nao suppomos que 
seja necessario aquecer no inverno o ar fresco que houver 
de se introduzir no interior da sala, Basta a irradiacao do 
lustre para entreter uma temperatura suave , e a espessura 
das paredes para a conservar. Antes do comeco do especta- 
culo, na noite em que ali fizemos a analyse do ar, o ther- 
mometro marcava 18" aonivel da rua, no corredor, que da 
entrada para a platea superior, e a mesma temperalura nas 
frisas, quando o ar exterior n'essa noite eslava a 10". Nao 
diremos o mesmo das casas particulares, dos hospitaes, das 
prisocs , e dos amphitheatros das escolas , porque as suas 
coudicoes sao muito diversas. 

Nao entrando no programma da priraeira parte d'esle 
nosso trabalho a discussao dos meios mais adequados para 
estabclecer uma boa ventilacao, reservaremos oestudo d'cs- 
ta questao para outro logar, contentando-nos com indicar de 

10* 



138 ANNAES 

passageni que scri'a facil melhorar consideravclmenle as cou- 
dicOcs do llicalro de S. Carlos pcia adopcao do syslema pro- 
poslo pord'Arcct, modificando-o com osnovos processos de 
Mr. Leon Duvoir, ou com o estabelecido cm luglaterra pe- 
lo Dr. Arnol. 

Para satisfazer amplamcnte ao que exigem os principios 
adoplados para uma boa e sufiicientc ventilacao, 6 necessa- 
rio fornecer por hora a cada individuo 20 mctros cubicos 
de ar novo a tcmperatura ordinaria , e a cada bico de gaz 
102 metros cubicos : sendo ordinariamente a sala do thea- 
tre occupada por 1,500 pcssoas , e ardendo n'ella 325 lu- 
mes , segue-se que devemos fazer enlrar era cada hora um 
volume de ar superior a 66:152 metros cubicos, que ocal- 
culo da para aquelle consumo a tempcratura de 30° , tcm- 
peratura que sc pode reputar extrema n'aquelle thcatro. Em 
todo caso nos aconscihariamos que a renovacao se fizesse 
por 80:000 metros cubicos de ar novo e fresco, 

Na segunda parte d'este nosso trabalho occupar-nos-he- 
mos especiahnente do exame do ar que os canos de despejo 
verlem na athmosphera das ruas c das casas em que se a- 
brem. 

Lisboa, 6 de maio de 1857. 



J. M. D OLIVKIRA PIMENTEL. 



JOAQUIM ANTONIO DA SILVA. 



DAS SCIENCIAS E LETTRAS. lli^ 



llEVISTA 

DOS 

TRABALIIOS ClilMICOS 

^0 COMitm^ l^MO \iY. \Sal. 



hoguir e acompanhar os progresses de uma sciencia Ifio vas- 
ta e lao variada como a chimica, nao e Irabalho de pouco 
momento. Em nenhum dos diversos ramos, cm que se divi- 
de estudo da natureza, trabalham hoje tantos invesligado- 
res como n'aquelle que se consagra ao conhecimenlo da com- 
posicfio dos corpos, e ao do movimento inlimo dos elementos 
da materia. Todos os dias se manifestam aos observadores no- 
vos e curiosos resultados , que alargam a espiiera dos nos- 
sos conhecimentos e se consignam nos annaes da sciencia , 
ao passo que muitos d'elles teem logo iramediata applicacao 
nas outras sciencias e ua industria. 

Todos estes resultados da investigacao dos chimicos ap- 
parecem ao principio disperses em publicacues divcrsas, an- 
tes de formarem corpo de doutrina nos tratados complclos 
da sciencia. E por isso que n6s julgamos vanfajoso para o 
publico forneccr-lhe n'este Jornal, em nolicias successivas, 
uma rcsenha de todos os novos descobrimentos que vao clic- 
gando ao nosso conhecimenlo. 



140 ANN\i;s 

E cstc principal ohjcclo da revisla chimica, que hoje 
cncctaicmos , aprcscnlaiulo uin quailro resuinido dos Iraba- 
Ihos que n'esle ramo foram submeltidos, nos primciros Ine- 
zes d'esle anno, ao julgamento da sociedadc sciculifica mais 
auclorisada da Europa, o InsUluto de Franca. 



Acido fulminico. Urn dos primeiros Irabalhos aprcsenta- 
dos este anno , no mcz de Janeiro , a Academia Real das 
Sciencias de Paris , foi a Memoria do sr. Leon Schichnoft", 
oITicial de arlilheria do exercito russiano, e chimico de gran- 
dcs esperancas, sobre a conslituigao racional do acido ful- 
minico e de uma nova serie de corpos derivados do acido 
acelico. Esle trabalho ^ a conlinuacao do estudo do sr. Schi- 
chnoff sobre a verdadeira composicao dos fulminatos, d'es- 
las subslancias extremamente explosi\as , que se produzem 
pela reaccao do alcool sobre os azotatos de mercurio ou pra- 
la , em presenga de urn excesso de acido azotico e com os 
quaes se fazem as escorvas fulminanles das armas de fogo, 
e os petardos ou estalos, que, entre nos, tanto estrondo fa- 
zem nos ioucos divertimentos do carnaval. 

acido fulminico era considerado como um dos estados 
isomericos do acido cyanico, no qua! dois equivalentes d'es- 
te ultimo se achavam condensados, formando um acido bi- 
basico. sr. Schichnoff demonstra que n'este acido se dislin- 
guem tres grupos reunidos n'uma molecula, dois dos quaes 
sao de acido cyanico , CyO^ H , e o lerceiro e o mononi- 
tro-aceto-nilryle * AzC 11^ (AzO'') ; sendo, porlanto, a sua 
formula empyrica : 

(? Az* H' 0' 

' A act'lo-nilrjlc, AzC* ll-", c uni coipo dcrivado da acrao do 
amiiioniaco sobre o acido acelico anhydro , c honiologo ao nicsmo 



DAS SCIENCIAS K LETTRAS. I'll 

E a for null a racioiial : 

C^kMP(AzO^)0' 

oil antes : 

2 CyO^H-AzG* IV (AzO^) 

quo significa que o acido fulminico conlem, por assim di- 
zer, dois grupos do oxigenio differcntes, dos quaes uni per- 
Icnce ao grupo AzOS e o oulro, cuja origem 6 diflerenle , 
perlencc aos dois equivalenles do acido cyanico. 



Sorgo sacarino. Osr. Bt'rard apresenlou, em nome dosr. 
Itier, director das alfandegas em Montpellicr, uma Memoria 
sobrc as \antagcns da cuUura do sorgo sacarino. 

Ha tempos a esta parte, e principalmente depois que o 
oidiuni atacou desapiedadaraente, como verdadeiro flagello, 
a produccao das vinhas, muitas lenlativas e serias experien- 
cias teem sido feitas com o fim de produzir o alcool com di- 
versas plantas sacarinas , taes como a betarraba , as cenou- 
ras, a abrotega c o sorgo. 

sorgo sacarino f holms saccharatusj, o kao-lien, da 
provincia deCantao, que os chins cultivam como planla util 
desde remotos tempos , e urn dos vegelaes mais nolaveis c 
dignos dc estudo debaixo de muitos pontos do vista scienli- 

ammoniaco Az IV e ao azolurcto dc potassio Az K-'. mononilro- 
accto-nitrylc on o accto-nilryle-mononitrado c o mcsmo corpo, no 
(lual, del)aixo da iuflucncia do acido azotico, uni cquivalcntc do liy- 
drogcnio foi substiluido por Az 0^ 



Ii2 AMSAliS 

ficos c indiistriaes. Ensaios feitos no Siil da Franca mostram 
que iini heclare do terra pode fornecor 120.000 pes d'csUi 
planla, que dao, termo medio: 

hastes 30.000 kilogrammas 

folhas 8.400 

graos 7.200 » 

Os 30.000 kilog. de hastes produzem 2.100 kilog. do 
assucar e 1.000 kilog. de alcool. 

Mas nao sao estes os unicos productos inleressanles do 
sorgo. Dr. Sicar, de Marselha, fez conliecer quo as glu- 
mas, que involvem o grao do sorgo, conteein duas materias 
corantes, que se acham combinadas, e das quaes uma e ru- 
bra , pouco soluvel na agua e muito soluvel no alcool, no 
ether e nos alkalis , e a outra 6 amarella, soluvel na agua 
queute e fria. A materia rubra recebeu o nome de purjmr- 
holcina ou purpuroleina, e a amarella o de xantholcina ou 
xantholeina. 

sr. Iter encontrou estas materias corantes nas glumas 
de todas as especies. 

Estas materias corantes podem utilisar-se em tinturaria. 
Empregando diversos mordentes e dissolventes, obtem-se com 
a purpuroleina, sobro os estofos de algodao, e principalmen- 
te sobre os de la e soda, tons de coloracao diversos que va- 
riani desde o pardo ate o bias, passando pelos rubros e cor 
de laranja. Com a xantholeina os tecidos, preparados com di- 
versos mordentes , tomam egualmcntc as cores variadas de 
amarello, cor de laranja, pardo e cor de rosa. 

Ate agora acreditava-se que estas materias corantes cx- 
istiam so nas glumas ; por(^m Mr. Iter moslrou que cllas so 
podiam dcsinvolvcr por meio de uma fermenlacao, em con- 
tacto com o ar, nas hastes do sorgo, depois de separada a 
parte sacarina. tralamento, a que clie submelle as has- 



D\S SGIMCIAS E LETTRVS 113 

tcs I'ermeiUadas para separar as materias corantcs, e inleira- 
inenle aualogo ao empregado pelos srs. Laugier, Uobiquct c 
Colin, para extrahir a purpurina e garancina da raiz da rui- 
va dos tinlureiros. 

Todos estes esludos esliio mostrando a conveniencia dc 
promover entre nos a cultura do sorgo, que as expericncias 
de alguns homens curiosos nos auctorisaui a julgar muito 
producliva no nosso clima. 



Affmidades chimicas . Osr. H. Sainte-Claire Devillc apre- 
senlou urn trabalho tendente a corroborar o principio ja beni 
estabelecido na sciencia dequc = as afiinidadcs chimicas dos 
corpos sao altamenle influenciadas pelas tcmperaturas a que 
se excrcem=:, Os factos que eile discute sao relativos as 
propriedades do aluminio e do silicio. 



Panifcagdo. Na sessiio de 12 de Janeiro, a commissao 
que havia sido nomeada para examinar a Memoria do sr. 
Megc-Mouries sobre o (rigo, sua farinha Qpanificacdo, apre- 
senlou a Academia um extenso relatorio , rico de faclos e 
observacoes interessantes sobre este objeclo, que se deve con- 
siderar como de primeira importancia. Sendo inlencao nos- 
sa dar ampla noticia do novo systema de panificacao pro- 
posto pleo sr. Mege-Mouries, em um dos proximos numeros 
d'este Jornal, limitar-nos-hemos por emquanlo a transcrever 
as conclusoes do relatorio a que nos referimos. 

« Recordando-nos da affaslada 6pocha desde a qual se 
pratfca a panificacao nas sociedades humanas, e do pcqucuo 
numero de niodificacoes que o tempo tem n'ella inlroduzido, 
nao se pode deixar dc rcconhccer a importancia do Iraba- 



lii ANNAES 

Ifio que acalnimos dc cxaminar : o proccsso do sr. Megc- 
Mourit'S , fiindado sobrc exporiencias chimicas (juo llie sao 
proprias , e acorde , por oulra parte , com as descobcrlas 
mais rccentes da chimica organica, nao csta no caso dc ou- 
tras muitas applicacocs novas a rcspeito das quaes se diz que 
so Ihes falla a sanccao da experiencia : a pratica de quasi 
urn anno abona esle processo, que rcsponde satisfactoriamcn- 
te a nccessidadc dos habitantes das grandcs cidadcs que nao 
qucrem senao o pao branco. » 



Novjo agenle anesthesico. oxido de carbonio, este gaz, 
que se produz na combuslao incomplela do carvao, ou quan- 
do carvao, em excesso relalivamcnte aooxigcnio, sequei- 
nia a uma alta lemperatura, e que parece ser a causa prin- 
cipal das asphixias pelos brazeiros de carvao , veio ultima- 
mente lomar logar entre os agenlcs aneslhcsicos , a par do 
ether e do chloroformio. As expericncias do sr. Tourdes , 
feitas na faculdadc de medicina de Strasbourg, cstabelcceram 
claramente este novo facto physiologico de que a medicina 
podera em muitos casos fazer applicacao importanlo. 



Nilralos conlidos no solo e nas aguas. sr. Boussingault, 
cujos excellentes Irabalhos de investigacao sobre a chimica 
applicada a agricultura Ihe leem adquirido grande reputa- 
cao, aprescntou ultimamenlc uma inleressante Memoria so- 
bre as quantidadcs dos nitralos contidos no solo e nas aguas, 
rica de factos c observacoes importantes, que complelam os 
esludos do mesmo auctor , ja anteriormenle publicados , c 
que teem por ilm mostrar a inllucncia dos nitralos sobrc o 
dcsin\ohimcnto das planlas. 



i)\s snir.NciAS i; i,i:ttrvs. lio 

Olrabalho, a qucnosreferimos, esclarccc supcrabundan- 
lomcnlc a Ihcoria dos adubos , c a cste respeilo nao podc- 
mos resistir a tentacao de Iranscrever aqui algumas das im- 
porlantes rcflcxocs do auctor. 

« No estado actual dos nossos conhecimenlos , diz ello , 
c nalural atlribuir os principios azotados dos vcgetaes, quer 
seja ao ammoniaco, quer seja ao acido nitrico, pondo, por 
cmquanlo, de parle a queslao de saber se o azote do acido 
passa, oil nao, ao estado de ammoniaco debaixo da infliien- 
cia do organismo vegetal. azote da albumina, da caseina 
e da fibrina das plantas fez provavelmente parte de urn sal 
ammoniacal ou de iim nilrato. Talvez se possa ajuntar aes- 
les dois saes uma materia parda que se obtem do estrume ; 
mas , ainda mesmo com a addicao d'esta materia, por em- 
quanlo tao mal conhecida, fica estabelecido que lodo o ele- 
mento immediatamente activo de um estrume e soluvel , c 
que, por consequencia, um solo estrumado, quando esla ex- 
posto a continuas chuvas, perde uma porcao mais ou menos 
forte dos agenles fertilisantes que se Ihe ministraram ; assim 
nas aguas de drainagem, \erdadeira lexivia do terreno, se 
encontram constantemente os nilratos e os saes ammoniacaes : 
e, se 6 verdade que o cumc das montanhas, que as planu- 
ras elevadas nao teem outros adubos mais do que as sub- 
stancias mineraes derivadas das rochas que as constiluem c 
das aguas meteoricas , nao c menos certo que , nas condi- 
coes mais ordinarias da cultura , uma terra muito adubada 
cede as aguas pluviaes que a atravessam, mais principios fer- 
tilisantes do que aquelles que das mesmas aguas recebe. 
Dando a terra um estrume n'um estado pouco adiantado de 
decomposicao, contendo, por isso mesmo, antes os elemen- 
tos dos productos ammoniacaes e dos nitratos do que os pro- 
prios saes ja conslituidos , o inconveniente devido a accao 
das chuvas muito prolongadas 6 bem menor do que se o es- 
trume cslivessc jd feilo, islu e, dominando n'elle os saes so- 



146 ANN.VKS 

luvcis. Assim, cnlrc as vanlagens que aprcsenla inconlcsla- 
velmcnte a applicaciio dos cstrumes liquidos, julgoquccon- 
vem collocar em primeira linha a de nao fornecer as cullu- 
ras senao as materias convenientemente niodificadas para se- 
rein absorvidas, niio as offerecendo a planla senao a niedi- 
da das suas necessidadcs : vcrdadeira dosagein , tcndo uma 
ccrla similhanca com os processos mais dclicados da physio- 
logia experimental , e que subtrahe os aduhos a accao dis- 
solvenle das aguas pluviaes. 

« Se as aguas plu\iaes, nas quaes o agricultor nao go- 
verna, produzem muitas vezes um etfcito desfavoravel sobre 
as culluras, pcla sua abundancia e principalmenle pela inop- 
portunidade da sua intervencao, nao aconlece o mesmo com 
as aguas das fontes, e com as dos rios trazidas por irrigacao 
ou com aquellas que pela impregnacao entretcem um \alle 
no eslado conveniente de humidade. Estas aguas, quando se 
fornecem por medida as terras, cedem-lhe a totalidado das 
subslancias uteis que trazem em suspensao ; os saes calca- 
reos e alkalinos , o acido carbonico , as materias organicas 
etc, ; e, para mostrar em que larga propor^ao eslas subslan- 
cias, dissolvidas ou arrastadas , sao fornecidas , recordarei 
que, n'uma serie de experiencias que eu linha emprendido 
para apreciar o volume de agua necessaria a irrigacao no 
nosso clima, durante o estio, pude fazer absorver mui facil- 
mente por um hectare de terra, fortemente semeado de tre- 
vo, 97 metros cubicos de agua todas as vinte e quatro bo- 
ras. Era, no fim de ludo, uma rega de 9''%7 dcliquidopor 
metro quadrado : era o mesmo que derramar sobre o solo uma 
camada de agua cuja cspessura nao atlingia um ccnli metro. 

« Entre os sacs uteis a vegelacao devem dislinguir-se os 
nitratos, cujos effeitos ferlilisantes nao haviam escapado a 
sagacidadc do sr. II. Sainle-Clairc Dcville , n'um Irabalho 
dassico que publicou, sobre a composicao das aguas pola- 
vcis, e do qual deduz como conscquencia, que as aguas das 



D\S SGIF.NCIAS E L1:TTR\S. IH 

fonles e dos rios e para os prados urn poderoso adr.bo, pcla 
materia organica e nilralos de que as plantas liram o azote 
indispensavcl ao seu organismo. 

Nao e pois necessario insistir sobre o interesse que pode 
haver cm dosar nas aguas urn adubo tao activo como o sa- 
lilrc ; OS resultados, que obtive, mostrando quanto esta ma- 
teria 6 variavel , justificam por outro lado a opporlunidadc 
de similhantcs investigacocs. » 

Em ultimo resultado de todas as suas investigacoes o sr. 
Boussingault conclue que as aguas, que circulam a supcrfi- 
cie do solo ou a pequena profundidadc , actuam mais , em 
relacao aos principios fertilisantes que cedem a terra, pelos 
seus nitratos, do que pela ammonia que conteem. 

Em outra Memoria, apresentada anteriormentc, sobre a 
ammonia contida nas aguas, o sr. Boussingault mostrou que 
a agua dos rios continha raras vezes alem de 0^',20 e a 
agua das fontes alem de 9 ^',02 de alkali por metro cubico ; 
mas em o mesmo volume de agua se achou o equivalente de 
6 a 7 grammas de nitrato de potassa, que corresponde, co- 
mo adubo azotado , a I^^IO de ammonia. Na apreciacao 
d'estes resultados 6 necessario nao perder de vista que a 
constituicao geologica de um paiz , e outras circumstancias 
locaes, teem grande influencia sobre a proporcao do salitre : 
assim este sal apparece em muito menor quantidade nas aguas 
que procedem immedialamente das formacoes plutonicas, do 
que nas que circulam nos terrenos calcareos e nos depositos 
terciarios superiores a ere. 

Entre as aguas meteoricas e as aguas das fontes ha uma 
differenca importante debaixo d'este ponto de vista, porque 
as primeiras conteem mais ammonia e as segundas mais ni- 
tratos. 

A discussao de todos estes faclos nao so interessa a phy- 
sica terreslre, mas c altamente proveitosa a primeira c mais 
necessaria das industrias humanas, a agricullura. 



148 ANN\ES 



Enxofrc. As rccenles investigacocs do sr. Bcrlhclol so- 
bre OS cslados alolropicos do enxofrc , lendem a csclarecor 
lima iiiiporlantc qucstao theorica de philosophia cliimica , 
que, apesar dc pcrlencer as mais elcvadas regioes da scien- 
cia, tcni ja fornecido a indiislria rcsultados imporlantcs. 

Eslamos ja hojc miiilo longc das doulrinas dc Bergman, 
que suppunha que os corpos cram dolados de affinidades 
constantes que determinavam cxclusivaraente as accoes reci- 
procas dos corpos, uns sobre outros. Ja Berthollet combatcu 
\icloriosamenle essa doutrina no principio d'csfe soculo , 
niostrando a influencia poderosa das condicoes physicas so- 
bre exercicio da affinidade ; mas as novas conquislas da 
scicncia teem alargado consideravelmenle este campo das 
tlieorias chimicas. Ainda ha poucos annos se julgava que um 
niesmo corpo exercia sempre as mesmas funccoes chimicas ; 
acUialmentc as nossas ideas a este respeito sao diversas. Ber- 
selius creou a palavra alotropici para designar a faculdade 
que cerlos corpos teem de funccionar diversamente, ou de 
exerccr propriedades chimicas diversas. Assim o oxigenio 
pode aprcsenlar-se-nos em dois eslados alotropicos diversos : 
um mais aclivo, mais elcctro-negalivo, sc assim quizercm, 
este e o ozone; oulro menos aclivo, menos oxidantc, e o oxi- 
genio ordinario. Tambcm o enxofre , que nus sabiamos ja 
ser um corpo susceplivel de se apresentar dcbaixo de aspe- 
ctos physlcos diversos , e um corpo alotropico, e que pode 
servir de typo a esia classe de corpos , porque se presta 
com exlrema facilidade ao estudo. 

ultimo trabalho do sr. Bertlielot Icm por fim definir 
claramente os diversos estados do enxofre livre, c a relacao 
que existe enlre eslcs eslados e a naturcza das combinacoes 
sulforosas de que ellcs i)odem derivar. 



DAS Sr.IKNCIAS E LF.TTRAS. 1^1 9 

]\6s sabiamos ja que o enxofre se apresentava, ora crys- 
lallisado em oclacdros derivados do prisma rhomboidal redo, 
ora em prismas rhomboidaes obliquos ; umas vezes no esta- 
do dc enxofre molle, elastico, e avermelhado ; outras \ezes 
dobaixo da forma utricular , e ainda com o aspecto de ma- 
teria amorpha e insoluvel no sulfurelo de carbonio. Estes 
difFcrentes e variados aspeclos podem dar-se ao enxofre, seni 
quo a sua natureza chimica se altere, aquecendo-o a tcmpc- 
raluras mais ou mcnos elevadas e resfriando-o mais ou me- 
nos rapidaraenle. Frodos , Gelis e Selmi mostraram que o 
enxofre, iibertado pelos reagentes das suas diversas combi- 
nacoes, podia apresenlar-se debaixo d'estes mesmos divcrsos 
estados. 

Mas enlre estes diversos estados, tao dissimilhanles en- 
Ire si, exislirao alguns que se possam considerar fundamen- 
taes? e a estes poderao serreduzidos os estados intermedios 
ou de transicao ? E , existindo elles , apresentarao alguma 
relacao constante com a natureza das combinacoes que po- 
dem ceder o enxofre ? Eis-aqui as questoes que a si mesmo 
fez sr. Berthclot, e que as suas investigacoes resolveram. 

Em quanto as primeiras, demonstrou elle = que todas as 
formas do enxofre se reduzem a dois estados alotropicos es- 
senciaes : o enxofre electro-posilivo , amorpho e insoluvel ; 
e enxofre electro-negativo ou enxofre octaedrico , soluvel 
no sulfurelo de carbonio ; d'estes dois estados o ultimo e o 
mais estavel. 

Pelo que respeita a ultima questao a resposta foi egual- 
mente positiva. Todos os factos por elle observados condu- 
zem a uma conclusao geral : a saber que os estados do en- 
xofre livre estao ligados com o papel que este corpo repre- 
senta nas suas combinacoes : todos estes estados, diz o sr. 
Berthelot, podem reduzir-se a duas variedades fundamentaes 
correspondentes ao duplo papel do enxofre ; se o enxofre re- 
presenta o papel de elemento electro-negativo ou de com- 



loO AXN\r.S 

hruentc, analogo ao do chloro, ao do oxigonio, nianifes(a-sc 
(lebaixo da forma de cnxofrc crystallisavol, oclaedrico, e so- 
luvcl no sulfurelo de carbon io. Pelo contrario, se rcprcscn- 
ta do elemcnlo electro-negalivo ou corabuslivel, analogo ao 
hydrogenio c aos mctacs, manifcsta-sc cntfio dcbaixo da for- 
ma de enxofre amorpho, insoluvcl nos dissolventes propria- 
menle dilos. 

Os faclos observados, n'este estudo do enxofre, pelo sr. 
Berlhelot, moslram claramente as relacoes que existem cn- 
trc OS phenomcnos chimicos e os phenomenos electricos, re- 
lacoes ja previslas por muilos chimicos celebres, e cujo exa- 
me deve conduzir um dia a revelacao dos verdadeiros prin- 
cipios mathematicos da statica chimica. 

sr. Sainte-Claire Deville foi um dos primeiros chimi- 
cos que dirigiram a sua altenciio sobre a alolropia ou iso- 
merismo do enxofre, e que prepararam o campo para as in- 
leressantes observacOes do sr. Berthelot. A esia mesma or- 
dem de esludos perlencem as imporlantes investigacoes do 
sr. Schroelter sobre o phosphoro, que o conduziram ao des- 
eobrimenlo do phosphoro amorpho, estado alotropico do phos- 
phoro , no qual este corpo gosa de propriedadcs physicas , 
chimicas e organolepticas mui differentes das do phosphoro 
ordinario, e entre as quaes sao principalmente notaveis, em 
relacao as suas applicacoes industriaes, a sua manor inflam- 
mabilidade , a ausencla do cheiro desagradavel , e perfeita 
inoxividade. 

Iloje podemos contar ja entre os corpos elemenlares sus- 
cepUveis de alotropia, o oxigenio , o chloro , o enxofre , o 
selenio, c talvez o carbonio, quo, em todo o caso, 6 um cor- 
po evidenlemenle polymorpho. 



Ga::es conlidos nas agms naturaes. sr. Pcligol apre- 



bAS scienCias e lettras. ISl 

schlou, na sessiTo do 9 de fevereiro d'esle anno, a Acade- 
mia das Sciencias de Paris a conlinuacao dos sens esludos 
I'elalivos a composicao das aguas naturaes. Versa principal- 
men le esla parle do seu trabalho sobre a quantidade, nahi- 
reza e origem dos gazes, que as aguas, vindas de grandes 
profundidades, como as do poco arlhcsiano de Grenelie, em 
Pan's , trazem em dissolucao. Para dar conla dos estudos 
d'esla natureza, que interessam principalmente aphysica do 
giobo, 6 necessario abrangel-os em loda a sua extensao, a- 
fim de poder comparar todos os resuUados das analyses , c 
lirar d'ellcs conclusoes gtraes. Todavia nao posso deixar , 
desde ja, de mcncionar alguns faclos notaveis verificados pe- 
lo illustre academico no decurso das suas invesligacoes. 

sr, Peligot achou sempre que nas aguas correnlcs o 
o\igenio e o azote se achavam sempre dissolvidos nas pro- 
porcoes exigidas pela lei de Dalton e Henri para a solubi- 
lidade dos gazes. que prova que estes dois gazes sao de 
origem athmospherica. Nao acontece o mesmo para o acido 
carbonico, que, nas aguas das fontes e dos rios, eem lodas 
as que alravessaram as terras, apparece em quantidade supe- 
rior, que denota que a sua proveniencia nao e athmosphe- 
rica, mas Sim procede do ar contido nas terras, onde o a- 
cido carbonico existe em grande proporcao, havendo resul- 
tado dacombustao das materias organicas. E esle acido car- 
bonico que facilila a dissolucao dos carbonatos de cal e 
magnesia e de outros saes que encontramos como residuos 
na evaporacao das aguas. Na agua dachuva ja nao aconte- 
ce mesmo que nas aguas terrestres , porque ali a quanti- 
dade de acido carbonico achada pelo sr. Peligot e apenas de 
2,4 por 100, exactamente a que devia ser segundo a lei de 
Dalton e Henri , em razao do seu coeficiente de solubilida- 
de e dos .r.'.-r-. d'esle gaz que exislem no ar normal. 

As analyses, que eu tcnho feilo das aguas das diversas 
nascentes, que abastecem a capital, e de outras, cujos re- 

ToM. I. - M.vto DE IRS". — 1 .* Classe. 11 



I'll ANNAES 

sullados so piiblicarani, cm parle, na fiazela Modica do Lis- 
boa, coiuliizoni as luosinas cuncliisOes. 

Oulro resullado iiiipoilanlo 6 a ausencia do oxigcnio nos 
gazes conlidos nas agiias vindas dc grandos profundidadcs. 
Na agua do (jronello o sr. Peligol achou , (juo , dopuis do 
soparadu o acido carbonico, o ar conlinha 

Azoic 92, (> 

Oxigcnio 7,4 



1000 



Heflcclindo que lao pequena porcao do oxigcnio poderia 
provir do ar contido nos frascos cm quo a agua era reco- 
Ihida , premuniu-se contra csla causa do crro , recolhondo 
a agua cm frascos cheios dc acido carbonico, e submcllen- 
do-a depois a ebullicao para separar os gazes dissolvidos , 
rcconhcccu a ausencia total do oxigcnio. 

Na analyse que fiz , em 1853 , da agua que brota em 
uma das nasccnlcs do lanque das lavadeiras , nas Alcaca- 
rias, agua cuja tcniperalura elevada c conslanlc indica cla- 
ramenlc que vem dc grandc profundidadc, achei tambem que 
ar dissolvido na agua continha 
* 

Azote 92,4 

Oxigenio 7,6 



1000 



como sc podc vOr cm o n." 21 da Gazela Mcdica (anno dc 
18^*3) a pag. 330. N'cssa mesma occasiao rccolhi os gazes 
que brobolani da nascentc , e achci que continham cm 100 
cen timet ros cubicos 



bAS SCIENCtAS E LETTRAS. 153 

Azoic 08 

Oxigenio 1 

Acido carbonico 1 

«1o que sc podc tambcm concliiir que o ar dissolvido nas a- 
guas das Alcacarias e consliluido unicamcnle pclo azote. 

Tudo nos leva a acrcdilar que as aguas da chuva, que 
levam o ar em dissolucao , alravessando as diversas fonna- 
cocs gcologicas , para alimentar os lencoes d'agua arlhesia- 
iia , perdeuj o oxigenio , que linhani dissolvido , na oxida- 
cao dos sull'urelos e da materia organica que encontram ua 
sua passagem a Iraves da crusta do globo, e surdem depois 
com caracter de verdadeiras aguas mineraes, podendo to- 
davia servir ainda a alimentacao (a nao conlcrem principios 
muilo activos) , sc depois se arejareni sulflcicnlemente para 
rcdissolver novamente o oxigenio. 



Boro. Os srs. Wohler c H. Sainte-Claire Deville conli- 
liuam OS sens inleressantes esludos sobre os corpos simples. 
Depois do sr. Deville ter obtido osilicio crystallisado nos es- 
lados diamantino e graphitoidc, similhantes aoa de carvao , 
OS dois illustrcs chimicos, descobridores do aluminio , sub- 
melleram o boro a investigacoes analogas , e acharam lam- 
bem para este corpo, que pertence amesma familia natural, 
OS mesmos estados ; assim elles obliveram o boro crystal- 
lisado ou diamantino, rival do diamante em brilho c dure- 
za , que talvez Icnha ainda de figurar entre as mais bellas 
pedras prcciosas , o boro graphitoide, e o boro amorpho. 



Magnesia. As investigacoes do sr. Deville sobre os cor- 

11* 



IK 4 ANNAES 

pos elenieiilarcs, nielallicos e nao melallicos, c as de oulros 
chiniicos que o acompanliam n'esla ulil c inlerossanle em- 
preza de passar cm revisla esta parte da chimica mineral , 
lo^los OS dias nos fornecem rosuUados novos de grande im- 
portancia para a scicncia. Acabci de mencionar os (|ue elle 
t)bleve do sen esUulo sobre o boro , corpo niio melallico, e 
tao parente do carbonio e do silicio ; agora accrescenlarei 
algumas parlicularidades intcrcssanles do magnesio , radi- 
cal da magricsia ou terra amarga , como Ihe chamavam os 
anligos chiniicos. Esle mclai foi descoberto pelo sr. Bussy , 
que obtcvc polo methodo eniprcgado pelo sr. Wohler 
110 dcscobrimenlo do aluminio. As propricdades d'esle cor- 
po foram esludadas cuidadosamenle pelo sr. Bussy , e de- 
pois pelo sr. Bunsen , que d'elle obleve maiorcs quantida- 
4.les, deconipondo, pela correnle galvanica, o chlorurelo de 
magnesio em fusao. Sabia-se que este melal era branco e 
brilhanle como a prata, leve em relacao aos outros metaes, 
sendo a sua densidade represenlada por 1,87 , maleavel, e 
fusivel a uma tempcralura rubra. 

Os srs. Saintc-Claire De\ille e Caron , submeltendo re- 
cenlemente este melal a um novo exame, e preparando d'el- 
le maiores quanlidades, pelo processo analogo ao que sc cm- 
prega para a reduccao do aluminio , descobriram-lhe uma 
propriedade imporlante, que facilita a sua purificacao, eque, 
junta as ja conhecidas, ocolloca na classificacao dos metaes 
a par do zinco , com o qual tern grandcs e notaveis analo- 
gias. Esta propriedade, a que me reftro, e a volatilidade. 

Assim magnesio e \olatil como o zinco, e, como elle, 
podc distilJar-se ; e fusivel (juasi a mesma lemperalura , e 
OS sens vapores ardem como os do zinco, cmittindo luz des- 
lumbranle de brilhantisrao e clareza, ,e produzindo tambem, 
como zinco, um pompliolix magnesiano, islo e, um oxido 
ou magnesia lanuginosa, cujos velos, alvos c levcs, se de- 
posilam cm lorno da chamma. 



MS SClENCrAS E LETTRAS. t5'.'> 

Os mcsmos chimicos acharam que a dcnsidadc do inc- 
lal puro dcve roprescnlar-sc por l,lii, c csludam agora a 
sua maleabilidade, duclilidade eas outras propriedades phy- 
sicas. (Jmagnesio lima-se bem, burne-se porfeitanienle, coii- 
serva-sc brilhanle, quando e puro, em prescnca do ar, se a 
sua supcrficie e polida ; finalmente e em tudo similliaule ao 
zinco, ou talvez superior n'algumas das suas qualidadcs pliy- 
sicas. 

Na preparacao do magnesio o sr. Deville emprega , co- 
mo na do aluminio, os chlorurelos de magnesio e de sodio 
ou de polassio, o fluorurelo de calcio e o sodio melallico. 

600^' de chlorureto de magnesia requerem 100 de so- 
dio, c produzcm ili^' de magnesio bruto. 



Phosphatos mineraes emprefjados como adiibos. Desdo 
muito tempo que a agricultura emprega com reconhecida 
vanlagem o phosphato de cal dos ossos, e principalmenle o 
que se obtem como residuo nas fabricas de refuiacao do as- 
sucar, para eslrumar as terras dcstinadas a cultura dos cc- 
reaes. Este produclo tem por isso augmenlado consideravel- 
mente de valor. Modernamenle os fabricanles de adubos ar- 
lificiaes juigaram que {wdiam substituir o phosphato mine- 
ral de cal ao dos ossos, visto que a sua composicao chimi- 
ca era a mesma , e que d'elle se cncontram grandes depo- 
sitos na natureza. A Eslremadura hespanhola, e nao muito 
dislante da nossa fronteira, possue urn d'estes depositos mui- 
to consideravel pela sua extcnsao e possanca. Os inglezes- 
comecaram ja a importar o mineral pliosphalado com o prin- 
cipal destino para a agricultura, e no commercio da Gram- 
Brelanha encontram-se grandes quantidades de adubos arli- 
ficiaes preparados com elle. Mas pode o phosphato mineral 
substituir vanlajosamcutc o phosphato dos ossos? Esla 6 a 
qucslao importante. 



1[>6 ANXAKS 

sr. Moridc, cm uma nola que aprcsenlou a Acadojiiia 
das Scicncias dc Pan's, resolve negalivaniciile a queslao. — 
« Os phosphalos mineraes, diz olle, nao leoni neiihumas das 
propriedades physicas e chiniicas que lornam os phosphalos 
dos ossos assimilaveis no aclo da vegelacao. . . Forain indu- 
zidos em erro os que julgaram vel-os aoluar vantajosainen- 
li como adiibos , nos casos que citaram , quando era siin- 
plesmcnte como correctivos que elles obravam. » 

Uma oommissao composla pelos srs. Boussingaull e Payen 
deram complela razao as exporiencias e observances do sr. 
Moride, 

Existe uma grande differenca entre o phosphato de ori- 
gem animal, e o phosphato mineral em relacao ao seu em- 
prego na agricultura ; e esta depende do eslado do devisibi- 
lidado do primeiro e da sua mistura inlima com a materia 
organica alloravel, que perraillem a sua solubilidade na agua 
carregada de acido carbonico que alimenla a vegelacao, fa- 
cililando por conseguinte a sua assimilacao peias plantas. 
phosphato mineral e, pelo contrario, muilo oompaclo, e os 
meios mechanicos nao sao sufficientcs para o reduzir a um 
tal eslado dc divisao que o torno soluvel, o por conseguin- 
te assimiiavcl. 

sr. Moride indica aos agricullores um mcio muito sim- 
ples de reconhecer em qualquer adubo artificial phosphala- 
do a existencia de um ou de outro phosphato : basta fervcl- 
os com acido acetico, que dissolve o dos ossos odeixa in- 
tacto phosphato mineral. A calcinacao lambem serve pa- 
ra OS differencar : o phosphato dos ossos deixa uma cinza 
branca, e o phosphato mineral produz cinzas vermelhas ou 
pardas. 

sr. Moride indicou ainda a possibilidade de utilisar , 
pelos meios chimicos, os phosphalos mineraes como adubos. 
Seria necessario para isso alacal-os pelos acidos forles para 
os tornur soluveis, precipilar nas dissolucoes, separadas da 



nAS SClliNCFAS E LLTTRAS. IT) 7 

ar(5a, o phosphalo dc cal pclas aguas aminoniacacs on pclas 
aguas magncsianas, como sao as aguas niaes das niarinhas, 
e ajunlar-ihe depois materias organicas susccplivcis do fer- 
mcntacao on putrefaccao. Este meio scria na roalidade olll- 
caz, porem nuiilo dispendioso longe das grandes faF)ricas de 
productos chimicos. 

Em todo caso o sr. Moride fez urn bom scrvico aos 
agricullores, desperlando a sua allcncao sobre eslc ponto, o 
pondo-os de prevencao contra as fraiides commeltidas na 
preparacao dos adubos artificiaes, deque ja muilos teem si- 
do victimas. 

As observacoes do sr. Moride sao ainda corroboradas pe- 
las experiencias do sr. Bobierre sobre a accao das cinzas Ic- 
xiviadas na preparacao das terras. Nas cinzas os phospha- 
tes exislem n'um estado physico muilo favoravel a sua dis- 
solucao pela agua carrcgada de acido carbonico, o que ex- 
plica seu precioso cfFeito como adubo, principalmenle nos 
terrenos que teem reaccao acida. 

De todas as experiencias ate agora feilas , o que se co- 
nhece e que o estado physico dos phosphates influe podero- 
samente sobre a sua solubilidade, e e d'esta solubilidade que 
depende o seu elTeito fertilisante. E hoje urn problema de 
importancia capital para aagricultura otornar soluveis, por 
urn preco favoravel , os phosphatos mineraes. A industria 
comeca a occupar-se d'csle objecto, e devemos csperar que 
clla resolva brcvemente a questao proposta. 

Junto a Paris, na Viliete, os srs. de Molon e Thurnei- 
sen trabalham ja n'este sentido. Recebem grandes carrega- 
coes de nodulos de phosphalo de cal das Ardenas e da Mou- 
se, e reduzem-os a p6 muito lenue pelo processo usado nas 
fabricas de louca e de vidro para pulverisar os seixos, islo 
e, aquecendo-os no rubro, e assuslando-os depois na agua 
fria, antes de os moer nas galgas. Teem egualmeiile obser- 
vado que os phosphatos mineraes se dissolvem facilmcnle a 



158 \NN\i:s 

frio no acldo chloihydrico , separaiulo-se da silica , e quo 
d'esta dissolucao se podem precipilar pcla cal no eslado gc- 
alinoso , e por isso nas inelhurcs condicocs para so mistii- 
larcm com as materias orgauicas que deveiu consliluir os 
cstrumes arlificiacs. 

Feilo caminho de fcrro de Lestc, nos pod^mos lor a^ 
qui cm Lisboa por infimo preco o pliosphalo mineral de Tru- 
jillo e de Caceres , e, com elle , as nossas fabricas de pro^ 
duclos chimicos, aproveilando q acido murialico dos fornos 
de sulfalo de soda , c as aguas magnesianas das marinhas, 
podem crear cm larga escala csla nova induslria da prepa- 
racao dosadubos arliliciaes, naoso para as necessidades fu- 
luras da nossa agricullura , mas desdc ja para o consumo 
illimilado da agricullura iygleza. 

{Conlimia.) 

i. M. D£ OHVEIRA VlMENTEfc, 



DAS SCIENCLVS E LETTRAS. lo9 



REVISTA ESTRANGEIRA. 

1856. 

(CONTINUACAO.) 



(Is aperfcicoamentos dos molores a vapor nao leem fcilo es- 
quecer aos hoinens dc scicncia os motores hydiaulicos, lao 
simples, luo seguros e cconoiiiicos seniprc que se pode dis- 
por de uina corrcnle oii de uma queda d'agua. Ha vaiias 
cspecies de receplorcs hydraulicos , que se adaplam as di- 
vcrsas circumstancias que aprcsenia a forca (queda d'agua 
ou correnle) que se prelende aproveilar : rodas de palhelas 
curvas ou planas, recebendo a accao da agua por cima ou 
por baixo, combinacOes variadas cm que a forca e melhor 
ou peior aproveilada , rodas de eixo vertical dcnominadas 
lurbinaSy e que lambem apresenlam grandes differcncas na 
conslruccao e modo de acluar, sao apparelhos diversos pa- 
ra conscguir um fim, aproveilar o mais possivel a forca da 
agua que resulla da sua massa, da sua velocidade, da allu- 
ra d'ondc cae elc. Enlre lodos esles syslcmas de receplorcs 
hydraulicos, as lurbinas, ou rodas de eixo vertical, sao as 
mais geralmente procuradas hoje pelos induslriaes. Estes re- 
ceplorcs hydraulicos podcm Irabalhar com muila velocidade 



160 ANNAES 

dcntro oil fura d'agua , e facilmcnlc sc adaplam a grandes 
ou a pi'qucnas forcas , occupam pouco csj)a(.'o, c podnii, o 
que c unia intcressanlc qualidadc, tomar a vonladc vcloci- 
dades diversas, segundo as necessidades da induslria a qne 
sc applica esta casta dc motor. 

Em 18')6, foi objccto de uma nota intercssante do sr. ge- 
neral Morin, apresenlada t^ Acadcmia das Scicncias de Pa- 
n's, a turhina do sr. Girard, conslruida segundo os jjrinci- 
pios racioiiaes para a rcccpcao c saida do fluido motor , c 
que e deslinada a utilisar a agua caindo dc grandes alturas. 
Este mesmo sr. Girard havia conslruido ja d'eslcs rcccpto- 
res de eixo vertical para funccionarem nos rios, com quc- 
das d'agua baixas. Os novos apparelhos do sr. Girard Ira- 
balham nas condicocs as mais variadas : uns prccisam, para 
funccionarem, com quedas d'agua baixas, e dando podcrosas 
forcas, 1 2 ou 1 5000 litros d'agua por segundo ; outros, conv 
uma qucda d'agua ou pressao de 50 metros , dispendem 2 
litros por segundo. Em Genova, apparelhos d'esles, funccio- 
nam n'algumas casas pela accao da agua que ahi c levada 
pclos canos de dislribuicao da cidade, agua que, depois de 
produzir uma forca que pode variar de 1 a 3 cavallos , 6 
depois applicada aos usos domesticos. A ulilidade de urn mo- 
tor tao pouco dispendioso e simples, para a pequcna indus- 
lria sobre tudo , nao pode deixar de ser apreciada por to- 
dos. 

Outro motor, nao menos importante e simples, e de uma 
facil installacao cm qualquer corrente dc rio, grande ou pe- 
queno , porque a todos se pode adaptar, foi objccto do es- 
ludo e expcricncia do illustre general , director do Conser- 
vatorio das Aries eOlficios de Paris, o sr. 3Iorin. A cadeia 
fluctuante inventada por um religioso ilaliano, o revcrendo 
padre Basiaco, foi cxperimentada no Sena, e os rcsultados 
da expcriencia provaram que ella utilisa proximamentc 22 
per 100 da forca da corrente, que pode facilmente ser ins- 



MS SGIENniAS E LETTRAS. 161 

lallada scm scr ncccssario fazcr iragiia dispcndiosas cons- 
IruccOes , c applicar-sc como niolor dc qualquor inachina , 
por em movimenlo as dragas dcslinadas para limpeza dos 
rios, c lalvez, quando modificada, servir lambcm para pu- 
xar a reboque as embarcacocs. A cadoia hydraulica flucluaii- 
le, que mcreceu a benevolente proteccao do imperador dos 
francezes , e iima cadeia bastanlc ligcira para sc conscrvar 
flucluando a superficie da agua, nas duas extremidades pas- 
sa csla cadeia sobre dois lamborcs inslallados em barcos ou 
sobrc estacas, em roda dos quaes pode gyrar. D'esta cadeia 
estao suspendidas , e mergulhadas n'agua, palbetas de ma- 
deira ou metal ligeiro, mais on menos compridas , segundo 
a profundidade da correnle ; eslas palbetas sao as que rece- 
bem a impulsao da agua corrcnte, epoem em movimenlo a 
cadeia; como esta porem, situada horisontalmente sobre a 
agua e passando nos dois tambores, tern urn ramo que des- 
ce quando o oulro sobe, e preciso que as palbetas sejam ar- 
ticuladas de modo que se fechem quando sobem a corrcnte, 
e se abram quando estao do lado em que Ihe recebcm a ac- 
9ao , produzindo assim a forca que poe em movimento a ca- 
deia. Esla idea e verdadeiramenle engenbosa , de facil ap- 
plicacao o pode vir a dar importantes resultados pralicos. 
novo motor bydraulico mercceu os louvores do general Mo- 
rin, e a approvacao da Academia. 

A lucida intclligencia, e conhccimentos profundos dos en- 
genheiros italianos, em tudo que se refere aos difficeis pro- 
blemas da hydraulica, teem levado estes aesludar o modo de 
aproveitar as correntos d'agua, para por em movimento lo- 
comotivas arrastando pesados comboys, por caminhos de fer- 
ro de grandes actives, que, pelo systema actual de vapor, nao 
poderiam ser transilaveis no sentido da ascencao. A diHlcul- 
dade que se apresenla no caminho de ferro, que deve ligar 
a Franca c o Piemonte, pelo aspero, abrupto eelevadomon- 
tc Ccnis , 6 que mais vivamenlc tern cxcilado a attencao 



162 4NNAES 

dos engcniiciros ilalianos, que preleiulem fazer uso dos rc- 
seivalorios d'agua (jiie forinam pcqucnos liigos na paric niais 
elevada do nionle, para Iransporlar os comboys de um pa- 
ra oulro lado dos Alpos. Uina expcriencia feila proximo 
a Turin, com uma locomoliva invenlada pelo sr. Deloreuzi, 
dcu muilo cspcrancosos rcsultados. A locomoliva o posla em 
movimenlo por uma correnle d'agua , onde Irabalha como 
motor uma simples roda hydraulica ; ao passo que a locomo- 
liva marcha sobre os seus dois carris, as rodas, que suslen- 
lam eixo da roda hydraulica, apoiam-se sobre duas bar- 
ras ou guias laleracs denladas. A expcriencia deu bons rc- 
sullados em aclives dc 5,10 ou tli por 100, nao so na su- 
bida senao lambem na descida. Oulro syslema , que parecc 
ser mais perfeilo, foi inventado pelo sr. Girard, eesle cspe- 
ra-se que rcsolvera completamentc o problema. 

E grande o inleresse que lem o esludo dos molorcs hy- 
draulicos nas suas variadas applicacoes, mas para se podcr 
conhecer toda a ulilidade que elles podcm dar applicados a 
qualquer paiz, ao nosso, por excmplo , 6 necessario conhe- 
cer a forca, a imporlancia, a indole dos rios e reservaloiios, 
esludar o modo por que hoje eslao regulados, os abusos a 
que da logar a falla de uma boa legislacao, e as modifica- 
coes que a sciencia das construccoes podc fazer no regimen 
das suas aguas, Esle esludo tern ainda uma vanlagem supe- 
rior a esta. A agua e o principal elemenlo de uma boa agri- 
cullura , sobre ludo n'um paiz meridional como Porlugal ; 
e, emquanlo se mTo cuidar de conhecer o parlido quepodc- 
mos tirar d'essa riqueza, que e hoje quasi perdida para nos, 
dilTicilmenle poderemos fazer verdadeiros progressos na cul- 
iura do paiz. Aproveilar as aguas nas irrigacoes , aprovei- 
tai-as como motor , nao em proveilo de poucos, mas para 
ulilidade de lodos os que liveren> direilo de usar d'esla ri- 
queza agricola e fabril, para ulilidade vcrdadeira do paiz, e 
esludar com estc lira, e ainda com o fim de remediar os cs- 



MS SCIENCIAS E LETTR.VS. 163 

Iragos das inundacoes, a nossa hydrographia, c iinia das niais 
bellas, iileis e honrosas eniprezas de que a sciencia pode scr 
incunibida. 

— As relacocs inlimas e consfantes que ligam lodos os se- 
res organisados com a athmosphera, no meio da qua! ellcs 
tstao completamente mergulhados , de que lirani continua- 
nienle os elcmenlos da nutricao e da respiracao, e para oii- 
de esses elementos vollam dcpois de haverem passado no or- 
gan isnio por varias e complicadas combinacoes e metamor- 
phoses, nao podiam deixar de prender a altencao da sciencia. 

As variacoes de calor ou de frio , de humidade ou sec- 
cura, de movinienlo ou quielacao , de peso , de elcctricida- 
dc clc. , que alleram a cada inslante o eslado da athmos- 
phera, influindo sobre a saude ou a doenca, sobre a activi- 
dade ou a proslracao dos animaes , sobre a germinacao , o 
dcsinvolvimento, a florescencia e a maturacao completa dos 
fructos dos vegctaes , nao podiam deixar de ser estudadas 
pclos sabios. Para esludar rigorosamente estas complexas va- 
riacoes athmosphericas, era necessario descobrir instrumen- 
tos que dessem d'ellas exaclas medidas, suscepliveis de com- 
parar-sc cntre si em todos os tempos ; e para tudo isto se 
conseguir , para se alcancar ainda uma idea das causas de 
lodos OS phenomenos meteorologicos, era preciso que a mc- 
chanica, a optica, o magnetismo, o calor, a electricidade, a 
chimica, a geographia physica fossem profundamente conhc- 
cidas, e e esta a razao por que a meteorologia e uma sciencia 
moderna. 

Moderna como e esla sciencia, tem feito rapidos progres- 
ses, e, protegida pelos governos e pelas sociedades scientifi- 
cas , acha-se possuidora de numerosissimas observacoes , e 
ajudada por muilos observatorios espalhados hoje pelos pon- 
tos principaes do globo. A meteorologia nao tcni, nem pode 
ter, a vaidosa pretencao de adivinhar o futuro ; a meteoro- 
logia, assim como lodas as sciencias serias, contenla-se era 



regislar cxaclamcnle os faclos, em accuniular nos scus an- 
naes a liisloria numerica dos successes, e em comparar enlre 
si todos OS aeon leci men los para conhccer sc alguma lei geral 
OS prendc iins aos outros. D'estc csludo pacicnlc e ininlerrom- 
pido dos faclos deduzcm-sc effccliYamcnlc consequencias im- 
porlanlissimas para a localidadc onde estc esludo se faz , c 
pode-sc por esle mcio clicgar a dclcrminacao de mcdcas c 
limiles que indiquem, com muita aproximacao , as circum- 
siancias climalericas, c a extensao das variacocs que podcm 
apresenlar-se na alhmosphera. Dos estudos meteorologicos, 
simullar.camcnte cxeculados cm muilas paries do globo, ain- 
da sc podcm tirar, e teem tirado, niais valiosas consequen- 
cias, leis mais geraes , e uleis conhecimentos sobre a geo- 
graphia physica, a distribuicao dos phenomenos meteorolo- 
gicos a superficie da terra. 

Foi por eslas observacoes que se pode conhecer a singu- 
lar distribuicao do calor na terra, e Iracar as linhas de egual 
lemperatura media annual, ouisolhermas', dislingulr os cli- 
mas de extremo calor c de extremo frio, de bruscas irregu- 
gularidades, dos climas temperados e eguaes ; foi por eslas 
observacoes que sc pode marcar os limites das regioes, de 
chuvas de inverno, de primavcra, de eslio ou de oulono, e 
determinar a quanlidade aproximada de agua que annual- 
mente pode cair era cada uma d'estas regioes ; a eslas ob- 
servacoes se deve o conhecimento dos pontes onde se apre- 
senlam com maior inlensidade e frequencia as trovoadas c 
as outras manifestacoes grandiosas da electricidade ; a direc- 
cao dos venlos e regulares correntes maritimas, de cujo co- 
nliecimenlo a navegacao lira tanta ulilidade, tem sido minu- 
ciosamentc esludada e tracada em cartas geographicas ; a 
accao que a altura das montanhas, a exposicao, a direccao 
tem sobrc o abaixamenlo da lemperatura, a formacao das 
nuvcns , pcrsislencia da neve , ludo Icm sido assumpto de 
observacoes para os melcorologislas. 



DAS SCIENCIAS E LETTRAS. 165 

No anno dc IS'JG um largo debate sc abriu na Acade- 
niia das Sciencias dc Pan's sobre a meleorologia : homcns 
de sciencia, conhccidos polos sous trabalhos, respeilados pc- 
los seus vaslos conhccimcnlos, dcclararam-se adversos as ob- 
scrvacocs meleorologicas, lacs quaes ellas sc pralicani geral- 
mente nos observalorios. Ncgou-se a ulilidade das observa- 
vacues ; aflirmou-se que das observacoes geracs feilas ale ao 
prescnle se nao tinha obtido fructo real , nem com ellas a 
sciencia linha dado um passo ; disse-se mesmo que d'estas 
observacoes se nao lirava utilidade alguma pralica. E esla 
discussiio um exemplo do que pode sobre o espirito, mesmo 
dos homcns mais illuslres e mais inslruidos , uma opiniao 
preconcebida, que sc Iransforma quasi em paixao, obscure- 
cendo as ideas mais claras, encobrindo os faclos mais posi- 
tivos, e tolhcndo a justa apreciacao dos principios mais se- 
guramcnte fundamentados, Apesar do ataque fcilo pelos mem- 
bros da commissao da Academia das Sciencias de Pan's, en- 
carregada de dar parccer sobre a opportunidade e conve- 
niencia de se eslabelecer em Argel um syslema de observa- 
tories meleorologicos, a nova sciencia saiu victoriosa, e as 
observacoes progridem por loda a parte. Os resultados obti- 
dos por Dove, Birt, Quetelet, Kreil, Kaemptz, Haidinger etc., 
dos seus complicados e longos estudos sobre as taboas de 
observacoes meleorologicas dos observatarios da Russia e da 
Alemanha, nao deixam a menor duvida sobre a imporlancia 
e real ulilidade para a sciencia e para a sociedade, da mul- 
tiplicacao dos observalorios meleorologicos nas differenles re- 
gioes da terra. 

esludo das ondas athmosphericas, que deu origem a 
um bello trabalho do sr. Liais, acerca do temporal que em 
14 de novembro de 18d4 causou grandes eslragos nas es- 
quadras do mar Negro , e uma demonstracao incontestavel 
da imporlancia e estado de adianlamenlo da meleorologia, e 
ao mesmo tempo a prova da utilidade que das observacoes 



1G6 ANNAF.S 

se podc lirar, logo que cslas se facnm siniuKancamonlo por 
focia a parte, e (jue os sens resullados corrain de mn a ou- 
tre exlremo do mundo levados pelos lelegraphos eleclricos. 

Para se apreciar o valor do csludo das ondas alhmos- 
phericas , convcni expor singellamenle as bases em que se 
fundani os meleorologislas para as dcterminar, e iiidicar 03 
efleilos que ellas produzcm. A physica possue no barometro 
urn mcio dc dcterminar p6so da alhmosphera n'uin dado 
logar ; barometro e uma balanca que da peso de uma 
columna de ar, que lem por base a secciiio do barometro, e 
por allura a du alhmosphera acima do logar em que ba- 
rometro se acha collocado. Se urn barometro cstiver ao nivel 
do mar, indicara peso de uma columna dc ar lendo por allura 
toda a que yae desde esse nivel ale aos confins da alhmos- 
phera ; se for Iransporlado para cimo de uma monlanha, 
o barometro indicara urn peso menor, haixard, porque a co- 
lumna dc ar que sobre elle aclua tem de menos loda a al- 
lura da montanha acima do nivel do mar. E e esle moli- 
vo porque, pormeio do barometro, nos podemos delerminar 
a allura das montanhas, visto que barometro desce lanlo mais 
quanto mais alia a montanha for, e de um modo proporcio- 
nal a essa allura. 

Urn barometro sempre flxo no mesmo logar , c ii mes- 
ma allura em rclacao ao nivel superior das aguas do mar« 
nao esta comludo inalteravel , antes apresenta conslantes 
variacoes de allura, que indica variacOes no peso da co- 
lumna alhmospherica , e conseguinlcmente nioslra tambeni 
que csla nao lem sempre a mesma allura. Os barome- 
tros indicam que a alhmosphera tem variacoes periodicas 
e diarias , e alem d'isso variacoes irregulares, as vezes 
muilo subilas , e quasi sempre acompanhadas de allera- 
coes raetcorologicas , tempcsladcs , chuvas , Irovoadas etc. 
As oscillacoes diurnas do barometro ha muilo que sao co- 
nhecidas, eseachara rcgularmentc csludadas; mas nao sue- 



r)AS SCIENCI\S E LETTU\S. 1G7 

ccdia mcsmo as variacocs consideraveis que por vczes se 
aprescnlam, c que se julgavam devidas a causas puramenle 
accidcnlacs, que era impossivel sujeilar a lei alguma geral. So 
um grande numero de obscrvacoes nieteorologicas, feitassuc- 
cessivamente, e em muitos logares dislinctos do globo , ob- 
scrvacoes exaclamenle comparaveis, podiam dar uma solu- 
cao, scnao completa e satisfacloria, ao menos aproximada, 
das imporlantcs questoes que se ligani com as variacoes su- 
bilas da pressao athmospherica. A analyse comparativa das 
observacoes de diversas localidades da Europa principalmen- 
te, mostram que em epochas do anno, ao que parece cons- 
tantes, na athmosphera se formam largas e elevadas vagas, 
como as do Oceano, que caminham a Iraves do conlinente 
europeu, prcccdidas e seguldas, como dcve ser, por depres- 
soes mais ou menos profundas. Quando estas montanhas de 
ar passam n'um logar, a espessura da athmosphera lorna-se 
maior, e por isso o seu peso augmenta, e os barometros dao 
signaes d'csse augmenlo de p6so, subindo ; quando depois 
passa a depressiio, que se segue a vaga athmospherica, a co- 
lunma de ar lorna-se menos alta, menos pesada por conse- 
guinle, e os barometros descem. Os quadros, pois, das ob- 
scrvacoes barometricas, devcm dar indicacoes exactas sobre 
todos esles phcnomenos. 

celebre aslronomo o sr. Herschel, auxiliado pelo sr. 
Birt, comecou o estudo das observacoes barometricas do mez 
de novembro de 1842 , e esse estudo tem sido proseguido, 
sempre para o mez de novembro, ate 1848 ; e d'esles lon- 
gos e complicados trabalhos resulta a consequencia de que 
n'este mez ha periodicamenle consideraveis vagas athmos- 
phericas, e uma, sobre tudo, de graudes dimensoes. A gran- 
de onda passa em Dublin no mez de novembro, de 12 a 17. 
Quando a crysla da vaga passa n'um logar, o que os baro- 
metros indicam subindo a maxima allura, o ar csla perfei- 
lamente tranquillo : ha agilacao, vento forte, ou mesino tem- 

ToM. I. -M.no DE 1837. — 1." Classe. 12 



168 ANNAKS 

poral, qiiando passa a deprcssao alhiiiosphcrica, islo e, qiiaii- 
do baixam os baromelros. Enbclivamcnto, sogundo iima lei 
eslabolecida pelo coronel Sabine , o vento dirige-se sompre 
para os logares onde a prcssao dada pclo baromelro 6 nio- 
nor, vindo de todas asdireccoes. A onda de novcnibro, se- 
gundo as obscrvacoes do sr. Birt, produz iima elcvacao ba- 
romelrica de 9 decimos de pollegada , a sua largura e de 
mais do 600 legoas , c a sua velocidade de 10 legoas pop 
hora. 

temporal, que em 14 de novembro de 1854 caiu \io- 
lento e deslruidor sobrc as esquadras que enlfio estaciona- 
vam no Mar-Negro, deu logar a um difficil e longo esludo, 
feito pelos srs. Liais e Ic Verrier , a que acima nos referi- 
mos ja. Comparando cnlre si as observacoes meleorologicas 
fellas no mez de novembro de 1834 em loda a Europa, p6- 
de-se tracar o caminho seguido pelo temporal, e ao mesrao 
tempo conhecer a niarcha da grande onda alhmospherica 
com que elle se achava ligado , ou antes, de que elle era 
dependente. Segundo os estudos do sr. Liais, a grande on- 
da chegava no dia 12 a cosla oriental da Inglaterra, diri- 
gindo-se para Sud-Oesle ; \inte e quatro boras depois, no dia 
13, centro da onda chegava a Berlim e Dresde , mas ao 
Sul parava nos Alpes, so doze horas depois 6 que ella pode 
Iranspor estas alias monlanhas e entrar no Meditcrraneo ; 
no dia 14 a oulra extremidade da onda passa aOeste de S. 
Petersbourgo, inclina-se para o Sul, atravessa o Adrialico e 
enlra no Medilerraneo pelo golpho de Taranlo. A onda, no 
dia 14, forma uma curva cujo cenlro caminha mais vaga- 
rosamente do que os extremes. A extremidade Sul, ondula 
em roda dos Carpalos, chega a Cronsladt e dirige-se para o 
Bosphoro. A 16 a onda passa o Mar-Negro, evae perdcr-se 
nos Oraes. 

Esta onda caminbava enlre diias grandes depressoes ath- 
mosphericas, como um monlc enlre dois valles. A onda cor- 



DAS S(llENCt\S E LF.TTR.VS. 1G9 

respondia unia alhniosphcra Iranquilla, as deprcssGos corres- 
pondiam os vcntos fortes, os furacoes c as tenipeslades. Nos 
dias 10 e 11 de novcmbro a depressao anterior passou pela 
Franca e peninsula Ibcrica , mas fraca , nao acompanhada 
de violcnlos temporacs : a 12 chegava as provincias Danu- 
bianas , mas ja muito mais sensivel , c produzindo effeitos 
mais violcnlos ; no dia 13, a primcira rajada de vento fa- 
zia-se scntir sobre o Mar-Negro, e no dia 14 manifeslava-sc 
temporal. A depressao posterior a grande onda dava lo- 
gar, no dia 14, a iim pequeno temporal em Pan's, temporal 
que alravessou a Franca toda nos dias lli e 16 em que al- 
tingiu seu maximo de violencia. 

Todas as vezes que na athmosphera ha uma diminuicilo 
de pressao a ella corrcsponde um resfriamento , e ao res- 
friamento a formaciio de vapores. Assim e que o ar Irans- 
parente, subindo rapidamenle pelaencosta de uma serra, ao 
chegar ao cimo, onde a pressao alhmospherica e menor, res- 
fria e forma um nevoeiro , porque a agua n'elle dissolvida 
se agglomera em vapor. As dcpressoes, que acompanham as 
ondas athmosphericas, e a que corresponde uma menor pres- 
sao , que e indicada pelo abaixamcnto do baromelro , sao 
acompanhadas de um abaixamenlo de temperatura , de um 
resfriamento ; d'aqui resulta a formacao de vapores , que 
conlribue para os movimentos mais ou menos violentos da 
athmosphera. Isto explica o augmento de intensidade da de- 
pressiio anterior da grande onda de novembro , ao atraves- 
sar Mcditerraneo e o Mar-Negro , onde mais abundanle- 
menle se podiam formar vapores do que sobre o conlinente 
europeu. 

Aleni da grande onda cuja marcha foi particularmente 
estudada pelos srs. Liais c le Verrier, outras menores atra- 
vessaram a Europa de Ocsle a Leste no mesmo mez de no- 
vembro de 1854. A marcha, relativamente vagarosa, das on- 
das e das depressoes athmosphericas, de que se pode deter- 

12* 



170 ANNAKS 

minar a cada instanlo, a posic-iio, a dircccao c a intensldadc, 
presla-se a (juc, polo telographo doclrico, se d6 d'cllas aviso 
(le regiao cm rogiao ; podendo-so assini cvilar grandcs catas- 
trophes, c salvar muilas vidas, principalmcnle dos que fazcni 
a pequena navcgacao c a pesca proximo da cosla , onde os 
iiiesperados lempoiaes causam por vczes deploraveis naiifra- 
gios. Logo que por toda a parte houver obscrvatorios me- 
teorologicos , c que uma rede de fios clectricos ligar lodos 
OS povos da Europa , o que brevcmentc se realisara , sera 
possivel ler noticia, horas antes, das mudancas dc tempo que 
se vao i-calisar. 

cstudo das vagas de novembro mostra ja que ha n'eslc 
phenomcno uma certa regularidade, e por conscguinle, quo 
ello resuUa de causas constanles cujos cfTcitos se manifcs- 
tam todos os annos n'uma determinada epocha : um dia es- 
sas causas serao conhecidas, e por conscguinle poder-se-ha 
prever, com aproximacao, oestado da athmosphera naocca- 
siao cm que essas causas sobrc ella acluarem. 

Um estudo importante do cclebre sr. Quetelet, sobrc as 
ondas alhmosphericas de junko, prova que nao c so no mez 
de novembro que se apresenta periodicidade na passagem d'es- 
sas ondas alhmosphericas. Provavelmentc estas ondas distri- 
buem-se periodica e rcgularmenle pelas eslacocs , e um dia 
descobrir-se-ha a lei d'cssa distribuicao , e mais tarde as 
causas a que c devida ; entao a meteorologia tera dado um 
grande passo, e prestado um eminente servico a sciencia e 
a humanidade. Esta nossa esperanca so se podera realisar 
— se ella c realisavel — quando por toda a parte houver 
obscrvatorios mcleorologicos, bcm organisados, conscicncio- 
samenlc dirigidos , e inlimamcnte ligados entre si por um 
pensamcnto commum e uma dircccao uniforme. Esles obscr- 
vatorios devem estar distribuidos de modo que, nao so con- 
signcm os phenomcnos alhmosphericos das differcntcs regioes 
do globo, scnao lanibcm as modificacocs que n'csscs phcno- 



I)\S SCIENCIAS E LETTRAS. 171 

nicnos imprinicin os conlincntes, os marcs, as scrras, os la- 
gos, OS rios etc. ; cnlao, c so dcpois ile largos annos de cons- 
lanlc trabalho e dc estudo profundo, 6 que se podora conhe- 
ccr sc tudo que na athmosphera se passa e o resultado de 
induencias conslantes c determinaveis, ou seoacaso dascir- 
cumslancias accidenlaes determina muilas das niudancas que 
na athmosphera sc manifeslam. 

Felizmenle, nao so o numero dos observalorios vai cres- 
cendo , mas vai tambem apcrfeicoando-se de dia para dia a 
construccao dos intrumenlos do observacao. Os baromelros, 

05 thermomelros, dao hoje indicacoes do rigorosa cxaclidao, 
e perfeitamente comparaveis enlre si ; mas o que principal- 
menle preoccupa os constructores e os homens de sciencia, 

6 a construccao de instrumentos quo registem a cada ins- 
lante todas as variacoes dc temperalura e de pressao alhmos- 
pherica. Na Exposicao Universal de Pan's, viam-se muilos 
instrumentos regisladores, scndo os mais notaveis aquelles 
que cxpoz o celebro observatorio meteorologico de Kew. Ob- 
tem-se a rcgislacao fazendo passar urn rayo dc luz pcia ex- 
tremidadc superior da columna iiquida (de mercurio) dos 
instrumentos, rayo de luz que, depois de recebido em appa- 
relhos oplicos convenienles, vai actuar sobrc urn papel pho- 
lographico muito sensivel : esle papel enroiado n'um cylin- 
dro que faz uma volta em 24 boras, pela sua posicao, que 
c delerminada por um movimento dc relojo, indica o tempo, 
c os signaes, que deixa sobrc clla o rayo de luz, indicam a 
altura em que o mercurio eslava no instrumento, baromctro 
ou thermometro. sr. Ronalds inventou dois apparelhos 
d'esta natureza, que sao muito perfcitos, e teem dado os me- 
Ihores resultados no observatorio RadclifF de Oxford. Um dos 
apparelhos, denominado barographo, da as alturas barome- 
tricas correctas, com grande cxactidao , das variacoes que 
n'cllas causa a mudanca de tcmpcratura. outro api)arelho 
c ihermographo, que tambem rcgisla phothographicamcnle 



172 ANNAES 

as indicacoes da Icmperaliira, dadassimullancamonle por uin 
Ihonnometro ordinario (thornioinclro secco), c por um llicr- 
inonielro humido ; indicacoes que, combinadas, dao, como 
sabem os physicos, nao so a Icmperatura, senao lambcm o 
grau dc humidade do ar. 

Para conhcccr c determinar a direccuo e inlensidade do 
vento, empregam-s6 os cata-venlos dolados dc grande mobi- 
lidadc, que dao as direccoes das correnles alhmosphericas, 
c diversos apparelhos que marcam a velocidade d'essas cor- 
renles, D'estes, o mais reconiniendado pelo observatorio do 
Kew, e adoplado no observalorio da nossa Esoola Polyle- 
chnica, e a venloinha do doulor Robinson, que consladeuma 
venloinha girando n'um eixo vertical , formada de quatro 
rayos eguaes lendo nas extremidades oalotes hemisphericas ; 
esta venloinha tern um movimento do rolacao sempre pro^ 
porcional a velocidade do vento. Nos apparelhos modernoa 
OS instrumenlos registam a cada instante a direccao e velo-' 
cidade do vento em papeis que se movem, por um movimen^ 
to de relojo ; uns porem registam por meio de lapis ou pon- 
loiros que recebem o movimento do cata-vento, e da venloi- 
nha ; outros registam por mejo da eleclricidade que decom- 
poe um papel preparado de um modo particular, que seri'a 
longo, e pouco ulil descrevcr aqui. A determinacao da quan- 
lidade de chuva tambem se obtem por moio de udographos, 
islo e, de apparelhos que registam authomaticamente a his- 
toria dos phenomenos a medida que elles vao lendo lo- 
gar. 

Pelo que fioa dilo pode-so apreciar a importancia e co- 
nhecor os progressos da meleorologia. Esta sciencia nao tem 
por fim satisfazer uma mera curiosidade scienlifica, nlio ser- 
ve so para colleccionar faclos sem ligaclto e sem valor. A 
sociedade pode lirar da meleorologia grande ulilidade como 
fica indicado ; as applicacOes d'csta sciencia a hygiene , a 
navegacao, a agricullura, sao muilas, c todas da mais trans- 



DAS SCIENCIAS E LETTRAS. 17^ 

cendcnte importancia. Muilos phenomenos, quesaoainda dcs- 
conhecidos, ou de que lolalmenlc se ignoram as causas pri- 
iiiordiaes , so pelos perseveranles esforcos da meleorologia 
chegarao a ser do dominio complelo da sciencia. 

estudo minucioso e inleressanle que n'estes ultimos lem- 
pos se tern feito da geographia botanica, isto e, da dislribuicao 
dos Ycgetaes, cullivados ou nao, sobre a superficie da !erra, 
moslra que esla dislribuicao depende principalmente da ac- 
cao do calor. Cada espccie vegelal , so gcrmina, so vegela 
acima de um deterrainado grao de tcmperatura. A cevada, 
por exeniplo, so conieca a viver quando o thermometro mar- 
ca uma lemperatura superior a 5* graos centigrados ; o Iri- 
go, quando esta c superior a 6 graos : desde o momenlo em 
que principia a vegetar ate aquelle em que fruclifica , pre- 
cisa cada planta receber uma certa somma de calor, que e 
quasi constante , isto c, sommando as temperaturas medias 
dos dias que vive a cevada, desde a germinacao ate a fru- 
ctificacao, acha-se que essa somma 6 de 1.500 graos; se 
basia um curto espaco de tempo para prefazer esta somma, 
a vegetacao e rapida, se e preciso um longo prazo, entao a 
vegelacao e vagarosa. sr. De Candolle , na sua Geogra- 
phia Botanica , determinou estas relacoes interessantes do 
calor com a vegetccao para muitas especies , e para todas 
achou uma tempera'ura minima, abaixo da qual nao ha ve- 
gelacao, uma sommi constante de calor para a sua evolucao 
completa, e para mu tas tambem, uma lemperatura maxima ; 
quer dizer, o gnio do calor maior que a especie pode sup- 
portar sem padecer. Estas interessantes leis da vegelacao 
podem dar idea da importancia que a meleorologia dove ter 
para a botanica e para os progressos da agricultura. Quan- 
do se conhecer bem i rclacao de cada especie vegetal com 
a lemperatura, e houver observacoes meteorologicas rcgula- 
rcs em cada paiz , poler-se-ha conhecer a priori , se a in- 
troduccao de uma plaala nova c ou nao possivel, cvilando- 



I7i ANNAES 

sc assim rmiilas illusucs rulnosas para os cuUivadorcs» que 
as vozes embaracam o vcrdadeiro progresso. 

poderoso e inconteslavel elTcilo do calor sobre os ve- 
gclaes 6 modificado pcla accao mais ou menos longa da luz 
solar sobrc cstes sores organlsados. Seni enlrar aqui cm par- 
licuiaridadcs de physiologia vegetal , que exigiriam longas 
explicacoes, basla citar urn dos varios exemplos que so en- 
conlram na citada obra do sr. De Candolle. A Radiola li- 
noides nas Orcadas (59" de latitude) cessa de vegelar ondc, 
acima da temperalura minima 6 graos , a somma do calor 
reccbida 6 2,223 graos; em Dronlheim (63° 26' de latitu- 
de) basla-lhe uma somma egual a 1,900 graos. Qual e a 
causa d'esta differenca em sommas de calor acima do grao 
minimo indispensaveis para se complelar a vida e a reproduc- 
cao das sementes na Radiola linoides'! A causa 6 a accao 
mais prolongada dos rayos do sol em Dronthein do que nas 
Orcadas ; n'aquella localidade, o dia 6 mis longo do que 
n'esta, uma hora e um quarto, na epocha em que vegeta a 
planla citada aqui para exemplo. Reconhecendo, pelas suas 
invesligacoes, a poderosa accao da luz solar sabre as plan- 
tas, sr. De Candolle recommondou o estudo da intensidado 
c poder chimico d'esta luz aos meteorologistas. 

Foi sr. Pouillet quem dispoz priireiro um apparelho 
para reconbecer a inlensidade das radiacoes solares ; appa- 
rellio que , a nosso v6r , deve tomar lo^ar entre os instru- ■ 
menlos de que faz uso a melcorologia nos seus observato- I 
rios. apparelho do sr. Pouillet ^ uma caixa exteriormente | 
branca e por denlro pintada de negro, orientada segundo a 
latitude do logar, e que, movida por uii maquinismo de re- 
lojo, segue o movimenlo do sol. Os rayi)s do astro luminoso 
pcnelram dentro da caixa por furos abertos na sua face , e 
vao cair sobrc um papel photographic* cnrolado sobre um 
cylindro que da uma volla em vinle e quatro horas, e que 
csta dividido, por linhas, em vinle e quatro partes cguacs , 



DAS SCIEW.LVS E LETTRAS. 17") 

que marcaiii o tempo. Caindo sobrc o papel, u liiz do sol 
desenha um circulo negro ; so o sol csla descobcrlo, csles cir- 
culos successivos marcani um Iraco ; sc uma nuvem encobrc 
sol, OS circulos ou tracos ficam isolados : a cor mais ou 
menos carregada dos desenhos feilos no papcl pholograpliico 
indica a maior ou menor inlensidade da radiacao solar di- 
rccta. Este apparelho comecou a funccionar em maio de 185'6, 
c OS resultados com elle obtidos leem por vczcs sido apre- 
senlados a Academia de Paris. 

— Esia rapida revista dos principaes trabalhos scienlifi- 
cos do anno passado, nao devc lerminar scm darmos nolicia 
aos nossos leilores de um dos objeclos mais imporlantes, mais 
uleis, mais eminentemenle humanitarios, que chamou a al- 
tencao das sociedades scientificas c dos principaes governos 
da Europa. 

Hoje que as populacoes parecem agitadas por uma forea 
invensivel que as leva a percorrerem o mundo cm todas as 
direccoes, a procurarem nas mais remolas regioes as forcas 
productivas da nalureza ainda nao exploradas ; hoje que os 
lacos de uma verdadeira fraternidade unem os povos, apa- 
gando as fronleiras ficticias que d'anles os separavam ; hoje 
que as produccoes da industria teem recebido das machinas 
um prodigioso incremenlo, e que as trocas d'esses produclos 
leem dado ao commercio um desinvolvimento immenso, os 
mares sao constanlemente sulcados por milhares de navios, 
a que os homens confiam vida e for tuna. 

A nolicia de desastrosos naufragios vem todos os annos 
cncher do terror e cobrir de lucto numerosas familias. Muitos 
dos funestos effeilos d'estes naufragios evitar-se-iam , se a 
bordo dos navios houvesse barcos de salvacao solidamente 
construidos , se todos os povos civilisados dispozcsscm pela 
costa do mar postos de soccorro para os navcgantes com ap- 
parelhos seguros de salvacao. 

Os cscaleres que os navios Irazcm a bordo, fcitos de ma- 



17(> ANNAKS 

deira , exposlos a accao do tempo, iiiuilas vezes mal cons- 
Iruidos, niio inleiramcnlc impcnclravcis a agua, pouco capa- 
zes de rcsislircm a choques violcnlos, e de certo nao rcsguar- 
dados conlra as chanimas do urn inccndio, sao a mal scgura 
csperanca dos viajantes em caso de inccndio on naufragio. 
A arte das construccoes cumpria pois resolver um imporlanle 
problcma : o da construccao de barcos a que se podcssc se- 
guianiente confiar a vida dos viajantes e da conipanha dos 
navios na occasiao de extremo pcrigo, de barcos capazes de 
rcsislir aos temporaes , as ondas, ao choquc dos rochcdos, 
lis chamnias, cmfim, a todas ascausas deslruidoras. pro- 
blcma acha-se complclamente resoivido por um constructor 
que, durante trinta e cinco annos, applicou a sua resolucao 
OS seus csludos , as suas faculdades, e ate grossos capitacs 
em dispendiosas expcriencias. £ ao sr. Joseph Francis, dc 
New- York, que a humanidade deve o novo systema da cons- 
truccao dos barcos salva-vidas, systema que tambem se ap- 
plica a outros apparelhos de salvacao, e a carros capazes dc 
alravessar rios caudalosos, boiando sobre as aguas sem pe- 
rigo para as cargas que transportam. 

A base do descobrimenlo do sr. Francis e a seguinlc. 
Uma lamina de metal, mesmo pouco espessa, sulcada em toda 
a sua extensao de pregas semi-circulares, torna-se por ex- 
tremo mais rigida, mais resistenle ao choque e ao peso, mais 
insusceplivel de quebrar-se do que uma lamina plana do mes- 
mo metal e da mesma espessura. Collocando laminas de ferro 
ou cobre entre duas enormes formas de fcrro fundido , c 
aperlando cslas por meio da irrcsistivel forca de uma ma- 
china hydraulica, o constructor americano nao so da as la- 
minas as pregas que Ihes dao forca e solidcz, mas alTeicoa-as 
com as curvas variadas c graciosas que deve ter o costado 
dos barcos para uma facil e rapida navcgacao. 

Os barcos melallicos conslruidos por este processo, e a 
que se podem juntar cameras dc ar para maior seguranca, 



DAS SC1U:.\C1AS E LETTHAS. 177 

coiiio nos barcos salva-vidas, sao de ligcireza exlrema, eao 
mesmo tempo resisteni aos violontos cheques, conscrvam-se 
impenetraveis a agua , e sao incombustiveis. Experiencias 
feilas por ordom do almiranlado em Inglaterra , provaram 
que esles barcos resistiam a cheques que deixariam esmiga- 
Ihados OS escaleres de madeira mais perfeitamente construi- 
dos. Estas cxperiencias e conscienciosos esludos comparatn 
vos levaram a concluir que os barcos do sr. Francis sao 
a prova d'agua e de fogo ; nao podem fender-se pelas varia- 
coes do calor, de frio e de humidade a que os escaleres es- 
lao sujeitos a bordo ; e ao mesmo tempo sao mais fortes , 
mais ligeiros, menos custosos e mais duradouros do que os 
barcos de madeira. 

governo americano , na sua legislacao sobre barcos 
de vapor, ordcna que a bordo d'aquelles que Iransporlarem 
passageiros, haja urn, dois, ou mais barcos de metal, capa- 
zes de conter cincoenta possoas, em proporcao com a tone- 
lagem d'esses navios ; e escolhe os barcos de salvacao do sr. 
Francis , como sendo os unicos que merecem considerar-se 
como perfeitamente seguros, e a prova de forjo. Muitos bar- 
cos d'esta mesma nalureza foram distribuidos pela cosla dos 
Estados-Unidos, para accudirem aos naufragos ; e para o ser- 
vico das alfandegas nao sao admittidas outras embarcacOes, 
que nao sejam as metallicas do sr. Francis. 

Nao e so na construccao dos barcos que o illuslre ame- 
ricano emprega as laminas metallicas : urn apparelho deno- 
minado carro de salvacao, e destinado a fazer impagaveis ser^ 
vicos a humanidade. carro de salvacao , e uma especie 
de barco, superiorraente fechado por um tec to convex o, em 
que hauraa abertura susceptivcl de se fechar hermeticamente. 
Quando um navio esta em perigo, todos sabem que ha meios 
de eslabelccer communicacao de terra para elle , lancando- 
Ihe cabos por meio de apparelhos, entre os quaes 6 estimada 
do capitao Manby ; eslabclecida essa communicacao , o 



178 ANNAES 

carro dc salvacao d suspendido por argolas que n'elle estao 
fixas, e rapidamcnic icado dc terra para o navio. Os via- 
jantes entrani no carro pela aberlura superior , que se fc- 
cha, e em poucos minulos acham-sc cm terra, sem corrcrem 
pcrigo, porque o novo apparelho resistc a todos os choques, 
e 6 impenelravel as ondas. A exccllencia do carro de sal- 
vacao acha-se provada por numerosas e sempre felizes expe- 
riencias. 

A oulra applicacao do systema do sr. Francis 6 k cons- 
Iruccao dos carros de transporte para os exercilos. Esles 
carros, que fazem em terra excellenle servico , mesmo nos 
caminhos mais escabrosos, podem entrar nos rios onde flu- 
ctuam com facilidade , sem ser necessario mesmo tirar-lhes 
as rodas ; lirando-lhes estas, enlao os carros Iransformam-se 
em barcos que navegam facilmente a remos. 

E facil v6r toda a ulilidade que o nosso paiz, que tem 
uma extensa e perigosa costa, barras cheias de recifes c bai- 
xios , rios , como o Douro, onde a navegacao 6 perigosa e 
OS choques contra os rochedos tantas vezes inevilavcis, ca- 
minhos quasi impralicaveis, torrentes que no inverno se nao 
podem sem risco atravessar, pode tirar da valiosissima des- 
coberta do sr. Joseph Francis. A Franca, a Belgica, a Rus- 
sia e a Inglaterra , teem a attencao fixada sobre esle obje- 
cto, e vao adoptando, para a marinha e para o exercito, os 
barcos melailicos do celebre americano. 

As hesilacoes , as perdas dc tempo, quando dao em rc- 
sultado sacrificio de muilas vidas, sao urn crime, que nao 
pode perdoar-se a uma nac3o civilisada. 

JOAO DE ANDRADE CORVO. 



I)AS SOIFNCIAS E LETTRAS. 179 



MORTE DO SENHOR 6ARA0 LUIZ AGOSTINHO CAUGHT. 



/l scicncia acaba de perdcr um dos scus mais infaUgaveis cultorcs, 
o sr. barao Luiz Agoslinho Cauchy. Este dislinclissimo malhemali- 
co , primeiro e mais fccundo de quantos honram a scicncia do 
nosso tempo, teve uma carreira lalwriosa, e uma vida illustrada pc- 
las mais nobres qualidades moraes. 

sr. barao Cauchy nasceu em 1789 ; aos 16 annos enlrou na 
Escola Polytechnica, e em 1811 ja elle tinha assignalado a sua car- 
reira scicntiiica com a demonstrafao do theorema de Euler sobre os 
polyedros, e de um dos mais didiccis Ihcoremas de Fcrmat. Em 1815 
entrou o sr. Cauchy na Academia, e desde enlao a sua pasmosa fe- 
cundidada scientilica mostrou-sc n'uma quantidado prodigiosa dc 
Memorias sobre a analyse pura, a mechanica, a physica mathcma- 
tica etc. 

Ligado ao partido realisla, o illustre mathematico saiu volunta- 
riamente de Franca cm 1830, e por algum tempo interrompeu os 
scus estudos mathematicos , para quasi unicamentc se occupar dc 
lilteratura e poesia. Como lodos os que teem um talento elevado, e 
um corafao puro e magnanimo, o distincto sabio apreciava eamava 
todas as grandiosas creafoes do espirilo humano, e em lodas sabia 
admirar o bello e o bom. Pouco depois, convidado para ir a Turim 
organisar um curso de physica transcendente , o sr. barao Cauchy 
dedicou-se outra vez aos estudos do calculo, e publicou a continua- 
cao de uma obra, de que ja havia dado a luz cinco volumes, os Exer- 
cicios Malkemalicos. Em 1837 voltou para Franca, e de cntao ale 
1857 apresentou a .\cademia perlo de quinhentas Memorias, alem 
dc um grande numero de relatorios sobre os mais notaveis Iraba- 
Ihos que n'este periodo fizeram progredir as malhemalicas. nome 
de Cauchy acha-se intimamenle ligado com tudo quanto a analyse 
transcendente tern feito de mais prodigioso n'eslcs ultimos trinta annos. 

Uma subita enfermidadc poz tcrmo a carreira brilhantc do sabio 
mathematico , privou a Franca de um homcm dc elevado caractcr, 
de nobre corafao, de alma charidosa e bonevola, e o mundo de uma 
das suas mais vastas e gloriosas intclligencias. 



180 A^^'AI■s 

OBSERVATOUIO 31ETE0n0L0r.IC0 DO INFAN 



RESIIMO 



tpvaw 


haiuimk- 

TltO. 




tiii;km( 
Thcr 


Minno. 




m 


m 
d 


fnomctros das lomitc- 


1856 


d 


Thermomctro. 


raturas liniiUs. 


Dc7eml)ro. 


= 1 

o 


S £ 


Maxima. 

Minima. 

Variicao 
diurna. 

Melia 
do dia. 


Decadas. 


Milli- 
mctros. 


Graos cciUc- 
simacs. 


Graos conlcsimacs. 


dal." 


75(5,98 


14,36 


1^,29 


16,02 


9,93 


6,09 


12,97 


Medias . » 2.' 


759,41 


12,55 


12,01 


13,12 


7,51 


5,58 


10,33 


.. 3.-^ 


757,05 


11,15 


10,20 


11,89 


5,37 


6,32 


8,73 


Madias do mcz 


777,79 


12,61 


12,10 


13,62 


7,61 


6.01 


10,61 



Prcssao. 

Exlremas ^*'^^''"''' (•^''s "^ epochasdiarias). . . 769,41 cm 30 as 9 h. m. 

do mcz. 

] Minima » 742,92 » 26 ao ' <iia. 

Variariio maxima 26,49 

Temperalura. 

I Maxima al)soluta 19,0 em 7 

I Minima 1 ,2 » 2 

Variacao maxima 17,8 



DAS ST.IENCIAS E LF.TTRAS. 

TE D. LUIZ, NA ESCHOLA POLYTECIIMCA. 



ISl 



AIKNSAL 



PSYCintOMETUO. 


LDOGKAPHO. 


ANKMOCUAPIIO. 


OZONOMKTRO. 


SERENiDAnG 

1)0 cfto. 


m 

Gr.io (Ic humi- 
dade do ar. 


m m 

n ' n 

Alluradangua 
plmial. 


m 

Rumos 
do vcnlo. 


Modi as 
diurnas. 


m 

1 


Por 103. 


Millimetros. 


Predomi- 
nanlcs. 


Griios mc- 
dios. 


Gr<ios mc- 
dios. 


78,45 
67,48 
69,25 


TOTAL. 

55,2 
14,7 
19,i 


q.S.O. 
q.N.E. 
Vario. 


4.6 
4,7 
3,8 


1,2 
5,8 
5,1 


71,65 


TOTAL. 
89,3 


Vario. 


4,i 


4,1 



Ilumidadc. 



p. I Maxima (das i^epochas diarias) .. . 100 cm 3 c G as 9 h. m. 

do mez. 

1 Minima » 30,4 » 31 as 3 h. t. 

Variacao maxima 69,6 

Dias mais ou mcnos vcntosos : 7,8,9,11, 12, 14,15,16,17, 18, 19, £0, 

21,24,25,26,29. 
Chuva ouchuviscocm : 2, 3, 4, 5, 6,8, 9, 10, 11, 12, 13,14, 18,21.22, 

2i, 25, 26, 28. 
Dias mais ou mcnos cnncvoados : 3, 15, 16, 18, 29, 31. 
Trovocs cm : 9, 
Ncvociros cm : 4, 6, 11. 

V. Quadro das Obs. trihorarias. o directou 

GUILIIERME J. A. D. PEG ADO. 



182 AXNAF.S 



VARIEDADES. 



U .consunio, scmpre crcscente, dos combiistivcis dirige a atfencao 
dos homcns industriacs ede scicncia, dcsdo miiito tempo, sobre os 
nioios do aprovoilar, com mais vanlagcm c maior cconomia, as difl'e- 
lonles matcrias coml)uslivcis que se teem successivamcnse accumu- 
lado na crusla do giobo, pcla dcslruicao dos seres organisados e prin- 
cipal men tc dos vegclacs morlos. 

As turfeiras, que rcsullam da accumulacrio dos rcslos altcrados 
das plantas crl)aceas aquaticas , nos iogares pantanosos, olVerecem, 
(lesde OS tempos mais remotos, urn corabustivcl de inliraa qualida- 
de, cujo consumo e restricto as populacoes e industrias pobres de 
algumas regioes ; porem a turfa, que e um man coml)ustivcl, quan- 
do se queima , tendo soffrido uma simples dissccacao ao ar , pode 
lornar-sc nao s6 um exceilcntc combustivei pela carbonisafao, mas 
ale forneccr productos valiosos para a industria, 

Em Inglaterra conlinuam n'esle moment© os esforcos, ja princi- 
piados ha annos, para obter com as turfas um carvao de qualidadc 
superior e bom gaz para a illuminacao. Os srs. Guynne , de Lon- 
dres, teem quasi rcsoivido csle probiema, segundo asseveram alguns 
jornaes. Transformam elles as turfas em massas solidas duras e de 
structura muito densa, pesando 1.153 kilog. por metro cubico, em 
quanto que a hulha de New-Castic nao pcsa mais do que 305 kilog. 
DO mcsnio volume. Estas massas contecm, em 100 paries, 9 de agua. 
53 de matcrias volateis, cm grande parte condensaveis, e 36 de car- 
vao poroso. Entrc as matcrias volateis obtem-se 1,880 de um liqui- 
do ammoniacal, 5,14 de alcatrao carrcgado de paralina, e 40 de 
gaz (juc tem um poder illuminantc cgual a 7 vclas de spremaceti. 
gaz, purificado pcla sua passagem a travcs de um liquido alka- 
lino , e completamentc isento de enxofrc , c arde sera cheiro nem 
lumo. carvao da turfa e cmincntcmente proprio para a fabrica- 
cao dc fcrro macio e intciramentc conipaiavcl, debaixo d'estc ponlo 
de vista, ao carvao dg madeira. 



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ANN4ES DAS SCIENCES 



LETTRAS. 



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i: CLASSE. 






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ANMES 



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SCIENCIAS E LETTMS. 



PUBLICADOS DEBAIXO DOS AUSPICIOS 



ACADEMIA REAL DAS SGIENCIAS. 



%mm MATHEMATICAS, PHYSICAS, HISTORICO-NATllRAES, E MEDICAS. 



TOMO I. 

PRIMEIRO ANNO, 

JUNHO DE 1857. 



LISBOA 

NA TYPOGRAPHIC DA MESMA ACADEMIA 



1857 



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INDICE 



DOS VRTIGOS CONTIDOS K ESTE NUMRRO. 



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TRABALIIOS APRESENTADOS A' AGADEMIA. 

fkG. 

coMETA de Mr. d'Arrest 183 

APPLiCACAO local da pomada do cannabia n'uma ulcera 
carginomalosa da face. — Noli me taiigere 189 

NOTA sobre a faculdade fertilisante das dejeccOes lorua- 
das inodoras pelos meios chimicos 197 

NOTiciA sobic unia colleccao de conchas das ilhas da Ma- 
deira cPorto-SanIo, offerecidas ao Miiseu de Lisboa 
pelo sr. Joao d'Andrado Corro 204 

REMSTA dos trabalhos chimicos 212 

REviSTA ESTRANGEiRA. Janeiro e fcvcrciro 222 

VARIEDADES. — AMYLENACAO SCguida dc HlOrtC 237 

oBSERVATouio mclcoroiogico do Infanle D. Luiz, na Es- 
cola Poly(cchnica 240 

MdiiTK (l(j sr. harao Thcnard 24 6 



Das sciFNf.ivs e lettras. 183 

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TRABALIIOS APRESENTADOS A ACADEMrA. 



COMETA DE Mr. DARKEST. 



Mr. C. Runikcr, director do Observatorio Astronomico de 
ihambourgo , tondo vindo a Lisboa com o fim especial de 
tralar da sua saiule , achando-se cm um paiz , que parece 
destinado pela natureza para todo o gcnero de observacoes 
astronomicas ; instigado pela amenidade d'esle clima e pure- 
za da sua alhmosphera , comecou , com seus pequenos ins- 
[Irumenlos de viagem, a fazer algumas observacoes astrono- 
I micas; percorrendo o ceo com um cherchcur des comeles , 
idcscobriu enlre as constellacoes do Touro, Orion, Gemcos 
e Cocheiro, um Comela, que observou com um pequeno te- 
[lescopio , munido d'um reliculo annular ; csle distincto as- 
tronomo tendo lido a bondade de nos remelter as suas obser- 
[vacoes, comecamos desde logo, nos inlervallos de tempo 

Tom. I. - JcNiio de IS57. - 1.' Classe. 13 



181 



ANNAKS 



que nos reslam d'oulros scrvicos , o calculo dos eleniculos 
da orbita, que, em rcsunio, vamos aprcscnlar. 

OBSERVACOES DE Mr. RUMKER. 



1857 


Tempo medio 
era Lisboa. 


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do 


apparonic 
CO me la. 


DC. apparcntc 
do comela. 






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9 30 


76 


21 0,7 


29 


20 33 Norte. 




20 


9 9 


78 


54 58,0 


27 


25 7 » 


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21 


8 26 


80 


3 36,0 


26 


29 53 » 


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22 


8 13 


81 


12 55,0 


25 


33 49 » 




23 


8 29 


82 


18 47,0 


24 


37 44 » 




24 


9 17 


83 


23 2i-,5 


23 


43 23 »> 




26 


8 43 


85 


19 36,0 


22 


37 » 



Transformando pelas formulas conhecidas csle systcma 
de coordenadas nas coordenadas geocentricas , que se refe- 
rem a eclipta ; e tirando do Nautical Almanack de 1857 
OS logares do sol , e a obliquidade apparcntc da ecliplica, 
para a epocha media das observacoes, achamos o seguinte : 



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PAS Sr.IENT.iAS E l.KTTRVS. 



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186 ANNAF.S 

Fazendo uso do methodo dc Olbers , escolheinos as ob- 
servacoes dosdias 18, 22, 26, coblivcmos os scguinles re- 
sultados : 

Passagem pelo Perihclio em mar- d. '" ' '' 

CO dc 1856 aos U Vo VJ 56 T. Medio 

Long. Helioc. do Perihelio . . . 127" Hi' 51" 

Long. Helioc. do Nodo Ascen- 

denle 313 1 5 

Inclinacao da Orbila 86 42 3i 

Distancia Perihelia 0,7825984 ' 

Movimento — Directo. 

Nao sendo possivel com eslas observacoes somente cor- 
rigir os elementos da Orbita, julgamos convenienle, para me- 
Ihor apreciarmos o grao de sua aproximacao, calcular com 
elles OS logares geocentricos do cometa para as epochas dos 
dias 20, 21, 23, 24, e comparar os resultados com os lo- 
gares geocentricos, deduzidos directamente das observacoes ; 
foi que effectivamente fizemos, achando a final os seguin- 
tes resultados : 



DA.S SCIENCIAS E LETTRAS. 



187 









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188 ANN.VKS 

Sc atlendennos a que o lelescopio , eiiiprcgado n'cs- 
las obscrvacocs, era nm infractor de forca iiicdiaiia, exposlo 
ao ar livre cm umjardini, sujcito as iiiipulsoes do veiUo, e, 
consoguinlemcnle, oscillando um pouco, nao admira, n'cslas 
circumslancias, que as obscrvacoes sc resenlissem da pouca 
eslabilidade do instrumcnlo, e quo, por conseguinle, os re- 
suUados oblidos nao sejam d'uni inluiro rigor ; no entrelanlo 
cstas obscrvacoes sao de inuilo valor e de grande imporlan- 
cia ; Mr. d'Arrcst foi o primciro, que viu es'e comcta em 
Leipzig, a 2") de fevereiro ; mas o eslado do ceo nao Ihe pcr- 
miltiu fazer as sufficienles obscrvacoes ; pelas nolicias ultima- 
menlc chegadas do Norle da Alemanha, disse-nos Mr. Rum- 
ker, que em nenhum dos obscrvatorios o poderam observar. 

Em quanlo, pois, nos principaes observatorios, com rc- 
fractores de grande forca, nada poderam conseguir, nos, com 
um refractor de forca mediocre , oblivemos as obscrvacoes 
sufficienles para delerminarmos os elementos da orbita em 
lima primeira aproximacao ; do que devemos concluir quae 
favoraveis sao as condicoes climalericas d'este nosso paiz 
para os esludos pralicos d'csla bella sciencia. 

Julgamos ser novo cs!e coi«6la , pelo monos nao o en- 
conlramos no calalogo de Mr. Arago, que conlem, ate 1835, 
OS elementos das Orbilas do 203 come'as. 

Por csla occasiao nao podemos dcixar de recommcndar 
aos amadores da astronomia, que o pequeno refractor de Mr. 
Rumker, munido com o rcticulo ou micometro annular, e um 
instrumcnlo mui porlatil, de variadas applicacocs na sciencia, 
processo d'observacao e mui simples, e os resultados serao 
nicsmo muilo exaclos, quando o instrumcnlo csleja devida- 
monle collocado e abrigado dos impulses do vento ; o sen 
cuslo nao chcga a 180S000 rris. 
Observalorio Aslronomico de Marinha, 4 de junho de \Slil. 

iiLiriM-: lOLQiij:. 
Vircclor do Observalorio. 



DAS SCIENCl\S E F.ETTRAS. 189 



APrilCAIJAO lOCAL DA POMADA DE CANNABIINA 



^ UMA UL'^EIIA CARCINOMATOSA DA FACE. — .\OLI ME TANG ERE. 



Llina das grandes utilidades que eu julgo poder resultar das 
nossas reunioes academicas , Yem a ser a de communicar- 
mos reciprocamenle todas as nossas observacOes e experien- 
cias individuaes, afim de que, discutidas e tahez mesmo re- 
petidas por oulros academicos, possara depois receber ou a 
approvacao de um corpo lao respeitavel como este , ou sa- 
lutares e judiciosas modificacoes , que as tornem ainda de 
maior proveilo conimum ; e, algumas vezcs, analysadas e 
pensadas cuidadosa e amigavelmente, como em familia, nao 
sc expor seu auctor a publicar um facto menos iraportante, 
ou, tahez, mesmo ma! averiguado, com prejuizo da scien- 
cia e da reputacao individual. 

Movido por eslas ponderosas razoes , e qucrendo tirar 
todo parlido possivel das luzes c da experiencia de meus 
illustrcs consocios, me delibcrei hojc a communicar-lhcs uma 
observacao clinica, a qual, posto que incomplela e isolada, 
lodavia prevejo que pode desperlar o zelo dos clinicos, tanto 
nacionaes como eslrangeiros, para dirigircm as suas obser- 
AacOes no scntido d'esle meu ensuio, e vcrem sedcscobrcm, 



190 ANNAE9 

quando iiao seja urn rcmcdio para a moleslia mais rcbcldo 
c mais hedionda dc quanlas se conlicccni, ao menus urn li- 
nitivo para urn soffrimcnlo , que dc lal modo so cxaspcra 
dcbaixo dc lodo c qualqucr Iralamcnto , que os homcns da 
scicncia Ihc loom chamado o — noli me tangerc — epigram- 
ma terrivel para a medicina, c alrozmcnle horrQrosQ para a 
liumanidade ! 

Pclos meados dc feverciro do correntc anno entrou para 
hospital dc S. Lazaro , enlrcgue aos raeus cuidados, um 
desgracado enfermo com urn canoro horroroso, que Ihc car- 
corn ia loda a face do lado csqiierdo. Tao graves cram os es- 
Iragos, tao rcpugnanlc o aspecto do enfermo, e tao nolavcl 
para a scicncia era o cstado da ulccra carcinomatosa , que 
me pareceu dever conscrvar no hospital o retrato de tao des- 
gracado cstado , nao so para scrvir dc typo aquelle gencro 
d'affcccOcs, como para comparar depois o progresso da ci>- 
fermidade, dcbaixo da accao da medicina, com o cstado em 
que enfermo tinha entrado para o hospital ; e n'estc sen- 
tido officici immediatamente para a adminislracao superior 
do hospital ; e esta, que tao sollicitamcnlc tcm adminislrado 
a fazcnda dc todos os hospitaes civis da capital, ncm sequcF 
me respondcu ao meu officio ! Prova cvidentc que o tlno e 
zelo adrainistrativo nao siio as unicas qualidadcs, que deve 
possuir a auctoridade superior dc tacs cstabelecimcntos ; mas 
qiie a cstes dotes, alias imporlantissimos, se deve rcunir o 
do conhecimento technico da scicncia que ali se excrce. 
doenle ja saiu, a medicina perdcu cste specimen, mas a cai- 
xa do hospital ficou com mais alguns tostocs. 

Apresentarcmos a hisloria, c descrcvercnios a ulcera d'este 
infcliz docntc. 

doente oonla hoje 60 annos, c natural das immedia- 
coes de Torrcs-Vcdras, trabalhador, de tempcramento san- 
guinco. Ila vintc annos, tendo cntilo o doente 40 annos de 
edade, Ihe api)areceu um pcqucno tuberculo, simulando uma 



DAS SCIENCIAS E LETTRAS. 191 

verruga, no labio superior junto a coinmissura do lado di- 
reilo. Durante o primeiro anno da existencia do luberculo, 
com fazer da barba inflammou-se , e ulcerou-se ; princi- 
piando enlao a sentir ardor e picadas lancinanlcs, a ferida, 
com pequenas dimensoes, e sem produzir graves incommo- 
dos ao doente , assim so conservou estacionaria por espaco 
de doze annos ; mas ao cabo d'elles, em 1849, viu-se obri- 
gado a recolher-se ao hospital de S. Jose, d'onde, depois de 
varios tralamentos, saiu com a ulcera apenas modifieada , 
mas nao curada ; mas em 18S5 foi quando a ulcera tomou 
maiores dimensoes, e assumiu um caracter verdadeiramenle 
carcinomatoso ; declarando o doente , que desde entao ale 
hoje se tem conservado, pouco mais ou menos , no mesmo 
estado em que nos a observamos a 17 de fevereiro proximo 
passado, e que era o seguinte : 

Os estragos d'errusao da ulcera linham por limites do 
lado superior uma linha semi-circular, que, passando junto 
da palpebra inferior do olho direito, torminava junto da aza 
do nariz do mesmo lado ; do lado inferior seguia desde o 
angulo da maxila e bordo inferior da parotida ate ao meio 
do raentum ; do lado anterior linha destruido a aza do nariz 
e grande parte do labio superior, passando ainda alem da li- 
nha mediana ; finalmente, pelo lado posterior seguia o bor- 
do da parotida, e subia ate a parte mais alta do maxilar su- 
perior. 

aspecto da ulcera, e sua profundidade faziam horror : 
no ccntro d'ella cstavam a descoberto as gengives c os den- 
ies d'ambas as maxilas ; e taes eram os estragos, que os pro- 
prios denies estavam descarnados quasi ate a extremidade de 
suas raizes, enlrando nos alveoles ; o lado exlerno da ma- 
xila inferior, e o cei'o maxilar superior, offereciam sinuosi- 
dades irregulares , profundas e sordidas , d'uma impressao 
horrivel ; a lra\ es da ulcera deixavam-se ver os movimentos 
da lingua, na locucao c deglulicao, de um modo lal, que dar^ 



192 ANNAES 

vam a pliysionomia d'eslc dcsgracado foicGcs pavorosas ! A 
sua voz era quasi inipcrccpUvcl, a dcglulicao facil, mas a 
niaslicaciio inipossi\el , caindo-lhe as coniidas e as bcbidas 
pelo cancro , que Ihe havia corroido a face ; pequenas he- 
morrhagias vinhani d'ora em quando aggravar ainda mais 
estc quadro medonho e repugnantc. A nao ser a sua sensi- 
bilidade , porquc era atormentado por dores horriveis, as 
mais funccoes coiiscrvavam-se cm sofFrivel eslado, e esle in- 
fcliz quasi que prcsidia a sua propria dcslruicao ! 

Esle e dos casos em que o pralico fica auctorisado para 
ensaiar urn tratamento novo , e ale mesmo arriscado ; com 
lanlo que o seu genio clinico, e os seus priiicipios scienlifi- 
cos ponham o cnformo a coberlo dc um rosullado peor do 
que proprio mal, que se deseja, sc nao curar, ao menos 
diminuir. Nao foram, por \entura, estados como esle , que 
fizcram lembrar a Recamier, por exemplo, a ligadura com- 
pressiva, a Mannoir a laqueacao da arleria principal que se 
dislribue no logar do cancro, e a Ilellmund a celcbre pasta 
arsenical? e nao foi, talvez, um caso como esle, que aucto- 
risou Dupuylren aarmar-se dc marlello, escopro e serra, e 
arrancar grande extensao do rcbordo alveolar superior, da 
abobada palalina , c abrir entre a boca e as fossas nazaes 
vaslas communicacoes , e obler curas miraculosas , que sc 
lornariam impossiveis na presenca d'uma medicina limida e 
imprudentcmenle circumspecla e caulelosa ? quem o pode ne- 
gar? E para casos como esle, que a medicina deve junlar 
a lodos OS conhecimenlos indispensavcis da arle, a audacia 
propria do lalcnto e da scicncia I quanlo mais que a medi- 
cina que cu cmpreguei, e com as cautelas com que a empre- 
guci , estava muilo longe de mcrecer o nomc de um arro- 
jo , ou d'uma lemcridade clinica : era uma subslancia co- 
nhecida , e ja usada , se nao em caso analogo , pelo me- 
nos n'oulros , que poderiam de cerlo auclorisar o seu cni- 
prcgo. 



DAS SCIK^CIAS E LliTTRAS. 103 

Eslo mcdicanienlo foi a pomada do cannabina ' com o 
oleo de figados do bacalhau, na proporcao de urn de exlra- 
clo alcoolico ou buliraceo de cannabiua para dezcseis do oleo. 
Pode usar-se iiidifferenlenienlo do exlracto alcoolico, ou do 
butiraceo ; pareccu-nos que a accao da pomada nao variava 
essencialmente pola applicacao e emprcgo d'um ou d'oulro 
d'estes exlractos. 

modo d'applicacao foi nao so unlando os fios com a 



* dawamesc para os arabes, o bhang para os indies, o gun- 
jah em Calcula, ochurrus e o chatsiaki no Cairo, sao ludo prcpa- 
racoes d'uma planta, especie de canhamo , propria da India, que 
corre com o nome de hachisch , de (jue os arabes fazem tanlo uso 
como OS turcos do opio, e os povos da Europa das bcbidas alcooli- 
cas. Ella fornece a base de quasi todas as bebidas embriagantes 
dos povos orienlaes. Esta planta e a — cannabis indica — especie 
muito visinha, se nao amesma, do canhamo da Europa. A materia 
resinosa, cujo estudo foi devido a Smith, Decourtier e Gastinel du 
Caire, extrahida d'esta planta, e a quern ella deve suas propriedades 
aclivas, e a cannabina ou hachischina ; e e lambem a esta substan- 
cia, a quem, em grande parte, a nossa pomada deve a sua virtu- 
de, e a sua accao sobre o noli me tangere. As molestias, contra as 
quaes ale hoje se tinha applicado o hachisch, eram as altas nevrozes, 
as alucinacoes mentaes, e como anasthesico ; ultimaraente tinhara-se 
feilo applicacoes de sens preparados , e com feliz resultado , para 
activar as contraccoes uterinas no acto da parturicao , substituindo 
e excedendo a accao da cravagem de centeio. (Gregor). A idea de 
appiicar a pomada de cannabina com o oleo de figados de baca- 
Ihau ao cancro da face, occorreu-me pelas eminentes qualidades al- 
terantes do azeile dos figados de bacalhau, applicado com vantajoso 
resultado n'um caso de lupus, molestia que, n'uma das suas formas, 
tern intima analogia com o cancro ; e pelas qualidades sedativas da 
cannabina, que poderia mitigar as violentas dores com <jue os doen- 
les, que sofl'rcm de cancros, suo alormentados nos ultimos periodos 
d'esta horrivcl cnfermidadc. A applicaf'uo, por isso, nao foi urn sim- 
ples rasgo d'cnipyriiirao. 



194 ANNAES 

pomada , scnao lamboni fazendo-a chcgar a todas as anfra- 
cluosidades e siiuiosidades da iilcera, por mcio de urn pin- 
eel. Estas ulccras sao de lal niodo irregularcs c profiindas, 
que so assini e que pode haver a cerleza do contacto imme- 
dialo do medicamenlo com toda a superficie ulcerada. Quando 
a ferida se pensa uma ou duas vezes em cada vinle e qua- 
Iro horas, c neccssario laval-a com algum banho emolienlc 
c narcotico, nao so para o de\ido aceio e limpeza da iilcera, 
scnao tambem para que a parte oleosa da pomada, que fica 
na ulcera, se nao altere, e concorra para aggravar os sof- 
frimenlos do doenle, ou, pelo menos, inutilisar a accao be- 
neftca do remedio. A ukera devera ser pensada uma ou duas 
vezes nas vinle e quatro horas, conforme aquantidade e qua- 
lidade da suppuracao. 

A applicacao da pomada de cannabina prlncipiou a fa- 
zer-se ao nosso doenle a 16 demarco, econtinuou, sem in- 
terrupcao, ale 28 do mesmo mez, dia em que o doenle quiz 
imprclerivelmenle sair do hospital , e seguir viagem para a 
sua terra nas immediacoes de Torres-Vedras. tempo da 
applicacao foi, na verdade, muito curto, especialmenle quando 
se allende a rebeldia e chronicidade d'estas enfermidades ; e 
foi por isso que nos dissemos que esta noticia era mais para 
desperlar a attencao dos praticos sobre este novo meio de 
Iratamento do cancro , do que por julgarmos que estas ob- 
servacao podia ser tomada como a base d'um Iratamento jul- 
gado ulil e proveitoso ; mas ainda assim nao foram peque- 
nos OS beneficios que o nosso doenle tirou d'elle. Um dos 
symplomas , que tern a maior imporlancia n'esles desgraca- 
dos doenles, que teem ulceras carcinomalozas, e o das hor- 
riveis dores que soffrera, e que os nao dcixam conciliar o 
somno ainda por muito pouco tempo : o pratico, que assisle 
a taes molestias , limila-se , bastanlcs vezes, a embriagar o 
scu doenle com prcparados narcolicos, que Ihc embolcm a 
scnsibilidade, c os facam solTrcr menos ; a cannabina pare- 



I)AS Sr.IENCIAS E LETTRAS. 19," 

ceu-nos que, debaixo d'csle ponlo de vista, Icvava dccidida 
vantagem a todos esses meios, que nunca se empregam seni 
algum risco ; a cannabina diminue sensivelmente as dores 
locaes do cancro, sem produzir essas modificacoes cerebraes 
e mentaes que andam ligadas a todos os narcoticos ; a can- 
nabina e finalmente empregada n'uma dose muilo inferior 
aquella em que pode ser suspeita na sua accao. 

Mas pareceu-nos , alcm d'isto , que nao era so esta a 
unica vantagem, que se lirava do emprego da cannabina no 
tratamento local do carcinoma : e verdade que a sua appli- 
cacao foi apenas d'alguns dias , tempo insufficiente para se 
poder ajuizar da accao d'um medicamento qualquer n'uma 
molestia , que decorre com a forma chronica , como esta : 
nos mesmos ja reconhecemos a forca d'este reparo , como 
ha pouco dissemos ; mas , ainda assim , quando o enfermo 
saiu do hospital , a cicatrisacao da ulcera era sensivel no 
seu rebordo inferior e na maxila : appareciam botoes car- 
nosos de bom aspecto , que attestavam a efllcacia da appli- 
cacao. 

Ainda alem da granulacao visivel da ulcera o pus mo- 
dificou-se, com a applicacao da cannabina, de um modo 
muito favoravel ; por quanto diminuiu sensivelmente de quan- 
tidade , e perdeu o pessimo cheiro, que d'antes tinha ; e 6 
para notar que eslas modificacijes do pus nao foram o re- 
sultado da limpeza da ulcera, e do aceio no seu tratamento, 
pop quanto o doente quando principiou a fazer uso da can- 
nabina ja tinha alguns dias de estada no hospital. 

Eis-aqui, portanto, mais um facto, ou, antes, uma len- 
tativa para o tratamento da mais rebelde de todas as moles- 
tias de que a medicina se pode encarregar. Sera elle profi- 
cuo? podera, ao menos, abrir o caminho a um tratamento 
vantajoso, ainda que seja apenas paliativo? Seja como for: 
caso e que, em molestias como estas, o peor mal que pode 
acontecer aos enfermos e a sciencia 6 eslacionar, e nao pro- 



19(> ANNVKS 



gredir c tenlar Uido qiianlo razoavclmonlc se possa fazcr, 
para alliviar o dcsgracado que e vicliina d'cllas. parar 
aqui, ou o sepuir e imilar apenas o que se ha feilo, 6 con- 
fessar , desgracadamctile , a impolencia da arte, c cnlregar 
OS doenles a uma morle ceria e liorrorosa ! 



■WAS. DF.IRAO. 



DAS SniENCIAS E LETTRAS. 197 



NOTA 



SORRE A FAflULDADE FERTILISANTE DAS DETECCOES AMMAES 
TORNADAS INODOUAS PEEOS MEIOS CHIMICOS. 



iiu perlo de oilo annos que encetei uma serie dc expericn- 
cias com o fim de applicar a limpeza das cidades uni systc- 
ma facil, econoniico e hygienico para a rcmociio das dejec- 
coes dos habilanles das cidades , e por modo tal que clias 
podessem ser complelamenle aproveiladas, na qualidade de 
adubos , pela agricultura. Quando emprendi este Irabalho 
ainda a canalisacao dos despejos nao havia tornado em Lis- 
boa consideravel desenvolvimento, e era ainda grande o nu- 
mero de ruas em que toda a qualidade de immundicias se 
\ertia escandalosaraente das janellas sobre a via publica , e 
ali enlravam em rapida decomposicao em presenca do ar que 
infeclavam. Mas tambem ja se podia observar, nas ruas ca- 
nalisadas, que o novo systema, adoplado pela municipalida- 
de para fazer o despejo pelos canos para o mar , oflferecia 
graves inconvenientes, e promellia um futuro desastroso pa- 
ra a salubridade da capital, roubando ao mesmo tempo aos 
campos avultada riqueza de preciosos adubos. 

Em uma das licoes dachimica agricola, que live ahon- 
ra de fazer em 1 849 no Gremio Litterario , pronunciei-me 
ja contra o systema da canalisacao, como meio exclusivo de 
fazer a remocao das dejeccoes, e depois, em 1853, publi- 



198 AX^AES 

quel na Gazcia Medica de Lisboa uma serie dc arligos ten- 
denies a patentear estes inconvenienles e a disculir um ncn- 
vo systema de limpeza inodora, baseado sobre a desinfecla- 
cao das materias fecaes pelos meios chiraicos. Tenlei debal- 
de fazer adoptar o syslema, que enlao propuz, pela Cama-' 
ra 3Iunicipal e por alguns estabelecimentos da capilal, e lo- 
davia as experiencias nao inlerrompidas que tenho feilo des^ 
de enlao, e cujos resullados teem sido observados por mui- 
tas pessoas intelligentes, attestam a sua eflicacia. 

Sirvo-me, no syslema proposlo, de um simples appare- 
Iho separador, e desinfeclo a materia solida por meio da mis- 
lura do carvao vegetal e da cal em p(j, e os liquidos, ou pe- 
las aguas maes das marinhas, ou pelo acido chlorhydrico , 
empregados ambos em dose minima. As ourinas ficam in^ 
corrupliveis, ou porque se forme o phosphato duplo de am- 
monia e magnesia , ou o chlorhydrato de ammonio , evi- 
tando d'este modo a formacao do carbonato volatil de am- 
monia , 8 podendo conserval-as indefinidamenle sem corru- 
pcao, quer seja para as empregar na agricultura, quer se- 
ja para preparar com ellas os saes ammoniacaes. As mate-' 
rias fecaes solidas ficam reduzidas a terra parda escura sem 
menor vestigio de cheiro , e contendo a faculdade ferti- 
lisante que compete aos adubos ricos em materia azotada. 

Em uma das sessoes da 10.' classe do jury internacio- 
nal da Exposicao de Paris , o sr. Dumas, que era o presi- 
dente d'esta classe, convidou osvogaes que estavam presen- 
tes a que Ihe indicassem os meios de que tinham conheci- 
menlo para effectuar a desinfectacao dos excremenlos, sem 
prejuizo do seu emprego na agricultura, porque o Conselho 
Municipal de Paris, de que clle era membro, se estava oo- 
cupando d'esta questao. Pela rainha parte indiquei-Ihe o pro- 
cess© que eu ja ha\ia proposlo a Camara Municipal de Lis- 
boa, e que no fim de tudo nao era mais do que uma modi- 
ficacao do que fora imaginado pelos srs. Payen e Salmon de 



DAS SCIENCIAS E LETTRAS, 199 

Pan's. sr. Dumas, reconhecendo a efiicacia incontcslavel 
do carvao como mcio desinfeclanle , pareceu duvidar que a 
materia fecal, tornada inodora por esle processo, em conse- 
quencia da presenca do carvao , conservasse as suas quali- 
dades fertilisantes , pois que alguns agronomos inglezes ha- 
viam asseverado que aquelle corpo difficullava a assimilacao 
dos principios azotados pelos vegetaes, Confessei entao que 
nao tinha experiencias proprias sobre esle objeclo para Ihe 
poder responder, mas comprometti-me aintental-as logo que 
rcgrcssasse a Portugal. Foi o que efTectivamente fiz o anno 
passado , c d'estas experiencias passo a dar conta a Acade- 
mia. Apesar de que os resultados que oblive foram sobeja- 
mente satisfaclorios, continue! aindaesteanno no mesmo ca- 
minho , e repelil-as-hei ale que nao possa mais duvidar da 
conclusao que das primeiras lirei. 

Para tornar a experiencia mais concludenlc fiz duas se- 
mentciras com pesos eguaes de trigo em dois campos de 
egual superflcie, de terreno e exposicao identica, junto um 
ao outro na quinla da Escola Polylechnica. Cada um dos 
campos tinha uma superflcie de 13"", 5. Um d'elles , a que 
chamaremos A, foi eslrumado com 2\960 grammas do es- 
trume tornado inodoro pela mistura de pesos eguaes de car- 
vao e cal hydratada. outro , a que chamaremos B , foi 
estrumado com peso egual de estrume de cavallarica , tira- 
do do monturo que na quinla havia disposto o caseiro para 
estrumar o terreno. A quanlidade de trigo semeado em ca- 
da um dos campos foi de 215^'. A sementeira fez-se nodia 
26 de fevereiro de 18o6 , estando o dia sereno e soprando 
vento do Norte. 

Analysando o estrume inodoro so em relacao ao azote 
oblive OS seguinles resultados. 

Materia normal . . . . I'^yoOO 
Azote ,o:;2'i 

Tom. I.-Jcnho de 1857.-1." Classe. 14 



200 ANNAE3 

quo (la 3.') por 1000 do azote. rslruni(i de cavallariia 
conlem o,'» do azoic por 1000, sogundo as analyses dossrs. 
I'ayen c liO\issinp;aull. 

A analyse do Irif^o scmoado dcu-mo os rcsullados so- 



guintos. 



1." 



Trigo . . . 0«',(>00. Azoic . . . 0^',0100 
on 1,70 por 100, ao que correspondc cm 

Materia allniminoide . . . 10,012. 

2." 

Trigo . . . 0^'',G03. Azote . . . 0'^\0108 
ou 1,70 por 100, correspondcndo por conseguinlc em 

Materia albuminoide . . . . 11,09 

Eslas analyses mostram que a materia azotada ou albu- 
minoide (gluten, albumina &c.) conlida no trigo scmedo era 
egual all por 100 ; quantidade assaz diminiita para oslri- 
gos do nosso clima. 

No mcz de julho fez-sc acolheita, e todos sabcm que o 
anno correu pouco favoravel as sementciras dos ecreaes, cu- 
jas colheilas foram geralmente escassas nos melhores tcrre- 
nos. 

A semenleira do campo A produziu 

Grao limpo 2\400 

Palha 8,491 

Erva 2 ,065 



DAS SClF.Ni-.IVS F. LF.TTR\3. 201 

Foi pnr consoi^ulnle ,i prodiicciio cm Irigo do 11 1^,2 
pnr 100. 

A scmonleira do campo B prodiiziii 

Griio linipo V,32() 

Palha 7 ,803 

Erva 1 ,377 

Foi per consoguinte a produccao em Irigo de G2.'),'j por 
100. 

trigo de ambas as colhcitas era inuito niais diiro do 
que da scmonleira , c aprescnlava uma cor mais csciira. 
Os graos foram reduzidos a farinha eanalysados, com ofim 
de verjficar sc haviam adquirido grandc qiianlidade de ma- 
leria azolada em relacao a semcnle, como parecia indicar o 
sen aspcclo e dureza. 

Colheila do campo A. 

Farinha briita . . . 02\0000 

Azote ,0183, on 3,0"; por 100, 

que corresponde a 18,91 de materia albuminoide. 

Farinha cspoada . 0^',7'iO 

Azole ,0245, ou 3,2{i por 100, 

que corresponde a 20,31 de materia albuminoide. 

Colheila do campo B. 

Farinha brula . . . O^'^fiOOO 

Azote ,0109, ou 3,31 pnr 100, 

o que corresponde a 20, .■;2 de maleria albuminoi(U;. 



14* 



202 ANWES 

Farinha espnaila . 02^6000 

Azoic ,0210, oil :{,;; por 100, 

([uo (111 21,70 (le nialoria albuminoidc. 

Delerm'mei lambcin o acido phosphorico d'eslas farinhas 
e achci , na farinha brula de Irigo , colliido no campo A , 
4^>,66 por 100 de acido phosphorico, e para a farinha do 
Irigo, coihido no campo 1], 41, Oi por 100 do niesmo aci- 
do. 

De lodas cslas experencias se pode desde ja lirar algu- 
mas conclusoes quo dcvem inferessar os agricultores. 

Em primeiro logar farei nolar a importantc diffcrenca nas 
colheilas oblidas com o empr^go dos dois differcntes eslrii- 
mes ; diflercnca que lodavia nao corrcsponde a idea que ge- 
ralmente se forma da forca de urn cstrumc, medida simples- 
mentc pela quanlidade de azote , mas que em lodo o case 
prova, que os excrementos humanos, tornados inodoros pe- 
la mislura do carvao e da cal , teem, em peso egual, unia 
forca dupla da dos estrumes curlidos da cavallarica. Este 
era o fim principal da minha experiencia para responder a 
du\ida posla pelo sr, Dumas ao emprego do mclhodo de lim- 
peza que eu havia indicado. Mas eu devo ainda advertir que 
as circumslancias em que fiz a experiencia nao sao dccidida- 
mente asmais convenienles para obler omaximo elfeilo. Eu 
tenho para mini que a forca ferlilisanle dos eslrumes azola- 
dos deve medir-se , nilo pela tolalidade do azote que elles 
conteem , mas sim pela parte soluvel da materia azolada ; 
era, o eslrume inodoro^ de que me servi, continha apenas 
21,8 por 100 de materia soluvel, e por conseguinle imme- 
dialamenle utilisavcl. Se se houvesse collocado em digestao 
na agua para promover a desaggregacao da tolalidade da 
materia animal insoluvel, sem duvida alguma que oseu po- 
der fecundante augmcniaria consideravelmcntc, e e islo que 
eu prelendo experimentar em tempo compelenle. 



I 



DVS SCUmNCIAS e lettras. 203 

Em lodo caso o que para mini fica complelamenle de- 
monslrado e que a todas as oulras vaiUagens do syslema 
da desinfectacao dos excrementos pelo carvao e cal, se de- 
ve accrescentar a do aproveitamento coraplelo das dcjeccoes 
de uma grande populacao para fertilisar e enriquecer os cam- 
pos, evitando o immenso desperdicio que hoje se faz d'esla 
importanlc riqueza, deixando correr essas dejeccoes para os 
aterros do Tejo , onde se putrefazem , ou consenlindo que 
ellas se decomponham nos proprios canos, em que se demo- 
ram por falta d'agua e de escoante, para infecciouarem a ci- 
dade , ja pelas emanacoes mefilicas que se derramam pe- 
las aberturas da canalisacao , ja pcla impregnacao do solo 
com os productos d'esta decomposicao, impregnacao que fi- 
ca sendo origem permanenle deinfeccao, porque os gazes de- 
leterios , a que esses corpos dao origem , alravessam lenla- 
mente o lerreno e vem misturar-se com o ar das ruas e das 
casas, e as malerias soluveis sao levadas pelas aguas dein- 
fillracao para os pocos, cuja agua se torna corruptive! e im- 
propria para os usos domesticos. 

E tao forte a minha conviccao sobre as vantagens que 
indiquei , que nao duvido pedir a Academia que promova, 
com a aucloridade do seu voto, a adopcao d'este systema de 
limpeza , que tao util deve ser para Lisboa c para os agri- 
cullores dos visinhos districlos. 

Maio 22 de 1857. 

J. M. d'OLIYEIRA riMENTEL. 



204 ANNAES 



NOTICLV 

SOCRE UMA COLLECCAO DE CONCHAS 
DAS ILllAS DA MADEIRA E POllTO-SANTO, 

OllERECIDAS AO MUSCU mi LISBOA I'ELO SEISIIOR 

JOAO d'andrade CORVQ. ' 



Nas gavclas da sala da conch yologia do Muscu do Lisboa 
acliava-se, dcsdo 1853, uma colleccao do conchas das ilhas 
da Madeira e Porlo-Saulo, colligidas polo nosso digno socio 
sr. Gorvo, durante os poucos mozes que ali pernianeccu 
em descmponho d'uma missao academica. Rcconheccndo logo 
d primcira visla a imiwrtancia d'essa collcccuo, polo nunicro 
c qualidade dos exeraplarcs quo comprehendc, resolvi con- 
sagrar a sua dclerminacao especifica os poucos momenlos que 
me dcixam livres, n'esla opocha do anno, as obrigacocs do 
profossorado ; c consegui, fclizmente, agora rcalisar o nieu 
inlcnlo. 

* Esta collccci'io foi, em granJc parte, formada com o auxilio dc 
urn habii collector suisso, que, nos tempos (jne Ihe dcixavam livres 
OS Irabalhos ilo seu oflicio dc relojoeiro, sr. oc(U|)ava cm formar uma 
ciillccrao dc conchas. A epidcmia, (juc ulliiuaincnlc flaf-TlIou a Ma- 
deira, privou, segundo nos consla, a coiicliioloyia d'eslc active e 
ardcnle collector. 

couvo. 






DAS SCINCIAS E LETTRAS. 205 

Ao conleniplar a pobreza, o desarranjo, o cahos scicnli- 
lico do Miiseii de Lisboa, que, desde fanlo tempo, esUi com- 
pronicllendo o decoro nacional e impcdindo o progresso das 
sciencias naluraes cntre nos, ninguem dcixara dc fazcr voles 
porque , qiianto antes , a altenciio do governo se emprcguc 
cm objccto do tamanha transccndencia. Em quaiito a Aca- 
dcmia niio consegue ver oppor a estes males as providencias 
que tcm tanlas vezes reclamado , nada ou quasi nada podo 
fazer, por si ou por seus menibros individualmente, cm fa- 
vor do estabelccimento, que, pela maneira por que Ihe foi con- 
liado, parecc deslinado somcnlc a por em risco a sua repu- 
tacao. Quando resolvi coordenar scienlificamcnte as conchas 
da Madeira e Porto-Santo, nao tive em vista , devo franca- 
mentc dizcl-o, fazer desappareccr esta lacuna, muito para es- 
tranhar, na colleccao conchyologica do unico Muscu de Por- 
tugal : fora absurdo, e ale ridiculo, imaginar que com cstc 
melhoramenlo ficariam d'algum modo altcnuados os gravis- 
simos defeilus d'este desgracado estabelccimento. 

Outras consideracoes me levaram a emprender urn si- 
niilhantc trabalho ; c foram : nao so o desejo dc estudar 
OS productos naturacs de uma porcao do solo porluguez, a 
que me prcndem os vinculos estreitos que nos ligam sem- 
pre a terra em que nascemos ; mas alcm d'isso , e muito 
principalmentc, a conviccao de que me cumpria proporcio- 
nar a esta classe da Academia a occasiao de se reconhecer 
em divida de mais um service preslado a sciencia pelo di- 
gno socio que os colligira. 

A colleccao, que acabo de por em ordcm, nao compre- 
hcnde todas as especies de conchas terrcstres e fiuviatcis, 
vivas e fosseis, da Madeira c Porto-Santo ; consta, comtudo, 
dc um grandc numcro de especies, podc-se mesmo dizer das 
mais interessanles. Como se vera na lisla que damos junto 
a esta nolicia, os gencros Helix, IJulimus, Glandina, Pupa, 
Clausilia, Cyclosloma, Limnocus e Ancyhis sao ali represen- 



206 ANN.\ES 

tados ; islo c, loiios os generos (com exelusao unica dos ^c- 
neros Liman, Teslacellus c Vilrina) que enconlro nionciona- 
dos, tanlo nos trabalhos conchyologicos do infaligavel explo- 
rador da Madeira, o respeitavcl P. Lowe, como na exccllenle 
inonographia, que mais inodernamonle publicou sobre o mes-^ 
nio assumpto, o dislinclo zoologisia de Uerlini, Mr. Albers. 
Quanlo ao numero das especics„ nao lemos lodas as que coin- 
peteni a cada genero ; mas em alguns d'esles , mesmo nos 
mais numerosos, como o genero Helix, e ja bcm orescido a 
numero que possuimos, Esperoque consegiiirei em breve tor- 
nar completa esla colleccao,, por iulermedio do nosso digno 
socio sr. barao de Caslelio de Paiva, que vai residir por 
algura tempo na Madeira, e que gostosamente so compromel- 
teu a auxiliar-me n'este empenho. Ali exislem, felizmenlc, 
colleclores intelligentes, de quem so obleriio com facilidado 
as especies que nos faltam. 

Uma colleccao, que represenle a fauna malacologica do 
archipelago da 3Iadeira , niio inleressa somenle, como a dc 
tanlas outras localidades, pela aulhenticidade da sua proce- 
denoia : duplica-lhe o valor a n^ui notavel circumstancia das 
formas especificas serem , na grande maioria, diversas das 
que figuram nas faunas da Europa , das regiOes exploradas 
da Africa e das ilhas que Ihes sao mais proximas, como as 
Canarias e os Acores. Este facto, que interessa tanlo a zoo- 
logista- como o geologo , palentea-se de um modo bem no- 
tavel no genero Helix, e tanto nas especies acluaes como nas 
especies fosseis. Assim ha aclualmente conhecidas e perfei- 
tamente descriminadas 62 especies vivas d'este genero, das 
quaes apenas cinco teem sido egualmenle encontradas na Eu- 
ropa e nas ilhas Canarias (Helix-cellari, cryslallina, pisana, 
pulchelle e lenticula), e tres mais nas ilhas dos Acores (H. 
paupercules , membranacca , cmbescens). D"cstas somcnte 
duas especies {H. pisana e lenticula) se teeui encontrado no 
eslado fossil, uma d'ellas, a lenticula, nos lerrcnos dallu- 



DAS SCIENCES E LETTRAS, 207 

viao da Madeira, e a oulra no Porlo-Sanlo ; lodas as outras 
especies fosseis, qucr identicas as da fauna actual, quer di- 
vei'sas, perlencem, em todo o caso, exclusivamenle a eslas 
ilhas. 

Nao cabc na indole de uma simples nolicia enlrar aqui 
em maiores desinvolvimentos , so accrescentarei que julgo 
poder alliancar a esia classe que a delerminacao das especies 
(jue eu coordcnei se acha feita com toda a exaclidao. As pu- 
blicacoes, ja ciladas, do P. LoAve e de Mr. Albers, servi- 
ram-me de guia n'esle Irabalho de classilicacao, cujas difii- 
culdades so pode bem avaliar quern alguma vez se haja oc- 
cupado de coisas analogas. 

Lisboa, 28 de Janeiro de 18o7. 

I. V. li. DU BOCAIjE. 



RELACAO DAS CONCHAS, VIVAS E FOSSElS, DO ARCHIPELAGO DA 

MADEIRA OFFEREGIDAS AO MUSEU DE LISBOA 

PELO SEINHOR CORVO. 

Gen. Helix — Linn. 
Subgen. Hyalina. Gray. 
II. ccllaria Mull. Torto-Sanlo : frcqucnic. 

Subgen. Xerophila. Albers. 
H. armillala. Lowe, Madeira; nos logares scccos e abriga- 
dos , nunca acima de 300 pes sobre o nivel do mar : 
vulgar. 
II. pisana. Mull. Porto-Sanlo, nas vinhas; Madeira, na PonUi 
de S. Lourenco ; frequenle. Variedades. 



208 ANNAliS 



Subgen. Crcnca. Albcrs. 



11. Wollasloni. Lowo. Porlo-Santo : rara. 
U. lecliformis. Sowerby. Porlo-Sanlo. Fossil. 

Subgen. Tcclula Lowe. 
II. Culwerii. Wood. Porlo-Sanlo: nos silios aridos. 

V.'": |3 e S. 
U. polymorpha. Lowe. 

v."' piilvinala Lowe. Porlo-Sanlo: poucofrequenle. 
senilis? Lowe, Deseria grandc. 
lUscina. Lowe. Porlo-Sanlo: frcqucnlc. 
liiicta. Lowe. Madeira : cabo Garajao. 
II. rolula. Lowe. Porlo-Sanlo; nos oileiros : vulgar. 

Subgen. Ochlhephila. Albers. 
If. compar. Lowe. Madeira, proxima do mar. Rara. 
II. maderensis. Wood. Madeira; frcquentc encontra-se ale 
a altura dc 300 pes. 

V. /3. Madeira, silios abrigados o muilo seccos. 
II. leploslicla. Lowe. Madeira : frequenle no cabo Garajao. 
H. dealbala. Lowe. Porlo-Sanlo : frequenle nos oileiros. 
II. abjecla. Lowe. Porlo-Sanlo: muilo vulgar nos prados. 
II. oblecla. LoAve. Porlo-Sanlo e ilhas visinhas: vulgar. 
H. lalens. Lowe. Madeira, em silios invios. Rarissima. 
II. paupercula. Lowe. Porlo-Sanlo c ilheos proximos. Ma- 
deira, na Ponla de S. Lourenco : vulgarissinia nos pra- 
dos. 
II. bicarinala Sowerby. Porlo Sanlo, nos oileiros : vulgar. 
II. echinulala. Lowe. Porlo-Sanlo, no Pico branco. 
H. oxylropis, Lowe. Porlo-Sanlo, nos oileiros proximos do 

mar. 
II. turricula. Lowe. Porlo-Sanlo e ilheos proximos, idem. 

Subgen. Actinella. Lowe. 

II. lentiginosa. Lowe. Madeira, nasrochas proximas do mar. 

H. arcta. Lowe. 3Iadeira , proximo do mar a cerla cleva- 

cao. 



DAS SflllsNClAS E Ll-TTRVS. 209 

II. conipacta. Lowe. Porto-Saulo. Madeira, Ponta de S. Lou- 

renco unieaincnle. 
H. censors. Lowe. Porto-Santo : pouco freqiiente. 

Subgcn. Gcnostoma. Albers. 
n. lenlicula. Feriissac. Porto-Sanlo. Madeira, nos campos 
debaixo das pedras : vulgar. 
Subgen. Janulus. 
II. bifrons. Lowe. Madeira , na regiiio dos castanheiros : 
vulgar. 
Subgen. Campylaea. Alljers. 
U. portosanctana. Sowerby. Porto-Santo : nuiitc frequcntc. 

Subgen. Leplaxis. Lowe. 
n. erubescens. Low. Madeira , iihas desertas grandc e bo- 
real. 
11. vulcania. Lowe. Iihas desertas grande e boreal. 
II. phlebophora. Lowe. Porto-Sanlo : muito vulgar. 
II. undata. Lowe. Madeira: frequentissima ale 2.000 pes de 
altitude, e sobre tudo nos castanhaes. 
Subgen. Plebecula. Lowe. 
II. punctulata. Sowerby. Porto-Santo : frcquente. 
II. nitidiuscula. Sowerby. V. a — Madeira : vulgar ate 2.000 
pes acima do nivel do mar. 

V. 7 larida. Lowe. Porto-Santo. 
Subgen. Pomatia. 
II. subplicata. Sowerby. Porto-Santo e ilhco debaixo : vul- 
gar. 
Subgen. Lampadia. 
II. Webbiana. Lowe. Porto-Sanlo, nos oiteiros : vulgar. 



Gen. Bulimus. Scop. 
Bui. decollatus. Linn. Madeira, proximo ao occidentc da ci- 

dade do Funchal cxclusivamenle. 
Cul, venlrosus. Fcrussac. Porto-Sanlo c Madeira: vulgar. 



2 1 ANNAES 

Gen. Glandina. Albers. 
Siibgen. Cionella. Albers. 
Gl. maderensis. Lowe. Madeira : frequcnle. 
Gl. folliculus. Gronow. Madeira, proximo do Funchal. 
Gl. oryza. Lowe. Porto-Santo. 
GL tornateliina. Lowe. Madeira, nos iogarcs cullivados dcs- 

de mar ate a altitude de 2.000 pes. | 



Gen. Pupa. Lam. 
Subgen. Pupilla. Albers. 
P. anconosloma. Lowe. Madeira : muilo vulgar 



I 



Gen. Clausilia. Drap. 
CI. dellosloma. Madeira , nos silios cullivados debaixo das 
pedras : frequente. 



Gen. Cyclostoma. Drap. 
CycL lucidum. Lhwe. Madeira, em sitios humidos. 



Gen. Limnaius. Drap. 
Limn, truncalulus. Mull. Madeira , nas rochas constante- 
mente humidas : frequente. 



Gen. Ancylus. Geoff. 
Anc. aduncus. Gonld. Madeira, enlre as confervas das Ic- 
vadas. 



fl 



DAS SCIENCIAS E LETTRAS. 211 

Helices fosseis. 
H. (lelphinula. Madeira, Caiinical, na ponla de S. Lourenco. 
n. liarella. Webb, el Berthelot. Madeira, Cannical. 
II. Lowci. Ferussac. Porto-Santo: frequentissima. 
H. fluctuosa. Lowe. Porlo-Sanlo. Tern muita alTjnidade com 

H. embescens. 
\\. Bowdichiana. Ferussac. Porlo-Santo e Madeira : fre- 

quente. 
H. canicalensis. Lowe. Madeira, CannicaL 



212 ANN.VES 



KEVTSTA 



DOS 



TRABALIIOS CIIIMICOS. 



l^slampcu'ia e pintiira. Urn dos mais illiislrcs chimicos eo 
mais esclarecido indusUial franccz , o sr. Frcdcrico Kuhl- 
raann, tcra dcsde muito tempo dirigido a sua altcnciio sobre 
a fixacao das cores por meios chimicos , lanlo na cslampa- 
ria como na pintura. Depois de haver realisado ocndureci- 
mcnlo dos calcareos brandos polo emprcgo dos silicatos al- 
kalinos, tao util c tao necessario para a conservacao dos mo- 
numentos, fez a applicacao das dissolucoes siliciosas a pin- 
tura mural, a pintura das \idracas, a decoracao, a cstam- 
paria c ate a arte typographica. Modernamente estudou de 
um niodo geral a questao da fixacao das cures, e obteve re- 
suUados de importancia incontestavel principalmente para a 
cslamparia sobre os tccidos e sobre o papcl , c para a pin- 
tura de decoracao. Sao tres os meios que cllc propoe para 
fixar as cores de um modo pcrmancnte sobre qualquer que 
scja a materia em que ellas se applicam. primeiro con- 
sisle no cndurecimento da gelalina ou cola forte por meio 
do taninno. E o principio em que se funda o curtume das 
pcUcs dos animaes. As tintas ou as cores , applicadas por 
meio de uma dissolucao de cola ou gelatina, formando cor- 
po com clla, scndo banhadas ou enibobidas por uma disso- 



DAS SCIENCIAS E LETTRAS. 213 

luciTo (le (annino tomam a consislencia do vcrdadeiro cou- 
ro artificial, inalleravel c insoluvel. 

segundo consiste na fixacao das cores , diluidas ou 
misluradas com a gomma do ainidon, por mcio do Icile dc 
cal oil pela agua dc baryta. 

A cal c a baryta teem a propricdadc dc conslituir com 
amidon iima combinacao insoluvel c incolor , que li\a as 
malerias corantes de niodo pcrmanentc. 

tcrceiro consiste no emprcgo da dissoluciio siliciosa , 
mais ou menos concentrada segundo as applicacocs a que 
se deslina. Ainda o sr. Kuhlmann indica outro mcio n)ix- 
lo , no qual emprcga simultaneamentc as cores diluidas no 
liquido silicioso, onde sc dissolve aquentc o amidon e o sa- 
bao, para dcpois se fixarem as cores por mcio da cal ou da 
baryta. 

Parecc que os resuUados obtidos em uma longa serie de 
experiencias feitas por fabricanles e artislas distinctos mos- 
Iram dc modo irrecusavcl as vantagcns dos novos proces- 
sos dc estamparia c pinlura do sr. Kuhlmann. Estc illus- 
tre chimico demonstrou egualmcnte que o sulfato artificial dc 
baryta, enipregado como cor branca, aprescnta, cm muilos 
casos , grandc superioridadc sobrc os alvaiades de chumbo 
ou zinco, principalmenle quando se adoptam osmeios de fi- 
xacao por clle indicados. 



Manganesio. Em uma nolicia scienlifica sobrc o alumi- 
nio, que n'estc Jornal publiquei, dissc eu que os Irabalhos 
dos srs. Wohler e Deville nao so haviam enriquecido a scien- 
cia e a induslria com um metal tao ulil e precioso como e 
radical da argila, mas que alem d'isso dotaram a chimi- 
ca com um novo processo de invesligacao para obter, no es- 
tado de absolula purcza, os metaes cujos oxidos sao dcma- 



214 \NN\KS 

siadanicnto n^fraclarios aos processes ordinarios de reduccao 
l)olo h}drogenio ou pelo carvao. Uma recenle prova d'esla 
vcrdade forneccu-a o sr. Brunner, professor de chiniica em 
Berne, reduzindo ofliiorurelo de manganesio pelo sodio, por 
nieio de iini processo inleiramenic analogo ao que osr. De- 
ville emprcgou para obter o aluminio. 

Nos linhamos ja o manganesio que Gahn liavia oblido , 
reduzindo o oxido d'este metal pelo carvao ; mas o metal 
era impuro cas suas propriedades physicas difleriam essen- 
cialmente das que manifesla o manganesio apresenlado pelo 
sr. Brunner. A cor d'este metal e a do ferro coado branco, e 
exlremamentc duro e fragil, a lima niio o alaca, risca o aco 
de melhor tempera, podendo substiluir o diamante para cor- 
tar o\idro ; e susceptivel de bello polimcnto, e o seu brilho 
nao se altera em presenca do ar secco , ou humido , nem 
mesmo no ar dos laboratories carregado de Yapores mais ou 
menos oxidantes. Urn corpo metallico com estas proprieda- 
des ha de necessariamente achar empregos muito importan- 
tes na industria : podera servir no polimento do aco e das 
pedras duras, na fabricacao de espelhos metallicos para ins- 
trumentos opticos, e, ligado com os metaes e principalmen- 
te com aco, communica-lhes grandc dureza. aco ada- 
mascado, ou Wootz, deve oseu aspecto equalidadcssuperio- 
res ao manganesio que contem. 

Todavia pode ainda recear-se que o processo, que emprc- 
gou osr. Brunner na reduccao do manganesio, nao seja sufli- 
cientemente elTicaz para obter este metal absolutamente puro, 
nao so porque o sodio do commercio nao e isento de carvao, 
mas tambem porque os cadinhos de barro , sendo atacados 
pelo sodio, podem fornecer osilicio em quantidade suflicien- 
te para alterar o metal. melhodo empregado pelo sr. De- 
ville na reduccao d'este mesmo metal e talvez mais conve- 
niente e mais economico. Elle effectua a reduccao pelo car- 
vao, tendo cuidado dc conscrvar o oxido em exccsso , e 



I 



I 



DAS SCIRNCrAS E LETTRAS. 2If> 

execulaiulo n operacuo em cadinlios de cal. Foi assim qup 
elle oj)lovc iillimamenle o nianganesio e o chromio. 



lodn c hromio. Doscobrir o iodo o o bromio nas agiias 
iialuraes, quando esles prjncipios se nao enconlram em gran^ 
do (jiianlidade, e sempre uma operacao dinicil e iiicerla : as 
i-eareoes ate agora usadas reduziam-se, em geral, as produ- 
zulas pelo emprego do amidon para o primeiro e do elher 
para o scgundo , depois de os haver liberlado pelo chloro 
on pelos acidos, ou pelo ozone. Ossrs. Henri e E. Humbert 
empregaram um processo novo para descobrir o iodo e o 
bromio nas aguas de Vichy. 

Este processo consiste naprecipitacao simuUanea do chlo- 
ro, do bromio do iodo , pelo azolalo acido de prala nas 
Jiguas concentradas. A mistura dos chlorurelos, ioduretos e 
bromurelos de prala, depois de bem lavada, mislura-se com 
inna pequena quantidade de cyanureto dc prata, eesia mis- 
Jura submelte-se dentro de um lubo de vidro , enire duas 
pequcnas buxas de amianlo, a accao de uma corrente mui- 
lo lenla de chloro secco, aquecendo ligeiramenle a materia 
chloro hbcrta cyanogenio, o iodo e o bromio, os quaes 
comb.nando-se, constiluem os ioduretos ebromuretos decva- 
nogenio, que vao crystallisar-se na parte fria do tubo eque 
possuem propricdades physicas echimicas taes que nao per- 
mitlem confundil-os com outros corpos. Este melhodo, alem 
de ser fad de pralicar, tern a vantagem de nao deixar du- 
vida alguma sobre o resultado, porque n'elle sc nao empre- 
gam substancicis a que se possa attribuir a existencia dos 
principios procurados. 



Tom. I. - Junho de 1857.- 1.» Classe. 



2 J (J ANNALS 



Phospliuto lie ses(iui-oxido de manganesio. Eslutlando 
este sal , o sr. Barroswil reconheccu qiif de nm caracUM- 
physico singular, que elle apresenla, so podia lirar grande 
parlido em analyse para rcconhcccr nos mineraes a exislen- 
cia nao so dos oxidos de mangancsio, mas lambem dosaci- 
dos phosphorico, arsenico, azolico echlorico. Os faclos, so- 
hre que se fundam esles meios de analyse, sao muilo com- 
prehensiveis. Quando se alaca o bioxido de nianganesio pe- 
lo acido phosphorico concentrado, ou por um phosphato aci- 
do , com auxilio do calor , manifesla-se desinvolvimenio 
de oxigenio , o oxido dissohe-se e manifesla-se caloracao 
roxa magnifica , que e devida a formacao do phosphato de 
sexqui-oxido de manganesio. Se em vez do bioxido exislir o 
protoxido d'aquelle metal, nem ha desinvolvimenio de oxi- 
genio, nem coloracao, mas simplesmente dissolucao do oxi- 
do. A cor apparecera todavia se Ihe addicionarmos algumas 
gotas de acido azotico, ou o chlorato de polassa, com adif- 
ferenca que, no primeiro caso, a cor sera permanenle, e no 
segundo ephemera. acido arsenico produz a mesma colo- 
racao que acido phosphorico ; mas, sendo o arsenialo de 
sesqui-oxido de manganesio susceplivel de decomposicao a 
uma temperatura elevada, em quanlo que o phosphato d in- 
alteravel n'essas circumstancias, lerenios no aquecimento unj 
meio facil de differencar a existencia dos dois acidos. 



Fluor. Para dcscobrir a existencia do fluor, o methodo 
geralmente seguido consiste em Iratar a materia, que sepre- 
tendeanalysar, em umcadinho deplatina polo acido sulfuri- 
co, e cobrir tudo com uma chapa de vidro bem limpa e Irans- 



DAS SCIENCIAS E LKTTRAS5. 2i7 

parenle : oacido fluorhydrico, que se evolve, alaca ovidro, 
dt'spolindo-o mais ou nienos profundaniente ; se isto teni lo- 
gar conclue-se a oxislencia do fliior em quantldadc propor- 
cional ao gnio de alleracao do Aidro. sr. Nickles obser-^ 
vou pon^m que a conclusJio podia deixar de ser rigorosa , 
nao so porquc o (luor podia exislir no proprio acido sul-^ 
I'urico , mas tambem ponjue os vapores d'este acido erani 
so de per si sufficientes para alacar o vidro ; e para obslar 
a esia causa de erro recommenda o eraprego das lamjnas po- 
lidas de crystal de rocha, que rcsislcm a accao de lodos os 
acidos, exccplo a do fluorhydrico. 

Foi empregando esle mcthodo que o sr. Nickles reconhc- 
ceu a existcncia de (luor nas aguas mineraes de Plombieres, 
cujos contentos, ale agora coiihecidos, nao podiam dar uma 
explicacao plausivel dos seus effeitos Iherapoulicos tao reco- 
nhecidamenle nolaveis. Nas aguas de Conlrexeville e nas de 
Vichy descobriu o mesmo chimico a exislencia do fluor em 
quanlidade sensivel. A prescnca di>s fluorurctos n'eslas aguas 
mineraes tao energicas dcve despcrtar a attencao dos facul- 
talivos sobre o emprego thprapeufico d'eslos sat'S. 



did de feiio. Nas aclas da Acadeniia das Scicncias de 
Paris, sessiio de 6 de abril, foi lida a primcira parte de uma 
Memoria do sr. Isidore Pierre sobre as alteracoes que podc 
experimentar na sua composipio o feno dos prados natiirars, 
quando Iratado pela agua quenle ou fria. E este urn traba- 
Iho de muito interesse para os creadores de gado, e que jus- 
tifica uso, recentemente introduzido na alimenlacao das 
crias , da infusao do feno , a que se da o nome de chd de 
feno , e que c muito vanlajoso para as habiluar mais facil- 
pienle a passar do regimen do leite para o do feno. Espera- 



ii I 8 .\>N.\F.S 

remos pela publicacfio do roslo da Memoria pnra darnins 
conla d'olla aos nossos If'ilurcs. 



llnaaio dn^ inincrios de cslanho. A redurao do oxido de 
cstaiiho pelo tliixo negro requpr uma tempcialura miiilo dc- 
vada para scr IVila com exaclidao. sr. Lcvol iiulica o (mu- 
prcgo do cyanurclo do polassio, so on simullanoanionlc com 
carvao, como omoio mais convcnicnie para osensaiosdos 
mincrios do oslaiiho. 

Tomam-se de 10 a 20 grammas de minerio pulverisado, 
tralam-sc pcla agiia rcgia fervenle para alacar as gangas. 
residuo lava-sc sobrc urn fiUro, secca-se e pi'sa-sc ; mislu- 
ra-sc depois com a quantidade convenicnlc carviio, e aque- 
ce-se cm urn cadinlio diiranlc um quarlo de hora ; no fini 
d'este tempo, sem tirar a materia do cadinlio, ajunta-se-Ihe 
uma porcao de cyanurcto de polassio egual a 1,5* do peso 
da materia, c aquecc-se ainda por 5 minutos ao rubro-ccreja. 
(3 estanho acha-se completamenle reduzido e reunido em bo- 
tiio metallico no fiindo do cadinho. 

A reduccao podc fazer-se tambcm sem o previo Irata- 
niento com a agiia regia, e sem a addicao do carvao, mas o 
rendimcnto, n'esle caso, e semprc menor, do que deve ser. 



Aliiminio. sr. Wohler indica um processo muito fa- 
cil para obler o ahiminio por nieio da cryolite. {Annalen 
der Chemie und Phannacie, agosto de 18oG). 

Fundem-se 7 partes de chlorurelo de polassio ; mislu- 
ra-se esta massa, finamente pulverisada , conj o peso egual 
30 seu do cryolite secca c em p6. Inlroduz-se esta mislura 
j>or camadas com discos de sodio n'um cadinho bem sficco. 



DAS sr.ILNClAS i; LI'TTRAS. - 219 

Para oO grainiiias da mistura salina cmpregam-sc tic 8 a 10 
granniias do aluiniiiio. cadinho aquece-se rapidamenlo em 
uni foriio do ar. No niomento em que a rcduccao so opera, 
ouve-se um estrondo , e o sodio arde com chainma. Aqiic- 
cc-se, ainda durante um quarlo de hora para fazcr enlrar 
a massa em complela fusao , c depois deixa-sc resfriar. 
^)uebrando'o cadinho acha-se gcralmenle o aluminio em 
um so bolao, bom formado, branco e de superlicie cryslal- 
lina. 

Nos ensaios feilos com 100 grammas de mistura, os bo- 
Idcs mctallicos pesaAam de 2^', 3 a 2^',4. Por conscguinlo 
oblem-se um lerco do aluminio coiitido na cryolite. 



Assimilacdo do azote pcJas plantas. Contimia ainda a 
interessante discussao enlre os srs. Boussiugault e G. Ville 
sobre a assimilacao do azote pelas plantas durante avegela- 
ciio. Absorvem os Aegetaes o azote dircclamente do ar , ou 
tiram cxclusivamenle esse elemento , que e indispensavel a 
sua constituicao, das combinacoos azotadas, da ammonia ou 
dos azotatos? Eeste o ponto controverso enlre os dois illus- 
Ires chimicos. 

Em n." de fovcreiro d'cste anno dos Annaes de Chi- 
mica e Physica cncontra-se a scgunda parte do uma Memo- 
ria apresentada em julho do anno passado a Academia das 
Scicncias de Pan's, na qual o sr. G. Ville consigna um gran- 
dc numero de experiencias suas, tendcntes a demonstrar a in- 
fluencia que os azotatos ou nitratos, principalmenle o de po- 
tassa, ou salitre, exercem na economia das plantas. A pri- 
meira parte d'essa Mcmoria, que I'oi publicada em marco do 
anno passado , e que data do tim do 185.') , conlem a des- 
cripcilo de um novo methudo de analyse para dozar o azote 
dos nitratos em presenca das maferias organicas ; processo 



220 ANNAKS 

quo em inilispensavcl para hem inlotprelar a.> I'vprrlcin-ia ; 
tendon les a ri'solvcr a qut'Slfio proposla. 

As cxpericncias consisliram cnj sumeiiluiras Icilas coin 
senicnles do diversas planlas , colza , trigo , etc. cm vasos 
conlcndo area calcinada, e adubadas, ou nao adiibadas, pelo 
salilro e por oulros saes, cuja infiuencia o sr. Villc quiz es- 
tudar. 

Conhccida acomposicao elementar da sementc, a do solo 
c a do adubo , antes da semenloira, analysadas, depois da 
colheila, a planta e a terra, c verificada a infliicncia do am- 
biente , podc o sr. Ville determinar com rigor o augmcnlo 
do azote flxado durante a vegclacao, e concluir d'ahi a sua 
procedencia, 

Nao posso aqui referir estas exporiencias, mas apresen- 
larei as conclusoes que d'ellas deduz o proprio auctor, que 
se resumem nas seguinles proposicoes : 

I. As plantas assimilam o azote gazoso : pode provar-se 
esla assimila^ao por Ires diffcrenles modos. 

a Pela cultura de certas plantas cm urn solo puro de 
loda a substancia azotada, e em uma alhmosphcra arlilicial 
privada de todo o ammoniaco e de todos os corpos estra- 
nhos. 

h Cullivando ao ar livre a colza e o trigo com, ou sem 
auxilio do nitro. 

c Substiluindo ao nitro um adubo azotado. 

II. Os nitralos actuam pelo azote do sou acido. A ab- 
sorpcao d'eslcs saes c inimediata e directa. 

III. Dadas quantidados eguacs de azote , o nitro actua 
mais energicamente do que os saes ammoniacaos. 

IV. Toda a materia de natureza organica que esla em 
via de decomj)osieao, pcrde mna parte do seu azole no es- 
tado gazoso. 

sr. Ville havia anleriormcnle mostrado que as plan- 
tas ab^orviam, durante a vf'gelacao, uma quanlidade de azole 



I)\S SCIKNCIAS E LETTRAS. 221 

superior aquella que se podia allribuir ao aninioniaco do ar : 
aclualniente assevera, que parte d'este azole e assimilado no 
eslado gazoso. 



sr. Wohler, em uma carta escrlpla ao sr. Dumas, an- 
nuncia o descobrimenlo de um novo chlorureto e de um no- 
vo oxido de silicio. primeiro, e um liquidofumante muito 
movel e mais volatil do que o chlorureto Si CP, que e ho- 
mologo do acido silicico ; e o segundo , que se obtem pela 
reaccao da agua sobre o novo chlorureto , e uma materia 
branca , um pouco soluvel na agua e soluvel nos alkalis , 
inclusivamenle na ammonia, com desinvolvimento de hydro- 
genio e transformando-se, n'este caso, em acido silicico. 

{('onlinua.) 

J. M. DE OLIVEIRA PIMENTEL. 



IH A^^A^;s 



REVISTA ESTRANGEIRA, 



JANEIRO E FEYEREIRO. 



AsTRONOMiA. — esludo dos phenomeoos celestes, que me- 
recein fixar a atlcnciio dos aslronomos , e lao vaslo , eslao 
ainda por conhecer taolas das Iransformacoes que os aslros 
apresentam, sao ainda tao obscuras as leis que regem, as cau- 
sas que produzem essas Iransformacoes, que so os trabalhos 
combinados de grande numero de obsenadores podem fazer 
com que a sciencia caminhe com seguranca e rapidez. 

Em tudo que depcndc dos esforcos humanos , industria 
ou sciencia, a divisao do Irabalho e o mais efficaz meio de 
conseguir resultados iniportantes , de progredir com celcri- 
dade. Foi esla juslissima consideracao que levou os aslro- 
nomos a dividirem entre si o esludo d'esses pequenos pla- 
nelas novamente dcscobertos, e ainda mal conhecidos. A 
cada obscnatorio cabc a larcfa de seguir n'este ramo, com 
assiduidade , os movimentos do um ou mais d'esses corpos 
ceiesles, para que, depois, reunindo-sc os resuHados de to- 
das essas observacocs, se possa mclhor conhecer esse curioso 
grupo de aslros que enlram no nosso systema planelario, e 
que . cm numero de quarenla c dois , giram enlre Marie c 
Jupiler. 

aslronomo inglez, o sr. Pogson, que, no anno pas- 



PAS SCIE.NC.I.VS H LETTRAS. 223 

sado, duscobriu o no\o planela his, notando a ijitpossibili- 
dade do sc ohcgar a ter conhcciinento das apparenlcs trans- 
formacOcs por que passani, successivanicnlo, as estrellas va- 
riaveis, propoz lambeni que o esludo d'esles curiosos aslrus 
se reparlisso pelos principaes obsenalorios do nuindo. Este 
desejo do sr. Pogson niio pode deixar de ser realisado, por- 
que as eslrellas variaveis sao de cerlo os corpos celestes 
que mais exciUim a curiosidade dasciencia, e sobre os quaes 
menos se sabc ainda. astronomo inglez da nolicia de mui- 
los phenonienos curiosos que apresentam algumas d'essas es- 
lrellas, que, ora brilhain com grande intensidade de luz, ora 
desappareceni quasi, ou se rcduzem as menores proporcues 
que podem ter as eslrellas lelescopicas ; ora apresentam pha- 
ses regulares, crescimenlo e decrescimenlo gradual, ora mu- 
dam repenlinamcnle ou mesmo manifeslam instabilidadc, Ire- 
pidacao quando se aproximam do max'mo brilho ; ora cres- 
cem e decrescem cm tempos eguaes, ora cresccm com pas- 
mosa rapidez e se apagam lentamenle ; ora conservam sem- 
pre a mesma cor, ora, ao altingirem o maxima, se loruam 
de um escarlate vivissimo ; ora se conservam em todos os 
seus periodos claramenle definidas e sempre como pontos 
luminosos, ora, quando chegam ao minimo, se tornam ne- 
bulosas, confusas , mal definidas , sem comludo dcsappare- 
cerem de lodo. Trinla e seis estrellas variaveis sao indica- 
das pelo sr. Pogson, por serem as que em 1857 provavel- 
menle chegarao ao pcriodo do maximo brilho, e e sobre cs- 
tasque sedevem dirigir, principalnicnte, as observacoes dos 
astronomos. A historia d'esles aslros mysleriosos so podera 
ser complela quando elles forcm assiduamente esludados ; e 
quando cssa historia for bem conhecida, entao se podera as- 
sentar cm bases seguras uma hypolhese, que possa explicar 
as irregularcs transformacoes por que elles passam regular- 
mcnte. 

— Como prova de quanlo podcm ainda sobre o Ci^pirilo 



2il 4NN\KS 

das pt'SSo.:s puuco iiislruidas os lerrorcs supeisliciosos, iiies- 
nio n'osle nosso seculo . conio prova da necessidade de se 
vulgarisarem por toda a parlc exactas e seguras nocoes das 
sciciicias physicas o naluraes , basla citar o eslranlio faclo 
que leve logar nos primeiros niezes d'csle anno. Uni astro- 
logo , urn d'csscs fazedorcs de almanaks que alinicntani a 
curiosidade publica com absurdos e extravagancias, annun- 
fiou que n'este anno urn conieta viria das reniotas rcgiocs 
do espaco ter de cnconlro a terra, e a reduziria a p6 no dia 
13 de junho : o pavoroso annuncio , apesar de se nao fun- 
(lar cm obscrvaciio ou em calculo, mas de ser unicamente 
lima ridicula adivinhacao, causou susto, excilou penosas du- 
Aidas, ou mesmo produziu terror em muita gente , a qucm 
falleciam os conhecimentos scienlificos uecessarios para dar 
a lerrivel prophecia o seu devido valor. Odia 13 de junho 
passou, e o sinistro cometa nao appareceu, nem podia appa- 
recer. que dava ao annuncio do aslrologo cerlo griio de 
plausibilidade , nao em quanto a destruicao da terra , mas 
em quanto ao apparccimenlo de um cometa n'este anno, era 
a duvida em que eslao os aslronomos sobre a epucha em 
que deve reappareccr ocelebre cometa de looG, cuja iden- 
tidade com o de 126i Pingre buscou provar, e que so es- 
pera desde 1848. 

notavel cometa de Carlos Quinlo, cujos elemenlos fo- 
ram calculados por Pingre em 1760, e comparados com os 
elementos do cometa de 12G4 , foi de novo estudado pelo 
sr, Benjamin Yalz. D'este intcressanle cstudo, da apreciacao 
rigorosa de todos os dados historicos do cometa de 1264 , 
resulla que, a idenlidade d'este e do cometa de 155'6 c pos- 
sivel mas nao esla provada. 

sr. Babinet, sempre empenhado em popularisar a scien- 
cia, em tornar conhecidos do todos os principios fundamen- 
taes, cm que ella se basca para cxplicar os phcnomcnos da 
naturcza , imaginou uma luminota demoustracao da exces- 



HAS s<;ll■^(;iAs t i.ettras. 22") 

sivu lenuidndc da malerin que coiisliluc os comelas, e d'esia 
lonnM lui'iiou ovidenlo a iinpossihilidadc de poder a terra ser 
dcslruida pelo choque de urn comcla. A denionslracao do sr. 
Babinet e unia brilhante combinacao dos \erdadeiros princi- 
pios da aslronomia physica com as niais iraportautes desco- 
berlas da optica moderna. 

E geralmentc admillido pebis astronomos que a massa 
c a dcnsidade dos cometas e de lal modo pecjuena, que es- 
tes iiao podem exercer attraccao alguma sensivel sobre os 
corpos planelarios. A observacao mostra tambein que, a Ira- 
ves dos cometas, se pode perfeitamcnte observar unia cstrel- 
ia, mcsnio do uudecima grandeza, seni que esla perca nada 
do seu brilho pouco iiitenso. 

Escolhendo eiitre todos os cometas o denominado de En- 
cke, sr. Babinet, sobre os factos que ticam exposlos, fez 
a seguinte deduccao. — Um coraeta illuminado pelo sol nao 
enfraquece o brilho de uma estrella de undecima grandeza ; 
sabe-se que uma luz sessenta vczes menor do que outra, 
diminue sensivelmente, quando interposia outre o observador 
e a luz intensa, o brilho d'esta ; logo a luz do cometa e mais 
do que sessenta vezes menor que a luz da pequena estrella. 
Para ocomela poder occullar a estrella, seri'a necessario que 
fosse sessenta multiplicado por sessenta vezes ou tres mil e 
seiscentas vezes mais luminoso do que e. — A athraosphera 
illuminada pelo luar torna invisiveis todas as eslrellas infe- 
riores a quarta grandeza. As cstrellas de quinta grandeza , 
que sao invisiveis quando faz luar, tern duzentas e cincoenta 
vezes mais luz do que uma estrella de undecima grandeza, 
que um cometa so occultaria, se, illuminado pelo sol, se tor- 
nasse Ires mil c seiscentas vezes maior do que e'. Segundo 
WoUaslon , a illuminacao produzida pelo luar e oitocentas 
mil vezes menor que a produzida pelo sol. A isto deve ac- 
crescentar-se que a cspessura da athmosphera e' equivalente 
a oito kilonietros , suppondo a densidade do ar egual a que 



2il» A^^M•s 

cslc lein a ifupcrncie da terra ; c a espessiira da subslancia 
que forma o coincla e do 500.000 kiloinelros. Cumbinaiuio 
estes dados, resulla o calculo seguiule : 

Para um coinela occullar uina esliella dc qiiinla gran- 
deza soria necessario que o seu brillio fosse 3G00x2o0 
Aczes iiiaior. Ora , comparando com a iiossa alhmosphera , 
scria necessario que esla fosse 3600x2;jO egual a 900000 
vezes menos compacia, para scr equivalenle ao comela. 

Allendendo , purcm, a que o comela e illuminado pelo 
sol, c a alhmosi)liera e illuminada pela lua, no caso que nos 
serve de poiilo de comparacfio, islo e, quando faz desappa- 
recer as eslrellas de quinta grandeza, scgue-se que a allimos- 
phera deveria ser 900000x800000 menos compacla pa- 
ra ser equivalenle a subslancia do comela. 

Deve-se, porcm, ler ainda atlencao a que a espessura 
da alhmosphera e apenas de 8 kilomelros, e a do comela 
oOOOOO kilomelros, de que resulla que e preciso augmen- 
tar a relacao das densidadcs do ar e da materia comelaria, 
na razao de 500000 para 8 , o que lorna esla relacao de ; 

15.000.000.000.000.000 

Vc-se, pois, quanto e prodigiosa a difierenca de densi- 
dade, enlre oar que nos cerca e a subslancia que forma os 
cometas. espirito nao pode conccber quasi a existencia de 
materia lao tenue como essa que constilue os aslros erran- 
tes, que por lanlos annos cncheram de terror a bumanidade, 
e que ncm sequcr poderiam penelrar nas camadas mais di- 
laladas e aflfasladas da nossa alhmosphera, ainda que, no seu 
rapido movimento, viessem a enconlrar-se com ella. 

— Uma nova observacao de occultacao do planeta Jupi- 
ter pcla lua, fcila por um habil aslronomo , o sr. Kulard , 
veio accrescenlar mais uma prova as oulras que demons- 
tram a nao cxislencia de alhmosphera no noijso satellite. A 



I 



HAS SCIENCIAS E LETTRAS. 227 

emersao do planela e dos sens salellitos, nao apresenlou ao 
sr. Bulard nenluim plienomcMio que inoslrasse a interposicao 
de lima alhmosphera lunar ; os astros nao soffreram nem os- 
cillacao, nem deslocacao, nem modificacao de forma, nem, 
emfim , nenhuma d'essas alteracoes apparenles que uma 
alhmosphera lunar devia produzir n'elles. 

— No esludo das sciencias de obscrvacao, os esforcos, 
fanlo dos honiens de sciencia como dos conslructores de ins- 
Irumenlos, tendem todos a alcancar resullados que, o mais 
possivel, sc aproximem da rigorosa exactidao. Ao passo que 
unsse empenham em formar inslrumenlos, que reunam a cla- 
reza com que dao as imagens dos ohjectos a exactidao ma- 
thematica na medida dos angulos, osoulros procuram cons- 
tanlemente o modo de observar menos sujeito a erros de ob- 
servacao, e mais independente de correccoes thermometri- 
cas, baromclricas elc, que, IneYilavclmenle, dao sempre lo- 
gar a maiores ou menores erros. 

sr. Babinet, tendo atlencao a que os angulos medidos 
no piano do meridiano teem inconvenientes, que resullam da 
incerteza das refraccoes ; da flexao e deformacao dos limbos 
circulares dos instrumentos ; da pontaria feita com os fios 
horisontaes do reliculo, em consequencia da dispercao e ab- 
sorpcao da athmosphera que niodificam os rayos luminosos ; 
emfim , a imperfeiciio da imagem do astro no foco dos ins- 
trumentos , OS erros pessoaes do observador elc. ; propoz, 
n'uma serie de trabalhos apresentados a Academia das Scien- 
cias de Paris, a subslituicao, iios observalorios aslronomicos, 
de inslrumenlos azimulaes aos inslrumenlos meridianos ; in- 
dicando, ao mesmo tempo , os melhodos para delerminar as 
coordenadas dos astros com os instrumentos que elle pro- 
poe. Estes trabalhos do illustre physico devem fixar a atlen- 
cao dos aslronomos. 

Uma importante descoberta do sr. Foucault, que tao ce- 
lebre se tern tornado ja por trabalhos marcados com o cu- 



iiH ANNAES 

nho da originalidade e do verdadeiro lah^nto, acaba de en- 
riquecer a aslronomia com uin no\o mcio de conslruir po- 
dorosos tolescopios , com facilidade , economia e perfeicao. 
Os lelescopios aprftsciitam vantagens sohre as liinelas astro- 
noniicas, apesar da perda de luz que tern logar na reflexao 
pelos espelhos, porque estao isentos da aberracao dc refran- 
gibilidade, diio uina imageni mais piira do astro, e podeni, 
relalivamenle, ler maior diamclro ; a difllculdade , porem , 
de conslruir os espelhos melallicos, e, sobre tudo, a facili- 
dade com que ellcs perdem o brillio da sua supcrficie , as 
perdas dc luz a que dao logar, lorna os Iclescopios de ex- 
cessivo preco , e de urn cfTeilo incompleto : na construccao 
dos oculos astronomicos as difliculdades que se apresentam 
sao tambem immensas, pelos cuidados que exige a conslruc- 
cao dos Vidros refractores ; pode-se, pois, ai)reciar a impor- 
lancia que podc vir a ler para a sciencia a descoberia dc 
urn processo para conslruir espelhos curvos, com superficie 
melallica, pcrfcitamenle regulares, conservando-se polidos e 
brilhantes por muito lempo, e podendo-se obter por urn di- 
minulo preco. 

Encarregado de esludar a conslruccito dos instrumcnlos 
astronomicos pelo director do Observalorio de Pan's , o sr. 
Foucaull empregou, para certos ensaios, espelhos de vidro 
com superficie espherica-concava ; e notando que as imagcns 
oblidas por uma reflexao parcial cram baslante perfeitas, o 
illustre physico lembrou-so de empregar os processos ele- 
ctricos para cobrir a superficie dos sous espelhos de vidro 
com uma capasinha de prata , por um processo industrial 
conhecido pelo nome do inventor Drayton. Executadas com 
perfeicao as operacoes galvano-plasticas, o sr. Foucaull ob- 
leve um bom espelho perfeitamente polido e brilhante, e sa- 
tisfazendo as condi(:oes de um bom espelho dc lelcscopio. 

PHTSICA DO GLOBO — GKOLOGIA. — Em UOitCS GUI qUC C('0 

esla puro e a alhmosphera tranquilla, ponlos luminosos ap- 



DAS SCIENCIAS E LETTRAS. 229 

parecem siibilamenle conio eslrellas , e correm com rapidez 
um espaco mais ou nienos longo, ora deixando urn Iraco lu- 
niinoso que indica o caniinho pcrcorrido, ora lancando chis- 
pas, ora mudando de cor, as vezes apresentando considera- 
veis dimensoes , outras conservando-se apenas como pontos 
no espaco, e acabando todos por se apagarem de repente. 
Varias hypotheses se teem proposlo para explicar o ap- 
parecimento d'estes meteoros incandescentes, que assini pe- 
nelram subitamente na espessa camada de ar que involve 
a terra, sendo, a nosso ver, a mais plausivel, a que suppoe 
serem estes corpos asteroides , que existem dentro do nosso 
syslema planetario, e caminham como os verdadeiros plane- 
las em torno do sol. Esses asteroides, que a terra cncontra 
no seu movimenlo pelo espaco, quando penetram na athmos- 
phera , caminhando com uma enorme velocidade , que tern 
sido calculada em 37000 metros por segundo , mas que e 
provavelmente superior , incendeiam-se , lancam vivissima 
iiiz , e depois, ou se extinguem em vapores , ou tornam a 
perder-se no espaco, ou caem formando os aerolithos, essas 
pedras caidas do ceo que tanto assombro teem causado por 
vezes aos homens. Benzenberg, Brands, Chladni e outros teem 
estudado estes singulares meteoros , mas nunca esse estudo 
foi com mais ardor, e seguido com maior perseveranca do 
que pelos srs. Coulvier-Gravier e Poey. Estes habeis obser- 
Tadores teem particularmcnte fixado a attencao sobre as co- 
res das denominadas estrellas cadentes, explorando para isso 
OS longos catalogos da China e a serie das observacoes fei- 
tasem Inglaterra. Ultimamente o sr. Poey apresentou o qua- 
dro dos meteoros luminososd'esla natureza, observados pelo 
sr. Coulvier-Gravier, em Franca, desde 1811 ate 1853, em 
que se acham descriptos 1065 d'estes globos. A cor prcdo- 
minante das estrellas cadentes e o azul , e so vem, depois, 
observada em muito menor numero de globos lurainosos, a 
amarella e a vermelha. Quando as estrellas cadentes mu- 



230 AN^VES 

(lam de eor, essa variacao faz-se gradualmtMite do vermellio 
para o violcla, ou do violcia para o veriiiolho, passando pe- 
las cores inlermedias do prisma. 

sr. Poey busca explicar estes phtMiomenos de colora- 
cao das estrellas cadenles pela lei inleressanle do sr. Carlos 
Dopplcr so])re as miidancas de cor de urn ponto iuminoso 
dotado de rapido movimento. Os corpos luminosos em movi- 
mento, quando caminham para o observador, aproximando- 
se, percorrem as cores do prisma do vermelho para o azul ; 
quando so affastam, a cor passa do azul para o vermclho. 
\l e isto que sc passa com as estrellas cadentes. A esla 
causa, porem, se clla ereal, deve accrescentar-se a induen- 
cia que a athmosphcra pode ter sobre a cor da luz, e, ainda 
mais, a nalureza da materia de que o brilho e formado. 

Esla lei celebre de Doppler , em si mesma muilo nota- 
vel , achara lalvez applicacao nos factos problematicos das 
estrellas variaveis, e, nos nao menos curiosos, das estrellas 
duplas coradas , se as observacoes chegarem a provar que 
estes astros sao dotados de uma grande velocidade. Uma no- 
lavel serie de observac(5es do astronomo, o sr. Lilrow, pa- 
rece demonstrar que o satellite de y da Virgem caminha 
80 mil legoas por segundo, o que e um movimento compa- 
ravel ao da luz. Ja n'outra parte d'esta Revista nos referi- 
mos a esta theoria da velocidade das estrellas para a expli- 
cacao dos phenomenos das estrellas \ariaveis e coradas , e 
entao dissemos o que a este respeito ha ainda de \ago e du- 
vidoso. 

— As plantas carecem do azote para crescer e fructifi- 
car, todos os orgaos novos dos vegelaes conteem o azole. Mas 
qual e a origem d'este elemento nos vegetaes ? Em que for- 
ma absorvem elles? Recebem-n'o direclamente da athmos- 
phcra onde elle se encontra misturado com outros gazes? 
Recebem-n'o do solo? Edebaixo da forma de ammoniaco ou 
de nitro que os vegetaes absorvem azote? 



DAS SOIENCIAS E LETTRAS. 231 

Estas qiiestoes nao receberam ainda unia solucao com- 
plela, autes sobre ellas haopinioes muilo diversas,'e, o que 
mais e, expericncias que parecem provar cada uma das theo- 
rias que se leem emittido sobre o azole das plantas. que pro- 
va islo? Que as observacoes sao inexactas ? Nao. Prova que 
as theorias exclusivas sao inconipletas ; prova que as plantas 
podem, cm dados casos, como o demonstra o sr. G. Ville 
absorver o azote puro da alhmosphera , em outros casos os 
l| saes ammoniacaes e ammoniaco, e em outros, emfim, o iiitro. 
Nas sementes das plantas existe azote , e este serve de 
nutricao aoembryao naprJmeira epocha da germinacao. Al- 
gumas sementes teem azote bastante para nutrir a planta ate 
ella chegar a ter folhas, e n'esle caso ellas adquirem a fa- 
culdade de se apoderar do azote puro do ar, e podem, por 
, si, continuar a crescer, florecer mesmo e fructificar. Quan- 
do as plantas nao acham nas sementes o azote necessarii* 
para este primciro desinvolvimento , e indispensavel que o 
solo Ih'o ministre ; e e o nilro, segundo experiencias do sr. 
G. Vilie , composto azotado mais proprio para nutrir as 
plantas, n'esla e'pocha pelo menos. 

Em um trabalho notavel, de que ja se deu noticia n'es- 
tes Annaes, o sr. Boussingault provou que nas terras mais 
ou menos productivas existem nilralos , que as aguas das 
chuvas podem arraslar, mas que, passado tempo, se reno- 
. vam. Ve-se, pois, que nas terras vegelacs em que ha matc- 
nas organicas e onde o ar torn accesso , o nitro forma-se. 
preparando-se por esta forma uma substancia necessaria ao 
desmvolvimento das plantas. Os nilratos Jevados pelas aguas 
da chuva, que lavara o solo, nao sao inleiramente perdidos 
para as plantas; estas aguas levam aos rios, as fontes, aos 
lagos estes saes, e quando se empregam nas regas, nao so se 
minislra aos vegetaes a agua de que elles necessitam, senao 
tambem maior ou menor porcao de materias fcrtilisanles 
enlre as quaes se deve contar o nitro. As analyses das aguas 

foji. I.-JiM,o Dr 1837.-l.'CLASiE. 1(] 



232 ANWKS 

(los rios, lagos e fonles, fcilas polo dislincio cliiniico (fiie ci- 
lamos , (lemoikstrani a verdado, a rigorosa cxaclidao d'esla 
notavol lei de oslalica chiniica. nilro e nocessario para a 
iiulricao das planlas, pdo monos nas primoiras epoclias do 
sen desinvol^imenlo, as planlas, decompondo-se no solo, on- 
de siio transportadas como eslrume , ori^inam o nilro. As 
agiias das chuvas, lavando a terra aravel, Icvam-ihe a maior 
parte dos nitrates que esla contem , e conduzeni cslcs saes 
aos rios, lagos e fontes ; as aguas d'esles, \indo regar os ter- 
renes, deixam n'ellcs estes saes iiteis. 

estudo d'essas conlinuas Irocas de principios que teem | 
logar enlre o ar, as aguas, as terras, e os seres organisa- ■ 
ilos, Tai de dia para dia progrediudo e enriquecendo-se de 
novos factos , apesar das suas naturaes diinculdadcs , e da 
coniplexidade dos phenomenos naturaes que e preciso conhe- 
cer c comparar. A memoria do sr. Peligol sobre os gazes 
que se contem nas aguas e, considerada no ponto de vista 
que indicamos, de notavel interesse. Segundo uraa lei reco- 
nhecida por Dalton c Henri , os gazes misturados dissol- 
vem-se na agua em relacao com o coeficiente de solubili- 
dadc que Ihc e proprio ; ora, n'uma serie de analyses, o 
sr. Peligot moslrou que, nas aguas correnles, o oxigenio e 
azote se acham dissolvides na exacta proporcao em que 
elles, tendo em altencao as quantidades em que entram na 
composicao da alhmosphera e a sua solubiiidade, se devlam 
achar. Nao succcdc, porem, o mesmo com o acido carboni- 
co, que n'eslas aguas se encontra em proporcao muito con- 
sideravel. Na agua da chuva o acido carbonico encontra-se 
em minima quanlidade, em proporcao com a que d'este gaz 
existe na alhmosphera , e com o seu coeficiente de solubiii- 
dade ; conclue-se pois, d'aqui, que a agua da chuva, pene- 
trando no solo aravel, onde experiencias teem provado que 
ha uma quanlidade notavel de acido carbonico , ahi recebe 
urn cxcesso d'csle gaz quo depois leva aos rios. 



DAS SCIENCES E LETTRAS, 233 

Analysando os gazes conlidos na agua immedialamente 
recebida do furo artesiano de Grenelle , agua que \eni de 
uma profundidade superior a 500 metros, o sr. Peligot achou 
que n'esles gazes nao havia oxigenio. D'estes dados o illus- 
Ire chimico lira as seguinfes consequencias, de rauito inle- 
resse para a physica do globo: 

« Pois que a agua da chuva nao conlem senao uma mui 
pequena quantidade de acido carbonico , e verosimil que 
a agua do poco de Grenelle , penelrando no solo , lira da 
alhmosphera limilada que cerca a terra vegetal uma nolavel 
porcao d'este gaz. E tarabem possivel que ella alravesse ca- 
madas do terreno impregnadas d'este gaz , debaixo de cuja 
influencia dissolve carbonato de cal e de magnesia, fe prova- 
velmenle tambem a presenca do acido carbonico que se deve 
attribuir a presenca da silica , que este acido liberla, ope- 
rando a decomposicao dos fragmenlos feldspathicos, que a 
agua, que d'elle esla carregada ^ encontra no seu trajeclo , 
d'ahi vem o carbonato de potassa que Ihe da uma reaccao 
alcalina. Quanto ao azote, que existe em dissolucao n'esla 
agua, proviria do ar que a agua pluvial continha , ar cuja 
oxigenio haveria sido cmprcgado ou a oxidar os produclos 
pyritosos, ou a destruir o sulfureto alcalino que^ n'um dado 
momenlo, deve achar-se n'csta agua. 

— ^^A gcologia e uma sciencia moderna. No fim do se- 
culo passado a conslituicao das camadas de rochas, que corn- 
poem a crosla exterior do globo, era mal conhecida. Iloje 
ncha-se, pelo contrario, bem estudada a ordem em que se 
formaram as differentes rochas, mais ou menos dispostas cm 
cstratos , que se acham na porcao conhecida da crosla da 
terra ; c este conhecimento da ordem do sobreposicao d'es- 
sas camadas serviu para Ihds marcar a cada uma d'ellas a 
epocha relativa cm que se conslituiu. As camadas, que for- 
mam a parte mais exterior da terra , grupam-se, nalural- 
niente, por caracieres bem dislincfos, em ferrenos que indi- 

16* 



23 1 AN.NAES 

tarn pela sua natureza, e pelos reslos organicos que encer- 
lam, epochas diversas da existencia da terra. 

couhecimento exaclo tlo modo de successao das caina- 
das da crosta terrestre, conhecimento que se funda no estado 
da sua posicao relati\a , e dos restos urganicos que n'ellas 
se acham, deu a geologia o caractcr'de uma liistoria chro- 
nologica do nosso inundo. A terra primitivanjente no eslado 
fluido, em consequencia da alta lemperatura da sua massa, 
foi esfriando pouco a pouco, ate que chegou uma epocha em 
que se formou uraa primeira codea uniforme, de modo que 
a terra era entao urn espheroide sem desegualdades, coberto 
de uma camada pouco profunda e uniforme deagua. N'essa 
Epocha nao existiram, nem podiam existir scnao aniraaes e 
vegetaes marinhos, uns e outros de uma organisacao muito 
simples. Os fosseis que se encontram nas caniadas mais pro- 
fundas, isto e, nas mais antigas, sao reslos de plantas e ani- 
maes aqualicos, e dos de organisacao mais singella. 

Resfriando cada "vez mais, a crosla do globo apresentou 
entao rugas, pregas mais ou menos consideraveis, que cons- 
tituiram as primeiras montanhas, e as primeiras terras nao 
cobertas de agua, terras todas com o caracler de ilhas iso- 
ladas. estudo dos restos organicos coniirma este modo de 
v6r. N'este periodo da existencia da terra desinvolveu-se uma 
abundante vegetacao, similhanle a que hoje se enconlra nas 
ilhas do grande Oceano. Os restos accumulados d'esta vege- 
tacao formaram essas preciosas camadas de carvao de pedra, 
que sao uma das maiores riquezas das nacoes modernas. Co- 
mo OS climas, n'essa epocha, eram pouco differentes, por isso 
OS seres organisados apresentavam em toda a parte os mes- 
mos caracteres, o que depois deixou de succeder. 

Passado este periodo, novas sublevacoes de montanhas 
tornaram de mais em mais irregular a superficie da terra. 
Mares mais profundos, montes mais elevados, ilhas mais ex- 
lensas. emfim, urn solo raenos uniforme tornou mais varia- 



DAS SCIENCIAS B LETTRAS. 23J> 

dos osclinias, mais irregiilares ascondicOes physicas do glo- 
bo terrestre. A esta variedade de condicoes physicas corres- 
pondeu maior numero de formas tanto de animaes conio de 
vegetaes, e urn nolavel aperfeicoamento na organisacao dos 
seres vivos em geral. N'este periodo apparecem os reptis de 
forraas extravaganles , aves giganlescas, de cuja existencia 
nao temos outra prova seniio as pegadas que elias deixaram 
sobre as areas. Quasi no fim d'este periodo apparecem a!- 
guns mamiferos de formas anoraalas. Analogo progresso se 
apresenta nas formas vegetaes. 

A um longo periodo de successiva formacao de deposi- 
ts em camadas, contendo em si restos organicos muito ca- 
racterislicos, seguiram-se novas sublevacoes de niontanhas. 
e com eslas cresccm as ilhas, e torna-se mais consideravel 
a quantidade de agua doce asuperficie da terra. Formam-se 
entao correntes maritimas notaveis , os venlos correm com 
maiores differencas de calor , a influencia do calor interno 
da terra deixa de sentir-se , e as estacoes tornam-se mais 
distinctas. Animaes e vegetaes aproximam-se mais, nas suas 
forraas, dos que actualmenle existera ; mas as especies nao 
sao, geralmente, as que hoje se encontram no mundo , e o 
homem ainda nao apparece. A terra, porem, estava prepa- 
rada para receber o seu senhor : todas as condicoes physi- 
.cas se haviam disposto para isso , e os animaes e vegetaes 
uteis eslavam creodos. homem appareceu na terra. 

A longa e interessante hisloria da vida organica na ter- 
ra, e oestudo das espinhosas questoesque a cada passo ap- 
parecem n'esle assumpto, foi o objecto de uma Memoria do 
professor Bronn, que mereceu a honra de ser preraiada peia 
Academia das Sciencias de Paris. 

So depois dos progresses realisados pela geologia , pela 
anatomia comparada, pela botanica ezoologia descriptiva, so 
depois dos maravilhosos trai)alhos execulados no nosso secu- 
lo . e pelos quaes o numero das especies vegetaes conheci- 



236 ANNAES 

lias , por cxemplo , passou dc oilo mil a mais de ceni mil, 
succedendo uma coisa analoga em relacao aos animaes e aos 
fosseis ; so depois d'esles prodigies de paciencia e de saber 
e que traballio do sr. Bronn era possivel. Este Irabalho e 
uma gloria nao so para o sabio que o escreveu, senao tam- 
bem para o scculo que pode reunir os elementos para sc em- 
prenderem obras d'esla nalureza. 

Sp OS ignoranles ou os hypocritas e que podem injuriar 
seculo XIX, em tudo superior aos seculos que o precede- 
ram. 

(Conlinm.) 

JOAO DE ANDRADE r.ORVO. 



lus sciENniAS i; llttras. 237 



VARIEDADES. 



AMYLENAGAO SEGUIDA DE MORTE. 



PRIMEIRO DESASTRE SUCCEDIDO A ESTE NOVO MEIO ANASTHESICO. 

Exlrah. do Jour, de medicin, c dc 
chiirurg. pratiq. Mai 1857. 



Os meios anaslhesicos iam-se mulliplicando, o ether, o chlo- 
I'ofornno e a amylena linham cada urn a sua historia, e dis- 
pulavam cntre si a preferencia d'emprSgo, ja pela insensibi- 
lidade absoluta a que reduziam o doente, ja pelo menor risco 
que corria a vida do anasthesiado : dcbaixo d'csle ponio de 
\ista, era, na verdade, a amylena quern levava apalnia. 

Manejado immensas vezes em Londres por Mr. SnoAv com 
feliz resullado, foi egualmenle debai.xo da sua direccao que 
leve logar o desastre. 

Foi n'um doente de 33 annos d'edade, d'uma constitui- 
cao regular, que, soffrendo de unia fistula d'annos, apenas 
carecia d'um pequeno golpe para se curar. Delerminado a 
sujeitar-se a inhalacao da amylena, foi aanasthesiacao, por 
meio d'este agente, confiada a Mr. SnoAv, devendo-o operar 
Mr. Ferg\isson. Para este fun oenfermo deitou-se nacama. 
e a amylena foi-lhe subministrada por mclo d'um apparclho 



238 AN^JAIiS 

de que se coslumava servir Mr. Snow. Ao cabo de dois nii- 
niitos a anasthesia era perfeila ; praticou-se o golpe sem que 
doenle mostrassc ler scntido a mcnor d6r. pacienle fez 
enlao um movimenlo com os olhos, como quern queria acor- 
dar ; mas immediatamenle se tornou livido, e, com bastante 
espanio e surpreza dos circumstanles, se observou que seu 
coracao ja nao balia ! comtudo a respiraclio ainda se con- 
servava regular. Lancou-se-lhe agua na cara, praticou-se a 
respiracao artificial, fizeram-se-lhe friccoes, deram-se-lhe aba- 
los, mas tudo em vac ; porquo a morle estava verificada no 
fim de alguns mementos. 

.i autopsia, verificada vinte e quatro depois da morle, nao 
revelou a causa material d'este inesperado successo : apenas 
Mr. Snow verificou um emphysema pulmonar, que nao ti- 
nha sido causado pelas tentativas darespiracao artificial. Foi 
esle emphysema a causa da raorte ? ou foi entao o effeito de 
uma asphixia produzida pela imperfeicao do apparelho d'in- 
halacao ? ou seri'a finalmenle devida a ma preparacao da 
amylena empregada ? Todas estas supposicoes, e oulras mui- 
tas sao na v^crdade possiveis , mas nenhuma d'ellas satisfaz 
cabalmenle o espirito do experimentador, que ate entao cui- 
dava manejar uma suhstancia totalmente inoffensiva. Esta 
catastrophe vem, sobre tudo, lancar a desconfianca sobre um 
meio anasthesico , que alguns medicos estavam dispostos a 
antepor ao chloroformio, pela simples razao de acreditarem 
ser impossivel seguir-se qualquer raau resultado do seu em- 
prego." 

A inhalacao da amylena era reputada lao innocenle , e 
d'uma energia lao moderada e suave, que se tinha proposto 
como anasthesico proprio das criancas. Mr. Henrielte, ci- 
rurgiao do hospital de S. Pedro, em Brux»llas, fez algumas 
experieucias com a amylena em criancas, e Ihe pareceu que 
esta substancia produzia antes o extasis do que o somno. Com 
quinze grammas (perlo de meia onca) se podia obler este ef- 



DAS SCIEiNCIAS E LETTHAS. 

feilo nas criancas ; mas como a aniylena e Diuilo fogaz e vo- 
latil, e necessario que ella se nao dissipe na atmosphera, 9 
que doenle a inspire toda d'envolta com ar almospheri- 
co ; para isso foi que 3Ir. Snow inventou seu apparelho 
d'inhalacao, que era uma especie de mascara com um jogo 
de valvulas apropriadas; mas melhor meio de fazer a amy- 
lenacao e praticar mesmo que costumamos fazer para a 
chloroformisacao. Simplificar os processos e os appareihos 
e a tendencia mais razoavel da epocha actual. 

Uma circumstancia que os auctores notam, vem a ser a 
da summa difficuldade de obter a amylena bem pura, como 
e para desejar nos empregos medicos. Aquella que tern sido 
fornecida pela casa 3Ienier , de Pan's , parece , pelas expe- 
periencias , estar no sufficiente grao de pureza para produ- 
zir uma perfeifa anasthesia. 

No hospital de S. Jose lem-se feilo actualmente muito 
uso da amylena, como anasthesico, ecom melhor resulta- 
do. Os jornaes medicos de Lisboa encarregar-se-hao de re- 
ferir esses import antes factos. 



210 A?<N.\ES 

OIJSEHVATOUIO METEOKOLOGICO DO INFAX 



-RtSLlMO 





HAIIOMK- 






(:i'U(:iiA. 






thkhmomktiio. 




TRO. 


,^^ 


Thermomelros das tempe- 




m. d 


m. (I 


1857 




Thcrmomelro. 


ra turas li miles. 




<9 «! 


n 


- • o . 


Janeiro. 


3 S 


2 - 
1 S 






^ S 




a a ^- '^^ 


Decadas. 


Milli- 


Graos ccnte- 


Graos ceiitesimacs. 




inelros. 


maes. 




da I.' 


762,10 


12,97 


12,20 


13,54 


7,44 


6,10 


10,49 


M6dias . » 2.* 


760,85 


12,45 


11,60 


12,91 


7,14 


5,77 


10.02 


» 3/ 


750,79 


8,92 


8,21 


9,31 


3,76 


5,55 


6,54 


Med ins do nicz 


737,68 


11,36 


10,59 


It.Si 


6,04 


5,60 


8 ,94 



iPrcssa). 
Maxima (das 4 epochas diarias). 766,86 em 1 as 9 h. m. 

do nicz. \ 

i Minima. » 743,85 

\ Variarao maxima 23,01 

Temperalura. 

\ Maxima absoluta 13,4 em 10 

I Minima 0,9 » 29 

, Variarao maxima 14,5 



DAS SCIE.Nf.lAS i: LILTTUAS. 

IE D. LUIZ, NA ESCOLA POLYTECIINICA. 



2il 



MEXSAL. 










PSVIHliOMETRO 


UDOGRAPHO. 


ANEMUGRAPHO. 


OZONOMETUO 


SERENIDVDE 
DO CtO. 




m. d 








m. d 


a 

m. d 


m. d 


AJedias 


m. d 


Graodchumi- 


Allura da agua 


Riimos 


diurnas. 




dade do ar. 


pluvial. 


do vciUo. 






Por too. 


MilliineUos. 


Predomi- 
nantes. 


Graos mc- 
dios. 


Graos nic- 
dios. 




TOTAL. 








74,86 


10,6 


q.N.O. 


5,4 


3,5 


68.09 


13,0 


N.N.E. 


3,8 


5,9 


68,12 


31.8 


q.N.O. 


4.3 


5.6 




TOTAL. 








70,28 


55,4 


q.N.O. 


^^.5 


5,0 



iHumidade. 

Maxima (das 4 qiochasdiarias) 97,8 em 4as3h.t. 

Minima » 41,2 » 29 » 3 h. t. 

Variacao maxima 56,6 

Irradiagao nocturna. Differenca media mensal do thcrmometro de minimo 

habitual aodoespelho parabolico... Oespelho csla voltado ao zenith, 

do terrace do Observatorio, toda a noilc. 
Bias mais ou menos venlosos : 1 . 6, 10, 11, 12, 1 3, 14, 17, 20. 21 , 22, 23. 

24.31. 
Chuva ou chuvisco em : 3, 4, 5. 6, 7, 10, 11, 12. 13, lo. 20, 21, 23. 24, 

25,26.31. 
Bias mais ou menos ennevoados : I, 4, 5. 9, 16, 18, 20, 27. 
Nevoeirosem: 3, 5. 
Saraivaem: 13.21,24,25. 
Geadaem; 28,29.30 
Trovoes em : 24, 25 

V Quadro das Obs. (rihoratias. 



Ikl ANNAK.« 

ODSEUVATOKIO 3IETEOH0LOGICO DO INFAN 



U ESI MO 



tP()i:iiA 


BAHOMK- 

rno. 


»>i. 




TIIKHSin 


MKTUO. 

iionictrc 






m. d 


d 


Then 


s das tcmpc- 


1857 




Thermoinctro, 


raturas 


liinjtes. 


Fevoreiro. 


SI fS 


Kxposlo. 
Asombra. 


5 CO 


Variacno 
diurna. 

Media 
du dia. 


Dtcailas. 


Milli- 
mctros. 


Graos ccnlc- 
simaes. 


Graos ccntosiraacs. 


dal.' 


751,70 


9,95 


9,43 


10,98 


4,82 


6,16 


7,90 


Medias . » 2/ 


75i,96 


13.32 


12,41 


13,54 


7.76 


5,78 


10,65 


» 3.' 


756,88 


U,87 


11,07 


15,80 


9,^59 


6,31 


12.64 


Madias do moz 


754,31 


12,36 


11.82 


13,27 


7,-20 


6,07 


10,24 



Presiuo. 

£jj|. 1 Maxima (das 4 epochasdiarias). . . 762,26 cm 27 as 9 h. m. 

do mez. 

I Minima » 744,67 » 3as3h.(. 

Variacao maxima 17,59 

Temperatura. 

I Maxima absolula 18,0 em 27 

[Minima 1,2 » 6 

Variacao maxima 16,8 



DAS SCIENCIA.S E LETTRAS. 

TE D. LUIZ, NA ESCOLA POLYTECHNIC A. 



U3 



MENSAL. 



PSYCUROMETRO. 


UDUGRAPHO. 


ANEMOGItAPHO. 


OZONOMKTRO. 


SEKESiDADi: 
BO C£0. 


m. d 

(irao de luimi- 
dade doar. 


m. d 

a 
m. d 

Alturadaagua 
pluvial. 


m. d 

Rumqs 
do vento. 


Mt'^lias 
diiirnas. 


m. d 


Por 100. 


Millimetros. 


Predoini- 
nantes. 


Graos me- 
dics. 


Graos me- 
dios. 


70,42 
74,32 
64,02 


TOTAL. 

89,7 

32, 5> 

0,9 


Vario, 
Vario. 
N.N.E. 


4,5 
3,6 
3,8 


4,0 
5,0 
5,7 


69,99 


TOTAL. 

123,1 


q.N.E. 


4,7 


4,9 



{ Humidade, 

Exlremas \ Maxima (das 4 ^pochas diarias) . . . 97,5 em 20 as 9 h, m. 

do mez. i Minima » 42,8 » 5 as 3 h. I. 

f Variarao maxima 54.7 



Irradiafao nocturna. Differenca media mrnsal do thermometro de mi- 
nirao habitual ao do espellio parabolico 2,95. O espelho esta vol- 
tado ao zenith, do terraco do Observatorio, loda a noite. 

Diasmaisoumenosventosos: 1, 2, 3,4, 5, 9, 10, 11, 13,21, 22,23,24. 
28. 

Chuva ou chuvisco em : 1,2,3,4,7,8,9, 10,11, 12. 13,14,15,16, 17, 
18,19,20,23.24. 

Dias mais ou menos ennevoados : 7, 13, 16, 18. 

Nevoeiros em : 8, 17, 20. 

Saraiva em : 16. 

Trovoes em : 9. 



V. o Quadro das Ohs. trihorarias. 



2 i 4 \ISNAES 

OBSERVATORIO METEOROLOOICO DO INFAN 



HESLMO 



t.POCHA. 


BAROMK-. 
TKO. 




TIIERMOMBTRO. 








m. d 


m. d 


Thermomclros das tempo- 


1857 




Thermomclro. 


raluras limiles. 


Marro 


< 1 


Expnsto. 
A sombra. 


Maxima. 

Minima. 

Variacao 
diurna. 

Media 
do dia. 


Decadas. 


Milli- 
inclros. 


Graos cente- 
simaes. 


Graos centcsimaes. 


dal.» 


757,52 


16,03 


15,15 


17,35 


8,59 


8,76 


12,97 


Media. . » 2.° 


750.59 


13,67 


13,i3 


14,39 


8,55 


5,84 


11,47 


» 3.' 


751,30 


li,88 


14,21 


15,29 


9,33 


5,96 


12.31 


Medias domez 


756,08 


14,86 


14,16 


15,66 


8,84 


6,82 


12,25 



SPiessuo. 
Maxima (das 4 opochas diarias). 762,34 cm 12 as 9 h. m. 

Uo mez. j 

J Minima » 747,72 » 2J » 9 h. m . 

\ Variacao maxima 14,62 

(Temperatura. 

Maxima al)SoIiita 22,0 em 5 

(Minima 3.8 

Variacao maxima. 18,2 



I 



DAS SCIENCIAS E LETTRAS 

IE D. LUIZ, NA ESCOLA POLYTECHNICA. 



241 



MENSAL. 










PSYCHROMETliO. 


ud6crapho. 


ANEMOGRAPHO. 


OZONOMETRO. 


SERFNIDADF. 
DO CfeO. 




m. d 








m. d 


a 
VI. d 


m. d 


Medias 


m. d 


Graode humi- 


Altura da agun 


Rumos do 


diurnas. 




• dade do ar. 


pluvial. 


vento. 






Por 100. 


Millimctros. 


Predoini- 
nanles. 


Graos me- 
dics. 


Graos me- 
dics. 




TOTAL. 








6'j,39 


5,2 


Vario. 


3,8 


5,3 


71,38 


33,6 


q.q.N.O.eS.O. 


5,6 


2,1 


72,83 


30,2 


q.S.O. 


6,2 


2,3 




TOTAL. 








69,64 


69,0 


q.q.S.O.cN.O. 


5.3 


3,2 



(Humidade. 
Maxima (das 4 epochas diarias), . 98,9 em 30 as 3 h. t. 

do mcz j Minima » 34,7 » 5 » 3 h. I. 

( Variacao maxima 6i,2 

Irrndiacao noctnrna. Diffcrenca media mensal do Ihermometro de mini- 
mo habitual ao da relva 4,34. 

Dias mais ou menos venloscs : 3,9, 10, 11, 18, 19,22, 24, 29. 

Chuva 011 chuvisco em : 1, 2, 7, 8, 11, 13, 14, 15, 17, 18, 20, 21. 24, 
25, 28, 29, 30, 31. 

Nevoeiros em : 6, 7, 27. 

Dias mais ou menos cnnevoados : 17, 21, 25, 30. 

Trovoes em : 1, 7, 8. 

V. o Quadro das 06«, (nViorarirt*. o director. 

GUILHEBME J. A. D. PE<;AD0. 



246 ANNAES 



MORTE DO S£NHOR BARAO THENARD. 



ilo ultimo numero d'estc Jornal annunciamos a perda irreparavel 
que a sciencia havia soffrido com a morte do primeiro mathemalico 
francez d'esla epocha , o iliustre Cauchy ; hoje temos ainda de no- 
ticiar o infausto transito de um dos grandes patriarchas da chimica 
moderna, o sr. barao Thenard, que no dia 20 de junho falleceu em 
Paris, per effeito de uma catarral, que em poucos dias cortou uma 
vida tao preciosa. 

sr. barao Thenard era um dos sabios mais respeitados nao s6 
em Franca mas em todo o mundo civilisado. Discipulo de Fourcroy, 
de Chaptal e de Yauqlin ; collega e collaborador do immortal Gay- 
Lussac ; mestre de Dumas , de Pelouse , de Balard, de Peligot, de 
Regnault, de Persoz e de outros muitos sabios que formam hoje em 
Franca essa brilhante Icgiao da chimica , o barao Thenard , inde- 
pendentemente dos sens notaveis Irabaihos de investigacao , foi o 
que mais concorreu para organisar a sciencia, publicando o sou Tra- 
lado de Chimica, que ficara sendo um livro classico quaesquer que 
sejam os reformas que o progresso successive dos tempos introduza 
n'este ramo do saber humano. 

sr. barao Thenard nao era unicamente um grande chimico , 
era lambem, e mais que tudo, um verdadeiro homem de bem, ci- 
dadao virtuoso, chefe exemplar de familia, professor eloquente e de 
trato agradavel , que prendia todos os que com elle tinham a for- 
tuna de ler intimas relacoes. Deixa um lilho herdeiro do seu uome, 
da sua fortuna e da sua sciencia , o sr. Paulo Thenard , com cuja 
araisade nos honramos, e a quem sinceramente acompanhamos n'este 
doloroso iucto. 

J. M. DE OLIYEIRA PIMENTEL. 



ERRATA. 

Na pag. 150, lin. 4.", onde se \& = eleclro-nrijatiL'0.; ieia-se 
:electro-positiYo. 



'^^>^. 



'S^ 



ANNAES DAS SCIENCIAS 



LETTRAS. 



1.' CLASSE, 








AMAES 



DAS 



SmCIAS E LETTRAS, 



PUBLICADOS DEBAIXO DOS AUSPICIOS 



ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS. 



mum HATHEHATICAS, FHYSICAS, DISTOBICO-NATL'RAES, E MEDICAS. 



TOMO I. 

PRIMEIRO ANNO. 

JULHO DE 1857, 



IISBOA 

NA. TYPOGRAPHIA DA MESMA ACADEMIA 

1857 Vc 



INDICE 



DOS ARTICOS CONTIDOS N ESTE NUMERO. 



^»^ 



TRABALHOS APRESEINTADOS A' ACADEMIA. 

PAG,- 

RECONHEcrMENTO gGoIogico c hydfologico (los lerrenos 
das visinhancas de Lisboa com relacao ao abasteci- 
mento das aguas d'esta cidade, pclo sr. Carlos Ri- 
beiro 217 

NOYo processo de panificacao do sr. Mege-Moiiries . . 257 

REViSTA dos trabalhos chimicos 277 

HYGIENE publica 28o 

BEYisTA ESTRANGEiRA. Janciro e feverciro 289 

oBSERVATORio iiieteorologico do Infante D. Luiz, na Es- 
cola Polytechnica 306 

VARiEDADEs. — PBODuccAO ccoHomica do gclo 310 



DAS SCIENOIAS R LETTRAS, 2i7 



TIVABALHOS APRESENTADOS A AGADEMIA. 



RECONHECIMENTO GEOLOGiCO E UYDROLOGIGO DOS TERRENOS DAS 

VISINHANCAS DE LISBOA COM RELACAO AG ABASTEGIMENTO DAS 

AGUAS d'kSTA CIDADE, PELO SENIIOR CARLOS RIBEIKO. 



PIlIMElllA PARTE. 
GEOLOGIA. 

1.' SECCAO. 

CO?<PICl]RACAO PHYSICA DO SOLO. 



JJescripcao geral e dimsuo em dois massicos. — A cidade 
de Lisboa esta edificada e distribuida sobre todas as desegual- 
dades d'um grupo de coUinas que occupam a margem di-. 
reila do Tejo e se prolongam para o Norte n'uma extensao 
de 1,5 a 3 kilometros, atlingindo 100 a 120 metres de al- 
titude sobre o nivel do mar, descaindo depois, mais ou me- 
nos rapidamente, para uma depressao, que forma em parte 
valle de Alcantara, e cerca a cidade na sua maior exten- 
sao. Para alem d'esla depressao todo o terreno que Ihe fica 
adjacente torna a subir a diversas alturas, e estendendo-se 
pelos quadrantes do Noroeste e Nordeste, e dividido, pelo 
valle que vai de Carnide a Loures , em dois massicos de 
desegual forma e grandeza. Um d'esfes occupa a parte Orien- 

TOU. I.-JlLlK) HE ISoT.-i." ClASSK. 17 



248 ANNAES 

tal e Nordesle, e o outro a parte Occidental e Norocste da ci- 
dade de Lisboa, indo ligar-se, proximo de Carnide, por um 
collo, no qual se dividem as aguas que vertem sobre os ri- 
beiros d'Alcanlara e de Odivcllas. 

Massico Oriental. — massico Oriental tcm, proxima- 
mente, a forma d'um losango muito alongado disposlo de 
SSO a NNE occupando a zona que dccorre de Bemfica, Pa- 
Ihava, e Poco do Bispo ate a margem direita da ribeira que 
vai de Friellas aSacavem, tendo, n'este sentido, 13,3 kilo- 
metros por G de largura media. E limilado a SE pelas es- 
carpas abruplas que forniam a margem direita do Tejo en- 
tre Lisboa e Sacavem, e indo egualmente forraar a margem 
direita da ribeira que vem de Friellas, limilam esle mesmo 
massico pelo lado do Norte, em quanto a sua superficie, le- 
\antando-se de SE para NO ou desde a aresla superior da 
escarpa sobranceira ao Tejo uns 20™, vai ganhar as maxi- 
mas altitudes de 100 a Ib'O™ sobre a aresta superior da es- 
carpa que limita por NO o referido massico, e que forma a 
vertente Oriental que borda o .valle de Carnide a Loures. 

Pelo S e SO estende-se toda esla parte do terreno pelo 
Luraiar, Carnide e Porcalhota, a formar o collo acima indi- 
cado, ficando limitado pelo valle de Alcantara que corre de 
NO a SE ate Sete-Rios, lomando, n'este ponio, a direccao 
SSO ate encontrar o Tejo em Alcantara , vindo assim todo 
solo de Lisboa a fazer parte integrante do massico Orien- 
tal. 

Diversos valles, como o de Chellas e outros, produzem 
as maiores desegualdades que se observam n'esta parte do 
solo, devendo porem notar-se que, sendo todos elles paral- 
lelos ao valle do Tejo, correndo, por consequencia, de SO 
para NE, cortam o massico perpendicularmente a sua incli- 
nacao geral , sem comtudo o dividircm em outros massicos 
independentes. Todos os mais accidentes se reduzem a pe- 
quenos valleiros, sem imporlancia sensivel no relevo, e as 



IV.VS SGIE?<CIAS E LETTRAS. 249 

coroas de algiimas collinas mais elevadas , taes como a da 
Boa-Visla e da Ameixoeira, que attingem as altitudes de 160- 
a 162"". 

Massico Occidental. — Pelo que toca ao massico Occi- 
dental, que, como disse, esta separado do precedente pelos 
\alles de Alcantara e d'Odivellas, estende-se ate ao Oceano, 
indo formar a linha da costa desde o Cabo da Roca ate a 
ponta mais meridional da mesma costa. Ao Sul e limilado 
pela margem direita da graude baliia do Tejo, que, mais ou 
menos escarpada , corre desde as proximidades de Cascaes 
ale Alcantara, e d'ahi subindo o solo successivamenle para 
lado do iSorle, termina por uma imporlante linha diviso- 
ria d'aguas, que naturalmenle separa esle massico do terre- 
no adjacenlc. Esta linha divisoria, que passa pelos pontos cul- 
minantes da serra de Cintra, na altura de 300 a oOO'" so- 
bre mar, e na direccao do Poente a Nascente , separa as 
aguas que vao directamente ao Oceano das que descem para 
Tejo, depois inflecte-se para NE indo pelo Algueirao, onde 
desce a altura de 183*", e tornando a subir na mesma di- 
reccao ate aos altos da Piedade e da Tapada, junto ao Sa- 
bugo, onde tern 323™ de elevacao, divide as aguas que vao 
a ribeira de Cheleiros, as que vao para a ribeira de Loures, 
e as que descem pelo mesrao massico para virem ao Tejo 
abaixo de Lisboa, D'aquelle ponto descahe para o SE, diri- 
gindo-se pelas alturas de D. 3iaria e de Canecas com 290 e 
231™ d'altilude, e tornando finalmflite a direccao do Sul vai 
pelas coroas das montanhas de Adabeja e Villa Cha ate Fa- 
lagueira , junto a Porpalhola , onde prende com o collo de 
Carnide, tendo, n'este ultimo Irajecto, as altitudes de 288 a 
ISO™, e separando as aguas para as ribeiras de Odivellas, 
Carenque, e Alcantara. 

Este massico apresei\ta a forma d'um penlagono irregu- 
lar com OS seus vertices apoiados no Cabo da Koca , Alto 
da Tapada perto do Sabugo, Canecas, Foz da Ril)eira d'Al- 

17* 



230 ANNAES 

canlara, e oxlremo meridional da linlia dc costa jiuilo a Cas- 
eacs. 

Tomando as dimcnsOcs mcdias d'esle massico sobre a ex- 
ccllenle Carta Chorographica rccentcmciUe publicada pela nos- 
sa Commissao Gcodcsica ' achar-sc-ha que elle occiipa uma 
superficic de forma proximamcnle rectangular, com 28 kilo- 
raetros dc E a e 13 kilometres de S aN, clevando-se em 
rampa, das aguas do Tejo para o N com 0'",025 deinclina- 
^ao por cada metro corrcnlc. 

Comparando as colas de nivel dadas pela Carta, reco- 
nhecer-se-ha , que a elevacao d'esta grande linha divisoria 
d'aguas apresenfa notaveis e succcssivas differencas sobre o 
lerreno contiguo que descahe para a parte septentrional ou 
opposla ao mesmo massico : assim enfre os ponlos culminan- 
tes da serra de Cintra e a ribeira de Collares, que corre na 
fralda da serra , ha 300 , 400 c mais metros de diflferenca 
de nivel, diminuindo depois, ale cerlos limites, da margem 



' Nao posso deixar de felicitar o paiz por comecar a possuir 
uma Carta Cliorographica bem coordenada e precisa como esla, cu- 
jas vantagens para as sciencias e para a adminislragao pul)lica sao 
obvias a toda a gente, e de que uma nafao civilisada nao pode prcs- 
cindir. 

reconhecimenlo, que fazobjecto d'esta Memoria, foi feito sobre 
terreno representado na primeira folha publicada da referida Car- 
ta, e devo confessar que aclfti rigorosa exaclidao nos menores de- 
talhes, que muilo honra os olliciaes que n'ella Iralialharam. 

Sem um tao poderoso auxiliar o estudo da geographia physica, 
e da geologia nao se pode fazer senao imperfeilissimamente. Rece- 
ba, pois, a Commissao Geodesica este peqiieno lestimunho de coa- 
sideracao, que nao passa d'um tributo pago a verdade. A*' perseve- 
ranca e sabedoria d(T seu digno chefc, o ex.'"" sr. conselheiro Filip- 
pe Folque, se deve o resultado ja oblido. Que elle nao desanime, e 
cremos que nao desanimara , e que o governo o auxiliara com os 
necessarios rccursos, sao os nossos ardentes votos. 



I)\S SClliNCl.VS K LLTTRAS. 2a I 

direila para o lado do Norlo : do S. Pedro em Cintra ao Al- 
gucirao vao eslas differencas ate alem de 100 melros, cnire 
OS ponlos mais elevados da divisoria 'e a depressao adjacente 
para o lado do Norte: a Tapada esla loO'" sobrc o campo 
contiguo ao Sabugo ; e a parte NE e Oriental da mesnia li- 
nha offerece sobre as ribeiras de Loiircs e Odivellas altitu- 
des relalivas siiperiorcs a 200 e '^oO"". 

E d'esla grande linha divisoria que partem os valles mai.s 
importantes, por onde correm as ribeiras de Queluz, Lavei- 
ras, Oeiras, Manique e Cascaes, adluentes do Tejo, os quaes, 
em harmonia com a forma e disposicao geral do rclevo que 
acabei de indicar, corlam o massico de N para S, apresen- 
tando cada urn dos seus respeclivos carregos (ihahveg) em 
uma fractura profunda de margens abruplas ou alcantiladas, 
constiluindo assim a parte mais nolavel dos accidenles que 
affectam esle mesmo massico. 

As monlanhas, que sc erguem na parte mais septcnlri07 
nal d'esta zona, entre o Sabugo e Loures , e a monlanhosa 
serra de Cintra a Oeste , sao a oulra parte dos accidenles 
que mais sobresaem no relevo geral, e sobre os quaes se vai 
apoiar todo o massico. As inllexoes, que se apresentam ao 
NE e SE da grande linha divisoria , sao devidas a posicao 
mais avancada d'essas montanhas, o que concorre para dar 
maior superficie ao massico c maior desinvolvimenlo as ri- 
beiras de Valle de Lobos e de Queluz ; d'onde resulta uma 
boa parte das condicocs favoraveis para a acquisieao d'aguas, 
como mais tarde se vera. 

Alem d'esfcs accidenles mais pronunciados, apresen(a-se 
loda a superficie coberta de collinas, mais ou menos alias o 
alongadas, dispostas de Nascente a Poenle, cortaado perpen- 
dicularmenle as difierente linhas d'agua, formando pela sua 
posicao resaltos, com as escarpas mais rapidas voltadas para 
N , lacs como as que orlam o Tejo desde Alcantara ale 
Oeiras, as que vuo de 3Ionsan(o por Alfragide ao Manique, 



25 i jlnnaes 

as que se estemlem da Porcalhota por monle Abraliao a Vaz 
Marinlio, e as que vao do Canecas ao Algueirao. 

Por esla forma o massico Occidental couslilue uinaele- 
vada protubcrancia, sobranceira a todo o terreno adjacente, 
quo. Ihe serve do limile pelo N a Nascetitc ; elevando-se si- 
milhantcmente, na sua maxima exlensao, tanto sobrc o mas- 
sico Oriental, como sobre todo o coUo, onde esla cdificada 
Lisboa : de modo que toda a parte da ribeira , e todas as 
nascentes, comprchendidas pelo parallelo de Gacem e a gran- 
de linha divisoria d'aguas , tern uma altitude superior aos 
pontos mais culminantes da cidade. 

Tal ^ esboco gcral da forma physica do terreno das 
visinhancas de Lisboa ; mais adian^e , por^m , precisarei a 
descripcao d'aquella parte que importa conhecer para o ob- 
jeclo principal d'esta Memoria. 

2.' SECCAO. 

("ONSTnUICAO GEOLOGICA DO SOLO. 

DivisCio dos terrenos. — As formacdes , que entram na 
composicao geral do solo de Lisboa, pertencem a tres gru- 
pos mui distinctos pela sua origem, caracter mineralogico e 
posicao, a saber : terreno terciario, terreno cretaceo, rochas 
eruptivas. 

.Terreno terciario. — terreno terciario da bacia infe- 
rior do Tejo * consla de duas formacoes diversas ; uma su- 
perior e lacustre que se estende, aos lados do Tejo, ate a 
Beira-Baixa e Alto-Alemtejo, outra marinha, oriando apenas 
a margem direila do rio, desde Lisboa ate as visinhancas de 

' Ha outra bacia terciaria no Tejo cm Castella a Nova, que se 
podc denominar liacia superior do Tejo. 



I) AS SCIEi'SCllS E LETTRAS. 2oS 

Alhaiidra, com o seu maior desinvolvimento na inargem op- 
posla . 

massico Oriental consla, na sua quasi lotalidade, das 
rochas d'esta ultima formacao , as quaes terminam com os 
seus aliloramentos na aresta superior, que forma o labio que 
decorre de Friellas ate defronte de Odivellas , comprehen- 
dendo as povoacoes de Carnide e Luz ; e dirigindo-se para 
SE pelas visinhancas do Pinheiro e quinta do Seabra, alra- 
vessando Lisboa, um pouco a E da rua de S. Benlo, e ter- 
minando na praia do Caes do Tojo. 

Aiguns retalhos d'esta mesma formacao, muito insignifi- 
cantes , deixados pela denudacao , apparecem ainda a beira 
do Tejo abaixo do Lisboa, como, por exemplo, em Oeiras, 
em quanto que a margem escarpada, que Ihe fica fronteira, 
desde a Trafaria ate Cacilhas pertence toda aquelia forma- 
cao. 

As areas amarellas, verdoengas e azuladas , alternando 
com camadas de caicareo mais ou raenos arenoso, e encer- 
rando , na sua parte media , leitos de argila e de marnes , 
sao as rochas coiistituintes d'esta formacao , cujos straclos 
inclinam regularmenle o" para o SE. 

Os despojos animaes abundam em quasi todo esle depo- 
sito, e do seu exame se tern reconhecido que pertence ao ter- 
reno terciario medio ou miocene ; entretanto o estudo dos 
fosseis, que se encontram em ambas as margens, e dos ho- 
rizontes que elles eslaljelecem, esta ainda muito atrazado para 
se poderem definir as relacoes slratigraphicas do mesmo de- 
posito n'um e n'outro lado do rio, e determinar a sua pos- 
sanca total. Em todo o caso, eevidente, que todas estas ca- 
madas terciarias pertencem ao mesmo periodo, e que foram 
deslocadas pela mesma falha, que actualmente serve de leito 
ao rio Tejo. 

Fpocha da formacao do conglomerado com fragmenlos 
de basalto. — Em uma Memoria publicada por Daniel Shar- 



234 AXMAES 

pe, nos Transactions of the geological Society of London 
(18 il), sobrc a gcologiu dossuburbios do Lisboa, da-se co- 
mo pcrtencenle a formacao tcrciaria urn conglomcrado ver- 
melho que se vO coberto por diversas caniadas tcrciarias em 
S. Jose de Riba-Mar e Santa Calharina , e sae por debai- 
xo da formacao terciaria na Ameixocira c Povoa de Santo 
Adriao ; parcce-nie, porem, que o illustre geologo nao leve 
occasiao de seguir este conglomerado em toda a extensao em 
que elle apparecc , e de examinar as suas relacocs com a 
formacao cretacea , sobre que assenlam os basaltos ; n'este 
caso encontraria grande difficuldade, se nao uma verdadeira 
incompalibilidade, em referir ao periodo terciario as cania- 
das de marmore associadas a este conglomerado, que se ob- 
servam ao lado do caminho que vai da Porcalhota para Car- 
nide. 

eslado" de metamorphisrao d'estcs conglomcrados, e a 
sua associacao com os basaltos, como se ve na Porcalhota, 
Queluz , Carnide, Tojal e outros logares, e a sua presenca 
em Alfovar e no Correio-Mor , junto a Loures , assentando 
concordantemente sobre as camadas de marmore contendo 
caprinulas e spherulites , sao uma prova clara de que esla 
formacao de conglomerados perlence a parte superior do pe- 
riodo cretaceo, e nao forma a base das camadas terciarias. 

Indo do Carregado para Alemquer observe! eu um con- 
glomerado composto de seixos arredondados de quartzo , 
quarlzites e outras rochas, presos por um cimento bastante 
duro, argilo-ferruginoso , de cujo conglomerado vi tambcm 
um afiloramento na base do lerreno terciario , defronte da 
Povoa de Santo Adriao na parede Oriental do valle de Odi- 
vellas ; por6m estes conglomerados , que por emquanto re- 
putarei subordinados ao terreno terciario niarinho da bacia 
inferior do Tcjo, sao mui divcrsos d'aquellcs de que falla 
Sharpe. 

Por csles factos, e oulros quo podia adduzir para o obje- 



DAS SCIKNCIAS E LHTTRAS. 2oj 

do em questao , mas que omillo por nao tereni imiucdiala 
relacao com o objecto principal d'esta Memoria , exciuo do 
lerreno lerciario as referidas camadas de conglomerados , o 
as suas associadas ; e posto que nao possa, por ora, preci- 
sar liraile septentrional da bacia, onde teve logar o depo- 
sito das camadas terciarias nas visinhancas de Lisboa, ha, 
comtudo , factos que auclorisam a ajuizar que" esse limite 
pouco se affastara da linlia que hoje segucm os respectivos 
aflloraraentos na margem direita do Tejo. 

Terreno cretaceo. — As camadas terciarias de Lisboa se- 
gue-se terreno cretaceo e a formacao trappica, que entram 
na constituicao de todo o massico Occidental, na do collo 
que prende os dous raassicos, e na do solo do valle de Odi- 
vellas a Loures; 

Limiles. — terreno cretaceo apresenta-se em uma gran- 
de extensao desde o Tejo ate a margem direita do rio Vou- 
ga, posto que roto nos districtos de Sautarem, Leiria, Coim- 
bra e Aveiro, por mui largos affloramentos de terrenos se- 
cundarios mais anligos. Na parte que respeita aos suburbios 
de Lisboa estende-se este terreno para o N, interrompido so- 
mente pelas rochas igncas, por um lado, ale as \isinhancas 
de uma importante linha de falha que yem do Atlantico a 
Torres Vedras, que serve de leito ao rio Sizandro, e por ou- 
tro ate a linha de sublevacao dc Alhandra , afflorando em 
arabas csfas linhas as camadas de terreno jurassico supe- 
rior. 

Sc se percorrcr, porem, toda a extensao occupada polo 
lerreno cretaceo no districto de Leiria , Coimbra e Aveiro , 
reconhecer-se-ha que ao N d'aquella importante linha dc su- 
blevacao tanto numero das formacoes com a sua possan- 
ca, se apresentam , comparativaniente, mui limitadas, figu- 
rando somente em quasi toda a extensao, a parte mais an- 
liga equivalciitc ds formacoes neocGmiana, e do gres verde, 
coberlo immcdialamcnte nas visinhancas de Leiria por alguns 



256 ANNAKS 

retalhos de camadas de calcareo, com caprinulas e spheru- 
lites do crclacoo superior. Outro lanto, porfim, nao aconleco 
a parte coniprcheudida enlre o Tejo, a referida linlia de su- 
blevacao e a cosla correspondcnte : aqui lc\e o lerreno cre- 
taceo sen maior dcsinvolvimcnto, ofTcrcccndo iinia possan- 
ca de muilos cenlcnares de melros, e se; pcla falta de estu- 
do, se nao acham ainda definidas as formacOes quo o com- 
poeni, podc comtiido esperar-se que \enham a encontrar-sc 
n'elle os represenlanles de lodos , ou da maior parle dos 
membros ja conhecidos, e bcm delerminados das bacias cre- 
laceas de Londres e de Pan's. 

Divisao do terreno cretaceo. — No enlanto, baseado na 
sobreposicao, no caracler mineralogico, e, em parle, no pa- 
leontologico, dividirei, provisoriamente, o nosso lerreno cre- 
taceo em qualro formacOes , abaixo enumcradas na ordem 
descendente, cada uma das quaes pode subdividir-se em an- 
dares e em grupos. 



" andar — Conglomerndo 
1 .' por- 1 vermelho 



macao 



1." gnipo — Rochas calcarcas, e 

arenosas. 
[2.''grupo — Conglomerados,gr6s, 
e argilas formadas de fragmen- 
los dos basallos. 



andar — Calcareo hippurilico, contendo spherulilcs e ca- 
prinulas. 

I Camadas dc Bellas ou grupos mui possantcs de 
1 ." andar \ camadas de calcareo , alternando com eguaes 
2 ' For-1 ( grup^'S de camadas de gres e argilas. 

'^'''^^*^ j [ Camadas de calcareo da Ericeira com leilosde gres, 

•2." andar < e de marnes vermelhos com o pecten quinque- 
V I costatus. 

3.' Formnrao — Marnes de Safarujo. 

I Arenalas « calcareos com a cxngvra conica e am- 
i. Formarao ' . , ' 

I monitos. 

'Conliiiua.] 



DAS SCIENCIAS ii: LETTRA.S 2o7 



NOVO PROCESSO l)K PAMFICACAO 



SENHOR 3IEGE-M0UR1ES. 



iienhumas das questOes de econoniia publica podem iiiteres- 
sar lanto, na presenle epocha, a administracao e asciencia, 
como aquellas que se ligam inlimamente com a hygiene e 
subsislencia do povo. 

pao e a base da boa alimentacao, e de todos os tem- 
pos foi este alimento considerado o mais geral , o mais ne- 
cessario, o unico indispensavel enlre todos, aquelle cujo no- 
me resume em si a significacao de todo o sustento. 

Os habitos adquiridos desde as mais remolas epochas da 
civilisacao fizeram d'este producto artificial uma verdadeira 
necessidade do homem ; parece porlanto que, depois de have- 
rem decorrido tantos seculos desde que nas sociedades huma- 
nas se principiou a fabricar o pao, os processes, pelos quaes 
elle se obtem, deveriam ter hoje chegado a um grao de perfei- 
cao que fosse nao so compativel com o estado dos nossos co- 
nhecimentos theoricos, mas que resumisse tambem osresul- 
tados das multiplicadas tenlalivas erapyricas a que uma longa 
pratica devia necessariamente dar logar. Nao acontece, to- 
davia, assim. 



toH A^NAI•:s 

^a maior parte dos logarcs e ainda hoje o pao uin dos 
alimentos que mais iiuperfeilaiiicnlc so fabricain. Em todos 
OS paizes da Europa encontra-sc aqui ou acola uma ou ou- 
Ira povoaciio em que se fabrica bom pao, e ahi mesmo nem 
todo pao que se produz c cgualmente bom. Entre as po- 
\oacoes do nosso paiz algumas ha , ainda que bom raras , 
cujo pao lem , desde remolos tempos, boa repulacao, e gc- 
ralmente se acredita que a sua superioridade n'esle genero 
provom, independcnlemenle dos bons coreaes de que fazem 
uso, da nalureza e qualidade das aguas de que se servem ; 
e esta, pelo menos, aexplicacao que se da aos que pergun- 
tam a razao d'este facto. Ainda, que cu saiba, uinguem em 
Portugal se lembrou de investigar profunda e conscienciosa- 
mente as verdadeiras causas das grandes difFerencas que se 
notam entre as qualidades do pao dos diversos logares ; con- 
tenlam-se todos com uma explicacao tao superficial e tao sem 
fundamento como aquella que apontei , e , como os consu- 
midores nao teem nem o paladar nem o estomago demasia- 
damente exigentes, nem advertem no prejuizo que a sua sau- 
de pode resultar do uso de um alimento mal preparado, dei- 
xam tudo entregue a rutina, a essa implacavel inimiga de 
.todo progresso. 

Quando em tempos de maior actividade e niais illuslra- 
dos , que nccessariamente teem de chegar um dia, alguem 
investigar a historia do progresso das nossas arles industriaes, 
e rcconhecer que no seculo 19." ainda em Portugal, e ate 
em Lisboa, a fabricacao do primciro alimento do homem es- 
tava entregue a mais deploravel rutina , que a escolha das 
farinhas nao era diiigida por principios alguns racionacs e 
.seguros, que a manipulacao da rnassa se I'azia barbaraniente 
a forca de a hater a bracos, misturando-a com o suor que 
a violencia do trabalho fazia correr a traves dos poros dos 
operarios, que a fermentacao, que e a mais importante phase 
da panificacao, nao era conduzida com rcgularidade nem cer- 



1)\S SCIENCIAS E LETTRAS, 2,^>9 

Icza, finalnienle, que a cozedura se fazia cm fornos brutaes 
que herdaramos dos tempos primilivos , c nos quaes nao e 
possivel economisar o combustivel nem regular a temperalu- 
ra, parecera entao inexplicavel o faclo que cslamos hoje pre- 
senciando, isto 6 que, icndo chegado a fabricacao dos arle- 
factos de luxo a um alto grao de pcrfeicao, a prcparacao do 
primeiro e mais precioso alimcnto do homom c ainda lao 
grosseira, irregular e incerta. 

Fclizmentc a tendencia geral, que no presente seculo sc 
tern manifeslado para o aperfeicoaraeiito de todas as artcs in- 
dustriaes pelos conselhos das sciencias physicas e da mccha- 
nica, ganhou a propria padaria, e alguns homens de verda- 
deiro progresso teem realisado, n'este ramo, melhoramenlos 
muito imporlantes, que devem generalisar-sc, fazendo-os co- 
nhecidos em lodos paizcs. A Franca abriu esleexemplo: lo- 
dos OS recenles progressos da padaria racional devem^e a 
inventores francezes, e, principalmente, aos padeiros de Pa- 
ris ; por isso esta capital e a unica onde se enconlra pao fa- 
bricado com egualdade e perfeicao, c que nao tem compara- 
cao alguma com o que se encontra nas outras partes. 

Os primeiros aperfeicoamentos de algum vulto, introdu- 
zidos na padaria franceza, liveram por objecto substituir o 
processo das maceiras mechanicas ao trabalho bracal de 
amassar : taes foram os dos srs. Fontaine, Boiand e Rolland, 
distinctos padeiros de Paris. Apard'estes melhoramenlos na 
parte mechanica, nao podiam deixar de apparecer modifica- 
coes importantes na construccao dos Ibrnos ; taes as que o 
conde Chabrol de Volvic e Legallois havia proposto para o 
servico do exercito, as que ao depois Coveley imaginou e que 
ainda se usam em algumas padarias ; o forno aerolherme de 
Lemare e Jametel ; os aperfeicoamentos que a este ultimo 
systema fizeram os srs. Grouvelle e Mouchot, o do sr. Les- 
pinasse , o de Daveu aquecido por carvao de pedra e ana- 
logo aos que se usam em Inglatcrra, e, finalmcnte, o forno 



260 ANNA.ES 

girante do sr. Rolland, geralmente adoplado em Paris eque 
reune um grande nuniero de aperfeicoanientos que o lornarn 
superior a todos os oulros, complclaudo um syslema racio- 
nal de padaria mechanica que, com tanta razao, tern sido 
elogiado, e que honra a padaria parisicnse. 

A parte mais imporlpiile da fabricaciio do pao, c aquella 
de que dependem as preciosas qualidades d'este alimcnlo, e 
seguramente a da formacao e fermentacao da massa, isto ^, 
a parte verdadeiramente chimica do processo. E ao aperfei- 
coamento d'esta que principalmente se dirige o novo processo 
invenlado pelo sr. Mege-Mouries, e do qual eu pretendo dar 
succinla mas clara nolicia. 

Apesar de que actualmente se fabricam muitas varieda- 
des de pao, que difFerem essencialmente entre si pcia natu- 
reza do cereal de que a farinha provem, como sao o de tri- 
go, cenleyo, milho, cevada etc., so me occuparei do prime!- 
ro, nao so porque este e o pao por excellencia, e o que com 
andar dos tempos e com o progresso da agrlcullura ha 
de subslituir todos os outros , mas , e principalmente, por- 
que e a este que se referem os trabalhos do sr. Mege-Mou- 
ries. 

As qualidades do pao dependem, principalmente, da na- 
turcza e composicao da farinha com que elle se fabrica. A 
farinha e a parte pulverulenla do grao, separada ja do farelo 
que econslituido pelos fragmentos do involucro externo. Os 
principios immedialos contidos no grao e por conseguinte na 
farinha do trigo, que os chimicos admillem geralmente, sao 
OS mesmos em todas as variedades d'este cereal, mas as suas 
quantidades relalivas diversificam consideravelmente, e por is- 
50 nera todas as farinhas sao egualmenle proprias para produ- 
zirem uma boa qualidade de pao. Estes principios immedia- 
los sao: gluten, a albumina ou a caseina, o amidon, a 
dextrina, iKjhcosa, as materias gordas e a cellulosa, alem 
da agu3 e das materias mineraes, em que entra o acido phos- 



i_ 



DAS SCIENCIAS E LETTRAS. . 261 

phorico, acido sulfurico, a silica, a potassa, a cal, a ma- 
gnesia e oxido de ferro. 

Os principios immediatos que mais avultam nos trigos, 
e que mais interessam a panificacao sao : 1.° o gluten e al- 
bumina, que formara a parte azotada e verdadeiramente ali- 
raencia d'este producto, e cuja quantidade varia entre 9 e 
21,5 por 100 ; 2.° o amidon, parte feculenta queregula de 
53 a 70 por 100; e 3.", finalmente, a dexlrina e glucosa, 
que, juntas, podem exislir na proporcao de 5 a 10 por 100 
no trigo ou sua farinha. 

A farinha, simplesmente amassada com a agua, nao for- 

Inece um pao levedo , isto e, urn pao que, depois de cosido 
a temperatura regular do forno , fique leve , esponjoso, de 
gosto agradavel e facil digestao ; da, pelo contrario, um bolo 
ou massa , pesada e granulosa , que nao pode conservar-se 
branda, e e difficil de digerir. 
1^. Para que a massa forneca verdadeiro pao, leve e espon- 
joso, e necessario que no seu interior tenha logar uma ver- 
dadeira fermentacao, na qual, pela transformacao de alguns 
dos sens principios, se produza um gaz , que, dilalando-se 
no meio da massa, forme as cellulas ou pequenas cavidades 
que observamos no pao bem fabricado. 

E esta fermentacao que constitue o principal phenomeno 
da panificacao. Para a determinar e necessario juntar e mis- 
turar intimamente com a massa um d'aquelles fermentos que 
produzem fermentacao chamada alcoolica , isto e , que sao 
capazes de transformar o assucar ou glucosa em alcool e 
acido carbonico. Eis-aqui a explicacao do facto : a agua dis- 
solve assucar (glucosa) existente na farinha e aquelle que 
se forma pela transformacao da dextrina ; esta dissolucao sa- 
carina acha-se dessiminada com egualdade no interior da 
massa e em contacto com o fermento que se addicionou ; es- 
labelece-se entao a fermentacao, e o gaz carbonico, achan- 
do-se preso no meio de uma substancia molle, viscosa e 



ten ANNAES 

diictil, como e a niassa formada pelo amidon e pelo gluten, 
e dilalando-se pela sua elaslicidadc, a lorna porosa e leve ; 
a accao do calor do forno suspcndc a fcrmentacao, augmcnla 
volume dos pores, e, consolidando a massa, conslituc final- 
nienle o verdadeiro pao. 

Estabelecidas eslas nocoes prcliminarcs e muito clemen- 
tares , poderei agora mais facilmenle expor as modificacoes 
proposlas pelo sr. Mege-Mourles para melhorar os processos 
da panificacao. E do Relatorio apresenlado a Academia das 
Sciencias de Pan's sobre a Memoria do sr. Mege-Mouries , 
que tern por i\lu\o = Investigacoes chimicas sobre o trigo, 
sua farinha e panificacao = que eu extraclarei tudo quanto 
julgar indispensavel para dar a csta nolicia a devida clare- 
za, nao so com o fim puramente scienlifico, mas, sobre tu- 
do, com inluito de a tornar essencialmenle pralica. Re- 
latorio, a que me refiro, e do sr. Chevrcul, scndo a commis- 
sao de exame composta dos srs. Dumas, Pelouse, Payen e 
Peligot , todos elles chimicos muito conhecidos e allamente 
coUocados na sciencia para que me seja necessario dizer coisa 
alguma sobre a sua competencia. 

ponto de partida do trabalho do sr. Mege-Mouries pa- 
rece haver sido o exame do pao de rala {pain bis) no qual 
entra uraa porcao de farelo. E bem sabido que o pao alvo 
de primeira qualldade e feito em loda a parte, exclusiva- 
mente, com as farinhas puras e brancas de primeira sorte, 
sem mislura alguma de farelo, e que todo o outro pao, fa- 
bricado com farinhas que conleem mais ou menos farelo , 
ainda que nao seja o que nos chamamos propriamente ralao 
ou de rala , e susceptivel de uma notavel alteracao, que o 
torna nao so desagradavel a vista pela cur escura que Ihe 
communica, mas tambem ao paladar e ao olphalo, pois que 
Ihe da um sabor acido, urn cheiro de ervas e ds vezes am- 
moniacal, e o faz massudo, hygrometrico c pegajoso. 

Todos altribuiamos, ate agora, o aspecto desagradavel e 



DAS SCIENCIAS E LHTTRAS. , 263 

maiKgoslo do pao de rala e do pao escuro a presenca dos 
farelos, por isso que estes enlram senipre em maior ou me- 
nor proporcrio nas farinhas de qualidade inferior , e que o 
pao alvo, que nao apresenla essas mas qualidades, ^ exclu- 
sivamente fabricado com farinhas espoadas e de primeira 
sorte. sr, Mege-Mouries moslrou que nao era isso exacto, 
e que as mas qualidades do pao de rala e escuro provinham 
de uma alteracao particular, produzida pela influencia de um 
principio azotado e activo, existente na parte interna do pe- 
risperme do grao, verdadeiro fermenlo a que deu o nome de 
cerealina. 

Nas suas investigacoes seguiu elle o bom caminho, o da 
analyse , principiando por adquirir exacto conhecimento da 
structura do griio de trigo e da natureza e acciio reciproca 
dos principles immediatos contidos nas differentes paries da 
semente. 

Eis-aqui como elle proprio expoe em resumo o resulla- 
do das suas observacoes. '■ 

«0 trigo (grao) e composto de Ires involucres : 1.° o 
epicarpo, tegumento lignoso e muito delgado, pesando 2 por 
100 do peso do grao; 2." o enclocarpo, coberto pelos res- 
tos do sarcocarpo, carregado de materia extractiva amarella 
e de oleo essencial ; esta membrana pesa 3,2 por 100 ; 3." 
episperme , adherente, muito azotado e incolor , pesando 
3,3 por 100 ; 4." o embrijao e o endosperme farinoso, mais 
friavel no centro do que na circumferencia , completamente 
assimilaveis e dando, ambos juntos, 91,5 por 100 da totali- 
dade do grao. 

« A farinha de primeira qualidade vem do centro do en- 
dosperme, e nao contem mais do que um millessimo dos res- 
ios do farelo ; as farinhas inferiores siio produzidas pela zo- 



» ComptesRendus--N-''23 — 9dejunhodel8SC— pag. 1123. 
Tom. I.-Julho de 1857,-1." Classe. 18 , 



26 i AN MAES 

na ^isinha do epispcrme, mais duro e mals rico cm gluten ; 
eslas conleem de 8 a 12 millessinios dos reslos das pellicu- 
ias. 

«0 farclo composlo do epicarpo, do cndocarpo, c do 
epispermc que conlem sempre substancia farinosa. cpis- 
perme fal-o muilo azolado c pouco nulrienle. 

« Du pain bis (pao dc rala, ou, antes, pfio cscuro). — 
As farinlias infcriores niio produzeni pao cscuro scnao por- 
que levam comsigo, incvitaYclmente, os reslos do pcricarpo 
c epispermc ; o primeiro aclua pelo scu olco csscncial c pcia 
sua materia extracliva amarella que sao muito alleraYcis ; o 
segundo obra pela cercalina que retem na sua superficie in- 
terna. Este principio c um duplo fermento laclico c glucosi- 
co. E debaixo da influcncia d'csfas causas que a farinha se 
altera e produz os paes infcriores, caracterisados pela sua aci- 
dez, c6r parda, mau gosto, estado pastoso e hygrometrico, 
e lambem pelo seu fraco poder alimenticio. 

« A cerealina, sendo um dos mais poderosos fermentos 
lacticos, faz predominar a fermentacao acida, e azeda, por 
isso, a massa do pao. 

«0 gluten, desaggregado eem parte dissolvido pelo aci- 
do no meio dos fermentos cm actividade, decompoe-se, pro- 
duzindo o ammoniaco, cuja formacao explica nos paes de rala 
a presenca dos saes ammoniacaes, que nao existem nas fari- 
nhas que os produzem. 

gluten alterado transforma-se, d'este modo, em fer- 
mentos "vinosos ou lacticos. E sobre esta alteracao que se 
funda a producciio do fermento ordinario do pao. Esta alte- 
racao, muitas \ezes consideraYcl , produz com as farinhas, 
ricas em gluten, um pao cscuro e pouco nutrienle. 

« A materia extractiva amarella, transforma-se em ma- 
teria parda, analoga ao que se chama acido ulmico ; esta mu- 
danca faz-se em presenca do ar e do calor ; e por isso que 
a codea do pao e sempre denegrida, independentemente da 



DAS SCIEXCIAS E LETTRAS. 20 § 

sua densidade e da scccura ; em qiianlo o miolo do pSio lem 
uma cor parda mais clara. 

« oico essencial, tao doce, do trigo, parece que, por 
modificacoes successivas, adquire urn cheiro herbaceo e con- 
Iribue para dar ao pao de rala o cheiro que lodos Ihe co- 
nhccem. 

«No forno a ccrealina, representando o papel de fermento 
glucosico, transforma, entre 50 e 80" cenligrados, uma parte 
do amidon em dexlrina e em glucosa. A presenca da glu- 
cosa torna pastoso e hygroraetrico o pao, e a decomposicao 
parcial do amidon e do gluten obstam a que o pao de rala 
possa entunieccr na agua ou no caldo. 

« Os gazes e os vapores, que levantam a massa, rompem 
as suas cellulas em vez de as dilatar, porque o gluten alte- 
rado, e em parte dissolvido, Ihes nao communica a elastici- 
dade necessaria para obedecer a expansao dos gazes ; d'ahi 
nasce o eslado compacto e massudo d'este pao. 

« E em Tirlude d'esfas reaccoes que uma pequena quan- 
lidade de farinhas impuras basta para raudar inteiramente a 
natureza e qualidade do pao. 

« Pao branco — A differenca que existe entre o pao bran- 
co e pao de rala pro\em de que a farinha de primeira qua- 
lidade, contendo apenas vestigios do pericarpo, fornece um 
pao que nao escurece e cuja codea fica amarella ; e tambem 
de que, nao existindo n'elle a cerealina, gracas a ausencia 
do episperme , conserva unicamente a caseina vegetal, fer- 
mento lactico fraco , e glucosico nullo. A ausencia da glu- 
cosa, e, mais que ludo, a pouca intensidade da fermentacao 
lactica economisam uma porcao mais consideravel de gluten ; 
a massa pode , por conseguinte , adquirir no forno todo o 
seu desinvolvimento, e o pao conservar mais forca alimen- 
licia. 

« Para obstar a que as farinhas impuras produzam pao 
escuro e de rala, e necessario : 1." prevenir a formacitn da 

18* ' 



266 anxXes 

raaleria parda ; 2.° annular na cerealina as suas proprieda- 
des de fermento glucosico e de fermento lactico ; 3." scpa- 
rar os restos das pelliculas por mcio de uma opcraciio me- 
chanica. 

« Oblem-se esle resullado dividindo a farinha brula em 
Ires paries : o farelo que se rejeita , a farinhfi de primeira 
qualidade e os roloes impuros. N'esles roloes promo\e-se 
uma fermenlacao vinosa a uma lemperalura baixa, em qua- 
tro paries de agua acidulada ; coa-se o liquido pelo peneiro 
e serve elle de fermenlo para fazer a massa de primeira qua- 
lidade. Pode-se, por esle meio , fazer p5o branco com toda 
a substancia assimilavel do grao , raenos 4 ou 5 por 100 
que fica adherente ao farelo ; islo e, pode elevar-se o ren- 
dimenlo do trigo em farinha de primeira qualidade de 70 a 
88 por 100 , supprimir o pao de rala , augmentar em 20 
por 100 a produccao do pao branco, e dar a lodos pao de 
primeira qualidade com sufiicienle economia para altenuar 
os effeilos das colheitas escassas. » 

Era sobre tao importanle assumpto que a commissao da 
Academia linha de inlerpor o seu parecer. No Irabalho do 
sr. Mege-Mouries havia uma parle Iheorica ou puramenle 
scienlifica, e uma puramenle pralica de applicacao geral. A 
primeira, tendente a demonslrar as funccoes exercidas pelos 
diversos principios immedialos contidos no grao do trigo e 
sua farinha, a explicar por ellas as alleracoes produzidas no 
ado da panificacao pelos processos ordinarios, e a ensinar os 
meios de Ihe obslar ; a segunda, eslabelecendo um processo 
de panificacao novo e racional que promellia grandes vanla- 
gens sobre oanligo. Esle processo nao era, no ado daapre- 
senlacao da Memoria, um simples projedo, era ja uma pra- 
lica audorisada por excellenles resullados, e lanlo que um 
dos collegios de Paris havia ja Ires raezes que se servia de 
pao fabricado pelo novo processo* e que, desde junho de 1856, 
na casa dos orphaos de S. Carlos, do 12." bairro da capi- 



DAS SCItNClAS E LKTTRAS. S67 

lal, se consumia regular e exclusivamente o pao provenienlo 
do processo do sr. Mege-Mouri6s. 

A commissao nao se contentou com o exame e discussao 
dos documentos apresentados, nem com as experiencias fei- 
las , repetiu as observacoes, e promoAcu experiencias com- 
parativas entre os processos antigo e moderno, nao despre- 
zando meio algum de chegar ao conhecimento complelo da 
verdade. 

A verificacao da structura do grao foi confiada pelo re- 
lator da commissao ao sr. Trecul, joven botanico de reco- 
nhecido merito, que confirmou plenamente as observacoes do 
sr. Mege-Mouries ; eis-aqui, em resumo, o resultado do seu 
exame. 

grao do trigo compoe-se do p^ricarpo e do grao pro- 
priamente dilo. 

A. Pericarpo. — pericarpo consla, segundo ambos os 
observadores, de tres partes distinctas. 

1." A parte externa. Esta 6 incolor e nao apresenta cel- 
lula alguma ; e o epicarpo do sr. Mege-Mouries, e a cuticula 
do sr. Trecul. 

t." Parte mMia. Constituida por cellulas coradas de ama- 
rello ; e o que o sr. Mege-Mouries denomina sarcocarpo. 

3." Parle interna. Formada de cellulas como a anterior ; 
ambos os observadores Ihe chamam endocarpo. 

B. GrCio propriamente clito — Consta de dois involucros : 
testa e a membrana interna ; o epispcrme ou albumen e 
embrydo. 

Em quanfo a composicao anatomica do farelo os srs. Md- 
ge-Mouries c Trecul eslao perfeitamente de acordo. 

Esle provem do rompimento ou deslruicao, causada pelo 
atrilo ou pela pressao, do pericarpo, ao qual adherem os dois 
involucros do grao com as grandes cellulas externas do pe- 
risperme e algumas cellulas collocadas por dcbaixo d'esle e 
conlendo globules de amidon. 



268 \NNAtS 

As grandes cuUulas exlernas do p6risj)cinjo nao coaleom 
ainidon , ambos os obscrvadores esllio do acurdo n'eslo 
ponlo. Seguudo o sr. Mege-Mourics exislc ifellas , princi- 
palmcnle, a cerealina e a cascina vegetal. gluten com o 
aniidou estao pela parte de baixo. 

Assiin as observacoes do sr. Trecul confirraam coniple- 
tainenlc aqucilas que scrviram de guia a explicacao Iheorica 
da panificacao do sr, Mege-3Iouries, e estao de acordo com 
observacocs anteriormenle feitas pelo sr. Paycn, um dos mem- 
bros da cominissao da Academia. Entre a composicao imme- 
diala do trigo , recenleraente estabclecida pelas observacocs 
que acabei de mencionar, e a que era ate aqui geralnienle 
admittida, ha um perfeito acordo, com a diffcrenca, porfim, 
que sr. Mege-Mouries achou , alem dos principios ja co- 
nhecidos, um novo principio azotado, e podendo adquirir a 
qualidade de fermento , que e a cerealina. Tambem o que 
geralmenle se designava como albumina, isto e, o principio 
azotado soluvel do grao, e designado pelo auctor como sen- 
do a caseina vegetal , o que em nada modifica as funccoes 
que na panilicacao excrcem aquellcs principios azotados e o 
gluten. 

Para mclhor intelligencia do phenomeno da panificacao 
convcm dizcr ainda alguma coisa sobre estes tres principios 
azotados, a cerealina, a caseina vegetal c o gluten. 

Seguirei , n'esta parte tambem, o Relatorio da commis- 
siio. 

« Cerealina — E um principio immcdiato soluvel na agua 
insoluvel no alcool. 

« Actua como fermento sobre o amidoii, a dexlrina , a 
glucosa e assucar de canna ou prismatico. 

« A sua solucao aquosa perde a sua actividade a partir- 
da temperalura de 60° ; o mesmo Ihc acontccc quando se 
precipila pelo alcool roncentrado ou pelos acidos, inclusiva- 
niente polo acido carbonico. 



DAS SClliNCIAS K LETTIUS. 269 

« A inislura de 9 partes de agua e 1 de alcool precipita 
a ccrealina, sem Ihe fazer perder a actividade como fermenlo. 

« A diastase perde a sua qualidade de fermento so de 
90 a 100", e n'isto differe da cerealina. 

« A cerealina transforma a gomma do amidon em dex- 
Irina , a dextrina em glucosa, e a glucosa em acido lactico 
e ale em acido butyrico, qiiando se prolonga o contaclo. 

« Qiiando o amidon esta em globulos e siispenso na agua, 
a accao da cerealina nao comeca senao a 5'0° pouco mais 
ou menos. 

« A cerealina, reagindo sobre o amidon , e nao produ- 
zindo acido carbonico, seria incapaz de fazer levedar a mas- 
sa dafarinha, se fosse ella o unico fermento presente na pa- 
nificacao. 

« Esta subslancia communica ao kite de semeas ou de 
farelos , a propriedade de azedar-se e c6rar-se debaixo da 
inQuencia do ar. 

« Altera profundamente o gluten ; este, enlre outros pro- 
ductos, da o ammoniaco , uma materia cuja cor parda faz 
lembrar a apparencia das materias conhecidas com o norno 
de idmiiia, e um producto azotado capaz do transforraar o 
assucar em acido lactico. 

« Caseina — A caseina 6, como a cerealina, azotada, solu- 
vel na agua e insoluvei no alcool ; os acidos precipitam-a 
das suas dissolucoes. 

« Ainda que a caseina nao tenha, para assim dizer, ac- 
cao sobre o amidon nas circumslancias em que aclua a ce- 
realina, nao seri'a, coratiido, exacto o dizer que ella e abso- 
lutamente inerte, porque com o tempo ella podc convertel-o 
em dextrina, em glucosa e cm acido lactico. . 

((Gluten — gluten, abandonado durante alguni tempo 
a si mesmo, constitue-se em fermenlo capaz de Iransformar 
amidon cm dextrina, esta cm glucosa, c a glucosa cm al- 
cool e em acido carbonico. » 



270 ANNAES 

Supposia a intelligencia d'estes factos, vejamos agora cm 
que consiste a pratica do novo processo, que lodos poderao 
comparar a dos processes anligos, que eu me dispensarei de 
descrevcr aqui , pois que os supponho conhecidos de todos 
OS quo teem algumas nocoes do uma arte tao vulgar como 
c a padaria. 

processo do sr. Mege-Mouries consla de trcs opcracoes 
distinclas : dimoenda, tapreparagao da massa csua fermen- 
tac(io, e finalmente a cozedura. 

A moonda, que comprehendc a rcduccao do grao a fa- 
rinha bruta e o trabalho do peneiro , faz-se de um modo 
mais simples do que se pralica actualmente naspadariasme-* 
chanicas mais aperfei^oadas. grao passa uma so vez pela 
mo e da logo a farinha bruta ; esta e pencirada n'um unico 
peneiro, e divide-se em tres uuicos productos: 1.° farinha 
branca, contendo a flor da farinha: fina ; 2.° raldo ; 3.° se- 
meas e farelos grosseir(h. Nas padarias de Lisboa separam- 
se ordinariamente de 4 a 5 productos, que sao : 1." farinha 
fina, 2.° ralao, 3." cabecinha, 4." e 5"." semeas e farelos. 

A preparacao da massa e fermenlacao sao as operacocs 
que no processo moderno mais differem das anligas. 

Suppoe-se que no processo do sr. Mege-Mouri^s 100 ki- 
logrammas de farinha dao os seguintes productos : 

72^720 de farinha fina 

15 ,720 de ralao 

11 ,560 de semeas c farelos. 

» 
As 6 horas da tarde diluem-se, em 40 lit. d'agua a 22", 
perlo de 70 grammas de levadura de cervcja pura, qu 700 
grammas de fermento ordinario e 100 grammas deglucosa. 
A lemperatura do logar em que se abandonam eslas mate- 
rias deve ser de 22" conligrados, pouco mais ou menos. 
No dia seguinte as horas da manha o liquido , Icndo 



UAS 5C1E.NLIAS K LETTRAS. 271 

/ermenlado, acha-se salurado de acido carbonico ; depois ve- 
remos qual e a influencia d'esle liquido sobre a ccrealina. 

Diluem-se n'esta solucao fermentada os lo^,liO de ra- 
lao, e a ferraentacao comeca immediataniente. 

As 2 horas depois do meio dia addicionam-se 30 litros 
de agua e passa-se tudo pelo peneiro de seda ou de fio de 
prata para separar o farelo medio do fino que se conlem no 
ralao. Esle farelo, para separar-se da agua farinosa, exige 
30 litros d'agua e nova passagem pelo peneiro. Esta agua, 
contendo li^jSOO de farinha , serve para diluir o fermenlo 
da operacao seguinle. 

Os 70 litros de agua com que foi tratado o ralao , de- 
pois de haver passado pelo peneiro, ficam reduzidos a 55' li- 
tros pouco mais ou menos, e com estes se forma, depois de 
se Ihes addicionarem 700 grammas de sal marinho, a raassa 
com os 72'',720 de farinha branca. 

A massa, assim formada e amassada, divide-se em bolos 
6 ahi se torna leveda, feito o que, pode enfornar-se. 

sr. Mege-Mouries empregou algumas vezes em logar 
da glucosa o acido tartrico, que podia tambem ser subslitui- 
do pelo vinagre ou pelo acido citrico, em quantidade dire- 
ctamente proporcional a dos saes calcareos contidos na agua : 
algumas reflexoes que Ihe foram dirigidas pelos membros da 
commissao e por outras pessoas obrigaram o sr. Mege-Mou- 
ries a supprimir toda aaddicao de acido, que podia dar oc- 
casiao a prevencoes desfavoraveis contra o seu processo. 

D'esta exposicao se ve claramente que a parte essencial 
do processo consiste em determinar uma fermentacao alcoo- 
lica no ralao diluido na agua onde ja se havia feito previa- 
mente ferraentar o assucar glucosa pelo fermenlo da cerve- 
ja. Esta operacao tem por fim : 1." neutralisar, pelo menos 
em parte, a faculdade que a cerealina tern de determinar a 
fermentacao acida ou laclica ; 2." separar o farelo fino; 
3.° fazer com que, depois de amassar a farinha fina com a 



272 ANNAKS 

agua (iiie coiitem a ralao , passada a fermenlacao , se oble- 
nha a niassa que rcpresenla toda parte farinosa do grao do 
trigo. 

« A vanlagem d'este processo, diz o Relalorio, 6 lulo s6- 
menlc a separacao do farelo fino, mas lanibem a nciitralisa- 
cao da cercalina , e a produccao de unia nova quantidade 
de ferinenlo sufficiente para impriiuir a toda a massa do tri- 
go grao dc fermentacao alcoolica mais conveniente para a 
fazer levedar. 

« A levadura e a glucosa, juntas a agua do ralao, fazeni 
com que a cercalina se neutralise, e a prova d'isto esta em 
que, deixando na massa de 3 a S partes de farelo, se obtem, 
em logar de pao de rala, urn pao cujo miolo e incontcstavel- 
mente branco, como ja se disse. 

«Se, por outro lado, a fermentacao da logar a uma neu- 
Iralisgicao do fermento que se ajuntou, forma-se tambeni, du- 
rante este periodo , uma porcao de fermento raaior do que 
aquella que se neutralisou. Por isso a agua do ralao e emi- 
nentemente propria para imprimir o movimenlo de fermen- 
tacao alcoolica a massa proveniente do grao do trigo, E isto 
que explica a leveza do pao do sr. Mege-Mouries. 

« Em quanto a cozedura, essa nao differc da que se faz 
pelos processos ordinarios. » 

Penso haver dito e extrahido do Relalorio, aprcsentado 
a Academia das Sciencias Paris pela commissao , que ella 
nomeou para examinar o processo do sr. Mege-Mourics, tudo 
quanto e necessario para comprehender a sua pratica c a sua 
Iheoria ; mas, para bem avaliar as vantagens d'este novo pro- 
cesso e a conveniencia da sua geral adopciio. dcvo ainda 
apresentar o juizo que a mcsma commissao formou sobre- a 
comparacao dos productos do antigo e novo processo. Nao 
transcreverei textualmenle tudo quanto a commissao expoz 
a Academia, mas apontarei so os pontos de maior inleresse, 
para nao alongar demasiadamente esta nolicia. 



DAS Sr.lENCl\S L LLTTRAS. Zio 

Toda a farinha, para se con verier em pao, absorve uma 
certa proporcao d'agua da qual conserva a maior parte no 
eslado solido, perdendo apenas uma pequena quanlidade pela 
disseoacao ; csta proporcao d'agua e tal , que, segundo re- 
fere sr. Dumas no seu tratado de chimica applicada , a 
relacao entre o p6so da farinha e o do pao que d'esta pro- 
vem e, lermo medio, de 1 : 1,6. 

Poderia suspeilar-se que o pao do novo processo nao 
conservasse, em eombinacao, a mesma quanlidade de agua 
que pao antigo, perdcndo-a peia dissecacao ; porem as ex- 
periencias feilas pela commissao demonstraram que, tanto a 
codea como o miolo do novo pao, nao perdiam muilo mais 
agua do que os productos similares do pao do anligo pro- 
cesso. 

Em quanfo a cor do produclo reconheceram os membros 
da commissao, que ella era constantemente nulla, e, se em 
alguns casos se mostrava amarellada ligeiramente, esla nao 
provinha da nalureza do processo, como acontece aquesem- 
pre se manifesta no pao de rala dos processes antigos. 

pao moderno e mais leve e mais sapido do que o an- 
ligo = A commissao declara unanimemente, pelo uso que ca- 
da um dos seus membros fez do novo pao, que o sabor d'este 
e mais agradavel que o do pao ordinario, Declara tambem 
unanimemente, que n'elle nao existe causa alguma de insa- 
lubridade. Alem d'isto a commissao lem em seu poder um 
cerlificado do sr. Hamon, cura de S.' Sulpicio, superior do 
recolhimento dos orphiios de S. Carlos, e do Dr. Blatin, me- 
dico e adminislrador do mesmo estabelecimento, proprio para 
desvaneccr toda a incerleza que a esle respeito podesse ha- 
ver ; porque este cerlificado atlesla as excellentes qualidades 
do novo pao , em vista do uso quolidiano que d'elle se faz 
ha seis mczes na casa dos orphaos, onde existem 100 crean- 
cas de 2 a 9 annos e lo irmas. 

«Esle pao, (dizem o sr. Hamon c o Dr. Blatin), de um 



274 AiNNAES 

sabor agradavel,.ft muilo nuUienle, de facil digcslao e con- 
serva-se bem ... a saude das creancas e das irmas coiiser- 
vou-se sempre perfeila. » 

A vista dc lodas cslas informacocs tao auctorisadas, ne- 
nhuma duvida pode ficar no nosso espirito que contrarie a 
cxcell(fiicia do proccsso modcrno dc panificacao , que deve- 
mos as laboriosas e intelligentes invcsligacoes do sr. Mege- 
Mouries. 



Resumirci agora a doutrina c os fades exposlos. 

Exisle um novo processo de panificacao que tern por fim 
principal obter pao alvo de toda a parte farinacea do Irigo, 
evilando a produccao nao so do pao de rala , mas tambem 
de pao azcdo e escuro com farinhas que deviam so produzir 
pao alvo. 

A cor escura do pao dc rala, a acidez, mau gosto e mau 
cheiro do pao mal fabricado, nao precede unicamenle da 
presenca do farelo que acompanha as farinhas inferiorcs , 
mas provem de uma fermenlacoo acida promovida pcla pre- 
sence de um principio azotado e aclivo existente nos farc- 
ies, a cerealina , ou tambem da profunda alteracao do fer- 
mento da massa, que delermina a decomposicao ulterior do 
gluten. 

Dois factos capitaes comprovam csta assercao : 1.° se 
neutralisarmos a accao da cerealina contida no farelo, o pao 
ficara branco e leve , ainda quando exista na farinha uma 
porcao notavel de farelo; 2.° se empregarmos um fermento 
muito azcdo e alterado de farinha branca, o pao, ainda que 
seja fabricado com farinha, limpa de farelos, sera mais ou 
menos escuro. 

novo processo obsta a esles inconvenientes neutrali- 
sando a accao que a cerealina podia exercer como fermento 
lactico. Todas as operacoes da arte da padaria sao conside- 



DAS SCIENC[AS E LETTRAS. 275 

ravelmente simplificadas pelo novo processo, desde a moenda 
ale a cozedura do pao. rendimento que por elle se obtem 
6 muito mais vantajoso do que o fornecido polos processos 
antigos : 100 partes de trigo dao de 86 a 88 paries de fa- 
rinha propria para fazer pao alvo, em vcz de 70 a 74 que 
anligamenle se oblinha. Segundo as experiencias feilas em 
grande escala, cm Pan's, debaixo da inspeccao dos commis- 
sarios da Academia na padaria Scipion, 100 paries -do mes- 
mo irigo renderam, pelo novo processo, um augmento dc 
19, 20 e 17 partes a mais sobre o producto oblido pelo an- 
tigo processo. 

Outra vanlagem inherente ao novo processo consiste em 
que, por meio d'elle, se pode fazer pao que se aproxima, no 
aspeclo e no goslo, ao pao alvo, empregando farinha ainda 
com uma porcao de farelo lal , que no processo antigo da- 
ria so pao de rala. Todo este pao fornecido pelo method o 
do sr. Mege-Mourics e, finalmente, como ja dissemos, leve, 
saboroso e saudavel. 

A theoria e a experiencia estao de acordo para justifi- 
car e sanccionar as incomparaveis vantagens do novo so- 
bre OS antigos processos de panificaciio ; e se estas vanta- 
gens sao ja nolaveis em Paris , onde a arte da padaria tern 
recebido n'este seculo consideraveis melhoramentos , com 
muita mais razao o ficam sendo nos logares onde esta arte 
e, (salvas algumas, mas raras, excepcoes), estupidamente di- 
rigida por homens completamente ignorantes dos principios 
em que ella se basea, e, por isso mesmo, incapazes de a 
aperfeicoar. 

Eu sou d'aquelles que desejam que a Administracao pu- 
blica se intrometta o menos possivel no exercicio das pro- 
fissoes industriaes, mas, refleclindo sobre a organisacao da 
nossa sociedade , chego a persuadir-me algumas vezes que 
existem n'ella anomalias pouco razoaveis. Porque razao se 
nao permifte a um homem o exercicio da pharmacia , sem 



276 ANN.4ES 

que die tenha provado por exames , peranle a auctoridade 
piiblica, que possue os conhecimenlos indispensaveis a essa 
profissao, e se consenle a todo e qualquer individuo, sem a 
menor garanlia, a faculdade de prcparar os alimcntos de 
que depciule a \ida c saudc dos cidadaos? Mofem embora 
OS levianos d'esla porgunfa, mas respondam-lhe os bomens 
pensadores. 

J. M. DE OI.IVEIRA PIMENTEL. 



DAS Sr.IENCIAS E LETTRAS, 277 



UEVJSTA 

DOS 

TRABALHOS CHIMfCOS. 



L nolavel como lodos os dias a experiencia vai complelando 
as analogias chimicas que a Iheoria presume devercm exislir 
enlre os compostos dos radicaes da mesma familia natural. 
oxigenio e o enxofre teem entre si um parentesco ja sufB- 
cientemente provado, apesar de faltarem ainda alguns mem- 
bros nas series correspondentes dos compostos d'estes dois 
radicaes. Muitos chimicos haviam procurado obter um proto 
sulfureto de carbonic que correspondesse ao protoxide de car- 
bonic, como bi sulfureto de carbonic, ou acido sulfc-car- 
bonico, corresponde ac acido carbonico, porem as suas ten- 
tativas haviam side ale hoje friislradas. Deve todavia reco- 
nhecer-se que o sr. Pcrsoz havia ja, na sua Introduccdo ao 
Eshido da Chimica molecular, publicada em 1838, mencio- 
nado a exislencia d'este corpo, e a sua formacac, quando o 
vapor do enxofre passa lentamente sobre c carvac, aquecido 
ao rubro, no apparelhc que ordinariamenle se emprega nos 
laboratories para preparar o acido sulfo-carbonicc. 

Recenlemente c sr. Ernest Baudrimont annunciou a Aca- 
demia das Sciencias de Paris haver descoberto este corpo, po- 
dendo-o preparar por diversos modes, pois que elle se produz 



278 ANNIES 

em divcrsas reaccoes. melhodo que parecc niais conveniehle 
para o obler, funda-so na accao decomponente, por confa- 
cto, que exerce a esponja de plalina, ou a pedra pomes ao 
rubro, sobre os vapores do acido sulfo-carbonico (C S^). 
N'esla reaccao o acido sulfo-carbonico perde um equiva- 
lepte de enxofre, que fica livre, e se reduz a um gaz , cu- 
ja formula e G S. Estc gaz e incolor , tern cheiro analogo 
ao acido sulfo-carbonico, sem ser desagradavel conio clle, e 
6 forlemenle ethereo. E mais denso do que o acido carboni- 
00, nao e facilmenle coercivel, decompoc-sc em prcsenca da 
agua em oxido de carbonio e acido sulfhydrico, e actua de 
modo analogo sobre as dissolucoes alkalinas. A sua accao 
sobre a economia animal parece ser anesthesica como a do 
oxido de carbonio seu congencre. 



Guano pliosplialico. Todas as malerias, naturaes e arti- 
ficiaes , que podem ter emprcgo, como adubos, na agricul- 
tura, \ao successivamente adquirindo novo interesse depois 
que, a primeira e a mais util das industrias humanas, saindo 
das yeredas tortuosas da anliga rutina , se dicidiu a tomar 
por guia a chimica. 

sr. Bobierre , professor de chimica em Nanles, apre- 
senlou recentemente a Academia das Scicncias de Paris a 
analyse de um mineral , cujo jazigo se enconlra nos Carai- 
bes, e que foi denominado guano phosphatico. Esle mineral 
apparece, em parte, como vetrificado com o aspecto de por- 
celana ; a sua composicao parece "vari-avel , porem a media 
de seis analyses feitas pelo sr. Bobierre em seis differentes 
pedacos de materia, s^cca a 10»°, e a seguinte : 



DAS SCIENCIAS E LETTRAS 

Materia organica azotada . . 
Residuo silicioso iiisoluvel . . 

Sulfato de cal 

Phosphatos de cal e magnesia 

Saes alkalinos 

Carbonato de cal . . . ) 
Garboiiato de magnesia * ' 



279 



7,60 

2,00 

8,32 

70,00 

1,88 

10,20 
100,00 



azote d*esta materia sobe a to^^ que corresponde a 
5*^ por 100 da materia organica. Sera, por consegiiinle, uni 
precioso adubo, se os phosphatos que contem se prestarem a 
uma facil dissolucao, e nao apresentarem a mesma resisten- 
cia que se nola nos phosphatos mineraes de cal. 

guano phosphalico, independentemente da applicacao 
que possa ter na agricultura, sera um objecto curioso de es- 
ludo debaixo do ponto de vista geologico. 



Uma das mais importantes questoes da physica do glo- 
bo, e, seni duvida alguma, a que se refere a existencia do 
ammoniaco no ar, e a sua solubilidade nas aguas metcori- 
cas, porque d'ellas dependo , em grande parte, a alimenta- 
cao dos vegetaes terrestres. 

Que ammoniaco existe no ar, e que a sua quantidade 
varia com as condicoes athmosphericas, e um facto geral- 
menle reconhecido ; os trabalhos dos srs. Boussingault, Levi 
e outros , teem fornecido deraonstracoes irrecusaveis d'esta 
verdade ; que as aguas meteoricas dissolvem o ammoniaco 
da athmosphera e o trazem para a terra e tambem inconles- 
tavel ; mas que, entre todos os meteoros aquosos, seja o or- 

ToM. I.-JiLHo DE 1857.-1.' Classe. 19 



280 ANNAES 

vallio que condensa aquelle corpo em niaior qiiantidade' e 
lambem o que provam as reccnles expericncias do sr. Uous- 
singaiill, e d'ellas sc conclue a grande influencia que o or- 
\alho lem sobrc a vcgclacao. N'unia seiie de expericncias 
leilas por esle sahio, em agosto c selembro de 18')3, achou 
elle que um litro de orvalho, colhido no campo, coiilinha de 
|miiiig g jj tjmiiiig 2 tie ammoniaco. 

Todos sabem que o orvalho nao e mais do que a agua, 
que, passando do eslado gazoso ao de liquido pelo resfria- 
meulo , se deposila sobre as superficies refrigeradas. Esla 
agua deve pois conter todas as materias soluveis que se acha- 
rem no ar em que cste resfriamento e esla condensaciio se 
operam, e, sendo as regiocs inferiores da alhmosphera, cm 
que orvalho se forma, aquellas em que as materias eslra- 
nhas ao ar normal existem cm maior quantidade, deve, por 
isso, a agua que constilue o orvalho ser aquella em que es- 
sas materias se encontram em maior quantidade. 

De todos OS meteoros, o orvalho e aquelle que o homem 
pode produzir arlificialmenle com mais facilidade. Basta res- 
friar a superficie de um corpo para v6r depositar n'elle a 
agua alhmospherica condensada , isto c, para produzir um 
verdadeiro orvalho artificial. Supponhamos um grande vaso 
de vidro cheio de gelo e suspense sobre um funil que se 
abra dentro de um frasco. orvalho, condensando-se sobre 
as superficies frias do vaso , cscorrera para o funil e d'ali 
para o frasco onde se recolhe. Foi assim que o sr. Bous- 
singault obteve no Conservatorio das Artes e Officios de Pa- 
ris, em maio d'este anno, uma porcao de orvalho, no qual 
.achou 10"'''^8 de ammoniaco por cada litro. Esle ammo- 
niaco estava no estado de azotato, como aconlece quasi sem- 
pre ao ammoniaco alhmospherico. 

Mas nao e so o orvalho propriamente dilo, isto e, a agua 
alhmospherica condensada a superficie das plantas c dos cor- 
pos terrestres , que se oncarrega de fornecer a terra, para 



DAS SCIENCIAS E LETTRAS. 281 

allmenlQ dos vegelaes , o animoniaco da alhmosphcra, Os 
corpos poroses e seccos absorvem e condensam uma grande 
porcao de ar humido e carregado de ammonia. Ja o sr. Boiis- 
singauU iias suas invesligacoes sobre a vegela^ao, que foram 
publicadas no tomo XLllI da 3.' serie dos Annaes de Chi- 
mica e Physica , havia demonstrado por experiencias dire- 
clas esle importante facto. 



Os SFS. H. Sainte-CIaire-Deville e H. Debray, apresen- 
laram ullimamente a Academia das Sciencias de Paris a pri- 
meira parte de urn interessante estudo sobre os metaes con- 
tidos no minerio da platina. Emprenderam estes chimicos 
applicar ao tratamento d'este minerio, com o fim de separar 
d'elle OS metaes uteis e de fazer o seu ensaio docimastico , 
OS novos methodos baseados sobre o emprego exclusivo dos 
reagenles pela via secca c das altas temperaturas, que sao 
necessarias para reduzir ao eslado de completa fusao as ma- 
tcrias tao refractarias como sao todos aquelles corpos, a pla- 
tina, palladio, o osmio, o rhodio, o iridio e o ruthenio. 

A prlmeira parte do seu trabalho e consagrada a des- 
cripcao das propricdades d'aquelles corpos e encerra ella fa- 
ctos inteiramente novos, e a rectificacao de alguns que ha- 
viam sido ate aqui mal observados, por se nao haver ain- 
da obtido estes corpos n'um conveniente esiado de pureza. 

Dedicam a segunda, de que ainda nao temos nolicia, a 
descripcao dos methodos empregados, e deve ella ser de gran- 
de interesse principalmente para os que se dedicam ao estu- 
do da metallurRJa. 



Acido pyrorjalhico. Quando se aquece o acido galhico, 
a nnz da galha, que o contem, ou oseu extracto, a tempe- 

19* 



282 AISNAES 

raliira tie 2*10 a liH", aquelle corpo desdobra-se em acido 
carbonico puro c em uma sul)stancia cryslallina e volatil 
que se sublinia. Esla subslancia era ale agora denominada 
acido pyrogalhico, e considerada como urn acido pyrogenio. 
Alem dos sens emprcgos nos trabalhos scienliticos do labo- 
ralorio , e principalmenle em analyse , o acido pyrogalhico 
prepara-se hoje, debaixo do ponlo de \ista industrial, para 
a photographia e ale para tingir de negro os cabellos. 

Recenlemenle o sr. Anion Rosing, de Christiania, sub- 
melteu esla nolavel subslancia a um cuidadoso esludo , que 
Ihe serviu de objecto a uma Memoria , que, no mez de ju- 
nho d'esle anno , apresentou a Academia das Sciencias de 
Pan's. 

auclor da Memoria cilada submelteu o acido pyroga- 
lhico a accao dos acidos chlorhydrico, sulfurico e azolico mo- 
uohydratado, a do chloro , do iodo e do hromio ; fez tam- 
bem reagir sobre elle o ammoniaco , s^cco e humido ; ten- 
tou debalde a elherificacao d'este producto ; ensaiou a sua 
accao reduclora sobre as dissolucoes melallicas , e obleve , 
fazendo-o reagir sobre o acido stearico , uma combinacao 
cryslallina. 

De lodos estas ensaios lirou, como conclusao geral, que 
acido pyrogalhico nao e um verdadeiro acido, e que, en- 
Ire lodos OS corpos conhecidos, aquelle com o qual parecia 
ter analogias mais dccididas era a orcina, principio deriva- 
do da orsela : ambos esles principios sc allcram rapidamenle 
debaixo da influencia do ar e das bases ; ambos elles absor- 
vem gaz ammoniaco secco e o perdem no vacuo, e com o 
ammoniaco humido, debaixo da inlluencia do ar, dao um 
principio azolado nculro. 

Parece que ale o modo de geracao d'esles dois corpos e 
ainda o mesmo, cofno raoslram as seguintes equacoes : 



I)\S SCIENCIAS E LKTTR.VS. 283 

C**^ H» 0^ = e O'-hC" IP 0* 
Acid, or- 



solico. 


Orcina. 


Acid, ga- 
Ihico. 


Acid.pyro- 
galhico. 



sr. Anton Rosing propoe a miidanca do nonie de aci- 
do pi/rogalhico para o de pijrogalhina ou simplcsmente ga~ 
Ihina a similhanca de orcina. 

Como acido pyrogalhico apresenla caracleres analogos 
aos de oulros miiilos corpos, considerados ate hoje como aci- 
dos pyrogeneos , e notavelmente aos do acido pyromeconi- 
00, julga auctor que seria talvcz conveniente reunil-os no 
inesmo grupo. Os acidos que elle aponta como tcndo uni 
modo analogo de geracao, e propriedades communs, como, 
por exemplo , a de corar em rubro os saes de sesquioxido 
de ferro, sao os acidos pyromeconico, pyruvico, comenico, 
e itaconico. 



Pcsquiza do arsenico. Dr. Blondlot, de Nancy, mos- 
trou ullimamenle que nas invesligacaes toxicologicas do ar- 
senio, no apparelho de Marsh, podia, em muitos casos, oc- 
cultar-se itraa porcao notavel d'este principio toxico, niio so 
por haver passado ao eslado de sulfureto de arsenico , em 
presenca do acido sulfhydrico, proveniente da pulrefaccao das 
materias organicas sulfuradas, mas tambem que, no acto ,da 
destruicao da materia animal pelo processo de Danger e Flan- 
din, uma parte do arsenico se podia consliluir no eslado de 
sulfureto de arsenico, pela reaccao que podc ter logar, n'a- 



284 \NN.VLS 

quellas circumslaiicias, culrc os acidos arscnioso e sulfurico 
em prcsenca do carvao, como sc vo na seguinlc cquacao : 

As 0' + 3 (S 0')H-G« = As S'H-6 CO' 

Eis-aqui a cxporicncia que o aiiclor cita como sendo 
aquella em que mclhor sc funda a sua asscrcao. 

« Tomci , diz ello , 2o0 grammas de polmiio de boi no 
estado fresco , e , depois de o ter grosseiramenlc corlado , 
ajunlei-llie 100 grammas de acido sulfurico conceiitrado , 
depois, quando a materia se havia liquefeito, verli sobrc ella 
uma dissolucao fiUrada contendo 2 cenligrammas de acido 
arscnioso. Havendo-so efTectuado o resto da operacao se- 
gundo processo conhecido, obtive um carvao secco e fria- 
vel que Iralei pela agua qucnte. Depois de haver verificado 
que as ultimas aguas delavagem, recolhidas scparadamente, 
nao forneciam vestigio algum de annel arsenical no appare- 
Iho de Marsh, lavei de novo o carvao com a ammonia, esta 
solucao, foi evaporada ate a seccura, e o residuo, que dei- 
xou, foi tratado a quente pelo acido azotico concentrado, e 
vertido pouco a pouco. Este novo residuo, depois de secco, 
foi tratado pela agua fervente, e a solucao que oblive inlro- 
duzida no apparelho de Marsh, no qual nao tardou que ai>- 
parecesse um annel arsenical espesso e extenso. » 

De tudo isto se conclue que nao nos devemos contentar, 
nas pesquizas do arsenico, com lavar com agua quente o car- 
vao sulfureo , c necessario ainda laval-o, depois de tratado 
pela agua, com a ammonia, recolher a dissolucao ammonia- 
cal, evaporal-a, seccal-a, tratal-a pelo acido azolrco concen- 
trado, evaporar esta nova solucao acida ate a seccura, e de- 
pois tratal-a pela agua, para addicionar esta a que primeiro 
se obteve , e so entao e que no apparelho de Marsh se al- 
cangara reduzido todo o arsenico contido na materia sus- 
peifa. 

J. M. d'oLIVEIR.V PIMEISTEL. 



DAS SGlliiNClAS K LETTRAS. IS6 



HYGIENE PUBLICA. 



A adminislracao illustrada de todas as grandes cidades, em 
que de ordinario se agglomera uma po[)iilacao pobre e la- 
boriosa , attende primeiro que tudo ao foniccimenlo abun- 
danle e cconomico d'aquella quanlidade de boa agua que os 
principios hygienicos recommendani como necessaria para a 
alimentacao e usos domesticos dos habilantes. 

abastecimento das aguas e tarabem hoje , em Lisboa, 
lima questao da actualidade ; questao que parece resolvida, 
porque uma companhia poderosa se encarregou de pesqui- 
zar, conduzir e reparlir pelas habilacoes a agua necessaria, 
e sobre esse ponto varies esludos teem sido feitos por ho- 
mens de muila competencia. Um d'estes esludos , que foi 
apresenlado a Academia pelo sr. Carlos Ribeiro, comeca ja 
aapparecer, porextraclo, nas columnasd'este Jornal. Mas a 
questao e grave e complcxa, e, por melhores que sejam os 
estudos e os trabalhos, creio que nunca sera de niais qual- 
quer noticia , qualquer lembranca ou alvilre que possam 
apresentar-se para csclarecer a discussao , para corrigir ou 
ampliar os projectos. 

A Icitura de uma Memoria, que no correnle d'esle anno 
foi apresentada a Academia das Sciencias de Pan's pelo sr. 
Nadault de Buffon, sobre um novo processo de fiUracdo das 
aguas cmpregadas para usos domcslicos e indastriacs, sus- 
cilou-me a idea de transcrever aqui os factos principaes con- 
lidos n'esta publicacao, que devem ser medilados por todos 
OS que seinteressam pcla adminislracao municipal dasgran- 
des cidades. 

A Memoria a que me rcfiro e dividida em duas pafles. 



286 ANNAES 

Na prinieira o auctor , apoianda-se sobrc documenlos nu- 
nici'icos irrecusavcis, faz a coniparacao enlre os dois melho- 
dos do fornccimento das agiias , o do Iransporte por agua- 
deiros, e o da condiiccao por encanamenlos para as casas e 
seus andarcs, fazeiido bom palcnte a iramensa economia que 
resulta d'eslo iillimo syslema. Esla comparacao c feila em 
relacao a cidadc do Pan's, oiidc ambos os methodos se em- 
pregam ; mas pode ella applicar-Se facilmcnle ao que deve 
aconlocer em Lisboa, logo que nos for conhecida a quanti- 
dade d'agua que a companhia tem de por a disposicao do 
publico. 

Eis-aqui o que diz o sr. Nadault de Buffon : « Tomando 
por base do calculo a quanlidade do 20 litros de agua que 
geralmente se admiltem como necessarios a cada pessoa e em 
cada dia, para salisfazcr convenientemenle aos usos alimen- 
ticios e hygienicos, o consumo annual e individual das po- 
pulacoes agglomeradas deve ser de T^^SOO. 

« Sobre esla mesma base , a agglomeracao parisience , 
dentro do circuito das forlificacoes , e avaliada unicamenle 
em dois milhoes de habitantes, deveria consumir uma quan- 
lidade total de li. GOO. 000 melros cubicos de agua. meu 
trabalho prova, diz o auctor , que, se no estado actual das 
coisas, esla cifra normal so nao atlinge, esle resullado, pre- 
judicial a saude c bem estar da populacao laboriosa , dc- 
pcnde parlicularracntc do preco muilo elevado por que fica, 
no interior das casas , a agua fornccida pelos aguadeiros. 
Com effeito, este proco, que e de 10 ccnlimes por 20 litros, 
ou de 50 centimes por hectolitro, equivale a 5 francos por 
metro cubico. No syslema actual de assignalura para fornc- 
cimento das aguas da oidade, esla niio rcccbo por cada molro 
cubico, em qualquer ponto da habilacao a que a agua seja 
levada, mais do que uma renda dc li centimes. As despe- 
zas, que ficam a cargo dos proprietai ios para conduzir a agua 
da ^ ia publica a suas casas, sao por outra parte muilo mode- 



DAS SC!KNC1\S E LKTTRAS. 287 

radas ; de sorle que, beni calculada toda a dcspeza, nao sc 
deve conlar a niais de 25 a 30 ccnlinies o metro cubico de 
agua conduzida ao rez da calcada, a mais de 45 a 50 cen- 
times mesmo volume de agua levada aos andares superio- 
res. Logo, no systeraa antigo, e que se pode cliamar barba- 
ro, da conduccao da agua a braces, a populacao de Pan's, 
que fica comprehendida no interior das forlificacoes, paga to- 
dos OS annos ,. em pura perda , pelo menos ~ do preco da 
agua que emprega para as suas necessidades domesticas e 
hygienicas. 

« Nao se pode, porlanlo, dissimular que se trata de uma 
enorme somma ; porque a populacao, a que nos referimos, 
devendo receber, para o seu consumo annual, 14. COO. 000 
metros cubicos de agua , esta quantidade, fornecida pelos 
aguadeiros , a razao de 5 francos por metro cubico, repre- 
senta 73.000.000, em quanto o mesmo volume de agua fil- 
trada, purificada e conduzida a domicilio por meio da cana- 
lisacao, nao deve custar, quando muito a 50 centimes o me- 
tro cubico, mais de 7.300.000 francos. A differenca para 
mais e pois de 65.700.000 francos. Tal e a somma que, 
no estado actual das coisas, represenla, para a populacao de 
Pan's , a differenca do preco entre a agua levada a braces 
pelos aguadeiros, e a que se obtem por assignatura feita pa- 
ra fornecimento pela cidade. » 

Na cidade de Pan's ha ja hoje um grande numero de ca- 
sas que s3o fornecidas, por assignatura, com a agua dos re- 
servatorios e pela canalisacao da cidade. Estao n'este caso 
8.000 sobre as 32.000 casas. Mas a agua e pela maior par- 
te conduzida simplesmente pela canalisacao so ate os pavi- 
menlos inferiorcs do rez da rua, e d'ahi para os andares e 
levada a bracos, o que e um defeito consideravel que se de- 
vera corrigir facilmente, collocando os rcservatorios em altu- 
ras sufficientes para fazer subir a agua por tubes communi- 
cantes aos andares mais elevados. 



288 ANNAES 

A este eslado dc coisas accresce o grande e capital in- 
convonienle que provein da falta dc purcza das agiias dos 
reservatorios da cidade, pois que cstas, durante metade do 
anno, sao turvas pclas terras que Irazeni cm suspensao, c du- 
rante a oulra metade, siio facilmenle corrupliveis pela enor- 
me proporcfio de matcrias organicas. 

A segunda parte da Memoria do sr. Nadaull de BufTon 
c especialmenle consagrada a exposicao dc uni syslcma de 
fillracao c purificacao das aguas dos reservatorios , que pa- 
rece superior aos que j^ hoje sao conhecidos e sc praticam 
em muila parte. 

As principaes vantagcns d'este systcma sao : 1/' fornecer 
um producto melhor para a purificacao completa da agua , 
que alravessa uma massa fillranle submcllida a forte com- 
pressao ; 2.° realisar uma reducao immcdiala de oO por 100 
pelo menos no custo actual do Irabalho. 

Os filtros sao apparelhos tubulares funccionando segun- 
do principio das galerias filtranlcs , islo 6 , de fora para 
dentro por todos os pontes de uma superficie imcrgida. 

Estes apparelhos podem funccionar qucr seja na agua cor- 
renle de um rio, quer seja na agua Iranquilla de um reser- 
vatorio, e em ambos os casos se limpam com grande faclli- 
dade e economia. 

conheciraenlo d'este novo systcma nao deve ser inulil 
aos engenhciros que teem de encarrcgar-se das obras para 
abaslecimenlo das aguas de Lisboa, porque a expericncia 
moslrara que nao e possivcl trazer para a cidade um volu- 
me lal de agua de boas nasccntes que seja sulliciente para 
dar a cada habitante os 20 litres que llie sao dcvidos, Se 
algum dia se rcalisarcm os projeclados reservatorios de Ca- 
renque, entao se conhecera a necessidade da adopcao de um 
bom systcma dc purificacao e filtra^ao das aguas, como esle 
que acabo dc indicar. 

J. M. d'oLIVEIRA riMENTEL, 



1 



D\S SClEiNCLVS K LKTTRAS. 289 



REVISTA ESTRANGEIRA. 



JANEIRO E FEYEREIRO. 



(CONTINUACAO. 



Mechaniga. — A sciencia quo esluda as leis que legem a 
accao das forcas, cuma das que mais interessam ohomein, 
nao S(3 pelas variedades e uleis applicacoes que elle sabe li- 
rar do conhecimenlo d'essas leis para a industria , senao 
tambem porque a mechanica pode so dar uma satislactoria 
explicacao dos variados phenomenos geraes que se obser- 
vam na nalureza. A ligacao dos astros e os sous movimen- 
los regulares uns em torno dos outros , sao rcsultados da 
forca ; a uniao das parliculas imperceptiveis dos corpos que 
se acham na terra e feila por forcas que obedecem larabeni 
a leis regulares. A gravilacao, que prende uns aos outros 
OS corpos celestes, e uoia forca ; a cohcsCio, que line os ato- 
mos dos corpos, e uma forca ; a affinidade, que faz grupar 
particulas de materia heterogenea para forneccr outras pai- 
liculas com propriedades difTerenles e que se manifesia nas 
accoes chimicas, o uma forca ; a electricidade c uma forca ; 



290 ANNAES 

calor iiiiui forca ; o magnelismo tcrrcslre iinia forca. Na 
essencia scrao estas forcas coisas distinctas? Sorau ellas nia- 
nifeslacoes diflerenlcs de uma causa unica , que nos apenas 
podemos conheccr pclos scus effeitos, sem chegarmos a pc- 
iielrar a sua naturoza intinia ? 

Sao cslas queslocs que cslao ainda por resolver ; mas o 
que e certo e que lodas teem enlre si relacOes intimas , lo- 
das, segundo o denionstra a sciencia moderna, sc transfor- 
main umas nas oulras. calor podc applicar-sc para ven- 
eer as niaiores resistencias , pode empregar-se como forca 
para levanlar corpos que a gravidadc torna pesados ; rcsul- 
lados siniilhanlcs so podem oblcr com a electricidadc e o 
magnelismo. Dcmais todas estas forcas sao suscepliveis de 
Iransformar-se umas nas oulras ; o calor Iransforma-se em 
eleclricidade, e vice-versa ; a eleclricidade em magnelismo 
etc., e todas as forcas, emilm, sc podem dar a conheccr por 
um resultado final, o movimenlo. Foi islo que o sr. Grove 
procurou e conseguiu demonslrar n'umaobra inlilulada « Cor- 
relacao das forcas physicas». 

A faculdadc que as forcas teemde se transformar umas 
nas oulras deve necessariamenlc trazer, e tem trazido ja, 
dilTiculdades no esludo do seii modo de acinar, dos sens ef- 
feitos, dassuasleis; clevou os malhcmalicos, para simplili- 
car OS calculos, a admillir hypotheses que nao estao de acor- 
do com modo de ser dos corpos physicos. Para reconhe- 
cer a admissibilidade de qiialquer hypolhese em mechanica, 
e necessario sujeilal-a a uma prova , e esla e deduzida de 
um principio gcralmcnle reconhecido hoje como inconlrasla- 
vel , como devendo lomar logar entre os primeiros funda- 
menlos da sciencia , este principio e o da conservagdo da 
forca. 

Este principio c perfeitamenle symelrico com oulro lam- 
bem reconhecido de ha n)uito ; a nao destructividade da ma- 
teria. A materia transforma-se, modifica-se nas suas proprie- 



DAS SCIENCIAS E LETTRAS. 291 

dades apparentes, entra cm variadissimas composicucs, mas 
iiao se deslroe. A forca tambem pode miidar de apparen- 
cia, raanifcstar osseus effeitos demodos muilo diversos, po- 
de mesmo escapar em parte aos nossos raeios de apreciacao, 
mas nao se perde, consena-se. 

Este principio da conservacao da forca foi, em fevereiro, 
objecto de iima licao importante do illustre Faraday. A luz 
d'este principio, que elle reputa infallivel, o sr. Faraday es- 
tudou diversas leis das forcas admittidas geralmente, e, entre 
oiitras , as leis da gravitacao , e mostrou quanlo sao ainda 
incompletos os nossos conhecimentos, mesmo sobre este ponto 
importante. A lei de altraccao das massas na razao inversa 
do quadrado das distancias e exacta , mas a sua interpre- 
tacao nao 6 completa. A forca nao pode crear-se por si , 
porque seria isso admittir o absurdo da possibilidade do mo- 
to-continuo, nao pode tambem destruir-se por si ; ora, com 
a aproximacao dos corpos , a forca que elles exercem uns 
sobre outros cresce, com o seu affastamento diminue , logo 
segue-se que ha nos corpos um modo, desconhecido para nos, 
da forca se dissimular, ha uma manifestacao da potencia que 
cresce quando a attraccao diminue pelo affastamento, que di- 
minue quando cresce a attraccao pela aproximacao, manifes- 
tacao da potencia que nos e ainda desconhecida. 

Para apreciar em todos os casos a maneira por que se 
realisa a lei da conservacao da forca, era necessario conhe- 
cer todos os modos por que ella se pode manifestar nas suas 
multiplas Iransformacoes , e , demais , saber tambem quaes 
sao OS equivalentes das differentes forraas ou generos de for- 
ca, oque tambem nos eem grande parte desconhecido. Um 
exemplo notavel pro\a que se podem obter de uma forca ef- 
feitos muilo diversos na sua importancia apparente segundo 
modo por que essa forca se manifesta : assim a electricida- 
de, empregada em decompor a agua, produz um effeito muito 
pequeno comparalivamente com o effeito produzido n'uma 



292 ANNAES 

subila (lescar^a, pois quo a eloctricidade necessaria para de- 
compor urn gramino d'agua e equivalcnle li eleclricidade 
que produz uma doscarga egual ao rayo deslruidor. Estes 
principios da correlacao das forcas, c da sua conservacao , 
devem iiocossarianicntc \ir a dar uma nova direcciio a me- 
clianica c as sciencias physicas ; ejii muitas das hypotheses 
adniitlidas para explicar a nalureza d'essas diversas fornias 
da forca, como a eleclricidade, o calor, o magnelismo, sao 
consequencias d'eslos principios. calorico foi por rauilo 
tempo considcrado como um fluido particular que cercava as 
particulas maleriaes que conslituem os corpos, e Ihe formava 
como uma alhmosphcra mais ou menos espessa , segundo a 
sua densidade etc. ; hoje a hypothese mais provavel e me- 
Ihor recebida , e a que atlribue os phenomenos do calor ao 
movimento das particulas da materia. As moleculas da mate- 
ria teem sido pelos physicos separadas em duas cathegorias, 
para explicarem os phenomenos produzidos pelo calor, ele- 
ctricidadc e magnetismo : umas relativamente em repouso e 
ligadas entre si pelas forcas de cohesao e aifinidade, e ou- 
tras livres no espaco e dotadas de enormes velocidades. 

E impossivcl n'um curto resumo dar idea d'estas ques- 
loes transcendcnles da philosophia das sciencias, e nos nao 
quizemos senao chamar a atlencao dos nossos leitores sobre 
estes objectos, e indicar-lhes as tendencias que aclualmenle 
dominam nas sciencias physicas. 

N'uma acalorada discussao que teve logar na Academia 
das Sciencias de Pan's, entre os srs, Duhamel e Cauchy so- 
bre a dcmonstracao de um thcorema de Sturm a res[)eilo 
das formulas e leis do choque dos corpos elasticos, discus- 
sao em que tomarain parte os srs. Poncclet, Morin e outros, 
as mais importantes quesloes da mechanica foram agiladas 
e aprcciadas por esses distinclos malhemalicos. Para dar idea 
da importancia d'esta discussao basla citar as opinioes dos 
srs. Poncelet e Morin. Na discussao oral, osr. Poncelel, ca- 



DAS SCIENC.IAS E LKTTRAS, 293 

Ihegoricamente declarou que era opiniao sua que niio liavia 
nam podia haver na natureza forcas perdidas , que o movi- 
mento nao desapparecia debaixo de uma forma senao para 
reapparecer com uma forma diversa, que ha transformacao 
e nao anniquilacao de forca. Na sua nota escripta , o mcs- 
mo illuslre mathemalico diz o seguinte, concluindo : 

« Em resumo, os enunciados e demonstracoes do sr. Du- 
hamel parecem-me mais completos e mais rigorosamenle cir- 
cumscriptos do que os do sr. Cauchy, ainda que se hguem, 
ii'um certo ponlo de \ista, a antiga doutrina das percussoes, 
disculivel em principios n'alguns dos seus resultados : em 
compensacao, a mechanica fundada a ptiori sobre a eonsi- 
deracao dos pontos materiaes submellidos a simples forca , 
mechanica de que eu nao receio declarar-me aqui um dos 
adeptos, e que o sr. Cauchy adoptou especialmente na sua 
Memoria de 1827 e nos seus anteriores trabalhos , parece- 
me de maior alcance, de mais rapida exposicOio, menos cheia 
de principios arbilrarios, e, por isso mesmo, dever consli- 
tuir OS verdadeiros fundamentos da mechanica theorica ou 
pralica, isto e, ao mesmo tempo demonstrativa e experimen- 
tal, com tanlo que nao haja pressa em Ihe introduzir, como 
fez nosso sabio collega na applicacao particular que nos 
occupa, hypotheses relativas a invariabilidade final das dis- 
tancias mutuas, etc., e que se deixe a experiencia, aobser- 
vacao e ao calculo o cuidado de encher as lacunas relativas 
aos effeitos das accoes moleculares ainda inexplicadas e mal 
deGnidas : este methodo concilia-se perfeitamente com a ex- 
posicao rigorosa dos grandes e invariaveis principios da me- 
chanica racional, das grandes theorias que consliluem uma 
das mais bellas acquisicoes scientificas e philosophicas do 
nosso seculo ou dos precedentes. 

« E , se me objectam que nao ha senao uma unica me- 
chanica, que nao existem duas, a saber, a das percussoes , 
das reaccoes entre corpos duros e polidos, de ligacoes cons- 



29 i ANNAF.S 

tantes on invariaveis etc. , e a dos syslonias de pontos ma- 
leriaes IImts ou obrigados a simples accOes Fiiuluas a dis- 
tancia, responderci que isso 6 assim, dcsgracadamenlc, mas 
nao deveria scr sc se quizesse dislinguii* bcm, logo no prin- 
cipio da mcchauica, as hypotheses que lendem a simpli(icar 
calculo oil a exposiciio dc ccrlas queslOcs, das qualidades 
physicas e effectivas dos corpos, perlencenle a sciencia dos 
factos e da observacao ; sciencia que constitue , de algum 
modo, uma Icrceira niechanica, a dos Kepler, Galileu, New- 
ton, Bernouillc, Borda, Coulomb, Fresnel, Ampere etc. etc. ; 
a mais imporlante de lodas, chamada fhijsica e experimen- 
tal , e que csla ainda hoji; por crear ou por refazer para 
uma infinidade de queslOes pralicas e thcoricas, mas de que, 
pelo menos , as hypotheses acima meucionadas e as doutri- 
nas muilo restriclas da mechanica demonstraliva, nao deve- 
riam obscurecer a intuigao a priori, com risco de retardar 
as verdadeiras solucoes. 

« Emfim , se ainda me perguntassem o que pen so , no 
fundo, do theorema dc Garnot sobrc as perdas de forca viva 
ou de Irabalho no choque dos systemas solidos nao elasti- 
cos pertencehtes as machinas , eu responderia o que ja te- 
nho tido occasiao de fazer notar desde muilo tempo , com 
muitos oulros sabios engenheiros ou professores, que elle e, 
em si mesmo e na sua generalidade , muito pouco util para 
a apreciacao direcla dos effcilos d'estas machinas , em que 
se ha de semprc ser obrigado a recorrer ao equivalente do 
principio de d'Alembert ou de algum outro theorema mais 
immediata e rigorosaniente eslabelecido pelo raciocinio ou a 
experiencia. » 

sr. Morin procurou fazer sen tir a ulilidade de lirar 
d'aquella discussao vanlagem para a sciencia e para o eiisino 
da sciencia, moslrando a necessidade de acabar por uma vez 
com a hypolhese dc forcas instantaneas , dc forcas capazes 
de communicar ou tirar aos corpos velocidades finitas n'um 



DA.S SCIEXCIAS E LETTR\S. 29^ 

tempo infinitamente pequeno ; de abandonar as denomina- 
coes de forcas de percussao, d'impulsao etc., que presup- 
poem diversas uaturezas na forca ; dedeixar, emfim, asde- 
nominacOes de corpos duros e moles, que nao teem hoje para 
OS geomctras a significacao absoluta que Ihe ligavam os geo- 
metras antigos, e de que resulla confusao e difiiculdade nas 
applicacoes da sciencia. 

« Expondo, disse o sr. Morin, como muito explicitamente 
fez sr. Poncelet nas suas licoes da escola de Metz , a 
Iheoria dos choques pela consideracao dos esforcos de reac- 
cao desinvolvidos pela inercia e pelas forcas moleculares , 
durante o depois do periodo de compressao, tem-se a vanta- 
gem de mais se apmxiraar da realidade dos phenoraenos na- 
turaes, de fallar de um modo mais claro ao espirito, de dar 
aos esludantes a consciencia d'esles effeitos, e de os condu- 
zir mais facilmente as applicacoes. Assim e que as theorias 
do movimento dos piloes, dos martellos de forja, dos balan- 
ceiros de cunhar moeda , do pendulo balistico etc., sao ex- 
postas na escola de Metz desde que o sr. Poncelet ali pro- 
fessou, e que numerosas applicacoes tem sido feitas pelos dis- 
cipulos d'aquella escola com facilidade e conduzindo-os sem- 
pre a resultados que a experiencia verifica. 

« E este modo de apresentar a importante theoria dos 
effeitos do cheque que desejaria \er introduzido no ensino, 
e a discussao que acaba de ter logar mostrou que ha\ia em 
geral acordo bastante sobre as bases da doutrina , para ser 
permillido esperar que se chegara tambem a conseguir acor- 
do sobre a forma que convem empregar na exposicao. » 

— Os estudos para a transformacao das machinas de va- 
por, com fim de obter d'ellas o maior effeito possivel com 
a maxima economia, progridem. calorico e o movimento, 
segundo os novos principios de correlacao das forcas , sao 
manifestacoes, debaixo de formas differenles, de uma causa 
unica ; obter pois a transformacao total do calor, produzido 

ToMoI.-JruHO DE 1857.-1.' Classk. 20 



296 \NNAES 

pela combustuo, em forca effectiva, c uma coisa theoricanien- 
Ic possivt'l, mas e o que cslii longe tie succeiler nas actuaes 
machinas de vapor, ondc se perde uma quanlidade enorme 
dc calor. 

sr. Scguin , como ja livemos occasiSo de dizer , ha 
muilo tempo que se occupa da conslruccao de uma machi- 
na, em que o calor seja cmpregado em augmenlar a forca 
expansiva de um gaz ou do vapor, empregando-se esse au- 
gmcnlo em produzir o movimenlo de um embolo, e vollan- 
do vapor depois a sua clasticidade primiliva, para, de no- 
vo aquecido , ir oulra vez produzir novo effeito ; de mode 
que vapor ou gaz sirva como de mola inlermedia enlre o 
calor que Ihe da a forca , e a machina que Ih'a aproveita , 
sem se perder , como succede nas machinas actuaes, calor 
em produzir constanlemente novas e consideraveis quanlida- 
des de vapor. 

Por uma longa serie de experiencias o sr. Seguin co- 
nheceu, que o vapor d'agua, em contacto com superficies me- 
tallicas aquecidas ao rubro, chegava, n'alguns- decimos de 
segundo apenas , a uma temperalura quasi egual a d'essas 
superficies , e, por conseguinte, adquiria quasi instantanea- 
mente uma grande tensao. Por outra serie de experiencias 
reconheceu tambem osr. Seguin, que o vapor sobre -aqueci- 
do abandonava com extrema facilidade o calor que Ihe au- 
gmenta a clasticidade. Reconhecidos estes dois factos, o caso 
estava cm construir um apparelho em que o vapor fosse o 
inlermediario cntre o calor e a forca, fazendo-a passar, por 
meio de dilalacocs e condensacoes successivas, por diversos 
eslados de tensao e de temperatura , e foi o que o sr. Se- 
guin conseguiu. A sua machina consta de um embolo oco, 
de metro e meio de comprimento, que caminha dentro deum 
cylindro e cuja haste poe em movimento uma biella. ge- 
rador, em que se aquece o vapor, 6 formado de dois tubos de 
ferro unidos por um do mesmo metal curvo. Entre o gera- 



DAS SGIKNT.IAS R LETTRAS. 297 

dor e cylindro ha iima peca com duas valvulas, que dao pas- 
sagem alternativamenle ao vapor para o cylindro , e d'esle 
oulra Ycz para o gerador, de modo que o vapor execiila iim 
conslanle movimento dc rotacao. Finalmcnle urn condensa- 
dor de cobre, cercado de um refrigeranle , em commiinica- 
cao com a peca intermediaria enlre o gerador e o cylindro, 
serve para lirar ao vapor o excesso de calor que fica, quan- 
do cste lem produzido o seu efieito mechanico. 

A macJiina do sr. Scguin acha-se em exercicio , e ja 
raereceu a altencao da Academia das Sciencias de Paris, 

empenho em dirainuir a despeza do combustivel deu 
origem a uma invencao do sr. Cave', para se poder, nas lo- 
comolivas, consumir o carvao de pedra em vez do coke, 
combustivel acha-se disposlo sobre uma grade, em parte in- 
clinada e disposta cm degraus como uma escada, e em parte 
horizontal. carvao que se acha sobre a grade em escada 
distilla lentamenle , e transforma-se calcinando-se, de modo 
que, quando chega a parte inferior e horizontal csia prepa- 
rada para arder com grande intensidade. fumo c queima- 
do em grande parte e nao incommoda os viajanles. Muitas 
locomotivas se acham ja preparadas para trabalhar com o 
carvao de pedra , e d'aqui resulla uma nolavel economia. 

— Um novo motor hydraulico, muito singelo, e que se 
pode por em exercicio com pequena despeza, e a roda hy- 
draiiUca fluciuanle do ST. Colladon , de Genobra. Consisfe 
n'ura tambor de ferro forjado, oco, e flucluando livremenle, 
tendo na circumferencia palhetas helicoidaes que recebem a 
impulsao da agua corrente. A sua installacao consegue-se 
pondo-a entre dois postes com corredicas verlicaes , que 
manlenham a roda (luctuante na posicao conveniente para 
receber a impulsao da corrente. 

PHTsicA. — reverendo padre Secchi acaba do construir 
no seu observatorio romano um baromclro de nova forma , 
que elle denomina baromelro de balanca , e que pode dar 

2 Ox- 



298 AJSNAES 

immedialamenle o peso do uma columna alhmospherica, ten- 
do por base aseccao interna dolubo baromelrico. Eis-aqui, 
em resumo , o modo por quo e construido o novo barome- 
Iro. 

Um tubo baromctrico do consideravel diamelro, 15 mil- 
limclros por exemplo, mcrgulha pcla sua parte inferior livre- 
mentc n'unia capsula com mcrcurio, este tubo esUi prcso ao 
braco do uma alavanca , como a de uma balanca romana , 
pondo no oulro brace d'esta um conlrapeso que estabeleca 
equilibrio. principio em que se funda este barometro e o 
seguinle. Quando o tubo baromelrico esla inferiormente mer- 
gulhado na capsula, e esta fixa sobre uma m^sa, e precise 
um esforco para IcAantar verticalmenlc o tubo e tiral-o da 
capsula ; ora o facto e o. simples raciocinio provam que este 
esforco 6 exactamente egual ao que a athmosphera exerce 
sobre o mercurio do instrumento , isto e , egual ao peso do 
mercurio conlido no tube, porque e bem sabido que este faz 
equilibrio a uma columna de ar que tem por base a seccae 
interna do lube, e por altura toda a que \ai desde o ponto 
em que esta o barometro ate aos confins da athmosphera. 
Pesando, pois, a columna de mercurio no apparelho do sr. 
padre Secchi , pesa-se realmente a athmosphera. Para nao 
estar porem a fazer continuas e difilceis pesagens, o auctor 
do novo barometro combinou a disposicao de um ponleiro 
que se move quando a balanca se inclina para um ou outre 
lado , e marca assim a subida ou descida do mercurio no 
barometro , caindo sobre diversas divisoes de uma escala 
convenienlemenle collocada. 

reverendo Secchi modificou dcpois este ponteiro ac- 
crescentando um ponteiro movel que desenha sobre um pa- 
pel, que se move com machinismo de relojo, uma curvaque 
indica todas as variacoes diurnas da altura barometrica. E 
um verdadeiro barometrographo, construido com simplicida- 
de. Uma mais longa cxperiencia ha de provar so o novo ap- 



MS SCIENCIAS E LETTRAS. 299 

parelho tern ou nao verdadeira vantagem sobre os barome- 
tros ordinaries. 

PHTsioLOGiA. — E, sem du\'ida, uma das rnais importan- 
tes e bellas descoberlas modernas a dos agentes aneslhesi- 
cos, que inlerrompem por algum lempo a sensibilidade , li- 
vrando o homem muitas vezes dos dolorosos soffriinentos que 
acompanham as operacoes cirurgicas. numero das sub- 
stancias anesthesicas , a principio raiiito limilado , tem ido 
successivamente augmentando ; entre estas substancias deve 
contar-se, segundo as experiencias do sr. Tourdes, o oxido 
de carbonio. Este gaz, respirado pelos animaes, produz n'el- 
les a insensibilidade completa, e mesmo a morte apparente ; 
sendo prolongada a accao d'este gaz mata , mas nao o sen- 
do animal lorna a si , sendo o effeito do oxido de carbo- 
nio analogo ao do chloroformio e do ether. 

* — Um estudo curioso da quantidade de ar dispendida 
na produccao dos sons da voz humana, feito pelo sr. Guil- 
let prova : que nos sons medios da voz, dados com a mesma 
inlensidade , a corrente de ar e proximamente a mesma ; 
mas a medida que os sons se tornam agudos a corrente de 
ar accelera-se : a mesma nota musical pode dispender uma 
quantidade de ar que varia de 1 para 5 segundo a sua in- 
lensidade, que explica a razao por que se nao podem sus- 
tcntar nolas senao dando ao som pouca inlensidade : na ar- 
ticulacao das palavras tambem o dispendio de ar e variavel : 
as Yogaes exigem menos ar do que os sons sibilantes das 
consoantes , o que faz com que as differentes linguas care- 
cam, para serem falladas, de quantidades de ar muilo va- 
riadas. 

— Os usos que teem , as funccoes que exercem alguns 
dos orgaos que enlram na constituicao do corpo dos animaes 
mais perfeilos, sao ainda problcmas que a physiologia, ape- 
sar dos seus immensos progresses, nao pode chcgar a resol- 
ver. As curiosissimas experiencias do sr. Philipeaux nao po- 



300 ANiNAES 

dem senao lornar iiiaiorcs as dilTiculdadcs no esludo das 
fiinccocs d'alguns d'esscs orgiios problemalicos. Oulro phy- 
siologisla, o sr. Brown-Sequard, poz cm duvida os resulta- 
dos das primeiras expericncias do sr. Philipeaux, mas esle 
repctiu c variou as suas expericncias, e chegou aos seguin- 
les resulladas. sr. Philipeaux conseguiii exlrahir a dois 
animaes, dois ralos albinos lendo um mez apenas, primeiro 
as duas capsulas suprarenncs , com dez dias de inlervalio 
enlrc a primeira e a segunda extraccao, dcpois, passado um 
mez, baco, e finalmenle os corpos Ihyroideos. No momento 
em que cllo dirigiu a sua Nola a Acadcraia de Pan's , os 
dois animaes tinham chegado a edado de Ires mezcs, dc sau- 
de, privados com ludo das capsulas suprarennes do baco c 
dos corpos Ihyroideos. Alem d'estes dois animaes, o sr. Phi- 
lipeaux possue dois outros vivendo ha muitos mezes^ sem as 
capsulas suprarennes. Esles factos extraordinarios nao po'dem 
deixar de fixar muito a attencao dos physiologistas , e sao, 
provavelmente , um passo importanle para a descobrimcnto 
de alguma \erdade physiologica , como succede sempre aos 
factos inesperados que por vezes apparecem na sciencia c 
que a principio se afiguram incomprehensiveis. 

— A reproduccao dos animaes e das planlas e em geral 
resultado da accao de orgaos dislinctos , os orgaos mas- 
culinos e femininos, que ora se acham unidos no mesmo in- 
dividuo, ora separados em individuos distinctos. O modo 
por que se passa o phenomeno da fecundaciio dos ovulos, a 
causa que poe em aclividade e leva ao desinvolvimenlo os 
embriOes , sao coisas ainda incomplelamenle conhecidas , e 
lodos os dias novos factos vem accrescentar os nossos co- 
nhecimenlos a estc respeilo. 

A partheno-gcnese ou geracao sem fecundacao foi por 
muito tempo rcpulada impossivel pelos naluralistas, que pro- 
curaram descobrir nas plantas rudimenlares , por exemplo, 
orgaos ([ue reprcscntasscm os dois sexos, c dc cuja mulua 



DAS SCIENCIAS E LETTRAS. 301 

accao resullasse a formacao de germens capazes de dar nas- 
cinienlo a novos seres. As observacoes dos srs. Dzierzon , 
Berlespch e Siebel, poem fora de duvida a possibilidade da 
partheno-genese, de que ha niuilo se fallava na sciencia. 

sr. Siebold observou que femeas de Solinobia, Triqui- 
trella e Jichinella davam , sem fecundacao alguma e sern 
n'ellas haver o minimo indicio de zoospermas, ovos fecun- 
dos. sr. Dzierzon flxou o seu estudo sobre as abelhas, e 
reconheceu os seguinles factos ac6rca da sua mysteriosa rc- 
produccao. A rainha ou abelha mestra pode, antes da fecun- 
dacao , por ovos de que nao nascera senao individuos ma- 
chos; depois da fecundacao pode ella produzir femeas, en- 
tre as quaes se encontram novas rainhas. As nupcias da abe- 
lha mestra, que nao podem ter logar senao fora da colra^a, 
podem tornar a abelha reproduclora capaz de dar por qua- 
tro ou cinco annos ovos. Entao esta abelha pode a vonlade 
produzir individuos machos ou femeas. Uma abelha repro- 
duclora que Berlespsch conscrvou virgem, encheu 1500 cel- 
lulas de urn favo com ovos de que sairam so machos. 

Nas plantas tambem esla singular reproduccao sem ser 
precedida de fecundacao lem, por vezes, sido observada. 
sr. Brown observou uma euphorbiacea, Cidihogyne clicifo- 
lia , de que nao ha na Europa senao individuos femininos , 
que produzem , comludo, semenles fecundas susceptiveis de 
desinvolver-se, sendo comludo femininos lodos os individuos 
assim produzidos. 

Experiencias inleressanlcs do sr. Ch. Naudin, em plan- 
tas perlencentes a familia das Cucurbilaceas, provaram que 
pollen de especies niuilo differenles podia exerccr accao so- 
bre as flores femininas de oulras especies ; mas d'esla accao 
nao resuUavam semenles, dando-se comludo o facto nolavel 
de se desinvolverem os fruclos. D'estas experiencias pode 
concluir-se que o p6 fecundanlc das (lores, niio so lem o po- 
der de conlribuir para a formacao de semenles perfeilas, se- 



305 ANNAES 

nao lambein para excitar o desinvolvimento dos fruclos in- 
dependcnlcinentc da formacao das sementcs. Um pc de Ecba- 
lium, de que destruiram todas asflores masculinas, porexem- 
plo, deu 161 florcs femininas que todas morrerain no curio 
espaco de oito dias ; mas duas das flores feminiir.s d'esla 
planla foram feoundadas com o pollen da Bryonia alba, e 
essas produzirara dois fruclos que amadureceram, mas que 
nao oonlinham semenle alguma capaz de reproduzir a planla. 

AGRicuLTURA. — Apesar do sempre crescente consumo 
do algodao e do linho, dos rapidos aperfeicoamenlos da in- 
dustria da 13, a seda acha de dia para dia nos mercados da 
Europa uma maior procura, e alcanca um logar cada \ez 
mais eminente entre as subslancias texlis. Todas as paries 
do mundo fornecemao mercado sedas , occupam porera o 
primeiro logar a Asia e a Europa. Nenhuma induslria agri- 
cola pode ser mais lucrativa para os paizes meridionaes do 
que a creacSo do bicho de seda, porque em poucas semanas 
agricullor pode por ella alcancar um rendimenlo liquido 
muilo consideravel relalivamente ao capilal e trabalho que 
emprega : o preco elevado que a seda "vai tendo ainda lorria 
mais seguros os lucres do agricullor. 

Infelizmente a subida do preco e em parte lambem de- 
vida a deslruidoras doencas, que teem causado extraordina- 
rias perdas em alguns dos paizes em que a cullura da seda 
tern maiores proporcoes, Enlre eslas doencas uma se tern 
manifeslado com assusladora intensidade n'esles ullimos an- 
nos, e a atrophia, que os ilalianos conhcccm pelo nome de 
galtina , doenca que parece communicar-se de geracao em 
geraCfio , e que se manifesla logo nos primeiros tempos da 
vida dos bichos de seda, deslruindo muilas vezes uma creacao 
inteira. desinvolvimento d'esla doenca parece ter coinci- 
dido com a formacao de grandes creacoes induslriaes, em vez 
das pequenas educacoes caseiras ; com as creacoes rapidas 
por via do aquecimenlo artificial ; com as plaulacoes de amo- 



DAS SCIENCIAS E LETTRAS. 303 

reiras em lerrenos de alluviao e o uso do enxerto, que nio- 
dificam a nafureza das folhas : coisas estas que parece ha- 
icrem produzido a degeneresccncia das racas , conjuncta- 
mente com a falla de cuidados na produccao de ovos, c ua 
escolha de reproductores. 

Urn rclatorio muilo iraportante, apresentado a Academia 
das Sciencias de Pan's , charaou a altencao sobre os incon- 
\enientes d'esle estado de coisas, e a necessidade da escolha 
de sementes sas para a regeiieracao das racas de bichos de 
seda, sendo esle o unico modo de salvar do imminenlc pe- 
rigo que a ameaca esla importante industria, que e o prin- 
cipal recurso das populacoes agricolas d'alguns paizes. 
sr. Dumas , relator , e a commissao da Academia, demous- 
trando esta necessidade urgente, deram plena approvacao ao 
melhodo de aperfeicoamenlo empregado pelo sr. Andre Joao 
para a formacao da sua perfeitissima raca. Este methodo , 
simples e racional , e applicavel a todas as racas , e pode, 
segundo o sr. Andre Joao, regeneral-as no curio espaco de 
quatro annos. 

Dois systemas se apresentam para aperfeicoar uma raca 
de animaes , on os cruzamentos com racas mais perfeitas e 
fortes, ou a escolha de individuos robuslos e com boas qua- 
lidades, escolhidos na propria raca que se busca modificar. 
Foi este ultimo systema o adoptado pelo sr. Andre Joao. 

Como meios de evitar a successiva degeneracao da raca 
siio indispensaveis assiduos cuidados , boa e abundante aii- 
mentacao , evitando-se ao mesmo tempo que a reproduccao 
se faca com os machos e femeas que nascem de ovos da mes- 
raa postura. 

Distinguir os bichos robustos dos fracos , os bons dos 
maus casulos, para nao confiar a reproduccao senao a ani- 
maes perfeitos, e indispensavel para o successivo aperfeicoa- 
racnto da raca. 

Para conseguir os sens iins, o sr. Andre Joao divide 



30 i A^i^^ES 

OS ovos da raca que quer aptM'feicoar cm qualro porcOes 
eguaes, e faz assim qualro crcacOes dislinclas. Tres dias dc- 
pois de nasccrcm os biclios da seda, poc sobre os taboleiros 
era que estes cslao uma rede que cobre de folhas frcscas ; 
OS bichos vigorosos sobcm para a rede, os debeis ficain nos 
taboleiros ; csles niio scrvcm para reproductorcs. Quando os 
bichos escolhidos teem formado casulo, escolhem-se todos os 
casulos mal conformados , que se deitam fora, e depois pe- 
sam-se quinhentos dos casulos bons, e deduz-se d'esse peso 
p^so medio de cada casulo. Feito isto, pesam-se todos os 
casulos um a um ; os que pesam mais que a media conteem 
em si as fcmcas , os que teem o peso medio sao uns ma- 
chos oulros -fenieas, os que pesam menos sao machos. Es- 
colhem-se, pois, para as femcas, so os casulos que leem peso 
superior a media. 

Para a escolha dos machos, que leem grande influencia 
sobre os productos da reproduccao, scgundo se prova pela 
experiencia , o sr. Andre Joao aproveita-se da circumstan- 
cia de serem, depois das mudas por que passam os bichos, 
OS machos mais forles os que primeiro acordam. Collocan- 
do uma rede sobre os bichos adormecidos , o sr. Andre 
Joao vai separando aquelles que , ao acordarem , primeiro 
sobem para csla rede onde colloca folhas frescas dc amorei- 
ra. Por csles dois processos o auctor d'esle excelienle sys- 
tema obtem uma collcccao de bons machos e de boas fe- 
mcas. 

Como fica dito , o sr. Andre Joiio em vez dc fazer uma 
creacao unica faz qualro , e aproveita-se d'isto para cvilar 
a copula entre individuos que tenham consanguinidade. 

Por csle methodo o sr. Andre Joao alcancou uma for- 
mosa raca que lein ale hoje escapado as doencas deslruido- 
ras dos bichos de seda. 

Esle exccllenle systema deve ser seguido para evitar os 
cslragos que causam, nao so as enfermidadcs coniagiosas , 



DAS SCIENCIAS E LETTRAS. 30o 

sonao tamboni a siiccessiva degenerescencia das racas Me- 
reccria elJe fixar a altencao das nossas sociedades agricolas 
que por todos os meios se devem empenhar em dcsinvolver 
enlre nos a creacao do bicho de seda , nao so para produ- 
zir OS casulos, mas para produzir scmenles boas , as quaes 
fioje sao pagas por alio prcco nos mcrcados da Europa 



JOAO DE ANDRADE CORVO. 



306 ANNAES 

OBSEUVATOUIO METEOIIOLOGICO DO I^FA^^ 



RESLMO 





r.AROME- 






fePOCHA. 






THERMOMKTBO. , 




TRO. 


^ ___^^^^ 


Thcrmomctros das tcmpe- 




m. d 


m. d 


1857 




Thermomctro. 


raluras limilcs. 






° 2 


i i '1.2 .2.2 


Abril 




Expos 
Asonil 


Maxii 

Minii 

Vaiia 
diuri 

Med 
do d 


Decadas. 


Milli- 


Graos ccnte- 


Graos ccntcsimaes. ' 




nu'tros. 


sirnacs. 




dal/ 


754,28 


15,22 


15,01 


16,72 


10,25 


6,47 


13,48 


Media. . » 2/ 


757,18 


16,52 


15,32 


18,99 


9,18 


7,81 


13,08 


» 3/ 


755,57 


18,12 


17,21 


18,75 


10,65 


8,10 


14,70 


Wedias do mez 


753,67 


16,62 


15,85 


17,49 


10,03 


7,16 


13,75 



Pressuo. 

Exlrcm.is I'^Isxinia (das 4 cpochas diarias), 763,39 cm 12 as 9 h. n. 

do mez. 

1 Minima » 748,71 » 5 » 9 h. ni. 

Variarao maxima 14,68 

Tempcraluru, 

I Maxima absoluta 24,7 em 23 

I Minima 4,4 » 16 

, Variaeao maxima '. 20,3 



DAS SCIENCIAS E LETTRAS. 307 

TE D. LLIZ, NA ESCOLA POLYTEGHNICA. 



MENSAL. 



PSYCHUOMETHO. 


ud6grai*ho. 


ANEMOGRAPHO. 


OZONOMETRO. 


SKRFNinADr: 
DO t:to. 




m. d 








m. d 


a 
Ml. d 


w. d 


Medias 


m. d 


Crnode humi- 


Altura da agu;: 


Rumos do 


diiirnas. 




clade (io ar. 


pluvial. 


vento. 






Por 100. 


Millimctros. 


Prcdoini- 
nanles. 


Gnios mc- 
dios. 


Gracs me- 
dios. 




TOTAl.. 








73,66 


14,8 


q.S.O. 


6,5 


2,3 


61,23 


0,3 


q.N.O. 


5.4 


4,2 


44,36 


0,9 


N. 


4,0 


6,8 




TOTAL. 








59,75 


16,0 


q.q.N.O.cS.O. 


5,5 


4.4 



iJIumidadc. 
Maxima (das 4 epochas diarias). . 98,9 em Ias9"m.e3t. 
Minima » 30,5 » 23 as 3 h. t, 
Variacao maxima 68,4 



Irradiacao nocturna. Differenca media mensal do thcrmomctro do mini- 
mo habitual ao de minimo na relva 4,09. 

Dins mais ou menos ventosos : 1,5,9, 10, 11,15, 19,20, 21,22, 23, 
24,25,26,28,28,29. 

Chuva ou chuvisco em: 1,2,3,4,5,9,10, 11,12,13, 14,15,25,26, 
30. 

Dias mais ou menos enncvoados : 2, 3, 7, 8. 



V. Quadro dns Obs. trihorarias. 



308 ANNAES 

OBSERVATORIO METEOROLOGICO DO INFAN 



RESUMO 



tl'OClIA . 


IIAKOME- 
TRO. 




THKBMOMETKO. 






m. d 


m. d 


Thermomelros das tcmpc- 


1857 




Thcrmomelro. 


raluras limilcs. 


Maio. 


< c 
o 


Exposto. 
A sombra. 


Maxima. 

Minima. 

Variarao 
diurna. 

Media 
do dia. 


Decadas. 


Milli- 
melros. 


Giaos cente- 
simaes. 


Graos cenlcsimaes. 


dal." 


750,03 


17,37 


16,86 


18,32 


10,71 


7,61 


14,51 


Medias . » 2." 


756,08 


20,33 


19,15 


20,94 


12,37 


8,57 


16,65 


» 3.' 


753,09 


17,22 


16,31 


18,45 


ll,6i 


6,81 


15,04 


Medias do mez 


753.07 


27,08 


17,40 


19,21 


11,57 


7,64 


15,39 



Pressaa. 

P . ^Maxima (das 4 ^pochas diarias). 759,79 eml2as 9 h. m. 

do mez. 

Minima » 74i,tO » 2i » 9 h. n. 

Variarao maxima .' 15,69 

Temppratura. 

Maxima absohila 26,5 

I Minima 7,7 

, Variacao maxima 18,S 



DAS SCIENCIAS E LETTRAS, 

TE D. LUIZ, NA ESCOLA POLYTECHNICA. 



309 



MENSAL. 



PSYCHROMETKO. 


UDOGllAPHO. 


ANEMOGRaPHO. 


OZONOMETRO 


SF.REMDADE 
DO CfiO. 




m. d 








m. d 


a 
m. d 


m. d 


Modias 


»n. d 


Gr;iodehumi- 


Altura da agua 


Riimos 


diurnas. 




dadc tloar. 


pluvial. 


do vonlo. 






Por 100. 


Millimetros. 


Prcdomi- 
nantcs. 


Graos nie- 
dios. 


Graos me- 
dios. 




TOTAL. 








59,70 


19,8 


q.S.O. 


6,3 


3,3 


66,84 


l,i 


Vario. ' 


5,2 


5,4 


69,47 


46.0 


q.q.S.O.eN.O. 


6,3 


1,7 




TOTAL. 








62,25 


67,2 


q.S.O. 


5,9 


3,4 



iHtimidade. 
Maxima (das 4 epochas diarias) 97,9 em 2i as 3 h. t. 
Minima » 44,4 » 5 ao m. d. 
Variacao maxima 53,5 

trradiagao nocturna. DifTerenca media mcnsal do Ihermometro de minimo 

habitual ao da relva 4,66. 
Dias mais ou menos ventosos : 6, 10, 15, 17, 18, 19, 23, 24, 25, 27. 
Chuva ou chuvisco em: 2, 3, 6,7,8,9,10,13,14, 15,17,21,22,23, 

24, 25; 26, 27. 
Trovoesem:2,7,15. 



V. o Quadro das Ohs. trihorarins. 



O DIRECTOR. 

GUILHEBMEJ. A. D. PEGADO. 



810 AMAES 

VARIEDADES. 



PRODIJCCAO EC01\0}IICA DO GELO. 



U consume do gelo vai sendo cada vez maior nas grandes cidades, 
e nos climas qncnlcs 6 hoje unia necessidade hygicnica. Poucos sao 
OS paizes onde seja lacil ter , por prcco convcnicnle , o gcio natu- 
ral , por isso a induslria cogila , com razao , em o produzir artili- 
cialmente. 

sr. Harrison de Geolong inventou modernamente um processo 
engenhoso para obter a congelacao da agua por meio do frio produ- 
zido pela evaporacao do ether. 

sou apparelho consta de tres partes distinctas : 

l.** Um vaso melallico disposto de modo que n'elle se possa fa- 
zer vacuo : e este o logar em que se deve produzir a evaporacao 
do ether. 

2." Um segando vaso destinado para servir de recipiente : e 
aquelle em que o ether, evaporado no primeiro, se ha de condensar. 

3.^ Uma bomba por meio da qual o vapor do ether se extrahe 
do primeiro vaso, e se comprime no segundo. 

Comprehende-se facilmente que, havendo feitoo vacuo no pri- 
meiro vaso, ali se vaporise o ether produzindo um frio consideravel ; 
tambem e facil de comprehender que, se este vapor se obriga a pas- 
sar para o segundo vaso, ahi o accrescimo de pressao o pode fazer 
condensar no estado de liquido, tornando-o proprio para nova eva- 
poracao. trabalho faz-se de um modo continue, e sem prejuizo 
consideravel de ether. Os dois vasos, estando cercados de agua, esta 
soffre um grande resfriamento em torno d'aquelle onde o ether se 
evapora, e se aquece, pelo contrario, era t6rno d'aquelle em que o 
vapor se condensa. Uma disposicao particular permitte conduzir para 
primeiro vaso o ether condcnsado no segundo. 

A unica despeza d'este processo e a da forca motriz que produz 
a aspiraciio e a comprcssao. A bomba pneumalica e posta em movi- 
mento por meio de uma machina de vapor que nao exige senao uma 
pequena quantidade de combustivcl. sr. Harrison calcula que 
uma tonelada de carvao, empregado com economia, fornece a machi- 
na a faculdade dc produzir quatro toneladas de gelo. 



■^^^>- 



— <^D^' 



S 



AINN4ES D4S SC1E^CI4S 



LETTRAS 



i; CLASSE. 




~^<^D^- 



AIVNAES 



DAS 




SCIENCIAS E LETTR4S, 



PU' - »'^ ' ^-^ DEBAIXO DOS AUSPICIOS 



ACiDEMIA REAL DAS SCIENGIAS. 



mum MATMMTICAS, PBYSICAS, HISTOSICO-MTIIBAES, E HEDICAS. 



TOMO I. 

TRIMEIRO ANNO. 

AGOSTO DE 1857. 



LISBOA 

NA. TTPOGR\PHIA DA MESMA ACADEMIA 

1857 



INDICE 

DOS ARTIGOS CONTIDOS n'eSTE KUMERO. 



*t> 



TRABALHOS APRESENTADOS A' ACADEMIA. 

PAG. 

RECONHECIMENTO gGologico 6 hydrologico .'los lerrenos 
(las \isinhancas de Lisboa com relacao ao abasteci- 
menlo das aguas d'esta cidade, pelo sr. Carlos Ri- 
beiro 311 

NOTiciA hislorica do hospital das Caldas da Rainha . . 332 

RECTiFicACAo da formula do acldo solido do sebo do 
brindao 3^8 

REViSTA dos trabalhos chimicos 3oi 

REViSTA eslrangeira. — Marco 3o7 

oBSERv.\TORio nicleorologico do Infante D. Luiz, na Es- 
cola Polytechnica 370 



VARIEDADES 



37 i 



DAS SCIENCIAS E LETTRA.S 311 

TRABALHOS APRESENTADOS A ACADEMIA. 



RECONHECIMENTO GEOLOGICO E HTDROLOGICO DOS TERRENOS DAS 
VISINHANCAS DE LISBOA COM RELACAO AO ABASTECIMENTO DAS ;. 
AGUAS d'eSTA CIDADE, PELO SENHOR CARLOS RIBEIRO. 



2.' SECCAO. 

CONSTITUICAO GEOLOGICA DO SOLO. 
(CONTINUACAO.) 



J\ochas igneas. — As rochas igneas consliluera iima das 
mais imporlantes formacoes do districto que se consid«ra. 
Ellas pertencem a tres cathegorias diversas : os granilos da 
serra de Ginlra ; as dioriles de Monle-Mor ; e a formacao ba- 
saltica propriamenle difa , que se estende em largas fachas 
sobre massico Occidental e terreno adjacpnte. 

. Granitos da serra de Cintra. • — Os granitos estao. ex- 
clusivamente limilados a cadeia de monies denominada serra 
de Cintra. Como nao tive occasiao de me demorar no exa- 
me d'esta serra o. tempo necessario para poder fazer uma 
descripcao propria, copiarei texlualmente a descripcao que 
\em na Memoria de Sharpe. 

« A rocha predoniinanle e o granito, formado de porcoes 

TomoI.-Agostode 1857.-1." Cla9.^k. 21 



312 ANNAES 

quasi eguaes de qiiarlzo e feldspalho, com pouca mica ; mas 
em alguinas paries conlem ferro magnelico, dissiminado em 
peqiienos graos. As paries cenlraes dos monies sao, em toda 
acadeia, formadas dc granilo de grao grosso, que se divide 
em fragmcnlos grandcs irrcgulares, e as porcocs exleriores 
de um granilo molle de grao fmo com lascado schisloso. Em 
alguns iogares o grao e lao fino , c o lascado em losangos 
tao dislinclo, que a rocha poderia lomar-se erradamenle co- 
mo gres, se nao se reconhecesse a passagem para um gra- 
nilo , que apresenla os seus caracleres ordinarios. Proximo 
de Cinlra a espessura d'esle granilo schisloso nao e grande, 
mas perlo do Farol e mais consideravel, e a parlicularidade 
do seu caracler mais pronunciada. Link ' descrevendo esle 
silio, parece estar em duvida a respcilo da sua nalureza, e 
chama-lhe granilo passando a gres. Na eslrada para o Farol 
ha muilos exemplos de v^as de um granilo duro de grao 
mais grosso no granilo schisloso ; mas as varicdades passam 
umas as outras , parecendo que foram formadas ao mesmo 
tempo. 

« Para a extremidade da cadeia apparecem rochas sye- 
nilicas, e porphyricas em muilos Iogares, e a capella da Pe- 
ninha assenta sobre a junccao de uma massa de porphyro 
feldspalhico deconiposlo com o granilo. 

« Proximo da Alalaya, colhi alguns fragmenlos sollos de 
magnifico porphiro vermelho no leilo de uma torrenle. Nao 
ha n'este logar seccao que mostre as posicoes relalivas do 
granilo e do porphiro, mas por ludo que eu pude ver, con- 
sidero-os como lendo sido formados conlemporaneamenle. 

« granito e em muilos Iogares entrecorlado de \'6as , 
parlicularmenle proximo da exlremidade da Cadeia. 

« Perlo da Alalaya c alravessado por uma \ea muilo del- 

* Geo!, und Min. Bemcrkungen anf einer Reise durch das sud- 
westliche Europa p. 59. 



DA.S SCIENCIAS E LETTRAS. 313 

gada de granilo inteiramente dislincto da inassa da rocha, e 
em uma ravina proximo do mesmo logar ha duas veas que 
alravessam o granite, uma d'ellas horizontal de 2 pes de es- 
pessura, e de caracter sycnilico, a oulra prependicular e de 
menor imporlancia. Ambas estas veas passam tao gradual- 
mente ao granite , que devem ter side formadas contempo- 
raneamenle com elle. Perto de Cinlra achei uma amestra de 
granilo entrecertade de muitas veas, algumas d'ellas nao 
mais espessas de que uma folha de papel, e, por lanto, nao 
de\idas a injeccae da materia granitica em fendas. Proximo 
da capella da Peninha, delgadas veas de granite alravessam 
tambem o porphyro. » 

Diorites de Monte-Mor. — As diorites moslram-se em 
differenlcs pontes do massico Occidental, e na zona de ter- 
rene que corre ale per to da Ericeira ; perem o local onde 
estao mais desinvolvidas e na serra de Monte-Mor entre Ca- 
necas e Loures, occupande com um largo alHoramcnto a par- 
te media e a alia da monlanha ende esta e signal geodesico ; 
aqui apresentam-se em massas spheroides ate ae volume de 
l"", dispeslas umas sobre as outras, assimilhando-se no as- 
pecto exterior ae granite globular da nessa peninsula. Sao 
porphyroides , de grao grosso, e de cor amarella de tabaco 
pela alleracao da amphibole. 

As camadas de marnes e de calcarees de Bellas , estao 
evidenlemenle alteradas por aqucllas rochas a penle de se 
confundirem com a mesma dierite alterada e terrosa, come 
pode observar-se no caminho de Canecas para as quintas da 
Torre e da Bal^a. 

A montanha de que fallei, que tern sobre o mar a altura 
de 304"", deveu a sua elevacao aes basallos, que se veem 
afllorar na meia encosla, insinuados na massa das diorites , 
e no meio das camadas crelaceas que se deslocaram e fra- 
cluraram em pcquenas massas e retalhos, e nao a injeccae 
das mesmas diorites , posto que occupem a parte mais ele- 

21* 



314 ANNAES 

vada da montanha ; parecendo, ao conlrario, que lanlo n'este 
ponto como nos outros do districlo onde eslas ullimas rochas 
se mostram , a sua accao dynaraica foi mui pouco inlensa. 
No sitio das Aguas-Livres, acinia do Carenque, nas pedrei- 
ras do Caslanhciro , e na margem esqiierda da ribeira de 
Valle dc Lobos, entre as nascenles dos Loyos, c a margem 
esquerda do ribelro de Molhapao, mostram-se pequenos, po- 
r^m mui frequentes afHoramentos de diorilc porphyroid« atra- 
vessando os stralos dos primeiros Ires grupos do andar de Bel- 
las, convertendo os gres e os calcareos, com que se achara 
em conlacto, em rochas porphyroides, infiltradas da substan- 
cia da diorile. Alem d'estes ha oulros aftloramentos de dio- 
rite, concorrendo, parte d'elles, com os basaltos na margem 
esquerda da ribeira de Gheleiros sobre a eslrada de Mafra, 
na Terruje, Odrinhas, Alvarinhos, no caminho de Bellas a 
Ericeira , nos granites da serra de Ginlra, e flnalmente en- 
tre Rio de Mouro e S. Pedro, atravessando os calcareos do 
quinto grupo do andar de Bellas. 

Fonnacao basallica de Lisbon. — A formacao basallica 
occupa uma grande extensao superficial ao Norte de Lisboa, 
mas distribuida em zonas de formas tao irregulares, que so 
a inspeccao do ruappa pode dar uma idea d'ellas : reconhe- 
ce-se por^m que ha duas bandas ou fachas principaes, dis- 
postas proximamente de Poenle a Nascente, das quaes uma 
se estende de Campolide ate proximo de Talahide , e oulra 
mais ao N que vem das margens da ribeira do Trancao , e 
Vialonga ale ao Almargem do Bispo ou mais propriamenle, 
ate proximo de Pero Pinheiro, ligadas a E por outra de me- 
nor extensao, limitada pelos \allcs das ribeiras de Loures e 
de Odivellas. 

Ainda, alem d'estas, ha afiloramentos de basalto , e de 
diorite muito menos extensos , em Montelavar na margem 
esquerda da ribeira de Gheleiros , no Alto do Cartaxo , no 
Ulmeiro 2,6* kilometros ao N de Cintra, no Suimo, naFon- 



DAS SCIENCIAS E LETTUAS. 315 

teireira , junto de Bellas e da Vcnda Secca , iia Cabeca de 
Montachique, e oiitros nas visinhancas da Ericeira, Mafra e 
Azueira. Apesar da pouca extensao d'alguns , sao todavia 
muilo frequenles em toda a zona que se esteude ale ao lio 
Sizandro. 

' Os earacteres d'estes basaltos sao exiremamente varia- 
veis : em umas paries sao cryslallinos e porphyroides com 
grandes crystaes de pyroxene e de oivina, n'oulras sao du- 
ros e de textura compacta ; n'oulras sao bolhosos passando 
a wake conlendo nucleos de spatho calcareo : muitas vezes 
apresentam-se em massas espheroides de capas concenlricas, 
iriais compaclas que cryslallinas ; oulras, finalmenle, lomam 
caracler d'uma rocha lerrosa endurecida , com apparenle 
slratificacao e lascado schisloso , mais ou menos perfeilo ; 
passando todas estas variedades umas as oulras por transi- 
coes insensiveis. 

Aspecto com que se apresenlam os basaltos. — Esta gran- 
de formacao basaltica apresenla-se de Ires modos : 1," rom- 
pendo as rochas sedimenlares ; 2." estendida em mantos ; 
3," allerando os slratos aquosos , e communicando-lhes os 
seus proprios earacteres de uma maneira mais ou menos 
pronunciada. 

Basaltos que rompem as rochas sedimenlares. — Os ba- 
saltos da serra de Monte-Mor, das Sardinhas, e do Almar- 
gem do Bispo, deslocaram evidenlemenle as camadas de cal- 
careo, e de gres do 5." e 6.° grupos do andar de Bellas, e 
as do calcareo de caprinulas entre Correio-Mor , serra das 
Sardinhas , e \alle de Nogueira, levanlando-os em angulos 
que chegara a 85" para N, e para N 15' E, indo os calca- 
reos de Ollelas, que perlencem ao 5 ' grupo, ale 60° para o S. 

affloramenlo basalUco do Ulmciro ao N de Ginlra des- 
locou similhanlemenle as camadas do li." grupo, que vao a 
Mem Martins e Algueirao, em angulos de 20 a 50" para o 
S, e se se exceptuarem alguns accidentes, de que mais adian- 



316 \NNAES J', i;.. ;! 

tcdarei conla, lodos os slralos do andardT3 Bellas, que cor- 
rem do Algueirao a Canecas, comprchcndidos polos ponlos 
de erupcao de Monte-M6r, serra das Sardinhas, Almargem 
do Bispo e do Norlo de Cinlra, inclinain para o Sul. 

E ainda para o Sul que so vcVmd mergulhar os stralos 
nas margens da ribeira de Cheleiros, e no Monle do Carta- 
xo, enlre a dila ribeira e a Egreja Nova ; onde os basaltos 
tizorani erupcao , deslocando fortomenle as camadas do an- 
dar de Bellas. 

Na zona basallica mais meridional nao se \6em centres 
eruplivos tao bem delinidos como os precedentes ; parecen- 
do ter sido feita a iujeccao por fendas dirigidas de Nascente 
a Poente, por ser lanibem para o Sul que se manifesia a in- 
clinacao geral dos slralos cretaceos da margem direila do 
Tejo. Em geral, todas as camadas crelaceas, nao so do mas- 
sico Occidental , mas ainda as que cobrem a zona que \ai 
da serra de Cinlra ao longo do Oceano ale perlo da foz do 
Sizandro, e terminam na linha que \em do Turcifal a Alhan- 
dra, teem, salvas algumas cxcepcoes, a inolinacao geral pa- 
ra S, ou proximo d'esle rumo, e em algumas partes , para 
N, precisamente a mesma que as erupcoes em questao da- 
ram as camadas que deslocaram. 

! ' Basallos eslendidos cm mantos e alteracao por ellespro- 
(luzida- nas rochas sedimentares. — A outra parte das rochas 
basalticas aprcsenta-se derramada por cima dos slratos mais 
modornos do andar de Bellas e dos calcarcos de caprinulas 
c do spheruliles. Na facha mais septentrional comeca o ba- 
salto a v6r-se do fundo da grande depressao, que vai do To- 
jal para o Tojalinho, a de Loures ; espande-se, ascenden- 
do, do S para o N pelas oncostas das monlanhas calcareas, 
que Yjto de Vialonga a Gabeca de Monlachique, c que guar- 
nccem a margem esquerda da ribeira de Loures , e conti- 
nuando depois pela serra dos Bolorcs e Covas de Ferro ao 
Almargem do Bispo, vai occupar as coroas d'eslas alturas, 



DAS SCIENCLVS E LETTRAS. 317 

como se fora niais uma serie dc slralos accrescenlada a for- 
macao sedimenlar , cobrindo conslantem3nle o calcareo de 
caprinulas e de spheruliles. Observa-se porem que em Fa- 
nhoes, na margem do pequeno ribeiro que vem de Gazainhos, 
surgem do interior da terra massas prismalicas de basallos 
corladas a prumo , supporlando camadas de marmore com 
spheruliles, dando-se um phenomeno similhante na falha do 
Trancao, ajuzanle daponte nova, quasi defronle da fabrica 
do papel do Tojal. 

Ha tambem a notar n'estas localidades a accao exercida 
pelos basaltos sobre os stratos do conglomerado do andar 
mais moderno do periodo cretaceo. Junto a S. Roque , no 
caminho de Loures para o Tojal, ha uma possanle camada 
de calcareo cellular, com as cavidades cheias de massas ba- 
salticas ale ao tamanho de macas, e os seplos que as sepa- 
ram, formados de calcareo lerroso e semi-crystallino, jazcn- 
do esta camada enlre os gres grossciros do conglomerado. 
Na continuacao do mesmo caminho , antes de chegar a re- 
giao dos calcareos do cretaceo medio ha uma alleracao dos 
gres, das argilas, e das rochas calcareas do mesmo conglo- 
merado , devida a penetracao do basallo no meio da massa 
d'esfas rochas, e a infillracao n'ellas da sua subslancia. 

Na zona basaltica meridional as camadas do marmore 
de caprinulas de Alcantara , serra de Monsanto, e de Bar- 
carena, estao pela maior parte descobertas de rochas basal- 
ticas ; em quanlo que as injeccoes d'estas rochas se cstendem 
desde o leilo do Tejo para o Norte, e saindo por baixo , e 
dos lados dos retalhos d'aqucllas camadas, \ao assentar so- 
bre OS calcareos do primeiro grupo do andar de Bellas, apre- 
sentando o seu limite em Carenque, Bellas, Agualva, e Ma- 
nique ; apparecendo lambem n'esta zona os gres e rochas 
grosseiras , da formacao dos conglomerados, allerados pela 
presenca e accao dos basaltos que se encontram cnlrc Vale- 
jas e Carnide. 



318 ANNAtS 

Eslou porem longe dc considerar a tolalidade das rochas 
que occupani eslas zonas, conio scndo exclusivamente de ori- 
gem ignea. As rochas basalticas de fracliira terrosa com las- 
cado schislosD , e cOi* cinzeiita , iiiais on menos carregada , 
passando a outras em slratos com aspeclo de schislo argilo- 
so fino \erdoengo, e de crer que sejam antes rochas mela- 
morphicas, do que de origem ignea ; pelo menos as camadas 
melamorphicas e interstraficadas nos gres e argilas, que pou- 
sam sobre os basallos no silio da Amadora, teem os mesmos 
caracteres das outras, que se acham mais ionge e scm imme- 
diala rolacao com os stralos de evidenle origem scdimenlaT. 

Cumpre lambem nolar que comiwrando o andar de ca!- 
careos de caprinulas, dos pontes proximos as zonas basalti- 
cas, com a parte que se observa enlre Lourel e Cavalleiray 
ao N de Cintra , se ve consideravelmenle rcduzido em pos- 
sanca, na parte que corresponde as ditas zonas, faltando os 
membros iuferiores nos retaihos de Alcantara, Monsanto, e 
liarcarena, e os superiores na serra de Bolores, Penedo do 
Gato, Salemas, Fanhoes, e oulros pontos : ecomo estas par- 
tes nao podiara desapparecer totalmente por denudacao, sem 
que desapparecessem tambem os conglomerados em uma par- 
te, e OS calcareos de Alcantara cm outra , o que effectiva- 
mente nao aconteceu , 6 claro que se os diversos membros 
da formacao nao apparecem, e porque mudaram de caraoter 
mineralogico e de eslruclura, achando-se converlidos por me- 
tamorphismo na rocha de aspcclo basaltico , e confundidos 
com verdadeiro trappe em arabas as zonas que se teem des- 
cripto. Assim esle phenomeno pode ser considerado como d'a- 
quelles que se diio nos jazigos de conlacto , nao faltando , 
sequcr , a esta paridade , urn conglomcrado ferruginoso , e 
diversas injeccoes de oxido de ferro, mcsmo no contacto com 
as rochas calcareas, em Villa Cha, por cima da Amadora , 
no Penedo do Gato, ao lado da Ponte de Louza , e em ou- 
tros logares. 



DAS SCIENCIAS E LETTRAS. 319 

■ ^'Conclusao. — Da breve exposicao dos factos e conside- 
racoes que deixo feilas se conclue, que as bacias tcrciaria e 
crelacea das visinhancas dc Lisboa nao leem a forraa singela, 
a disposiciio e a continuidade physica de slralos , com que 
se apresentam, para alem dos Pyreneos, as bacias lypos da 
raesma edade, como, por exemplo, as de Paris. u'a^ i;:a!'' 
As bacias terciaria e cretacea d'esta ultima regiao, pela 
uniforaiidade do caracter mineralogico dos seus differentes 
membros ; polos bem conservados e definidos horizontes geo- 
gnosticos ; e pela simplicidade de formas e de condicoes do 
seu relevo orographico, prestam-se, digamol-o assim, a urn 
esludo regular e facil ; outro tanto poreni nao acontece as das 
visinhancas de Lisboa , sobre as quaes as forcas interiores 
do globo exercem duradoura accao metamorphica e dynami- 
ca ; comecando precisamente no mesmo periodo em que se 
depositaram os stratos, perlurbaram o caraclor mineralogico 
de algumas rochas, desarranjaram a conlinuidade e unifor- 
midade das camadas, deslocando-as em differentes sentidos, 
e dando ao solo um relevo coraplicado e variadissimo. In- 
dicarei , pois , de um modo geral e breve , quaes foram os 
phenomenos mais principaes produzidos por essas forcas in- 
teriores ou qual foi o modo como o solo crctaceo e terciaria 
das visinhancas de Lisboa reagiu contra ellas, 

3/ SECCAO. 

CONSIDERAOOES GERAES SOBRE AS MUDANgAS OCCORRIDAS a' StJPEBPI- 
CIE DO SOtO Dl^SDE A e'pOCUA DO TERUEISO CRETACEO 

ate' a' e'pocua receme. 

Movimento do solo no periodo dos grupos cretaceos in- 
ferior e medio. — Disse acima que os raarnes de Safarujo 
assentam sobre a formacao do oolite superior de Torres Ve- 
dras scm a interposicao de oulro qualqucr membro do ter- 



320 ANXAES 

reno crctaceo inferior, tendo por limile a linha que une Mo- 
^afaneira a Alhaiulra ; cm quanlo que a formacao neocomea- 
ua apparcce na margeni direita do Sizandro , e se eslende 
para a parte N da Eslremadura e da Beira ; accrescentarei 
agora j que pela parte anterior d'aquclla linlia existe uma 
ruga montanhosa, formada de stratos do oolite superior, que 
corre desde a serra da Villa ate Alhandra, sobre a qual, pe- 
la sua encosta SO, vao dcscansar as camadas dos marncs de 
Safarujo. Esta ruga, na posicao que hojc lem, ou uin pouco 
mais proximo da linha EO, com toda a exteusao , que Ihe 
fica a S, parece que preexislira aos depositos das arenatas e 
calcareos neocomianos, conser\ando-se emersa durante o pe- 
riodo d'esta formacao , que cstcndeu os seus stratos ; desde 
as proximidades de Torres Vedras e Alcoentre, ate entre o 
Vouga e Douro ; no fim porem d'esta epocha, uma oscil- 
lacao do solo submergiu toda a parte S da referida ruga , 
deixando-a coberla pelo mar do periodo crelaceo medio, que 
dcpositou as camadas de Safarujo e os andares da Ericeira 
e Bellas ; erguendo-sc do outro lado acima d'este mar, e for- 
mando-lhe parte das coslas, o solo da nossa peninsula com 
OS stratos neocomianos que anleriormente linham sido depo- 
sitados. 

Direccao em que obraram as dioriles e seus effeilos ge- 
raes. — Se exceptuarmos o granito, e a diorile uma das ro- 
chas igneas, que se apresenta com mais frequencia em todo 
Portugal, a qual deve o nosso solo um grande numero das 
suas deslocacocs, e uma parte das formas do seu actual re- 
levo. Comecando a exercer a sua accao desde o periodo da 
bulla, veem-se modificar fodas as rochas sccundarias, che- 
gando ate ao andar de Bellas, onde, por seu lurno, sao tam- 
bem alravcssadas pelos basallos da serra de Monte-Mor, que 
vieram a superlicie do solo, no nicsmo periodo crctaceo. E 
ainda a esfas rochas que o lerrcno oolitico portuguez deve 
muitos dos seus accidcntes, morraente a parte do oolite supe- 



DAS SCIENCIAS E LETTRAS. 321 

rior, que se eslende desde Torres Yedras e Alhandra at^ Lei- 
ria e Cabo Mondego ; nao podendo, por consequencia, dei- 
xar tambem de desarranjar mais ou menos da sua posicao 
normal, as camadas do crelaceo medio depositadas enlre Tor- 
res Vedras e Lisboa. Cumpre agora exominar o sentido em 
que esta ac^ao se exerceu, e o grao de deslocacao que im- 
primiu a eslas mesoias camadas. 

Sem me fazer cargo de moslrar n'este logar quaes foram 
OS difFerentes sentidos em que as diorites romperam o nosso 
solo, e OS variados accidenles, que produziram no seu rele- 
vo, b"mitar-me-hei a dizer , que uma grande parte das des- 
locacoes EO , que se observam nos nossos terrenos schislo- 
sos e granilicos da Beira, sao exclusivamenle devidas a emer- 
sao das diorites ; concordando com aquella direccao uma 
grande parte dos filOes de cobre e de chumbo dos dislriclos 
de Gastelio-Branco e Aveiro. Eslas deslocacoes reproduzidas 
uos terrenos secundarios da Beira e Estremadura, e subor- 
dinadas a posicao dos alHoramentos dioriticos, nao so levan- 
taram as camadas ooiiticas de muitos pontos da nossa zona 
iitoral , como as de Athouguia e serra d'EIrei , proxima- 
raente na direccao EO , mas deslocaram no mesmo sentido 
a formacao neocomiana, na Gancaria por exemplo, sobre o 
caminho de Rio Maior para Alcancde , onde tambem appa- 
recem as diorites sobre a respectiva linha de sublevacao : 
por tanto as diorites que perturbaram as camadas do oolite 
superior, e as neocomianas da Gancaria, Athouguia, serra 
d'EIrei, Obidos, Alcanede, e de outras localidades, deviam 
forcosamente ter estendido a sua accao ate ao crelaceo me- 
dio do Norte de Lisboa, no periodo em que esles slratos se 
depositavara ou no fim d'elle proxiraamente. 

Examinando-se a monlanha que se levanta a E e ao S 
das Pontes grandes e de Canecas, e entre a Amorcira e Ada- 
beja , encontram-se as camadas de caprinulas, e spheruliles 
assentando sobre o calcareo do 5." grupo do andar dc Bol- 



322 A^NAES 

las, cujas camadas inclinam 5 a 10" para o S, quando o 
seu logar devia ser sobre o prinieiro grupo d'aquelle mesmo 
andar, se a passagein das formacOes do'lerreno crelaceo me- 
dio as do superior, se tivesse feilo sem deslocacao do solo. 
Este facto nao se observa so n'este ponto, enconlra-sc lain- 
bem torneando a monlanha de Monte-Mor ale ao Correio- 
Mor, perto de Loures e na descida do Aigueirao para o Cam- 
po, a uns 8 kilometros a NO de Bellas. Ora, como a des- 
locacao n'aquelle senlido affccla lodos os slractos das duas 
formacoes do crelaceo medio, enlre Lisboa e Torres Vedras, 
claro esta que cste movimento se raanifeslou antes de se de- 
positarem as camadas de caprinulas , ou do crelaceo supe- 
rior. Esta deslocacao nao se fez porem senlir d'um modo 
lio prouunciado em loda a exiensao onde estas duas forma- 
coes eslao sobreposlas , que nao pcrmillisse que em alguns 
logares, como no caminho de Santo Anlao do Tojal para Bu- 
cellas, todos os grupos d'essas formacoes se achem represen- 
tados ; mas este facto e outros similhanles * nao podem p6r 
em duvida a perlurbacao que leve logar entre as ciladas 
duas epochas, porque, longe de ser um phenoraeno simples 
e local, correspondeu immediatamente a um abatimento ge- 
ral do solo , que levou o mar crelaceo a cobrir as arenalas 
e calcareos neocomianos da Beira e da Estremadura, sobro 
os quaes se deposilaram as camadas de caprinulas e de sphe- 
rulites que apparecem em Leiria, Opea, Carangucjeira, Ar- 
nal , Rebolaria e outros silios , idenlicas as de Alcantara e 
Pero Pinheiro. 

* Os stratos mais superiores do 1 .° grupo do andar de Bellas, 
([uc formam a cornija mais meridional que vai de Villa Cha a Ida- 
nha, ao Papel e Alfamil, sao de marmore branco manchado de ver- 
melho rosado similhante ao do calcareo de caprinulas ; e em uma 
ultima visita que fiz a estas localidades , por alguns restos fosseis 
eucontrados enlre o Cacem e Cancna , rcconheci qne cstes stratos 
pertencem effeclivamcnte a parte inferior do andar de Alcantara. 



DAS SCIENCIAS E LETTRAS. 323 

Erupcao dos basaltos. — Periodo provavel da sua eleva- 
cao e sens effeilos. — Nao foi de certo urn periodo de tran- 
quillidade nas \isinhancas de Lisboa aquelle em que se de- 
posilaram as camadas do andar de caprinulas. Os bancos do 
calcareo fiuo, e as repelidas camadas de conglomerados cal- 
careos , de gres grossciros, de argilas de differentes cores, 
calcareos celluloses e de marnes com que allernam ; bem 
assim a desegualdadc de numero e de caracter mineralogico 
de muilos d'esles membros , que se observa em differentes 
pontos , sao factos que altestam uma conlinuada osciilacao 
do solo, elevacoes e submersoes, que trouxeram comsigo a 
solucao de continuidade de muitos slratos, e a ausencia de 
outros. Eslas oscillacoes nao foram comtudo devidas a cau- 
sas geraes, ou que acluassem em grandc escala, porque la 
esta em Opea, Lapedo, Leiria e outras partes, o andar onde 
apparecem so as camadas de marmore com spherulites e ca- 
prinulas acompanhadas de alguns marnes e argilas, fallando 
todas as rochas arenosas, que se veem em Alfovar, nas vi- 
sinhancas de Lourel perlo de Cinlra e n'outros sitios. 

Taes oscillacoes devem reputar-se como o preludio da 
grande erupcao basaltica das visinhancas de Lisboa , e do 
transtorno produzido em lodas as camadas das formacoes 
crelaceas d'este districto. 

Se, por um lado, a accao dynamica dos basaltos come- 
cou durante o periodo em que se depositaram as camadas de 
Alcantara e de Pero Pinheiro, como parece provado por gran- 
de numero de factos, por outro, o cstado e composicao mi- 
neralogica d'essas mesmas camadas diz-nos, que a verdadei- 
« e intensa erupcao d'estas rochas so livera logar no fim 
d'aquelle periodo. Passarci, por tanto, aexpor os factos era 
que me fundo para aprescnlar este juizo. 

Ja acima notei que as camadas que formam o massico 
Occidental teem geralmente a direccao EO, e bem assim que 
«ks crelaceas que se estendem ate ao oolite superior de Tor- 



324 ANNAES 

res Vedras , inclinam para S em quasi toda a extensao da 
supeificie queoccupam ; veremos agora, que este faclo con- 
corda evidenlcmenle com a posicao dos terrenos ondc o ba- 
sal to se apresenla. 

A monlanha do Carlaxo, acima dc Chellciros , e a Ca- 
beca de Monlachique, ambas com aflloramentos de basallo ; 
as collinas, lambcm de basallo, que vao do Caccm a Porca- 
Ihota , e de Talaide a Queluz ; a serra dos liolores e a das 
Sardinhas — leem a direccao EO , as camadas , que foram 
deslocadas pelos basallos inclinam ao Sul ou ao Norle : con- 
clue-se por lanto, que eslas rochas igneas fizeram seguimenlo 
as diorites , actuando na direccao preexislenle das camadas 
do crelaceo medio, e manifcslando a sua crupcao geral pa- 
rallelamente a essa mesma linha. 

Observa-se por oulra parte , que as camadas da forma- 
cao terciaria miocene, que enlram pela maior parte na cora- 
posicao do massico Oriental, teem uma inclinacao constante 
para SE, e assenlam sobre arenalas e conglomerados de um 
caracter especial , que, em geral, inclinam para o S , scm 
que osstratos d'aquella formacao apresentem o mais leve in- 
dicio de alteracao pelas rochas trappicas : nao se pode por 
lanto p6r em duvida, que a erupcao basallica teve logar an- 
tes do deposito d'esta formacao terciaria. 

Com effeito , interprelando attentamenle lodos os factos 
que dizem respeito aquellas camadas dc conglomerados , e 
confronlando-os com os phenomenos acima indicados, reve- 
la-se-nos na sua composiciio mixta; na passagem dos seus 
stratos ao wake , e a outras rochas basalticas ; na altera- 
cao metamorphica mais ou menos local d'esses mesmos stra- 
tos ; na injeccao dos basaltos no meio das suas camadas ; 
na repetida mudanca das suas arenatas , e dos marnes em 
conglomerados ; na mudanca de composicao dos marmores 
brancos mui fines, que succcssivamente se foram carregando 
de ar6as, e passando a conglomerados calcareos com gran- 



DAS SClEiNCIAS E LKTTRAS. 325 

des fragraentos de pederneira ; e finalmenle na concordancia 
de stralificacao com as camadas de caprinulas — que a eru- 
pcao basallica teve logar debaixo do oceano cretaceo no fini 
do pcriodo d'estas ullimas camadas e durante a epocha do 
conglomerado superior. 

A lava basallica fez erupciio a superficie do solo por uma 
scrie de pontes situados nas zonas , que se veem marcadas 
no mappa , e que circumscrevem a parte do massico com- 
prehendida entre valle de Nogueira, Sabugo e Bellas. A ac- 
cao volcanica fez derramar a lava basallica em partes, e le- 
vou seu poder e energia melamorphica aos stratos mais 
proximos das zonas eruptivas, modificou mais ou menos pro- 
fundamenle os calcareos, os marnes, as argilas e as rochas 
arenosas da formacao do calcareo de caprinulas, e commu- 
nicou-lhes, pela infiltracao, caracteres mais ou menos simi- 
Ihantes aos da rocha basallica , a ponto de se confundirem 
com esta rocha. Egual phenomeno se produziu nas camadas 
de conglomerados que se formaram proximo dos centros eru- 
ptivos ou dos mantos de lava, como se observa nos retalhos 
que estao a beira do Tejo abaixo de Lisboa, em Carnaxide, 
Valejas, e em Queluz, Amadora, Pinteus, e Santo Antao do 
Tojal, ao passo que as camadas, que por mais affastadas, fi- 
caram fora da esphera da accao volcanica, como as que se 
veem no valle da Porcaihota a Odivellas , e no de Loures , 
nao sofFreram alteracao sensivel no seu caracter mineralo- 
gico. 

Do exame de todos os factos ponderados resulta o reco- 
nhecimento de que a exlinccao da actividade volcanica dos 
basaltos^ e a emersao de lodo o massico de rochas cretaceas 
ao Sul da ruga montanhosa , que passa pela serra da Villa 
junto de Torres Vedras , se completou correspondentemenle 
ao fim do periodo cretaceo ; sendo tambem provavel, que es- 
1a emersao correspondesse a elevacao da grande cadeia dos 
Pyreneos. 



326 ANNAES 

;.; •: Primeiro delineamento da linha divisoria das oguas. — 
Parece pro\avel que entao fosse delincada a linha divisoria 
d'aguas do grande massico Occidental, dirigindo-se do alio 
da serra de Monle-Mor pclas alluras de D. Maria, Sabugo, 
e Rolhados : csla linha dcterminada pelos dois cenlros eru- 
ptivos de Monle-Mor ao Nascenle, e de S. Roque ao Poen- 
te ; foi mais tarde pcrlurbada pclos subscquenles movimcn- 
tos do solo. 

A accao dynamica dos basaltos produziu ainda o abati- 
mcnto dc todx) o solo ao Nascenle e Sul das emersoes basal- 
ticas, em que se coniprehende aclualmenle o massico Orien- 
tal , leilo e a margem esquerda do Tejo ; delcrminando 
lambera divcrsas linhas de sublevacao, de imporlancia pura- 
mente local, taes como o valle de Alcantara, e a elevacao 
da serra do Monsanto. 

u\y Jimcrsao dos granilos da serra de Cinlra. — Ergueram- 
se em seguida a eslas oscillacoes , os granilos da serra de 
Cinlra, deslocando todo o lorreno crelaceo, entre o Oceano 
e S. Pedro , n'uma exlensao superficial de perlo de selenta 
kilometros quadrados , e deslacando pcquenos relalhos d'a- 
quellas formacOes, cujos caracleres alleraram pela accao me- 
tamorphica, que sobre elles cxerceram. 

As camadas do lado N da serra perlencentes ao 1.° gru- 
po do andar de Bellas, deslisarani, pelo piano de contaclo 
ao longo dos granilos, ate proximo do nivel do Oceano, suc- 
cedendo o contrario as do Sul , que cobrem a encosla gra- 
nitica a mais de 100"\ Pelo Nordesle e Nascenle abriu-se 
uma faiha , na qual se Icvantaram ale a vertical, os calca- 
reos do o." grupo do mesmo andar , lendo abalido para o 
lado do Occidente lodo o terreno adjacenle a linha quo vai 
do AigueirJio ao Sabugo ; linha que hoje serve de divisoria 
as ribeiras de Rio de Monro, Garganlada e Valle de Lobos, 
para o Norle do Algueirao. As camadas d'esle grupo apre- 
sentam grandes inclinacocs entre Rio de Monro , e Cinlra ; 



DAS SCIENCIAS E LETTRAS. SH 

alterando successivaniente o seu caracter mineralogico nas 
immediacoes da serra ale ao ponto de se converlerem era 
schislos ; e os grupos dc Bellas, com a facha basaltica que os 
giiarnece pelo Sul, ccdcndo a pressao que sobre elks cxcr- 
ceu ievanlameiito da scrra, nao so augmentarani o angulo 
da sua inclinacao mas mudaram gradualmenle a sua direc- 
cao EG para NE SO , comccando a inflexao no meridiano 
do Moinho da Malta por uma curva de grande rayo, corrcs- 
pondendo aquclla mudanca a parte mais Oriental da serra. 
Com estes movimenlos do solo, a grandc liiiha di\isoria 
niodificou-se, recuando na parte Occidental para as cumia- 
das da serra de Gintra , onde lomou a direccao KE que ja 
indiquei. 

Dccorrido um lapso, mais ou menos longo, que corres- 
pondeu talvez a epociia eocene , durante o qual parece ter 
estado emergido todo o terreno visinho de Lisboa , a ruga 
da formacao do oolite superior, que seachava esbocada pas- 
sando pelas visinhancas de Alhandra e da Serra da Villa, e 
que servira de limite aos depositos do cretacio medio, levan- 
tou-se sobre o terreno conliguo, e formou a cordilheira de 
monies, que corre de Alhandra para NO ate perto do Ocea- 
no (sobre os quaes no principio d'estc seculose estabelece- 
ram as mui conhecidas linhas de Torres Vedras, que impe- 
diram o passo ao exercito de Massena). Mais ao Sul er- 
gueu-se outra ruga nas formacoes do crefaceo medio e su- 
perior, que se estende de Yialonga pelas alturas de Fanhoes", 
Cabeca de Montachique, Mafra e Safarujo, e scrviu na mes- 
ma occasiao de segunda linha de defeza. 

Estas linhas de deslbcacao determinaram grandes abali- 
mentos do solo para NE, e abriram em todo o terreno cre- 
taceo repetidas falhas na direccao dc SE a NO por onde cor- 
rem as ribeiras de Gheleiros, do Figueircdo, de Safarujo, e 
todas as mais que \ao ao Oceano entre a serra de Ginlra e 
rio Sizandro ; modificando-se a direccao dos stratds ereta'- 

Toj:oI.-Ago3to DE 185T.-1." Classe. fi 



328 ANN.u:s 

ceos nas partes do solo abalido, sem que comludo essa alte- 
racao chegue a grandes distancias, ou perlurbe de um mo- 
do nolavel a direccao geral preexislenle EO. 

Formacdo da bacia cm que se dcposilaram as camadas 
terciarias. — Foi entao que so formou a bacia terc^arin ina- 
rinha de Lisboa, onde se dcposilaram as camadas miocencs, 
occupando toda a parte abiUida do solo a S e ao Nascenle 
das erupcoes basallicas : porem depois, cm consequencia de 
iiovos movimentos do solo , ccrraram-se as communicacoes 
d'esta bacia com o Oceano ; cobriu-se de agua doce uma 
grande extensao de terreno que comprehende Niza e Ida n ha 
a Nova , Vendas Novas e Alcancde ; formando um exienso 
lago, no qual se dcposilaram os calcareos lacustres de San- 
larcm, Thomar, Rio Ponsul, e Uonavilla, e os marnes, ar- 
gilas e grcs, que constiluem a feicao mais predominantc d'este 
deposito. Esta bacia , c oulra similhante na Caslella Nova , 
tambem terciaria e lacuslre, occupam uma parte da superfi- 
cie pertencenle a bacia hydrographica do Tejo. 

Mais larde operou-se uma grande mudanca no relevo oro- 
graphico, de quasi lodo o Portugal, com as vastas e energi- 
cas sublevacoes, que tiveram logar na direccao proximamente 
parallela a linha NiNE SSO, levantando-se a maior parte da 
monlanhosa serra da Estrella, e os calcareos do oolite medio 
que formam as serras que vao de Monlejunto ale perto de 
Coimbra, e deslocando-se por meio de falhas o terreno ooli- 
tico e a formacao neocomiana em muitos centos de metros 
de profundidade, de que resultou o apparccimento a super- 
ficie do solo das camadas da gryphea incurva, e do ammo- 
nites bifrons, como se v6 nas visinhancas de Porto de Moz, 
e nos afHoramcntos liasicos, que vao de Maceira a Soure, o 
a Monte-Mor o Velho. 

N'esfa grande commocao preludiou-se a linha da cosla 
ao N do Cabo da Roca, e abriu-se uma larga faiha no Te- 
jo, pela emersao da sua margem direita entre Lisboa e San- 



DAS SGIENCIAS E LETTRAS. 329 

tarem , como uraa consequencia da elevacao da cordilheira 
de jVIontejunlo a Coimbra , fazendo descair para SE as ca- 
madas lerciarias d'esle lado do rio, com ciijo movimenlo fi- 
cou delerminada a arcsta da escarpa que corre de Friellas 
a Carnide, sobranceira ao \alle de Odivellas a Loures. 

Fonnacdo dos lagos de agua doce , e diversas desloca- 
goes pelas quaes o solo lomou a con/igura^uo que aclual- 
mcnle aprcsenla. — Passado este periodo de convulsao (ao 
qiial lalvez sc deva a denudacao do calcareo de.caprinulas, 
en're Leiria e Pero Pinheiro) estabeleceu-se em quasi lodo o 
Porlugal uma serie de pcquenos lagos, nas localidades onde 
correm hoje os nossos principaes rios e seus mais importan- 
les aflluenles : esles iagos estao aclualmenle represenlados 
pelos numerosos deposilos arcosos e de calcareo lufaceo, que 
se obser\am nos leilos e margens d'esses rios. Oulra \io- 
lenfa commocao fez desapparecer fodos esles lagos, comple- 
taiido a abcrtiira dos leilos e as bacias hydrograpliicas dos 
raesmos rios, communicando-os raais immediatamcnte com o 
Oceano ; levanlou uma parte das serras da Belra Baixa, que 
\'ao prender com a cordilheira de Guadarrama ; ergueu os 
calcareos ooliticos da serra de Aire, e produziu um grande 
numero de accidentes em lodo o paiz. Esla perturhacao, ma- 
nifcstada em uma direccao quasi parallela a linha ENE OSO, 
acabou de deslocar as camadas lerciarias enlre Lisboa e Tra- 
faria, abrindo a garganla do Tejo desde Lisboa ate asuafoz 
em S. Juliao da Barra ; fez erguer em fortes angulos as ca- 
madas lambem lerciarias das serras da Fagulha e de Pal- 
mella , deixando surgir os calcareos oolilicos das serras da 
Arrabida e do Risco , cuja verlente meridional termina em 
escarpa abrupla sobre o Allanlico , delineando, na direccao 
indicada, a pequena porcao de costa que se v6 enlre o Ca- 
bo de Espichel e Setubal. Passaram esles periodos de per- 
turbacao, e o nosso solo recebeu ainda uma ultima moditi- 
cacao na zona Occidenlal ; as anligas praias erguoram-se 

22* 



330 ANNAES 

Icntamente ale muilas dezenas de melros acima do nivel do 
mar , conlribuindo talvez para islo ," as niesmas causas ge- 
raes, que produziram a prcsenca dos volcOes do Etna e do 
Ycsuvio. 

Tacs sao, cm resumldo csboco, a constiluicao physica e 
a coniposicao gcologica do solo das immediacoes de Lisboa, 
as vicissitudes a que tern cslado sujeila, c as phases por que 
tern passado desde a epocha do Icrreno crelaceo ale a actual. 
E a esla constiluicao physica e geologica que Lisboa devc as 
suas abundanles fonles do bairro Oriental, bem como a sec- 
cura c csterilidade do seu solo nas partes alia, media e Oc- 
cidental ; resultando de iima similhantc desegualdade e cs- 
cassez ver-se a adminislracao publica forcada a recorrer, no 
seculo passado, as nascentcs dos suburbios de Lisboa, para 
evilar o horror da sede por que durante niuitos seculos pas- 
saram os habitantes d'esla capital, recurso unico dequeain- 
da agora se pode lancar mao para abaslecer a cidade da 
agua indispensavel , lanio para os principaes usos da \ida , 
g6zo e coramodidadc dos habitantes, como para salisfazer as 
condicoes reclamadas pela hygiene , e mais necessidades de 
uma populacao numerosa, importante e civilisada, como e a 
de Lisboa. 

Foi debaixo d'esle ponto de vista que , a pedido da Di- 
reccao Provisoria da Companhia encarregada de provcr ao 
abastecimenlo d'agua, fiz este reconhecimenlo geologico aos 
lerrenos que cercam Lisboa, sem o qual nao e possivel en- 
Irar na apreciacao dos fundamcntos em que se deve basear 
a exploracao e acquisicao d'aguas potaveis , com o fim de 
conhecer e determinar a localidade ou localidades que maior 
quanlidade d'ellas podem fornccer ; lendo em altencao a sua 
allilude , para que possam, sem o auxilio de accao mecha- 
nica , allingir os pontes mais elevados da cidade ; e a dis- 
tancia a que existem , para que o custo provavcl das obras 
necessarias a sua conduccSo seja compalivel com os fins eco-. 



DAS SCIENCIAS E LETTRAS. 331 

nomicos daEnipreza, c a colloquem, sera gravamc, nascir- 
cumslancias de cumprir religiosamenle lodas as estipuIacOes 
do seu conlraclo. Estas investigacOes fariio o objccto da se- 
gunda parte d'esta Memoria. 

fConlinua. ) 



939 ANNAES 



INOTICIA ULSTOUICA 



HOSPITAL DAS CALDAS DA RAliNHA, 



I. 



Assentado n'um rochedo alteroso , a pique sobre as veigas 
formosas que o rodeiam, quasi as margens do Oceano, que 
em nao remota epocha ihe vinlia beijar as plantas , o cas- 
lello de Obidos mosira aiiula nas suas magnificas ruinas a 
belleza e robuslez das conslruccOes com que foi alevanlado. 
Para os clTeilos eslralegicos, que aedade media requer'a das 
forlalezas d'aquclia ordem , ncnhum logar podia ser mais 
apropriado Se o monle caia abruplo e a prumo para Ires 
dos seus lados , dcixando pouca forluna a uma escalada , 
mesmo inapercebida, pelo oulro inclinava-se com suavidade 
para o lerreno adjacente, que podia ser fortificado, e unico 
por ondc era provavel que o inimigo o viossc accommeller. 
D'cslo modo a planicie superior formava cspaco sufliciente 
para encerrar uma numcrosa guarnicao, e ate o povo, que 
a sonibra do caslello sabi'a eslar melhor guardado e defen- 



DAS SCIENCIAS E LETTRAS. 333 

dido de qualquer excursao imprevista. Assim se foroiou a 
villa, que, para maior seguranca, lancou cm roda de si, co- 
mo uma armadura espessa , a muralha de pedra , lao bera 
construida e cimentada, que ate hoje tern resislido com fir- 
meza aos estragos do tempo e dos homens. 

Do caslello, que se erguia com allivez no tope do monte, 
corriam por urn e outro lado as muralhas, abracando a po- 
Yoacao , ale se enconlrarem na parte fronteira nos torreoes 
acastellados, por baixo dos quaes se abria a porta principal 
da villa , precedida, corao era costume, da ponte levadica , 
suspensa por duas grossas correntes de ferro , que serviam 
para a sustentar sobre o fundo e largo fosso aberlo por bai- 
xo d'ella. As muralhas linham a largura sufTicicnle para que 
OS seus defensores podessem, por um carainho coberlo, acu- 
dir com promptidao a qualquer ponto atacado , ou recolher 
repentinamente ao castello, no caso de ter sido forcada e le^ 
vada de assalto a solida porta da villa. Ainda para maior 
embaraco e dilTiculdade do alaque, esta porta era baixa e es- 
Ireita, como todas as dos castellos antigos, dando ingresso a 
um caminho abobadado e obiiquo, sobre o qual estavam as- 
sentes os torreoes fortificados, e que a delendiam tanto para 
dentro como para fora. Alem d'estas circumstancias, que to- 
das concorriam para tornar a villa de Obidos e o seu cas- 
tello uma forlaleza inexpugnavcl a viva forca das armas d'a- 
quellas eras , accrescia communicar com o Oceano por um 
caminho ingreme e sinuoso, e por onde podia ser soccorrida 
em caso de assedio prolongado. Os grosses argoloes de fer- 
ro, cravados solidamente na base do rochedo, e que ainda 
ha pouco exisliam , provam claramente o servico para que 
eram deslinados. As caravellas , aporlando na raiz do cas- 
teilo, podiam, seguradas n'aquelles grosses argoloes, arros- 
lar a ressaca das ondas, ou as tempestades do Nordeste. To- 
da a veiga feracissima , que se estende do castello de Obi- 
dos ale a Formosa alagoa do me^mo nome , e dc formacao 



334 ANNAES 

iiiodcnia. Sau torrcnos de alluviao, que as lorren'es (coin ar- 
raslado succcssi\aiiiciUe, fazcndo rocuar as margens do Occa- 
y.Q, Em dois ou ties seculos o mar tcvc de ceder quasi duas 
logoas da sua primeira conquisla. A alagoa e ainda o ves- 
ligio d'aquella posse immemorial. Ordinarian.ente as suas 
aguas communicam com as do Occano, rosullando d'esle 
comniorcio a copia de peixe do todas as qualidados que abun- 
da na alagoa. Acontece, porcm, algumas vezcs que as areas, 
arrojadas pcia mare, obstrucm complelamenle a aberlura de 
communicacao. Com o tempo as areas crescem e accumu- 
lam-se, ao passo que as aguas da alagoa vao crescendo com 
as chu\as do inverno , a ponlo de alagarem os campos cir- 
cumvisinhos. Quando islo succede, os proprlelarios reunem- 
so, e tralam novamente do abrir o canal de communicacao. 
E uma empreza cm miniatura como a do isthmo de Suez, 
Os Irabalhadores accorrem em beneficio commum. Abre-se 
um largo fosso em declivo para o lado do Oceano. Como a 
ponta da area apreseula de ordinario uma exlensao nofavel, 
estc Irabalho dura alguns dias. Espera-sc a epocha em que 
as mares sao mais baixas. D'esle modo ainclinacao do leito 
pode scr fcila em maior profundidade , dando assim mais 
realce c prcsteza a obra de communicacao. Do lado da ala- 
goa deixa-se espaco sudlciente de areas para se oppor ao 
peso das aguas, em quanlo so \ai cavando o fosso, inferior 
00 nivcl que ellas teem adquirido. Quando este trabalho esta 
acabado , corre voz pelos arredores , e o povo dos logares 
visinhos , e as pessoas de consideracao que habitam as for- 
mosas quintas d'aqucllcs amenos silios , vcm postar-se nas 
margens da alagoa para assislirem a conclusao. Se acontece 
fazer-sc a obra em tempo de banhos das Caldas , lodos os 
doenles que podem por um dia supprimir as dorcs rheu- 
nialicas que os Rffligem, ou as nevralgias que os incommo- 
dam, com a esporanca de presenciarcm um espectaculo no- 
vo e mngos'.oso, poem-se a caminlio para a alagoa a sacjar 



I 



DAS gCIENClAS K LETTRAS. 335' 

a sua honesta curiosidade. E uiu dia de fesla para loda a 
gente. 

Chegado, pois, o momenlo decisivo , e tomadas as pre- 
caucdes para que ningucm eslanceie proximo do grande fos- 
so , dois Irabalhadores ageis e robustos abrem urn pequeno 
rego, por onde apenas comeca a correr urn delgado fio d'a- 
gua. E tempo de fugirem para longe. fio engrossa , avo- 
luma , crcsce de instante para instante ; e ja um braco da 
alagoa , uma lorrente impeluosa e terrivel, que arrebala as 
ar^as , quo as leva dianle de si, e as arroja para longe no 
fundo do Oceano. fosso desappareceu, cavou-se mais fun- 
dp , alargou cada vez mais as margens, ate que sao absor- 
vidas pela grande massa das aguas, que em lurbilhao impe- 
tuoso descaem sobrc o isthmo, e o engolem n'um momento. 
Os olhos ficam surprendidos , e a mente niaravilliada com 
tamanha magnificcncia. A medida que a alagoa assim se vai 
dcspejando no Oceano, os canipos, a!^ entiio submersos, co- 
mecam a reapparecer cobertos de Icdo e de limos, promet- 
tendo ao agricultor satisfeito uma colheila abundanlissima. 
Como nas inundacocs do Nilo , que fertilisavam os campos 
do Egypto, OS residiios da alagoa dao uma feracidade as ter- 
ras que centuplica a sua produccao. Denlro em pouco as 
aguas do Oceano eslao de nivel com as da alagoa, enclien- 
do-a de novas geracoes , que n'aquelle remanso tranquillo 
vem passar a doce epocha dos amores submarinos. 

Esla siluacao , porem , nao dura muito. Os ventos^. as 
mares e as correntes, vollam de novo a accumular as areas 
na barra, que foi aberia, ate que afinal a obstruem e lapam 
coniplelamente. Um grande perigo surprende as vezes o 
curioso que alravessa , imprudentcmcnle e £em cautela , o 
isthmo, para visitar as margens do Oceano. Como as areas 
sao movedicas , e se ajunlam sobre a agua , que fica presa 
em grosses pegos, o incauto, que por aquella superficie en> 
ganadora so avenlura , pode ser engolido repentinamente, 



a 36 A.>.NAI-S 

sem esporancas de salvacao. Contam-se no logar da alagoa 
algumas d'estas catastrophes horrorosas. Sao um aviso euro 
conselho para os imprudentes ', 



II. 



Um habilante da villa de Obidos que no dia ... do mez 
de agosto de 1481 cstivesse le\antado ao cantar do gallo , 
e viesse poslar-se na porta principal da forlaleza , poderia 
presencear a azafama com que os soldados que a guarncciam, 
corriam aos seus poslos , c a pressa que se davam em bai- 
xar a ponte ievadica, suspensa durante a noile. Logo depojs 
sentiria os passos de uma numerosa cavalgada que para ali 
se dirigia, acordando com as festivas charamcllas, que adianle 
caminhavam, o pacifico burguezembalado nossonhos cor de 
roza, que Ihe anticipavam docemenle os gozos de um pros- 
pero commercio 

Era a rainha D. Leonor que deixava a sua querida vil- 
la, caminhando para a Balalha, onde a cspera\a o inclito 
rei D. Joao II , seu esposo , afim de celebrarem n'aquella 
forraosa cathedral as exequias de D. Alfonso V. A rainha 
residia entao cm Obidos , villa sua, que em dole recebera , 
como era costume ser apanagio de todas as rain has de Por- 
tugal, desde Santa Isabel, mulher d'elrei D. Diniz. 

Os cavalleiros que acompanhavam a rainha nao cansa- 
vam em admirar a sua extrema belleza , apesar da pallidez 

^ N'outros pontos do reino succede a mesma coisa. No extenso 
ebello areal que vai da Gafa a Vista Alegre, as chuvas do inverno 
abrem cgualmenle pegos mui profundos, ijue mais de uma vida teem 
sorvido. 

.Niio e coisa o facto que descrevemos da aberlura da Alagoa. 
Por um documenlo do carlorio do hospital consta que no anno dc 
1588 dera o padre provedor 600 rcis para ajuda de sc abrir a ala- 
foa, por ser hem commum do hospital c do povo. 



J 



DAS SCIENCIAS £ LKTTRAS, 337 

coDstanle que Ihe annuviava o roslo, e Ihe amortecia a luz 
dos olhos rasgados e serenos Ningueni sabia a razao d'esia 
raelancolia extrema da rainha , que , todavia, facilmente se 
expllcava pelo padecimeulo que soffria. Havia tempos que 
D. Leonor senlira dores lancinanfes que Ihe atravessavam o 
seio , e que os physicos mais esperlos classificaram de can- 
cro incuravel. Alguns d'elles atlribuiam a moleslia a prema- 
tura edade em que a rainha recebera a bencao nupcial, pois 
contava apenas 12 annos quando D. Joao II a escolheu pa- 
ra parlicipar com elle dos esplendores do throno de Portu- 
gal. 

E nenhuma princeza fura , como D. Leonor , tao digna 
de associar a sua belleza exlranha , e angelica bondade , t 
forlaleza e juslica do grandc rei porluguez. Tendo nascido 
em 8 de dezembro ds lio8, a natureza como que se esme- 
rou em desinvolver com rara precocidade os doles de lao 
acabada perfeicao. Apenas entrada na edade nubil , ja era 
tal a fama de suas virludes e formosura, que caplivou o co» 
racao d'elrei. Qualro annos depois o principe D. Affonso foi 
fruclo d'esia uniao, tao feslejado, diz o chronisla, na hora 
do nascimenlo , como sentido na morle , succedida dezeseis 
annos depois, a 12 de julho de 1491, em consequencia da 
queda de urn cavallo. D'esle modo ficou o throno viuvo, nao 
tendo a rainha oulra descendencia , e passando o sceplro , 
por morle de D. Joao II , para as maos de D. Manuel , o 
rei afortunado. 

D, Leonor era irma de D. Manuel, e foi durante o rei- 
nado d'esle principe que intenlou .as suas maiores facanhas 
de piedade. ^ 



* Entre os (ilhos que teve D. Joao I da rainha D. Filippa, fi- 
Iha segunda de Joao , duque de Lencaslre , foi o infante D. Joao , 
mestre de S. Thiago, condeslavel de Portugal. Este casou com D. 
Isabel, fdha de seu meio irmao D. Affonso , conde de Barcellos , e 



338 v>N\ES 

Uma das primeiras foi a edificacao do Hospital das Cal- 
das, como vamos dizer. 

Marchava a luzida comiliva em dircilura a Datalha, quan- 
do acerlou de passar por urn logar agrcste, ondc foi pasmo 
piira todos vcr alguns pobres , cobcrtos de chagas e de le- 
pra, mcrgulhados em pocos de lerra, da qua! rebentavaem 
grossos borboloes a agua em que so banhavam. Quiz a rai- 
nha saber logo a causa d'aquello ajunlamenlo , e o motivo 
pnr que tantos concorriam a limpar-se n'essas nascenles. 
Gonsia que, ao ser informada das virludes raaravilhosas das 
aguas, a rainha exclamara com fervorosa piedade : — Se -o 
Sr. Dens me dervida, os pobres de Jesus Chrislo, seu fdho, 
terao melhor commodidade em suas curas. Santas e divinas 
palavras , que bcm denunciam o coracao misericordioso de 
D, Leonor. 

Foi cm consequencia d'este voto que denlro em pouco 
comecaram as obras do hospital ; e a Pro\idencia, que nao 

primeiro diique de Braganca. D'este raatrimonio Ihe nascerara duas 
filhas, D. Isabel, que casou com eirei D. Joiio II de Castella, mae 
da rainha D. Isabel, casada com D. Fernando, rci de Aragilo, cha- 
mados os reis calholicos, duas vezes sogros do felicissimo rci D. Ma- 
nuel. A outra filha se chamou D. Beatriz, deque uasccu a serenis- 
sima rainha D. Leonor. 

Do sobredito rei D. Joao I nasceu elrei D. Duarle , que casou 
com a rainha D. Leonor, (ilha d'aquelle rei D. Fernando de Ara- 
gao, e irma dos infantes de Lara, tiio celebrados nas historias. D'este 
matrimonio nasccram dois filhos, clrci D. Affonso Y, c o infante D, 
Fernando, duque de Yizeu , niestre da cavallaria de Christo e San 
Thiago , quarto condeslavcl de Portugal , senhor da nobilissima ci- 
dade dc Beja, e da riquissima villa de Setubal, c das onze ilhas de 
Caho-Yerde. Casou cste infante D. Fernando com a sobredita D. Bea- 
trix, sua prima co-irma, do qual matrimonio nasceram o grande e in- 
clilo rci D. Manuel, e a grande e gencrosa rainha D. Leonor: sen- 
do, pois, por ambas as linhas, lisncla do valoroso D. Joao I e da 
rainha D. Filippa. 



DA.S SfllENCIAS E LETTRAS. 339 

costuma negar o beneficio da sua extrema boiidade aos que 
a clla so soccorrem de coracao lirnpo c aberto, pagou a no- 
bre dedicacao da \irtuosissima rainha , fazendo-lhe achar 
n'aqucllas mesmas aguas, que ella destinara para os pobres 
de Jesus Chrislo, a cura do padecimento a que os physicos 
lulo poderam dar allivio. Pode tcr-se por \erdadciro mila- 
gre. Se alguina vez, por decretos divinos, parece que a na- 
tureza se aflasla das suas leis ordinarias e immula\eis, nao 
custara a perccber, que esse mal , para que ale hoje ainda 
a medicina nao enconlrou remedio senao no ferro do opera- 
dor, fosse dorainado pela occulla virlude d'aqueilas maravi- 
Ihosas aguas. 

silio das Caldas era en'ao uni brejo cobcrto de urzcs, 
e longe de todo o po\oado. Logo que a rainha ordenou a 
edificacao do hospital, desejando que fosse habilado aqueHc 
lerreno inculto, mandou vir uma coionia de homisiados , a 
quem se perdoaram suas culpas e malfeitorias , scndo-lhes 
alem d'islo conccdidos privilegios para que nao houvessem 
do abandonar a sua nova habilacao. 

Ou porque o silio ficassc proximo da sua residencia se- 
nhorial da \illa de Obidos, ou em Icmbranca da milagro- 
sa cura do seu padecimento, a rainha aprazia-se em habiiar 
hospital, assislindo muilas vczes na casa da copa adislri- 
buiciio e reparlicao das dictas , como quem araava niais o 
tralo humilde dos pobres enfermos que all vinham buscar as 
suas curas, do que os esplendores do solio soberano de que 
era radiosa luz. 

Tanla Ihaneza e humildade lao chrislii allrahiam-Ihe as 
bencaos dos habilantes da nova villa. Chegava a ponlo esle 
csquecimento raro, e como que refleclido do Ihrono que en- 
nobrecia com as mais alias e claras virludcs , que lendo-se 
recolhido aos pacos do hospital no tempo em que a pesle as^ 
solava reino , convidava as inulheres honradas a fazereni 
serao com ella. Como no tempo dos anligos palriarchas , u, 



340 ANXAES 

que nascera no palacio dos principes, e occiipava o mais lu- 
zido throno do mundo, nao sejulgava hiimilhada, antes en- 
grandecida e soberba, chamando para a sua c6rle, n'aquel- 
lesserOes piedosos, a filha AirUiosa do povo, nascida e crea- 
da no baixo legurio da pobreza. 

Ali a vinham visilar , n'aquelle commercio sanlo , os 
grandos e poderosos da terra , os principes e fidalgos mais 
altos de Portugal. Ali veio, altrahida pclas altas virludes da 
rainha, a propria irma de Carlos V, para conlar ao fanioso 
imperador, que lanto se afadigava cm conquislar o mundo, 
como sabia desprezar os falsos esplendores da grandeza , 
quern no mundo era a primeira pclo nasclmenlo , formosu- 
ra, e virtudcs. 

Quando ja a edade Ihe havia quebrado as forcas, a rai- 
nha usava de bcngala , para se ajudar nas suas \isitas aos 
enfermos. D'ahi foi , que , em memoria, os provedorcs do 
hospital coslumavam exerccr as suas funccoes com a mesma 
insignia de auctoridade, 

Com a morte de D. Joao II, cm 25 d'outubro de 1495', 
a rainha reccbeu um golpe tiio acerbo , como aquelle que , 
quairo annos antes , Ihc despedacara o coracao , sabcndo a 
noticia da infausla morte do scu cxtremoso filho. Desde esse 
momcnlo nunca mais o seu espirito foi da terra. Vollado 
para Deus, nao pensou, nao cogitou senao em Ihe agradar, 
pelas obras da sua inexgotavel piedadc. 

Inslituiu a Santa Casa da Misericordia de Lisboa. 

Deu fim ao hospital das Caldas, em lo02. 

Fundou convento de Xabregas e pacos reaes ali si- 
los. 

Erigiu primeiro convento da Annunciada. 

Alevantou o alteroso templo de Nossa Senhora da Mer- 
eiana. 

Creou a instituicSo de sete Mercieiras no convento de 
Santo Agostinho de Torres-Yedras, 



DAS SCIENCIAS E LETTRAS. 341 

Edificou a raagcslosa capella imperfeila da Balalha. ^ 
Foi n'uma das sele capellas (a que lem o pellicano fe- 
rindo 09 peitos) que a rainha desejou ser enlerrada, ao lado 
de scu marido e do principe D. Affonso, seu filho, como se 
via da clausula exarada em seu testarnento. 

Depois de uma cxistencia de piedade, tao complela e ad- 
miravel , tendo gaslo o melhor das suas rendas em alevaii- 
lar OS grandes monumcntos de que acima fizemos raencao , 
chorada do povo e dos pobres, a cujo conforto se consagrou 
desde a mais tenra infancia , a esposa do grande rei deu a 
alma ao Creador, cm 18 do mez dc novembro de 152.'), 
com 67 annos de edade. 



' Consla a capella imj.erfeita de uma pasmosa portada, em vol- 
tas de sele cordoes dcscguaes na grossura, com diflcrencas grandes 
no feitio, e todas entalhadas de uma subtil variedade de lavores , 
obrados com tanto primer e miudeza como so a materia fora a bran- 
da madeira de esculptura para imagcns. No vao do edificio, obrado 
em forma circular para se evitar prcfercncia nas sepulluras , se fa- 
bricarara scte capellas com que se fecha a redondeza da praja in- 
terior sem dillerenca de alguma d'ellas ser maior e de mais perfei- 
?ao, e com vantagem alguma as demais, antes em todas ellas se \t 
a mesma egualdadc , figura e feitio , com a mesma excellencia de 
arcos e lacarias, policia de esculptura, subtileza de arlilicio, e gra- 
5a de lavor, sem em alguma d'ellas se euxergar urn niinimo ponto 
de maior aucloridade. 

Yindo a Portugal Filippe, o Prudentc, tomar posse do reino, em 
1580 , trazendo em sua companhia um famoso architeclo ilaliano , 
que tracou o forte do Terreiro do Paco, e indo dc companhia ver o 
convcnlo da Batalha, tanto que o viu, e considerou a grandeza c ar- 
tificio da dila capella, Ihe disse o prudenle rei : « Engaue-me con el 
edificio del Escurial sin tener noticia de lo que veo : sobran cien mil 
ducados para tener fin csta capilla?)) Dizem Ihe respondera o dito 
architeclo, Filippe Ilercius — ser bastante dinhciro para os andai- 
mes ; que lal era a machina e archileclura da obra que para parte 
dos apreslos necessitava de tao grande quautia de prata. 



341 AN-NAES 

Nao coiisla que algum de sous herdeiros cuuipiisse a ul- 
tima vonlade da santa. 



111. 



lencol d'agua sulphurca, que sc eslende por baixo do 
tcrreno das Caldas , alHorava eiUao cm varios ponlos , mas 
piincipalmcnle, e com maior abundancia em tres localidades 
divcrsas, no casal dos Mosqueiros, na quinta de Val do Flo- 
res, c finalmcnle no silio onde ora esta edificado o hospital. 

Posto que as aguas d'eslas variadas nasccntes pareces- 
scm ter a mesma composicao, e, por conseguinle, uma vir- 
lude cgual , por ordens da rainha foram feilas experien- 
cias em tres doenles da mesma edade e atacados dc moles- 
lias similhantes, com o fim de examinar o rcsultado da sua 
accao medicinal. Nas curias ideas d'aquelle Icmpo , e na 
complela ignorancia da chimica analytica, aquella cxpericn- 
cia era razoavel, ejuslificava plcnamenlc aescolha do local, 
para a construccao dos banhos. 

Com a decisfio dos physicos comecou a Icvanlar-se o edi- 
ficio , debaixo da dircccao e Iraca de mcstrc Mathias , fa- 
moso archilccto , um^nno depois d'aquelle voto solemno 
que a rainha fizcra na sua viagem para a Balalha. Dezeselo 
annos depois os pobres de Jesus Chrislo linham loda a com- 
modidade cm suas curas. 

Para que o hospital nao fallecesse de agua doce, fez o 
meslre encanar uma abundanle fonle , que nascia em larga 
dislancia da villa , para a parte do Sul no Vallc da Delga- 
da ; dividindo-a em dois regislos , urn para denlro da c^r- 
ca, que serve para a horla c casa, e o oulro para o chafa- 
riz que havia de servir a nova villa. 

Pelo lado lemporal eslavam os pobres accommodados. 
Tinham urn soberbo palacio para habilar, e remedio a mao 
para as suas enfermidades. Era necessario agora providenciar 



i)AS SCIENCEAS E LETTRAS. 343 

a sustentaciio fuUira do hospital ; c poslo que a raiiiha se li- 
vesse dcsapossado das suas rendas em bcncficio da sua ca- 
sa, iiao hcsiloii em appellar para a charidadc dos poderosos 
e aforlunados , comprando as esmolas pias com as indul- 
gencias alcancadas da sanlidadc de Alexandre VI. Mas nao 
consciiliu a rainha virluosissima que a mao do sanlo padre 
de Roma se abrisse unicamcnie para os grandes e opulentos. 
Eguaes indulgencias foram concedidas a quanlos visilassem 
hospital em ccrtas feslas do anno, e para os enfermos que 
ali morressem, Santa e piedosa traca com que o coracao da 
rainha quiz inleressar as almas religiosas em favor do seu 
hospital. Assim com estas romarias periodicas a caca das 
indulgencias , ajudava a povoaciio da villa a fixar-se n'um 
logar deserlo ale a construccao do edificio dos banhos , e 
de tao agresle composicao, que, ainda hoje, so por uma es- 
merada agricultura compensa o trabalho do seu fabrico. Por 
outro lado, e com a mesma esperanca, induzia os enfermos 
a recolher-se ao hospital, que, alem das virtudes de suas ma- 
ravilhosas aguas, ainda gozava de tao celestes privilegios. 

D'ahi veio, provavelmenle, e se perpeluou o costume de 
visitar o hospital nafesta de S. Joao. N'este dia despovoam- 
se os arredores, e a villa apresenta o espectaculo curioso de 
innuniera multidiio, que obstrue a porta principal do edifi- 
cio , para examinar os banhos , e limpar o corpo n'aquella 
agua abencoada, que, segundo a opiniao gcralmente admit- 
tida, livra, com cflicacia soberana, de toda a casta de enfcr- 
midades da pellc. 

Com tudo islo, e com a fama que logo os banhos adqui- 
riram , nao admira que a colonia de homisiados, para ali 
mandada , lomasse urn certo incremcnto , favorecido ainda 
pclos privilegios que Ihe concedeu elrei D. Manuel, erigin- 
do logar em villa a rogos de sua irma. 

Os banhos teem sido rcfundidos por varias vezes. No prin- 
cipio havia apenas dois tanques, ura para homens, do lado 

TojioI.-Agosto de 1857.-1.' Ci.asse. 23 



3ii ANNaes 

do Sul , de tin palmos de comprimenlo e 2i de largura ; 
outro, de menores dimensocs, para o lado do Norlc, de 46 
palinos dc comprimenlo Bobrc 13 dc largo. No tempo dos 
padres da Congregacao foi supprimido c ladrilhado o banlio 
chamado dos sarnosos, c oiidc a tradicao dizia que a rainha 
se curara do sen terrivel cancro do peilo. Os padres siippo- 
zeram, provavelmenle, que era supcrsticiosa esla voz do po- 
vo, e apressaram-se cm desfaeer e apagar lodo o vesUgio de 
lao. abusiva crcdulidade. Que philosophos ! 

Dispoz D. Leonor que sc abrisse o hospital no 1 .'* dia de 
abril, c se fechasse no ultimo de setembrO) por se cnlender 
que OS mezes de calor cram os mais apropriados para acura 
das enfermidades , que precisavam dos banhos sulphureos. 
Alterou-se, porem, esta regra com o tempo. Como no clima 
das Caldas o mez de abril era ainda rigoroso e desabrido , 
raudou-se para o meado do mez seguinte. E sempre uma 
grande festa a abertura do hospital. Ofna-se o frontispicio 
de grinaldas de flores , e illumina-se a noite. No lemplo , 
funda^^ao egualmenlc da rainha, celebra-se com grande pom- 
pa a missa d'aquelle dia. provedof) acompanhado pelo ci- 
rurgiao e medico, e mais empregados do hospital, apresen- 
la-se a porta, que esta cerrada, e faz abril-a a um toque do 
seu bastao, que leva no punho direito, como insignia da sua 
auctoridade e em memoria da bengala da rainha. Depois as- 
siste na casa da copa a recepcao dos enfcrmos que se aprc- 
senlam. No principio lia-se o compromisso, que era a lei da 
casa, para que todos a soubessem. Com o tempo foi caindo 
em dcsuso esla leitura. Hoje nao se pratica. Com as altera- 
coes que Ihe foram feitas, especialmenle pela reforma nota- 
vel do marqucz de Pombal, aquclla regra primitiva nao te- 
ria significacao. 

Quando o medico dava entrada a qualquer enfermo, por 
entender que o remedio dos banhos Ihc seri'a proveitoso, man- 
dava-o o provedor confessar e commungar. Boa e rcligiosa 



DAS SCIENCIAS E LETTRAS. 345 

pralica, que devera ser adoptada em lodas as casas de cha- 
ridade. A Iranquillidade da alma e ja urn poderoso auxiliar 
para o remedio das perlurbacoes do corpo. De reslo nao c 
na ultima hora , quando o espirito altribulado lucla com a 
a idea de uma morle proxima, que o homem podc, sem ne- 
nhum apego ao mundo, conciliar a sua consciencia com os 
favores excepcionacs da religiiio. Outro motivo, emfim, e tao 
forte como este, poderia scr lembrado aos provedores, pela 
charidade cm que deviam arder. A medicina nem sempre e 
tao prophetica , que muitas vezes nao seja desmcntida pela 
natureza. Um doente , a quem o homem da arte receita o 
ultimo remedio da religiao , julga-se abandonado e perdido 
em sua esperanca ; e raro e aquelle cuja fortalcza perma- 
nece superior a este abalo inesperado. Alem d'isto, o appa- 
rato lugubre , a voz soturna do padre , as ideas de morle , 
que acompanham aquelle acto , infundem um terror conta- 
gioso nos outros doentes , funeslo para o allivio das moles- 
tias que padecem , e que a mais de um tern conduzido di- 
rectamente a sepullura. 

Todos OS interesses se reunem aqui , assim os da alma 
como OS do corpo , para que uma pralica tao salutar seja 
inaugurada em todos os hospitaes. Em quanto, por6m, taes 
eslabelecimenlos estiverem confiados a direccao de fidalgos, 
corregedores, ou magislrados de juslica, que ignoram perti- 
nazmenle todas as condicoes d'estas casas de charidade, nao 
haja esperar, nem este, nem outro qualquer melhoramenlo, 
ainda o mais razoavel , e reclamado pelos preceitos do bom 
juizo e da sciencia. 

Eis ahi como se descreve o tralamento , que os doentes 
geralmente faziam. Tomando a filiacao, naturalidade, officio 
e enfermidade, o medico receitava a cada um qualro ou cin- 
co xaropes, c na nolle dava-se-lhes uma pada de pao, e um 
cacho de passas , e um ovo para cearem. Depois na enfer- 
maria davam-lhes umas ceroulas, uma camisa, um roupao, 

23* 



346 ANNAES 

umas chinellas , e iinia carapuca ; c as mulhcrcs a mcsma 
roupa, nicnos as ccroulas c carapuca. 

Tornados os qualro ou cinco xaropes, o medico rcccila- 
\a as pilulas ou a purga. Purgado o docntc , folgava um 
dia , e depois lomava Ires banhos a fio , sendo o primciro 
sempre menor, e de ineia hora a Ires quartos, conlados por 
um rclogio de area. doenle lomava banho com ccroulas, 
c lomado as lirava ; e o enfermeiro cobria-o com um len- 
col , limpava-o , e mcUia-o na cama a abafar duas ou Ires 
horas para suar. Depois descancava um dia, lomava outros 
Ires banhos para folgar oulro dia Assim chegava aos novo ; 
enlrava em convalescenca , e era despedido aos vinle dias. 
Se todavia precisava oulra cura, dava-se-lhe. A saida, se o 
doenle era pobre , dava-se-lhe algum vestido e alguma es- 
mola. 

Como se dcprchende d'esla simples noUcia , havia uma 
grande uniformidade no Iratamenlo dos doentes. Nem deve 
admirar , attcndendo a que os enfermos vem , quasi todos , 
accommettidos da mesma moleslia, precisando apenas de li- 
geiras modificacoes na Ihcrapeulica, se as condicoes indivi- 
duacs indicam ao medico a sua necessidade. Uma coisa po- 
rem devemos nolar , para vermos de quanla sollicitude c 
charidade enlao se lisava para os pobres. Despiam-lhcs as 
roupas sujas que Iraziam, e davam-lhes um veslido complelo 
de uniforme do hospital, como so pralica nas enfcrmarias dos 
liomcns em Lisboa. Esla cxcellenle pralica de hygiene cahiu 
cm total desprezo e abandono , apesar das recommcndacoes 
superiores, c de alguns chefcs do estabelecimento conserva- 
rem nos cofres, por um espirilo de usura incomprchensivel, 
grossas sommas que restavam das.rendas do hospital. Nao 
nos deve, porem, maravilhar esta cegueira e obstinacao dos 
di versos provedores , quando em Lisboa, na capital do rei- 
no , e n'um asylo que a muitos respcilos nao dcslusfra a 
piedade do paiz , ainda sc conserva o barbaro costume de 



DAS SGIENCIAS K LETTRAS. 347 

nao forneccr nas cnfermarias de mulheres o veslido de uni- 
foniic, que o bom sciiso c sciencia recommendain, e se usa 
nas salas do scxo masculino. 

Eis ahi conio os banhos eram reparlidos : 

Ilomcns. 

— Da meia noilc a uma hora, os religiosos. 

— Das 2 as 3, cnlrcvados das cnfermarias de baixo. 

— Das 3 as 4, doentes da enfermaria de S. Pedro. 

— Das i as 5, os doenles que eslavam nos camarolcs. 

— Das 5' as 9 ou 10 , a genie que se curava fora do 
hospilal. 

Mulheres. 

— Da 1 as 2 depois da meia noite, as religiosas. 

— Das 2 as 3, as enlrevadas das cnfermarias de baixo. 

— Das 3 as 4, doentes das cnfermarias de cima. 

— Das 4 as 5, senhoras dos camaroles. 

— Das 5' as 9 ou 10, fidalgas e mais genie de fora. 

comer do enfermo era de Ires quarlas de carneiro ao 
janlar , e meio arratcl a ceia , ou meudos. Na vespera da 
purga dava-se-Ihe ameixas a ceia , e no dia da purga urn 
quarto de gallinha ao jantar, com uma colhcr de confeitos, 
e urn quarto de gallinha assada a ceia, e uma lima na ma- 
nha ao tomar da purga. Aos enfermos fracos e aos religio- 
sos se dava de almocar. 

N'aquelles bons tempos , ate para eslar doente era de 
grande utilidade ter uma coroa aberla na cabeca. Esses re- 
ligiosos, anafados e robustos, que na ociosidade e gastrono- 
mia habitual ganhavam muitas vezes uma gotia imperlinen- 
le, cram comparados aos enfermos de compleicao debil, cu- 
jas forcas estomachaes precisavam de ser levantadas por urn 
regime mais substancial. Similhante distinccao cedo degene- 
rou em abuso, como leremos occasiao de dizer. 



THOMAZ DE CARVALHO. 



348 ANNAES 



RECTIFICAgAO 



DA FORMULA 



DO ACIDO SOLIDO DO SEBO DO BRINDAO. 



A nola, que em fevereiro d'eslc anno apresentei a 1 .* classe 
da Academia, sobre a materia gorda da semente do brinddo 
de Goa, teve por objecto principal o fixar a data de um es- 
tudo relativo a esta materia, sem de modo algum pretender 
as honras de um Irabalho completo. 

N'aquella nota consignei a idea de que no sebo vegetal 
do brindao existia um acido solido, que me parecia differir 
do acido stearico em quanto a sua composicao, pois que na 
formula, determinada em vista das minhas analyses , appa- 
recia um equivalenle de agua a mais do que na d'esle ulti- 
mo, segundo a formula recentemente adoptada. 

Esta diffcrenca de um equivalenle do agua era, na reali- 
dade, bem pouca coisa, para por si so me levar a admittir a 
cxistcncia de um novo acido, mas, a par d'esta differenca de 
composicao, occorreu uma circumstancia que me decidiu em 
favor d'aquella idea, c foi esta a observacao da lemperatura 
em que o acido do brindao se fundia. Ihcrmomelro de que 
me servi , e que cu tinha como cxacto , deu-mc scmpre o 



DAS SCIENCIAS E LETTRAS, 3i9 

ponlo dc fusao mais elevado do que 70", que e o ponto de 
fusiio do acido slearico. 

Uma oulra consideracao veio ainda influir no meu espirilo 
c suscilou, lalvez demasiadamente, os raeus escrupulos. Te- 
nho para mini que nas sciencias de observaciio vai sempre 
arriscado o invesligador que se deixa facilmente preoccupar 
das ideas puramenle theoricas, porque muitas \ezes a ver- 
dade Ihe e sacrificada. 

principio philosophico da simplicidade de causas e 
muUipUcidade de effeitos abrange nao so os dominios da 
physica do mundo , mas tambem os da chimica terreslre. 
Sem nos elevarmos a hypolhesc da exislcncia de uma unica 
especie de materia, que, debaijto do aspeclos variados pela 
diversidade infinita dos grupamenlos moleculares, originou 
essa immcnsa variedade de corpos quo oonstiluo o mundo 
material, podemos lodavia admitlir, sobre factos bem apre- 
ciados, que os diversos corpos de nalureza inorganica e or- 
ganisada sao formados niio so por um numero muito reslri- 
cto de elemenlos, mas lambem que os productos mais com- 
plexos se formam pela junccao de algumas combinacoes do- 
linidas em numero limilado e que apparecem repelidas em 
substancias de nalureza e origcm muito differentes. Assim 
como no reino mineral nos vemos a cal , a silica , o oxido 
de ferro, o acido sulfurico, a alumina etc. repelidos em di^ 
versos mincraes , assim no reino vegetal nos apparecem os 
mesmos acidos organicos, os mesmos alkaloides, os mesmos 
principios nculros constituindo productos muito diversos. E 
mais conforme com os principios philosophicos da sciencia 
admitlir que o mesmo corpo cntra na composicao de diver- 
sas materias , do que imaginar que os productos differentes 
devcm sempre conter principios diversos. Enlrclanto a ex- 
periencia tcm mostrado que principios da mesma serie dif- 
forcm algumas vczes cntre si por tiio pequeno numero de 
elemenlos, e ale simplcsmeute por um arranjo diverso d'es- 



350 \NN\ES 

scs elomenlos, que nos vein a tcntacao de os considerar co- 
mo idcnlicos, aUribuiiulo as dilTercncas a imperfcicao das 
analyses e dos meios dc observacao. 

Foi rcceio dc coder a esla tendencia que fez com que 
cu, eslando ainda no conieco do esludo do acido exlrahido 
do scbo do brindao, nic prcndcsso demasiado ao resullado das 
niinhas analyses, e, \cndo que cilas me davam conslante- 
inenle menos carbonio do que perlenoe ao acido stearico , 
concebesse a idea que enunciei de que aquellc acido era um 
acido novo, apesar de que a diffcrenca era apenas a de um 
equivalente de agua. 

Nao tendo aqui pessoa a quern podesse confiar a rcolifi- 
cacao das minhas experiencias, porque poucos sao os que , 
enlre nos, se dao ao trabalhoso estudo da chimica especula- 
liva, e principalmente ao da chimica organica, cujo campo 
e lao vasto e (5o povoado do difficuldades, consultei por es- 
cripto meu amigo Julio Bouis, residente cm Pan's, e que 
ja havia colaborado comigo em Irabalhos analogos, mandan- 
do-lhe ao mesmo lenipo amostras dos produclos que havia 
preparado e materia para elle reetificar tudo quanto eu ha- 
via feilo. A remessa da minha carta e dos objectos a que me 
refiro foi dirigida por via de pessoa que d'aqui partiu em Ja- 
neiro d'este anno, mas infelizmcnle a enlrega nao teve logar 
senao em principios de junho, e eu, esperando debalde uma 
rcsposta a minha consulfa, resolvi-me a aprcscntar a Acadc- 
mia a nota a que ja me referi , rescrvando-me amplial-a 
ou reclifical-a em tempo mais opportuno c quando houvesse 
lerminado todo o estudo e me achasse habililado para rcdi- 
gir uma Memoria mais extcnsa e complcta sobre o objeclo. 
No principio do mcz dc jullio reccbi de Pan's uma carta de 
Mr. Bouis na qual elle mo dirigia algumas reflexoes sobre a 
inlcrprcfacao dos rcsullados das minhas experiencias. Segun- 
do seu modo dc v6r, o acido , a que cu havia intcrina- 
mcntc dado o nomc dc brindonico , nao era seniio o acido 



DAS SCIENCIAS E LETTR.VS. 35*1 

slcarico , ao qual achara o ponto dc fiisao de 70**, que eu 
cncontrei scmpre niais elevado , e os oiitros caraclcrcs que 
justificavam a idenlidade dos dois acidos. Para corroborar 
ainda esta idea, procedeu a preparaciio do acido, separando 
primeiro pelo processo de Le-Canu a slearina, e, saponifican- 
(!o-a depois, obleve o acido solido, cuja analyse Ihe moslrou 
ser acido slearico. Niio contcnle com as suas proprias obser- 
vacoes, propoz a mesma questao a Mr. AVurlz que obleve os 
mesmos resullados. A Yisla do exame feilo por Mr. Bouis, lao 
conhecedor de tudo o que diz respeilo aos corpos gordos, e 
da opiniao de Mr. Wurtz, cuja auctoridade nas questoes da 
chimica organica e de tao grande peso, nao podia eu deixar de 
cnlrar em nova vorificacao das minhas proprias experiencias. 

A primeira duvida que tralei de resolver foi a da veri- 
ficacao do ponto de fusao do acido ; o Ihermomelro de que 
me linha servido e que eu trouxera de Pan's como exacio 
da casa de Mr. Deleuil, foi confrontado com oulro ja afferi- 
do, coadjuvando-me n'esta observacao o sr. J. A. daSilva, 
e logo reconheccmos ambos quehavia nas divisoes da escala 
grande irregularidade , pois que na subida da columna de 
mercurio, parlindo ambos do mesmo grao, aquelle de que eu 
me havia servido chegou a 73°, em quanto o oulro, aque- 
cido no mesmo banho , marcava apenas 70", e iodavia era 
urn Ihermomelro de bella apparencia, e cujas divisoes esta- 
\am perfeitamenle gravadas e pareciam dar teslimunho de 
que fora graduado com todo o esmero. D'onde se ve que se 
nao pode preslar inleira confianca a instrumentos d'esla or- 
dera sem os sujeilar a uma rigorosa verificacao. 

A primeira causa quo originara a minha duvida eslava 
deslruida, fallava-me so explicar a differenca que havia cons- 
lantemenle achado na quantidade de carbonio dado pela ana- 
lyse do acido. Ora esta differenca eslava dentro dos limites 
dos erros provenienles do processo de analyse. Pela media 
de muilas analyses tinha eu achado : 



3o2 ANNAES 

Carbonio 7i,il 

Ilydrogcnio 12,64 

Oxigenio 12,9o 

mas cnlie eslas ha\ia uina (iiie ino deu o seguinlo : 

Carbonio To, 33 

Ilydrogcnio 12,G6 

Oxigenio 12,01 

c esla, reduzida a equivalentcs da exaclanienle a formula do 
acido slearico G^*' H^" 0* e nao C" H'' 0^ como cu calcu- 
lara primeiramenle. D'onde viria porem esla difforenca ? Nao 
me foi diflicil conhecel-o. Nas analyses enipreguei scmpre , 
scgundo as indicacoes de Gerhardt, o oxido grosseiro dc co- 
bre, obtido pela combuslao da limagem do metal n'um forno 
de mufla, como sendo aquelle que, por ser menos poroso , 
absorve menos a humidade do ar durante o tempo que se 
gasla em carregar o tubo ; mas se die apresenta esla nota- 
\el vantagem , por outra parte pode ser suspeilo de nao fa- 
cililar tanto, como o oxido fino, a combuslao total do car- 
vao, e foi isio exactamente o que aconleceu em lodas as ana- 
lyses, menos em uma, na qual o defcito do oxido foi compen- 
sado pela passagem muito prolongada do oxigenio sccco a tra- 
vcs do tubo a uma temperalura rubra no fim da combuslao. 
A vista d'estes faclos e d'estas consideracoes reconheci 
francamente que havia sido demasiadamcnte escrupuloso cm 
nao admiltir logo a identidadc entre o acido do sebo do brin- 
dao e acido slearico , idenlidade que , independentementc 
das vistas puramcnlc theoricas, c de grande imporlancia in- 
dustrial, pois que nos olTcrece n'um producto vegetal, facil 
de obtcr, uma tao preciosa materia, ja tao acrcditada no con- 
sume gcral. 



DAS SCIENCES E LETTRAS. 353 

Uma nola, que foi ullimamentc apresentada a Acadeniia 
das Sciencias do Pans pelo sr. J. Bouis, em seu e em meu 
noma, da esla queslao por rcsolvida ; mas eu nao devia dci- 
xar de cxplicar pessoalmcnte um ponto que para o future 
poderia ser causa de duvidas, e nao quiz demorar por mais 
tempo esla explicacao, porque poderia lalvez algucm suppor 
que cu me recusava a dal-a so por amor proprio ; mas, em 
sciencia, como em ludo o mais, a verdade nao deve nunca 
ser sacrificada. Agora espero poder em poucos mezes lermi- 
nar e complelar o estudo sobre a semente do brindao, e dos 
resultados d'este estudo farei objecto de uma Memoria espe- 
cial. 

18 do julho 1857. 

J. M. d'oliveira pimentel. 



\i!){ ANNAKS 



REVISTA 



DOS 



TRABALliOS ClIIMICOS. 



l\a sessao de 15 dc junho, na Acadcmia das Sciencias de 
Pan's, sr. Berlhelol apreSenlou a primeira parte de iima 
Memoria sobre as substituicues inversas. ^ este um esludo 
de synlhese muilo inleressante na chiniica organica debaixo 
do ponto de visla theorico, e que, com o andar dos tempos, 
deve conduzir a resolucao de questoes importantes. 

Os trabalhos do sr. Dumas e outros chimicos notaveis ha- 
\iam ja ensinado os processos geraes para substituir nas coni- 
binacoes organicas o chloro, o bromio ou o iodo ao hydro- 
genio, sem alferar o typo da molecula organica. Outros ex- 
pcrimentadores, Melsens, Kolbe, e Frankland, tenlaram res- 
tabelecer a molecula primitiva, deslocando novaraente o chlo- 
ro , bromio ou o iodo pelo hydrogcnio, c conseguiram-o 
n'alguns casos particularcs, como na transformacao do acido 
chloroacetico (G* IICP 0*) em acido acetico (C H* 0*), na 
do pcrchorureto de carbonio (C^ Cl^) em gaz dos pantanos 
(C^ H^) e em poucos mais, por raeio do amalgama de potas- 
sio, pela pilha cm prescnca do zinco, ou pclo zinco e pelo 
sodio a alias temperaluras, e ainda por outros processos de 
um emprego scmpre rcslricto c limitado a circumslancias 
particularcs. 



DAS SCIEXCIAS E LETTRAS. 3o5' 

sr. Berlhelol, nas suas indagacoes sobre a synlhese dos 
carburelos dc hydrogenio, cmprendeu o esludo de processes 
geracs lendcnlcs a obler as subslituicoes inversas. Os scus 
processes repoiisam sobre o emprego do hydrogenio livre ou 
do hydrogenio no eslado nascenle. Nao cabe nos limitcs d'es- 
ta revista dar uma idea bem clara dos novos mclhodos eni- 
pregados pelo sr. Berlhelot, e por isso nos limilanios a indi- 
car aqiii o apparecimento d'esle trabalho no nuindo scicnli- 
fico, e nas aclas da Acadeniia cncontrarao, os que n'clle se 
interessam, o extraclo da referida Memoria. 



acido oxalico , descoberlo desde muilo tempo e bcni 
conhecido dos chimicos em qnanlo as suas propriedades, e, 
como todos sabem , um dos produclos ullimos da transfor- 
macao e oxidacao de principios organicos complicados ; mas 
a formula, que dcvc represenlar a verdadeira conslituicao da 
sua molecula, e ainda incerla, apesar da simplicidade da com- 
posicao d'esle corpo. Contendo elle so o carbon io, o oxigenio 
e hydrogenio, quizeram alguns chimicos consideral-o como 
um simples grao de oxidacao do carbonio, collocado na serie 
dos oxidos d'este elemenlo entre o oxido de carbonio CO, e 
aciodo carbonico C0% porque, abstrahindo da agua basi- 
ca, a sua formula podia ser G^ 0^ Ultimamente grande nu- 
mcro de chimicos, altendendo a faculdade de que este acido 
gosa de formar saes acidos e sacs duplos a similhanca do 
acido larlrico, decidiram-se a considerar o acido oxalico co- 
mo um verdadeiro acido organico, assignando-lhe a formula 
C* IP 0' ou C 0% H^ 0^ sem comludo apresentarem uma 
prova positiva e experimenlal que podesse justificar complc- 
lamcnte esta theoria. sr. Wurlz observou que o acido 
oxalico derivava do glycol, assim como o acido acetico dc- 
riva do alcool por meio da oxidacao. glycol e um alcool 
diatomico descoberlo o anno possado pelo sr. Wuriz , pelo 



3ij6 ANNAES 

melhodo synlhelico , junlando aos denienlos do gaz oleifi- 
canle, o oxigcnio e o hydrogcnio. 

Oxidando o glycol em prescnca do negro de plalina pro- 
diiz-se acido carbonico, e o acido glycolico : por6m oxi- 
dando o mesmo corpo pelo acido azolico, com o auxilio do 
calor, ou pelo acido azolico monohydralado, produz-se cn- 
lao acido oxalico, e, se n'eslas rcaccoes sc manifosla o aci- 
do carbonico, este provem da oxidacao do proprio acido oxa- 
lico. 

As seguinles formulas exprimcm as relacocs que exislem 
enlre o glycol e os seus produclos de oxidacao. 

C^ IP) , C IP 0^)^, C^O'ln* 



glycol 



acid.gly- acid.oxa- 

colico lico 



V^-se a mesma marcha na oxidacao do alcool. 



C*H^)(3^ ^' ^' ^%^ 



H r II 



alcool 



acid, ace- 
tico 



Assim acido oxalico e , segundo a propria expressuo 
do sr. Wurtz, o acido acelico do glycol. 

A visla d'esles faclos devc admillir-se que o acido oxalico 
conteni 4 equivalcntes de carbonio, porque derivando-se do 
glycol provem, em ultimo resultado, do gaz-oleificanle que 
conlem 4 equivalenles de carbonio. 

fConlimia.J 

J. M. d'oliveira pimentel. 



DAS SCIENCIAS E LETTRAS. 3I>7 



REVISTA ESTRANGEIRA. 



MARCO. 



(jEOLOGiA. — cstiido das scicncias segue direccoes varia- 
das segundo as epochas e a impressao produzida no espi- 
rilo dos sabios por algum descobrimenlo iniporlanle. Os geo- 
logos teem, como os sabios que esludam as outras sciencias, 
empregado a sua allencao sobre ponlos diversos da conipli- 
cada sciencia da terra, e dos progresses successivos, feitos 
em cada uma das partes da geologia, tern resultado o adian- 
tamento em que a sciencia se acha actualmente. 

Por longo tempo os geologos fizeram dos terrenes crys- 
tallisados o objeclo principal das suas indagacoes ; o estudo 
dos fosseis animaes e vegelaes, feilo pelos celebres Cuvier e 
Brogniart, mudou a direccao dos Irabalhos geologicos. A fa- 
cilidade relativa de deterniinar a edade dos lerrenos que con- 
teem reslos organicos, nao so pelo conhecimenlo d'esses fos- 
seis , senao tambem pela sua disposicao em camadas sobre- 
poslas, e interesse que teni o conhecimenlo da hisloria da 
vida sobre a terra , e dos successivos e lenlos aperfeicoa- 
mentos por que passou o organismo ale chegar ao eslado em 
que hoje o podemos observar, as differencas e analogias en- 
tre OS seres hoje e\islentes e os que em epochas remotas po- 
voaram o globe , tudo contribuiu para os geologos , n'esles 
trinla ultimos annos , esludarem de preferencia os terrenes 



3') 8 ANNAES - 

eslratificados e a palconlologia. N'csic niomcnto iinia cspccie 
dc rcaccao se vai manifeslando na sciencia em favor dos Icr- 
renos cryslallisados, ciijo conliecimcnlo se conservava esla- 
cionario, e niuilos gcologos dislinclos dirigcm sobrc esles ter- 
renos a sua aKeiicao , buscando fixar a sua edade relaliva, 
nao so pclos caiaclercs niineralogicos, mas pela composiciio 
chimica , o pela posicao relaliva. 

sr. Elias de Beaumonl e Dufrenoy fizeram imporlan- 
les observacoes sobre as rochas cryslallinas, indicando o seu 
modo de formacao, as dpocbas succcssivas em que cllas ap- 
pareccrani na crosla terreslre, c, conseguinlemenle, a sua 
edade relaliva ; oulros geologos Jancaram lambem luz -sobrc 
csle assumplo diHicil; comludo os progresses n'csle ramo da 
sciencia teem sido muito lenlos comparativamenle com os pro- 
gresses feilos no cstudo dos lerrenos modernos. E verdade 
que as difficuldades siio aqui muito maiores : pelo conheci- 
menlo dc alguns fosseis pode delerminar-sc a edade de um 
lerreno eslralificado ; para conheccr os tcrrenos crystallinos 
sao indispensaveis longos c dilTiceis Irabalhos de compara- 
cao, e mesmo o auxilio dc uma analyse chimica complica- 
da, porque os caracteres apparentes sao muilas vezes insuf- 
ficienlcs para caraclcrisar taes terrenes. 

sr. Durocher fez das rochas igneas objecto de um va- 
lioso trabalho , buscando dislinguil-as particularmcnle pela 
sua composicao chimica ; e os resultados a que chegou siio 
do maior inleressc para a gcologia. globo terreslre foi a 
principio uma grande massa fluida dotada de uma lempcra- 
lura eievadissima ; por um resfriamenlo successivo , a capa 
mais exterior d'essc globo liquido solidificou-sc ; cssa pelli- 
cula exterior assim furmada necessariamente devia ser com- 
posla pela camada mais exlerior , ao mesmo tempo a mais 
leve e a mais fusivel dc lodas. Essa camada solida primiti- 
va e a base de lodos os lerrenos que hojc formam a codca 
solida do globo, c cUa composta do granilo primilivo. 



i)AS sciknt.ias e i.f.ttras. 3i)9 

Todas as rochas pyrogcnicas que irrompcram a caniada 
solida, que succcssivameiUe sc foi formando sobre o granilo 
primilivo , durante as primeiras edades da terra, foram ro- 
chas feldspaticas c siliciosas, no nicio das quaes so appare- 
ceni em pcquenos espacos rochas amphibolico-pyroxenicas. 
esfudo chinn"co das rochas d'estes dois grupos niostrou ao 
sr. Durocher que todas as rochas igneas provinham de uma 
zona fluida que exisle por baixo da parte solida da terra, 
zona formada de duas camadas , uma superior, mais ieve, 
que elle denomina camada acida , e que so distingue pela 
sua riqueza em silica e alkalis, e pela sua pobrcza em ba- 
ses terrosas e oxido de fcrro ; oulra inferior , que denomi- 
na camada basica, por haver n'ella pouca silica c considc- 
ravel porcao de oxidos metallicos , corno a alumina, a cal, 
a magnesia , e o oxido de ferro ; e alkalis, parlicularmcnic 
a soda. A disposicao d'eslas camadas Iluidas explica a dis- 
Iribuicfio das rochas igneas a suparficic do globo , as mais 
anligas sao quasi todas de uma composicao acida , as nio- 
dernas sao basicas. Eis o modo por que o sr. Durocher aclia 
a ligacao entre os faclos que a geologia observa , e a sua 
theoria das duas camadas fluidas. 

« Vcjiimos, diz elle, se eslcs faclos nilo concordam com 
as consequencias das minhas indagacoes : c no momenlo ou 
em consequencia de dcslocacoes produzidas em alguns pon- 
tos da crosta lerreslre , que surgem as malerias em fusao. 
Impellidas de baixo para cima pela compressao que sofTrc 
pclas massas suprajacenles, ou levanlada pelo poder expan- 
sivo dos fluidos claslicos , a parte superior da zona fluida 
levanta-se nas fendas, c d'aqui rcsullam as grandes erupcoes 
que Irazcm a supcrficie o magma silicioso (a camada aci- 
da). Mas esta ejeccao nao pode ler logar scm allerar as con- 
dicoes de equilibrio do magma basico , inferiormente situa- 
do : uma ccria porcao sera geralmenle arraslada com o ma- 
gma silicioso nas anfracluosidades da crosta terreslre, onde 

TosioI.-AcosTO lii; 1857.-1." Classe. 24 



3C0 ANNAES 

podcra conservar, cm parlc, o scii calor o a sua fluidrz dii- 
ranle o rcsfrianicnlo das grandcs niassas feldspathicas que 
sc tcm accumulado cm lorno das fcndas ou orificios de eru- 
pcao , formando cadcias de monlanhas de conlornos arrc- 
dondados. Mas , ao solidificar-sc , o granito dividiu-se por 
fcndas , c divcrsas causas dc dcslocacao fizcram ali nasccr, 
do mesmo modo que nos Icrrcnos eslralificados adjacenles , 
grelas, a Iravcs das quaes se injcclaram porcocs ainda liqui- 
das do magma basico dcslocado na cpocha da crupcuo do 
granito : assim , ao que parece , se formaram os diques e 
massas mais ou mcnos considcraveis de rochas amphiboli- 
cas que se enconlram corlando as formacocs granilicas e os 
terrenos que as cercam. Alcm d'islo, porcoes internas do ma- 
gma silicioso, niio inteiramenlc agglomeradas , dcram logar 
a effeitos analogos , c produziram esses veios e slockwerks 
de granito ou de pegmatite , que sc notam na maior parte 
das regioes granilicas , e que se distinguem da massa que 
OS involve por ccrtos caractcres de composiciio ou de lextu- 
ra. A mcsma serie de phenomcnos pode rcproduzir-se cm 
periodos diffcrcntes, algumas vezcs no mesmo paiz, como so 
observa no Norte da Europa. Comludo, vc-se como um paiz, 
em que iem logar uma grande erupciio, se lornou a sede de 
erupcoes secundarias e conscculivas , assim como demons- 
tram ainda hoje , mas em escala differente , os phenomcnos 
vulcanicos. Muito tempo depois da emissao das rochas, con- 
tinuou a exhalacao de gaz e de vaporcs, do que resultaram 
veios quartzosos e melalliferos, c devem-se prcnder as mcs- 
mas causas as emanacOcs de fontes thermo-mincraes, que 
se podem considerar como a ultima manifestacao dos pheno- 
nienos igncos. » 

Como se ve, o trabalho do sr. Durocher csclarcce mui- 
to a importante queslao gcologica das rochas crystallinas , 
que tanto nos intcrcssa pela abundancia das formacocs d'es- 
ta natureza que sc enconlram cm Portugal. Guiados pores- 



DAS SCIENCIAS E LETTRAS. 301 

Ics principios fundados n'uma analyse chimica rigorosa e 
n'unia cxacla obscrvacuo dos factos , os gcologos podenio 
niclhor e mais facilnienle esludar a natureza e edade relali- 
\a dos lerrenos do nosso paiz. melhodo csta tracado , a 
sua applicacao depende de longas e conscicnciosas cxplora- 
coes , de que resullara honra e gloria para os que as em- 
prendercm, e inlcresse para o paiz. 

Oulro geologo , o sr, Delesse, fez tambem urn trabalho 
imporlanle sobre esia mesma difficil parte da geologia, que 
mereceu urn honroso Relalorio do sr. Dufrenoy na Acade- 
mia de Pan's. sr. Dclessc limitou o seu estudo as nionla- 
nhas dos Vosges , e formou dos variados granitos d'eslas 
montanhas dois grupos : um de granilos dos baloes , cara- 
cterisado pela prescnca de uma so qualidadc de mica, nola- 
vel pela sua cor escura , mais geralmente negra ; oulro do 
granito dos Vosges, que conlem duas especies de mica, uma 
escura, outra brauca como prala. granito dos baloes for- 
ma grandes massas arredondadas, que se elevam acima de 
todas as oulras rochas , e e consliluido por graos proxima- 
mente eguaes e disposlos com homogeneidade. granilo dos 
Vosges forma montanhas mcnores, que cercam os baloes, de 
modo que se ve que eslcs romperam por entre o granito dos 
Vosges , penetrando-o violcnlamente ; este granito dos Vos- 
ges, que e o maisanligo e menos homogeneo , e tcm uma 
estructura porphyroide. 

Os que conhecem a constituicao geologica de algumas das 
principaes montanhas graniticas do nosso paiz, podem apre- 
ciar a importancia que tem para nos os trabalhos dos srs. 
Delesse e Durocher , e o provcito que d'elles se pode lirar 
nas exploracoes geologicas fcitas era Portugal. Foi esta a ra- 
zao por que julgamos devcr dar d'esles trabalhos nolicia n'esla 
revista das sciencias. 

PHYSicA. — A pintura e, por essencia, uma arte ideal, 
uma arte em que a illusao tem uma parte principal. A su- 

24* 



362 \NN\ES 

perioridadc da pinliira sobre as oiitras artcs consislc cm po- 
dcr manifcslar as imprcssocs puramenlc cspiriliiacs, as pai- 
Aoes c OS scnlinicnlos mais sublimes. A pinlura podc scr 
lima interprelacao da nalurcza, inlcrprclacao cm que so sinia 
a vida, a inspiracao do arlisia, mas nunca uma fiel imagcm, 
uma rcproduccao rigorosa do mundo exterior. Das cscolas de 
pinlura a menos razoavel e a que aspira ao rcalismo , por- 
quc OS meios de que o pinlor dispoe suo insuflicicnlcs para 
copiar fielmcntc a nalurcza , e a scicncia demonstra que os 
mais celebres quadros nao Iceni scnao uma realidadc dc con- 
vencao, que os olhos e a intelbgencia admillcm e admiram, 
porcm que a analyse rigorosa prova ser apenas ficlicia, 

sr. Janim, csludando com um apparclho proprio para 
medir a inlensidade da luz , um photomelro da sua inven- 
cao , a inlensidade relaliva do brilho dos objcctos illumina- 
dos pelo sol ou pela luz artificial, do ceo, das nuvens, das 
montanhas a dislancia, provou a cxaclidao das observacoes 
que acima fizemos , islo e , a impossibilidade de rcproduzir 
pela pinlura os phcnomcnos da nalurcza. A nalurcza aprc- 
senta um brilho de luz que a pinlura nao pode rcproduzir, 
e de que resultam maravilhosos conlraslcs de claridade e de 
sombra, de cores e de cambiantes : para imitar a nalurcza, 
pinlor lem de escureccr lodos os foscos, de apreciar pela 
simples \isla as relacocs de inlensidade do brilho dos objc- 
ctos que prclende represcnlar. Os olhos sao inslrumenlos in- 
fieis para csla avaliacao, e a cscala das linlas e limiladissi- 
ma em comparacao da infinita luz e da obscuridadc infinila 
que se encontram na nalurcza ; do que rcsulla uma dupla 
dilliculdadc para a pinlura. 

sr. Janim dclermina, pelo photometro, a inlensidade 
relaliva da luz de um muro allumiado pelo sol c de uma som- 
bra projeclada sobre esse muro ; da luz de uma arvoro e da 
sombra d'esla no chao ; do ceo c do interior de uma casa 
em que a luz enlra pela janella dc \idracas ; da luz dc uma 



DAS SCIENCLVS E LETTRAS. 363 

vela c dos objeclos por ella allumiados ; passando depois a 
cstudar os quadros dos mais celebrcs pintores, em que esles 
objecfos so achain rcpresenlados , enconlrvou uma excessiva 
dilTurenca cnlre a nalureza e as produccocs da ai'te. 

A differenca, por cxemplo, cnlre o chao allumiado pelo 
sol c lima sombra n'elle projeclada 6, segundo o estado da 
alhmosphera , de 10 a 20 , e nos bons quadros cssa diffe- 
renca (i apenos de 2 a 4. A iuz de uma alampada e mais 
iutensa do que os objeclos que ella allumia, pelo menos, 1500 
vezcs , c nos quadros a intensidadc da Iuz e apenas 20 ou 
30 vezes maior do que a dos corpos em que ella ianca os 
seus rayos direclamente. Em relacao a Iuz e a sombra a co- 
pia da nalureza e absolulamente impossivel, porque o bran- 
co de prala dos pinlorcs nao e senao 80 vezes mais inlenso 
do que negro mais pei'feilo. 

— A lelegraphia electrica faz todos os dias uovos pro- 
grcssos. Dm novo apparelho, que funccionou em Florenca, 
invenlado pelo sr. abbade Casclli, pcrmille o transmiltir de 
uma eslacao para oulra um aulographo qualquer, com bas- 
tante exaclidao para se poder rcconhecer a lellra. appa- 
relho e simples, e facilmenle se percebe o sou modo de func- 
cionar. 

As corrcnies eleclricas podcm actuar sobrc um papel 
preparado com uma composicao chimica, e, decompondo es- 
ta, dar origem a um produclo corado , azul, por excmplo. 
Por mcio das correntes pode-se tambem dar a distancia, mo- 
vimcnto uniformc e regular a dois ou mais pendulos que po- 
nham em movimenlo machinismos de relogio. Ora eis-aqui 
a construccao do lelegrapho aulographico do abbade Caselli. 
Escreve-se n'um papel praleado , com uma tinta grossa , o 
despacho lelcgraphico ; c este papel e collocado enlre dois 
cylindros que, pelo seu movimenlo, o fazem caminhar lenta 
c rcgularmenlc, ale o papel ler passado lodo cnlre elles. Uni 
eslilcle mclallico passa Iransversalmcnle sobrc o papel , em 



364 ANNAES 

liiiha recla, a mcdida que esle vai saindo dos cylindros , c 
pcrcorre-o assim em loda a sua cxtensao. Uni papel , chi- 
micamenlc preparado , e collocado entre dois cylindros na 
eslacao ondc o dcspacho e recebido , e esse papcl caiiiinha 
com um movimcnlo ogual c uniforme como o do papel em 
que despacho se escreveu, em conscquencia do movimenlo 
dos cylindros que se ligaram : sobre este papel caminha lam- 
bem para um e oulro lado uma ponla melallica. Todos es- 
fcs movimenlos sao delerminados por pendulos movidos pela 
eleclricidade. Eslabelecida a corrente enlre as duas cslacoes, 
segue-se que ella actua sobre o papel chimico quando o cs- 
tilcte do apparelho transmissor passa sobre a parte praleada 
do papel, mas inlerrompe-se quando passa sobre as lellras, 
por ser a linta composta de uma substancia isolanle ; por 
isso eslilele do apparelho receptor actuando sobre o papel 
chimico , decompoe-o quando ha corrente e deixa-o inlaclo 
quando csla c inlerrompida , de modo que o papel chimico 
fica corlado de riscos azucs , exceplo na parte correspon- 
(lente as leltras, que fica branca ; isto e , o despacho appa- 
recc escripto em lettras brancas sobre fundo azul. 

CANAL MARiTiMO DE SUEZ. — Uuir as nacucs do Occidentc 
com as nacocs do Oricnle , a Europa com a India por um 
canal marilimo que corle o islhmo de Suez, unindo o Me- 
dilerraneo com o Mar-Vermclho, e um pensamento grandio- 
so que teve origem na mais remota anliguidado, e que nao 
deixara em poucos annos do ser poslo em execucao. Ja no 
tempo de Pharao Nechor, ha vinle e qualro seculos, se prin- 
cipiou a abrir um canal, nao pora unir os dois mares, mas 
para ligar o Mar-Vermelho e o Nilo. Vaticinios, filhos da 
supersticao, e um crro de nivelamento que fez suppor o Mar- 
Vermelho n'um nivel muilo superior ao Mediterraneo, de- 
morou a execucao d'esta obra , que os Plolomcos termina- 
ram mais tarde , e os romanos apcrfeicoaram. Este canal, 
que cslabelcceu a communicacao enlre os dois mares pelo 



DAS SCI1'NC[AS II LLTTUAS. 36^ 

ISilo, fui ilcpois mandado deslruir pelo niusulniano El-Mon- 
sai'r. 

Na occasiao da celebrc cxpedicao dos francezes ao Egy- 
plo , iini engenheiro foi eocarregado de cstudar a topogra- 
phia dos tcrrenos coniprehendidos enlre o Mar-Vermelho c 
Mediterraneo , e de fazer o projeclo de um novo canal ; 
mas esse engenheiro , por um desculpavel erro de nivela- 
menlo, acliou que o Mai-Vermclho se achava n'uma allura 
muito superior ao Mediterraneo. 

commercio rapidamente crescenle da Europa, e as gran- 
des conquislas dos inglezes na India , chamaram a atlcnclTo 
sobrc a conveniencia de abrir uma communicacao marilima 
entre o Occidente e o Oriente. Trezenlos milhoes de occi- 
denlaes , que estao senhores da sciencia , da industria , da 
forca, da opulencia, por o islhmo de Suez serao poslos em 
dirccta communicacao com seiscentos milhoes de orientaes 
que vivem nos paizes mais ricos em productos da natureza. 
Encurlando consideravelmente o trajeclo entre a Europa c a 
India, o canal tornara desnecessarias as difficeis baldeacoes 
que hoje alTastam o commercio de seguir o caminho de Suez, 
fazendo-lhe preferir a longa viagem pelo cabo da Loa-Espe- 
ranca. 

Um engenheiro do vice-rei do Egypto, o sr, Linant, cm 
1841, formou o projecto de uma associaciio para a abertura 
de um canal entre os dois mares, mas esle projecto nao se 
realisou. Em 1846 de novo se suscitou a idea da associa- 
cao , e entao se execularam rigorosos nivclameutos , pelos 
quaes se reconheceu que a altura media das aguas do Mar- 
Yermelho e apenas 68 centimetros superior a do Mediterra- 
neo, e conseguintemente chegou-se a conclusuo, de que en- 
tre OS dois mares se pode abrir um canal de larga secciTo , 
por onde possam passar os maiores navios de transporle , 
sem necessidade de comportas, e de oulras obras d'arle dif- 
ficeis. Em 1854 sr. Fernando de Lesseps conseguiu do 



366 ANNAIDS 

vice-rei do Egypto aiic(oiisac5o para organisar iima associa- 
cao em que tomassem parte as nacoes que niaiores inleres- 
ses teem no commcrcio da India ; e enlao se formou uma 
commissiio de engenheiros ciNis, em que essas nacoes se acha- 
vam represcntadas , a excopcao dc Portugal, onde, infeliz- 
menle, as ideas de mesquinha econoniia ou a indifierenca a 
niais indesculpavel, tern, muitas vezes, mais forca do que o 
amor pela dignidade nacional, e o descjo de ler urn logar , 
pela sciencia, eutre as nacoes civilisadas da Europa. 

Estudos scrios e difficeis foram exceutados para se reco- 
nheoer a melhor direccao do tracado do canal maritimo, lo- 
das as circumstancias topographicas e geologicas foram pon- 
doradas , todos os calculos rigorosamcnte feitos , e d'estes 
Iraballios resultou o projeclo de urn canal quasi directo en- 
Ire Suez e Tineh, a antiga Peluza, que tem 147 kilometres 
de comprimenlo, imporlara em Irinta e um mil contos pro- 
ximamente, e podera estar concluido dentro de seis annos. 
sr. Fernando de Lesseps explicou, n'uma serie de Memo- 
rias, este vasto projeclo, esla obra grandiosa a que elle deu 
a principal impulsao : essas 3iemorias fizeram objccto de um 
inleressanlissimo Relatorio aprescntado a Academia das Scien- 
cias de Pan's pelo sr. bariio Carlos Dupin , Kelalorio que 
deve conlribuir para fixar a atlencao do mundo scienlifico 
sobre este projecfo de construccao , para o qual concorre- 
ram os mais elevados principios da sciencia moderna. 

PHTSiOLOGiA. — Um dos pbenomenos mais singulares do 
mechanismo da vida animal , descobertos pela physiologia 
moderna, e, sem duvida alguma, o da produccao de mate- 
ria sacarina no figado. Esta produccao de assucar tem fixa- 
do a attencao dos physiologistas, e dado assumpto a esludos 
e Iheorias mais ou menos acccilaveis dos chimicos. Um no- ■ 
vo descobrimento do sr. CI. Bernard \eio esclarecer muito 
este objecto , indicar claramentc o modo por que o assucar 
se forma no figado , c ao mesmo tempo rovelar uraa nova 



DAS SClliMCIAS E LETTHAS. 3B7 

analogia physiologica entrc os aniniaes e as planlas , que 
nao pode dcixar de interessar a physiologia gcral , sciencia 
Dioderna dcslinada a rapidos e iniporlantcs progressos. Por 
urn proccsso simples, o sr. CI. Bernard chegou a separar do 
figado uma materia particular, que elle denominou glycoge- 
nia , ncutra , scm cheiro nem sabor , e inteiramenle simi- 
Ihanle ao amidon que se encontra abundantemcnle nos teci- 
dos vegelaes , esta materia cora-se de azul-\ ioleta pela tin- 
lura d'iodo , e , posta debaixo das mesmas influencias que 
transformam o amidon vegetal em assucar, transforma-se ella 
lambem em assucar, passando por um estado inlermediario 
comparavel ao da dextrina. 

A materia glycogenia, esse amidon animal, forma-se no 
figado debaixo da influencia vital, e, dcpois, pela accao de 
um fermenlo , que pode ser o proprio liquido sanguineo , 
Iransforma-se em assucar ; do mcsmo modo que nas semen- 
tes dos vegetaes, por exemplo, se forma o amidon pela ac- 
cao vital , e este depois se transmuta em dextrina e assucar 
pela influencia da diastase. 

ECONOMiA RURAL. — As cnfermidadcs que teem n'estcs ul- 
limos annos dcstruido as creacoes do bicho da seda , anni- 
quilando assim uma immensa riqueza , e pondo em risco a 
pequena e precaria fortuna dos agricullorcs, teem chamado 
a attcncao dos homens de sciencia e dos praticos. Todos pro- 
curam achar um meio de por lermo a essas calamidades que 
fazem recear pelo futuro da sericicultura. 

Ja demos noticia do systcma cmpregado pclo sr. Andre 
Joao para alcancar uma raca de bichos de seda robusla , 
capaz de resistir as doencas, e dando productos de um alto 
valor ; os bons effeitos d'esse syslema racional hao de, cer- 
tamente, influir no espirilo dos agricultores que se dao a in- 
duslria da seda, e leval-os a scguir os preceltos simples mas 
utilissimos dados pclo illustrado crcador de uma raca jii hoje 
celebre em Franca. Oulros experimcntadores, pcrsuadidos, 



368 ANN.M'S 

dc certo com razao, que o niodo dc vida puramcnle artifi- 
cial dos bichos dc scda, principalmcnte nos grandcs estabe- 
Iccinienlos, vida que se passa n'uma indoloncia absolula, cm 
condicOes inuilo dessimiihanlcs d'aqucllas em que vivem os 
animaes livres , e sempre a uma temperalura quenle, inva- 
riavel e cxcessivamenle excilaiile, c a causa da sua dcgene- 
racao e das docncas que os destrocm, buscam retcmperar a 
raca , trazcndo-a oulra vcz as suas condicOes naluraes de 
exislencia, fazcndo-a viver ao ar livre, buscando o suslenlo 
sobre as amoreiras pelo csforco proprio. Dois agricullorcs 
francezes, os srs. Martins e Oubalier, coliocaram, em 185i, 
oilenta bichos de seda sobre uma amoreira nova na cpocha 
da terceira muda ; muitos d'estes bichos , lentos nos movi- 
mentos , nao poderam buscar por si o suslento sobre a ar- 
Yore, mas quarenla e oito chegaram a fazcr casulos perfei- 
tos , de que sairam borboletas muito vigorosas, Outros bi- 
chos, postos sobre a arvore logo depois denascerem, adqui- 
riram ainda maior vigor do que os que so foram para a ar- 
vore depois da terceira muda, e d'estes nasceram aihda bor- 
boletas muito vigorosas e activas. Em 1855 a experiencia 
foi repctida com os bichos saidos dos ovos da primclra crea- 
cao ao ar livre, e n'este anno os resultados foram ainda mais 
felizes: os bichos mais vigorosos c aclivos, os casulos pequc- 
Dos mas muito eguaes, as borbolelas fccundas c fortes. Es- 
tes ensaios, que nao foram continuados , parcce mostrarcm 
que a educacao dos bichos de seda ao ar livre pode ser um 
meio, se nao de obler grandes productos cm seda, pelo me- 
nos de regenerar algumas das racas profundamente altera- 
das pelo systema de creaclto adoptado ate hoje. 

— As racas sao susceptiveis de aperfeicoamento nao so 
nos animaes senao tambem nos vegelacs, e n'estcs ainda os 
apcrfcicoamenlos podem ser mais rapidos , c os resultados 
lalvez mais pasmosos do que os obtidos pclos inglezes nos 
animaes domcsticos. sr. Yilmorin dcu d'isto ja uma nota- 



DAS SClliiNClAS E LliTTUAS. 369 

vel prova na creacao de uma raca de belerrabas sacarinas, 
resultado de um trabalho assiduo, e de incessanlcs cuidados 
e esUidos : a differenca da produclividade das diircrcnles va- 
riedadcs dos vegetaes cullivados sao ainda uma prova incon- 
(eslavcl do muito que podem a cultura e a accao dos agon- 
ies externos sobre as propriedades das planlas. As necessi- 
dades sempre crescentes da sociedade , o rapido augmenlo 
da populacao, exigem que se procurem enire as variedades 
cullivadas aquellas de que mais seguramente se podem cs- 
perar abundanles colheilas ; e os esforcos de alguns agrono- 
mos ja effectivamente lendem para estc fim. Entrc as noli- 
cias scientificas do mez de fevereiro encontra-se a dos iiola- 
veis resultados oblidos da scmcntcira de cinco graos de Iri- 
go achados em 1849 n'um tumulo egypcio. Logo nos pri- 
meiros annos esles graos produziram 1.200 por 1. Os pro- 
duclos d'esle trigo foram crescendo de anno para anno , e 
em 185'i, n'uma propriedade do sr. Drouillard, 700 gram- 
mas, semeados a lanco em lerra muilo bem preparada, de- 
rail! quasi 62 semcntes, quando as variedades ordinarias no 
mcsmo solo dcram apenas IS. Outros 700 grammas semea- 
dos em linhas renderam 303 por 1. Em 1855" novas semen- 
teiras deram resultados egualmenle maravilhosos. 

Esles faclos merecem a allencao dos lavradores. Por cui- 
dados successivos c possivel crcar variedades muilo mais pro- 
ductivas do que as acluaes : ha muito a esperar dos traba- 
Ihos dos naturalislas e agronomos se elles buscarem alcan- 
car resultados d'esta ordem. 

JOAO DE ANDRADE CORVO. 



370 ANNAliS 

OBSERVATORIO METEOROLOGICO DO INFAN 



RESUMO 



fePOCUA. 


BAKOME- 
TRO. 


TIIERMOMETRO. 






m. d 


w(. d 


Thcrmomelros das tcmpc- 


1857 




Thermomelro. 


raliiras limitcs. 


Junho 


re « 
= g 

< c 


Exposto. 
A sombre. 


Maxima. 

Minima. 

Variacao 
diurna. 

Media 
do dia. 


Decadas. 


Milli- 
mclros. 


Graos cenle- 
simaes. 


Graos ccntesimacs. 


dal.' 


757,55 


22,77 


21,88 


23,60 


14,34 


9,26 


18,97 


Media. . » 2.' 


753,09 


22,04 


21,21 


22,75 


14,88 


7,87 


18,81 


» 3.' 


756,62 


25,12 


24,14 


26,67 


16,87 


9,80 


21,77 


MeJias do mcz 


755,72 


23,31 


22,41 


24,34 


15,36 


8,98 


19,85 



Extremas 
do mcz. 



Prcssao. 
I Maxima (das 4 epochas diarias). 761,23 cm 21 as 9 h. m. 

Minima » 746,82 » 18 » 3 h. t. 

Variacao maxima 14,41 

Teinpciatura. 

Maxima absolula 32,7 cm 12 

Minima , 1 1,2 

Variacao maxima 21,5 



DAS SCIKNCIAS E LETTRAS. 

TE D. LUIZ, NA ESGOLA POLYTECHNICA. 



371 



MENSAL. 



PSYCHROMETRO. 


UDocnvi'iio. 


anf.moghapiio. 


OZDNOMntRO. 


SKRI'MDADE 
EG etc. 


m. d 

Graodchumi- 
dade do ar. 


m. d 

a 
w). d 

AUura da agua 
phivial. 


«(. d 

Riimos do 
\cnlo. 


Mo.lias 
(liiinias. 


m. d 


Por 100. 


Milliraetros. 


Prcilomi- 
nanlcs. 


Graos mo- 
di os. 


Graos ine- 
dios. 


32,03 
63,28 
54,71 


TOFAI.. 

3,6 

31,0 

0,0 


q.q.S.O.cN.O. 
q.S.O. 
q.S.O. 


5.2 

6,2 
4,7 


6,6 
5,3 
6,7 


56,67 


TOTAL. 

34,6 


q.S.O. 


5,4 


6,2 



Humidade. 



r Jiuiniauue. 

Extrcmas ^Maxima (das 4 epochas diarias), . 91,9 cm 17 as 9 h.m. 

do mez JMinima > 28,4 » 2i as 3 h. t. 

' Variaciio maxima 63,5 



Irradiaca) nocturna. Differcnca m^dia mensal do thermometro de mini- 
mo habitual ao da relva 5,37. 

Dias mais ou mcnos venlosos : 7, 8, 9, 10, 11,15, 16, 17. 22. 

Chuva ou clunisco cm : 1,7, 14, 15, 16, 17, 18, 19,27,29, 30, 

Trovoes cm : 17. 



v. o Quadro das Ols. trihorarian. 



372 



ANNAES 

OBSERYATORIO METEOROLOGICO DO INFAN 



RESIMO 



£pocii\. 


UAllOME- 
TRO. 


TIIRRMOMETIIO. 


1857 
Jiilho. 


re re 
— o 

u 

A 


Tempoialuias liniitcs. 

i i 'R « « re S -: P j 


Decadas. 


Milli- 
melros. 


Graos ccnlcsimacs. 


dal.' 

M6dias . » 2." 

» 3.' 


757,23 
750,68 
757,19 


23,12 
34,72 
29, 3i 


15,42 
21,19 

18,18 


9,70 
13,53 
11,15 


20,27 
27,95 
23,76 


34,43 
42,27 
38,11 


9,70 
13,57 
12,92 


Midias do nicz 


757,0 't 


29,71 


18,26 


1 1 ,45 


23,99 


38,26 


12,09 



iPrcssa). 
Maxima (das 4 epochas diarias). 761,25^ cm 1 as 9 h. n. 

do moz. \ 

I Minima >» 753,61 » 4 » 9 h. n. 

\ Variarao maxima 7,63 

Ilumidade, 

.Maxima (das 4 epochas diarias). . . 81,5 cm 5 as 9 li. n. 

( Minima » 16,2 » 19 » 3 h. t. 

Variacao maxima 65,3 



DAS SCIENCIAS E LRTTP.AS. 

TE D. LUIZ, NA ESCOLA POLYTECIIMCA. 



373 



MEXSAL. 



PSYCHIIOMETRO. 


UDOGRAPHO. 


ANEMOGRaPIIO. 


OZONOlKETnO 


SF.RENIDVDE 

DO do. 


Graodchumi- 
dadc doar. 

B 


Allura da agua 
pluvinl. 

C 


Rum OS 
do \enlo. 

D 


Mciiias 
diurn.'.s. 


Medias 
diiirnas, 

E 


Por 100. 


Millimetros. 


Predonii- 
nantcs. 


Graos me- 
dics. 


Graos me- 
djos. 


56.30 
35,16 
54,40 


0.2 
0,0 
0,0 


N.N.O. 

N. 
N.N.O. 


4,4 
3,5 
3,4 


7,7 
8,7 
9,5 


48,81 


0.2 


N.N.O. eN. 


3,8 


8,6 



5g . / Temperaturas maximas c minimas alsohitas. 

|||Asombra 37,5 em 19 Ao sol 46.7 em 19 

•5 o ) » 13,8 » 3 Na relva 6,5 » 3 

W "^ ( Var. max 23,7 Var. max 40,2 



Irradiacao nocturna. Differcnca vic'dia mcnsal do Ihcrmomclro dc minimo 

habitual ao da rclva 6,17. 
Diasmaisoumcnosvenlosos: 2, 9, 10, 11, 24,25,28,29, 30, 31. 
Chuva ou chuvisco em: 2, 18. 
Relampagosem:^19, 21. 

A. Dcduzida das medias das 4 observacoes diarias. — B. Dcduzida 
das medias das 4 observacoes diarias. — C. Da m. n. a m. n. — D. Prc- 
dominanles dos rumos rcgislados de duas cm duas boras. — E. Deduzi- 
da das 4 observacoes diarias, 

O DIRECTOR 

GUILHEBMl' J. A. D. PEGADO. 



ANNAES 



VARIEDADES. 



Uo Cosmos (le 10 do julho extrahimos a scguinlc nolicia. 

imperador do Biazil 6 o primciro sobcrano que solli- 
cilou favor de pcrlcncer, como mcmbro lionorario, a So- 
ciedade de Aclimalacao ; e na sua carta, cscripla em seu pro- 
prio nome pelo seu primeiro ministro , dcclarava sollicilar 
este favor porque, no seu enlender, a ulilidade da nova So- 
cledade se cslendc ao mundo inleiro. Esle sobcrano lao il- 
luslrado fez mais ainda : para leslimunhar ao conselho da 
Sociedade de Aclimalacao o seu reconhecimenlo e a sympa- 
Ihia, condecorou cinco dos sens membros, os srs. GcofTroy 
Saint-Hilaire, de Qualrcfages, Auguslo Dumcril, Guerin Meu- 
neville, o conde de Epremensil e Richard de Canlal com a 
ordem da Rosa. 

SS. M3I. rei dos Bclgas e o rci dos Paizes-Baixos con- 
senliram lanibem que os seus nomes fossem inscriplos a frenle 
da lisla dos membros da Sociedade de Aclimalacao. 



i 



'"^^y^- 



— o(^5^- 



mm D4S SCIENCES 



LETTRAS. 



!■ 'IHOHI Jr 



\: CLASSE. 




— o(^D_/' 



ANMES 



DAS 



SCIENCUS E lETTRAS, 



PUBLICADOS DEBAIXO DOS AUSPICIOS 



ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS. 



SC1ENCIA8 MATHEMATICAL, PHYSICAS, fllSTORICO-NATCRAES, E MEDICAS. 



TOMO I. 

PRIMEIRO ANNO. 

SEPTEMBRO DE 1857. 



<^\ 



( 



LISBOA 

•SA TVPO(iR\I'm\ D\ MESMA AOADF.MIV 

1857 



G^< 




INDICE 



DOS ARTI60S CONTIDOS N ESTE NUMERO. 



TRABALHOS APRESENTADOS A' ACADEMIA. 

PAG. 

REGONHEGiMENTo gcologico c hydrologico dos lerrenos 
das visinhancas de Lisboa com relacao ao abasteci- 
mento das agiias d'esla cidade, pelo sr. Carlos Ri- 
beiro 375 

REvrsTA dos trabalhos chimicos 390 

HTGiENE publica 411 

REvisTA eslrangeira. — Abril e raaio 418 

oBSERVATORio meleorologico do Infante D. Luiz, na Es- 
cola Polytechnica 436 

VARIEDADES 438 



Das sciENCiAS e lettraS 375 

X)00(X)0()000000C0OX«XO000000(X)()00(XXX^^ 



TRABALHOS APRESENTADOS A ACADEMIA. 



REGONHECdlENTO GEOLOGICO E HTDROLOGICO DOS TEHRENOS DAS 

VISINHANCAS DE LISROA COM RELACAO AO ABASTECIMENTO DAS 

AGUAS d'eSTA CIDADE, PELO SENHOR CARLOS RIBEIRO. 



SEr,l'\DA PARTE. 
HYDROLOGIA. 

4.' SECCAO. 

CONSIDERACAO IIYDROLOGICA SOBRE MASSICO ORIENTAL. 



Aguas artesiarias. — massico Orienlal * resume em si 
as condicoes necessarias para fornecer niio so aguas abun- 
dantes e perennes mas ate aguas arlesianas, tanto quanto po- 

* Continuarei a designar por massico Oriental, e massico Occi- 
dental cada uma das partes dos suhurbios de Lisboa separadas pelo 
vallc de Carnide a Loures, que debaixo d'estas denominacOes estao 
descriptas na primeira parte d'esta Memoria. 

ToMOl.-SETEMIiKODE 1857.-1.' ClASSE. 25 



376 A?<>AES 

de comportar a sua exlensiio, allilude das respeclivas super- 
ficies de absorpcao, c sua especial eslructura. 

Antes de passar adiante dcve nolar-se, que a faliia por 
onde corrc o rio de Sacavem , isola as camadas Icrciarias 
de modo que as aguas pluviaes , absorvidas em todo o pc- 
queno tracto de terreno que corre para a Verdclha, nao so 
concorrem para a alimcntacao das fontcs do massico Orien- 
tal, mas verlem todas para o Tejo, ou circulam em um ni- 
vcl inferior as aguas d'esle rio, o que vem a ser o mesrao 
para a queslao ; por tanto lodas as fontes conhecidas ou que 
de fuluro venham a reconhecer-sc, por exploracao em qual- 
quer ponlo do rcferido massico, pertencerao sempre a ni\eis 
com a superficie de apanhameuto no espaco comprehendido 
pela margem direila do Tejo , falha de Sacavem , e linhas 
liradas do alto de Friellas a Carnide, e d'este ponto a quin- 
la do Seabra. Isto posto, se se examinar a escarpa que for- 
ma a margem direita do valle de Odivellas desde Carnide 
ale Friellas na direccao media de SO a NE reconhecer-se-ha 
que a barreira 6 formada, na sua maior extensOio, pelas are- 
natas, argilas vermelhas e marnes do andar dos conglome- 
rados do cretaceo superior ; que as camadas terciarias se 
moslram apenas nas alturas da Luz e Lumiar ; e que do 
Lumiar a Sacavem se vao successivamente alravessando as 
camadas mais modernas da formacao terciaria , ganhando, 
por consequencia, esta em cspessura para os lados de Friel- 
las e Sacavem , em quanto que aquellas se escondem abai- 
xo do solo. Ora, esta formacao de conglomerados estende-se 
desde a indicada barreira por todo o valle ou depressao, per 
onde correm as ribeiras de Odivellas c Loures, indo os af- 
floramentos das suas camadas assentar no pc das ladeiras 
basalticas , que guarnecem esta dspressao , com inclinacoes 
para S c para o quadrante de SE , e em angulos variaveis 
de 8 a 30°, emais cummummcnte nao cxcedendo a 12". E, 
como n'esta formacao enlram bancos mui espessos de are- 



DAS SCIENCIAS E LETTRAS. 377 

nalas porosas , com leilos interstralificados de argila semi-= 
plaslica , succede que aquelles bancos estao salurados dc 
agua, a ponlo de fornecer ao solo alluvial do vallc uma re- 
serva que e aproveitada, por um sem numero de pocos, para 
regas de hortas e de campos, cuja agua, derramada na parte 
mais baixa do valle ^ da logar a formacao dos panlanos de 
Friellas, hem conhecidos pelos continuos estragos, que pro- 
duzem na saude publica ; sendo a Coiiservacao de taes pan- 
tanos, nas visinhancas de Lisboa, um documento que abona 
pouco a nossa civilisacao. Esla formacao seria ^ por conse- 
quencia , eminenlemente arlesiana, e daria copiosas fonles , 
ainda que o valle de Loures eslivesse dez ou trinla kilome- 
Iros affasfado de Lisboa, se a posicao d'este valle tivesse ao 
menos 100"" de altitude ; porem como ella e apenas de 14"" 
cm Odivelias, 13™ em Friellas, e 18'" em Loures, torna-se 
impossivel obter para a zona media de Lisboa as aguas d'esla 
formacao por fonles arlesianas , islo e, se se praticasse um 
furo em Chellas , Bealo Antonio , ou Marvilla , ascenderia 
n'elle a agua, quando muito de 3 a 5 metros acima das aguas 
do Tejo. 

As camadas terciarias, que descancam sobre a formacao 
dos conglomerados, estao longe de offerecer as melhores con- 
dicoes para a acquisicao de aguas. Quem percorrer o mas- 
sico Oriental em diversos scnlidos vera, que lodas eslas ca- 
madas sao corladas por valles parallelos cntre si e a mar- 
gem direita do Tejo (em resullado de falhas dirigidas de SO 
a NE, como a de Chellas e a dos Olivaes), apresentando-se 
as camadas de um e outro lado , com a mesma inclinacao 
de 5" a 8" para o SE ; e observara egualmente que a mar- 
gem de cada um d'estes valles para o lado de NO forma 
uma explanada pouco inclinada, ao passo que a fronteira e 
escarpada c abrupla. Investigando, por outro lado, os leilos 
de todos OS valles e pregas, por onde descem as aguas que 
vao immcdialamenle ao Tejo, rcconhece-se que nenhum d'el- 



378 ANNVES 

Ics, passado o periodo das chuvas, conscrva aguas supcrfi- 
ciacs, nem tuo pouco aprcsenta vesligios dc alIu\iao, poslo 
que a cxtcnsao que essas aguas teem de precorrer seja muilo 
curia ; de modo que cm toda esla parte, que fica cnlre Lis- 
boa e Sacavem , niio ha uma so ribcira que deva mcncio- 
nar-se. Eslc phcnonieno, que concorda com a slruclura es- 
pecial do massico, e sobre ludo dcvido a natureza absorventc 
das rochas lerciarias, e ao modo por que as camadas do mes- 
mo massico se acham corladas. 

A agua , poi'lanlo , procurada ii'eslcs valles sera abun- 
danle, por6m os seus aflloramcntos so poderao mostrar-se em 
nivcis muito baixos, nao obstante terem as superficies de apa- 
nhamento altitudes de 50 , 100 e ISO"", como as do Lu- 
miar c Charneca , da Boa-vista , e Appeliacao, c dc Cama- 
ralc ; porque a agua da chuva recolhida pelas camadas per- 
meaveis, e que descem entre as impermeaveis com inclina- 
cao de 5' a 8", chegam aos pontes mais inferiores corres- 
pondentes aos corregos dos valles, que cortam o massico, e 
como ali ha uma solucao com desnivelamento nas camadas, 
e OS stratos mais inferiores, que vao topar na parede SE do 
valle, devem estar saturados , aquellas aguas derramam-sc, 
ascendendo, ao longo da superficie deixada pela solucao, ale 
enconlrarem uma camada permeavel do lado da parede abru- 
pta do valle ainda nao saturada : insinuam-se por ella, des- 
cem novamenle para o valle immedialo, e assim successiva- 
mcnte ale chegarem a parede ou escarpa da grandc falha do 
Tejo , onde vertem em um atfluxo continuado ao longo da 
margem direila, sendo na marc vasia aproveitadas pelas la- 
vadeiras, que a reunem em covas, aberlas na area solta das 
praias. Por consequencia e impossivel obter a agua da chu- 
va recebida pelas camadas lerciarias do massico Oriental , 
em niveis mais altos do que os que accusam as fontes pu- 
blicas, OS pocos do bairro Oriental , e os dos corregos dos 
valles por onde ella circula. 



DAS Sr.lliNCIAS E LiiTTRAS. 379 

Pelo que loca as fontes e nascentes, que se encontram 
lias partes elcvadas do massico, nao podcm offerecer duvida 
neni destruir o que fica dito ; porquc, sendo apenas aflluxos 
em seccoes existenles sobre a camada permeavel que escoa 
para o vallc (jue fica a SE, nao podem , pela sua distancia 
(i superlicio de apanhamenlo, dar aguas seniio em muilo pe- 
quena quanlidade, que jamais avultara na statistica das aguas 
aproveilaveis ; quantidade que sera tanto menor quanto maior 
lor a allura dos pontes atacados e a sua proximidade da su- 
perficie de apanhamento. 

Apreciacao do volume de agua. — Nao obstante esfa des- 
favoravel condicao , faremos um calculo das aguas que as 
camadas terciarias do massico Oriental podem fornecer, to- 
mando para a apreciacao da superficie do apanhamento a do 
292 kilometros quadrados ou de duas tercas paries da que 
realmente occupajii estas camadas , deduzida sobre a Carte 
Corographique des environs a Lisbonne dressee sous la di- 
reclion de Charles Ptcquel a Paris 1821. 

A quantidade media annual de agua da chuva em Lis- 
boa e represenlada por 0",6 ; teremos pois que a agua ca- 
hida n'esta superficie sera 17,520:000 nielros cubicos por 
anno ; e suppondo que a agua que vai inimediatamente para 
Tejo e a quarla parte da que calie , e que a cvaporacao 
corrcsponde a tres dcciraos dos Ires quartos restantes, tere- 
mos que total da agua que circula annualmente pelas re- 
feridas camadas e de 8.190:000 metros cubicos, ou 25:550'°' 
diarios. 

aflluxo de aguas , de que acima fallei, nas praias da 
margcm direita do rio, c muito abundante e continuo : ora 
tendo a iiiargem comprehendida enlre o Terreiro do Paco e 
a foz da ribeira de Sacavem a extensao de 10 kilometros , 
e reduzindo este allluxo a uma serie de bicas espacadas de 
quatro em quatro metros , vertendo cada bica uma penna ; 
tcr-se-ha que a agua perdida no rio pelo dito allluxo e de 



380 ANNAIiS 

2:300 pennas ou 8:520™'' diaries, que, doduzidos do numc- 
ro achado, darao de reslo 17:300"" por dia. E scpaiando 
ainda um lerco d'este volume para perdas nao previslas , 
concluir-se-ha que lodas as fonles, bicas e pocos actualmcnlo 
conheoidos tanto publicos como partioularcs, e que possam 
pralicar-se no massico Oriental, represenlam um volume dia-. 
rio do 430 anneis ou 11:531""=. 

Todos OS factos e consideracoes expendidas relativamento 
as aguas da formacao do massico Oriental rcsumom-se nas 
scguintes conelusoes : 

1.' Que volume de aguas que realmenle so pode apro- 
veilar das differenlcs camadas aquosas do massico niio sera 
inferior a 11:500"'*= diarios, e podcria chegar a 20:000"", 
aproveitando por uma galeria as aguas quo se perdem no 
Tejq. 

2/ Que OS niveis superlores as bicas, fonles e pocos do 
bairro Oriental de Lisboa nao podem fornecer aguas em 
^bundancia. 

3." Que, posloque estas aguas tenham as condicOes de 
artesianas, nao poderao comtudo adlorar era jorro a super- 
ficie dos furos, que se fizerem ao longo da margcm do Tejo, 
pela pequena differenca de nivel que ha enlre os diversos 
pontos d'esla margem e os corregos dos valles lateracs, em 
que se faz a absorpcao. 

4,' Que em consequencia de se passar das oamadas mais 
anligas para as mais modernas, caminhando de SO para NE, 
rcsulla que as aguas das fonles c pocos siluados n'aquella 
linha pertencem a differenles camadas aquosas. 

5.' Que sendo a lemperatura superior, queaffecla parte 
d'estas aguas, devida a sua communicacao com fonles quen- 
les que vera do interior da terra mislurar-se com as aguas 
que circulam nas camadas terciarias , e natural que as ga- 
lenas filtrantes ou de recepcao, que se praticarcm no solo, 
encontrcra oulras nasccntcs thermaes com ?is mesmas ou di(-: 



DAS SCIENCl.VS E LETTRAS. 381 

fercnles propriedades das aguas do lanque das lavadciras e 
banhos das alcacarias. 



5/ SECCAO. 



RECO.Mll-CIMEMO IIYDUOLOGICO DO VALLE DE NOGUEIUA, E DAS QIA- 
TRO PUINCIPAES AFl'LLENTES DA UIBEIIIA DE SACAVEM. 



Bacia hydrographica da ribeira de Sacavem. — Antes 
de entrar no exame e esludo do niassico Occidental , con- 
\em dar uma idea, ainda que abbreviada, de todas as aguas 
que \ao a ribeira de Sacavem ; nao so porque o reclamam 
objecto do reconhecimento hydrologico que enlra n'esta 
segunda parte , como porque e util saber as condicoes em 
que aquellas aguas se acham, \isto estarem tao proxinias da 
capital. 

A ribeira de Sacavem e , nos suburbios de Lisboa , o 
maior afHuente do Tejo, em consequencia da extensao da sua 
bacia hydrographica e da abundancia d'aguas , que a ella 
concorre. A linha, que limila esta bacia, circumscreve pelo 
Poenle todo o niassico Occidental ate as alturas da monta- 
nha do Almargem do Bispo, d'onde, dirigindo-se para o N 
pelo Paco de Belmonte e Asseiceira pequena , atravessa as 
montanhas de calcareo cretaceo, que \ao da Cabcca de Mon- 
tachique a Mafra, e prosegue depois para NNE ati ganliar, 
nas alturas do 3Iilharado ao Algueirao, a ruga montanhosa 
que vai de Torres a Alhandra ; separa ali as aguas para o 
rio Sizandro, e, correndo aolongo dacumiada d'esta ruga, 
ale a altura de S. Thiago dos Velhos , separa tambem as 
aguas para a ribeira do Carregado, e desce para o S na di- 
reccao da Povoa de Santa Iria, onde termina junto ao Tojo, 
lendo cm todo o espaco assim fechado 160 a 200 kilome- 



382 ANNAES 

Iros quadrados. Toda a agua que cahe n'esla superficie rC' 
parlc-se pelas ribeiras de Odivcllas, de Lourcs, do Trancao 
e da Granja ; as quaes, descendo lodas para o espacoso vallc 
de Friellas, confluein mui proximo umas das outras , entro 
Friellas e S. Joao da Talha, e \ao formar a ribeira de Sa- 
cavern , que apenas lein de comprimento ale a sua foz 5,5 
kilomelros. 

Todas aquellas ribeiras teem , nas suas fozes , altitudes 
inferiores a 10"" : por esle faclo estao sujeilas a influencia 
das marcs, e ao accesso das aguas salgadas do Tejo, na ex- 
tensao d'alguns metres ; concorrendo lambem aquella cir- 
cumstancia para o alagamenlo dos campos contiguos as fo^ 
zes d'aquellas ribeiras, a ponto de se estabelecer ali nao pe- 
queno numero de marinhas. 

Ribeira de Odivellas. — A ribeira de Odivellas recebe 
aguas da formacao basaltica que se estende desde a Porca- 
Ihota ate ao Alto da Amoreira ao Nascenle de Canecas , e 
da formacao dos conglomerados, que, como fica dito em ou- 
Iro logar , occupa lodo o valle e parte da barreira que vai 
de Garnide a Friellas. As nascentes d'estes basaltos, consi- 
deradas cada uraa em particular , sao de pequeno cabedal , 
mas a sua frequencia em toda a encosla, que dcsce da parte 
da linha divisoria que vai do collo da Porcalhota a Adabeja 
e Ganecas , da um produclo muilo sensivel, a ponto de te- 
rem reunido , em dezembro de 1856, perto de 100 anneis 
ou 2:6o0'"*' diarios no silio do Pombal, proximo a Odivel- 
las, volume que vai successivamente crescendo ate Friellas, 
onde na major estiagem nao sera talvez inferior" a 10:000"'° 
diarios. 

A formacao dos conglomerados fornece, proporcionalmenle 
a sua extensao, muito menor quantidade de aguas a esta ri- 
beira ; mas como esta formacao pelas condicoes da posicao, 
natureza c cstructura das suas camadas, se acha complela- 
niente salurada ate quasi a superficie do solo c se esleudo 



DAS SGIENCIAS E LETTRAS. 383 

ale aosubsolo da ribeira, nao pode exercer absorpcao, e nao 
ha por consequencia perdas nolaveis nas aguas superficiaes 
que para ella correra. As altitudes, porem , d'esia ribeira , 
nos pontos onde as aguas teem urn volume apreciavel, sao 
inferiores a 40'", o que torna impossi\cl aproveilal-as , in- 
Iroduzindo-as no aqueducto geral em Bemfica, e quando nao 
houvesse este inconveniente, as muitas e ricas propriedades 
espalhadas no valle, que no estio empregam estas aguas nas 
irrigacoes , seriam um obstaculo poderoso e diflicil de ven- 
eer, quando se Ihes quizesse dar diversa applicacao. Inde- 
pendentemente d'eslas e d'outras consideracOes, pareceria a 
primeira vista praticavel recoiher uma parte d'eslas aguas 
nas proximidades das suas respeclivas nascentes , eslabele- 
cendo na encosla que desce do grande massico para o valle 
urn aqueducto de 6 kilometres de comprimento, pouco raais 
ou nienos, que, partindo da Falagueira, pelas immediacoes 
dos Casaes do Ouro e da Preza, fosse receber por cima de 
Odivellas as aguas que vem do ribeiro de Canecas , fazen- 
do-as cntrar no aqueducto junto a Porcalhola. Nao deve po- 
rem dissimular-se que similhante obra , forcada a atlingir 
tao alto nivel, so receberia as aguas das nascentes mais al- 
ias da encosla , pouco abundanles, pela sua proximidade a 
linha divisoria, que passa na Adabeja, e assim mais sujeitas 
jis contingencias da escassez pela cessacao ou diminuicao do 
seu volume. 

Ribeira de Lowes. — A ribeira de Loures compoe-se de 
dois ramos principaes, que sao a ribeira de Loures propria- 
niente dita, e a ribeira da Louza. A ribeira de Loures, pro- 
priaraente dita , tem a sua origem na verlente Oriental da 
montanha do Almargem do Bispo e corre para SSE na ex- 
tensao de 7 a 8 kiloraetros, proximo a linha de conlacto dos 
conglomerados cretaceos com as rochas basallicas. As aguas 
d'esia pequena ribeira, medidas junto a ponte do Tojalinho 
abaixo da confluencia da ribeira que vem do valle de No- 



384 ANNAES 

gueira, onde teem a altitude dc 46'", deram, em novembro 
de 185G , um volume dc 3:390"" ou 128 anneis , e se se 
tomar em conla que havia algumas aguas represadas, lalvez 
nao seja exaggerado se se contar n'aquelle ponlo com um 
volume de 4:240""= ou 160 anneis. 

Uma parte d'esta ribeira c alimentada pelos sobejos das 
nascentes que brotam em diversas propriedades siluadas des- 
de a ponte do Tojalinho e Calvos ate valie de Nogueira, e a 
outra pelas aguas que allloram no leilo e sope das encoslas 
ingremes, das suas margens, e, se d'eslas aguas excepluar- 
mos ISO a 200""= ou 6 a 8 anneis que vem dos gres de 
valle de Camaroes, todas as mais saem de rochas basalticas, 
e com especialidade das monlanhas do Almargem do Bispo, 
serra das Sardinhas e de Monte-Mor. 

As nascentes com altitudes superiores a 108™, que ver- 
lem para as pequenas ribeiras de valle de Nogueira e dos 
Caos (que reunidas na ponle do Tojalinho formam a ribei- 
ra de Loures propriamente dila) deram, pela medicao feita 
no outono do anno findo, um volume de 2:819'""' ou 106 
anneis per dia. Comtudo esla cifra esta longe de repre- 
senlar o volume diario debitado por todas as fonles e nas- 
centes , que actualmenle exislem acima d'aquelle nivel den- 
tro da bacia d'esta pequena ribeira , porque algumas dei- 
xaram de ser medidas por falta de opportunidade. E quan- 
do se fa cam trabalhos de exploracao nos valles de Noguei- 
ra e de Camaroes , e no valle que vai de Castello-Picao as 
Alvogas , devera enconlrar-se maior quanlidade de aguas , 
a julgar pela superficie de apanhamenlo e pela situacao , 
forma e slructura physica da porcao do solo comprehcndi- 
da pelas margens oppostas d'aquelles valles e pelas altu- 
ras , que correm das Alvogas ao Almargem do Bispo , Al- 
mornos e Camaroes ; nao devendo deixar de allender-se 
para este fun a parte da serra de Monte-Mor que olha pa- 
ra valle dc Nogueira , onde ha copiosas nascentes ja co- 






DAS SCIliNClAS E LETTRAS. 385' 

nhccidas, e vchemenles indicios de outras novas de baslanlc 
iinporlancla. 

Todas as aguas que verlem para a ribeira de que aca- 
bei de fallar sao aproveiladas com grande cuidado para re- 
gas de muitas quinlas, pomares e hortas, e para muitas aze- 
iihas ; e por isso a sua acquisicao deve offerecer grandes 
obstaculos, e exigir grandes sacriflcios. Por oulra parte as 
difliculdades da reuniao e da conduccao d'eslas aguas ao 
aqueducto geral nao sao menos serias, em consequencia do 
terreno ser muito aspero e quebrado ; no entanto talvez o 
seguinte tracado fosse exequivel, para, em caso extreme, as 
aproveilar e introduzlr no aqueducto geral. Depois de reu- 
nir acima de Paz Joannes as aguas de todas as localidades, 
por meio de aqueduclos parciaes, cujo desinvolvimento or- 
caria por 6 kilometres, o aqueducto geral lornearia a serra 
de Monte-Mor, passando enlre a povoacao d'este nome e o 
Correio-Mor, e seguindo junto a Raraada, onde corre a ri- 
beira de Canecas, iria pelas visinhancas dos Casaes, da Pre- 
za, e do Ouro ate a Falagueira, partindo d'este ponto a en- 
trar no aqueducto das Gallegas, ou mais abaixo junto a Por- 
calhota. Este aqueducto geral , sujeitando o seu tracado a 
alguns subterraneos , podera ter 12 kilometres que com 6 
dos aqueductos parciaes elevam a 18 a exlensao linear de 
todas as obras. 

tracado, que acabei de indicar, e que julgo insuscepti- 
\el de soffrer grande alteracao , tem os seguintes incon- 
venientes: 1." custosas expropriacoes : 2." grande extensao 
de aqueducto sobre um terreno aspero, muito quebrado, e 
lodo em rocha basaltica: 3." mulliplicidade de obras par- 
ciaes para reunir no aqueducto geral as aguas das diversas 
nascentes dispersas sobre uma grande area: 4.° a impos- 
sibilidade de se poder avaliar, mesmo aproxiniadamente, o 
volume d'aguas que se obteria pelos novos trabalhos de ex- 
ploracao : 5." pouca confianca na permancncia das foutes da& 



386 ANNAES 

rochas basallicas nos pontos niais altos das cncoslas e das 
montanhas quando a superficie do apanhamenlo nao e niuito 
exlensa , e as massas siio muito rolas , como aconlcce na 
parle superior da serra de Monte-Mor. 

Poderia suscitar-se a lembraiica de alravessar o collo de 
Montc-M6r por urn subtcrraneo , dirigindo o Iracado por 
Canecas a cntrar no aqueducto dos Car\alheiros , com o 
que se reduziriam consideravclmeiilc as despczas de coiis- 
truccao ; por6m esle ahitre 6 inadmissivel , porque, nao 
podendo ncm devendo ser transportadas as aguas em urn 
nivel superior a 100 ou 110™ para se aproveilar o maior 
nuraero do nascentes , nao poderia este Iracado allingir o 
aqueduclo dos Carvalheiros que lem pcrto de 200'" de al- 
titude. 

Ribcira da Loiiza. — A ribeira da Louza e formada por 
duas ribeiras principaes — a do Bocal, e a de Palhaes, que 
correm em geral de N para S Teem as suas origens entre 
Malveira e Monlachique proximas da linha culminante da 
grande ruga ja descripta de montanhas do crclaceo medio , 
que vai de Yialonga a Mafra e Safarujo. Toda a sua super- 
ficie de apanhamenlo reside nas camadas que compoem os 
grupos da formacao de Bellas, transilando as aguas que ali- 
mentam aquellas ribeiras pelas rochas calcareas altcrnantes 
com camadas de gres e argilas, inciinando para o S e com 
altitudes de 150 a 200"'. Estas aguas \ao lancar-se em duas 
profundas falhas, abertas n'aquella formacao, que servem de 
Icitos as indicadas ribeiras, as quaes conflucm na ponte da 
Louza, precisamente onde passa a linha que limita a forma- 
cao basaltica, e vem de Fanhoes para a serra dos Colures. 
Este ponto de conllucncia lem 98'" de altitude ; porcm um 
kiloractro mais acima ja as aguas correm em altitudes de 
110 a 120™ em um e outro ramal, de modo que sendo de 
5 a 6 kilomelros a disfancia d'cste ponto de confluencia di- 
visoria, e de 170'" a differenca media de nivel, aprescutam 



DAS SCICXCIAS E LETTRAS. 387 

cstcs ribeiros o consideravel declive medio de 0'",03 por 
metro. 

massico comprehendido por eslas ribeiras e os que Ihe 
ficam aos lados teem sobre os respectivos leitos as alturas 
de loO a 200'" proximo ao seu ponto de junccao ; e o sen 
declive de N para S e consideravelmente menor que o dos 
alveos das ribeiras ; ora como elles sao cortados por fre- 
quentes falhas que accidentam muito o seu relevo, as aguas 
pluv'iaes affrouxam ahi o seu movimento, tornando-se assim 
mais lenta a sua diffusao pelo solo ; e apesar de ser o de- 
clive dos corregos de 0'",01 a O'^jOS por metro, como as 
camadas inclinam no mesmo sentido em que a agua desce , 
segue-se que, nao obstante aquelle declive do alveo, as ca- 
madas receberao pelos seus topes maior copia de aguas do 
que sc a sua inclinacao fosse em sentido inverso. 

Por oulra parte a nalureza permeavel das rochas areno- 
sas alternando com camadas de argilas , e a disposiciio das 
fendas dos calcareos impermeaveis, que alternam com cama- 
das de marnes, favoreccm a absorpcao e diffusao das aguas 
pluviaes e das ribeiras ; e se as nascenles que brotam nas 
encoslas e altos dos massicos nao sao abundantes , as que 
correspondem aos leitos das ribeiras devem sel-o , porque 
para elles inclinam todas as camadas , aprcsenlando conti- 
nuadas seccoes ; e as exploracoes feitas em qualquer d'elles 
devem forcosamente ministrar um grande volume de aguas. 
Com effeito, os factos estao em harmonia com o raciocinio. 
Era 21 deoutubro de I806 aribeira de Palhaes dava, per- 
lo da Louza, 3:390""= ou 128 anneis de agua , sem conlar 
a que estava derivada em reprezas para azenhas e regas ; e 
a do Bocal, que e mais consideravel, conduzia ainda maior 
volume. Porlanlo, seguindo os corregos d'estes dois ramos, 
com exploracoes bem conduzidas, poder-se-hia obler, em al- 
titudes superiores a 100"', um volume d'aguas nao inferior 
a 8 ou 10:000""= diarios. 



388 ANWES 

A conduccao, porem, d'estas aguas cm tubos forcados 
seguindo pelo vallc de Loures a Friellas e Sacavcm c linha 
do caminho de ferro ate Lisboa, e niuilo dispcndiosa c didi- 
cil , tunlo pela dislancia de 25 kilomelros que torn dc pcr- 
correr , como por ler de alravcssar o lerreno alagadico das 
Marnolas, na exlcnsao de 3 kilomelros. 

Bibeira do Trancdo. — ^ A ribcira do Trancao corre dc 
NO a SE ale Bucellas, e de N para S da ponle para baixo, 
indo corlar a ruga que vai de Yialonga a FanhOcs. Consla 
csla ribeira de dois ramos principaes que se juulam aciraa 
de Bucellas, e sao a ribeira do Trancao propriamente dita , 
e a ribeira do Boicao. Toda a superficie hydrographica d'cs- 
la ribeira esta na zona comprehendida enlre as duas rugas 
monlanhosas de Safarujo e Torres Vedras a Yialonga e Alhan- 
dra, sendo limilada pelo lado de SE pelas alluras de Mon- 
lachique, Povoa da Gallega, Milharado, e S. Thiago dos Ve- 
Ihos. Todas as camadas d'esta bacia sao calcareos, marnes, 
e gres do lerreno crelaceo medio, e marnes, argilas, e cal- 
careos do lerreno oolilico superior, com a inclinacao gcral 
para S e SO. 

As condicoes d'esla ribeira sao era geral analogas as da 
ribeira da Louza , com a difierenca do lerreno adjacenle 
abranger uma mais vasla superficie de apanhamenlo ; e e 
para notar que lodas as aguas d'esla bacia , reunidas em 
Bucellas , teem uma allilude superior a 100"*, que a sua 
conduccao para Lisboa parcce offerecer as mesmas difficul- 
dades que ponderei para a das aguas da ribeira da Louza , 
e que na ribeira do Boicao, logo acima de Bucellas, ha mui 
copiosas nascenles, que, reunidas, dao perlo de 3:000™" de 
agua por dia. 

Ribeira da Granja. — Finalmenle a ribeira da Gran- 
ja, a qual vem ler as copiosas nascenles de Alpialre , Fla- 
mengas e Sardoal , lem uma bacia hydrographica mais cir- 
cumscripta do que as oulras afiluenles da ribeira de Sa- 



DAS Sr.IENCIAS E LETTRAS. 



389^ 



cavern ; sendo porem niuito baixa a posicao de nivel da 
inaior parte das suas nascenles para poderem forneccr aguas 
as zonas media e superior da cidade de Lisboa, nao nie de- 
morarei niais nos delalhes que Ihe respeitam, poisquequan- 
do hajam de aproveilar-se aguas a niveisbaixos seria niais 
conveniente lancar mao das do bairro Oriental. 



(Conlima.) 



390 ANNAES 



UEVISTA 



DOS 



TRABALllOS CHIMICOS. 



emprfigo do opio na niedicina e, como todos sabem, um 
dos mais extensos e imporlanles ; mas a actividade d'este 
medicanienlo depende principalnicnle da morphina, alkaloide 
que exerce sobre a economia animal uma poderosa accao : 
ora opio que se enconlra no commercio e um produclo de 
composicao variavel em relacao aos diffcrentcs principios im- 
mediatos que o constiluem ; assim encontram-se algumas ve- 
zes opios que nao conleem quanlidade alguma apreciavel de 
morphina , e oulros em que este principio enlra por uma 
quanlidade superior a 14 por 100 : d'aqui se ve o grande 
interesse que ha para a medicina em possuir um processo 
facil e seguro de dosagem para determinar a quanlidade de 
morphina nos opios, sem scr necessario emprender uma ana- 
lyse immcdiaia c completa do producto, 

sr. Fordos indicou modcrnamenle um processo que , 
sem ser de uma facilidade cxtrema para os homens pouco 
habituados a analyse chimica , olTerece comtudo uma ceria 
simplicidade pratica, que, dcbaixo d'esle ponlo devisla, Ihe 
da grande vanlagem. No scu processo a morphina com pou- 



nAS sciENcris e lettras. 391 

ca narcolina, 6 prccipitada da dissolucJTo aqiiosa do opio pcla 
ammonia em prcsenca do alcool. precipitado, que e crys- 
talline, e lavado pelo alcool fraco sobre urn filtro, e, depois 
de secco, separa-se a narcolina da morphina pelo chlorofor- 
rnio em presenca do ether : a morphina, sendo insoluvel no 
chloroformio, Ilea sobre o filtro, onde se lava com o ether, 
e ahi se deixa seccar para se pesar. 



Na sessao de 29 de junho, eu e o sr. Bonis aprescnla- 
mos a Academia das Sciencias de Pan's uma nola sobre a 
composicao da slearina vegetal extrahida das sementes do 
brindao. Do extracto d'esta nola, que se publicou nas Actas 
da Academia, transcreverei aqui unicamenle o que diz res- 
peilo a stearina, pondo de parte a composicao do acido e as 
outras particularidades d'este estudo de que ja em outro lo- 
gar me occupei, 

« Depois de haver fixado a composicao do acido, procu- 
ramos obter a stearina pura. 

« Numerosas experiencias nos teem feito convencer de que 
nao e possivel isolar a stearina pura do sebo animal, c que 
sempre se oblem uma mislura difficil de purificar. A steari- 
na, preparada com todo o cuidado que c possivel pelo pro- 
cesso tao bem descriplo pelo sr. Le-Canu, ou sendo purifi- 
cada pela bcnsina, fazendo-a crystallisar muitas vezes, sepa- 
rando as aguas maes, forneceu-nos conslanlemente um acido 
cujo ponto de solidificacao era inferior ao da slearina , e , 
coisa notavel, denlro de certos limites, quanto mais se'pu- 
nfica a stearina , menos cryslallisado e o acido que d'ella 
resulta, 

« Todos esles ensaios confirmam o que se sabe desde que 
appareceram os bellos trabalhos do sr. Chevrcul, isto e, que 
OS acidos solidos extrahidos do sebo sao uma mislura de'dois 
acidos. 

TomoI.-Setembro de 1837. -1." Classk. H 



392 A>'N\rs 

« Teiido nos reconhecido que o sebo vogelal do brindao 
nos fornccia facilmcnlc o acido sicarico puro, pcnsiimos com 
razao que aconlcccria o mesmo rclalivaraenlc a slcarina. Obli- 
vemos a stearina do brindao tratando a nialeria gorda brula 
l)elos proccssos ordinaries, lendo bastanle cuidado em espre- 
mel-a a cada crystallisacao para separar as aguas maes. 

« A stearina assim oblida c pura c muilo branca ; crys- 
tallisa em mamilos anacarados, radiados e cobcrlos do agu- 
Ihas muito delicadas. Funde-se a temperalura baixa cm 11- 
quido incolor, e coagula pelo resfriamcnlo em massa tume- 
feita que apresenla partes transparentes e paries brancas, co- 
mo se foram hydraladas , e todavia nada pcrdem na estufa 
a temperatura de llo°, e a composicao de ambas as partes 
e a mesraa. Esla stearina fundida e mais transparenic e lim- 
pida do que aquella que se oblem do sebo animal ; e muilo 
fragil , e da, pela saponificacao , direclamente o acido que 
funde a 70°. A sua composicao reprcsenla-se pela formula 
scguinte : 

c'«' H'^" o'' = ii (C" u" o')-\-C' IV o' — a no 

« Esla formula exigiria 9o,73 por 100 de acido stcarico, 
e nos achamos 95,72. 

« Podc , por conscguinle , admillir-sc com loda a spgu- 
ranca que a stearina natural 6 a Irislearina, como o admit- 
Icm hoje a maior parte dos chimicos. » 



Desde que os chimicos comecaram a cstudar com allen- 
cao as ligas metallicas reconheceram que ellas se podiam 
considerar como vcrdadeiras dissolucoes de um metal cm 
outro racial, ou de uma combinacao de dois metaes no cx- 
eesso de urn d'elles. N'eslas dissolucoes, a similhanca do que 



DAS SCIENCIAS E LETTRAS. '39tJ 

se passa nas dissolucoes aquosas , o corpo dissolvido, sim- 
ples oil coniposlo , pode aparlar-se do dissolvenle ou por 
crystallisacao on pela c\aporacao d'aquclle. E assini que no 
bronze se separam , por liquacao, as ligas nienos fusivcis , 
ou niais ricas dc cobre, que sao combinacoes difinidas como 
OS hydratos que cryslallisani nas dissolucoes aquosas, e 6 as- 
sim que pela evaporaciio do mercurio o ouro se aparla do 
seu amalgaina. que aconlece com os nielacs propriamenlc 
ditos pode lainbem ler logar com alguns dos ullimos metal- 
loldes que se dissolvem em certos melaes. Sirvam de excm- 
plo carbonio, o boro, o arsenico e o silicio. Todos sabcm 
que carbonio se dissolve no ferro em fusao e que niio so 
constilue os ferros coados, cm que os carburetos dc ferro 
se acham dissolvidos em urn excesso de ferro, mas que tam- 
bem nos apresenlam o carbonio cryslallisado no estado de 
graphite e separado do ferro. 

Guiados por eslas ideas os srs. 11. Sainte-Claire Deville 
e H. Caron lenlaram applicar a theoria das ligas mclallicas 
a preparacao de alguns d'esses metalloides difficeis de prc- 
parar, e principalmente a do silicio, que ate hoje se prepa- 
ra\a unicamenle polos processos de Davy e de Cerzelius , 
processos pouco commodos e pelos quaes o silicio seoblinha 
unicamenle no eslado pulvcru'ento. 

No seu estiido do aluminio, o sr. Deville linha ja obser- 
vado que o silicio se dissolvia bem n'aquellc metal e podia 
cryslallisar no meio d'elle ; mas conjecturou logo que niio 
seria, entre os melaes, o aluminio o unico dissolvenle do si- 
licio, em cujo seio elle podcsse cryslallisar. Lcmbrou enlao 
zinco que olTcrecc a dupla vantagera de ser volalil e so- 
luvel nos acidos. Esle metal pode entao servir como vehicu- 
lo para a preparacao dos corpos simples fixos ou inataca- 
veis pclos acidos , uma vcz que exerca sobre ellcs a forca 
dissolvenle. 

« A preparaciio do silicio pelo zinco, dizem os dois chi- 

2G ^ 



391 ANNAKS 

micos acima niencionados, e iima opcracao muilo facil que 
permillc obtcr, com pouca dcspcza, quantidadcs considcraveis 
de silicio da mais bcUa forma. Aquece-se ao rubro um ca- 
dinho dc barro rcfractario e vcrle-se n'clle iima mislura , 
feila com cuidado, de 3 partes de fluosilicato de potassa, de 
1 parte de sodio cortado em pequcnos fragmentos, e de 1 
parte de zinco em grcnalhas. Uma reaccao muilo fraca acom- 
panha a reduccao do silicio e scria csla insufficiente para pro- 
duzir a complola fusao das malerias prescntes. E necessario 
pois aqucccr o cadinho ao rubro c mauler durante algum 
tempo esta lemperatura ale sc vGr a escoria completamenle 
fundida. Nao e necessario clevar a lemperatura ale ao ponlo 
em que o zinco come^a a vaporisar-se , porque cnlao pode 
pcrder-se a operagiio. Deixa-se resfriar lentamente, e quan- 
do a solidificacao esta completa, qucbra-sc o cadinho. Acha- 
se um bolao de zinco penelrado em toda a sua massa , e 
principalmente na parte superior, per longas agulhas de si- 
licio. Sao estas como rosarios de oclaedros regulares, mui- 
tas vezes cuneiformes, encaixados uns nos oulros parallela- 
menle no eixo que reune os vertices de dois angulos oppos- 
tos. Na maior parte dos cryslaes achamos unicamenle o an- 
gulo de 109",28'. Para os exlrahir bastard dissolver, por 
meio do acido chlorydrico, o zinco que serve de ganga , e 
fervel-os depois com o acido azolico. 

« Obtem-se assim mui bellos c volumosos cryslaes de si- 
licio e em maior quantidade do que por qualquer outro me- 
thodo. » 

Sc em vez de seguir este methodo de dissolucao se aque- 
cer zinco ato ao ponlo de se volalilisar completamenle , 
obler-se-ia, nao o silicio cryslallisado, mas o mesmo corpo 
fundido. silicio pode fundir-se e moldar-sc , e o sr. De- 
ville apresenlou, juntameule com a sua Memoria, a Acade- 
mia das Scicncias do Pan's, pcquenas barras moldadas de si- 
licio. 



DAS SCIENCIAS E LETTRAS 395 

Irabalho, de cuja noticia nos eslaraos occupando, en- 
cerra ainda oulros factos de grande imporlancia, nao so thco- 
rica mas pratica, que podem ter applicacao nas arles metal- 
lurgicas. Cora alguns nielaes e notavelmcnte com o ferro c 
cobre pode o silicio formar siliciurelos melallicios, supe- 
riores pelas suas qualidades aos ferros coados, aos acos e ao 
bronze. Os siliciurelos de ferro sao duros, brilhantes e muito 
fusiveis, e por isso podem, u'alguiis casos, substituir o aco 
fuudido. 

siliciureto de cobre parece offerecer inleresse particu- 
lar, porque fornece uraa especie de bronze superior ao bron- 
ze ordinario , por ser isento da liquacao, ou aparlacao das 
ligas facilmenle fusiveis, tao danmosas na fundicao das pe- 
§as de arlilheria. 



Na revista dos trabalhos chimicos inserta no n." d'estes 
Annaes perlenceute ao mez de maio , fallaraos do emprego 
dos phosphatos calcareos mineraes servindo como adubos, 
a proposilo de um trabalho do sr. Moride, tendente a pro- 
var inelficacia de taes substancias em agricultura por cau- 
sa da sua insolubilidade, antes de haverem soffrido uma qual- 
quer accao chimica tendente- a compiela desaggregacao das 
suas parliculas. 

Os ensaios sobre este interessanle ponto de chimica agri- 
cola teem sido continuados com perseveranca por varios ex- 
perimenladores , e nos mezes de julho e agoslo se apresen- 
taram a Academia das Sciencias de Pan's duas notas , uma 
do sr. Deherain , e oulra do sr. Bobicre, ambas ellas Con- 
cordes sobre os resullados obtidos relativamente a solubili- 
dade dos phosphatos naluraes dos nodulos das Ardenas e de 
outras localidadcs de Franca. 

Em ultimo resultado reconheceram estes chimicos que os 
nodulos phosphaticos, rcduzidos apo, sao quasi insoluveis, ou 



30G ANNAi:s 

inui pouco soluveis na agua acidulada polo acido carbonico ; 
que sao egualmcnle pouco soluveis no acido acclico de o graos, 
mas, lendo cslado cxpostos a acciio do ar por algum tempo, 
tornam-se enlao sensivelmcnlc soluveis n'esle acido, e final- 
menle podem dissolvcr-sc na mislura dos acidos carbonico e 
acelico, e tanlo mais quanlo houvercni estado, cm presenca 
d'elles, em contacto com o ar alhmospherico por muito tem- 
po. 

Em rclacao a agricuUura asconclusoes que se podem ra- 
zoavelmenlc lirar d'esles faclos de laboralorio sao as scguin- 
tes : 

« A insolubilidade dos phosphatos niineraes no acido car- 
bonico lende a provar que elles nao podem scrvir como adu- 
bos nos tcrrenos, era que eslc acido cxiste so, antes de se- 
rem alacados pelos acidos fortes. 

« A solubilidade dos mesmos phosphatos nos acidos ace- 
tico e carbonico reunidos, parecc demonslrar que estes adu- 
bos, simplesmente reduzidos a p6, poderao ser de effeilo ulil 
nos solos que manifestarem reaccao acida, como sao os dos 
terrcnos do urse e malo desmonlado, que conlecm estes dois 
acidos, ou o acido carbonico e um oulro acido funccionan- 
do como acido acelico. » 



sr. Julio Kouis apresentou a Academia das Sciencias 
do Pan's, na sessao de 6 do julho, a primeira parte de um 
cxcellente trabalho sobre os diversos meios de acidificacao 
dos corpos neutros , no qua! elle se propoe explicar eslas 
coraplicadas reaccoes. Quando se achar completo este impor- 
tante cstudo darcmos d'elle uma nolicia mais extensa , mas 
nao devemos deixar de apresentar desde ja a explicacao en- 
genhosa de um facto muito imporlante que serve de base ao 
proccsso moderno da fabricacao do acido stearico. 

iSao ha muito tempo que o sr. Pelousc chamou a atten- 



I 



DAS SClliNCIAS E LETTRAS. 397 

ciio dos chiiuicos e dos fabricanles para a possibilidade da 
saponificaciio dos corpos gordos por meio dc uma pequena 
quantidade de alkali. Na Exposicao Universal de Pan's osr. 
de 3Iilly fez ja conhccido um novo processo, baseado sobre 
esle facto, c que consiste no eniprego dc uma quantidade de 
cal egual a ^ ou | da que ordinariamente so emprega. Esla 
simples modificacao, alem daeconomia da cal, traz comsigo, 
que e ainda mais imporlanle, o emprego de uma pequena 
porcao de acido sulfurico, islo e, somenle d'aquella que cor- 
responde a cal empregada. 

sr. Bouis explica este facto do seguinte modo. 

Nas materias gordas neulras, consideradas como consti- 
luidas por 3 equivalentes de acido para um de glycerina 
(que e o caso da tristearina do scbo), se chegamos a substi- 
tuir cquivalente de glycerina, por um equivalente de uma 
base, a cal por cxemplo, formar-se-ha um sal neutro, e, em 
consequencia d'este abalo molecular, a menor causa deler- 
minara a fixacao da agua, pondo em liberdade os outros dois 
equivalentes de acido ; porque, 

(^IM IJllO Qn^^ (Q36 JJ36 0»)+C^ IP 0^ — 6 HO 

tristearina acid, stearico glycerina 

logo 

C" II'" 0" + CaO + a HO = C'^ j"" |o' + 2 (C" ir' 0') + ClI' 0' 

Islo e : um equivalente de cal apodcra-se de um cqui- 
valente de acido stearico e forma-se um stearato de cal ; a 
glycerina separa-se, e o resto dos elementos, fixando 5 equi- 
valentes de agua, acham-se constituidos no estado de acido 
stearico. Finalmente , basla um equivalente de acido sulfu- 
rico para deslocar o equivalente de cal do stearato neutro , 



308 AMNAES 

e Icremos cm ulliino rtisullado os Ires cquivalenles de acido 
slearico. 



Tecfinologia. — Desde tempos immemoriaes que o gesso 
e empregado nas conslruccoes archileclonicas, na dccoracao 
e na fahricacao de objeclos de arte. Materia tao preciosa pe- 
los seus usos, pela facilidade com que se labora, e pcla abun- 
dancia com que se cncontra na nalureza, apresenla, a par 
das suas excellentes qualidades, alguns defeitos notaveis quo 
restringem a sua applicacao e diminuem o valor dos objc- 
ctos quo com ella se fabricam : esles defeitos sao, principal- 
mente, a sua fragilidade e a pouca resistencia que oppoe aos 
agentes athmosphericos. Varias tentalivas se teem feito em 
differenles epochas para minorar estes inconvenientes , mas 
todos OS raeios erapregados , taes como a encorporaeao da 
cola forte e do alumen , offereoem algumas diificuldades na 
pratica e augmentam conslderavelmenle o preco da materia. 

sr. Abate, de Napoles, nolando que o gesso natural 
apresentava diversos graos de dureza, encontrando-se ate al- 
gumas variedades d'esle mineral tao duras como o marmo- 
re , reconheceu que esla qualidadc era dependente, nao da 
patureza chimica da materia , mas das condicoes especiaes 
em que os depositos se haviam formado, e lenlou reprodu- 
zir artificialmente as condicoes mais vantajosas para obter 
urn gesso duro e susceptive} de bom polimento. 

gesso da natureza e o sulfato do cal hydratado con- 
tendo 2 equivalentes de agua, ou pertq de 21 por 100 d'este 
corpo : porem o sr. Abate achou que as pedras de gesso, que 
ordinariamente so cozem, perdiam n'esla operacao de 27 a 
28 do seu peso. 

Na cozedura do gesso nao se faz mais do que tornar an- 
liydro sulfalo de cal hydratado ; mas, quando esla mate- 
ria se emprega para a formacao do ostuque c dos objoctos 



DAS SCIENCIAS E LLTTRAS. 399 

moldados, mislura-se com uma grande quantidade de agua, 
que excede muitas \ezes a 200 por 100, isto c, 8 vezes 
niais do que aquella que se conteni no gesso natural. 
gesso faz logo presa com esta porcao d'agua , porque se 
constituc hydrato, o qual, crystallisando, produz um en- 
trelacamento de crystaes , era cujos intervallos se conserva 
todo excesso de agua, ate que, pcia evaporacao lenta e suc- 
cessiva, esta se aparta, deixando o gesso poroso e friavel e 
por isso permeavel aos agentes alhmosphericos c pouco re- 
sistente aos cheques e alritos. 

sr Abate tentou proporcionar as parliculas do gesso , 
liydratado unicamente com a quantidade indispensavel de 
agua, meio de so aggregarem fortemenle, sem deixar con- 
sideraveis intervallos, e de modo que constituissem, pelasua 
reuniao, um corpo duro e compacto. 

No seu novo processo a hydratacao faz-se por meio do 
vapor da agua, que e dirigido para um lambor cylindrico, 
podendo girar sobre o seu eixo, collccado horizonlalmente, 
e no qual se contem o gesso deshydratado e reduzido a p6. 

Feita a deshydratacao, que se elTectua em pouco tempo 
e que se pode regular pelo augmento de peso da materia, e 
gesso fortcraente conipremido, no estado pulverulento, em 
moldes adquados, por meio de uma forte prensa hydrauli- 
ca. A aggregacSo das particulas faz-se d'este modo perfcila- 
mente e obtem-se uma pedra artificial lao dura como o mar- 
more e com OS relevos e ornatos que os moldes Ihe com- 
municam. 

Ja se v6 que se podem variar as formas, e ate obter pe- 
dras de gesso com veios de diversas cores, imitando os mar- 
mores ou outras quaesquer pedras, e que sao, em todo o ca- 
so , susceptiveis de polimento. Esta invencao , tao simples 
como elegante , pode rcceber na pratica variadas e interes- 
sautes applicacoes. 

A fabricacao do pecas de cantaria artificial para as cons- 



400 ANNALS 

truccoes architectonicas lendc hoje a lomar grande incre- 
mento. A ceramica apropriou-se ja d'esle novo ramo de 
trabalho. Na Belgica a fabrica de Kerarais execula em gran- 
de escala pecas d'csla ordem. A balaustrada, que coroa o 
grande thcalro dc Bruxellas, foi ali fabricada com o gres ce- 
ramico, e eu proprio vi, no mesmo estabelecimenlo, muitos 
sarcofagos de uma so peca da mesma materia. Na Ingiaterra 
existe uma fabrica que se occupa exclusivamente de fabri- 
car egrejas de canlaria artificial que se exportam para a 
America. As obras de cantaria em marmore e outras pedras 
duras serao sempre mais dispendiosas do que as suas imita- 
coes moldadas em gres ceramico ou em gesso pelo processo 
do sr. Abate. E, todavia, verdade que este ultimo difiicil- 
menle se podera applicar a estatuaria pela modelacao. Em 
todo caso novo processo nao podera deixar de ser con- 
siderado como uma importanle conquista para as artes. 



Os srs. Schwarzenberg c Pebal, n'uma das mais infcres- 
santes publicacOes scienlificas d'Alemanha , (Annalcn dcr 
Chemie und Pharmacie), diio noticia da preparacao de um 
cobaltato de potassa, cnriquecendo assim a serie dos oxidos 
de coballo com um novo corpo ate agora desconhecido. 

Os chimicos admittiaui geraimenle quatro oxidos de co- 
balto ; protoxido CbO, o sesquioxido Gb- 0^ e dois oxi- 
dos intermedios Cb' 0^ e Cb^ 0\ sendo estes dois ullimos 
reputados combinacoes do protoxido com o sesquioxido , a 
similhanca do que se admitte para a composicao dos oxidos 
de ferro magnetico c das batcduras. 

E bera sabida a analogia que existe enlrc os composlos 
do ferro e do cobalto, e por isso nao seri'a lemeraria a sup- 
posicao da existencia , ou da possibilidade da formacao, dc 
um acido cobaltico , a similhanca do acido ferrico que foi 
descobcrto pelo sr. Frcmy e dcscripto nas suas itwesligacdes 



MS SCIENCIAS E I.ETTRAS. 401 

sobre os acidos metallicos. Esle acido ferrico, que se nao tem 
podido obler separado das bases, e que se dcconipoe logo em 
sesquioxido de ferro e oxigenio, parece dever rcpresentar-se 
pela formula Fe 0^ 

acido cobaltico do cobaltato de polassa dos srs. Schwar- 
zenberg e Pcbal nao tem a mesraa composieao, c seri'a tal- 
vez convenicnte dar-lhe oulra denominacao, ale mesmo por- 
que pode acontecer que os progresses da chimica nos levem 
a descobrir oulro grao de oxigenacao do cobalt o Cb 0^ ao 
qual deve competir aquella denominacao. 

Em todo caso eis-aqui como elles indicam a prepara- 
ciio do novo sal : 

« Ajunta-se uma parte de carbonato de cobalto, em pe- 
quenas porcocs, a 6 ou 8 paries de hydrate de polassa em 
fusao; oxido de cobalto dissolve-se, produzindo a cor azul. 
Quando se mantem, durante algura tempo, esta massa em fu- 
sao em cadinho de prata, lorna-se ella parda e deixa depo- 
sitar uma combinacao de cobalto crystallisada em laminas 
hexagonaes. Trala-se a massa, depois de fria, pela agua, e 
oblem-se, d'esle modo, crystaes ncgros e brilhantes que sao 
de cobaltato de polassa. Seccos a 100° conteem 

KO, 3 Cb^ • 4- 3 HO 

Esta e a formula delerminada pelo sr. Schwarzenberg. 
A 130" OS crystaes pedem 1 equivalenle de agua. 
A exactidao d'esta formula foi confirmada pelo sr. Pe- 
bal. » ' 



Da cicuta, conium macidalum^ planta tao venenosa , e 

' Annaes dc Chimica ePhysica, 3." Serie, T. L, julho de 1857, 
pag. 378. 



402 ANNAES 

que injusto supplicio dc Socrates tornou celcbrc , havia 
Gieseckc separado urn principio aclivo , um alkaloide, que 
tein sido denominado conina, conicina e cicutina. Estc al- 
kaloide , que existe em todas as paries da plan la , acha-se 
principalmenle nas suas flores e nos fructos antes da com- 
plela maluracao. Alem do seu dcscobridor, estudaram-o ain- 
da Ortigosa, Kekule, Planla, Blyth e outros chimicos. 

E esla substancia um liquido incolor, oleoso, de cheiro 
penelrante, sabor acre e desagradavel. Alguns chimicos, Ke- 
kule e Planla, admilliam ja a exisleiicia de oulro alkaloide da 
cicuta, tambcm liquido, ao qual se deu o nome de methyl- 
conina. 

Modernamente ' o sr. Th. Wcrlheim descobriu no pro- 
ducto da distillacao das folhas da cicuta com a cal ou com 
a potassa, juntaniente com a cicutina, um novo alkaloide ou 
base organica. 

Eis-aqui como elles a oblem : neutralisa-se pelo acido 
sulfurico produclo da distillacao ; evapora-se a solucao em 
banho maria ate a consistencia de xarope ; trata-se o residuo 
pelo alcool absoluto ; dislilla-se o alcool e trata-se o extra- 
do alcoolico , depois de frio , pela potassa caustica que se 
ajunta em pequenas porcoes. Agila-se depois a raistura mui- 
tas vezes com o ether, e distilla-se a solucao etherea a ba- 
nho maria. residuo , inlroduzido n'uma pequena retorla 
lubulada, submelte-se a distillacao fraccionada em presenca 
de uma corrente de gaz. Passa ao principio o ether com a 
cicutina, depois a cicutina pura, e, no fim da distillacao, a 
abobada e o collo da retorta cobrem-se de palhelas incolores 
e irisadas. Destaca-se esta crusta crystallina das paredes da 
retorta, e, depois de a haver resfriado forlemente por meio de 
uma mistura frigorifera , expreme-se entre folhas de papel. 

* Annalen der Chemic und Phannacic , T. C pag. 328 — dc- 
zcmbro dc ISiiG. 



DAS SCIENCIAS E LETTRAS. 403 

Purificani-se os crystacs, enchulos d'cslc modo, fazendo-os 
crystallisar muitas vezes no ether. 

280 kilogrammas de flores de cicuta deram 17 grammas 
do novo producto. 

« A base, purificada d'esle modo, constitue palhetas ana- 
caradas e irisadas ; funde a calor brando, e sublima-se Icn- 
tamente ainda abaixo de uma temperatura de 100 graos. A 
uma temperatura, porem, mais elevada, sublima-se rapida- 
menle sem deixar residuo, derramando a distancia o cheiro 
particular da ciculina. E bastante soluvel na agua, e muito 
no alcool e no ether ; estas solucoes sao fortemcnte alkali- 
nas. 

« Esta base expulsa o ammoniaco das suas combinacoes, 
ainda mesmo a temperatura ordinaria ; mas, ]por outro lado, 
parece ser deslocada pela cicutina. 

« Quando se neutralisa a solucao alcoolica da nova base 
com acido chlorhydrico, e que se Ihe addiciona. uma so- 
lucao tambem alcoolica de acido chloro-platinico, obteem-se, 
pela evaporacao espontanea, bellos crystaes de um sal du- 
ple. Estes crystaes sao laminas rhomboidaes, muito volumo- 
sas e coradas de rubro jacintho. A sua composiciio e re- 
presentada pela formula 

C'« H'^ AzO% CIH, PI CP 

« A composicao da base deve , por conseguinte , repre- 
scntar-se pela formula C** H'^ AzO*. 

« V6-se que ella nao difFere da cicutina senao por dois 
equivalentes de agua 2. HO. * 

* A formula, que os chimicos adoptam geralmcnte para a cicuti- 
na, e deduzida das analyses de Ortigosa e de Blylh, e C* H'^ Az, 
e a da raethyl-cicutina , ou raelhyl-conina , segundo Kekule c Y. 
Planla, e C* H''' Az. Existc, por conseguinte, entrc cstas formu- 
las uma diffcrenca dc i equivalentes de carbonio. 



401 ONAES 

« Pode-se, pois, designar a nova base polo nome de con- 
hydrina ou cicutlujdrina , palavras que exprimcm esla re- 
laciio de composiciio. acido phosphorico anhydro , aque- 
cido com a cicuthydriiia a uma lemperalura dc pcrto de 200 
graos, rouha-lho 2 cquivalcnles dc agua e Iransforma-a cm 
cicutina. 

CM!" AzO* = 2 HO-hC" ir^ Az. 

Esla ciculina arlificial possuc lodas as propiicdades da 
cicutina natural. Forma ella com o acido chlorhydrico uma 
combinaciio cryslallisavcl em prismas rhomboidaes. E muilo 
\enenosa, c a cicuthydrina c-o cm grao muito inferior. » 



Fermentaciio alcoolica. — Nos Annaes de Chimica e Phy- 
sica, 3." serie , no folheto do mez de julho ultimo, publi- 
cou-se na sua inlegra a inleressanle Memoria do sr. Berllie- 
lot sobre a fcrmentacao alcoolica. Esle trabalho tende a am- 
pliar considcrave'mente as especics do genero assucar, cujo 
caracter essencial consisle na possibilidade de se transforma- 
rem, debaixo da influencia de cerlos fermentos , em alcool 
e acido carbonico, e alem d'isso a esclarecer cerlos pontos 
das Iheorias da chimica organica , e por isso achamos con- 
veniente dar aos nossos leilores um extraclo da Memoria a 
que nos referimos. 

« Foram reunidos cm um grupo commura, c designados 
com nome de assiicares , todos os corpos suscepliveis de 
experimentar a fermentacao alcoolica. assucar da cana e 
typo d'este grupo , do qual constilue o lermo conhecido 
com mais anliga dala ; junto a die vieram successivamente 
classificar-se o assucar das uvas ou glucosa , o assucar da 
cana intcrvcrtido pclos acidos, o assucar de leile , que nao 
fermcnla senao depois de haver soffrido esta mesma accao 
dos acidos, c, emfim, modernamenle, a melitosa. 



DAS SOIENCIAS K LF.TTRAS. iO'J 

« Todos esles corpos , sujeitos a accao da levadura da 
cerveja, podeni produzir o alcool e o acido carbonico ; em 
condicoes diversas fermentam de diverso modo, produzindo 
cntiio acido lactico ou o acido bulyrico. Sao todos neii- 
Iros e represenlados na sua composicao pelo carbonio e pela 
agua ; lodos , finalmenle, gozam de ccrtas propriedades ge- 
raes, laes conio a de combinarem com as bases energicas, 
e a de serem deslruidos com grande facilidade debaixo da 
influencia do calorico ou dos reagenles. 

« No curso das minhas invesligacoes sobre a synlhese dos 
corpos gordos, fui conduzido a aproximar dos assucares pro- 
priamente ditos grande numero de outras subslancias , que 
d'elles affaslava a ausencia da fermentacao pelo conlacto da 
levadura. A glycerina , a manita, a dulcina etc. e os pro- 
prios assucares gozam effeclivamenle de propriedades com- 
muns de grande importancia : estes corpos unem-se com os 
acidos e formam combinacoes neulras analogas aos corpos 
gordos em todos os seus caracteres ; sao verdadeiros alcools 
polyalomicos. Neulros como os verdadeiros assucares, dota- 
dos de sabor e solubilidade similhantes, a glycerina, a ma- 
nita etc., unem-se, do mesmo modo que os assucares, com 
as bases energicas, e sao trausformadas de um modo analo- 
go pelos agentes chimicos ; por outro lado teem, proxima- 
menfe, a mesma composicao centessimal dos assucares pro- 
priamente ditos , e sao represenlados por formulas da mes- 
ma ordem nas quaes o carbonio e multiplo de 6. Finalmen- 
te, em quanto os assucares conteem o hydrogenio e o oxi- 
genio nas proporcoes convenientes para formar a agua , a 
glycerina, a manita etc., conteem um excesso de hydro- 
genio, differenca esta que corresponde a uma maior estabi- 
lidade. 

« Estas analogias levaram-me a investigar a possibilidade 
de fazer supportar a glycerina , a manita e as outras sub- 
slancias, OS mesmos phcnomenos de fermentacao que mani- 



406 ANWF.S 

fcslam OS assucarcs propriaraenlc ditos, c principalnienlc a 
fernicnlaciio alcoolica. 

« Pude, com cffeilo, fazer fcrmcnlar dircclamenle a gly- 
cerina, a manila, a dulcina c a sorbina com prodiiccao do 
alcool e dc acido carbonico, Esla Iransformacao e gcralmenlc 
acompanhada de desinvolvimenlo do hydrogenio, o que 6 uma 
conscquencia da composicao d'cstcs corpos fcrmenlavcis. A 
formacao do alcool, proYocada d'estc modo, nao 6, em ge- 
ral, precedida da previa transformacao da manita , da gly- 
cerina etc., cm assucar propriamenlc dito. 

« Provoquei egualraente a fermenlaciio laclica , e a fer- 
menlacao burytica de muilas d'estas mesmas subslancias. 

« Proseguindo eslas expsriencias, fui levado a investigar 
se as condicoes dos phenomenos preccdenles, coiidicoes rauito 
dislinclas do emprego da levadura, poderiam detcrminar a 
transformacao alcoolica dos assiicares propriamente ditos, a 
do assucar de leile, e finalracnle a das diversas subslancias 
susceptiveis de serem metamorphoseadas em assucar debaixo 
da influencia dos acidos, taes como sao a gomraa e o ami- 
don. Nas mesmas circumslancias, a fcrmenlacao alcoolica dos 
ires ullimos corpos effectivamente sc produz ; nao e prece- 
dida pela sua transformacao em assucar propriamente dito. 
Esta fermentacao parece, porlanlo, directa, assim como a da 
manita e da glycerina. 

« Expondo OS resultados d'eslas obscrvacoes , discutirei 
as condicoes multiplas e procurarci, tanto quanlo for possi- 
vcl, analysar o papel das diversas substancias cuja presenca 
e indispensavel a realisacao dos phenomenos. Vou resumir 
OS principaes resultados d'esle estudo. 

« Eslas experiencias reclamam o concurso de uma tem- 
peralura inferior a 50" ; exigem para se completarem mui- 
las semanas e ate mezes ; nao dao unicamente origem ao al- 
cool, mas tambem a outras muilas subslancias formadas si- 
mullaneamcnte. Por oulro lado e necessario fazer inlervir a 



DAS SCIF.XCIAS E LETTRVS. 407 

agiia, melo comnium dc loda a fermentacao, o carbonalo de 
cal e materia azotada de naturcza animal ou analoga. 

« Sera carbonalo de cal , a manila, a glycerina elc, 
nao podem, nas circumslancias ordinarias, dar logar a fer- 
mentacao alcooiica. Sc se opera com os assucares propria- 
mente ditos , a presenca do carbonalo de cal nao e indis- 
pensavel ; lodavia esla presenca exerce ainda notavel in- 
lluencia sobre os phcnomenos e augmenta a proporcao do a!- 
cool formado. N'eslas experiencias , o carbonalo de cal pa- 
rece actuar manlendo a neulralidade do liquido pela saliira- 
^ao dos acidos que se produzcm, e dirigindo, n'lim scnlido 
delerminado, a decomposicao do corpo azotado que provoca 
a fermenlacao. Assim, operando com a glucosa, pude sub- 
sliluir, em vez do carbonalo decal, grande numero de outros 
corpos proprios para prcencher a mesma funccao neulrali- 
sante, laes como siio os carbonalos lerrosos, diversos carbo- 
nalos e oxidos melallicos , e final ii)ente os proprios melacs, 
como ferro e o zinco. A maior parte d'esles ensaios foram 
reproduzidos ao mesmo tempo e de um modo comparalivo 
com a cerveja. 

« estudo de um corpo neccssario para provocar eslns 
metamorphoses, o do fermenlo, fixou particularmenle a minha 
allencao. Este fermenlo era, em geral, formado pela cazei- 
na ; porem qualquer materia azolada de naturcza analoga 
tern aplidao para exercer a mesma influencia sobre a mani- 
la. As experiencias muilo diversas, que lenho feilo sobre este 
ponlo, confirmam por outro lado e alargam as invesligacoes 
ja anligas do sr. Colin sobre o papel d'esles corpos na fer- 
menlacao alcooiica do assucar. Nenhuma substancia azolada, 
fora da calhegoria presenle, provocou os mesmos phenonic- 
nos. 

« A influencia das malerias azoladas depende da sua com- 
posicao e nao da sua forma, pois que se operam as mesmas 
alleracoes sobre a manita e sobre os assucares com subslau- 

ToilOl,-SETEMl!RO DE 1857.-1.° ClASSK. 27 



40H ANXAES 

cias as mais diversas, c nolavelincnle com a gelalina, com- 
poslo artificial dcsliluido dc toda a Icxtura organica propria- 
nienle dila. 

« desiiivolvimcnlo dc seres vivos parliculares, aos quaes 
sc havia allribuido urn papcl na fermcntacao alcoolica dos 
assucares , nao e por modo algum necessario ao successo 
das minhas cxperiencias. Pode evilar-sc estc desinvolviinenlo 
operando ao abrigo do conlaclo do ar ; a fermenlacao neni 
por isso soffre cnibaraco nem relardacfio. 

« Logo, n'eslas cxperiencias, a causa dn fermenlacao pa- 
rece residir na nalureza chimica dos corpos, que teem a pro- 
priedade de funccionar conio fcrmenlos, e nas mudaiicas suc- 
cessivas que experimenta a sua composicao. Estas mudancas 
sac ainda pouco conhecidas ; mas sao comprovadas por um 
phenomeno caraclerislico e que nao aprescnta a accao da le- 
vadura da cerveja sobre o assucar : ao mesnio lempo que a 
manita se destroc, a materia azolada sc decompoe sem apo- 
drecer, e perde, debaixo da forma gazosa, quasi lodo o azote 
que entra na sua consliluiciio. Assim o corpo saccarino e o 
corpo azotado, cxercendo um sobre o outro uma influencia 
rcciproca, simullaneamenle se decompoe. 

« Qual e a nalureza inlima d'este duplo phenomeno e 
qual c a sua relacao com as accOes de conlacto as quaes se 
assimilha tanto a da levadura da cerveja sobre o assucar? 
E que ainda ignoramos quasi complctamenle ; mas, repi- 
to-o , somos conduzidos a pensar que a accao das materias 
azoladas, e ale a da levadura da cerveja, dependem, nao da 
sua struclura organisada, mas da sua nalureza chimica, do 
mesmo modo e a accao da emulsina sobre a amygdalina, da 
diastase sobre o amidon, do succo pancrealico sobre os cor- 
pos gordos neutros ; do mesmo modo a accao da glycerina 
sobre o acido oxalico, a do acido sulfurico e dos corpos ele- 
ctro-negativos sobre o assucar de canna na inversao, sobre 
alcool na elhcrificacao , e sobre a essencia de lercbcnti- 



DAS SCIKXCIAS E IT.TTKAS, 401) 

na na sua modificacao isoniorica. A accao da diaslase , da 
emulsina , do succo pancreatico, pode elucidar-se ale cerlo 
ponlo , porque eslas substanclas obram no cslado do disso- 
Iiicao ; a levadura nao so presta a esle genero de verifica- 
cao. Porem aefficacia analoga, ainda que menos pronuncia- 
da, que possueni as malerias azotadas de origem animal, na 
ausencia ate de toda a struclura organica especial e de qua!- 
quer Ibryiacfio de seres vivos, lende a assimilhar a fermen- 
lacao alcoolica as diversas fernientacoes provocadas pela 
(Miiulsina, pela diaslase e pelo succo pancreatico, » 

Depois da exposicao d'estes principios , continua o tra- 
balho do sr. Berlhelot, narrando primeiramente os processos 
de analyse por elle seguidos no esludo dos productos, e de- 
pois as experiencias fellas com as diversas materias e com 
OS divcrsos fermen'os. Esta tao interessanle 3Iemoria acaba 
finalmente com os seguintes paragraphos onde se resume to- 
da a sua doutrina. 

« A vista dos factos que acabo de expor, a glycerina, a 
manila, a dulcina, a sorbina, o assucar de leite, o assucar 
de canna c a glucosa pcrlencem a mesma cathegoria geral 
dos compostos organicos, caraclerisada nao so por uma com- 
posicao, qualidades chimicas e funccoes physicas analogas , 
mas tambem pela propricdade singular que teem de se de- 
comporem esponlaneamente debaixo da influencia dos fermen- 
tos azolados, dando origem ao alcool, e aos acidos laclico , 
acetico ou butirico. Esta aplidao para fermentar, complela- 
mente pronunciada na glucosa , menos evidente no assucar 
de leite e na sorbina, torna-se mais difficil de entrar em ac- 
rao nas materias que conleem um excesso de hydrogenio , 
taes como a manila, a dulcina, e, principalmente, a glyce- 
rina. Estas malerias, mais estaveis cm presenca do calorico 
e dos reagentes , offerecem tambem maior resislencia a in- 
fluencia dos fermentos azotados. Mas as metamorphoses ana- 
logas deque silo todavia susccpliveis debaixo d'esia iiifluen- 



410 iNNAES 

cia tendem a aproximal-as dos assucares propriamente di- 
tos. 

« Se considerarmos que esles corpos, lao analogos enlre 
si, se acham ein abundancia, livres ou combinados, nos te- 
cidos vegelaes , que elles se prendem direclaniente com os 
principios insoluveis que conslituem a Irama d'esles , e, fi- 
nalmenle , que a maior parte dos phenomenos da physiolo- 
gia botanica parecem girar sobre as suas transformacoes , 
facil sera o comprehender que interesse se liga com o eslu- 
do das suas reaccocs. As mudancas, que soffrem por \ia da 
fermenlacao, offerecem particular altencao em razao da simi- 
Ihanca que existe enlre estes phenomenos, lao differenles das 
affinidades ordinarias e os phenomenos vilaes propriamente 
ditos. Estudar as fermentacoes, dirigil-as a vontade para obter 
transformacoes chimicas definidas, e por em accao mecanis- 
mos analogos aquelles que presidem as metamorphoses da 
materia nos seres vivos. » 

J. M. d'oliveira pimentel. 



DAS SCIENCIAS E LETTRAS 411 



HYGIENE PUBLICA. 



roi necessario que una grande calamidade nos desperlasse 
de urn prolongado lelhargo de incuria e desleixo para p6r 
em campo unia queslao vital de hygiene pubiica , sobre a 
qual nunca deveramos ler adormecido. 

E inconteslavel que a nossa sociedade lende irresistivel- 
mente para o pr^ogresso, mas e lambem cerlo que o simples 
desejo de aperfeicoamento nao e sufficiente para o obter. 

Os melhoramentos maleriaes de uma grande cidade nao 
se podem impunemenle incumbir a homens que nao possuem 
oulra habilitacao alem da sua boa vontade ; referem-se elles 
a multiplicados objeclos que se ligam com dilBceis questoes 
economicas e lechnicas, para a resolucao das quaes nao basta 
querer, mas e precise, primeiro que ludo, saber. 

querer e saber sao duas coisas distinctas, que, reuni- 
das, sao quasi equivalcnles depoder, mas que separadas nao 
dao mesmo resullado. 

A nossa adminislracao municipal de Lisboa tem querido 
melhorar as condicoes da cidade em todas as suas relacoes, 
tem dado a muitos respeilos sufficientes provas dos seus bons 
desejos. N'alguns ramos, que sao de sua natureza simples e 
ao alcance de todas as intcUigencias , tem conseguido bons 
resultados, mas n'aquelles que sao os mais importanles e que 
depcndem de conhecimenlos especiaes, e mister que se diga 



412 ANNAIIS 

que lein coiniiicllido erros, c crros dcsaslrusos pelas suas dc- 
ploravcis coiiseiiuencias. 

E nas reformas eniprendidas com o fim do mclliorar as 
condicoes hygienicas da capital que cstes erros so lornani 
inais graves c dilliceis de rcmediar. 

Enlre estas existe uma , extreniamcnlc cnibaracosa uas 
gi-andcs agglonicracocs de popula^ao, dcsagradavcl pela sua 
nalurcza, dilTicil pela complicacao das suas rclacocs, pouco 
estudada, talvez pela repugnancia quecxcila, mas necessaria 
a mais imporlante da edilidade. Esla 6 a que dcvc tor por 
objecto a remocao das dejcccoes dos habilantes de uma gran- 
do cidade. 

lla mais de oito annos, peranto urn audilorio illuslrado 
(jue esculou com lanla benevolcncia as licoes que no Gremio 
Lillerario fiz sobre a dependencia cm que a agricullura ra- 
Clonal esld da chimica, prognosliquei = que dentro em dez 
annos rcconheceria a Adminislracao municipal o grande er- 
ro que liavia commellido no syslema adoptado para a remo- 
cao dos despejos da cidade. — prognostico verificou-se 
infelizmenle, como se \erificam lodos os que so fundam so- 
bre conhecimento dascausas ejusla apreciaciio doselTeilos. 

Depols d'essa epocha cscre\i alguns arligos na Gazeta 
Medica sobre esle ramo da policia urbana, propondo a ado- 
pcao de um novo syslema de remocao das immundicies. Con- 
linuoi desde cnlao as experiencias e observacoes conducenlcs 
a verificar a elficacia do melhodo proposlo ; palenleei-o a 
muilas pessoas enlendidas e influenles, lentei mesmo fazel-o 
adoptar em maior escalla, e confosso que o unico embaraco 
que enconlrei nao provinha ncm da nalurcza do processo , 
ncm da sua complicacao, mas unicamenle da inercia dos ho- 
mens, d'esla falla de vigor e de aclividade , que dizem scr 
propria dos babilantes das rcgiOes mcridionacs, e que eu sup- 
ponho que procede antes de uma cnfermidadc moral, muilo 
contagiosa, a preguica, a indolencia dos povos que pcrdcram 



DAS SCIENCIAS E LETTRAS. 413 

a consciencia da sua forca , e em cujo animo se amorleccu 
amor enllmsiasta do progrosso. 

Os que nao se haviam podido convencer pela simples 
reflcxiio de quo o syslema seguido pela adminislracao mu- 
nicipal para a remocfio das immundicies da cidade era mau, 
cedcram linalmenle ao doloroso mas forte argumenlo aprc- 
senlado por uma grande calamidadc publica : foi neccssario 
que uma lerrivel epidemia, que tcm cerrado os olhos a lanla 
gente, Ih'os viesse abrir a elles. lloje ninguem deseja a con- 
tinuacao do mesmo eslado de coisas : pedem lodos um reme- 
dio, e parece que eslao disposlos a ouvir o conselho dos ho- 
mens que teem refleclido sobre este ponlo. 

Espera-se que do grande conselho de saude saiam pro- 
postas e indicacocs conducenles a mclhorar as condicoes de 
salubridade da capital. conselho deve juslificar estas es- 
perancas. E hoje parece que todos estao disposlos a accei- 
lar as indicacoes razoaveis que resultarem de uma discussiio 
illustrada pela opiniao de homens competenles. Queira Deus 
quo, passado o porigo, persislam ainda as boas inlencOes que 
nasceram de uma lardia attricao. 

Mas em quanto aquella corporacao se occupa d'esses obje- 
ctos e tambem convenienle que se abra a discussao na im- 
prensa sobre elles, e que se oucam e discutam as opiniOes 
dos cnlendidos. 

Movido por estas razoes creio que me nao levarao a mal 
OS leitores d'esles Annaes que eu lance aqui algumas consi- 
deracoes lendentes a elucidar a qucslao em que tanlo se in- 
tercssa hoje a populacao de Lisboa. 



Nao lentarei demonstrar a necessidade absolula de remo- 
ver de um modo hygienico , commodo e decente do cenlro 
das grandes povoacOes as immundicies, que, na opiniiio de 
todos, e independentemente de qualquer razao scientifica, se 



4 1 4 ANNAI-S 

consideram como as mais aplas para formar focos dc infcc- 
cao, 

Dcsde as mais remotas epochas os homens e os povos, em 
que principiava a brilhar a luz da civilisacao, sentiram essa 
neccssidado. legislador do povo de Israel inseriu ja no 
Deuteronomio, no cap. XXIII, prcscripcoes hygienicas a este 
respeito. Se os poucos documenlos escriplos que nos restam 
sobre a policia das cidades anligas nfio nos fornecem o co- 
nhecimento preciso dos meios pralicos empregados na lim- 
peza urbana, sobreviveram as ruinas do tempo e a destrui- 
cao dos barbaros algumas conslruccOes que atleslam o cui- 
dado que a administracao publica merecia esla importante 
necessidade. A mais nolavel enlre todas e a do grande ca- 
nal subterraneo ou cloaca maxima , que um dos primeiros 
reis de Roma, Tarquinio, o Prisco, fez conslruir com gigan- 
lescas dimensOes para o servico da cidade que havja de ser 
a capital do mundo civilisado. Durante a republica a con- 
servacao d'esto canal, e dos que successivamente se fizeram 
para o mesmo servico , mereceu repelidas vezes a atlencao 
dos consules, e notavelmente de Agrippa, que, depois do seu 
consulado, sendo eleilo edil da cidade, promoveu a conduc- 
cao de uma consideravel massa de agua , nao so para ali- 
mentacao das innumeraveis fonles de Roma , mas tambcm 
para a limpeza dos sens canos. As immundicies da grande 
cidade eram arrebaladas por innumeraveis torrentes de agua 
ao longo d'esses canos de despejo para o 'fibre, que as ar- 
raslava para o mar no seu curso impeluoso. 

Julio Frontino, que foi superintendentc das aguas em Ro- 
ma no tempo dos imperadores Vespasiano, Nerva e Trajano, 
deixou-nos um documenlo, pelo qual se pode avaliar a im- 
mensa quantidade de agua de que a cidade eterna dispunha 
para o servico da sua grande populacao. E este o Commen- 
lario dos aqucductos da cidade de Itoma , no qual diz que 
nu seu tempo ha via na capital do imperio 280.000 passos 



DAS SCIIiNCIAS E LETTKAS. 41i) 

romanos de aqucduclos , os quaes deslribuiam li.OOO qui- 
narios de agua , sendo a somma total da agua dislribuida 
por esles, em 24 horas, equivalente a 840 milhoes de litres. 

Se no servico da limpeza das cidades o unico ponto at- 
lendivel fosse a remocao das immundicies para longe da sua 
sede, Uoma teria por cerlo atlingido a perfeicao. Canos de 
largas e magnificas dimensoes, latrinas convenienlemenle dis- 
postas, innumeraveis torrenles de agua circulando por esses 
aqueductos subterraneos, e um rio caudaloso para receber e 
arraslar para longe essas materias regeitadas, era tudo quanlo 
unia cuidadosa policia poderia desejar. Porem essas materias 
Icvadas pelas aguas representavam o desperdicio enorme de 
um produclo ulilissimo e indispensavel para a agricultura. 

A questao da limpeza das cidades esla irrevogavelmenle 
unida hoje a do aproveitamento das dejeccoes para alimen- 
tar as culturas. Ainda que uma grande cidade possa, como a 
anliga Roma e como a Londres moderna, dispor de uma por- 
cao sullicienle de agua para lavar os seus canos dedespejo, 
nao Ihe aconselharemos o syslema romano , porque elle re- 
solve apeuas uma parte da questao. Tanlo mais populosa e 
uma cidade tanlo mais necessario se lorna para ella e para 
OS campos que a alimenlam o aproveitamento das suas de- 
jeccoes. E este aproveitamento o que por certo mais com- 
plica a questao, mas nem por isso a torna insoiuvel. 

Na longa passagem da civilisacao anliga para a civilisa- 
cao da Europa moderna, a maior parte das cidades viveram 
n'um lastimoso eslado de immundicie que em muitas se pro- 
longou ale aos nossos dias. Em alguns centros importantes 
de populacao comecou, todavia, a adoptar-se o methodo de 
rccoiher cm depositos subterraneos as dejeccoes animaes pa- 
ra as ulilisar na agricultura, a similhanca do que ja se pra- 
licava parcialmente nos remotos tempos do imperio romano. 
Era isto um progresso, mas a imperfeicao dos meios e mais 
que tudo a falla dos cuidados e precaucoes que reclama este 



4 1 a.\>ai:r 

servito, alTaslavain-o aiiula muilo da pcrfeicau dcsojada. En- 
tre nos o I'orto e as cidades do 31 in ho sao cxcmido d'esle 
progresso incompleto. Lisboa, ainda ha bcm poucos annos , 
aprcsenlava o specimen asqueroso e rcpugnanlc das cidadcs 
da cdade-mcdia. Sobre o pavimenlo das ruas se projeclava 
das janellas, durante a nuile , e nuiilas vczes a propria luz 
do dia, loda a especie de imnuindicies , as dejeccoes liqui- 
das e solidas, a agua das lavagens domcslicas, os rcstos dos 
alinientos, e o Ii\o das varreduras. 

Na reconstruccao da cidade polo marqiicz de Pombal , 
depois do horroroso terrcmolo de 175o, forani conslruidos 
alguns canos principaes com o fim de recolher e Icvar a oc- 
cultas , por debaixo da terra , para o mar os dcsjiejos das 
habitacoes do novo bairro. E natural que no pcnsamento do 
i,M'ande adminislrador exislisse a idea de gencralisar esle sys- 
tema em loda a capital por construccoes apropriadas cuja 
fabrica estivesse em relacao com a grandeza das primeiras. 

Com desapparecimento d'cssc homem emincnlc , que 
resumia cm si toda a forca impulsiva da sua vpocha, cessa- 
ram os inclhoramenlos iniporlantcs que elle havia projeclado 
para o engrandecimento de Lisboa. Tudo oque se ihe se- 
guiu tern o cunho da mediocridade e da incpcia. Os habi- 
tanles d'esta cidade continuaram a viver no centro da mais 
peslifera immundicie. Passemos rapidamenle sobre cssas epo- 
chas vergonhosas que dao trisle documenlo da nossa adnii- 
nislracao policial. 

A limpcza das ruas, que se podiam considcrar vcrdadei- 
ras cioacas , era feita com a maior irregularidade por em- 
prezarios, que recebiam para esse effeilo urn subsidio e dis- 
punham dos eslrumes. 

A Camara Municipal, que depois da reslauracao do go- 
vcrno constitucional cm 1833 lomou conta d'este ramo de 
policia, ale cnlao entrcgue a Intendencia geral, conlinuou por 
alguui tempo o mcsmo syslema, mas reconhecendo em breve 



DAS SCIILNCIAS J' LIHTKAS. 417 

que uiua ciiladc, como Lisboa, iiao podia conlinuar a apre- 
seular-se tao iiial trajada cm prcsenca da Europa, resolveu 
coiitiniiar a conslruccao dos canos de despcjo por todas as 
ruas da capital , a proporcao que os sous liinitados mcios 
lli'o pcrmillissem. 

Enlrou poreni n'eslu novo caminho de reforma sem o 
auxilio dos conhecimenlos indispensaveis para tao util e dif- 
JicuUosa empreza. Deu principio a caualisacao de algumas 
ruas, scni piano, sem estudo, sem discussao e sem direccao 
technica competente. A maior irreflexao presidiu ao comeco 
de um Irabalho importante e colossal , e eslcs mesmos fra- 
balhos foram principiados de uma maneira mesquinha e quasi 
surdida, que contrastava notavelmentc com as solidas cons- 
fruccoes que n'esle genero nos havia deixado a adminislra- 
cao sisuda e retlectida do marquez de Pombal. A pessima 
execucao de um bom desejo trouxe-nos resultados desastro- 
sos e collocou-nos em graves difiiculdades , absorvendo um 
grande capital que, havendo sido emprcgado com mais dis- 
cernimenlo , teria concorrido poderosamente para melhorar 
as condicoes hygienicas da capital. 

Tratarei agora de demonslrar quaes siio os graves incon- 
venientcs da canalisacao seguida pelas camaras municipaes 
de Lisboa, a difliculdade e quasi impossibilidade em que es- 
tamos de remover os despejos da cidade pelo simples syste- 
ma de canalisacao , qualquer que elle seja , e, finalmente, 
mostrarei como e possivel, facil e ecouomica a adopcao do 
systema de limpeza com a previa desinfectacao das materias, 
sem condemnar como inuleis e perdidos os canos actuaes. 

(Conlinua.J 

J. M. d'oliveira. pimentel. 



ilS AN^AI'S 



REVISTA ESTRANGEIRA. 



ABRIL E MAIO. 



AsTRONOMiA. — A opiniao da invariabilidade do ceo, essa opi- 
niilo Iradicional, vai todos os dias perdendo nasciencia oseu 
prcstigio. Nao so os planelas apresentam moviracnlos e pha- 
ses que OS fazeni mudar de aspeclo, niio so os cometas ca- 
minham conio aslros erranles a traves das constellacoes , 
mas as proprias estrellas niostrani, a uma observacao allenla 
e rigorosa, modificacoes importanles na grandeza, e na cor 
dos rayos luminosos , e ale desapparecem de todo do logar 
que occupavam no ceo. Segundo as consideracoes do sr. Le 
Verrier sobre as cartas celestes do sr. Chacornac, a estrella 
S do Cancer tern um periodo de variabilidade de 9 dias 484, 
c tern a singularidade de nao gastar senao a decima parte 
d'este periodo em passar de estrella de setima grandeza a es- 
trella de decima grandeza. Perto da nehulosa PrjiSepe uma 
estrella desappareceu depois de ter passado por successivas 
diminuicoes ; outra estrella, que existia ao lado de um bello 
astro vermelho, notada no catalogo de Calande , a qual foi 
observada de 1852 a 18o5 tambem desappareceu ullima- 
mentc. Estas variacoes no aspeclo do ceo mostram bem a ne- 
cessidade de continuadas observacocs, e a ulilidade aslrono- 
niica de cartas que indiqucm o estado do firmamenlo cm cpo- 



I 



DAS SCIENCIAS E LETTRAS. 119 

chas nao muito affasladas. So por este modo se poderao re- 
solver OS interessantes problemas que se apresenlam aos as- 
tronomos sobre a nalureza e movimenlos das eslrellas, e so- 
bre a marcha do nosso syslema solar a tra\es do espaco. 

Se algumas eslrellas desapparecem , outros astros vein 
enriquecer os calalogos aslronomicos. numero dos plane- 
tas pequenos, novamenle descobertos, cresce dc anno para an- 
no : quarenta e tres planetas se contavam ja no inez de abril, 
sendo o ultimo descoberto no observatorio de Oxford pelo sr. 
Pogson no dia 15 d'esse mez. 

Em quanlo astronomos notaveis se occupani em explorar 
ceo em busca de novos planelas , outros buscam esludar 
melhor os planetas maiores e ha mais tempo conhecidos. 
Assim e que o reverendo padre Secchi buscou , por obser- 
vacoes feitas sobre o bello planeta Venus, descobrir a causa 
da irregularidade dos resultados oblidos pelos astronomos an 
determinacao do diametro d'este planeta. Comparando entre 
si as observacoes feitas durante o dia e as feitas de noite, o 
illustre astronomo achou os seguintes valores para o diame- 
tro de Venus, supposto o planeta a distancia escolhida como 
unidade era astronomia para estas avaliacoes. 

Media grandeza das medidas de dia . . 8",232 
» » noite . 8',r)10 



Differenca 0",378 

Esta differenca entre os resultados obtidos de noite e de 
dia, sr. Secchi attribue-a , sera hesitar , a diffusao appa- 
rente do diametro em consequencia da irradiacao da luz, o 
que elle conclue de factos analogos que se passam no plane- 
ta Marie e na lua. « As medidas feitas de dia, diz o astrono- 
mo romano, e, sobre tudo, na circumstancia de phase mini- 



/|20 AN>'\ES 

Ilia, Siio preferivois a lodas as oulras; so aforca do inslru- 
mcnlo permille ver hem o arco illuniinado, e sc o ar 6 has- 
tanlc favoravel, porque cnlao se pode medir a distancia das- 
duas pontas do crcscenle muilo tinas como se medem as es- 
trellas duplas, e, conseguintcmenlc, toda a origcm de irre- 
gularidade propria do micromclro do fio na nicdida dos dia- 
metros planclarios ecliminada, Pode-se, pois, concluir, que 
cerlamente Venus e mais pequena que a Terra , porque o 
dianielro d'esla seria 8",5G9 a inesnia dislancia. » 

— Ao passo que o reverendo Secchi moslrava, pelas suas 
observacoes, o ser Venus nienor do que a Teri'a, o sr. Eduar- 
do Gaud, seguindo uma opiniao diversa, dispunha os plane- 
tas mais conhecidos, segundo os seus volumes decrescenles, 
na ordem seguinte : Jupiter, Saturno, Venus, a Terra e Mar- 
ie, e notava que por este modo os pianelas cslavam arranja- 
dos na ordem das duracoes crescentes das suas revolucues 
diurnas, querendo mesmo d'aqui concluir aleigeral, deque 
a duracao dos movimentos de rotacao de cada planela e na 
razao inversa do comprimenlo do seu diametro. Nova prova 
da impossibilidade de eslabelecer leis geraes sobre observa- 
coes incomplelas, sobre dados pouco seguros. 

NiYsiCA DO GLOBo E GROLOGiA. — A consliluicao da co- 
dea da lerra accessivel as observacoes , os phcnomcnos das 
erupcoes volcanicas, a forma geral do nosso planela, as mo- 
dificacoes da forma da sua superficie, que deram logar aos 
syslemas de montanhas, tudo prova que o globo lerrestre es- 
leve primilivamenle no estado liquido em conscqucncia de 
fusao ignea , ludo demonstra que ainda hoje, por baixo da 
crosta solida, existe um nucleo liquido com uma temperalura 
elevadissima. Ainda ha pouco os trabalhos de um geologisia, 
que forara cilados n'esla revista, moslraram que esse nucleo 
liquido era involvido por duas camadas tambem liquidas, uma 
de nalureza acida, oulra do nalureza basica, diflerindo pcla 
densidadc, e dando origcm a crupcoos de nalureza chiniica di- 



I 



Dvs sr.iEXciAS r. i.ettras. 4il 

versa, o que lornava possivel a divisao das rochas igiieas cni 
dois grandes griipos. A cxislencia d'esse nucico cm ignicao, o 
demonslrada aiiula pela observacao do calor seinpre crcscen- 
te da terra a medida que se penetra cm camadas mais profun- 
das da crosla solida ; a lei d'esse crescimenio, quando scja 
bem conhecida, pode dar indicacocs aproximadas da espessu- 
ra provavel d'esse involucro solido que nos separa so d'e?sa 
immensa massa fuiulida que forma a parte mais cnnsidera- 
vcl do globo terrestre. Nao ha ainda muitos annos que o i!- 
lustre Humboldt lamcniava a falla de observacoos rigorosas 
e feilas a condicoes convenienles que podesscm dirigir os 
geologos no estudo da lei de crescimonto do calor da super- 
cic da terra para o nucleo central. 

As minas profundas, ascavernas, os pocos, e, principal- 
mcnle os furos arlesianos, podem principalmenle servir para 
se fazereni obscrvacoes d'esta natureza. poco artesiano de 
Grenelle, os de NeAv-Salzwerk e Pregny, ja foram aprovci- 
tados para observacoos do temperatura ; mas, ullimamenic, 
osr. Walferdin, aproveitando sondagens feitas nas minas de 
Creuzol , uma que chegava a profundidade de 816 melros, 
outra a de 5'ij4 metros, executou observacoes thermomelri- 
cas muito rigorosas, e chegou aos resultados seguintcs. 

Os thermometros collocados a profundidade de 816 me- 
tros marcaram 38", 31 centigrados ; os introduzidos na son- 
dagcm de 554 melros marcaram a temperatura de 27", 22. 
A dilTerenca de temperaluras a 334 metros de profundidade 
c a 816 e 11", 09, o que da o augmento de V de calor por 
cada 23 melros e meio de profundidade abaixo de 354 me- 
lros. D'esta profundidade ate a superficie do solo, a tempe- 
ratura decresce, mas a lei de decrescimento parece ser ou- 
tra. sr. Walferdin calcula um grao. de temperatura por 
30 metros c meio. 

— estudo minucioso da constiluicao geologica da ter- 
ra, e dos vesligios de antigos phenomenos que ainda se en- 



ill ANNAES 

conlram na sua parle accessivol , levou a dcscobrir muifos 
factos (Ic (liflicil explicacao, c que teem dado logar a hypo- 
theses mais ou nienos verosimcis. Um dos problenias de dif- 
ficil rcsolucao que se apresentam em geologia e o cxplicar 
phenomeno das rochas erraticas. Em cxlensas regioes da 
supciTicie do globo, na Scandinavia e na America boreal, por 
exemplo, cncontram-se disseminadas sobre terrenos de natu- 
rezas diversas, enormes rochas que se ve claramcnle foram 
Irazidas para ali de rcraotas rcgiOes. Qual e a origem d'es- 
tas rochas erraticas? Por que modo se fez o dilTicil Iransporte 
de lao enormes e pesadas massas? Uns allribuem esse Irans- 
porte a correnles de lodo ou a massas de gelo aniniadas de 
rapido movimento. Gaminhando velozmenfe, cssas rochas dei- 
xaram nos terrenos por onde passaram indeleveis vestigios : 
estrias, sulcos profundos, cobrem as rochas de dureza bas- 
tante para receber estas impressoes e para as conservarem. 

A geologia nao pode, em geral, dispor senao de um meio 
de estudo , a observacao dos factos da naturcza , a experi- 
mentacao so limitadamente a pode auxiliar : comludo, o sr. 
Daubree ensaiou um novo caminho, procurando reproduzir, 
em experiencias bem combinadas, as circumstancias que elle 
suppoz causa de alguns dos phenomenos geologicos, e estu- 
dando-ihes os resuitados, para assim auxiliar com a experi- 
mentacao as deduccoes tiradas da simples observacao dos fa- 
ctos exislenles. E fora de duvida que o methodo experimen- 
tal pode produzir importanles consequencias nos csludos geo- 
logicos , a estreilesa, porem, dos meios e das forcas de que 
nos laboralorios se pode dispor , fecha necessariamente em 
acanhados limiles o uso d'esle methodo, 

sr. Daubree buscou, pela experiencia, reconhecer o 
modo por que as rochas erraticas haviam deixado, no cami- 
nho por onde linham passado, os sulcos que ainda hoje dao 
as rochas da America um caracter singular. Procurando imi- 
tar as condicOcs da naturcza , o sr. Daubree fez com que 



DAS SCIENCl\S E LETTRAS. 423 

arSns, calhaos e fragmcnlos angulosos de rochas friccionas- 
sem oulras rochas, com velocidades variaveis, e debaixo de 
pressoes lambein variaveis , e reconheccu que para haver 
forniacao de eslrias, os dois elementos, velocidade e pressao, 
variani em senlido in verso um do outro. Com a velocidade 
de 1 millimetro por scgundo, a pressao sobre o calhao deve 
ser de 400 ivilogrammos para haver vesligios de friccao, em 
quanlo que , com a velocidade de 40 millimetros, basla o 
p6so de 5 kilogrammos. Os materiaes da mesma nalureza 
riscam-se perfeitamenle , e mesmo uma rocha relalivamenle 
molle risca oulra mais dura. Se os corpos em movimento 
soffrem, nao a pressao de uma massa solida, mas a pressao 
de uma massa pastosa, como argila humida, enlao o resul- 
tado e enlerrarem-se esses corpos na massa paslosa e nao 
riscarem aquelles sobre que se fazem passar , o que indica 
que a hypolhese das correntes de lodo nao e provavelmenle 
a que se pode adoptar para a explicacao do Iransporle das 
rochas erraticas. Outra consequencia se lira ainda d'eslas 
experiencias , pela analyse dos delritos resultantes das fric- 
coes dos corpos , e ^ que essas friccoes alteram a nalureza 
chimica dos corpos ; os feldspathos e diversos selicalos de- 
compoem-se na presenca da agua. Um resullado analogo a 
esle de que acabamos de fallar obteve o sr. Becquerel, em 
experiencias feitas para reconhecor o resullado das accoes 
lenlas, produzidas debaixo da influcncia combinada do calor 
e da pressao, 

Alem de experiencias feitas a temperatura e debaixo da 
pressao ordinaria, o sr. Becquerel emprendeu oulras, a lem- 
peraturas e pressoes elevadas, para formar idea do que succe- 
deu nos terrenos sedimentares quando sobre elles se derrama- 
ram rochas fundidas de origem ignea, taes como os porphy- 
ros, OS basallos etc. Em condicoes assim diffcrenles das con- 
dicoes normaes de hoje, o sr. Becquerel obteve a arragonite 
em prismas, o proloxido de cobre em cryslaes, os sulfure- 

TomoI.-Setemrro de 1857.-1," Classe, 28 



424 AKNAKS 

tos (Ic cobrc cryslallisados, os sulfurelos dc prata e chumbo 
cm laminas, a malachite, hromurctos, iodurelos e cyanure- 
tos melallicos, insoluvcis e cryslallisados. 

sr. Daubree, que acima foi cilado, ainda empregou o 
mesmo melhodo experimental para buscar a causa de outro 
phenomeno geologico de dilficil cxpiicacao ; o das impres- 
sOes que os calhaos abriram uns nos oulros , quando se 
acharam agglomerados em diversos terrenos, iinpressoes que 
sao similhantes as que se formariam em corpos com a con- 
sislencia da cera moUe, quando fossem acluados por outros 
de maior dureza. Eslas impressoes encontram-se nao so nos 
calhaos calcarcos senao lambem nos quarlzosos. Para as ex- 
plicar recorreu-se a hypotheses que linham por fundamenlo 
a exisfencia de grandes pressoes, e de amollecimenlos acci- 
dentaes, ou mesmo friccOcs enlre os calhaos por muito tem- 
po. Todas estas hypotheses sao pouco satisfaclorias, princi- 
palmente porque se nao conhece nenhum agenle capaz de 
amollecer calcareos e quarlzos sem Ihes alterar a forma. Sao 
as accoes chimicas, segundo o sr. Daubree, que originaram 
eslas impressoes , mas as accoes chimicas obrando lenta- 
menle. Duas espheras calcareas, mellidas n'um acido fraco e 
submeltidas a uma pressao consideravel, nao apresentam im- 
pressao alguma , antes apresentam uma saliencia mamilosa 
no logar de conlacto. Quando porem se faz acluar o acido 
lenlamente e por capilaridade entre uma porcao de esphe- 
ras, entao nos pontos de contacto forraam-se impressoes si- 
milhantes as das pedras nos pudings naluraes. Eis-aqui um 
novo phenomeno de que a experimentacao deu salisfactoria 
explicacao. 

— Se a constiluicao geologica da terra, se a formacao 
de muilos mineraes c as modificacoes de oulros dao origem 
a problemas de difficil solucao , nao e menos notavel lam- 
bem a difliculdade que a sciencia encontra na explicacao de 
alguus dos phenomenos meteorologicos. Os relampagos sem 



DAS SCIEXCI\S E LF.TTRAS, H") 

trovao, a chuva seni niivens, eslao n'cste caso. sr. Phi- 
pson, aprescntando a Academia dc Pan's a narracao de al- 
guns phenomcnos inelcorologicos por elle observados na 
Flandres, explica o relanipago sem trovao do modo seguin- 
te. Os relampagos sao descargas eleclricas feitas enlrc as nu- 
vens, ou enlrc eslas e a terra. Arago, altendendo ao modo 
de evolut'oes e duracilo da luz dos relampagos , divldiu-os 
em Ires classes : relampagos globular, em zig-zag, e em la- 
minas , ou relampagos de calor : estas duas ultimas classes 
sao, sem duvida, o resullado da neulralisacao das eleclrici- 
dades opposfas enlre as nuvens. Os relampagos cm zig-zag 
siio, segundo o sr. Phipson, devidos a neutralisacao dos (lui- 
dos electricos enlre nuvens affastadas, ou enlre nuvens e a 
terra ; o abalo que softre o ar na passagem da electricidade 
origina o ruido do trovao. Os relampagos em laminas sao , 
pelo contrario, produzidos enlrc nuvens muito proximas, c 
a luz apparece em maior cxtensao do ceo porque se reflecfe 
nas nuvens ; a pouca espessura da camada de ar atravessa- 
da pela electricidade faz com que o ruido, sendo muilo maior, 
nao seja ouvido a distancia. Urn meteorologista nolavcl , o 
sr. Payer, conlradiz a opiniao do sr. Phipson. Este obser- 
vador alllrma que os relampagos em zig-zag appareccm si- 
multanearacnte com os relampagos em lamina sem trovao ; 
e cita diversas observacoes feitas nas alturas, ou em ascen- 
coes aerostaticas, pelas quaes se ve que os relampagos em la- 
minas apparccem enlre nuvens muito affastadas umas das 
outras , e que os relampagos em zig-zag nao sao scmpre 
acompanhados de trovoes. 

Este mesmo meteorologista, o sr. Poey, contrariando a 
opiniao do sr. Phipson, que attribue a chuva sem nuvens a um 
rcsfriamcnto subito das camadas inferiores da athmosphera 
abaixo do ponto de saluracao , defende a theoria de Peltier 
para a cxplicacao d'cstc singular phcnomeno. Segundo Pel- 
tier, na athmosphera podem formar-se nuvens ou massas de 

^8^ 



426 ANNAES 

vapor pcrfeilamenle transparcnlc, nuvons invisiveis por as- 
sim dizer, que se grupam e se dividem coino as niivcns vi- 
siveis. Sao cslas nuvens as que produzeni a chuva myslc- 
riosa ; entrc essas nuvens lanibem teem logar esses relampa- 
gos que por vezes brilham n'um ceo perfeilamente limpo , 
principalmente nas tardcs serenas e calmosas do eslio. 

PHYSiCA. — A illuminacao eleclrica lem, depois dos ulli- 
mos progressos da physica , sido urn dos objeclos que tern 
fixado a allcncao dos homens compelenles na sciencia. Ja 
n'esla revista se deu noticia de experiencias feitas em Fran- 
ca , que pareceram coroadas de exito feliz. As condicoes a 
que deve satisfazer a luz eleclrica sao, a de uma grande re- 
gularidade, de uma intensidade proximamente conslanle, de 
uma duracao de muilas horas, e, finalmenle, a de ler um 
preco pouco elevado : so com eslas condicoes e que a luz 
eleclrica pode ser usada na illuminacao das cidades, e sub- 
stituida a luz do gaz. 

sr. Becquerel propoz-se estudar a luz eleclrica debai- 
xo do ponlo de visia economico em relacao a illuminacao 
publica. Os reguladores da luz eleclrica hoje usados apre- 
senlam, segundo esle physico , condicoes de perfeicao bas- 
tanles para d'ellas se poder fazer uso logo que se possa obler 
electricidade em quanlidades regulares e com a desejavel 
economia ; apenas a falla de homogeneidade dos conduclo- 
res de carvao em que a luz se produz e que da origem a ra- 
pidas inlermillencias n'esla. A queslao mais imporlanle, a do 
cuslo da luz eleclrica, e a que mais parlicularmente fixou a 
allencao do sr. Becquerel ; para a resolver fez esle sabio a 
avaliacao do zinco e acidos gaslos em produzir uma deler- 
minada quanlidade de luz duranle um numero consideravel 
de horas. primeiro resullado a que chegou o sr. Becquerel 
foi reconhccer que a intensidade da luz diminue rapida- 
mentc durante as experiencias, variando porem a intensidade 
da correnle eleclrica que a produz : eslas mudancas de in- 



DAS SCIENCI.VS E LETTRAS. 427 

lensidade tornam difiicil a apreciacao do custo da luz ele- 
clrica , mas buscando apenas os limites d'esse custo , e lo- 
niando valores medios para estabelecer a comparacao enlre 
esta luz e as produzidas pelo gaz, pcio azeite, pclo sebo, pela 
stearina e pela cera , o sr. Becquercl reconheceu que , em 
luzes eguaes, e allendendo so ao custo das substancias cm- 
pregadas, sem attender as despezas do mao d'obra, muito 
consideraveis no uso da luz electrica , esta luz eleclrica e 
quatro vezes mais cara do que a luz do gaz, e egual a luz 
de azeite. 

uso das pilhas e que torna muito dispendiosa e ao 
mesmo tempo sujeita a irregularidades a luz electrica ; lo- 
go que as correnles electricas forem produzidas por ma- 
chinas magnelo-eleclricas , estes inconvenientes desappare- 
cerao em parte. Ora , ao que parece, e isto que se con- 
seguiu em Inglaterra , onde , no mez de maio d'este anno , 
se fizeram experiencias sobre uma luz electrica esplendida, 
produzida nao por a pilha, mas por uma machina magneto- 
electrica. 

A suppressao das pilhas nos telegraphos electricos e a 
sua subslituicao por machinas magneto-electricas, muito mais 
simples, mais regulares, e constantemente preparadas para 
funccionarem, pode ser de notavel utilidade nas linhas tcle- 
graphicas. Os srs. Siemens e Halske , de Berlin, construi- 
ram um apparelho d'esta natureza , de grande simplicida- 
de , e que transmille os despachos telegraphicos a distan- 
cias considerabilissimas , a 1000 leguas , com um so fio : 
seu unico inconveniente 6 o transmittir os despachos um 
pouco mais vagarosamenle do que os telegraphos electri- 
cos ordinarios. Os imans , como se sabe , teem dois polos 
ou ponlos arclicos de altraccao, os polos de dois imans, 
suspendidos livremente, podem allrahir-se ou repellir-sc mu- 
tuamente , segundo sao da mesma natureza ou de natureza 
opposla : ora o orgao receptor do novo telcgrapho e com- 



Ii8 AN.NAES 

poslo dc dois niagnctes pcrmanenlcs ftxados n'um corpo 
conimiun dc mudo que os polos opposlos cslao (md face uiu 
do outro. Enlre estes polos esla suspcndido um eleclro-iinan, 
que uma correnlc elcclrica , passando no fio que o cerca , 
magnetisa ora n'um scntido ora n'outro , scgundo e nega^ 
liva ou posiliva a electricidade que se faz passar pelo do ; 
per isso OS polos d'este elpclro-iman sao alternalivamente al- 
Irahidos ou rcpcllidos pelos imans permanenles enlre os quaes 
elle se acha suspcndido, o que Ihe imprime um movimcnlo 
de rolacao por saltos successivos ; oste movimenlo commu- 
nica-se a um ponteiro, que iudica sobre um mostrador let- 
tras ou signaes. manipuladur, esse 6 composlo dc muilos 
magncles permanenles, cujos polos fazem face a uma arnia- 
dura formada de ferro, cercada de um fio decobre isolado ; 
csla armadura d posta em movimcnlo por uma mauivella que 
gira sobre um mostrador em que ha as mcsmas Icltras que 
no mostrador do receptor. A cada scmi-revolucao da arma- 
dura produz-se uma correnle electrica, allernativamentc po-. 
siliva ou ncgaliva, a qual vcm pelo fio do Iclegrapho alra- 
vessar o fio do eleclro-iman do receptor e communicar-lhe 
movimcnlo de que acima se fallou, pondo-se, por cste mo- 
do, cm movimenlo o ponteiro que csorcve o dcspacho tcle- 
graphico. 

Outro melhoramcnto imporlanlissimo nos tclegraphos ele- 
clricos, de que se dcu noticia no tempo a que esla revisla se 
refere, foi o realisado pelo sr. Bernstein , de Berlin. Ja ha 
dois annos se empregaram apparelhos eleclricos que por o 
mesmo fio podiam mandar ao mesmo tempo dois despachos 
cm scntido conlrario ; o sr. Bernstein buscou conscguir , e 
conscguiu , scgundo se affirma , que por um mesmo fio se 
podesscm mandar dois despachos vindos da mesma estacao, 
ou de cstacocs diffcrcnles, e sercm ambos impresses por dois 
receplorcs differcntes. sr. Bernstein suppoe mesmo que , 
pelos sous novos apparelhos, se podera conscguir o mandar 



DAS SCIliNCI.VS £ LETTUAS. 429 

ao Hicsnio lenipo e pclo mesmo fio, Ires, qualro ou mais des- 
pachos lelcgraphicos. 

— ozone , subslancia modernamenle descoberla, nio- 
dificacao do um dos elenicntos do ar, o oxigenio, cujas pro- 
priedadcs sno ainda mal conhecidas , e que parece possuir 
lima grandc inllucncia sobre os phenomenos chimicos e pliy- 
siologicos que se passam em presenca da athmosphera, acha- 
se constanlemente n'esla em proporcoes variadas. Como, des- 
de a sua descoberla, se ligou um grande interesse ao ozone, 
e se procurou por elle explicar muitos factos mal conheci- 
dos , OS metcorologistas procuraram descobrir um modo do 
reconhecer a sua presenca no ar, e as variacoes, para mais 
ou para menos, que elle soffre, e appllcaram para esse fini 
II m papel preparado sobre o qual o ozone actua chimica- 
niente segundo a proporciio em que se acha na alhmosphe- 
ra. Os papeis reagentes do ozone teem sido preparados por 
diversos chimicos e observadores , e os principaes fizerani 
objecto de um esludo minucioso do sr. Berigny, o qual re- 
conheceu ; que muitos d'esles papeis sao improprios para a 
obscrvacao pela inexaclidiio dos seus resullados, merecendo, 
comtudo , alguma confianca os de Schcenbein ; que estes 
mesmos nao dao sempre resullados idenlicos ; que o papel 
Jame e o que olferece dilTerencas mais regulares , c maior 
sensibilidade. sr. Berigny faz nolar a exlensao dos erros 
a que pode dar logar este modo de reconhecer o ozone da 
athmosphera, erros que resullam da nalureza do papel, e 
ainda do modo de observar, e faz volos porque se descubra 
um modo de dosar exaclamenle o ozone do ar. 

HYDRAULicA. — sr, Daussc , n'uma nota sobre o que 
elle chama um principio imporlante e novo de hydrauli- 
ca , faz imporlanles consideracoes sobre o curso dos rios , 
que merecem ser mediladas pelos engenheiros que buscam 
acerlar na conslrucciio das difficcis obras deslinadas para re- 
gular a marcha das aguas , sempre tao caprichosa , c, nas 



130 AXXAliS 

epochas de chcias, dando por vezcs origein a lamenlosas ca- 
tastrophes. 

Servindo-se seiupre de exemplos bem verificados, o sr. 
Paussc cslabclcce primeiro ; que os rios tendem a forinar um 
leilo permanenle, que 6 o que resulta de uni estado de equi- 
librio entre a massa das suas aguas, o declive do fundo, e 
a grandcza da sua soccao; que um rio arrasla as aguas, 
areas o calhaos , depondo-os onde a seccao normal foi for- 
tuilamenle augmentada ; e, finalmenle, que todas as vezes 
que a seccao e reduzida por um lado do rio, as aguas pro- 
curam reslabelecel-a cavando a outra margem. Dcpois d'islo, 
sr. Dausse nola que nos rios ha partes naluralmenle es- 
treilas, e oulras em que as aguas se espraiam, e quo os ni- 
velamentos provam que, todas as vezes que as aguas podem 
atacar o leilo do rio, este aprcsenta menor active nos pon- 
tes mais estreilos e niaior nos alargamentos que parecem a 
vista mais pianos. Este facto explica-se, porque nos estrei- 
lamentos as aguas teem maior velocidade do que nas paries 
largas, e por isso ali a perda de equilibrio deve ser menor. 
E isto que o sr. Dausse considera um principio importanle 
e novo. D'estas consideracocs e de varies exemplos, o auctor 
lira as seguintes conclusoes : 

Uma correnle d'agua nao e, realmente, senao uma serie 
de partes contrahidas cujo active e menor, alternando com 
cones de dejeccao em que o active e maior ; 

Este facto resulta da velocidade que cresce, no primeiro 
caso, em consequencia da contraccao da correntc, e decres- 
ce, no segundo, cm consequencia do seu alargamento, e da 
lei, pela qual oaclive d'equilibrio varia na razao inversa do 
quadrado da velocidade ; ' 

Quando ha estreitamenlo artificial n'uma planicie ha uma 
progressiva escavacao ate o active dirainuir na proporcao do 
augmcnto da velocidade, podendo-se assim abaixar a vonla- 
de a altura das cheias n'um ponto dado de uma planicie ; 



DAS SCIENCIAS E LETTRAS. 431 

Uma corrcnie d'agua, que ainda nao allingiu o declive 
d'equilibrio , opera a reduccao do declive com o menor es- 
forco possivel, ou alongando-se por sinuosidades, ou cavan- 
do urn leito profundo, segundo a resistencia e maior na mar- 
gem ou no fundo. 

AGRicuLTURA. — Os trabalhos dos agronomos sobre a in- 
fluencia do azote do solo -no desinvolvimenlo das plantas 
conlinuam nao so a confirmar a importancia dos estrumes 
que conteem esle elemento, senao tambem a provar que as 
plantas o podem receber dos compostos organicos em decom- 
posicao , mas tambem dos nitralos iramedialamenle. sr. 
Boussingault , que, pelos seus imporlantes trabalhos, tania 
luz tern lancado sobre as principaes questoes de chiraica 
agricola, tem de novo procurado elucidar esta questao do 
azote nas plantas. Em experiencias execuladas principalmen- 
te sobre helyanthus semeados em area e argila calcinada, a 
que semisturou, n'um vaso, phosphato decal, cinzas, e ni- 
Irato de potassa, n'outro , phosphato, cinzas, e bicarburelo 
de potassa, o sr. Boussingault obteve resultados que confir- 
mam os de outras experiencias ja citadas em outras d'estas 
nossas revistas. 

Os helyanthus semeados no solo que conlinha o salitre e 
phosphato adquiriram a grandeza que teriam n'uma terra 
bem estrumada, augmentando muito o carvao e a albumina. 
Os semeados em terras que nao continham azote assimilavel, 
quer tivessem ou nao phosphato de cal e saes alkalinos, ape- 
nas chcgaram a altura de li centimetros , absorvendo da 
alhmosphera pouquissimo carvao, e quasi nenhum azote. Do 
que se conclue que , sem azote, todos os outros principios 
alimentares das plantas perdem o seu effeito util sobre as 
plantas cullivadas. Outras experiencias variadas, que o sr. 
Boussingault cita no seu Irabalho, levaram-no a tirar as in- 
leressantes conclusoes seguintes : 

1." phosphato do cal, os saes alkalinos e terrosos, in- 



432 AXNAKS 

(lispcnsaveis para a consliluicao das plantas , nao exerccm 
acciio sobrc a vegclacao scniio quando unidos a nialcrias ca- 
pazcs de forncccr azoic assimilavcl ; 

2.** As malerias azoladas conlidas na alhmosphera inler- 
nam-se em minima proporcao jiara dclerminar, na ausencia 
de cslrumes, uma rapida e abundante produccao vegetal ; 

3.** salilre, associado ao phosphato dc cal c ao silicate 
de potassa, obra como cstnime completo. 

Nao significa isto , porc^m , ncm pode significar que o 
azoic e OS principios azoiados conlidos na alhmosphera nao 
influam sobrc a produccao vegetal. Expericncias dc muilos 
observadores, e parlicularmcnle as do sr. Ville, mostraram 
conlrario. A alhmosphera contera uma porcao nolavel dc 
substancias azoladas , alem do azote puro , e entre cslas o 
ammoniaco c o acido nilrico, mesmo sr. Boussingault pro- 
curou reconhecer a quanlidadc dc ammoniaco contida no or- 
valho , e para isso dispoz ura simples apparelho conlendo 
neve, cm cujas parcdes frias se depositava a agua da alhmos- 
phera, e pela analyse reconhcceu que estc orvalho Irazia em 
dissolucao ammoniaco em proporcocs variadas, sendo maior 
a quanlidade d'este na alhmosphera das grandes cidades, e 
chegando a 10 milligrammas e 8 decimos ; cste mesmo or- 
valho conlem tambem acido nilrico. 

— A doenca nova dos bichos dc seda, que lem causado 
lanlos estragos nos paizes em que a induslria da seda c um 
dos primeiros elemenlos da riqueza agricola , nao ccssa de 
fazer objecto do estudo dos homens dc sciencia. Altribuida 
ora ao syslema de educacao, ora c^ nalurcza da alimenlacao 
dos bichos, ora a um estado epidemico da alhmosphera, tu- 
do parece provar que o mal resulla de dcgeneresccncias das 
racas, que se Iransmillem por heranca. sr. Dumas, au- 
elor de um interessante relalorio sobre a doenca em Fran- 
ca, fez nolar que nos paizes scricicolas por die csludados , 
as amoreiras so achavam em bom estado gcralmentc, e que 



DAS S(;iKl>CIAS E Ll^TTIUS. 433 

por isso sc nao podc atlribuir a eslas a doenca dos bichos 
que sc alinicntani das suas folhas. faclo, miiilas vezes re- 
petido, de se acharem muilas educacoes perfeilamente sas ao 
lado de oulras doentes, e de, ate no niesnio quarto, se acha- 
rem bichos bem desinvolvidos ao lado de outros doentes , 
provindo uns de sementes compradas n'uma localidade ou- 
tras n'outra, levou o sr, Dumas a nao admillir a epidemia. 
Urn grande numero de obscrvacoes moslram que o mal vem 
das sementes ou ovos ; e isto mosira a conveniencia , nos 
paizes ate hoje isenlos, de fazer criacoes so para dar ovos , 
que se \endem por elevado preco. Parece que nas alturas 
as racas se teem conservado mais sadias, e que as sementes 
originarias das montanhas dao em toda a parte esplendidos 
productos. 

— A conservacao dos cereaes, livres da accao dos inse- 
ctos que os eslragam e devoram, que obriga a grandes tra- 
balhos e despezas os que os conser\am enceleirados, as ve- 
zes com pouco resultado, pode alcancar-se por um processo 
simples e elTicaz , segundo as experiencias do sr. Doyere , 
empregando os seguinles ancslhesicos nienos custosos. Guia- 
do pelas observacGes do sr. Milne Edwards, que provaram o 
poder da benzina na dcstruicao dos insectos, assim como por 
oulras que provam a exislencia de uma accao analoga nos 
outros aneslhesicos , o sr. Doyere ensaiou sobre o trigo o 
chloroformio e o sulfureto de carbonio. Segundo estes en- 
saios, dois grammos de qualquer d'estes composlos sao suf- 
ficienlcs para destruirem todos os insectos de um quintal- 
nietrico de trigo, quando se applicam n*um espaco perfeita- 
mente fechado. Esta operaciio , pela qual morrem todos os 
insectos nocivos e os seus germens, pode executar-se sobre 
grandes massas de trigo ou cevada sem inconveniente, por- 
que OS cereaes conservam a faculdade germinativa, nao to- 
mam mau gosto, nem apresentam altcracao em nenhuma das 
suas qualidadcs. 



134 ANNABS 

— A extraccao do assucar da belerrava forma urn ranio 
imporlanlissimo da induslria dc alguns paizes do Norlc da 
Europa ; esta exlraccao iiao se podc por ora fazer senao em 
apparelhos complicados e cuslosos, c forma, por isso, uma 
industria distincta da induslria agricola. Na Alemanha , na 
Belgica e na Inglaterra lem-se, n'csles ullimos tempos, cria- 
do uma nova industria , a do xarope de belerrava , que se 
fabrica com simplicidade exlrema, e se emprega economica- 
menle nos mesmos usos que o assucar. Um balsciro , um 
corla-raizes , uma prensa e uma caldeira conslituem os ap- 
parelhos necessaries para a fabricacao do xarope saccarino. 
A belerrava, lavada, cozida e corlada, e espremida, e o su- 
co, evaporado ao banho maria, forma o xarope, de que se 
faz ja um uso geral entre o povo pouco abastado. 

— Extrahir das planlas que nascem espontaneamente nos 
campos, e que uma facil cuilura pode rapidamente aperfei- 
c'oar, ou d'aquellas que ale hoje teem sido desaproveiladas, 
produclos alimentares ou utilisaveis na induslria , tem sido 
objeclo dos ensaios dos agronomos e chimicos dislinctos. A 
exlraccao da fecula do fruclo do castanheiro da India , de 
que d'antes se nao tirava proveilo, e uma das novas indus- 
Irias agricolas que pode chegar a ter consideraveis propor- 
coes ; processo d'extraccao do sr. Cullias e baslanle sim- 
ples e lucralivo para dever merecer a altencao dos arbori- 
cullores. As casfanhas da India, reduzidas a polpa, sao pas- 
sadas por um crivo, e a fecula separada em pianos inclina- 
dos ; depois a fecula e lancada em agua que tem em disso- 
lucao uma pequena quanlidade de alumen ; depois da fecula 
se deposilar, procede-se a decanlacao do liquido, e sccca-se 
pelos melhodos ordinarios. fruclo do castanheiro da India 
rende 15 a 17 por cento de fecula. 

sr. Selione, de Geneva, propoe a exlraccao da fecula 
dc duas planlas muilo vulgarcs nos campos , e cuja mulli- 
plicacao se pode obtcr com grande simplicidade , o arum 



DAS SCFENCIAS E LETTRAS. i^li 

succulatim e o arum ilalicxm. melhodo do cxtraccao da 
fecula dos luberculos d'eslas planlas e muilo singelo : con- 
siste em os descascar, reduzir a polpa, lavar em agua sim- 
ples c agua alkalinisada pela potassa, em passar o produclo 
d'eslas lavagcns por pcnciros, c em seccar, finalmenle, a fa- 
rinha assim obtida. 

JOAU DE ANDRADE GORVO. 



436 ANNArs 

OBSERVATORIO METEOROLOGICO DO INFAN 



HKSIMO 



fepornA. 


nAKOMK- 
lUO. 


TIIKIiMOMI'TUO. 


1857 
Agoslo. 


u 

A 


Tcmperaluras limites. 

i i i-i ;2i £-3 ei 
•s -1 -sg ii -eI :e^ 

^ i ;2--3 =S^ 5?- S« 


Decadas. 


Milli- 
metius. 


Graos ccntcsiinacs. 


dal.' 

Medias . » 2." 

» 3.° 


755,17 
753. 9i 
753,26 


26,98 
25,33 
2'k92 


16,64 
.16,42 
17,07 


10,34 
8,93 

7,85 


21,81 
20,88 
21,00 


3i,72 
33,69 
32,38 


12,48 
11,64 
12,47 


Medias do mcz 


75 'MO 


25,72 


16,72 


9,00 


21,22 


33,59 


12,20 



Exlremas 
do incz. 



Pirnsdo, 
Maxima (das 4 ^pochas diarias). 758,03 cm 5 as 9 h. n. 

Minima » 743,67 » 23 » 9 b. m. 

Variarao maxima II, H 

IlumiJade. 

Maxima (das 4 cpochas diarias). . . 9!..'> cm 20 as 9 h. ii. 

Minima » 3i,2 » 11 « 9 h. m. 

V.iri.K'ao maxima 57,3 



DAS SCIENCLVS E LETTR.VS. 

TE D. LUIZ, NA ESGOLA POLYTECHNIC A. 



MENSAL. 



437 



PSVCHROME- 
TRO. 


UDllGRA- 
I'llO. 


anemograpiio. 


OZONOME- 

Tr.o. 


Si:Ri:>ir>,i)i. 
DO r.i:n. 


Graodchu- 

inidadedo 

ar. 

A 


Allura da 

agua i)lu- 

^ial. 


Riiraos. 
B 


Veloci- 
dadc. 

C 


Medias 
diur- 
nas. 


Sic li;is 
diurnas. 

A 


Por 100. 


Millime- 
tros. 


Prcdoini- 
nantes. 


Kilomo- 
Iros. 


Graos 
ni^dios. 


Graiis me- 
dios. 


55,27 
57,30 
71,70 


TOTAL. 

0,0 

0,0 

33,1 


N.N.O. 
N.N.O. 
q.S.O. 


25,55 

2i,34 

9,19 


4.0 
5.1 
6,7 


8,0 

8,1 
6,0 


62,11 


33,1 


N.N.O. 


19,35 


5,3 


7.3 



2 . / Temperaturas maximas e minhnas ahsolutas. 

|||Asomljra 31,4 em 3 Ao sol 39,1 em 

■5 o i » li,6 » 17 Na relva ll.i » 

W^(Var. max 16,8 Var. max 27,7 



Irradiarao nocturnn. Differcni^a media mensal do thei momctro de minimo 

habitual ao da relva 4,52. 
Diasmaisoumenos venlosos: 1,2,4,5,6,7,8,9,11, 12, 13, 14, 15, 16,17. 
Dias de chuva ou chuvisco: 22, 23, 28, 29. 
Diasmaisoumenos ennevoados: 10, 18, 21, 22, 25, 31. 
Nevociros em : 19, c 20. 
Cacimba cm : 20. 
Trovoes em : 23. 
Relampagos em : 20, 28. 

A. Dcduzida das medias das 4 obscrvacoes diarias. — B. Predonii- 
nantcs dos rumos regislados de duas em duas boras. — C. Sao os nume- 
ros medios dos kilomclros percorridos pelo venlo cm cada bora. 

DIRECTOR — GUILHERMEJ. A. D. PEGADO. 



i38 AXNAES 



VARIEDADES. 



A. glucosa ou assucar de uva 6 uma subslancia que se cnconlra em 
niuitos fruclos , que d'ellcs se pode extrahir por \arios processos , 
e que lambera se produz arlilicialmenle. mcl das abelhas conlem 
uma porcao notavel d'este assucar, e o sr. Scigle ensiuou um pro- 
cesso exlremamentc simples para o separar d'aquelle producto. Es- 
lende-se o mel sobre tijolos de barro poroso, e, passados poucos dias, 
apparece a glucosa crystallisada c separada do assucar incrystaliisa- 
vel , qual e absorvido pelo corpo poroso. Dissolvem-se entao os 
crystaes, a banho maria, em oito vezes o seu volume de alcool. Se 
a dissolucao for corada, descora-se com o carvao vegetal e filtra-se 
ainda quente. Pelo resfriamento depositam-se novamentc os crystaes 
da glucosa, com o aspecto da couve-llor ; seccam-se sobre o acido 
sulfurico, debaixo de uma campanula. mel ordinario da \ do seu 
peso de crystaes de glucosa, incolorcs, inodoros e faccis de pulve- 
risar. 

(Do Cosmos.) 

No collcgio Stanislas, em Paris, durante um sarao litterario que 
ultimamente leve logar, iiluminou-se um grande pateo, em que es- 
tivcram perto de mil pessoas, por meio da luz electrica e pelo proces- 
so do sr. Dubosq. illustre redactor do Cosmos, dando conta d'es- 
le facto, diz que o farol electrico, collocado 3 metros acima do solo, 
projectara durante tres boras successivas, sem interrupcao sensivel, 
uma luz brilhante e suave, com o auxilio da qual se podia ler a 30 
metros de distancia , e, como estivesse collocada por dctraz da as- 
semblca , nenhum dos cspectadorcs era incommodado com o fulgor 
da luz. 



'""^y^- 



-— <^D^" 



mm D4S SC1EM\S 



LETTRAS. 



i; CLASSE. 



i 




•—0(2^ 




ANNAES 



DAS 




SCIEIIAS E lETTRAS, 



PUBLICADOS DEBAIXO DOS AUSPICIOS 



ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS. 



SCIENCIAS MATHEMATICAL, PHYSICAS, HISTORICO-NATIRAES, E MEDICAS. 








TOMO I. 




PRIMEIRO ANNO. 




OUTUBRO DE 1857. 




LISBOA 




N\ TYPOGRAPHLV D\ MKSMA ACADEMIA 


i 


1858 






-^•(^D 





INDICE 



DOS ARTIGOS CONTIDOS N ESTE NUMERO. 



»9m 



TRABALHOS APRESENTADOS A' ACADEMIA. 

PAG. 

RECONHECiMENTO geologico G hydrologico dos terrenos 
das visinhancas de Lisboa com relacao ao abasteci- 
mento das aguas d'esta cidade, pelo sr. Carlos Ri- 
beiro 439 

HTGiEiNE publica 4Si 

REvisTA dos trabalhos chimicos 469 

REvisTA eslrangeira. — Junho, julho e agosto .... 480 

OBSERVATORio metcorologico do Infante D. Luiz, na Es- 
cola Polytechnica 500 

VARIEDADES 502 



DAS SCIENC1\S E LETTRAS. 439 

)CO500C0C<X)0(mX)00C<>()00CO^^ 



TRABALHOS APRESENTADOS A ACADEMIA. 



RECONHECIMENTO GEOLOGICO E HYDROLOGIGO DOS TERRENOS DAS 

VISINHANC.AS DE LISBOA COM RELACAO AO ABASTECIMENTO DAS 

AGUAS d'eSTA CIDADE, PELO SENHOR CARLOS RIBEIRO. 



SE(ll.\DA PARTE. 

(CONTINUACAO.) 
6.' SECCAO. 

CONSIDERACOES HYDIIOLOGICAS SOBRE AS ACUAS DO 
MASSICO OCCIDENTAL. 



Aguas aproveilavcis para o abaslecimeiito da cidade. — 
De todas as aguas aprovcitaveis nos suburbios de Lisbon pa- 
ra abaslecimento d'esta cidade, as que reunem maior som- 
ma de condicoes favoraveis sao as da pequena bacia hydro- 
graphica das ribeiras de Queluz e de Laveiras, situadas 1,0 
massico Occidental. Todas asoutras ribeiras ao Poenle d'es- 
tas, como a de Rio de Mouro e de Oeiras, sao menos abiin- 
danles , nao conteem melhor qualidade de agua potavel , e 
acham-se muito mais affasladas de Lisboa, c com mas con- 
dicoes para sc fazer a dcrivacao das suas aguas. 

ToMO I.-OiTiBiio DE 18S7.-1.' Classe. 29 



410 ANXAF.S 

Inconiieniencia dc derivar as aguas da scrra de C intra. 
— A scrra dc Cinlra , pcia cxtensao da supcrficie dc apa- 
nhamcnlo na coroa das suas monlanhas ; pcla inmicnsa vc- 
gelacao que a cobrc, c continuados ncvoeiros que sobre cl- 
las dcmoram ; pcla sua constiluicao physica c nalurcza das 
massas que a compoem, esla como salurada dc aguas, cir- 
cuiando no infinito numero dc fendas, que formam uma cs- 
pccic dc rcdcnho no scu granilo. E a cslas vantajosas cou- 
dicoes hydrologicas que Cintra dcvc a abundancia das suas 
aguas c ferlilidadc do scu solo, que lao amcna e aprasivel 
tornam aquclla localidadc. 

Nao obstante a abundancia dc aguas, com que se podc- 
ria contar n'esta scrra para o abastccimento da capital , a 
sua acquisicao e conduccao exigiriam grandes sacrificios ; ja 
porque as expropriacoes scriam cuslosissimas , pelo grande 
valor que ali teem as propricdadcs, e pclas contcslacoes sem 
numero , que se offereceriam por parte de individuos pode- 
rosos , a quem nao fallariam argumentos e induencia para 
obstar a derivacao das aguas ; ja porque tcndo a conduccao 
de ser feita em uma extensao de perto de li kilometros, 
que tanto dista S. Pedro do Alto da Porcalhota, e a traves 
de terrenes mui accidentados, e de rochas dc difiicil desmon- 
le ; as despezas da conslruccao imporlariam em uma somma 
fora de proporcao com o resultado que se poderia obter , 
somma que se lornaria enorme com a multiplicidadc de obras 
necessarias para a reuniao das aguas das diversas partes da 
serra em um so logar. 

Bacia hydrographica das ribeiras de Valle de Lobos e 
dc Queluz. — As ribeiras de Queluz e de Valle de Lobos ou 
de Laveiras, teem sido semprc lembradas, desdc Filippe III, 
como as raais vantajosas, dcbaixo de todos os pontes de vis- 
la, para a solucao do problcma em questao, c ja em paries 
aproveitadas desde o comeco do scculo passado, para o que 
se construiu o nosso monumental aqueduclo das aguas li- 



DAS Sr.IENClAS E LETTRAS. 441 

vres, c sao nquellas que o csUido aponta como mais vanta- 
josas , lanlo pola abundancia, qualidadc e alliludc das suas 
aguas, como pcla sua niaior proximidade de Lisboa, e visi- 
nhanca do aqueduclo gcral : por csle molivo enlrarei n'uina 
dcscripcao mais detalhada, e ponderarei lodos os factos e con- 
sideracoes que se devem tcr cm conia para o seu mais van- 
joso aprovcitamcnlo. 

A bacia hydrographica das ribciras dc Qucluz e dc La- 
veiras comeca no Tcjo, cnlrc Paco de Arcos e Ociras, diri- 
ge-se para NNO passando pelos altos de Talaide c Cacem , 
c vai ao Alto da Feira das Merccs, cntre Mclecas e Rinchoa ; 
d'csle ponlo loma para NO al6 ao Algueirao, ahi muda ra- 
pidamente de direccao para NE indo ganhar o Alto da Pic- 
dade, e confunde-se d'este ponlo em dianle para o Nasccnfe 
com a grande linha divisoria d'aguas, descripta no principio 
d'esla Memoria. 

Esla bacia abrange maior cxiensao de lerreno ao N do 
parallelo dc Cinlra do que as de Rio dc Monro , Oeiras e 
Manique, e eleva-se na sua parte septentrional a muito maior 
allura do que lodo o resto do massico com excepcao da ser- 
ra de Cintra ; d'onde resulta para as ribeiras dc Queluz e 
de Laveiras um avanco de 2 a 3 kilometros a N sobro as 
outras, podendo, por consequencia, as suas aguas scr apro- 
veitadas em altitudes de 200"' e mais , como actualmenle 
aconlece no silio dc Aguas-Livrcs, Pontes-Grandcs, c visi- 
nhancas de Cancfas. 

A ribcira de Laveiras corre , desde a sua origcni , cm 
um valle, abcrto provavelmenle na cpocha em que se cleva- 
ram as camadas que elle atravessa, modificado pelos mo\i- 
mentos posteriorcs, e pela accao inccssanle dos agentes ex- 
ternos. Tem a sua principal origcm junto ao logar da Tapa- 
da c dos Almornos, sobre a parte alta do flanco meridional 
da montanha do Almargem do Rispo na altitude de 300 c 
tantos metres, e proximo a junccao do andar de Bellas com 

29* 



4 42 AXN\ES 

05 basallos ; c rccebc tambcni aguas do silio dos Gafanho- 
los, na plaga ' que csla acima da quinta dc D. Maria Liiiza 
Caldas. 

Eslas aguas , que, depois de rcunidas , loniam o noma 
de ribcira dc Valle dc Lobos, dcsccni por uni apertado vallc 
de niargcns corladas a prumo ou em ladciras ingrcmes, sen- 
si vclmenlc parailelo a parte Occidental da linha divisoria e 
niui pouco dislanle d'ella , passando pelos povos da Malta , 
Mclecas c Agualva, atravessando as camadas calcareas e are- 
Dosas do andar de Bellas. Na Agualva forma o valle uma 
eslreita garganta, pela qual a ribeira passa para a regiao dos 
basaltos , e scguindo com margens alias mas menos ingrc- 
mes e mais atTasladas, eslreita novamcnte cm Barcarena, on- 
de alravessa os calcareos de caprinulas, indo at6 ao Tejo em 
que entra junto a Caxias, tendo percorrido uma cxlcnsao de 
18 kilometros. 

Esla ribeira nao tern urn so aiiluente de notavel exlen- 
sao, apenas recebe aguas dos ribeiros de Molhapao, Baralam 
e Grajal , os quaes teem os seus nascimentos mui perlo do 
valle ; mas , em compensacao , (^ alimenlada por copiosas 
nascentfis que brotam dos seus flancos. Alguns barrancos 
desembocam no valle d'csta ribeira , e a ella conduzem as 
aguas pluviacs , mas passadas as chuvas cessa esla alimen- 
lacao , reduzindo-se, era geral, aos recursos que Ihes pres- 
lam as indicadas nascentes. 

A ribeira de Queluz e formada pelas ijbeiras do Jardim 
e do Castanheiro , que se reu,nem em Bellas na quinta do 
conde do Redondo, e pela ribeira de Garenque, que se junta 
com as precedcntes ao p6 da ponle de Queluz de Baixo, 

' Sirvo-me da palavra plar/a para designar o espaco aberto que 
tormina a parte superior de um valle de niaior ou menor extensao, 
as vezes coberto de um pantano, mas onde teem semprc logar as pri- 
meiras origens de um regato ou ribeira. 



n\s sciEAcivs E li;tth\s. 443 

As origcns das ribciras do Caslanheiro e de Carenquc 
sfio na vcrlenle meridional das collinas que correm pelo N 
de Canccas e Logares de D. Maria ale ao silio dos Gafanho- 
los, e na allitude de 200"" ; em quanlo que as do ribeiro do 
Jardim nao passam do Casal da Carregueira um pouco ao N 
de Bellas , cmbora o valle receba aguas pluviaes de pontes 
mais afHistados. Eslas ribeiras lancam-se cada uma em sua 
prcga baslante fundas e dirigidas de N a S. As margens sao 
aperladas, quasi a prumo em partes, ale chegarem a regiao 
dos basallos , nos sitios do Pendao e Ponte Pedrinha ; d'es- 
te ponto em dianle as margens alargam e tornam-se menos 
asperas. De Queluz descem estas aguas para o S , por um 
so valle, cujas margens lornam a aperlar, e vao entrar no 
Tejo no sitio da Cruz Quebrada, lendo fcito um trajecto de 
13 a 14 kilometros. 

A quantidade de nascentes c fontes que vertem para a 
ribeira de Queluz no valle de cada um dos seus alHuenles, 
e, na verdade, grande ; nao obstante o volume de aguas 
d'esla ribeira e proporcionalmenle menor do que o da ribei- 
ra de Valle de Lobos cuja bacia de apanhamenlo e mais cir- 
cumscripta ; todavia se se advertir que os pocos praticados 
nos leitos dos ribeiros do Castanheiro e do Jardim conser- 
vam as suas aguas na maior estiagem, nao podera allribuir- 
se aquella differenca senao a forma, estruclura e divisao das 
massas que separam aquelles valles, e menor quantidade de 
rochas arenosas e argilosas que proporcionalmenle encerram 
estas mesmas massas comparadas com aqucllas das margens 
da ribeira de Valle de Lobos : resullando d'esla differenca 
de condicoes que as nascentes e fontes estabelecidas nos (lan- 
cos d'aquelles valles, umas seccam, oulras diminuem muito 
de volume na passagcm do verao para o outono, sem que, 
todavia, os sub-leitos das ribeiras de Carenque , do Casta- 
nheiro e do Jardim, deixem decslar salurados d'aguas n'es- 
ta epocha. 



444 ANISAKS 

Qual seja o volume das niaximas , niiniinas , e inedias 
aguas de cada unia d'eslas libciras , coin rclacao as aguas 
pluviacs cahidas na respecliva bacia de apanlmmcnlo, e o 
que so ignora , porquc similhanlcs trabalhos hydrologicos 
ainda nao coinecaram cntrc nos. que se sabc pclo lesli- 
inunho de toda a genie, e pela observaciio de muitos faclos 
que corroboram, e que na bacia hydrographica d'eslas ri- 
beiras se conservam a maior parte das nascenles todo o ve- 
lao e oulono, niais ou menos diminuidas, segundo a exten- 
suo da s^cca ou a duracao do inverno que precede um dado 
cslio , e com o produclo d'eslas nascenles se alimenlam as 
povoacoes- eslabelecidas denlro da niesma bacia, se coslea a 
irrigacao de um grande numero de propriedades , e se da 
emprego a grande numero de lavadeiras. 

Exame do solo ao N do parallelo de Agualva , d'ondc 
tern de se derivar as aguas. — A falta de calhaos volumo- 
sos nos depositos alluviaes exislenles nos leilos aperlados de 
todas estas ribeiras, prova que as aguas que n'ellas correm 
sao animadas de fraca velocidade, e, porlanlo, pouco \olu- 
mosas , d'onde se pode inferir que uma grande parte das 
aguas plu\iaes e absorvida pelo solo, c d'ahi resulla a per- 
manencia das fonles e nascenles que alimenlam no \erao es- 
las ribeiras. Mais larde veremos que esle faclo esla em rela- 
cao com a nalureza e eslruclura do lerrcno e com a forma 
d'esla bacia. 

Examinemos , pois , a nalureza do solo de toda a parte 
d'esla bacia ao N do parallelo de Agualva, sua eslruclura , 
e bem assim as nascenles n'clla conhecidas. 

Hochas basallicas, metainorphicas, tufaceas c gresifor- 
mes. — grupo de rochas, em que entram osbasaltos, que 
se eslende desde a Porcalhota, por IJcUas, ale ao Papel , 
comprchcnde : 1.** uma rocha compacia fendida, com os ca- 
racleres do verdadeiro basalto passando a outro bollioso si- 
milhantc ao Avake ; 2." as rochas seguintes : 



DAS scir.Nc.iAs li li:ttr\s. 445 

Calcarco branco nietamorphico do calcareo de caprinulas? 
Conglonierado ferriiginoso similhanle a brecha de um jazigo 

de conlacto, com abuudanlc ferro hydralado. 
Basallo em manlos de cslructura compacta. 
Rocha metamorphica eslraliticada infillrada de basallo o com 

cavidades rcvestidas de spalho calcarco. 
Camadas de uma rocha homogcnca \erdoenga , similhanle 

aos niarnes finos cndurecidos. 
Camadas de grcs tufaceos e argilas avermelhadas, cm paries 

formadas de delriclos basallicos. 

Por emquanlo eslou convencido que quasi todas eslas 
rochas, mesmo as compaclas, como os basallos, sao de ori- 
gem sedimentar, perlencendo lalvez, em grande parle, a for- 
macao do calcareo de caprinulas , profundamcnte modifica- 
do, como ja ponderei. 

Como quer que seja, o que se observa e que esles stra- 
tros , uns bem, outros mal definidos, nao teem conlinuida- 
de ; porque parle d'elles ou se converlem na rocha basallica 
propriamenle dila, ou sao inlerrompidos pelas massas de ba- 
sallo amygdaloide, como se ve no caminho da Amadora pa- 
ro Pendao, e nas encoslas do Monle do Abrahao por de- 
Iraz de Uellas. 

Observando porera a posicao das diversas nascentes quo 
exislem na zona mais septentrional dos basallos , desde a 
Porcalhola ale ao Papel , ve-se que cstao, ale certo ponlo, 
subordinadas as camadas que acabei de mencionar. Com cf- 
feilo, grande numero de pocos aberlos desde a Amadora ate 
a Porcalhola teem as suas nascentes sobre esles slralos , 
scndo OS Icitos de argila verniolha os que mais contribucm 
para a conservacao d'estas nascentes , evitando o derrama- 
mcnlo da agua pelas fendas das rochas conliguas ou subja- 
cenlos. 



446 kysKEi 

As nascenles da Falagueira, as aguas da Rascoeira, as 
nascenles do Almarjao, e as que perlenccni ao duque de Pal- 
mella, ao conde de Porto Covo, e ao consclheiro Felix Pc- 
reira Magalhaes, todas siluadas ao N da eslrada real, eiilre 
a Porcaihola e a Ponte de Carenque , os qualro pocos das 
\isiiihancas da Garganlada , a fonte que se v6 n'este mesrao 
local , as nascenles do valle de Ponte Pedrinha , e da en- 
cosla do Monle de Abrah3o e parte das quaes dao agua pa- 
ra palacio de Queluz , as nascenles de Massania e as quo 
eslao abaixo do Casal do Papel , formam um systema cujas 
aguas sao siluadas em uma eslreita zona quasi parallela a 
linha EO, brolando parte d'ellas d'enlre as noencionadas ro- 
chas. 

Nao pretendo comtudo indicar , que as reservas d'estas 
nascenles estejam exactamenle nas mesmas condicoes das das 
aguas que brolam dos lerrenos slralificados nao mefamorphi- 
cos ; mas e cerlo que algumas parlicipam do seu regimen , 
em ludo o que diz respeilo as aguas que desccm dos man- 
tos basallicos ou das camadas permeaveis siluadas a maiores 
alluras, e que descancam com os relalhos dos gr^s, mais ou 
menos alterados, sobre os leilos de argila vermelha , como 
succede as que ficam enlre a ribeira de Carenque e a Por- 
caihola. Em todo caso , se esla eslruclura influe na posi- 
cao de parte das nascenles das localidades indicadas , nao 
aconlece outro lanto relativamenle a abundancia das suas 
aguas ; porque a estreiteza da zona siluada ao N da eslrada 
da Porcaihola ao Cacem accresce ser ella em forma de ex- 
planada , interrompida apenas pelos valles das ribeiras do 
Carenque e de Valle de Lobos , e o seu solo de eslruclura 
variada, em parte compacla e em oulras fendida. Nao de- 
vem, porlanlo, fundar-se esperancas de acquisicao de gran- 
de volume de aguas n'esla zona , quaesquer que sejam os 
Irabalhos de exploracao que se lenlem , apesar da frequcn- 
cia de nascenles, que apparcccm n'estas rochas, porque alem 



DAS SCIENCIAS K LKTTRAS. 447 

do seu pequeno producto, niuilas d'ellas sofTrcni grande di- 
niinuicao no cslio, ou scccam inleiramenle. Podem, por6m, 
aproveilar-se nascenles j;i conhecidas, ou serem pesquisadas, 
proximo ao aqueducto a coiislruir, se elle houvcr de passar 
por esta zona , com especialidade no corrego da ribeira de 
Carenque , onde as nascentes que brolam da formacao ba- 
saltica, sao mais permanentes o copiosas, porque, n'csle ca- 
so, as despezas da acquisicao devem, relativamenle, ser pe- 
quenas. 

Desde o Alio da Falagueira, ao N da Porcalhola, ale ao 
silio do Papel , as hem definidas camadas de calcareo, nao 
apresenlam a mais pequena pcrlurbacao no seu conlacto com 
a formacao basallica ; ao conlrario , esla formacao descan- 
ca, como se fora um grande slrato, sobre o primeiro grupo 
de calcareos do andar de Bellas, e so no piano de conlaclo 
e que se observa uma camada de conglomerado calcareo fer- 
ruginoso, passando a calcareo cscoriaceo e metamorphico, e 
encerrando afiloramenlos de ferro oxihydralado, lambem cs- 
coriaceo e geodico , com o aspecto d'um vcrdadeiro jazigo 
de conlaclo, como se ve na planura de Villa Cha em Alfa- 
mil, em lodos os mais ponlos da zona, e beni assim no Pe- 
iiedo do Galo , e Covas de Ferro no massico ao N da zona 
basallica de Loures. Da natureza d'estas rochas do conlaclo 
seconclue, que, alem do metamorphismo, exercido pela lem- 
peralura do basallo derramado sobre as camadas preexislen- 
les do primeiro grupo do andar de Bellas, houve, effccliva- 
menle, uma linha de ruplura, ou grande fenda parallela a 
esta zona, por onde sairam as subslancias que conslilueni os 
jazigos de conlaclo, sem fazer desarranjo, a superficie do so- 
lo , no senlido da inclinacao dos stratos da formacao sedi- 
menlar. 

E d'esla zona de conlaclo que brolam as aguas, no valle 
de Carenque, junlo a Gargantada ; as que ficam ao S da 
quinla do marqucz de Bellas ale Ponle Pedrinha ; e as do 



4i8 ANNAKS 

Hefcrvcdouro c Rocanas na rihoira do Vallc de Lobos, junio 
ao Papol ; lodas pcrlcnceiites a uina lamina aquosa , rclida 
pela supcrficie dos slratos superiores do 1," grupo do andar 
de Bellas. 

1 ." grupo de calcareo do andar de Bellas. — prinici- 
ro grupo de Bellas conipoe-se de uma possante assenlada de 
camadas de calcarcos argilosos, cm geral duros, allernando 
com marncs mais ou menos amarellados, cm parte ocraceos, 
e algumas formadas, quasi exclusivamentc, de fragmenlos de 
ostras. Encontram-se em toda a allura d'esle grupo abun- 
danles moldes de turrilelas, tyloslomas, nerineas, corbulas, 
areas, oslras, echinos, e oulros fosseis. ' Na parte inferior 
do grupo, onde as camadas nao teem sido alteradas pelos 
agenles externos, os marnes sao cinzentos pouco schisloidcs, 
altcrnando com delgados leitos de argila , lambem cinzenla 
cscura, e com um aspecto muilo differente do que teem a 
superficie. limile d'esle grupo comeca ao Nascenle dos 
campos de Villa €ha, dirige-se para 0, passa proximo e ao 
N do Casal do Ribeiro de Sapos, e ao S da Venda Secca , 
ao i\ de Agualva, atravessa a estrada de Cinlra a meia dis- 
lancia cntre o Caccm e Rio de Mouro, c d'ahi segue para 
SO passando proximo a Vaz Marlins c Alfamil. Desde o 
cxtrcmo Oriental d'este grupo onde se acha a linha diviso- 
ria de aguas ate ao outro exlremo Occidental no allo'do Ca- 
cem e que rcparte as aguas para as ribeiras de Valle de Lo- 
bos e Rio de Mouro, ha uma distancia de 7 kilometres, na 
qua! a largura media occupada pelas camadas d'esle grupo 
ode \,li kilomelro ; d'onde rcsulla para a parte da bacia de 
apanhamcnlo das duas ribeiras de Vallc de Lobos e de Quc- 
luz occupada por estas mesmas camadas, uma supcrficie dc 

' Pcla posirao superior que occupam as camadas da jjraia das 
Macas solire as dc Villa Verde e Terruiie , crcio (|uc pcrlcncem ao 
1." grupo do andar de Bellas. 



DAS SCIENCIAS K LETTRAS. -i ^1 1) 

10,5 kiloniclros quadrados. E sc, por oulro lado, nolarmos 
que a incliiiacao mais coimiium d'csles stratos 6 de 5 a 10" 
para o S, concluircmos tambcm que a possanca do 1." gru- 
po do andar de Bellas excede a 100'". 

Diversos afiloramenlos de dioriles alravessam as cama- 
das da parte media e inferiores d'este grupo ; um no sitio 
das Aguas-Livres , na niargem esquerda da ribeira de Ca- 
renque ; oulro entrc o Casal de Rio de Sapos, e a ribeira 
do Caslanheiro ; oulro ao S d'csle ponlo ; outro junto a co- 
piosa nascenle de Bellas, na lomba que vai para os moinhos 
do Jardim ; e oulro enlre a Jarda e Agualva. Todos esles 
affloramentos sao de curia exlensao superficial , mas ainda 
assim alleraram profundamenle as camadas de calcareo, in- 
filtrando-os da substancia volcanica, e tornando-os verdoen- 
gos e porphyroides, ou amarcllados e escoriaceos ; e produ- 
ziram algumas perturbacoes locaes nas camadas d'este gru- 
po, e das do grupo immediate. Alem d'esles desarranjos ou- 
tros ha de maior importancia, que sao as falhas, inlcrrom- 
pendo a conlinuidade das camadas d'este grupo. 

As ribeiras do Jardim e Caslanheiro correm cada uma 
por sua falha que vao juntar-se em Bellas na zona do 1." 
grupo , correspondendo essa junccao ao abatimenlo do solo 
intermedio aos valles em que ellas correm ; conliniia com 
nome de ribeira do Caslanheiro nos calcareos superiores 
do grupo , ate entrar na formacao basallica junto ao Pen- 
dao ; e, abaixo d'este ponlo, reune-se com a corresponden- 
le a da ribeira de Carenque que serve de leilo a ribeira de 
Queluz. 

A ribeira de Valle de Lobos segue uma outra linha de 
falha, onde alguns calcareos do 1." grupo e parte dos gres 
do 2.** selevantam para formar a margem direita da mcsma 
ribeira desde a Ponle de Agualva ate a Jarda. 

A solucao de conlinuidade das camadas aquiferas, resul- 
lanle d'cslas falhas, imprime no regimen das aguas subler- 



J oO AN'NAES 

raneas d'csle grupo um caraclcr particular , cujas circiim- 
stancias iiiais imporlantcs, para a queslao que nos occupa , 
sao as scguintes : 

Em geral o grande accrescimo dc supcrficic de vasiio das 
camadas , occasionado pelas falhas, produz grande numcro 
de nasccnles sobre as ribeiras ; por oulro lado, os pianos das 
mcsmas falhas eui conlaclo com as aguas correnlcs das ri- 
beiras absorvem e diffundem grande quanlidade d'ellas. Em 
particular, a fluxao para a ribeira do Castanheiro dc uma 
porcao de aguas consideravel 6 delerminada pela disposicao 
das camadas , que topam na parede da fenda : estas cama- 
das descaem para os pianos das duas falhas, dc modo que as 
aguas, que chegam as porcoes da sua superficie em que es- 
la circumslancia se da, descarregam-se, seguindo as linhas 
de maior declive pelo gjano de falha para a ribeira. Pelo 
contrario, na parte da segunda falha correspcndenle ao Ca- 
cem, como as camadas n'este ponlo inclinam para SO, por 
causa de um dike trappico ahi exislente com a direccao pro- 
\imamenle NO, deve, naluralmente, uma parte das aguas da 
ribeira correspondente de Yalle de Lobos sumir-se pelos to- 
pes da margem elevada para ir apparecer em ponlos mais 
baixos na ribeira de Rio de Mouro ; por oulro lado, como 
as camadas, que formam a margem fronteira, enlre a Jarda 
e Agualva, teem, proximo da parede que a limita, uma in- 
clinacao mui pequena, as aguas que enlre ellas se insinuam 
devem ahi ser demoradas, e esta circumslancia faz crer que 
a cxploracao d'esta margem dara nascentes de maior ou nie- 
nor importancia. 

Ao que fica exposto deve accrescenlar-se que os calca- 
reos d'este grupo, na sua parte superior, eslao cortados por 
juntas nortnaes aos pianos dc slralificacao, como se observa 
cm muitos pontos enlre Bellas c Agualva, mormcnte na parte 
corlada pela ribeira dc Yalle de Lobos, c que na sua parte 
media, posto que offerccam mcnos, nao deixam comludo de 



D\S Sr.IENCIAS E LETTUAS. 4*>1 

ler ainda frcquenles solucoes de continuidade : esla eslru- 
clura por juntas produz tambem uma notavel diffiisao das 
agiias pluviacs, e das ribeiras, logo que chegam a estes stra- 
los, sumindo-se e descendo por todas as fendas ate encontra- 
rem cis camadas impcrmeaveis sobre que elles assentam. 

Sobem ao numero de quarenta todos os pocos, niinas e 
fontes naturaes de que tivemos noticia e podemos reconhe- 
cer na parte d'esle grupo comprehendida entre as ribeiras 
de Carenque o Yalle de Lobes. A determinacao da possanca 
de cada urn nas differentes estacoes, a sua posicao topogra- 
phica e altitude , circumstancias necessarias para se definir 
a sua situacao geologica, e trabalho que ainda nao esta feito 
nem pode ser obra de urn so anno : todavia o simples reco- 
nheciniento d'estas origens mostrou a existencia de differen- 
tes zonas d'agua, que passarei a raencionar. 

Ja acima indiquei que no contacto da forraacao basaltica 
com a parte superior d'este grupo havia uma zona d'aguas 
a qual pertencem as nascentes da Gargantada, as de Roca- 
nas e Refervedouro nas ribeiras de Carenque e de VaUe de 
Lobos. Estas aguas, por terem a sua sede principal nos stra- 
tos mais superiores do 1° grupo, nao podem deixar de 
considerar-se como pertencentes a elle, embora mostrem al- 
guns aftluxos por entre as rochas basallicas que Ihes sao con- 
tiguas. Em consequencia da pouca largura que esta zona oc- 
cupa dentro da bacia, nao ha a esperar d'ella grandes ma- 
nanciaes ; podera, comtudo, explorar-se com alguma vanla- 
gem proximo aos leitos das ribeiras, onde neccssariamente 
as aguas devem affluir em maior copia. 

A outra zona, que segue para o N, e n-a ordem descen- 
dente, e aquella onde esliio situados : 1.° os pocos entre a 
Gargantada e o povo de Carenque, cujas aguas sao perma- 
nentes durante o estio ; o poco do pomar do Tencnte e da 
azinhaga, que vai para o Olival ; dois pocos junto ao mes- 
mo povo de Carenque, um poco nas terras do Luizinho, e o 



482 ANNAF.S 

que csla anlcs de chcgar a ponlc dc D. Faustina, lodos no 
\alle dc Carcnque ; 2." o poco na quinla do Padre JJroloro ; 
dois na quinta de Grcgorio Anluncs ; a nasccnlc do porliio 
dc fciro no \allc da ribcira do Casianhciro ao S da junccao 
com a ribcira do Jardim ; 3." a fontc dos Uurros ; a fonle 
da Idanha ; a fontc da fazenda do Barros, c o poco do Leal, 
ao S da Idanha, 20'" acima das nasccntes e pocos estabcle- 
cidos nos dois prcccdentes vallcs. 

A tcrceira zona passa acima da ponte e povoacao de Ca- 
renque, entre esta povoacao e a azcnha do Filippinho, vem 
aos povos de Bellas e Agualva : n'esia zona encontram-se : 
l." um poco junto k azenha do Filippinho, e dois outros 
mais a jusanle no valle da ribeira de Carenque; 2.** afonte 
da Panasca ; o poco do Pomar da Chave ; a nascenle da Ma- 
le ; poco do Silva ; a mina na quinla de Manuel Antonio ; 
poco na quinta de D. Joao de Ca&lello Branco ; a nascentc 
do Gasal do Miranda ; a copiosa nascente de Bellas , todas 
siluadas no valle do Casfanheiro, e as duas ultimas no val- 
le da ribeira do Jardim , sendo para nolar que a nascente 
de Bellas c a da quinta de Manuel Antonio , tambem co- 
piosa , brotam da zona de contacto com as diorites ; 3.** a 
fonte no sitio da Bica ; a das Eiras ; o poco da quinta da 
Nora ; e uraa nascente no leito da ribeira, todos proximos 
ao poco da Agualva e no valle da ribeira de Valle de Lo- 
bos 

Ha, alem d'cstas, uma quarla zona, na junccao com o 
2.** grupo, onde estSo os pocos do quintal do Prior, as nas- 
ccntes do Casal de Valle de Sapos, e as visinhas da quinta 
do Blester e do Casal do Pelao. 

Todas eslas aguas teem os seus niveis nos massicos d'este 
grupo que scparam as ribeiras de Carenque , Castanheiro e 
Valle de Lobos, d'onde descaem, pela accao de gravidade e 
posicao das camadas , para as scccoes de vasao pralicadas , 
natural ou arlificialmente , nos leitos d'aquellas ribeiias ou 



D\S SCIEXCI\S E LETTR\S. 4o3 

nos sopes das cncostas , onde cslao as nasccnles , fonles, c 
pocos cnumerados. 

D'estc grupo do andar dc Bellas so se aprovcila para o 
aqueduclo geral a agua quo vcm a linha de S. Braz ; c pelo 
Iracado do aqueducto da Malta licam ainda excluidas lodas 
as aguas que pode fornccer, em conscquencia dc ser a alti- 
tude em que brotam inferior a do referido tracado. 

(Conliniia.J 



Vii ANNAES 



HYGIENE PUBLICA. 

(CONTINUADO DA PAG. 417.) 



Nas grandes cidades as immundicies, que por diversos mo- 
des produzem insalubridade e incommodo, procedcm dc di- 
\ersas origens, diversamente se prestam u remocao e podeni 
ulilisar-se com differente prestimo. 

Sentenceadas como iiocivas no interior das grandes po- 
voacoes, o primeiro cuidado da policia urbana d fazel-as af- 
fastar para longe dos logares habitados, \isto que nao e pos- 
sivel deslruil-as : mas, se ellas sao de origem e natureza di- 
versa, claro esla que os meios empregados na remocao po- 
dera tambem ser diversos , e ainda com mais razao quando 
algumas d'ellas podem ter empr^go ulil. 

A industria moderna , tendo escutado os conselhos da 
sciencia, nao considera ja maleria alguma como inulil, e ten- 
de succcssivamenle a lornar produclivos todos os residuos 
que ate aqui se despresavam. E, na realidadc, quando se 
consideram com attencao todas as transforma^ues de que a 
materia e susceptivel, quando se observam os processes se- 
guidos pela natureza na formaciio e conservacao dos seres 
que povoam o nosso globo, chega a adquirir-se a profunda 
conviccao de que nao ha coisa alguma completamcnte des- 
tiluida dc prestimo. 



D.VS Sr.IF.NCIAS E LETTUVS 4o') 

Nao pensaram sempre assim os homcns, e por isso, no 
ponlo de que nos occupamos , assenlaram que para se li- 
vrarem das maferias que, alem dc inuteis, julgavam perni- 
ciosas , melhor arbitrio eslava cm as remover para longe 
de si. N'esle caso pouco importava a origem d'essas mafe- 
rias, lodas cllas cram senlenceadas a remociio, e o methodo 
empregado para esle fim podia ser o mesmo para todas. Foi 
este pensamenlo que prcsidiu a construccao dos grandes ca- 
nos de dcspejo da cidade de Roma e dc lodas as oulras que 
seguiram ate aos nossos dias o seu exemplo. 

Hoje sao outras as ideas : a questao ^ actualmenle niais 
complexa, porque, a par da reraocao, que e indispensavel, 
deve tambem ter-se em visla a utilisacao. 

Devemos, porlan!o, n'esie esludo considerar todas as coi- 
sas que nos podem conduzir a uma solucao raciona! do pro- 
blema, e uma d'ellas e seguramente a distinccao das diver- 
sas proveniencias das materias que geralmente se designam 
pelo nome de immundicios. 

Eslas podcm, nas cidades populosas, provir : 
1." das dejeccoes dos habitanles. 
"!.'' das dejeccoes dos animaes. 
3." dos usos domeslicos. 
4." dos residues das diversas induslriiis. 
As que mais avultam e embaracam sao as que provem 
das dejeccoes dos habilanles, N'uma cidade como Lisboa , 
cuja populacao admittiremos que seja de 2o0.000 habitan- 
les, OS escrementos humanos sobem diariamente a quantida- 
de ]a avultada de 433.500 kilogramas. Se ainda a esta mas- 
sa, ja por si bem consideravel, ajuntarmos as aguas de' la- 
vagens , os restos dos alimentos animaes e vegelaes , todas 
as materias que por inuteis se rejeitam no service domesti- 
00, e que constituem o que geralmente se chama o lixo das 
casas, teremos, sem exaggeracao, diariamente perto de urn 
milhao de kilogramas de substancias que, reunidas e intima- 

TOMO I.-OlTI HBO DE 1857.-1.' Cl.ASSK. oO 



450 AX?iAES 

nienle niisUiradas, suo suscepliveis de ciitrar rapidamenlo em 
putrefaccrio , produzindo cmanacocs pcslilentas de abomina- 
vel qualidadc. Era esla massa enornic que antigamenle sc 
alaslrava quolidianamente pelas estrcilas e mal venliladas 
ruas da capital , c ahi se accumulava por muitos dias suc- 
cessivos, ale que o tardio e mal organisado service da lim- 
peza a viesse remover, ou ale que as aguas da chuva a ar- 
raslasse para o Tejo. 

Na reconstruccao d'aquella parte da cidade, que desa- 
bou quasi completamcnle com o grande lerremolo de 17'>ij, 
a administracao emprendedora e intelligente do marquez 
de Pombal , como ja dissemos , abriu alguns canos de lar- 
gas dimensues e solida construccao. Taes sao os que na ci- 
dade baixa correm pelas ruas do Ouro, Augusta, da Prata, 
e Fanqueiros, e que lerminam na margcm do Tejo. Alguns 
d'estes canos scguera pela terra denlro ale grandes distan- 
cias, conservando as suas primilivas dimensoes, e sendo, por 
conseguinle, suscepliveis de conservacao em perfeito estado 
de limpeza. primeiro , subindo pela rua do Ouro, conti- 
niia pelo lado Occidental da praca de D. Pedro, inclina-se 
um pouco ao Nascente, e, depois de passar por debaixo do 
theatro de D. Maria II, volta novamenle a esquerda, e, en- 
trando no Passeio , conliniia parallelo a rua do meio e de- 
pois sobe por debaixo da calcada do Salitre ale perto do Ra- 
te. da rua Augusta chega so ao meio da face Oriental do 
Rocio ; da rua da Praia alravessa a praca da Figueira e 
vai recolher junto ao Soccorro os aflluentes que descem do 
matadouro, do hospital de S. Jos6 e da rua dos Anjos e suas 
cercanias. da rua dos Fanqueiros termina na rua da Bi- 
tesga. Sao estes canos cortados poroutros transversaes tam- 
bem de boas dimensues, um dos quaes corre parallelo ao rio 
pela rua do Arsenal, lalvez ale proximo de S. Paulo. As di- 
mensues de lodos estes canos sao, nasuaentrada, aproxima- 
damente de 2"", 50 de altura sobre 2*" de largura ; sao cons- 



DAS SCIENCIAS E LETTRAS. ki)i 

truidos dc cantaria em abobada, e o seu pavimenlo e de lagedo. 
Em tempos mais recentes, mas antes da restauracao, abriu- 
se urn oulro grande cano que e o que desce pelas ruas de S. 
Benlo, Flor da Murta, rua dos Mastros, e segue ate ao mar. 
A Camara Municipal nao possue a planta d'estes canos, 
nem tem curado nunca da sua limpeza : a nolicia que d'el- 
les dou foi-me communicada por um homem que ha muilos 
annos os explora para recolher alguns objeclos preciosos 
que , por descuido dos habilantes das casas mais proximas, 
ali vac cahir. Esle homem singular e dotado de incrivel atre- 
vimento para aquclla sorte de exploracoes, e por vezes tem 
cslado a ponlo de ser victima das suas audazes e sordidas 
pesquizas. Nao sendo a abertura dos canos accessivel du- 
rante preamar , tem-se elle visto muitas vezes bloqueado 
n'aquellas immundas parageas , vivendo ali noites e dias 
inteiros. Em rauilas das suas excursoes subterraneas tem-se 
visto repentinamente cercado de chammas ; estas sao produ- 
zidas pelo gaz dos pantanos, que se inflamma em presenca da 
luz artificial de que elle se serve para se allumiar. Conta elle 
que OS principaes canos, que sao perpcndiculares as margens 
do rio, estao geralmente limpos e desembaracados, porque 
por elles corre sempre , mais ou menos agua, cujo volume 
cresce consideravelmcnle na occasiao das chuvas , a ponto 
de formar torrentes tao poderosas que teem arrancado as la- 
ges do pavimento em grandes extensoes do seu caminho ; 
porem que os canos Iransversaes, na cidade baixa, se acham 
completamente atulhados e obstruidos a ponto de nao serem 
ja accessiveis desde a sua entrada, acontecendo, por conse- 
guinte, que os canos parciaes das casas, que para elles se di- 
rigem, nao podem de modo algum dar vasao as materias que 
constantemente recebem. Cita, enlre outros, um, junto a Pra- 
ca da Figueira, que se acha atulhado com as materias mais 
infectas que e possivel imaginar, e que elle attribue aos des- 
pejos dos logares onde n'aquella praca se vende o peixe e 

30 * 



438 ANNAES 

oulros alimentos. K esle cano aqiielle que Ihe causa inveii- 
civel horror, porque encerra, segundo a sua cxpressao, to- 
das as peslcs e epidemias . Nao lendo nem a intendencia da 
policia, nos tempos antigos, nem as Camaras Municipaes dos 
nossos dias cuidado em fazer a dovida limpeza d'esles ca- 
naes subterraneos, pode bem imaginar-se o que, no decurso 
de urn seculo, ali sc havera accuniulado. 

Em 1831, depois de abolida a Inlendcncia Geral da Po- 
licia , a cujo cargo eslava a limpeza da cidade , quando a 
Camara Municipal electiva lomou conta d'estcservico, todas 
as outras partes de Lisboa , alem d'aquelias onde exisliam 
OS canos construidos sob a adminislracao do marquez de 
Pombal, nao linhara canalisacao alguma. Foi enlao, e a par- 
lir d'esta epocha , que se encetou a nova canalisacao , e o 
pensamento da adminislracao municipal foi, desde o princi- 
pio , generalisar esle syslema de limpeza pela via subterra- 
nea. Se me nao engana a memoria, houve ainda, em 1837 
ou 1838, a idea de adoplar o syslema dos deposilos subter- 
raneos parciaes para recolher as dejeccoes, como se prali'ca 
em Pan's e em outras partes de Franca, com o nome de fos- 
ses (Taiscnce, porque me recordo de v(5r na rua Larga de S. 
Roque uma excavacao quadrada que se cobriu com uma abo- 
bada tao mal conslruida que dentro em pouco tempo aba- 
teu, resultando d'ahi abandonar-se aquelle projeclo. que 
e verdade c que lodas as Camaras sc empenharam em abrir 
novos canos de despejo, e todos os habifantes da cidade os 
pediam para as suas ruas e faziam donalivos consideraveis 
a adminislracao municipal para a auxiliar n'esla empreza. 
Os novos canos, que nos seus ramos principaes foram pom- ; 
posa e ridiculamenle chamados reacs, conslruiam-se, conic 
ainda actualraenle se eslao conslruindo , com as dimensoes' 
mesquinhas de 0™,60 de lado ou de 0'",60 sobre 0'",70. 
Os moradores foram obrigados, em virtude das posturas da 
Camara Municipal, a fazer de suas casas canos parciaes para 



DAS S'JIEMCIAS E LETTRAS. 4o9 

OS canos geraes. Nao so prestando a maior parte dos predios 
de Lisboa a iima facil c convenicnte disposicao dos canos par- 
ciaes , collocaram as aberturas d'estes na parte inferior de 
pias no interior das cozinhas, em corredores e ale nas escadas. 

Om principal da adminislracao era evitar o deposito 
das imniundicies nas riias e a sua projeccao escandalosa das 
janellas. N'alguns prodios, por^m, havia ja canos inleriores 
que se abriani ao rez das ruas, e pelos quaes atoda e qual- 
quer hora do dia se podia ver sair uma torrente de ludo 
quanto ha mais immundo, sem a previa advertencia do agua 
vai : ainda n'algumas paries da cidade se pode hoje obser- 
var este repugnanle servico. 

Era lal o desleixo e a falla de pudor n'este ponto que 
ainda em 18j2 o cano de despejo do hospital dos alienados 
inundava a rua da Carreira dos Gavallos , transformando-a 
em cloaca immunda, sem respeito para com a decencia pu- 
blica e com alroz crueldade para com os pobres habilantes 
d'aquella rua. 

Hoje, que na maior parte das ruas a canalisacao se acha 
terminada, podemos fazer uma idea clara do modo por que 
este systema funcciona, e nem era necessario observal-o em 
pralica para o sentencearmos. 

Uma grande rede de canos geraes de forma parallelopi- 
peda e de acanhadas dimensoes se estende por debaixo das 
ruas da cidade e a pequena profundidade , cruzando-se os 
seus ramos em todas as direccoes, seguindo iuclinacoes di- 
versas e irregulares e recebendo as imraundicies de todas as 
casas pelos canos parciaes. 

solo dos canos geraes e parciaes c piano, como o seu 
tccto e paredes , e sao elles construidos por cascoes delga- 
dos de canlaria , pela maior parte lao estreitos que as suas 
paredes lateraes sao formadas de dois cascoes sobrepostos a 
culelo, resullando d'esla disposicao nao so pouca solidez da 
obra, mas tambem uma grande porcao dcjunccoes, a traves 



400 A^^A!■s 

(las quaes facilmenle se infillram os liquidos para o lerreno 
que OS cerca. De distancia em dislancia communicani os ca- 
uos com ar livre das ruas por meio das sargetas desli- 
nadas a receber as aguas das enchurradas. Assira esla im- 
mensa rede de canos csta em communicacao com as ruas e 
com interior das habilacoes. As immundicies, que conli- 
nuamcnle se despejam das casas, descem perpendicuiarmenlc 
pelos canos particulares e entram nos geraes : ali as mato- 
rias solidas correm difficilmenle, porque a pouca agua que 
as acompanha as naio dilue suificientemenle, e, ao menor 
obstaculo que encontram, suspendem o seu curso e formam 
urn nucleo de obstruccao ; assim, frequenlemente, os canos 
se engrolara e enlupem, e os liquidos, demorados por esles 
obslaculos, accumulando-se, adquirem bastante p6so para se 
infillrarem a Iraves das juntas da cantaria, e penetrando pela 
terra levam comsigo a materia organica em putrefaccao, que 
nao so torna o solo infecto , mas que lambem pode hir em 
dissolucao, nas aguas que o atravessam, corromper as que 
alimcntam os pocos. 

Observando as aberluras dos canos junto ao rio , ale 
mesmo as dos anligos que teem largas dimensoes e que re- 
cebem o tributo de muitos dos oulros, ve-se, a maior parte 
das vezes, que por elles so corre uma agua turva mas pou- 
00 grossa, o que denota que as materias solidas ficaram de- 
moradas e presas no seu transito a traves dos canos de me- 
nores dimensoes. 

Estas materias, represadas d'csle modo, em presenca de 
uma temperatura quasi constanle, e de uma quantidade li- 
luilada de ar, ficam nas condicoes mais favoraveis para pro- 
duzir a mais nociva de lodas as putrefaccoes. Quando a de- 
composicao das materias organicas tern logar em presenca 
de urn grande excesso do ar, e por consequencia de oxige- 
nio, esla decomposicao niio so e rapida, mas os seus produ-j 
clos sac menos complexes, e, por isso, mcnos nocivos. Esls 



DAS SI.IKACIAS E L1'TTR.\5. 461 

consideracao pode ale cerlo ponlo dar razao aquelles que di- 
zem que Lisboa era mais salubre, quando os despejos se fa- 
ziam para as ruas. Na verdade ali as circumslancias eram 
muilo diversas das que se observam no actual sysleraa. En- 
tao a decomposi^ao execulava-se em presenca de urn gran- 
de excesso de ar, e em presenca da luz ; a temperatura era 
\ariavel , as correntes athmosphericas dissipavam rapida- 
raente grande parte das eraanacOes, gazosas ou \olaleis, pro- 
venientes da decomposicao, e a remocao, que periodicamenle 
se fazia, nao deixava accumular grande espessura de mate- 
rias. Todas eslas circumstancias tendiam evidentemente para 
abbreviar a combustao da materia organica. 

No interior dos canos as coisas passam-se de outro modo. 
A temperatura sendo ali moderada e pouco variavel, a quan- 
lidade de ar liraitada, a propria luz nao tendo accesso, nao 
se pode completar rapidamente a Iransformacao da materia 
organica em materia inorganica, e por isso aquella percorre 
uma longa escala de transformacoes, gerando productos com- 
plexes que teem as propriedades dos fermentos , isto e, de 
promover a alleracao de outras malerias organicas, ate mes- 
mo a d'aquellas que se acham ainda debaixo das iulluencias 
vitaes ; podendo , cm uma palavra, acluar como principios 
desorganisadores, ou miasmaticos. Eis-aqui o que se passa 
no interior dos canos de despejo, no eslado em que elles se 
acham ; e sao essas malerias volateis, ou em suspensao nos 
gazes que a decomposicao gera, e no ar que sae pelas aber- 
turas da canalisacao, as que se derramam continuamcnte pe- 
las casas e pelas ruas da cidade. menor desequilibrio en- 
tre as pressoes da alhmosphera exterior e da interior dos 
canos , pode produzir a emissao mais ou menos abundante 
d'csles miasmas, que, pcia disposicao particular de alguns 
ramus da canalisacao, se manifesla com mais ou menos in- 
tensidade nos diversos logares da cidade. 

Do que ate aqui lenho difo, nao se deve concluir que a 



462 . ANISAES 

i-analisiufio de uma cidude para o duspeju on romoalo das 
iniimiiulicics c, uiii lodos os casus, uiais prejudicial do que 
dt'posito, ainda que lemporariu, d'essas materias sobrc o 
pa^imenlo das ruas. Este ultimo e a iiegacao dc loda a po- 
l:cia, e a feicao mais pronunciada do ulrazo, da ignorancia, 
da indcccncia, c da brutalidade de urn poNo, e coiuo tal o 
poremos desde ja fora de discussao : iiingueiu, que lenha por 
si c pclos oulros o respeilo que sc deve as crealuras liuma- 
nas, o\ira proper ou justilicar. prinieiro, quando e exe- 
cutado era condicoes convenicnles , e quando se altende so 
a questiio hygienica, 6 sempre util e provciloso. Mas quaes 
sao essas condicoes? Saolodas aquellas que tendem a eutre- 
tor constaulcmenle desembaracados os canaes subterraneos, 
e que nao consentem a accumulacao das materias infeclas, 
nem nas galerias subterraneas, nem nos logarcs onde essas 
gaierias se abrem. Para obter eslas condicoes nao ha senao 
dois Dieios: ou entreter conslanlemente uma porcao consi- 
deravcl de agua em moviraento que arraste as immundicies 
para um logar d'onde ellas devem immediatamente desappa- 
recer ; ou eslabelecer pelas mesmas galerias, (oque e muito 
diflicil) um systema de iimpeza e remocao que produza o 
mesmo effeito da lavagcm pelas aguas corrcnles. 

Os canos da cidade de Lisboa nao podem ser limpos re- 
gularraente nem por um nem por outro racio. Apesar da in- 
clinacao do terreno, a pessima construccao d'estes conductos 
nao permilte, priucipalmente no eslio, o cscoamenlo das ma- 
terias molles, que, em presenca do menor obstaculo, sus- 
pendem a sua marcha, aglutinam-se, e successivamenle se 
condensam e tomam consislcncia, formando um nucleo de 
ubslruccao, sobre o qual as aguas, por mais abundanlcs que 
sejam durante a eslacSo chuvosa, passam sem o destruir e 
arrastar comsigo, ou se represam, infiltrando-se a Iraves das 
juntas para o solo que as absorve, c que sc conslituc pan- 
tano infcclo. 



DAS SCIENCIAS E LETTIUS. -563 

Se tlesde o comSco se houvesse inlroduzido nos canos 
uiua sulTiciente porcao de agua que, correndo conslanlemen- 
le, nao permittisse as agglomeracoes de maleria golida, ter- 
se-hiam, pelo raenos, evitado as obslruccoes na parte supe- 
rior das galcrias, e reslaria apenas o trabalho necessario pa- 
ra conservar desembaracadas as aberturas inferiores dos ca- 
nos que despejam immedialamenle no rio. Assim mesmo este 
ultimo trabalho seria dilTicil e dispendioso, e demandaria a 
construccao de novos canaes, mais apropriada, n'aquella parte 
da cidade baixa, que nao possue aquelles que se edifica- 
rani logo depois do terremoto de 17Su, Todos sabem que 
OS aterros da margcni direila do Tejo, que limita a cida- 
de pela parte do Sul, successivamenle crescem, e que as no- 
vas construccoes vao, em complefa anarchia, seguindo a 
agua que se relira ; assim as aberturas das galerias inferio- 
res, que lia pouco tempo eram banhadas pelas mares , es- 
lao ja hoje a grande distancia da agua corrente e despejam 
as immundicies em charcos infectos, ou se aciiam quasi ob- 
slruidas. 

es'ado das praias lodosas em frenle da cidade e o mais 
deploravel que se pode imaginar ; e, se as coniparassemos 
com Delta do Ganges, onde se gera o cholera-morbus, nao 
licariamos longe da verdade. Ali as aguas do mar se mislu- 
ram com as da terra em presenca de uma quanlidade enor- 
me de materia organica ; com o auxilio da lemperatura ele- 
vada do eslio, e da esplendida luz do nosso clima, os sulfa- 
los da agua salgada, desoxidando-se, se Iransformam em sul- 
furetos alkalinos, que, emillindo o gaz sulfhydrico, envene- 
nam myriades de seres vivos, cujos cadaveres vem augmen- 
lar prodigiosamente a infeccao d'aquelles logares, como acon- 
lece sempre nos pantanos em que as aguas salgadas se mislu- 
ram com as aguas doces. E a esta decomposicao dos sulfa- 
tos que se deve indubilavelmenle a formacao das aguas sul- 
furosas que apparecem no Arsenal da Marinha, e em oulros 



i(54 A\.N.\KS 

logares junto as praias, conio ha pouco se obsorvou nas ex- 
cavacoes que se fizeiam no Inslilulo Industrial. 

E a vista d'esle facio, rcconhccido e provado, ainda ha- 
^ia queni propozesse que se lavasseni os canos da cidade 
com agua do mar, levanlando-a por uieio de machinas para 
a fazer entrar na parte superior das galerias, remediando as- 
sim a penuria em que \i>emos de aguas doccs ! ! A rcalisa- 
cao d'este alvilre e, feiizmente, muito dispendiosa, c por isso 
a nossa pobreza nos poc, n'este momento, a salvo de uma 
loucura mais — a quclque chose malleur esl ho)i. 

Ainda que me affaste um pouco do objocto principal quo 
n'estes artigos disculo , nao devo deixar em silencio o mau 
estado em que se acham, debaixo do mesmo ponlo de vista, 
a ribeira d'Alcanlara e as marinhas abandonadas do Riba- 
Tejo. Tanlo n'uma como n'outra parte convem, quanto antes, 
evitar o mais possivel a mislura das aguas salgadas com as 
aguas doces para destruir as causas, hoje ali permanentes , 
das febres paludosas. Nao e dilllcil obler esle resultado , e 
ainda quando o fosse , como nao e impossivel , devia ja a 
administracao publica ter-se occupado d'este objecto. 

Ha muito que a sciencia hygienica pronunciou a sua opi- 
niao sobre cste ponto, fundamentando-a sobre faclos bem es- 
tudados. sr. Fieury, no seu curso de hygiene feilo na fa- 
culdade de medicina de Paris , dizia : « Les marais mixles 
« sont les plus pernicieux de tous. Giorgini raporte que, 
« jusqu'cn 1741, I'etat de Massa fut decime par les miasmcs 
« que produisenl I'eau de la mer melangee, par les marees, 
«< avec I'eau douce d'une plainc marecageuse formee par 
« I'Arno et Ic Serchio ; a cette epoquc on conslruisil une 
« ecluse de separation entre les eaux, et immedialement les 
« fievres disparurent et la population augmenta ; en 1768 ct 
« 1769 Tecluse donne acces a I'eau salce, les lievres repa- 
« raissent jusqu'au moment ou Tecluse est reparcc ; en 178i 
« un fait analogue s'est reproduit. Deux ecluscs furcnt cons- 



D\S SCIE.NCIAS li IJ'TTRAS. 405* 

« liuiles en 1818 a Monlrone, en 1821 a Tonfalo, et elles 
« eurent une influence tout aussi remarcable sur I'etal sani- 
« taire et le chiffre de la population. Ce n'est qu'a I'aide 
« d'ecluses semblables qu'on est parvenu a assainir, en par- 
« tie, les marais gats de Brouage et de Marennes. » 

Se OS simples pantanos d'agua mixta sao so de per si tao 
nocivos , que etfeito produzira sobre a populacao de Lisboa 
esse longo pantano que desde Sacavem orla a margem di- 
reita do Tejo ate Belem , recebendo o asqueroso tributo de 
lodos OS canos da cidade? As dejeccoes de uma populacao 
de '25'0.000 habitantes, as aguas de lavagem doniestica, os 
restos dos alimentos vegetaes e animaes, os residuos de mil 
estabelecimentos iudustriaes, o sangue de lodas as rezes mor- 
tas no matadouro, as aguas gordurosas e corruptas da lava- 
gem bruta das entranhas e devenlres das mesmas rezes , e 
OS intestinos dos peixes que servem a alimentacao de uma 
grande parte da populacao, toda essa mole immensa de ma- 
terias putrefactas se alastra por esses lodosos aterros do Te- 
jo, e, de mistura com aguas salgallas e doces, debaixo da in- 
fluencia de uma temperatura propicia, se corrompe, infecla, 
e vicia o ar. 

Onde e que se podem achar pantanos niais abominaveis 
do que este? E vcrdade que a mare sobe e desce, e quando 
as aguas se retiram, devem levar grande parte d'aquellas ma- 
terias ; por^m isto acontecera principalmente quando as aguas 
esliverem agitadas, o que nao e frequenle, porquc, quando 
ellas eslao tranquillas, as terras, que Irazem suspensas, de- 
posilando-se para formar o aterro, precipitar-se-hao levando 
comsigo as materias organicas, e produzindo o mesnio efleito 
que a argila com que se clarificam os liquidos corados e im- 
puros, e cujo deposito constitue uma especie de laca. E este 
deposito de terras e immundicies que constitue o lodo infe- 
cto das nossas praias, em que se prepara, para assira dizer, 
ao lurae do sol do estio, o alimento das febres e dos typhos. 



^66 ANWliS 

Se quizessemos adoplar para a reniocao das dcjeccOes c 
immimdicies da cidado o syslema de lavagcni pelas aguas 
correntes , deviamos coniecar por iiupedir a formacao dos 
alerros, levando as construccocs ale a linha do paired, por 
onde passani as conenles (juc dcscem da bacia do Tejo, e que ' 
l>or isso c limile natural d'aquellcs dejmsilus, fazeiido cliegar 
ahi asaberluras doscanos, c lancando n'estes, conslanlenieu- 
le, uma porcao d'agua lal que inipellisse sem iulerrupc'ao to- 
das as malerias para a correnle do rio. E onde hiriamos nos 
buscar essa agua? Nos que nao temos agua nem para nos la- 
varmos ! Nos, que ha dois ou tres annos eslamos esperando 
(lue uma companhia, que sc formou, nos distribua pelas ca- 
sas a agua indispensavel para os usos domeslicos ! Mas ain- 
da quando se podesse realisar esse syslema de limpesa, se- 
n'a elle o mais \anlajoso e por isso preferivel a qualqucr 
oulro? Basta para o rejeilar a consideracao deque, admilti- 
do elle, desperdicariamos em pura perda uma quanlidade 
enorme de eslrumes riquissimos com que podemos multipli- 
car consideravelmenle as nossas produccOes agricolas. 

Lancemos por um momenlo os olhos para os grandes 
phenomenos da vida organica que se passam a superficie da 
terra , porque d'elles tiraremos licao proveilosa para nos 
guiarmos na resolucao d'eslas questoes administralivas. 

Os animaes e os vegelaes \ivem no ar athmospherico c 
com elle teem intimas relacoes que os prendem muluamente. 

A planla nasce da semenle, e, fixa ao solo, a cusla d'elie 
e do ar, crescc e da fruclos de que o animal se sustenta. 

N'csles dois meios, terra e ar, encontra ella os elementos 
neccssarios a formacao da materia organica, o oxigenio, o hy- 
drogenio, o carbonio e o azote, no estado de agua, de aci- 
do carbonico, de ammonia e de acido azotico, alem da pe- 
quena quantidade dos saes mineraes que Ihc sao indispcnsa- 
veis para a sua constituicao. Os animaes herbivoros vivem 
a cusla das plantas, nao criam, como os vegelaes, maleria 



DAS SCIENCIAS E LETTRAS. i67 

organica, mas consomem a que dies fabricarani on accumu- 
lam nos seus lecidos para servir dc alimenlo aos animacs 
carnivoros, e lanto uns como outros a gastam durante a vi- 
da, converlendo-a em acido carbonico, em agua e ammonia 
que conslantemenle 'verlem na alhmosphera , onde os vege- 
taes a enconlram para se alimenlarem e conslituirem. Uma 
parte d'esla materia e depositada pelos animaes debaixo de 
uma forma maiscomplicada, conslituindo os escrementos so- 
lidos e liquidos, para, depois de expulsa, ser converiida pelas 
simples accoes chimicas em agua, acido carbonico e ammo- 
nia, deixando tambem os saes mineraes que os vegetaes ha- 
\iam tornado do solo. 

Se a terra e ao ar os animaes nao reslituissem nunca 
aquelles elemenlos que receberara das plantas, chegaria um 
momento em que toda a vegetacao seria impossivel. Um cam- 
po, quando coraeca a ser cultivado, possue uma ceria por- 
cao de materias uleis aos vegetaes que alimenta ; a primeira 
colheila leva uma porcao d'essa materia, e, se nao Ih'a res- 
tituimos, a nova sementeira enconlrara ja menos alimento 
do que a antecedente, e, continuando as coisas d'este modo, 
chegara um dia era que o solo exhauslo nao produzira co- 
lheila alguma , lornar-se-ha esleril. Para evitar este grande 
raal ^ que nos adubamos as terras : e um ado de restituicao 
para obter novas produccoes. Assim, todo o desperdicio de 
eslrumes e um roubo feito aos campos, e um roubo contra 
inleresse da nossa alimentacao. Os alimentos de que se 
nutre a populacao de uma cidade ou sao vegetaes, produzi- 
dos immediatamente pela terra , ou animaes que se alimen- 
taram de vegetaes , e n'uns e n'outros esta a materia para 
novas produccoes ; se desprezarmos parte d'essa materia ; se 
a lancarmos no Oceano, havemos de ir buscar a outra par- 
te, mais tarde ou mais cedo, o seu equivalente para conser- 
varmos a ferlilidade das nossas terras. Iremos buscar o gua- 
no, que as aves aqualicas depositaram nos rochedos deser- 



4 68 ANNAES 

los do mar Pacifico? Iliremos pedir aos oulros paizes que 
nos vftndam os sens eslrumes , como faz a Inglalerra que , 
(lepois de haver lancado pelo Tamisa, durante muitos secu- 
los, urn valor incalculavcl de adubos, faz hoje avultada im- 
porlacao de malerias organicas e mineraes para conservar a 
fertilidade dos sous campos? Nao se assimilha este modo de 
proceder a uma remalada loucura ? Nos vamos n'esle cami- 
nho indubitavcl e falalmenle. Se hoje lodos os nossos agri- 
cullores quizesscm lirar das suas terras todos os fructos que 
ellas podem produzir, nao achariam ja em Portugal os adu- 
bos necessarios para uma cullura regular. 

Para demonstrar a grande imporlancia que na epocha 
actual tem o aproveitamento de lodas as materias que servcm 
para adubar as terras, bastaria so apresentar o quadro dos 
valores empregados hoje , em todo o Norte, na preparacao 
dos eslrumes arlificiaes, na exploracao dos phosphatos cal- 
careos naluraes, c no commcrcio do guano. 

E, quando esta grande aclividade se emprega n'oulros 
paizes para fornccer alimento as culturas agrarias, nos pre- 
sistimos em desperdicar uma porcao enorme de materias 
uteis e taa torpemcnte que, antes de as perdermos de todo, 
nos estamos envenenando com os produclos da sua corru- 
pcao. 

Desperdicio e infeccao, eis-aqui a que se reduz todo o 
systema aclualmente seguido na remocao das dejeccoes hu- 
manas dos habitantes de Lisboa. Perda para a agricultura, 
que devia ser a fonte principal da nossa riqueza, cnvenena- 
mento da populacao de uma grande capital, que a mao de 
Deus collocou n'um clima suave e temperado, e debaixo de 
um ceo formoso para ser verdadeiro paraizo sobre a terra. 

J. M. DF OLlVFjn.V PIMENTEI,, 



DAS SCIEXCIAS E I.ETTR.VS. 469 



REVfSTA 



DOS 



TRABALHOS CHIMICOS, 



J. J. Rosseau, duvidando da verdade da analyse chimica, 
so porquc no seu tempo a sciencia nao podia forniar com 
OS elemenlos revelados todos os corpos cuja composicao de- 
lerminava, parecia desconhecer a marcha do espirito huma- 
no e exigir que a synthase fosse uma consequencia imme- 
diala, necessaria e infallivel da analyse. A chimica inorga- 
nica podia ja, na maior parte dos casos, satisfazer lao exag- 
gerada exigencia, porque no reino mineral aaffinidade ener- 
gica, que os elementos de di versa natureza teem entre si, e 
pouco contrariada pelas influencias eslranhas e o equilibrio 
molecular pode eslabelecer-se de um modo maisestavel. Mas 
na constiluicao dos corpos organicos correm as coisas de ou- 
Iro modo. Na formacao d'esles ultimos a natureza empre- 
ga poucos elementos , mas por isso mesmo o edificio mole- 
cular e mais complicado e as differencas resuilam, nao da 
diversidade dos elementos , mas da quantidade relativa das 
moleculas e da sua mutua disposicao. A affinidade entre es- 
tes nao e poderosa e o equilibrio e por isso pouco estavel. 
A formacao dos corpos organicos depende muito de circum- 



i'^O ANNAES 

slancias e induencias exlemas difficeis de rcconhecer e de. 
regular. 

Se a analyse elemenlar das materias organicas c faci! e 
rigorosa, porqiie dcpende so da separacao e pcsagem dosele- 
nientos, a synlhcsc d diflicil, e talvez, em muilos casos, im- 
posslvel, porque rcfjuer o conhecimento e a reproduccao das 
circumslancias favoraveis e das influencias que escapani fa- 
cilmenle aos nossos meios de esludo. Entretanto a chimica 
moderna tern n'esles ullimos tempos alcancado resullados 
quasi prodigiosos em frenle dos quaes a incredulidade de J. 
J. Rosseau nfio podcria resislir. 

Es!as reflexoes foram-me suscitadas por um trabalho ver- 
dadeiramente in!eressante do sr. Berlhelot sobre a transfor- 
mamo da manita e da ghjcerina em assucar propriamente 
dito. 

Observando as analogias que existem en!re a fermenta- 
cao alcoolica da manita e da glycerina e a dos assucares 
propriamente ditos, o sr. Berthelot duvidou se a fermentacao 
d'aquellas subslancias era directa, ou se era precedida pela 
previa Iransforma^ao d'essas substancias em assucar. Para 
resolver esta questao intentou varias experiencias, cujos re- 
sullados foram differenles nas diversas circumslancias. 

A fermentacao da manita e da glycerina , em presenca 
do carbonalo de cal e debaixo da influencia de uma mate- 
ria, que exerca as funccoes de fermento , como por exem- 
pio a caseina , ^ indirecla , produzindo o alcool e o acido 
carbonico. 

Supprimindo, porcm, a presenca do carbonato de cal, 
a fermen!acao nao tern logar ; mas em circumstancias par- 
liculares, como, por exemplo, debaixo da influencia de cer- 
tos lecidos organicos animaes, e notavelmenle do lecido dos 
lesticulos , forma-se uma porcao de assucar susceplivel de 
fermentacao alcoolica. 

Este ultimo facto e de grande imporlancia physiologica, 



1 



DAS Sr.lENCIAS E LHTTRAS. 471 

pois que a transformacao da manita e da glycerina em as- 
sucar, cm presenca do tecido animal, parece pertencer a ca- 
Ihegoria das accocs do contacto. Assim aquelles dois corpos 
de nolavcl estabilidade , privados dc poder rolatorio, e que 
se apro\imam ja dos que nos podcmos produzir pela synllie- 
se , sao susceptivcis de serem tansformados artificialmenle 
e:n uma substancia mais complexa, mcnos eslavel, gosando 
do poder rotalorio , isto d, em assucar similhante aquellea 
que se formam no seio dos lecidos \egetaes ou animaes de- 
baixo da influencia da \ida. 

« Uma tal forniacao do assucar a custa da manila e da 
glycerina, diz o sr. Berthelot, merece especial atlencao pe- 
las ligacoes que eslabelece entre esle assucar e as subslan- 
cias que podem servir para preparar a glycerina. Por uma 
parle a glycerina unida aos acidos gordos conslltue os cor- 
pos gordos neulros, isto 6, as gorduras animaes e vegetaes. 
Transformar a glycerina em assucar, ^ produzir esta sub- 
slancia com as proprias gorduras. » 

Mas ainda ha um outro ponlo mais notavel. A glycerina 
pode ser produzida arlificialmenle por meio do propylene , 
isto por meio de um carbureto de hydrogenio, obtido pela 
synlhese unindo os seus proprios elemenlos. Logo por meio 
de uma serie de Iransformacoes definidas, uma das quaes se 
oblem pela accao de um corpo organisado debaixo da in- 
fluencia da vida, se pode preparar um assucar com os ele- 
menlos que conslituem, islo d, com o carbonio, com o hy- 
drogenio , e com oxigenio. Com o cai'bonio e com o hy- 
drogenio forma-se o propylene , com esia a glycerina , e a 
glycerina Iransforma-se em assucar. 

J. J. Rosseau pedia, para se convencer do poder da chi- 
raica, que esta Ihc formasse a farinha ou o amidon com os seus 
elemenlos , o sr. Berlhelot formou o assucar, e csle dilTore 
so do amidon por um unico equivalcntc de agua. proble- 
ma esla resoh ido e a chimica comeca ja a consliluir pela syn- 

ToMO I. -OUTLPRO DE 1857.-1." Cl.ASSE. 31 



472 ANNAKS 

Ihcsc OS corpos orj2;anicos cuja fabricacao sc jiilgava ser pri- 
\ilegio cxcliisivo das forcas \itacs. K ([ue scriio , a visia 
il'estcs faclos , as forcas vilaes? 



Urn dos faclos mais curiosos que no presenle anno sc 
apresenlarain sobre a synlhcsc das subslancias organicas e, 
indubilavelmentc, a formaciio arlificial da glycerina, que se 
deve as primorosas invcsligacoes do sr. Wurlz. fe pela reac- 
cao do tribromureto de allyle sobrc o acelalo dc prata que 
csta substancia se oblem. A glycerina arlificial aprcsenla lo- 
dos OS caracteres da glycerina natural que se encontra nos 
oleos vegelacs e nas gorduras animaes. A l\lcmoria, que trala 
d'este intercssanle objecto, enconlra-se no caderno dc selem- 
bro do correnle anno dos Annaes de Chimica e Physica. 

sr. Wurlz prosegue incessanteraenlc nas suas invcsli- 
gacoes sobre a synthese dos corpos organicos. Pela oxidacao 
direcla e lenla do propylglycol, em presenca do po negro de 
plalina, obtcve o acido lactico : ora, o propylglycol on gly- 
col propylico, que corresponde ao alcool propylico, conio o 
glycol corresponde ao alcool, e formado a custa do gaz pro- 
pylene, e por conseguinle o acido laclico pode ser produzi- 
do por synlhese com esle mcsmo gaz. 



sr. L. Troost , antigo alumno da Escola Normal de 
Pan's e discipulo do sr. H. Sainte-Claire Deville , acaba de 
publicar uma verdadeira monographia do lilhio, e dos saes 
de lilhia ou lithina, muilo intercssanle pelos numerosos fa- 
clos verificados por elle com lodo o cuidado e relalivos a eslc 
metal e suas combinacOes que at6 aqui haviam sido pouco 
csludados. Nas classificacoes, geralmcnte adoptadas para o 



DAS SCIEXCIAS E LETTRAS. 473 

ensino da cliimica mineral, o lilhio e ainda grupado enlre os 
metaes alJ^alinos com o potassio e com o sodio, mas, apesar 
de que alguns caracteres physicos o aproximam d'estes ul- 
limos, ve-se claramcnle, pclos estudos recenles do sr. Troosf, 
que lilhio se aproxima mais do magnesio , chimicamente 
considcrado, do que do sodio e do potassio. 



sr. Tison submetteu ao juizo da Academia das Scien- 
cias de Pan's (sessao de 17 de agoslo d'esle anno) um novo 
apparelho para a fabricaeno do gaz da illamiaacao , par 
meio de uma retorla girante com dois focos e appropriada 
a lodas as fabricas. 

Com a relorta girante, diz o sr. Tison, oblem-se a dis- 
lillacao complela do carvao, porque o movimento de rolacaf) 
previne a formagao do alcalrao e dos depositos que se nao 
podem obviar nas retorlas fixas; o producto acha-se d'esle 
modo augmenlado da quarta parte. Alem d'islo a relorta 
girante dura mais tempo do que a relorta fixa , que e ata- 
cada peio fogo, sempre do mesmo lado, em quanto que a 
oulra sofTre esta accao , em virlude do movimento de rola- 
cao , em toda a sua circumferencia. A relorta girante tern 
ainda oulra \anlagem sobre a fixa, porque eslando collocada 
sobre os coxins pode ser mudada, no caso de ser necessario 
fazer concertos, sem locar nos massames. 



sr. Nickles, que modernamenlc tern feilo serias inves- 
ligacoes sobre a diffusao do fluor, lira dos seus Irabalhos a 
esle respeilo as seguintes conclusoes. 

1." fluor exisle no sangue, em quanlidade minima. 

2." Tambom se enconlra na carina. 

31** 



47 i ANNAES 

3." Exislo fluor nos ossos, porfiin em menor propor- 
cao do que ate agora se presumia. Segundo Berselius, 100 
graminas do materia calcarea dos ossos conleem 3 grammas 
de fluorurelo de calcium ; pelos novos meios de investigacao, 
empregados pelo sr. Nickles , prova-se que apenas existem 
5 centigram mas de fluorurelo de calcio em I kiiogramma da 
subslancia ossea, 

4." As origcns, onde o organismo animal vai buscar o 
fluor de que carece, sao : 

1.** As aguas potaveis. 

2." As substancias vegetaes. 

Tanto umas como as oulras o conleem em proporcoes liio 
restrictas, que para obler alguns vestigios de fluor e necessa- 
rio operar pelo raenos sobre um kiiogramma de cinzas, ou so- 
bre producto da evaporacao de alguns milhares de lilros. 

3." Tambem o organismo pode accidenlalmenle lirar o 
fluor das aguas mineraes, que todas conleem fluorurelos em 
grande proporcao, quando se comparam com as aguas pola- 
\eis. 

4." Esta circumstancia parece explicar a efflcacia de cer- 
las aguas mineraes fracamenle mineralisadas , taes como as 
aguas de Plombieres, do Mont-Dore, de Soulzbad etc. 

S.** A agua do Sena recolhida em Pan's, a agua do Rhe- 
no, em Strasbourg, sao das que conleem menos fluor. 

6.*' Uma das aguas fluviaes de Franca mais rica em 
fluorurelos c a da Somme junto a Amiens. 

7." As diversas aguas mineraes nao sao egualmenle ri- 
cas em fluorurelos ; as mais ricas, das que teem sido exa- 
minadas pelo sr. Nickles, sao : as de Conlrexeville, de An- 
logast, e a de Chatenois no Baixo-Rheno. Um litro d'estas 
aguas basla para dar signaes nao equivocos da presenca do 
fluor. 

8." Pelo contrario^ a agua do mar Allanlico nao o con- 
lem em proporcao scnsivel em 300 lilros. Esle facto esta- 



DAS SCIENCIA^S !• LETTKAS. 47J 

belece unia difTerenca beni nolavel enlre esla agua c as aguas 
inineraes que teem analogia com a agua do mar. 

9." A lei de diffusao do fluor na criisla do globo lerres- 
tre pode formular-se d'este modo. == Existe fluorureto de 
calcio em todas as aguas que conleem o bicarbonalo de cal ; 
pode haver fluor nas rochas e mincraes que sao formados 
por via de sedimento. 

Em quanto a maneira de por em evidencia estes factos, 
que resulta das observacoes do sr. Nicklcs e o seguinte : 

processo classico , ale agora seguido, pecca em dois 
pontos essenciaes, que conduzem a admiliir o fluor onde elle 
nao existe. 

Depende islo : 

1." De que o acido sulfurico pode exercer , so de per 
si, accSo sobre a lamina de vidro. 

2." Este mesmo acido pode conler em si acido fluorhy- 
drico. 

sr. Nickles elimina eslas causas de erro do seguinte 
modo : 

l." A lamina classica de \idro substilue outra de crys- 
tal de rocha. 

2.** Emprega o acido sulfurico isento de acido fluorhy- 
drico. 

acido, que houver de empregar-se para decompor os 
fluoruretos, deve purificar-se diluindo-o com agua e expon- 
do-o durante algum tempo a uma temperalura de loO a 
180 graos. 

dissolvente empregado pelo auctor e o acido chlorhy- 
drico, que, com as necessarias caulelas, se pode scmpre en- 
contrar isento de fluor, mesmo cntre o do commercio. 

Todas as antigas dosagens de fluor , obtidas pelo acido 
sulfurico, devem repetir-se. Muitas subsfancias sao repula- 
das fluoriferas sera comtudo conterem fluor ; o fluor encon- 
trado nos productos de decomposicao foram, em muitos ca- 



i76 ATSNAKS 

SOS, introduzidos pelos reagcnies e principalmcnie pelo acidit 
sulfurico. 



caderno de seloinbro dos Aniiacb de Chiniica e Phy- 
sica contcm uma colleccao de trabalhos iiiuito inlcressanlcs 
para asciencia, os quaes convem consullar, mas dc que nao 
(^ possivel dar n'esla revista uma conla sulUcienlemente clarii 
e resumida , e por isso limilar-me-hei a mencional-os para 
dispei'lar a curiosidade dos homens que se dao ao esludo da 
parte mais elevada da chimica. 

Encontra-se, em primeiro logar, n'aquella publicacao a 
Memoria dos srs. Augusto Cahours c A. W. Uofmann, so- 
bre as bases plio.^phoradas, que foi lida peranle a Academia 
das Sciciicias de Pan's e a Sociedade Real de Londres. Se- 
gue-se depois a Memoria do sr. Berlhelot sobre as substitui- 
coes inversas , da i}ual ja liveraos occasiao de fallar n'esla 
revista. 

mesmo chimico apreseiila n'csle inesmo numero , c 
logo em seguimento, uma interessante 3Iemoria sobre a ana- 
lyse dos gazes carbonados. 

Todos aquellcs que se teem occupado da analyse das 
luisturas gazosas conhecem as grandes diilicu'.dades que so 
apresentam quando se pretende delerminar a natureza e prin- 
cipalmenle as quantidades relativas dos gazes que se acham 
misturados. As misluras dos dilTerentes carburelos de hydro- 
gcnio produzem-se em circumstancias muito variadas e di- 
versas nas differentes operacoes da chimica organica. nu- 
mero d'estcs carburelos e exlraordinariamenle grande ; as 
analogias de propriedadc e composicao que enlre elles cxis- 
Icm, lornam dilBcuIlosa a sua delerminacao ; por isso a ana- 
lyse das misluras dos carburelos de hydrogenio e um dos 
problemas mais dilllceis de resolver. Os processos ate agora 
spguidos consis^^am cm queimar \\\\m excesso de oxigcnio a 



l).\S SCIENCI.VS E LETTRAS. 477 

mislura gazosa e em delerminar , depois da combuslao , a 
qiiantidadc de acido carbonico formado. D'esla operacao re- 
sultam , para resolver o problema , Ires dados numericos : 
volume inicial, volume do acido carbonico produzido e di- 
minuicao do volume total depois da combustao. Todo o cal- 
culo e baseado sobre a hypothese de que a misfura e forma- 
da por tres gazes qualitativamente conhecidos e calcula-se a 
sua proporcao comparando aos tres numeros detcrminados 
pela experiencia os resullados theoricos que resultariam da 
combustao dos tres gazes suppostos. 

Pode , todavia , dar-se o caso de que a hypothese nao 
S2ja exacta, nein polo que respeita a natureza dos gazes nem 
ao seu numero, e, por conseguinte, a analyse eudiometrica 
nao pf)dera fornecer dado algum util, ficando o problema in- 
determinado. A isto accresce ainda que a analyse eudiome- 
trica poderia fornecer resultados idenlicos para o caso da 
mistura de gazes que tivessem composicao diversa. 

sr. Bunscn havia ja proposto outro melhodo de ana- 
lyse das misluras gazosas , em casos parliculares , fundado 
sobre o conheoimento dos coefficientes de solubilidade dos 
gazes misturados. Este methodo c rigoroso, mas muito deli- 
cado , e e so applicavel aos gazes puros , ou a simples 
mistuia de dois gazes. Os novos processes do sr. Berlhelot 
tsem applicacao mais geral, nao exigem determinacao algu- 
ma que seja differente das medidas eudiometricas ordinarias, 
e servem-se egualmente dos dissolventes espccilicos, conve- 
nientcmente empregados antes e depois da combuslao. A Me- 
moria, em que o auctor expoe o seu melhodo, conldm gran- 
de numero de exemplos que esclarecem esto inleressanle e 
diflicil problema da analyse chimica. 

No mesmo caderno se encontra ainda uma nota do sr. 
Bcrthclol sobre a combinacao direcla dos hydracidos com os 
carburelos alcoolicos, isto e, aquelles carburetos de hydro- 
genio ijuc sao correspondenles aos alcools e que sao formados 



i78 AXNACS 

(le equivalenles eguacs de carbonio c de hydrogeiiio , lacs 
como gaz oleificanle (C* II') e o propylene (G* IP), re- 
sullando d'esla uniao Aerdadeiros ethers. 

sr. Wurlz publica no mesmo jornal urn estudQ cu- 
rioso sobre as combinacoes do bromio oom os carbureios de 
hydrogenio, e uma Memoria sobre a formacilo artificial da 
glycerina, dc que ja dci nolicia n'osta revisla. 



sr. M. Lamy , quo em 1852 fez oonhecer a existein 
cia de duas subslancias organicas novas achadas por elle no 
Prolocoecus vulgaris, alga ou phycea de organisacao extre- 
mamenle simples, publicou recenlemente uma nota inleres- 
sanle sobre a composicao e caracleres de uma d'cstas sub- 
slancias, a phycite, que se aproxima dos assucares propria- 
menle dilos , ainda que d'elies diffira em algumas das suas 
propriedades. 

A phycite foi cxlrahida do prolocoecus vulgaris pelo al- 
cool aquoso : cryslallisa facilmente em bellos prismas Irans- 
parenles, que perlencem ao syslema do prisma reclo de base 
quadrada ; tem sabor assucarado e fresco ; pela accao de 
uma lemperatura proxima de 200" voialilisa-se cm parle, 
sem soffrer decomposicao, no que differe essencialmcnle do 
assucar propriamcnle dilo. A analyse elemenlar, cuidadosa- 
menle conduzida, assignou-lhe a formula C'^ H'^ 0'^ Dif- 
fere, por conseguinle, da glucosa, a 100**, em 3 equivalen- 
les de hydrogenio, e da manila era um so equivalenle d'esle 
elemento. 

C" W 0''=C'' W 0'*-^3 II = C'^ II'* O'^ + U. 

Phycite Glucosa Manila 

Nao fermcnla como o assucar, nem excrcc accao sobre 
a hiz polarisada. 



DAS SClliiNClAS \l LKTTRAS. , 479 

Dr. Slcnhause, no seu esludo sobre as urselas, exlra- 
hiu do lichen de Angola, por meio da cal, um principio im- 
mediato, a erylhroglucina, que apresenta a mesma corapo- 
sicao e caracleres, e que parece ser idenlica a phycile do sr. 
Lamy. 

As algas ou phyceas e os lichens sao muito visinhos uns 
dos oulros no reino vegetal , e por isso as origens da phy- 
cite e da erylhroglucina devem ser proximas : a unica dif- 
ferenca, que por emquanto se apresenta, e que a prinieira 
existe forniada nas algas e d'ellas se pode extrahir simples- 
jnente pelo alcool , e a segunda deriva do acido erylherico 
das urselas, ou se acha combinado com a orcina. 

J. M. DE OLIVEIRA PIMENTEL, 



so A>NAES 



REVISTA ESTRANGEIRA, 

JUNIIO, JL 1,110 K AliOSTO. 



AsTROoMiA. — Os comelas suo astros que, pela aj)parenle 
irregularidade das siias apparicoes, e pela grandeza dos pc- 
riodos em que descrevem a curva dos scus movinienlos, teem 
sempre ohamado a attencao dos astronomos, assim como teem, 
pela singularidade da sua forma, e a sinistra luz que por ve- 
zes cspalham no ceo, infundido suslo e supersticiosos terro- 
res nos povos pouco civilisados. A scicncia, por6m, tern se- 
guido a inarcha de alguns d'cslcs astros e indicado positiva- 
nwinle o caminho que elles percorrem uo espaco ; usando 
dos mais rigorosos principios da physica pode a scicncia cal- 
cular a dcnsidade dos comelas, e reconheccr a pasmosa te- 
nuidadc da materia que os conslilue, e, por interessaules ob- 
servacoes , de anno para anno leiii augmentado o catalogo 
dos astros d'esla nalurcza, de que conhece, ao menos apro- 
ximadamente, os elementos da cur\a que descrevem. 

Para faciiilar o estudo de um comola , descoberlo em 
1851 pelo sr. d'Arrcsl, o sr. Villarceau caiculou as ephc- 
merides d'eslc astro, allendendo a indelcrminacao em (|ue se 
acham alguns dos sens elementos, e mostrou que, nos ulli- 
mos mczcs d'este anno, o comcla podera scr cnconlrado com 
facilidade pelos astronomos collocados no hcmisphcrio aus- 



DAS SCIENCLVS E LKTTRAS. 481 

tral, purcjue o seu inaximo brilho se apresciitara com dccli- 
iiacoes auslraes comprehendidas entte 14 e 23 graos. 

Em 23 de junho, o sr. Dieu descobriii, no obscnalorio 
de Paris, um novo comela, cujos elemcntos parabolicos, cal- 
culados pelo sr. Villarceau sobre trcs observacocs fcilas cm 
24, 2o e 2G de junho, sao os seguinles : 

Passagem no perihelio, julho 

de 18o7 17,98148 T. M. de Paris. 

Distancia perihelia 0,3674416 Ig. = 9,:i65'l()SS 

Long, do nodo ascendenle . 23" 44' 1 6", !jj Equinox, me- 

Long. do perihelio lo7 o3 37 ,0} dionol.^de 

Inclinacao 121 4 52 ,4) Jan. 1857. 

brilho do cometa, segundo o sr. Villarceau, tendia a 
crescer ale ao meio de julho, descendo depois rapidamcnle 
ale agosto. A duracao da rcvolucao do novo comela pode 
calcular-se em qualro seculos proximamenle. 

Pouco tempo depois , na nolle de 28 a 29 de julho de 
1857, mesmo observador, o sr. Dieu, enconlrou na cons- 
lellacao da Girafa um novo cometa de luz fraca, sobre o qual 
se chamou, por avisos lelegraphicos, a allencao dos obser- 
valorios de Roma, de Florenca e de Berlin, que lodos con- 
Iribuiram com as suas observacoes para se calcularem os 
elemenlos da curva que o novo astro descreve. Os elemen- 
los parabolicos do novo cometa sao : 

Passagem no perihelio , a- 

gosto de 1857 .... 23,53257 T. M. de Paris. 
Dislancia perihelia .... 0,7500503 Ig. = 9,8750904 
Long, do nodo ascendenle . 201" 32' 3",4 jEquinoxio me- 
Long. do perihelio .... 21 3 19 ,7} dio no 1 ." de 
Inclinacao 32 22 58 ,2] jan. 1857. 



482 ANNAKS 

No obscrvatorio de Gollinguc, o sr. Klinkerfues, no dia 
20 de agoslo, acliou lambcm urn cometa na coiislellacao da 
Girafa, cujos clemenlos o sr. Villarceau calculou, c sao os 
seguinles : 

Passagem no perihelio, se- 

tembro de 1857 . . . 30,80870 T. M. de Pan's. 

Distancia perihelia .... 0,o6o3o()8 Ig. = 9,7o2;{22G 
Long, do nodo asccndenlo . 15** 11' i2",0 jEquinoxio me- 

Long. do perihelio .... 139 49 10 ,9) dionol.°de 

Inclinacao 124 4 10 ,2) Jan. 1857. 



Esle conicla apresenla-sc como uma larga ncbulosidade 
de forma circular, e tendo uma condensacao apreciavel de 
luz no cenlro. Ac6rca d'elle faz o sr. Villarceau notar algu- 
mas circumslancias que merccem citar-se. A primeira e a 
analogia da sua orbita com a dos dois comelas que appare- 
ceram, um em 1743 e o oulro em 1808, o que leva a sup- 
per que um mesmo aslro, apparccendo uas duas epochas ci- 
tadas e em 18o7, deu assumplo para as obscrvacoes dosas- 
tronomos, A segunda e a similhan^a da Irajectcria d'estc co- 
meta, descoberto por Klinkerfues, e o comela primeiro, dcs- 
coberlo pelo sr. Dieu , similhanca que, a nao ser fortuita , 
podcria levar a admitlir « que os comelas 111 e V de 185*7 
(os dois acima cilados) esliveram anleriormenle reunidos, e 
se separaram depois como nos nossos dias succedeu ao co- 
meta de Biela. » 

— Ao passo que cresceu, com as observacoes dos aslro- 
nomos, numero dos comelas , augmentou lambem o dos 
planetas. sr. Goldschmidt annunciou a Academia das 
Sciencias de Paris a descoberla de dois planelas, o 44.** e o 
45." do grupo dos pequenos planelas. Esle observador, que 
enriqueceu ja os calalagos aslronomicos com sele planelas 



DAS Sr.lENCIAS E LETTRAS. 483 

novos , dirigiu-se ao illustre Humboldt para dar noine ao 
44." planela, que recebeu o de Nysa. 

— sr. Chacornac, aslrononio do observatorio de Pa- 
ris, publica um importanlissimo Alias Eclipiico , que deve 
fornecer a mais conipleta descripcao do ceo eslrellado que 
ale hoje se teni publicado. N'uma nota, que acompanhou o 
tcrceiro fasciculo d'esle Atlas , apreseiitada a Academia de 
Pan's, auctor indica a imporlancia d'esta publicacao. Se- 
gundo essa nota o Atlas Eclipiico, abrangendo ate asestrel- 
las de 14." grandeza, podera conter 342.000 estrellas. N'estc 
terceiro fasciculo encontram-se, como nos outros, indicadas 
rauitas estrellas variaveis, e outras que desappareceram do 
ceo. 

Enire as variaveis, o sr. Chacornac chamou a altencao 
sobre uma estrella , a variavel de Koch, que tern a singu- 
laridade de conservar a c6r vermelha quando esta na sua 
minima grandeza apparente , o que e um phenomeno niuito 
raro. 

N'uma das cartas contidas n'este fasciculo, acham-se com- 
prehendidos espacos do ceo, onde nao ha estrellas de gran- 
deza superior a decima-quarta ; estes espacos que se alTigu- 
ram como buracos negros no meio do c6o estrellado, quando 
sao observados com um inslrumento de grande alcance, es- 
tando pura a alhmosphera, descobre-se que eslao esmaltados 
de pontos luminosos que successivamente apparecem e se 
apagam , formando assim um dos mais bellos espectaculos 
que astronomo pode admirar. 

GEOLOGIA. E PHYSICA DO GLOBO. — CStudO gCOlogicO da 

Europa, o estudo da edade relativa dos terrenes que formam 
esla parte do globo acha-se hoje muito adiantado , nao e 
comtudo possivel tracar uma carta geologica conipleta da 
Europa seni se completarem as obscrvacoes dc alguns dos 
paizes que , por circumstancias desgracadas , cstivcram por 
muitos annos scm actividadc scientifica. Infelizmente as duas 



484 ANNA.ES 

nacuos (la Peninsula foram das que nienos sc occui)aram , 
por nuiilos annos, dos Irabalhos scienlilicos, que consliUieni 
a nielhor base do progresso civilisador que anima e fecunda 
as socicdades mndtM'nas. K, porOni, de esperar que a IIcs- 
panha e Porlugal saibam cnifim rccuperar o tempo perdido, 
e occupar o logar que a sua posiciio gcographica e os sens 
recursos naluracs Ihe eslao marcando na Europa. 

Em Ilespanha os esludos gcologicos viio progrcdindo, e 
cm poucos annos aquelle exlenso e rico terreno sera scien- 
tificamcnte conhecido. Em Porlugal uma commissao do ho- 
mens muito compelentcs percorre aclualmcnte as provincias, 
e recoihe os documentos necessarios para se poder fazer em- 
fim com sisudez e cxactidiTo a nossa carta geoiogica. 

Enire os Irabalhos feilos sobre a geologia da Ilespanba 
merece cilar-se uma nota dos srs. de Verneuil e Collomb 
acerca das montanhas do reino de Murcia e fronlciras d'An- 
daluzia. N'esta nota vem indicadas as alturas principaes d'es- 
tas montanhas dcterniinadas pelo baromotro. Toda a parle 
meridional da Hespanha, scgundo eslcs geologos, se compoe 
de Ires cadeias dc montanhas, que se eslendem de Est-Nor- 
deste a Ocste-Sudueslc. Ao Norte a cadeia de montanhas 
pcrtence ao systcma siluriano inferior ; e a Serra-3Iorena , 
que vem lerminar no cabo de S. Vicente, em Portugal, a 
qua! OS depositos paleozoicos compoem inteiramente, domi- 
nando osquartzites e os schistos argilosos, interrompidos por 
porphyros e granitos. Ao Sul d'esta cadeia enconlra-se im- 
mediatamenle outra, composta de terrenos secundarios e ter- 
oiarios niais ou menos calcareos. Seguindo o litoral do Medi- 
(crraneo, outra linha de montanhas, que varios auctorcs jul- 
garam ser da ^pocha siiuriana, mas que os srs. de Verneuil 
c Collomb consideram, em relaclTo aabundancia de calcareos 
dolomias e a auscncia de massas granilicas que ahi sc no- 
tam, como sendo da niesma nalureza que a seguoda cadeia ; 
lendo por^m os terrenos sofTrido uma alteracao profunda pela 



D\S S('.IENr.l\£. E I.F.TTRAS. 48.') 

accilo melamorphica , rcsullado das rochas eruptivas que 
atravcssaram e modificaram os deposilos slratificados. 

— A lUilidade das cartas geologicas e perfeilamente re- 
conhecida por lodos os paizes civilisados , e muitas nacOes 
da Europa possuem ja a carla geologica do seu torritorio ou 
se occupam em a confeccionar. As cartas geologicas ordina- 
rias, por(5m, indicam so os terrenos que se acham immedia- 
tamente a superficie do solo ; mas pode ser utJl conhccer 
tarabem a iialureza e a forma dos terrenos que constituem o 
sub-solo, sobre tudo nas localidades onde se acham conslrui- 
das importantes cidades, e isto so podc ser indicado u'uma 
carta geologica snblerranea feita pelo systema adoptado pelo 
sr. Delesse. 

sr. Delesse, que Iracou a carla geologica subterranea 
de Paris, adoplou em cada andar geologico uma camada bem 
caraclerisada e facil de enconlrar em todas as escavacoes e 
furos artesiauos ale hoje praticados, e delerminou para essa 
camada as colas de nivel nos pontos conhecidos , referidas 
a urn piano siluado 100 metros abaixo do nivel do mar ; 
descrevendo depois as ondulacoes, pelo systema das curvas 
horizontaes calculadas a dislancia de 10 metros, e dando a 
essas curvas a cor representaliva da natureza do terreno de 
que ellas tracam a superficie, o sr. Delesse conseguiu fazer 
uma carta que da perfeita id6a do sub-solo de Pan's, sobre 
qual asseula o terreno de transporle em que aqnella cidade 
se acha edificada. 

— Uma das curiosidades mineralogicas do Norte d'Africa 
c mannore onyx da provincia d'Oran ; marmore trans- 
lucido da mais bella venacao , e eslimado como substancia 
apropriada para a confoccao de objectos d'arle. A origem 
curiosa d'esle marmore onyx foi objecto d'estudo do sr. Roy. 
Segundo este observador, os raarmores onyx, sao depositos 
recentes devidos a fontes thermaes muito carregadas de aci- 

. do carbonico. Asaguas carregadas de acido carbonico, atra- 



48G ANNAES 

\cssaiulo OS l(!rronos calcarcos, dissolvcram grandc quanli- 
(ladc d'esla subslancia : chcgando ao ar cstas aguas soffrc- 
ram rapida cvaporaciio, dc que resullou formarcm-se dcpo- 
sitos calcareos. Da scparacao dc uma porciio consideravel de 
calcarco resullou ficar o rcsto dissolvido n'um cxcesso dc 
acido carbon ico, c este reslo so se deposilou pcla concenlra- 
cao do liquido, coiisequencia da evaporacao, e deposilou-se 
no cslado Iranslucido, no estado de mannore onyx. N'esles 
marmores podem v6r-se os indicios da influencia que leve 
nos depositos a intensidade com que a evaporacao se fez nas 
difTerentes eslacoes, e ate nas diversas horas do dia. 

PHYSicA. — estudo da correlacao, que exisle enlre as 
differentes forcas physicas que acluam sobre a materia, me- 
rece, e com muita razao, occupar a atlencao dos homens de 
sciencia, porque so elle pode conduzir ao conhecimento ca- 
bal dos phenomenos physicos que se eslao constanlemente 
passando na natureza, e que, apparenlemenle, parecem de- 
vidos a accao de agenles de. diversas naturezas. Ja n'esla re- 
visla tcmos dado nolicia de Irabalhos importantes que levam 
a considerar o calor, a electricidade, o magnetismo etc., co- 
mo manifeslacoes diversas de uma causa talvez unica, e que 
demonslram nao haver na natureza perda de forca , assim 
como nao ha perda de materia , mas ha so transformacoes 
que nem scmpre sao faceis de apreciar e medir. sr. So- 
ret, n'um trabalho « sobre as variacoes de intensidade que 
soffre uma correnle electrica quando produz um trabalho 
mechanico », eslabeleceu principios os quaes nao so podem 
servir para esclarecer o problema da correlacao das forcas, 
mas sao da maior imporlancia no estudo da electricidade 
considerado como forca applicavel ao movimenlo das ma- 
chinas. 

« Quando uma corrente electrica conlinua, diz elle, len- 
de a produzir um movimento relative de duas pecas de um 
apparclho , se cslas duas pecas se deslocam, ccdendo a ac- 



DAS SGII^XCIAS E LFTtraS. ,{87 

cao d'essa correnle isl„ o, so se produz um Irabalho me- 

IZT, ' """' "'"" *""'""■"'<' ''■""^»Me 
^ da cmnmcm qnamo esle movimmto se cffeclua ; invcrsa- 
™cnle q„a„do se ol„iga es.as d„as pccas ! ^om,^ JZ- 
v-mento opposlo aq„o!le que as forcas cleclricas Icndem a 
impnn„r-li,es, is.o e, se o h-abalho mechanieo e nega vo 
observa-se augmento d'inlensidade da correnle » ' 

movfrl" T" '""'""' "'''"" P"^ ''"^''i"^^ "'"^'-'"a em 
lensidade „a correnle quando se altrahem on repellera as 
pecas do apparclho, debai.o daaceao da eleclricidade Esle 
Phcomeno pode cxplicar-se pelas correnles de induccao, o, 
a P lescnca da correnle raotora desinvolve no proorio con- 
ucor, correnles que destroem parte da accao dL c - 
r nie prmcpal Numerosas experiencias dcmonslram a ver- 
dade da proposifjo do sr. Sorel. 

Se uma machina movida por um ,„olor eleclrico for 
obngada a lomar um movimenlo inverso d'aquelle que ella 
naluralmente deve tomar, islo e, se se der a velocid de 
-ch,„a um valor negalivo, seguir-se-ba que a co™, 
mductao, que o sr. Jacob! cbamou contra-oorrenle, se or- 
»ara do mesmo senlido em que aclua a correnle nalural 
do que resullara o ser a correnle lolal mais forte n'cste ciso 

tcTicas' !:""/'' '" """"'' ''""'''' P«™ - "-ehinas 
f la oirr "'' "" ''" """'' """'™'' "30 se mani- 

tssas 1 *^'™»-.'J"«'>'i» «« faz andar a machina as 

mo r^otrT'' '""" """' """' 'i"'"^' ' »achina se 
mo.e no senbdo nalural. Esla divergeneia enlre a theoria e 
a expenenca resulla das correnles eleclricas, nosappareho 
e <,e empregados, nao serem continuas, mas ,c em - 
cessivas e rapjdas inlerrupcoes. 

Numerosas experiencias* provan, que ha uhm grande per- 

ro:uo I.-OuTinsoDK iHoT.-i.' c.l\sse. 3'> 



188 ANNVUS 

da do forca em consc(iuencia do se enipregareni correnles 
dcsconliiuias nas machinas clcclro magnelicas ; o que esta- 
belece uma analogia com as machinas de vapor ordinarias. 

— IS'uma Memoria importantc, dcbaixo do ponlo de vista 
da correiacao das forcas, o sr. Favrc mostrou « que urn Ira- 
ballio mcchanico (elevacao de um peso a uma cerla altura) 
produzido por uma correnle electrica e sempre acompanhado 
do um gaslo de calor lirado do calor total que produzem as 
accOes chimicas da pilha electrica. » As experiencias que 
provam este facto sao em extremo delicadas, e mal se podc 
dar d'ellas idea n'uma curta rcvista. Basta dizer que o sr. 
Favre, por mcio de calorimetros perfeitos, mediu a quanti- 
dade de calor produzida pelas accoes chimicas de uma dada 
pilha durante a transformacao de 1 atomo de zinco cm sul- 
fato de zinco ; mediu depois o calor nas mesmas circumstan- 
cias, mas estando a pilha em communicacao com o electro- 
motor, sem este levantar p6so algum, islo e, sem fazer tra- 
balho mechanico , e achou que o calor produzido na pilha 
e no electro-motor dava uma somma de algumas unidades 
apenas inferior as achadas na primeira experiencia , o que 
prova que a differenca entre o trabalho motor e o trabalho 
existente e pouco consideravel. Fazendo depois com que o 
electro-motor levantasse um peso por meio de um systema 
de roldanas, achou o sr. Favre que a quanlidade de traba- 
lho resistente, avaliado em calor pelos calorimetros, era 308 
unidades de calor inferior a quanlidade de trabalho motor 
desinvolvido pela accao chimica na pilha, o que mostra que 
ua produccao do trabalho mechanico houve consumo de 
calor. 

— sr. Lissajous emprendeu uma serie de experiencias, 
muito interessantes para o estudo das vibracoes sonoras, por 
meio da observacao, feita pela vista d'essas vibracoes ; isto 
c, sr. Lissajous transformou o phenomeno acustico das vi- 
bracoes sonoras n'um phenomeno optico perfeitamente dis- 



DAS SCIENCIAS E LETTllAS. 480 

Undo, e rigorosamente observavel, tornando assim os sons, 
por assim dizer, visiveis. 

Os corpos, vibrando, produzem os sons ; essas vibracoes 
sao deslocacoes , a maior parte das vezes muilo pequenas 
para que os olhos as possam distinctamenle pcrceber ; ora, o 
sr. Lissajoiis tratou de as tornar distinctas por meio de ap- 
parelhos engenhosos. Vejamos como elle conseguin esta 
transformacao de um phenomeno acustico n'um phenomeno 
optico. 

Quando um objeclo se desloca dianle da lente objectiva 
de um microscopio, a sua imagcra soffre uma deslocacao que 
microscopio arapliflca. Se, em vez de se mover o objeclo, 
for a objectiva posta em vibracao , a imagem apresenlara 
deslocacoes apparentes, apesar do objecto feslar fixo, de mo- 
do que observador podera julgar que o objecto tem movi- 
mento. Se a objectiva for formada de duas lentes em vez de 
uma , e estas oscillarem ambas em sentidos diversos , con- 
servando-se os pianos de oscillacao perpendiculares ao eixo 
do microscopio, entao o olho do observador vera o objeclo 
com um movimenlo apparente, que nao sera senao a resul- 
tanle dos movimentos das duas lentes. Se o objecto obser- 
vado ao microscopio, cujas objectivas vibram, f6r um ponlo 
luminoso muilo brilhanle, e essas objectivas tiverem rapidas 
vibracoes, entao o observador vera , nao o ponlo luminoso 
em movimenlo, mas uma linha lurainosa, como succede quan- 
do se poe dianle dos olhos um ponlo luminoso em rapido 
movimenlo. Dando ao apparelho oplico as disposicoes de um 
microscopio solar, as linhas luminosas hir-se-hao desenhar no 
alvo ccnvenienlemente disposto. Este syslema que fica indi- 
cado e que serviu ao sr. Lissajous para transformar o phe- 
nomeno das vibracoes sonoras n'um phenomeno luminoso 
perfeitamenle dislinclo. Basta para apreciar a idea do sys- 
tema indicar uma das experiencias. 

Ouerendo comparar as vibracoes de dois diapasocs, dis- 

32* 



490 ANNA^KS 

poe-se urn horizonlalmenle prcnilcndo a uma das suas has- 
tes uina lentc, c ;i oiilra um pcsosinho que faca cquilibrio ; 
ao oulro diapasao da-se uma posicao vertical, e sobre uma 
saliencia de uma das suas hastes faz-se cair um rayo intenso 
do luz ; dispondo as coisas de modo que csle ponto lumi- 
noso e a lente eslcjam a convenientc dislancia, e vibrcm em 
linhas perpcndiculares , e pondo os diapasoes em vibracao 
sonora obtem-se sobre um alvo a curva das vibracOes. Este 
systema engenhoso pode applicar-se as cordas e a todos os 
inslrumentos que produzem sons. trabalho do sr. Lissa- 
jous mereceu a approvacao da Academia franceza. 

— sr. Baudrimont chamou a altcncao dos physicos 
sobre um curioso phenomeno de acuslica, que mostra a dif- 
ficuldade da Iransmissao dos sons a traves dos liquidos nao 
homogeneos. Quando um copo esla cheio de um liquido as 
suas paredes vibram pelo choque e dao um som claro , se, 
porem, a traves do liquido passarem bolhas de gaz em quan- 
tidade consideravel, entao o copo perdc a sonoridade, e da 
um som baco, como se estivesse rachado. Se, em \ez do 
gaz, liquido tiver em suspensao um corpo pulverulenlo, 
ere ou cinzas, por exemplo, dar-se-ha tambem no copo que 
conlem a perda de sonoridade. 

PHTSioLOGiA. = N'uma Memoria de 1853 o sr. Claudio 
Bernard annunciou a descoberta de uma nova funccao do fi- 
gado, a de produzir uma subslancia saccarina. Segundo essa 
Memoria, a materia saccarina que se encontra no homem e 
nos outros animaes pode ter duas origens, uma interna, ou- 
tra externa ; esta depende da natureza dos alimenlos , mas 
aquella, a interna, e o rcsultado de uma funccao normal do 
figado. Depois o sr. Bernard, estudando esta funccao glyco- 
genia nos carnivoros (por ser o caso mais simples pela na- 
tureza dos alimentos nao saccarinos) tratou de provar que 
este assucar formado no figado resultava , como o assucar 
dos vegetaes, da transformacao em assucar de uma materia 



n.\s scii'NCiAS E Lu:rTR\s 491 

amilacea scgregada pelo figado, em tudo comparavti ao 
amidon. 

N'um trabalho do mez de junho d'este anno o sr. Pe- 
loiize procurou analysar as propriedades chimicas e compo- 
sicao d'essa materia glycogenia , que apresenfa tao inlimas 
relacoes com o amidon, e achou : 

l.** Que a materia glycogenia, purificada pela potassa, 
se transforma peia acciio do acido nitrico conccnlrado em 
xijloidina, como o amidon vegetal, e em acido oxalico pela 
influencia do mesmo acido diluido. 

2." Que es!a materia da pela analyse: 

Carvao 39,8 

Hydrogen io 6,1 

Oxygenio oi,! 



100,0 

que corrcsponde a formula 

G'- IV 0'' 

sendo a do amidon \egelal, tralado lamhem pela potassa 

C- U" 0^' 

As ideas do sr. C. Bernard sohre a funccao glycogenia do 
iigado nao sao ainda geralmente rccebidas por todos os physio- 
logislas. sr. Sanson, cliefe dos trabaUios chimicos na Esco- 
la Veterinaria de Tolosa, procurou provar, que no sangue da 
circulacao geral e no da circulacao abdominal, no tecido dos 
principaes orgaos, e parlicularmente no figado, baco, rins, 
polmao e musculos, exislc uma materia inteiramente analo- 
ga a dextrina , isto c, capaz de se transformar em glycosc 



i9i ANNAES 

pela acciio da diastase, D'aqui o sr. Sanson lira a conse- 
quencia de que o assucar se forma na econoniia animal pela 
reaccao cliimica puramenlc dos elemenlos conlidos no san- 
gue, principalmcnle da diastase sobre a dextrina, principios 
recebidos pela alimentacao. 

sangue desfibrinado, e abandonado, a si proprio, con- 
tem, no fim de quarenla e oito horas, assucar fermentesci- 
vel, quo moslra, segundo o sr. Sanson, que n'elle exis- 
tiam OS principios proprios para formar esse assucar, a si- 
milhanca do que se forma nos vegelaes. Esles principios sao 
OS absorvidos nos orgaos digestives ; e o figado nao tera a 
faculdade de segregar nem assucar nem materia glycoge- 
nia , mas faz so com que o contacto da dextrina e diastase 
seja mais prolongado , porque n'elle a circulagao do sangue 
se executa mais lentamenle do que nos tecidos dos outros 
orgaos. 

Para responder as objeccOes do sr. Sanson, o sr. C. Ber- 
nard affirmou, que experiencias feitas sobre caes, exclusiva- 
mente nutridos de came, mostram nao se encontrar, n'esle 
caso, amidon animal senao no tecido do figado. Quando os 
alimentos ministram a economia animal assucar, como suc- 
cede a coelhos sustentados a cenouras , ou quando Ihe mi- 
nistram amidon soluvel, eslas subslancias enconlram-se nos 
lecidos e no sangue d'estes animaes, sem que por isso deixe 
de se encontrar no figado a materia glycogenia que Ihe e 
propria. 

Esla formacao de materia saccarina no figado e por tal 
forma um acto physiologico, que desapparece debaixo da iu- 
fluencia das doencas, e principalmente da febre. 

Na nota do sr. Pelouze sobre a materia glycogenia do 
figado, a que acima nos referimos, aflirma-se que a substan- 
cia exirahida de outros orgaos, que nao o figado, e que o sr. 
Sanson suppoe materia glycogenia, e muilo difTercnte d'csta, 
porque nao apresenta as mesmas propriedades chimicas. 



DAS SClEiNCIAS K LETTRAS. 4i)li 

No meio do debate, que se estabeleceu iicerca da glyco- 
genia do figado, oulro observador veio aprcsentar a Acade- 
mia de Franca o resultado das suas observacoes , que esla 
em perfeito acordo com as opinioes do sr. Bernard. sr. H. 
Bonnet aflirma que nao ha assucar no sanguj da veia porta 
de urn animal nulrido de carne, mas sim no figado e veias 
hepalicas : que o assucar se forma no figado depois da mor- 
le : que nao ha assucar no sangue da circulacOo geral em 
animaes que so comem carne : nos animaes que comem fe- 
cula nao ha assucar na veia porta quando lermina a di- 
gestao. 

sr. C. Bernard linha affirmado, n'um dos seus traba- 
Ihos, que o figado nao so linha a faculdade de produzir assu- 
car durante a vida dos animaes, mas que aiuda conservava 
csta faculdade algum tempo depois da morte. Esta proprie- 
dade do figado, que o trabalho do sr. H. Bonnet parece con- 
firmar, foi contestada n'uma Memoria do sr. L. Figuier, que 
altribue o inexacto resultado oblido pelos outros experiinen- 
tadores a nao haverem estes feito a lavagem perfeita do fi- 
gado antes de o submetterem a experiencia : os factos cilados 
pelo sr. Figuier parecem-nos dar razao a este observador. 

E este estado da interessante questao da glycogenia do 
figado, sobre a qual, como se v6, ainda nao ha principios ge- 
ralmente recebidos, e definitivamenle exactos na sciencia. 

BOTANiCA. — Os estudos dos naluralistas sobre as pro- 
priedadcs das plantas, e das subslancias n'ellas contidas, a 
determinacao exacta das especies ufeis, teem enriquecido no- 
tavelmente a sciencia e a industria n'este ultimo seculo. En- 
tre as plantas cultivadas ja pelas suas propriedades ou va- 
lor industrial, muitas eram ainda mal conhecidas na Euro- 
pa, que hoje sao perfeitamente determinadas, outras nao cul- 
tivadas teem fixado a attencao dos naturalistas e industriaes, 
e sao ja objccto dc imporlantes exploracoes. Os progresses 
rapidos da industria dos tecidos ha side causa de se procu- 



491 ANNAES 

rarem com afinco novas planlas textis , e pode esperar-se 
que em breve ao algodao, ao linho, ao canhamo, se poderao 
addicionar outras de nao menor valor. Com o desinvolvi- 
mento da riqueza e o aperfeigoamento do g6sto tcm crescido 
a necessidade de variar as cores na tinturaria , e de achar 
cambiantes novos, novas tintas que possam, na mao de ver- 
dadeiros arlistas, dar aos eslofos o maliz das flores ; e o nu- 
mero das substancias tinluriaes lem crescido, e outras, nial 
conhecidas na Europa , serao brevcmenlc cullivadas, pelo 
menos nos paizes raeridionaes. 

Entre as malerias tinluriaes que teem merecido a atten- 
cao dos lintureiros , notava-se a tinta conhecida pelo nome 
de verde da China , extrahida , segundo se sabi'a, de uraa 
planta de especie nao conhecida. sr. Decaisne fez sobre 
este objecto curiosas indagacoes , auxiliado pelos viajantes 
francezes, das quaes resulla que o verde da China (La-kao) 
e extrahido do duas plantas, quo os chins distinguem muito 
bem , e que pertencem ao genero Rhamnus (genero a que 
pertence tanibem o amieiro negro), unia o R. chlorophorus, 
oulra R. ulilis, sendo a primeira muilo similhanle a uma 
especie europea, o R. linctorius. 

— A nalureza deu a lodas as especies vegelaes orgaos 
de reproduccao ; nas plantas mais perfeilas, as fhcenog arni- 
cas , esles orgaos encontram-se bem distinctos nas flores , 
raas nem em todas ellas estiio estes dispostos do raodo me- 
Hior para ter logar a fecundacao. A nalureza, n'esle caso , 
pareee haver combinado tudo de modo que as especies se 
nao extingam por falta do ado mysterioso da fecundacao ; 
e, quando os eslamcs e o pestilo estao collocados de modo 
que p6 fecundanlc, o pollen, nao pode naluralmenle cair 
sobre o orgfio que conlem os germcns de novas planlas, en- 
tao OS involucros, a corolla e o calice, pelos sens movimen- 
tos ou pela d-sposicao das pecas que os consliluom , auxi- 
liam a fecundacao. 



DAS sciEKciAS li li:ttr\s. 49,') 

Os curiosos phenomenos dos amores das planlas teem 
sido analysados por muitos bolanicos, desde que Camerarius 
tornou bem evidente a existencia dos sexos n'esles seres or- 
ganisados , mas nem tudo lem sido ainda observado , e os 
trabalhos dos naturalistas estao todos os dias descobrindo 
novos factos que dsmonstram a simplicidade com que a na- 
tureza consegue os resultados mais maravilhosos que imagi- 
nar se podem. sr. Fermond occupou-se em estudar a in- 
fluencia dos perianthos (calice e corolla) na fecundacao , e 
encontrou alguns phenomenos curiosos de que fez assumplo 
de uma Memoria. Nas iridaceas, por exemplo, onde as an- 
theras sao dispostas de modo que o pollen cae para o exte- 
rior da flor, sao as pecas do periantho guarnecidas de pel- 
los , que, ao murcharem, levam o p6 fecundanlc ao orgao 
feminino. Nas malvaceas 6 a corolla ainda viva que, ao fe- 
char-se cada noite , conduz o pollen sobre os stigmas. Ou- 
tras vezes , como nos amores perfeilos , {viola tricolor) as 
antheras deixam cahir o pollen antes da flor abrir, e entilo 
a corolla , que recebeu esse p6 fecundanlc, cresce e leva o 
irapulso vital ao orgiio feminino. Seria longo citar todos os 
factos consignados no frabalho que analysamos, estcs bastam 
para provar o valor dos estudos d'esta natureza. 

— As plantas para viverem carecem da accao da luz do 
sol, principalmente aquellas que se apresentam com uma or- 
ganisacao mais completa, e cujos orgao novos (caules e fo- 
Ihas) tomam a cor verde. A c6r verde dos vegetaes e devida 
a uoia materia particular, cuja formacao acompanha a de- 
composicao do acido carbonico da athmosphera, decomposi- 
cao que e um dos principaes ados nutritivos das plantas, e 
que so se pode fazer debaixo da accao dos rayos solares. A 
luz do sol nao e simples, nao e homogenca : um rayo de luz 
que atravessa um prisma de quartzo, por exemplo, divide- 
se ao sair d'elle em rayos mais ou menos desviados da di- 
reccao primiliva, mais ou menos refractos, e de cores diffe- 



4 J) (I AM*<AES 

rentes, as sele c6res primilivas. conjuncto d'estcs rayos, 
diversamente corados, que resultam da decomposicao da luz 
branca, consliluc o denominado cspeclro solar, como lodos 
sabem. As cures fundamcntaes sao : vermelho, cur de laran- 
ja, aniarcUo, vcrde, azul, anil, e violela. Esles rayos simples 
nao teem todos as mcsmas propriedades, mas produzem mais 
calor uns do que outros ; uns teem mais do que oulros in- 
fluencia nos phenomenos chimicos. A accao caioridca cresce 
nos rayos do espectro solar do \iolela para o vermelho, e, 
que 6 mais nolavel ainda , estende-se alem do rayo ver- 
melho, onde ja n5o ha luz visivel, mas decrescendo. A ac- 
cao chimica dos rayos do espectro cresce no sentido inverso 
da accao calorifica, e tambem ha rayos invisiveis, alem do 
violeta, que gozam da propriedade de decompor, os saes de 
prata, por exemplo, isto e, rayos com accao chimica. A de- 
composicao do acido carbonico nas planlas , e a produccao 
da materia verde e um acto chimico, e o sr. Guillemin quiz 
v6r se OS rayos ultra-violetas podiam tor n'esle acto a mes- 
ma influencia que tcm a luz solar nao decomposta , a luz 
branca. 

Collocando planlas novas, com as precaucues necessarias 
para que a luz diffusa nao actuassc sobre ellas, debaixo da 
accao dos rayos ultra-violelas, o sr. Guillemin observou que 
ellas tomavam a cor verde, menos intensa, comtudo, do que 
a das planlas poslas nos rayos violetas , anil e amarcllo , 
sendo n'esles rayos amarellos que se da a maxima accao. 
Nao so OS rayos ultra-violetas teem a propriedade de provo- 
car a decomposicao do iicido carbonico nas planlas produ- 
zindo materia verde, senao tambem a de obrigarem as plan- 
las a inclinar-se consideravelmente para a luz. 

— Antes de terminar a revisla dos principaes trabalhos 
de botanica, citaremos ainda as experiencias curiosas do sr. 
Gh. Martins. A geographia botanica , sciencia moderna que 
tern fcito notaveis progressos , moslra que as cspecics vege- 



DAS SCIEJNCIAS li LETTRAS. 497 

laes se acham dislribuidas a superficie do globo segundo cer- 
tas leis, e occupam n'elle espacos ou areas de diversa gran- 
deza ; procurando umas os clinias quentes , oiitras os frios 
ou temperados, buscando umas os valles, oulras o cimo das 
alias montanhas. A temperatura, a humidade, a nalureza do 
solo sao as causas que principalmenle influom na deslribui- 
cao geographica das plantas, mas parece tarabem que houve 
para cada planla urn centro de creacao, d'onde depois irra- 
diou para todos os lados al^ cliegar aos limites alem dos 
quaes a sua vegelacao e fructificacao era impossivel por 
causa das accoes meteorologicas. Especies ha , porem, que 
apparecem em dois continentes diversos, em ilhas qu em ser- 
ras affastadas, scm que se possa explicar o raodo por que a 
nalureza fez a sua dessiminacao. Estes faclos singulares leem 
lido variadas explicacoes, e enlre oulras o Iransporle das se- 
menles por via das correnlcs do mar , que, corao se sabe , 
se encoiitram cnnstantemente em cerlas direccoes, em conse- 
quencia das differeiiles temperaturas da agua. 

sr. Ch. Marlins procurou reconheccr experimental- 
menle se esle meio de Iransporle podia ser o que espal basse 
assim em regioes aflasladas as mesmas especies : para isso 
observou primeiro se havia muilas semcnles que sobrenadas- 
sem na agua do mar , e depois se essas sementes resisliam 
por niuilo lempo ao conlaclo da agua salgada sem perderem 
a faculdade de germinar. Experimenlando sobre 98 especies 
de semenles, achou que d'eslas So fluctuavam, 39 iam logo 
ao fundo , e 3 linham aproximadamenle o mesmo p6so es- 
pecifico que a agua. 

Para conhecer a ac^ao da agua salgada sobre as semen- 
les, coUocou as mesmas 98 especies n'uma caixa onde a agua 
podia enlrar por furos convenienlemenle dispostos, e poz a 
caixa a flucluar presa n'uma boia. No fim de seis semanas 
41 especies eslavam lolalmenle podres, e das restanles so 35 
podcram germinar; enlre eslas, porem, conlavam-se 17 das 



498 ANNAES 

que , pelo seu p6so , nao nadam na agua do mar. V6-se, 
pois , que de 08 especies so 18 podcriam , por uin difficil 
coujuncto de circumslancias favoraveis, ser transportadas pe- 
las correntes marinhas. Como , porem, seis semanas basta- 
riam apciias para que as scmcntcs caminhassem uni curto 
espaco levadas pela corrente do mar , o sr. Marlins lornou 
a collocar ifagua as 34 semenles que resislirara a primeira 
experiencia, e viu que ao cabo de tres mczes so 9 eslavam 
ainda em eslado de gcrminar. 

Estas interessanles experiencias provam claramenle que 
se nao pode altribuir as correntes marinhas a exislencia das 
mesmas especies vegelaes em conlinenles e ilhas afiasladas, 
mas sim ao apparecimenlo simultaneo das mesmas especies 
em ccnlros distinctos de produccao, 

— As relacocs das planlas com a alhmosphera teem sido 
objecto do esludo de muitos physiologistas, reconheccndo-se 
por esse esludo que taes relacoes sao complexas e ainda in- 
complelamente conhecidas. As experiencias de Saussure po- 
zeram ha muito fora de duvida que as planlas , pelas suas 
paries verdes, absorvem o acido carbonico da alhmosphera, 
e, em iogar d'elle, exhalam oxygenio. Esle phenomeno, que 
se pode considerar como urn ado nutritive dos vegelaes , 
nao lem Iogar §enao debaixo da accao da luz solar. Ao passo 
que as planlas absorvem o acido carbonico e o decompoem 
nas suas partes verdes, oulro acto, mais propriamcnle res- 
piratorio, se apresenla , o da absorpcao do oxygenio, acto 
inleiramenlc egral ao da respiracao nos animaes. 

Sao estcs os faclos principaes da respiracao vegetal, con- 
siderados na sua maior generalidade , mas n'elles ha ainda 
muila obscuridade, muila incerleza que so a experiencia po- 
de esciareccr. 

sr. Corenwinder emprendeu algumas experiencias so- 
bre a respiracao dos vegelaes. Esle observador collocou plan- 
las fixadas no solo debaixo de campanulas por onde passa 



UAS S(;ilL\Cl\S K LKTTRAS. 499 

unia correntc de ar, de que depois se delermina o acido car- 
bonico. Primciro que ludo o sr. Corenwinder mostrou que 
solo exhala uma porcao consideravel de acido carbonico. 
Para conhecer se as plantas se apropriam d'esse acido car- 
bonico, experimentou, no apparelho descripto, o acido carbo- 
nico que existe no ar que passou sobre a planta durante oito 
horas de dia, e depois o que existe no ar que atravessou o 
apparelho depois de cortada a planta pelo pe , e achou re- 
sultados que moslram que nem todas as plantas absorvem, 
relativaoiente ao seu volume , quanlidades eguaes de acido 
carbonico , e que as plantas pilosas absorvem mais do que 
as outras; nao tendo , comtudo, logar o phenomeno sen2o 
debaixo da ac^ao da luz solar. 

JOAO Dl' ANDRADK CORVO- 



300 



ANNAKS 



OliSERVATORlO METEOROLOCICO DO INFAN 



RESUMO 



firociu. 


HAROME- 
TRO. 




riiF 


ilMOMF.Tl'.O. 

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Decadas. 


Milli- 
mclros. 




Graos 


cenlcsiraacs. 




dal." 

MWias . » 2." 

» 3/ 


757,14 
756,05 
756.35 


2i,43 

27,54 
22,07 


17,50 
16,80 
15.93 


6,93 

10,65 

7,0 '^ 


20,96 
22,21 
19.45 


31,48 

3i,8l 

20,62 


12,58 
10,05 
10.66 


Mediasdomcz 


756,51 


24,98 


16,77 


8,21 


20,88 


31,98 


11, '0 



iPrcssao. 
Maxima (das 4 ejwchas diarias). 760,60 cm 26 as 9 h. m. 

do mez. \ 

I Minima » 751,69 » 19 » 3 h. t. 

\ Variarao maxima 8.91 

Humidade. 
Maxima (das 4 cpochas diarias). . . 100 em 29 as 9 h. m. 

Minima » 37,5 » 13 » m. d. 

Variarao maxima 62,5 



DAS SClKISCfAS K LETTUAS. 

TE D. LUIZ, NA ESCOLA POLYTECHNICA. 



MEN SAL. 



f;oi 





PsrcHuo- 


UDtJGUA- 


ANEM6cn 


APllO. 


OZONOME- 


Sr.KENI- 
UADE 


^___^ 


METUO. 


PHO. 






Tno. 


DO (:P.O. 




Graodc 














hum id a- 


Allura da 


Riimos. 


Veloci- 
dado. 


Medias 


Med las 


o . 
l« to 


de do ar. 


agua plu- 






diur- 


diiirnas. 


•ii 


A 


vial. 


B 


C 


nas. 


A 




Por 100. 


Millime- 


Predomi- 


Kilomc- 


Graos 


Graos 






tros. 


nantcs. 


Iros. 


medios. 


medios. 






TOTAL. 










18,90 


70.19 


2,2 


q.SO.eNO. 


11,26 


5,7 


6,0 


24,79 


57,82 


5,9 


Vario, 


8,53 


4,3 


7,1 


18,96 


70,05 


9,6 


q.NO.cSSO. 


11,28 


5,7 


4,7 


20,88 


66,69 


17,7 


qq.SO.eNO. 


10,36 


5,2 


5,9 



3 A 

col 

e a / 



Temperaturas maximas e minimas alsolutos. 

gjAsombra 32,9 em 16 Ao sol 41,4 cm 16 

o i » 14,0 » 29 Na relva 7,3 » 26 

V Var. m 



max 18,9 



Var. max 34,4 



Irradiacao nocturna. Differenca media mcnsal do thermometro do minimo 

habitual ao da relva 5,67. 
Dias mais ou raenos venlosos: 3, 25, 26. 
Bias de chuva ou chuvisco: 3, 4, 7, 8, 9, 10,11, 19, 20, 21, 22, 24, 

25, 27, 30. 
Dias mais oumenosennevoados: 5, 13, 19. 
Nevoeiros em : 29. 
Trovoes em: 19,20, 21. 
Relampagos em : 9, 18, 19, 20, 21 . 

A. Deduzida das medias das 4 observacoes diarias. — B. Predomi- 
nantes dos rumos registados de duas em duas boras. — C. Sao os nume- 
ros medios dos kilomelros percorridos pelo venlo em cada hora. 

DIRECTOR GUILHEBME J. A. D. PEG ADO. 



:;02 Axwj'S 



VAUIEDADES. 



JLLUMINAgAO ELECTRICA. 

rez-se em Roma, ha pouco tempo, uma cxpcriencia nota- 
\cl sobre a luz electrica , com o fim de vcr se elia poderia 
servir a navegacao noctiirna do Tibrc e ti das costas dos Es- 
tados romanos. Empregou-se o apparelho do sr. Jaspar, de 
Liege, que sc havia coUocado, a ceo descoberlo, sobre a lorre 
do Capilo'.io. A corrente electrica, produzida ao principio por 
SO elementos do grande modulo de Bunsen, era tao forte que 
OS carvoes , tornando-se luminosos , estalaram. Reduziu-se 
entao o numero dos pares, A mais de 4.000 metres de dis- 
tancia, sobre o Monte-Mario, observou-se que as ondulacoes 
de um pequeno nevoeiro eram indicadas pela luz sobre uma 
parede visinha, e que a sombra dos corpos se projectava cla- 
ramente, ali, a uma distancia de S.OOO metres. 

zimborio do Vaticano, que dista 2.700 metres do Ca- 
pitolio, parecia illuminado pelo crepusculo da manha , e a 
220 metres da origem podia ler-se facilmente em um livro. 
Estas experiencias, e as que tiverara logar em Paris para al- 
lumiar os trabalhos nocturnos da construccao do grande ho- 
tel da rua de Rivoli, fazem prever os grandes resultados a 
que esta deslinada a luz electrica. 



'^^^> — 




ANNAES DAS SCIENCIAS 



LETTRAS. 



1.' CLASSE. 



CXg)o^ 



—^^^D^' 



■ — .oC 



ANNAES 



DAS 



SCIENCIAS E lETTBAS, 



PUBLICADOS DEBAIXO DOS AUSPICIOS 



ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS. 



SCIEKCIAS MATHEMATICAS, PHMAS, HISTDRICO-NAIDRAES, E MEDICAS. 



TOMO I. 

PRIMEIRO ANNO. 

NOVEMBRO DE 1857. 



5) 



LISBOA 

NA TYPOGRAPHIA DA MESMA ACADEMIA 

IQ58 



o — 




INDICE 



DOS ARTIGOS CONTIDOS N ESTE NUMERO. 



TRABALHOS APRESENTADOS A' ACADEMIA. 

PAG. 

RECONHEciMENTO geologico 6 hydrologico dos terrenos 
das visinhancas de Lisboa com relacao ao abasteci- 
mento das aguas d'esta cidade, pelo sr. Carlos Ri- 
beiro 503 

HYGIENE publica 514 

QUADRiFOLio balisUco 525 

REviSTA dos trabalhos chimicos 542 

REvisTA estrangeira. — Septembro e outubro . . . .553 



DAS SniENCIiVS E LFTTRAS. "JOS 



TRABALHOS APRESENTADOS A ACADEMIA. 



RECONHECIMENTO GEOLOGICO E HYDROLOGICO DOS TERRENOS DAS 

VISINFIANC4S DE LISBOA. COM UELACAO AO ABASTECIMEMO DAS 

AGUAS d'eSTA CIDADE, PELO SENHOR CARLOS RIREIRO. 



SEGIINDA PARTE. 

6.' SECCAO. 

CONSIDERAfOES IIYDROLOGICAS SOBRE AS AGUAS DO 
MASSICO OCCIDENTAL. 



(cONTrNUACAO.) 



^egundo gnipo do andar de Bellas. — Per baixo do 1." 
grupo do andar de Bellas sae concordantemenle 2.** grupo 
do mesmo andar, dislinclo do precedenle pelo sen caracler 
arenoso. seu liniite septentrional comeca nos basaltos que 
estao na divisoria das aguas das ribeiras de Carenque e de 
Odivellas ; passa 200"" ao N de Adabeja ; e dirige-se de E 
para ale a meia encosla N da monlanha do Suimo, d'ahi 
descahe para o SO , e passando ao N do Casal das Pedras 
Verraelhas e do moinho do Vicloriano , alravessa a ribeira 

Toaio I.-NovEMDRO DE 1857.-1,° Classe. 33 



?;0i ANN.vr.s 

(le Valle dc Lobos, dirigimlo-se, affaslailo 300'" do llio de 
3fouro, para Albarraqiie. 

Esle grupo, pelas divisorias que scparam a E as aguas 
para a ribcira dc Odivcllas, c a as que vao a ribeira de 
Rio dc Mouro , leni 8,5 kilomctros de comprimcnto por 1 
kilomelro de largiira media, on uma siiperficie de 8,5 kiio- 
mclros quadrados. A inclinaciio dos sens slratos e para S, 
em angulos variavcis de 4 a 20 e 30" , no cntanto, suppon- 
do que a media seja de 5°s6mcnle, conchic-so que tern iima 
possanca superior a 80"\ 

Esle grupo compoe-se de camadas bcm slralificadas dc 
gres grosseiros, de graos siliciosos e de oulras rochas, com 
pasla argilosa, allernando com camadas molles e impermea- 
veis de gres finos cinzenlos e variegados , com abundanle 
pasla argilosa , passando a argila, com leilos de gres finos 
amarellados, micaceos duros , dc que se fazem os bcm co- 
nhecidos rebolos de Bellas , empregados na culelaria ; na 
parle media e superior do grupo ha lambcm leilos de marne 
cinzenlo carbonoso, acompanhado de insignificanles porcoes 
de lenhilc. 

Algumas camadas de marnes e argilas com bancos de 
calcareo silicioso muilo duro, de cor vermelha acinzenlada, 
cslabelecem a Iransicao enire os dois grupos ; e inferior- 
menle a eslas ha inlerslralificada nos gres uma pequena as- 
senlada de 18™ de possanca se lanlo, composla de delgados 
leilos dc calcareo argiloso, amarello, fragmenlar, allernando 
com leilos marnosos ocraceos , involvendo muilas oslras e 
moldes de oulras conchas bivalves : esles leilos assenlam so- 
brc uma camada impermeavel de marne argiloso acinzenlado, 
com 0,5"' de possanca, c o grupo por elle formado passa 
ao N de Agualva, chega ao Alio da Charneca, e dirigindo-se 
pelo Casal das Pedras Vermelhas , ao N do Grajal, vai ao 
poco do Pimenla ; e d'ali , modificada nos sens caracteres 
pela accao melamorphica, segue ale ao Valle de Polvaracs, 



DAS Sr.IEXr.IAS F. LETTUAS. .'ifl.'J 

onde loma de novo os caracteres que Ihe sito proprios ; alra- 
vessa a lomba dos moinhos do Jardim , e prosegue para o 
ribeiro de Sapos ; coria o valle da ribeira de Carenque, pro- 
ximo ao Casal do Pelao , e continiia ale ao Casal da Fonle 
Santa , d'onde sobe ao Alto da Adabeja para lerminar em 
CQjilaclo com as rochas basallicas ; tendo descriplo uma li- 
nha sinuosa, delerminada pelos accidentes das camadas con- 
tiguas do mesmo grupo. 

caracfer mineralogico das rochas d'este grupo e bas- 
tante alterado em diversos pontos, pela accao ignea. Na mon- 
tanha do Suimo eslao as camadas de grds rotas por um af- 
floramcnlo de basalto, ' precisamente no contaclo com o 3.° 
grupo de calcareos , de que adianle darei conta ; porem a 
alteracao occorrida n'este ponto , e de pouca importancia. 
Os pontos onde a alteracao melamorphica e mais profunda 
e extensa sao : 1° Olival da Chamuscada a da Yenda 
Sficca aid ao valle de Polvaraes abaixo do poco do Lagar, 
occupando uma exlensao longitudinal de E para de per- 
to de 5'00"* ; 2." Valle do ribeiro da Espinheira ao S do 
Grajal subindo para a encosla do Casal da Charneca ; 3.° 
Alto da Ermida ao N do Casal do ribeiro de Sapos, ale 
ao Casal do Pelao, proximo do contaclo do l.** com 2.° 
grupo. 

Esla alteracao consiste na conversao das camadas areno- 
sas, em massas fendidas ou globulares homogeneas, cor de 
caslanha ou rosada , parecendo diorites em decomposicao , 
com pontos e mesmo crystaes brancos feldspathicos, passan- 
do no Casal de Pelao d diorite verdoenga. Na eslrada da 
Idanha para a Yenda Secca, a alteracao manifesta-se apenas 
nos slratos superiores dos grcs ; as camadas subjacentes con- 
servam os seus caracteres , inclusivamente as partes carbo- 

' E' no basalto d'esta montanha onde sc exploraram e ainda se 
encontram as granadas de que duo nolicia alguns escriptores. 

33* 



;;0G ANNAKS 

nosas, quo a accao ignea nao ciiogou a fazer evolvcr inlci- 
ramonlo. 

Alcm d'eslas modificacOes ha oulras occasionadas por dy- 
kes formados nos scus aflloramcnlos por iima rocha dc aspc- 
cto similhantc ao das argilas niolamorphicas, os quaes atra- 
vessain as camadas de gres em parte acompanhados de abun- 
danle ferro ocraceo , geodico. Eiiconlram-se nniilos d'esles 
dykes, inclinando 60 a TO" para E c para 0, lendo de O^jS 
a 1"" de possanca V A primeira vista pareeem porcOes das 
rochas contincntcs inlroduzidas para o interior das fendas e 
alteradas pela accao ignea , loraando uma eslruclura schis- 
toide e em paries porphyroide , mas a observacao mais at- 
tenla mostra que modificaram as camadas em volta dos af- 
(lorainenlos respcctivos , nao so elevando-as mas alterando 
um pouco seu caracler mineralogico. 

Ha ainda outras modificacoes nas camadas d'este grupo, 
com relacao a sua continuidade, como a falha da ribeira do 
Jardim , que elevou uma porcao das camadas da raargem 
direita, sobre as suas correspondentes da esquerda : porem 
tanlo esle accidente, como lodos os mais que deixei citados, 
reialivamenle as rochas d'este grupo, exerceram uma influen- 
cia puramcnlc local, por causa da sua pcquena extensao, e 
que cm nada prcjudica ao resultado de um systema geral 
de exploracao d'aguas, execulado nas linhas mais baixas do 
solo. 

numero das nasccnlcs , fontes , e pocos estabelecidos 
n'eslc grupo , sobe a scssenta ; determinar porem o numero 
c siluacao dc lodas as camadas aquosas n'elle contidas pela 
posiciio que occupam estes pocos e nascentes, e o que, por 
emquanto , nao julgo possivel, por diversas consideracoes : 
Em 1." logar porque o raetamorphismo d'esles gres, posto 

' Mcncionarcmos os dylies dos Casaes da Ribeira e Fonteireira, 
das Pcdreiras do Castanheiro e Pcnedos Pardos e o do Grajal. 



DAS St:il']\GlA.S E LETTRAS. _ J)07 

que circumscripto, e todavia repelido, sobre iima certa zona, 
desde Polvaraes , por Venda Secca, ate a cncosta da Char- 
neca, lendo, em paries, uma largura superior a 100"" ; csle 
accidenle perturba o regimen das aguas que residem na ca- 
mada ipipermeavel que Ihe serve de leito, pela mudanca de 
ualureza e de eslructura que soffrcu nos silios por onde passa 
a referida zona'; em 2." logar porque muitas camadns, im- 
permeaveis em um certo local , deixam de o ser n'ouiro ; 
pela diminuic5o da argila e sua conversao em rocha areno- 
sa : finalmenle porque eslas camadas se enconlram repeti- 
das em toda a altura do grupo. Podem comludo fixar-se 
desde ja alguraas das suas zonas aquosas situadas do modo 
seguinte : 1 / na assentada de camadas de calcareo e de mar- 
nes inlerstralificados n'este grupo , que acima mencionei , 
n'esla zona eslao abertos os pocos da quin(a do Pimenta, c 
OS que ficam proximos e a da mesma quinla, de cujas so- 
bras se forma o regato denominado — rio da Espinheira — 
e bem assim o poco de Polvaraes, conliguo aos moinhos do 
Jardim. 

As aguas sao sustenladas com permanencia n'esla zona 
pela camada de marne argiloso ja indicada ; e ainda no fim 
de novembro do anno passado, antes das aguas do outono , 
se abriram n'esla ultima localidade vallas de escoamenlo 
para se poder cultivar o solo ; 2." nos ponlos do 2." grupo, 
que foram, como ja dissemos, prol'undaraente alterados pela 
accao melamorphica : comprehende esta zona o poco do La- 
gar, e dezeseis pocos e nascentes na Venda SScca : 3." em 
uma serie de camadas de gres grosseiros e finos sobrcposta 
a uma camada de argila rosada existente na parte inferior 
d'esle grupo : n'esla zona se abrange a nascente das Pedras 
Yermelhas , acima do povo do Grajal , e as da quinta do 
Grajal , e a dos Loyos sobre a ribeira de Valle de Lobos: 
4."' na base do grupo e inferior a preccdcntc em gres gros- 
seiros sobrepondo aos gres finos e argilas contendo mica : 



508 ANNAliS 

perlcncem a esla zona as nascenlcs da quinla do Jardim, e 
as que Ihe sao conliguas, as dos flancos do Suimo, e as que 
vertem as camadas que alfloiani na encosta por baixo do 
moinho do Vicloriano no valle da ribeira de Valle de Lobos, 
onde vi fazer o dessicamento das terras para a cultura. Alem 
d'estas zonas bem definidas ha ainda uma camada de pos- 
sanca variavel, chegando em paries a 4™, formada de gres 
grosseiro, muilo permeavel, pousando sobre uma camada de 
argila cinzenla clara, que em lodas as seccoes proximas aos 
leilos das ribeiras da copiosos filetes d'agua. V(^-se esla ca- 
mada na Fonle Sanla, sobre a margem direita da ribeira de 
Carenque ; na quinla do Biesler ; no valle de Figueira em 
Rio de Sapos ; na ribeira do Caslanheiro, a juzante da fonte 
d'esle nome ; e entra, segundo creio, na zona dos gres alle- 
rados da Venda S^cca. 

Exislem lambem diversas nascenles , verlendo da meia 
encosta da monlanha do Suimo, e de oulras paries, as quaes 
no fuluro servirao de guia para a delerminacao de outras zo- 
nas aquosas d'cste grupo. 

Convem dizer, que a observacao, durante a s^cca do ou- 
tono de 1836, mostrou que nao so os pocos e fonles d'esle 
grupo conservaram aguas em abundancia , mas lambem as 
nascenles que rebentam nas plagas , e aquellas que verlem 
de pontos fora d'eslas , por exemplo as nascenles da plaga 
dos Almarzes na vertenle SE da monlanha do Suimo , e as 
que brolam enlre as Pedras Vermeihas e Grajal ; na quinla 
d'esle nome ; no Casal da Fonte Sanla e n'outros pontos. 

D'esle grupo so recebe o aqueduclo gcral as nascenles 
da Claraboia, c da mina da Fonte Santa, pertcnccnte a 1." 
zona aquosa , dando de 18 a SO""" de agua diarios, desde 
junho a novembro. A primcira d'estas nascenles vem d'en- 
Ire as camadas calcareas d'esle grupo, mas lendo sido am- 
bas cxploradas cm urn nivcl muilo superior e por tanlo n)ui 
proximo dos aHloramenlos, c lendo sido alem d'isso pralica- 



DAS SCIENCIAS !•: LIJTTRAS. o09 

das nos gres quasi parallelamenle a direccao das suas ca- 
madas, eslao precisamente nas condicoes niais desfavoraveis 
para se obler urn volume d'aguas proporcional ao cuslo d'esla 
obra. 

Algumas exploracOes infrucluosas se leein fcilo n'esle 
grupo em pesquisa de aguas, como, por exemplo, a que esla 
n'ura alto por cima da quinla do Bora Jardim : abriu-se all 
um poco de 20"' ou mais de fundo, o qual nao alravessou 
um so leito aquoso , nao obstante ler encontrado camadas 
alternantes permeaveis e impermeaveis ; este facto e outros 
similhantes, sOo uma prova de que nao e nos altos das col- 
linas ou monlanhas de rochas eslratificadas , que as aguas 
deveni apparecer , quando as camadas que d'ellas affloram 
nao descem de pontos mais altos. 

5." ffrupo do andar dc Bellas. — Por baixo d'eslc grupo 
de gres, surge, em stratificacao coucordante, o 3.** grupo 
do andar de Bellas , formado exclusivaraenle de rocha cal- 
carea, e caraclerisado pjr abundantes terebratulas de peque- 
na grandeza , e de difTerentes especies , acompanhadas de 
muitos reslos de polypeiros, de echino dermes c de pectens. 

Esle grupo tem o seu limite Oriental uns GOO'" a NNE 
de Adabeja e descendo ao vallc de Carenque a montante da 
nascenle da Mae d'Agua Yelha, dirige-se de E para pelo 
silio dos Penedos Pardos, Casal da Carregueira, Abetureira, 
e quinta de Molhapao d'onde descahe para SO, atravessan- 
do a ribeira de Yalle de Lobos, junto a quinta do Minholo. 
A exlensao longitudinal d'este grupa entre as divisorias que 
se teem considcrado, (^ de 8 kilometros ; a sua largura me- 
dia de 400"' ; por consequencia a superficie e de 3, '2 kilo- 
metros quadrados : e como a media inclinacao das suas ca- 
madas se pade calcular em 5" para S, a possanca do grupo 
sera de 30 a 40'". 

Do outro lado da ribeira de Valle de Lobos, e para NO, 
apparece deslocada oulra porcao d'este grupo , cujas cama- 



5'10 



ANNALS 



das lomam inclinacOos que mudam rapidanienlo de 5 a 90" 
para os differentes pontos do quadrante do NO, variando 
tarabem a direccao por tal modo que as camadas do calca- 
reo se apresentam dobradas em curvas de niui pequcno rayo. 
Estas camadas vem do silio de Pechiligacs a Santa Cruz da 
Granja, defronte das copiosas nascentes da Malta , e d'aqui 
se dirigem ao Sabugo, d'onde descahem com os grupos mais 
modernos para a falha, que occasiona a depressao, que corre 
de Sacotes a Pero Pinheiro. 

Compoe-se esle grupo de camadas de calcareo , em ge- 
ral pouco argiloso , de c5res claras ; sendo em partes ver- 
melho escuro , silicioso , e talvez um pouco metaraorphico 
nos stralos superiores em que se encontram os fosseis aci- 
ma indicados ; alterna repetidas vezes com camadas delga- 
das de marnes amarellados , molles e poroses, os quaes na 
base do grupo, se lornam arenosos, um pouco micaceos, e 
schistosos ; fazendo a transicao para o grupo arenoso imme- 
diate. 

Diversos affloramenlos de diorile porphyroide atravessam 
as camadas d'esle grupo, entre a quinta do Minhoto, o moi- 
nho do Carrascal , e o moinho do Victoriano : entretanlo 
afora este desarranjo local , o grupo corre regularmente , 
dentro da area da bacia hydrographica, sendo somente cor- 
tado pelos Valles de Carenque e do Castanheiro, que inter- 
rompem a continuidade das suas camadas. limite N das 
camadas d'estc grupo apresenta-se em escarpa abrupfa, des- 
de Gasal da Carrcgueira ate perto do moinho do Carras- 
cal, represenlando o labio da grande deslocacao que separou 
a outra parte do grupo que esta na margem diroila da ri- 
bcira de Valle de Lobos para os lados do Sabugo c dos Pi- 
chiligaes. 

Todas as camadas calcareas d'este grupo estao muito re- 
talhadas por numcrosas fendas que cortam perpendicular- 
mentc os sens pianos de strati ficarao , e encerram algares 



DAS SGIENCIAS E LETTRAS. ^11 

mais ou mcnos vastos e fundos, especialmenle na parte que 
decorre do moinho do Carrascal para o valle de Carenque : 
as aguas pluviaes que caliem sobre eslc grupo insinuam-se 
por aqueUas fendas e na sua maior parte vao recolher-se nos 
mencionados algares , de modo que estas aguas iriam quasi 
todas, 6 immediatamente , aos corregos das ribeiras de Ca- 
renque, do Gastanheiro, e de Valle de Lobos, se as scccoes 
de \asao de todos os depositos hydrostaticos que residem 
n'esle grupo tivessem grandes dimensoes em relacao ao vo- 
lume de aguas recolhido, e se os pianos das camadas se le- 
vantassem em grandes angulos. A esla estructura e disposi- 
c'do das camadas do 3.** grupo, e que se deve a csteriiidade 
apparente da zona que elle occupa, nao se encontrando se- 
nao as nascentes da Agua-livre denorainadas Mae d'Agua 
Nova e Mae d'Agua Velha ; as duas nascentes do alveo da 
ribeira do Gastanheiro, proximo ao Brouco ; a fonte que fica 
quasi a entrada da quinta de Molhapao ; as nascentes da Por- 
tella da Adabeja, a do Gasal do Brouco ; e urn poco na quinta 
de Sant'Anna , proximo a ribeira de Valle de Lobos , sem 
importancla nolavel. 

A nascente da Mae d'Agua Velha e sem duvida a mais 
nota^el d'este grupo, e uma das inais importanles da bacia : 
a conserva natural d'esla copiosa e perenne nascente oxisle 
nas camadas do S.** grupo da parle do massico comprehen- 
dido pelas ribeiras de Carenque e Gastanheiro, escoa a sua 
agua por cima da camada impermeavel que a demora nos 
algares, e vai brotar, repuxando um pouco, na margem di- 
reita 1"\I) proximamenle acima do Icito da ribeira : a com- 
municacao das aguas pluviaes com a reserva, e a d'esta com 
a Mae d'Agua Velha sao tao direclas, que apenas as chuvas 
caem logo se perturbam as aguas d'esta nascente. 

Quasi em frente , a distancia de 20°", na margem op- 
posta ha outra nascente, denominada Mae d'Agua Nova , 
aberta nos mesmos calcarcos , em um nivel inferior de 8"^ 



'i 1 i ANNAKS 

ao leilo da ribeira ; e no invcrno l5o copiosa como a pri- 
meira ou ainda mais : mas apesar da proximidade e idenli- 
dade da origeni das duas nascentcs um phenomcno mui no- 
tavcl as distingue, e torna evidente a sua absolula indepen- 
dencia, e e — que a nascente da Mae d'Agua Nova eslanca 
todos OS annos no comeco do verao, em quanlo que a nas- 
cente da Mae d'Agua Velha fornece sempre um volume con- 
sideravel de aguas, que varia entre 1000 e 300'"° diarios 
nao descendo abaixo d'este limite nem mesmo nos annos de 
maior secca. 

Esle phenomeno pouco vulgar tern origem nos seguinles 
faclos : 

A porcao do massico que se estende da margem direila 
da ribeira de Carenque ate a ribeira do Caslanheiro, forma- 
da pelas camadas do 3.** grupo do andar de Bellas com in- 
cliuacOes suaves de 4 a 10" S, chega apenas a altura de 
40™, se lanlo, acima da nascente da Mae d'Agua Yclha, ou 
do leilo da ribeira de Carenque. 

Eslas camadas sao interrompidas no valle por uma falha 
em que se estabeleceu o leito da referida ribeira , a parlir 
da qual se levantam para a margem esquerda com inclina- 
coes de 20 , 30 e 40** ate ao cume da rapida encosla que 
esta a altura de 100" proximamente sobre a ribeira. D'es- 
les factos conclue-se que o nivel hydrosfatico da conserva da 
Mae d'Agua Velha occupa uma posiciio pouco elevada sobre 
leito da ribeira , e que os pontos de \asao que teria este 
deposito sobre a falha se acham completamente vedados : 
alias a agua nao repuxaria na nascente, ao contrario alllui- 
ria na mesma ribeira, e seri'a absorvida pelos topes das ca- 
madas na parede opposta, estabelecendo-se a um nivel egual 
na outra margem, c a nascente da Mae d'Agua Nova , ahi 
existente em um nivel mais baixo, debitaria ainda copio- 
sas aguas muitos mezes depois de ter seccado a Mae d'Agua 
Velha ; mas como ha uma complela indepcndencia entre as 



DAS SC1ENCIA.S E LETTKAS. 513 

duas nascenles , as aguas pliiviacs caidas sobre o calcareo 
inuito fendido que vai pela encosta ale a Porlella da Adabeja 
e cujas camadas sao inclinadas em fortes angulos para S, 
hao de descer rapidamenle para os ponlos mais baixos do 
solo , e coino a grande divisoria esia perlo d'esle ponto , a 
S'jperficie de alimentacao e raui limitada e a seccao d'affluxo 
comparalivamente grande , segue-se que a descarga d'eslas 
aguas 6 prompta no inverno, affrouxa na primavera e cessa 
no conieco do esUo, porque n'esla eslacao ja o nivel hydros- 
tatico tern descido abaixo do nivel de vasao. 

A permanencia das nascenles do Yalle de Caslanheiro 
defronte do Casal do Brouco que brotam lambem dos calca- 
reos do S.*" grupo do andar de Bellas, e devida a fraca in- 
clinacao das camadas em ambas as raargens da ribeira e a 
extensao e siluacao do nivel hydrostatico das reservas que 
as aliraenlam. 

(Conliniia.) 



..'■'•.■cv. 



."ili ANNAKS 



HYGIENE PUBLICA. 

(CONTINUADO l)A I'AG, 168.) 



Demonslrei nos arligos anlecedenles que os meios adoptados 
em Lisboa para a remocao das dejeccoes e das outras im- 
imindicies, que os habllanles vertern nos canos de despejo, 
erani, alem de inefficases, extremamente prcjudiciaes, e que 
nos iara conduzindo para urn estado deploravc! de insalu- 
bridade difticil do remediar. 

Fiz tambem v6r que, se presislissemos era seguir aquel- 
las praticas absurdas, iriamos successivamenle perdendo uma 
grande porcao de adubos de que a nossa agricultura tauto 
carece. 

Devo agora, para completar esle estudo, expor o metho- 
do, ou methodos, que convem adoplar para conseguir o du- 
plo fim a que nos propomos, islo e, fazer a remocao das 
iramundicies de um modo salubre e que nao deixe infeccao, 
6 aproveitar ao mesrao tempo, em beneficio da agricultura, 
a maxima porcao de adubos que uma grande c populosa ci- 
dadc podc fornecer aos campos. 

Para nao complicar esta exposicao fallarci uuicamenle 
n'este artigo da remocao e aprovcitamento das dejeccoes hu- 
manas, que dcvem ser, no mcu modo de ver, considcradas 
a parte, c que sao, cflectivanienlc, aqucllas que raaiorcs cm- 



DAS SCIENCIAS T. LETTR\S. liVi 

baragos produzcm quando se trata dc estabelecer urn bom 
syslema de limpcza em uma grande cidade. 

E bem claro quo a escolha entre os diversos meios que 
se podem proper, quando sc trata de estabelecer os metho- 
dos aperfeicoados, esla dependenle dos habilos adquiridos, da 
conservacao ou alteracao das construccoes ja existentes, da 
disposicao topographica da localidade, e de outras circum- 
stancias menos importantes , sem nunca perder de vista a 
questao economica que e sempre capital. A passagem do an- 
ligo uso, que era geral em Lisboa, de fazer o despejo de to- 
das as immundicies sobre a via publica, para o que actual- 
mente se pratica pelos canos, nao contrariou demasiadamenle 
OS habitos. Os vasos que se despejavam das janellas durante 
a noite , despejam-se actualmenle, a toda e qualquer hora, 
nas pias que terminam os canos dentro das casas. lixo 
das varreduras guarda-se ate que passem as carrocas do ser- 
vico municipal para o transportar. 

Depois que as raaterias regeitadas dcsciam pelos canos 
das casas ninguem mais se inquietava do que podia aconte- 
cer a essas materias. Implantar agora novos habitos que 
contrariem , por pouco que seja , a indolencia natural do 
nosso povo , parece a muitos uma coisa diiTicil, e a outros 
ate impossivel. Mas se nos parassemos diante d'essa repu- 
gnancia que os homens teem em mudar os seus habitos , 
aonde estaria airida hoje a civilisacao ? Tanto na ordem pliy- 
sica, como na ordem moral, as sociedades se veem muitas 
vezes obrigadas a mudar de habitos e ate de ideas. Quasi 
sempre as transformacoes sao lenlas e successivas, porem 
nao fallecem os exeniplos de mudancas revolucionarias, umas 
reclamadas pela necessidade da salvacao publica, outras sus- 
citadas, debaixo d'esse pretexto, por um homem so, ou por 
um pequeno numero de reformadores activos ou insoffridos. 
Mudam-se as crencas religiosas, alteram-se os cultos, revo- 
lucionam-se as instiluicoes polilicas, transforma-se uma lin- 



.) 1 (> AXNAliiS % 

gua em outra , consentc-se que o puro capricho crio novas 
necessidadcs , c nao sc lia de rcformar urn simples habito 
physico , inlroduzindo n'cllc iima simples mudanca que e 
mcnos penosa do que. muitas vczcs, a variacao de urn ves- 
tuario para oulro vesluario , que a moda invenia? Nao sc 
podo acrcdilar , quando se Irala de um melhoramenlo im- 
portanle e esscncial, que sc opponha, como objeccao seria, 
a resislencia que Ihe pode provir dc uma insignificante mu- 
danca nos habilos adquiridos. — Devemos fazer mais juslica 
aos homens, digo mesmo ao nosso povo, que lodos os dias 
(hi bem ciaras provas dc que comprehende e sabc avaliar o 
progresso civilisador. 

As outras condicoes, a que e necessario attender n'esla 
reforma, essas merecem maior consideracao : rcfiro-me as 
conslruccoes exislenles, a disposiciio topographica da locali- 
dade, c a economia dos mcios. Felizmente para nos nenhu- 
ma d'essas condicoes sc oppoem ao systema de reforma que 
eu advogo. 

As nossas conslruccoes publicas e parlicularcs para os 
despejos limilam-se a uma simples canalisacao ou drenagem 
das casas para as ruas e d'estas para os grandes canos e 
para as praias formadas pelos aterros do rio ; algumas la- 
Irinas, ou as pias coroando as extrcmidades superiores dos 
canos, e as sargelas ou respiradouros, abertas nas ruas e 
nos pateos ou saguoes , e que sao as collectoras das aguas 
da chuva, e tudo quanto existc. 

Nao possuimos os deposilos fechados , como existem na 
cidade do Porto, e que em Pan's determinaram a escolha de 
oulro systema de limpeza inodora dilTerente do que eu pro- 
ponho. Londres , Bruxellas , Vienna d'Austria, Marsclha, 
Argel c outras cidades estao, pelo menos era parte, no mes- 
mo caso cm que nos estamos; o Tamisa, a Senne, o Danu- 
bio c Medilerraneo rccebem a maior parte das immundi- 
cies d'aquellas cidades, como o Tejo recebe as nossas. 



PAS SCIENCIVS F. LETTR\S. ,fJ17 

Em Pan's, ainda nao ha niuitos annos, fazia-sc a limpeza 
(lespejando os dcpositos, collocados debaixo do pavimento dos 
paleos das casas ou das ruas, para carros que levavam as 
imnuindicics , sem serem desinfecladas , para o abominavel 
vasadouro dc Montfaucon , essa immensa cloaca , que por 
tanlos annos foi a vergonha dc uma das priraeiras cidades 
do mundo, d'aquella que e, entre todas, a mais elegante c 
illuslrada. 

Ainda em 18o5, apesar do alvara da Prefeitura da po- 
licia dc 28 de dezcmbro de ISoO , que tornava obrigatoria 
a desinfeccao das materias conlidas nos depositos (fosses cVai- 
sanccs) e de outro de 8 de novcmbro de I80I, eslando eu 
alojado n'um bom hotel, na rua Lepelettier n." 5, junto ao 
boulevard dos Italianos, acordei uma nolle quasi asphixiado 
pclas emanacoes sulfo-ammoniacaes , que me enlravam no 
quarto, vindas de uma latrina existente n'um corredor pro- 
ximo, e promovidas pelo despejo que se eslava fazendo no 
deposito da propriedade. 

art." 1.** do ultimo alvara citado dizia = E expres- 
samente prohibido proceder a extraccao e ao Iransporle das 
materias conlidas nos depositos (fosses d'aisancesj, fixos ou 
moveis, antes de haver opcrado completamente a sua desin- 
feccao etc. 

art." 3." dizia = As materias liquidas desinfecladas 
poderao ser, depois da limpeza, vertidas sobre a via publica. 

escoamento d'estas ultimas fazia-se , e verdade, sem 
grave inconveniente , e eu as vi correr para os canos de 
despejo sem que derramassem cheiro sensivel. 

A conduccao das materias solidas, fazendo-sc em carros 
fechados, executava-se egualmente de modo que no seu Irans- 
porle nao era publico incommodado. Mas a desinfeccao em 
grandes massas e sempre imperfeila , e no ado de se fazer 
a mistura dos ingredientes desinfectantes com immundicies 
ja era fermentacao 6 quasi impossivel evitar que uma porcao 



.'; 1 8 ANXAFS 

das malerias volalois c infcclas se derramc , c pcnctrc nas 
casas polos canaes que nao sao vcdados por nicio dc fccha- 
duras hydraulicas. 

A primcira desinfcccao, que se fa'z nos depositos, e que 
hojc c obrigatoria cm Pan's, sob pcna dc muila, consiste no 
eraprego do sulfate de fcrro e do acido pyrolignoso, ou vi- 
nagre dc madeira impuro, na dose de 1 kilogramma por ca- 
da toncl que sc Iransporla, quando os liquidos nao teem de 
scr vertidos na via publica, e n'eslc caso emprega-se o sul- 
fate de zinco pcrfumado com a esscncia dc rosmaninho. A 
razao d'esla dift'erenca csta em que pelo primeiro processo 
OS liquidos dcsinfectados adquirem uma cur escura , repu- 
gnanle a vista. 

Qualquer d'estcs sulfates tende a anniquilar o efTcilo odo- 
rifero do sulfhydrato e do carbonato de ammonia, porque os 
metaes se convcrtem em sulfuretos , e a ammonia, combi- 
nando-se com o acido sulfurico, perde a sua volatilidade. 

As dejeccoes da cidade de Paris, tendo sofirido a pri- 
raeira desinfeccao, sao Iransportadas para o novo vasadou- 
ro, que actualmenie se divide em duas paries. A primeira, 
aonde se dirigem os carros, e situada na Villeltc, e aqui e 
simples vasadouro de passagcm ; a outra parte, que e va- 
sadouro ou deposilo effectivo, esta situada no cenlro da flo- 
rcsta de Londy, sobre o canal de I'Ourcq. As malerias li- 
quidas sao conduzidas da Villetle para Bondy per urn cano 
sublerraneo, sendo impellidas pela forca de uma machina de 
vapor. As malerias solidas vao embarcadas, para o mesmo 
logar, pelo canal de I'Ourcq. 

Seri'a longo, e ate fora de proposilo para o meu fim, des- 
• crever lodo o regimen d'estes eslabelecimentos ; basla dizer 
que as malerias liquidas sao na sua maxima parte emprega- 
das para a cxlraccao dos saes ammoniacacs em uma fabrica 
annexa ao estabelecimcnlo, e que as malerias solidas se con- 
vertem n'aqucllc logar em poudrelte ou polvilho para estru- 



\ 



DAS SCIEJN'CIAS E LETTRAS. 510 

nics, que lem grande valor, e de que os agricultores se scr- 
Ycra com grande vantagem. 

Qualquer que seja a boa disposicao d'estes estabelecimen- 
tos , e OS cuidados da sua administracao e bom regiuien , 
nunca sc pode alcancar a completa desinfeccao de tao gran- 
des massas de materias immundas e o total aproveitamenlo 
das subslancias uleis que ellas encerram. Casta ler o artigo, 
sobre os vasadouros (voiriesj, que inseriu no seu Dicciona- 
rio de hygiene publica o sr. Tardieu, para se colher a pro- 
funda conviccao de que o systema, adoptado actualmente em 
Paris para a rcmocao das dejeccoes e seu aproveitameuto , 
apesar dos grandes mellioramentos de que tem sido o obje- 
cto , esta ainda longe de ser perfeito e isento de inconve- 
nienles. 

Nem Bruxellas, nem cidade alguma da Belgica, podem 
apresentar-se como exemplos dignos de seguir pelos sens rae- 
thodos de limpeza. Em todo aquelle paiz , e principalmenle 
nas Flandres, o estrume das dejeccoes humanas e muito es- 
limado pelos agricultores, que o pagam por bom preco aos 
arrematantes da limpeza das cidades, Ali , como na nossa 
provincia de Minho, os que commerceiam n'aquelle genero, 
os proprios compradores , exigem que a mercadoria apre- 
sente os seus caracteres bem dislinctos de cor, cheiro e ale 
de sabor proprio, e v6r-se-iam muito contrariados, se as ma- 
terias escrementicias se achassem desinfectadas por qualquer 
ingrediente, que os obrigasse a recorrer a outro genero dc 
ensaios , que nao fosse o dos sentidos , para avaliar a sua 
riqueza. 

Em Bruxellas, como ja disse, uma grande parte das ha- 
bilacoes despejam, ou directamente, ou por meio de canos, 
sobre os Ires bracos da Senne, que passam apertados entre 
as casas ; e esta ribeira vai depositar, a pequena distancia, 
urn lodo infecto, que o arrematante da limpeza exlrahe para 
vender como estrume. Os depositos fechados , que existem 

ToMO I.-NovEMBRO DE 1857.-1/ Classe. 34 



iilO ANNAES 

lias casas da parlc elcvaJa da cidade, silo tambcm <losp('ja- 
dos scin desiiifeccao, on pclo inciios nao sc fazia oulra coisa 
ainda ha poiicos annos, c as iiialcrias eram conduzidas em 
carros para um vasadouro, Ulo infocto como o celobre vasa- 
douro dc Montfaucon, cm Paris. Finalmeiilc a eslc rcspcito 
iiada temos que aprcmler com os belgas. 

Vienna d'Auslria , que ja acima cilci , emprega para a 
remocao das dejcccoes o mesmo syslcma que nos possuimos 
aclualmenle cm Lisboa, com a unica diffcrenca de que a sua 
canalisacao sublcrranea c cspacosa, bcm conslruida, c pra- 
ticavel em quasi loda a cxtcnsfio da cidadc , a ponto de sc 
poderem "visitar as galerias subterraneas c proccder regular- 
raenlc a sua limpcza. Estas galerias teem , cm lodo o seu 
desinvolvimenlo, 60 kilomelros de exlcnsao. Todos os mc- 
zes sao visiladas pclos trabalhadores (canal-r aimers) cn- 
carrcgados de as limpar. Este service custa a cidade uma 
quantia equivalente a 3.6003000 reis. Danubio rccebe , 
em ultimo resultado, todas as immundicies da cidade , e 
apesar da limpcza regular dos canos, exhalam elles muilas 
vezes um fetido abominavel, e a capital da Austria nao passa 
por ser uma cidade salubre ; csta bem longe d'isso. 

Em Londres tambcm prcdomina ainda o systema dos dcs- 
pejos pela canalisacao na maior parte d'aquella grande ci- 
dade , perdendo-se a maior parte das dejecrocs, diluidas em 
uma grande quantidade de agua , no Tamisa, cujas praias, 
quando a marc sc relira, aprcsentam um asqueroso aspecto. 
A agricultura ingleza perde ali uma grande riqueza ; alguns 
bairros da cidade eslao sujeitos as emanacoes peslilentas dos 
lodos infectos, c aquella grande quantidade de materias cor- 
ruplas so pode servir a alimcntar os peixes que vivem nas 
aguas do Tamisa , principalmenle os saborosos white-bils , 
que fazcm as dclicias dos gulosos passeadores de Greenwich. 
Ccrtos bairros de Londres, como sao aquclles que ccrcam 
Bean street, sao desprovidos de canos de despejo c ahi exis- 



DAS SCIENCUS E LETTRAS, 521 

Icm OS dcposilos de immundicies fcespollsj, cuja limpcza se 
faz hoje por meio dc bonibas como em Pan's. Parle das nia- 
lerias extrahidas d'estes deposilos e verlida nos canos, e ou- 
tra parte nianipulada convenienlemenle para fabricar eslru- 
mes, ou misturada com terras inerles para carbonisar e con- 
st! luir chamado carmo animalisado. 

Ila annos a esla parte, as necessidades hygienicas e agri- 
colas da Gra-Brelanha teem posto cm discussao novos sys- 
lemas de limpeza c aproveilamento das immundicies ; lem-sc 
pensado, escripto e trabalhado muito , mas, que eu saiba , 
ainda se nao clicgou a resolucao definitiva do programma. 
A industria ingleza e emprehendedora e lenax, e nao recua 
diante das difficuldades que acompanham as emprezas colos- 
saes ; mas a extrema confianca nos seus grandes recursos 
pode conduzil-a a adopcao de um systema ruinoso. Segundo 
lenho ouvido dizer, (porque confesso francamente que nao es- 
lou ao facto dos novos projectos inglezes) um dos meios pro- 
postos consiste no aperfeicoamento do systema de canalisacao, 
conservando a limpeza pela agua dos water-closets , e diri- 
gindo lodas as materias, conduzidas pelos canos, em grande 
estado de diluicao, e sem communicacao com o rio, com o 
auxilio de poderosas bombas, movidas por meio do vapor , 
para fora da cidade, onde devem ser aproveitadas em grandes 
depositos para servirem a agricultura. Dr. Lyons, que 
ha pouco tempo esteve entre nos, contou-me que no Rio de 
Janeiro se tratava de por em pratica este systema, acompa- 
nhado de uraa desinfeccao completa dos liquidos. Confesso 
que nao me parece muito praticavel esla desinfeccao sem a 
previa separacao entre as materias liquidas e molles. Se os 
excremenlos solidos fossem insoluveis o processo tornar-se-ia 
facil , mas uma grande parte d'aquellas materias facilmente 
se dissolve ou dilue na agua, e todas ellas tendem a tornar-se 
cada vez mais soluveis pela fermentagao. 

que a experrencia de muitos annos lem demonstrado 

34* 



1)22 ANNAES 

eque a desinfeccao e lanto mais facil, qiianio niais coniplcla 
e a separacao das dejeccoes dc dilTcronlc naliircza. 

Esla separacao c lanto mais complcla, quanto mais se 
aproxima d'aquella que a propria natureza estabcleceu. 
melhodo, pelo qual combato ha lanto tempo, e que nao c s6 
meu , mas sim de muilos obscrvadorcs cm cujos trabalbos 
colhi melhor das ideas que hoje sustcnto, funda-se essen- 
cialmenle na separacao complela das materias liquidas das 
solidas, e na desinfeccao total de ambas. 

Para nao alongar demasiadamente esta discussiio limito- 
me, por emquanto, a descrever os processos de separacao e 
desinfeccao, que julgo convenientes, indicando finalmenle o 
modo por que enlendo que elle pode ser applicado em grande 
escala a reforma da limpeza da cidade de Lisboa. 

As construccoes actuaes de Lisboa nao influem aqui, co- 
mo as de Pan's, sobre o melhodo de separacao. A existen- 
cia dos deposilos ou fossas n'aquella cidade quasi que deter- 
minou a escolha do melhodo ali seguido de separar por meio 
de bombas as materias de differenle consistencia que n 'esses 
deposilos se haviam ajuntado. Mas, como em Lisboa nao exis- 
tem taes deposilos, pode prevenir-se a mistura, conservando 
a separacao natural, islo e, recolhendo separadamente os li- 
quidos e os solidos. 

Varios methodos se propozerao para alcancar csle fim. 
Um dos primeiros, que foi descriplo pelo sr. Payen, basea- 
va-se sobre a propriedade de que os liquidos gozam de cor- 
rerem encostados as paredes dos tubes , quer esles sejam 
verlicaes ou inclinados , em quanlo que os solidos descem 
perpcndicularmente, loda a vez que o espaco por onde elles 
cacm Iho permille. Assira um cano vertical munido em cerla 
allura de um bojo ou dilalacao , formando seio de apanha- 
menlo para os liquidos, e com abertura lateral que commu- 
nicava com o recipienle privativo d'esses liquidos, foi repu- 
lado excellenle meio de separacao, e ale a nossa Camara 



DAS SCIENCJAS E LETTRAS. 523 

Municipal publicou em 1855 um relalorio, contendo as ba- 
ses para a organisacao de uma conipanhia que devia encar- 
regar-se do estabelecimenlo das lalrinas inodoras c deposi- 
los moveis, em que aquelle systema era proposto como o mc- 
Ihor. 

Gonslruiu-se por essa occasiao no proprio passo do con- 
celho uma lalrina para servir de modelo e que deu pessimo 
resullado, como eu logo prognosliquei a um dos illuslres ca- 
marislas que leve a bondade de me consuUar a lal respeito. 
Aquelle systema tomou por base um facto physico que e in- 
contestavel, em si mesmo, mas que pode ser perlurbado por 
muilas causas , e estas apparecem sempre quando se fazem 
descer por um tubo simullaneamente solidos o liquidos. A 
separacao, n'esle caso, nunca pode ser completa. 

No boletim da sociedade promotora da industria nacio- 
nal de Pan's, publicou, em 1847 e 1848, o sr. E. Vincent 
a descripcao de muitos apparelhos deslinados a separacao 
das dejeccoes, mas um dos mais notaveis e mais complelos 
Ibi do sr. Filliol , sobre o qual o sr. Herpin aprcsenlou 
um relatorio a sociedade, de que acabo de fallar, e que foi 
appro vado em scssao de 13 de fevereiro de 1850. Foi esle 
apparelho, modificado em parte pelo sr. Diniz Collares, por 
conselho meu, o que serviu as minhas primeiras experiencias 
sobre este objecto, e com o auxilio do qual obtive excellen- 
tes re^ultados, que produziram em mim a profunda convic- 
cao de que era facil praticar em Lisboa um systema com- 
pleto, hygienico, e economico de limpeza, remocao e apro- 
veitamenlo das dejeccoes dus habitantes. apparelho cons- 
Iruido pelo sr. Diniz Collares funcciona perfeitamcnle dcsde 
1852. Como cito aqui o relatorio do sr. Herpin, abstenho- 
me de descrever o apparelho. 

Durante o 'tempo que eslive cm Paris na commissao de 
estudo da Exposicao Universal live occasiao de observar um 
ultimo separador mais simples do que todos aquellcs que ate 



524 ANNAES 

enlao conhecia , e que sc via exposto em uma das latrinas 
no Anexo pela companhia de saliibridade, Leiiillir e Comp.°. 

Este apparelho , que fui auctorisado pela Prefcitura da 
Policia, e approvado pelo Conselho Geral dos edificios civis, 
consisle apenas em um vaso dividido cm dois compartimen- 
tos , urn para dar passagem as malcrias solidas, e outro as 
liquidas, cada uma das quaes se dirige para os seus rcspe- 
ctivos rccipienles ou deposilos. compartimento anterior 
funcciona como se fosse um funil dcstinado a passagem dos 
liquidos, e o posterior serve exclusivamenle e do mesmo mo- 
do para os solidos. Este apparelho e modclado sobre a dis- 
posicao natural dos orgaos, 

Nada ha mais facil do que applicar este apparelho as re- 
Irelas quer sejam para o service de uma s6 pessoa e de um 
quarto , quer seja para o de muitas e de muitos andares. 
Uma unica condicao supponho eu necessaria, e e que osca- 
nos conductores das malerias solidas sejam em toda a sua 
extencao verticaes e que tenham um diametro do 0'",10 pelo 
menos , para obstar aos engrutamenlos- produzidos pela de- 
mora das materias que podem adhcrir , e demorar-se sobre 
as paredes do canal. 

Na exfremidade do lubo, curto ou longo, conductor dos 
solidos esta o deposilo, grande ou pequeno, fixo ou niovel, 
que recebe aquellas materias , e aonde se pode immediata- 
menlo proceder a desinfeccao. 

Os liquidos, quando se quizcrcm guardar ou aproveitar, 
dirigcm-se, por um canal particular, para o scu respcctivo 
deposito , e no caso conlrario , conduzem-se para os canos 
geraes de despcjo, ou para outra qualquer parte. 

Oblida a pre'via separacao a desinfeccao nao c dilTicil ; 
mas, antes de enlrar n'esla materia, j)arece-me convenicnte 
cxpor algumas considcracoes theoricas, que rescrvo para o 
scguinle artigo. 

(Conlinita.) J. m. d'oliveira pimentel. 



1 



DAS SCIKNCIAS E LKTTRAS. lilU 



QIADRIFOLIO BALISTICO. 



esludo do movimenlo d'lirna recta de comprimenlo coiis- 
lanle, cujos extremos escorregara ao longo de dois eixos or- 
thogonaes, e de que lodos os ponlos descrevem ellipses, co- 
ino e sabido , fez-nos enconlrar uma ciirva , que achainos 
muito curiosa, tanlo por sua forma e propriedades , como 
principalmenle pela analyse inleressanle a que da logar o 
problema invcrso, quando da equacao da curva se procura 
passar a sua representacao grafica, determinando-lhe a for- 
ma, e lei de geracao. 

Pareceu-nos que linhamos dado alguma luz ao processo 
da eliminacao, produzindo a inlerprctacao grafica de lodas as 
operacoes, e niesmo que haviamos feito algumas observacoes 
novas, de que tiramos parlido n'este ensaio, pela sua imme- 
diala applicacao a analyse que nos propozemos. Por eslas 
razoes , e ainda pela circumstancia de ser esla uma curva 
applicavel na Balislica , (por quanlo ella c a curva dos al- 
cances no vacuo , ou o signal grafico e convencional da lei 
algebrica que liga os alcances com os angulos de projcc- 
cao , molivo por que Ihe chamamos quadrifolio balisticoj, 
julgamos que esle pequeno ensaio podera ser lido com in- 
leresse , por aquelles que ainda se comprazem em experi- 
nienlar as suas faculdades n'esla ordem de exercicios, scnao 
pclo amor d'cstc ramo da scicncia geral, que nao cuUivam, 



Utii ANNACS 

ao menos por uma especic de dcdicacao Vi memoria do Icinpo 
de sua aprendizagcm cscolar. Se cste Irabalho conscguir lani- 
beni alcancar o agrado dos nossos malheniaticos , podemos 
allirmar que isso excedera as nossas previsoes, e o tomarc- 
nios por urn grandc favor, de que liraremos incilacuo para 
ultcriorcs Irabalhos. 



Logar geometrico da equacuo 

Resolvendo o cubo indicado no primeiro membro oblem-se 
y'^ -\- 'i x^ y^ -+- (3 x'' — c^x~)y^-^x'^ = o...A 

Esla equacao nao tem raizes reaes se for x^d: j^, mas se 

clla representa uma curva, se as suas raizes sao reaes e con- 
linuas para valores de x inferiores aquelle limile , loda a 
curva se comprehendera n'um quadrado, tendo o centro na 

origem das coordenadas, e cujo lado scja egual a 33 ; por 

quanto a equacao proposla e symctrica relalivamente as va- 
riaveis x e y, e accresce que 6 indifferenle as mudancas de 
signal d'eslas variaveis. 

Os valores de x inferiores a -p. poderao produzir solu- 

coes reaes na equacao proposla, mas ha duas raizes ncces- 
sariamenle imaginarias, porque nao podc haver mais de duas 
raizes reaes posilivas para y, nem tambcm mais de duas ne- 
gativas na hypolhese figurada de ser negalivo lermo em 
y^, como se dcprehende da rcgra dos signacs de Descartes. 
Mas suppondo que haja elTcclivamcnlo quatro valores reaes 

c 

de y para lodos os valores de x inferiores a -7^ , cllcs serao 



D/VS SCIENUIAS !•: LKTTKAS. 527 

dois a dois eguacs e de signaes contrarios, por que a equa- 
cao dada se reduz ao 3."* grao em y que lera todas as rai- 
zes reaes, sendo as da proposla as dims raizes qiiadradas de 
cada uma das d'aquella. 

Tarabcm se verifica a existencia das duas raizes imagi- 
narias da proposla, pela existencia da raiz negaliva daequa- 
cao do 3." grao. 

As raizes reaes da equacao dada traduzem-se geomelri- 
camenle no conjuncto de dois ramos de curva siluados no 
quadranle (x, ?/), conjugados com oulros symelricos do qua- 
drante [x, — y) : e como a curva total tenha centre na origem, 
novos ramos symetricos a esles se dispoem nos oulros dois 
quadrantes ; e alem d'isso a figura de cada quadranle divi- 
dir-se-ha em partes symelricas pela linha de 45**, por ser 
symetrica a equacao dada em relacao as \ariaveis x ^ y, co- 
mo ja observamos. D'este modo, quer se dobre a fig. pelo 
eixo dos x, quer pelo eixo dos ?/, quer mesmo pelas posi- 
coes que lomam esles eixos quando se deslocarem de 45'", 
uma melade da fig. se ira sobrepor a oulra metade. 

Delerminemos agora a posicao dos pontes onde as lan- 
gentes a curva dada sao parallelas aos eixos coordenados. 

Empregando o processo ordinario obtem-se immediala- 
mente 



para as tg.^ parallelas ao eixo dos o". . c-y~x — Z[x--\-}f)'x=^o 
para as tg.' parallelas ao eixo dos y. . c-x^y — 3(j;' + »/^) j/ = o 



.... B 



Eslas novas equacoes moslram por sua comparacao, que 
cada ponlo delerminado pela primeira lem um correspon- 
denle na segunda, cujas coordenadas sao inverlidas ; o que 
devia ser, porque ja nolamos que a linha de 45" dividia a 
curva em ramos symetricos. Ellas sao de grao inferior de 
uma unidade ao da proposla de que derivam, oque sempre 
succede para todas as curvas, e se demonslra facilmente con- 



J) 2 8 ANISAUS 

siderando a equacao da curva dada <p = u -h j; = o formada 
(Ic duas paries, uina u homogenea e do gnio m da equacao, 
e oiitra v do gnio inferior coniprehendcndo os termos res- 
lantes. Porque sendo'a cquagao geral das langenlcs 

oil n'esle caso 

que niostra apparenlemenle o mesmo grao da equacao dada ; 

, , du du , . 

a paric de grao niais elevado ^^H-?/ j~ desce ao grao im- 

nieilialamenle inferior, em virlude da propriedade das func- 
coes homogeneas caraclerisada pela equacao 

du du 

porque a esla parte cgual a mu se pode subsliluir — mv. 

Esle resultado generalisa-se para as curvas de conlaclo 
cnlre superficies quaesquer, e seus cones ou cylindros tan- 
gcntes. Os graos d'eslas curvas do conlaclo sao sempre in- 
feriores d'uma unidade aos d'aquellas superficies. 

A equacao (C) de grao inferior d'uma unidade ao da pro- 
posla de que deriva, c a d'uma nova curva, se n'cssc grao, 
e em virlude d'aquelle modo de derivacao, pode uma so cur- 
va comprehender os di versos ponlos de conlaclo de lodas as 
langenlcs a curva dada, tiradas do mcsmo ponlo {i-n) do cs- 
paco : alias, cUa se resolvera em curvas dislinclas, reclas , 
ponlos esolados, separando-se em equacues de graos infcrio- 
res. Os ponlos esolados resolvem direclamenle a queslao ; 
mas as curvas oblidas prccisam ainda da proposta para pro- 
duzirem os ponlos pelas inlcrscccOcs. 



DAS SCIENCIAS K LliTTRAS. 529 

Na questao actual a primeira das equacues [B) produz 
ponto esolado x = o, que se sabe pela equacao da curva 
ser a origem das coordenadas , onde porlanlo a langenle e 
mesmo eixo dos x : e produz alem d'isso dois circulos 

Estes dois circulos, langentes na origem ao eixo dos x, 
teem seus centros no eixo dos ?y, um do lado positivo, e ou- 

, c 

Iro do negalivo a distancia ^. 

Passemos entao a indagacao das inlerseccoes , e limite- 
me-nos as do primeiro circiilo , porque ja sabemos como se 
devem Iraduzir os resullados para os oulros quadrantes. 

Pela eliminacao de x^ H- y^ entre a equacao do circulo, 
e a da curva dada oblem-se 

c y 9 o 9 

—T- = c'x^y~, 
d'onde 



2^2 



y~ =zo , cy = ^^x . 

Novameule se reconhece pela equacao y^ = o que dois 
ramos da curva dada, vindos, um da parte superior do eixo 
dos X, e outro da inferior concorrem na origem para uma 
niesma tangcnle segundo o eixo dos x. Digo dois ramos dc 
dois quadranles dilTerentcs, porquanlo os dois valores de 
y~ = o nao podem couvir aos dois ramos d'um mesmo qua- 
drante, \isto que a linha de 45" tirada da origem os separa 
para posicoes symelricas. Assim pois , o ramo inferior do 
quadranle xy vem ligar-se com o seu symelrico do qua- 
drante {x, — y) por uma reversao, e com o symelrico do qua- 
dranle (.r, — y) por um minimo ; produzindo-se lambeni in- 



530 



ANNAKS 



flexoes na ligacao dos ramos siluados nos qiiadianlcs diago- 
naes como se \6 na fig. (1). 

Fig. 1. 




A iillima equacao cy = 3^a;^ offerece-nos uma parabo- 
la cujo eixo e o dos y. D'esle modo os ponlos pedidos pode- 
rao ser deduzidos, ou pelas interseccocs d'esla parabola coin 
a curva dada, ou pelas suas inlerseccoes com o circulo an- 
teriormente oblido ; porque anibas estas curvas, circulo e pa- 
rabola, se inlersectam nos niesmos ponlos da curva dada. 

Empregando a parabola e o circulo oblem-se 



x^ -+- y^ = ^x^, d'ondc x=±--; 

que ainda nao resolve a queslao, mas obliveram-se duas 
linhas reclas passando pela origcm, disposlas symclricamenle 
CFTi rclacao ao eixo dos y, com o qual formam angulos cu- 
jas langentes sao de egual grandeza ao seno ou cosseno de 
il)'*. Finalmentc tornando a intcrseclar a curva dada, cir- 
culo, ou parabola com cslas reclas. detcrminaremos dcfini- 
llvaracnlc os ponlos, cujas coordcnadas sao 



. /2 1 2c 



DAS SCIENCIAS E LETTRAS. 



S31 



As inlerseccoes das rectas com o circulo, podem obler-se 
geomelricamcnte, como seveindicado na fig. 2, dcscrcvendo 
um circulo C da origem 0, c com qualquer rayo, para ahi 
Iracar o seno c cosseno de 45" ; visto que prolongando es- 
tes alo enconlrarem a langenle do ponlo D, obleem-se re- 
clangulos , cujas diagonaes OH, OH', formam coui o eixo 
dos y, angulos cujas tangenles sao eguaes ao cosseno de 45". 
Oblidas d'este modo as rectas x = ±.y cos. 45", so rcsla 

c 

tracar o circulo Cde rayo ^3 , com centre no eixo dos y 

, c 

a mesma dislancia ^-7^ da origem para obler logo as inler- 
seccoes E, E', ou OS pontos da curva dada onde as tangen- 
tes silo parallelas ao eixo dos x. Aquelles onde as tangentes 
sao parallelas ao eixo dos y , acham-se a mesma dislancia 
da origem , nas linhas OH, , OH/ : e prolongando estas e 
aquellas para os quadrantes inferiores, obteem-se os pontos 
correspondenles d'esses quadrantes. 

Fig. 2. 



-^'ic- 



r-;-!-^ 




A algebra tambem offerece recursos para a determinacao 
d'estes valores, por quanto em cada um dos pontos onde a 
langenle e parallela ao eixo dos x, ha necessariamente dois 
\alores eguaes de x, que podem ser oblidos pela Iheoria 



;'»32 ANNAE8 

(las raizes eguaes das equacoes. Para isso , formc-se o pri- 
moiro polynoniio derivado da equaciio [A) suppondo que x e 
a incognita, o dclerminc-sc o maximo divisor conimiini en- 
Iro esse polynoniio c a mesnia equacao {A) : o 1." rcsto in- 
dependente de x sendo cgualado a zero, dara os valorcs de y 
para os quaes sao eguaes os de ^ ; c o ullimo divisor, quo 
sera cnlao o maximo divisor commum procurado, produzira 
OS correspondcntes de x, se egualado tambem a zero ahi so 
substiluircm os valores achados para y. Ve-se pois que o 
methodo geomctrico das tangentes parallelas aos cixos coor- 
denados tern o seu correspondenle na algebra — qual e, o 
das raizes eguaes das equacoes, ou antes, que qualquer d'cl- 
les, e a traduccao do oulro, na linguagem propria d'csse ra- 
mo da mathematica em que e produzido. 

Quando uma curva offerece um ponto singular, onde se 
reunem alguns de sens ramos, pode-se reduzir o grao de sua 
equacao, fazendo-o descer de tantas unidades quantos forem 
OS ranios que convergirem n'esse ponto ; adoplando para isso 
um systema de coordenadas polares, cujo foco seja esse mes- 
mo ponto. 

Com effeito seja a equacao de grao m 

9 (^» ?/) = »• • • (^) 

e supponha-se que n ramos de curva se encontram no ponto 
[x = a,y^b) ; substiluindo b em logar de y n'esta equa- 
cao, obler-se-ha outra em x que tera n raizes eguaes a a ; 
podera deduzir-se facilmente a forma da sua decomposicao 
designando por <f„ (y), ^, (y), ^2 [y], . . . ^„ {y), ^j/^ {y) . . . as 
suas differentes raizes supposta resolvida em ordem a x, por- 
que ter-se-ha 

(f{x,y)={x-^o{y)){x-^iiy)){x-'^,{y))-..{x-']^M){x-'^A>J))-- 



I 



DAS Sr.IENCIAS E LETTUAS. 533 

c porque fazendo convergir y para b, urn numero n de va- 
lores de x, ou ^ egual ao dos ramos de curva, que concor- 
rem no ponlo niullipio convcrgira para um iinico valor i}/« (b) ; 
sera n'esse limite 

<p(a, b)^{a-^^^{b)y{a — ^„{b)){a— ^jb)). . . ; 
e mudando a em x 

9 C^'^) = (^ - -h C^))" i^ - ^. (^)) [x - i W). . . ; 
ou, por ser 4-^ (*) = « 

9 (^, ft) = (^ _ a)" J. 

D'uni modo analogo se deconiporia a equacao dada nos 
factores {y — b)\ e F se em logar de mudar y em b se mu- 
dasse x em a. 

Os polynomios derivados successivos 9' (2:, b), 9" (r, *). . . 
deduzidos do polynomio primittivo <f{xy) para y = ft' sup- 
pondo y a incognita , sao devisiveis pelas polencias succes- 

sivameule decrescentes de {x — a); por quanlo ^ 

?\^,y)=2{x^M){x-^M...{x-Uy}){x~']>jy))...^l^fI^^ 

dy 
comprehendendo-se em 2 a somma dos productos dos deri- 
vados de cada um dos factores de 9 [x, y) pelos productos de 
todos OS outros factores : e porque mudando x, eyema,eb 
havera pelo menos w — 1 factores eguaes em cada um'dos 
lermos d'esta somma ; tambem sera 

'9(a, ft) = (a — 4-^(6)) "-'<!, (a, ft) 
ou, mudando a cm x 

<^'{x,b)=,{x^aY-'<^{x,b). 



E 



li'i'i ANNAES 

A (livisibilidaile de (p" {x, b) se dcdiizira d'um modo ana- 
logo parlindo da equacao {K); e assim succcssivamenlc. 

Se eliminarmos y entre a equacao dada 9 [x, y)^^-o, e a 
equacao da recta y = b-hp{x — a), a equacao resullante 
em x sera ainda divisivel por {x — a)", como se vC da for- 
mula d'esla equacOio 

9' {X, b)+ <f{x, b) p {x-a)-h<f" ix, b) ^'^^^ ~"^\ ...=o...F 

Esta equacao desembaracada do factor (a; — a)", desce 
de n unidades no grao de x, conservando am po mesmo que 
linha y na primitiva ; e por isso se preslara mais facilmente 
a analyse da curva que representa. 

Mas a traduccao da curva por esta equacao e feita em 
syslema diCferente de coordenadlis. Uma d'estas e a inclina- 
ciio p da recta y = b-hp{x — a), e a outra ^ a abcissa do 
ponto onde a mesma recta encontra a curva. Quando esta 
recta em alguma de suas posicoes encontrar a curva em mais 
d'um ponto, a equacao F fornecera os diversos valores de 
X relalivos a todos esses pontos. 

N'este systema grao da equacao obtida e sempre infe- 
rior ao da proposta, quando mesmo foco nao e tomado em 
ponto singular, mas e sempre necessario que seja em ponto 
da curva. De facto se esse ponto for commum, ou nao mul- 
tiple, sera n = i , e grao da equacao resultante e menor 
d'uma unidade que da proposta. 

Pareceu-nos que nao seria inulil fazer uma applicacao do 
melhodo que havemos exposto a uma curva differente; e nos 
lembrou folium de Descartes pela aflinidade de nome com 
a que analysamos. 

Estc folium 

{y — by — 3 ax {y — b)-\-x^ = 
offerece um ponto multiplo para as coordenadas [x=o, y=b), 



D\S SCIENCIAS E LETTR\S. 53?) 

que se dcduz do jogo simullanco das equacucs 



^ (IF dF 

dx ^y 



como ensina a gcomelria, e mesmo a algebra ; c por isso, 
empregandn para a eliminacao a recta y=d+px, oblcm-se 
a equacao 

x^ {p^ X — 3 ap-hx) = 

que moslra que so dois ramos de curva se enconlram n'aquelle 
ponlo multiplo ; e deduz-se a equacao polar 

Se se quizer passar ao sysleraa polar mais geralmeute 
empregado, ter-se-ha 



3ffpVl+;;2 



.(//} 



d'onde se deduz, mudando p em tg. y., 

3 a sen. a cos, oc 
" sen.'' a COS.' a 

Moslra esta equacao que a linha de 43** tirada no qua- 
drante [x, y) corta a curva cm partes symetricas; e que o'essa 

direccao p 6 maximo, e egual -^ ; como se deduz da equa- 
cao rfp=o, e porque para 9 = 45 ±e, sendo e muito pe- 
queno, se obtem 

3 a 1 + 3 £\ 

Reconhece-se ainda que e p=o para b = o, e = 90 ; 

ToMo l.-NovEMBRODE 1857.-1.° Classe. 3a 



')36 AXNAFS 

conio a parlir d'esia Hllinia posicfio, iini accrescimo infini- 
lamenlc poquciio no angiilo 0, produza um accrescimo nega- 
livo infinitainenle pcqueno dc 2.** ordem cm p ; segue-se, 
que eixo dos y c langente a curva no foco ; e que o en- 
curvamcnto conliniia no nicsmo senlido, passando a curva ao 
quadranlc (.r, — //) : verificando-se dopois o crescimenlo si- 
mullaneo de p e o, ale p = — oo para o = 1.35", 

Mas no niomcnlo cm que o angiilo o altingc esle valor, 
rayo vector prolonga-se para o quadranlo [y, — x), e da 
por assim dizer tambem a mao ao outro cxtremo da curva, 
que n'esse lado se ia cgualmenle perder no infinilo ; como 
se deprehcndc da inslabilidade do sen signal , e vem depois 
correndo por esse ramo ate ao-foco , onde Ihe estabelece a 
ligacao com o ramo inferior do quadrante xy, por meio dc 
uma langente segundo o eixo dos x, sem que o encurva- 
mento mude dc sentido. 

Pode lambeni ver-se que esia curva lem uma assimptota, 
cuja exisfencia devcra ter lembrado, pelo facto de variar p 
muito pouco (juando o angulo do rayo vector, excedendo a 
90*', esla ainda proximo d'este valor ; em quanto que de- 
pois se ve crescer rnpidamente para o infinilo quando esle an- 
gulo se aproxima de ISl)'^. Para isso recorreremos a equa- 
cao da recta no mesmo systema de coordenadas 



' p—ip) 

em que /3 designa a perpendicular ao eixo dos x levanlada 
no foco, e contada ale a recta dada ; e ip) a langente do an- 
gulo que a mesma recta forma com o dito eixo. 

Ora para que esla recta seja uma assimptota, e necessa- 
rio que, passando a uma distancia finiia daorigem, ella nao 
enconlre a curva em ponto algum a nao ser no infinilo ; ou, 
que e o mesmo, que o rayo vector p da curva em qual- 



DAS SniF.NCIAS E LF.TTRAS. 537 

qiior (Ic siias dircrcoes lonha semprc de prolongnr-sc para a 
cnconlrar, o que sc Iraduz na scgu'mtc cquacau 

1 ' p-(p) ^ ^ 

dovendo j desvanccer-se para o= ± cc. 
Dcduz-sc d'csia cquacao 



(p-he) []) — ir]) = (^ »/l + ;r, ou p—{j))=, ^^ ; d'onde 



{p)=p — — -^^: e observando que e Zf ^— ti^ = o, como 

p-he p 

se deduz da equaciio (//), ter-se-ha 



(;,)=lg. 135" — ,3/.j^^Ji^' = lg. 13^ = — 1: 

P 

E subsliliiiiido esic valor na equacao (/), obler-se-ha 

que Icvada cgualmcnle para o limite, e lembrando que e eii- 
liio ]) = — 1 , produzira 

^j = Li = Li — — = Li — -— — = 

Vi+p- !-+-;>' 3/ 

— 6fl -4- 3« 

3 = -'' 

A assimplola esta pois conipletamenle determinada. 
Para delerminar a posicao dos pontes onde as langentes 
a esla curva sao parallelas ao eixo dos x, differenciaremos 

33 « 



538 AN>\ES 

11 equatjuo {(i), e egiialaromos a zero o cocillciontc ilifTcrcn- 

d.c 

cial T- 

dp 

Oblem-se por esse niodo a cfiuacao -r. — — ri" =0) 

que sc verifica pelas condicoes 'i a — 6 af^=o, c p=cc. 

i 
Da primeira deduz-se «= -j— , c porlanlo x^^a\/i , e 

3 

como y= nx, teremos tambem y — a ^'2. E deduz-se da se- 
gunda condicao . . . .x = o,y^o. 

Demos lalvez muito desinvolvimento a uma applicaciio cs- 
Iranha ao probleraa que tratamos, porquc livemos em visla 
mostrar os recursos que offerecia o syslcma dc coordenadas 
que adoptamos , e a que o quadrifolio se nao prestava lo- 
lalmente, nao scndo dotado d'assimptola ; e tambem por- 
que nao quizemos repetir no quadrifolio uma analyse jafeila 
no ouiro syslema de coordenadas, cm quanlo que so nos pro- 
punhamos complelal-a. 

Vollando pois a essa analyse, e lembrando que a curva 
tern um ponto mulliplo ua origem, mudaremos as coordena- 
das orlhogonaes pelas do novo systema, empregando aequa- 
cao da recta y=px; pelo que se oblera 

{x' -h jf x^y = r p"^ x'' ; 
d'onde deduziremos a reduzida 



x=± 



cp 



^^(l-+-/; 



2\J 



E como para lodos os valores de p se oblenham sempre va- 
lores reaes c finitos para x, seguc-se que dc facto exisfe uma 
curva, a que se podem applicar todas as consideracoes que 
a analyse da primiliva equacao jii havia suggerido ; c que 



DAS SeiENCIAS K LETTRAS. 539 

por lanlo ha n'essa equacao conlinuidade dc raizes reaes 

, ,2c 

para y, quaudo se faz variar x desde zero ale ±^, (que e 

cp \ 

lambem o maximo de TTTfTpp ) ; o que nao podia dizer-nos 

a realidade apenas dos pontos onde as tangentes sao paral- 
lels aos eixos coordenados. 

A analyse da equacao (6') (a que podemos junlar a equa- 

cao y = ± ^/TjTrTys J ' ''ficlifica lodos os resultados ja anle- 

riormente oblidos. 

Passando agora ao systema polar, em que se emprega o 
rayo vector, oblereraos 



-— — = ± csen. x cos. a= ±- sen. 2 



Esta equacao analoga a .¥=2/^8011. 2s, que se oblem 
no niovimenlo dos projeclis no vacuo, representa pois uma 
curva balistica, em que x designa o angulo dc projeccao, c 
dobro do quadrado da velocidade inicial dividido pela ac- 
celeracao g, ap oalcance : ella permitle delcrminar grafica- 
nienle os diversos alcanccs que se obleem no piano horizon- 
tal, com a mesma carga, quando se faz variar o angulo de 
projeccao. Diz-nos a mcsma equacao , corao sabiamos pela 
balistica , que os veclores egualmenle dislanles da linha de 

c 

45.° sao eguaes ; e que o raaximo, cujo valor e -, tern lo- 

gar para o angulo de io**. 

Tambera e notavel o valor da area d'esia curva, porque, 
fechando-a por um circulo que seja tangcnte a todas as fo- 
Ihas, acha-se que a parte da area do circulo coinprchendida 
pclas folhas, e egual a parte que Ihc flea exterior. 

Com eficito, limilando-nos a uni so quadranle, deduz-se 
para a area interior d'uma folha 



;iO 



ANNAES 



*=/ f^=X' J sen.-2»rf.=/l' sen. (^— ;cos. 4 ,) J. 

1 

era quanto que a area do quadranle circular e jg :: c*. 

Pode \er-se cgualmenle que a grandeza d'esla curva e 
egual a do arco total da elipse cujo eixo maior, duplo do mc- 
nor, e cgual a 2 c. 

Para determinarmos os pontos da curva ,ou a grandeza de 
p para uraa direccao qualquer a, tire-se pela origem uma 
recta 10 Fig. 3, que forme com o eixo dos x ura angulo 

Fi». 3. 




5 = 90 — a, e lome-se n'essa, a parlir da origem, uma 
grandeza 10=-^ ; e do ponto como centro, e com um rayo 

egual a 2, se cortem os eixos nos pontos C c D; estes pon- 
tos estarao na mesma recta com o ponlo 0, c esla corlara 
perpendicularmentc a de direccao a no ponto L da curva. 
Com eflcito, como o angulo C e com piemen to de d, sera IL 
perpendicular a CD, c ter-se-lia 

Ii = fi== - sen . (,) ; 



mas 



porlanlo 



DAS SCIKNCIAS li LLTl'HAS. JJil 



,= 90 -h a> = tr: + 2(p = 2 :. ; 



//,= -sen. 2x. 



ConslruccOes analogas effectuadas para oulros « darao 
sempre o inesino coinpriinento c a recla DC, e o ponlo da 
curva sera sempre o pe da perpendicular lirada da origem 
para essa recta. 

A curva dada e pois o logar geometrico das inlerseccoes, 
com suas perpendicuiares liradas da origem, d'uma recla de 
comprimento conslanlo, cujos cxtremos escorregam ao longo 
dos eixos. 

I'. HORTA. 



5i2 ANNAIiS 



REVISTA 



DOS 



TRABALHOS CHIMICOS. 



I\a analyse quaiililaliva das (lissoIuc(5es melallicas, apesar 
(ios muitos progresses que esta parte da sciencia chimica tern 
feito , encontram-se muitas vezes incerlezas que embaracara 
analysta, e liram aos resullados oblidos o caracler de cer- 
teza. sr. Terriel, em unia nota apresenlada recentemcnle 
a Academia das Sciencias de Pan's , cliama a altencao dos 
chimicos sobre a influencia que exereem os saes ammonia- 
caes ou o ammoniaco livre nas dissolucoes salinas em que 
se pretende fazer a dosagera do manganesio , do nickel, do 
cobalto e do zinco. 

Quando estes metaes, que nao sao precipilaveis pelo sulf- 
hydrico, se acham unidos a oulros que o sao, e junlamenle 
com saes alkalinos e terrosos , o melhodo, geralmenle erapre- 
gado na separacao, consiste em precipilar primeiramente to- 
dos OS melaes cujos sulfurelos insoluvcis se formam pela ac- 
cao di recta do gaz sulfhydrico ; depois separam-se pelo sulf- 
hydrato de ammonia o manganesio, o nickel, o cobalto e o 
zinco , das bases alkalinas e terrosas , porquc os sens sulfu- 
relos sao insoluvcis n'um exccsso dc reasonlc. Esta opera- 



DAS SCIENCIAS E LETTRAS. 543 

cao executa-se facilmente, com rigor e sem embaracos, quan- 
do nao se achara presentes uem saes ammoniacaes, nem am- 
moniaco livre, mas, se islo nao acontcce, uma parle d'aquel- 
les melaes, ou mesmo a sua lotalidade , escapa a precipila- 
cao pelo sulfhydrato de ammonia , quando se acha presenle 
grande excesso de saes ammoniacaes ou de ammonia livre. 
Ora eslas circumslancias podem dar-se muilas vezes , por- 
que, por exemplo , se nas dissolucoes a analysar existir a 
alumina e o oxido de ferro , e costume precipitar primeiro 
esles corpos por grande excesso de ammoniaco. A impossi- 
bilidade de precipitar todos aquelles melaes peio sulfhydrato 
de ammonia 6 tanto maior , quanto maior for a quantidade 
prcsente de saes ammoniacaes, ou no sulfhydrato existir um 
excesso de enxofre. 

A vista d'esles factos, o que convem fazer, e expulsar, 
por meio do aquecimento, e, melhor ainda, pela evaporacao 
ate a seccura e calcinacao do residuo, lodos os saes ammo- 
niacaes e excesso de enxofre. Entao o residuo con tern os 
sulfuretos insoluvcis. 



sr. Ch. Mene indicou ultimamente um meio de ana- 
lyse muito simples emuito racional para os ensaios das ga- 
nelas argentiferas pela viahumida que podc scr applicado a 
outros muitos casos de analyse, quando sequizcr dosaruma 
pequena quantidade de prata. Esle meio tem porfundamen- 
to a solubilidade do oxido de prata na ammonia. Eis-aqui 
a que elle se reduz, no caso mais ordinario, no ensaio das 
galenas. 

lleduz-se a p6 fino a galena que se pretende ensaiar ; to- 
mam-sc d'ella 20 grammas, que sedissolvem, com oauxilio 
do calor, denlro de uma capsula de porcelana, no acido azotico 
diluido com 3 ou 4 partes doseu volume deagua distillada. 
enxofre scpara-se e os melaes dissolvem-sc. liquido filtra- 



') I 4 ANNAES 

do trata-se pur umexcesso dc ammonia queprecipila osoxi- 
dos mctallicos, redissohcndo apenas o de prata ; separa-se 
precipilado por moio da liltracao rapida, lavando-o sobrc 
fillro com agua ammonical : depois Irata-se o liquido cla- 
ro com acido chlorhydrico, ao qual se ajuntam algumas 
gotas de acido azolico para facilitar a precipitacao do chlo- 
riireto dc prala : esle, scndo coniplelamcntc insoluvel, se 
scpara, lava-se, sccca-se, calcina-se c separa-se segundo o 
incthodo ordinario, e do scu p6so se deduz o p6so da pra- 
ta contida na galena. 



Em lima das aclas das sessoes da Academia das Scien- 
cias de Paris, pertcncentc ao mez de novembro, enconlra- 
se, por exlraclo, a primeira parte de um trahalho nota- 
vel de Mr. Dumas, em que este illustre sabio discute uma 
qucslao que se prende com a parte mais clevada da phy- 
losophia natural. Para collocar faciimente os leitores d'es- 
ta revisla em circumstancias de bem avaliar a importancia 
d'esle trabalho, seria necessario desinvolver largas conside- 
racOes que sao incompaliveis com as dimensoes d'esfe Jor- 
nal, por isso limitar-me-hei a apresentar uma rcsumida no- 
ticia da questao, aconselhando aos que d'ella quizcrem ter 
mais amplo conhecimento que consultem o extracto a que 
me rcfiro. 

A phylosophia chimica lem feito n'esle ultimo seculo gran- 
des progressos, ossabiostecmaccumulado grande somma de 
materiaes para a construccao do grande cdificio da tcogcnia 
chimica, se assim Ihe podemos chamar, mas a sciencia nao 
se julga ainda habililada para decidir a grande e imporlan- 
te questao da unidade da materia. trabalho apresentado 
pelo sr. Dumas segue inconlestavelmente esta direccao, pas- 
sando em revisla as rclacQes numericas que parecem exislir 
entre os cquivalenlcs dos corpos simples. 



DAS SCIKNCIAS K IJJTTRAS. i)ii) 

Todos sabeni que osequivalenlosdoscorpos simples sao os 
p6sos respeclivos das particulas maleriaes, cuja combinacao da 
origem a todos oscorpos compostos, formados pela natureza 
ou pela arte. A maior parte d'cstes equivaleiiles foram de- 
terminadas experimenlalmente por Berselius com tao grande 
cuidado e rigor, que as suas determinacoes siio, cm geral, 
adoptadas ainda hoje pela maior parte dos chimicos, que as 
teem verificado, e d'ellas se servem com exlrema confianca, 
que iiao edesmentida, nem pclas experiencias dos laborato- 
rios, nem pelos trabalhos industriaes, que sobre ellas repou- 
sam com grande vantagem sua. 

Berselius, tendo procurado, durante asuavida, resoher 
a questiio da simplicidade das relacoes numcricas entre os 
equivalentes dos corpos simples, parece haver morrido na 
conviccao de que taes relacoes nao cxistiam. 

Pelo contrario o Dr. Prout, chimico inglez, sustentou 
conslantemente a existencia d'essas relacoes, e preoccupado, 
talvez, maisd'esta idea theorica doqueguiado pelo rigor das 
experiencias, emittiu a opiniao de que os equivalentes de todos 
os corpos simples eram multiplos por um numero inteiro do 
equivalente .do hydrogenio, o mais leve de todos os elemen- 
tos, c que por isso elle representou pela unidade. 

Alguns chimicos, muitos ate, seguiram este pensamen- 
to, e descobriram ainda outras relacQes importantes. 

Reconheceram, porexemplo, que os equivalentes dos cor- 
pos, cujas propriedades sao analogas, ou eram eguaes, ou 
estavam entre si como 1:2. 

Viram tambem que, se se consideravam Ires corpos visi- 
nhos entre si, ou aparentados pelas suas indoles chimicas, 
formando serie, o equivalente do corpo inlermedio era re- 
presentado muilas vezes pela media exacta do peso dos equi- 
valentes dos dois clementos extremos. 

Se estas ideas fossem exactas, nao seri'a absurdo o ima- 
ginar que nao cxiste mais do que uma c unica especie de 



546 ANN,vi:s 

materia, cujas particulas ou moleculas, grupando-se divcr- 
samentc e cm differcntes graos de condcnsacao, sao suscepli- 
veis de produzir os diversos corpos que nos consideramos 
hoje como elomenlarcs, c, n'estc caso, o sonho dourado da 
Iransforniacao dos metaes, que tanlo preoccupou os alchi- 
mistas de outras eras, deixaria deser considerado reniatada 
loucura, para ler as honras de urn presentimenlo phyloso- 
phico. Eslamos ainda longc depoder encclar esta discussao, 
mas OS preliminares eslao postos ; e a questao da simplici- 
dade das relacoes numericas entre os cquivalenles dos cor- 
pos simples, que o sr. Dumas discule na sua ultima memo- 
ria, c de uma elevada importancia theorica, que tambem 
interessa \italmente a pratica da sciencia. 

Vejamos como o sr. Dumas aprescnta as queslocs que 
primeiro convem resolver. 

«Duas opinioes, diz clle, estao em presenca. 

<«Uma, que parece lersido adoplada por Berselius, con- 
duz a considerar os elemeutos simples da chimica mineral 
como seres distinctos, indepcndentes uns dos oulros, cujas 
moleculas nada teem de commum senao a sua estabilidade, 
a sua immutabilidade, a sua cternidade. Existiriam tantas 
materias distinctas quantos sao os elementos chimicos. 

«A outra permiltc osuppor, pelo contrario, que as mo- 
leculas dos elementos chimicos actuaes poderiam na rcalidade 
ser conslituidas pcla condcnsacao de uma unica materia, tal 
como ohydrogenio, porexemplo, acceitando como verdadeira 
a notavel relacao observada pelo Dr. Prout e como funda- 
da a escolha da sua unidade. 

«Esta opiniao levar-nos-ia aadmitlir que as quantidades 
similhantes d'csla materia unica poderiam, emvirlude dear- 
ranjos diversos, constituir elementos do mesmo peso, mas 
dotados de propriedades distinctas. 

«Nao sc opporia tambem a que considerassemos a mo- 
lecula de um clemcnto intermcdiario cnlre dois oulros da 



DAS SCIE^CI.VS r. LETTRAS, 547 

mesma familia como sendo produzida pela uniao de duas meias 
moleculas dos elcmentos extremos. 

« Finalmenle assimilaria pela sua consliluicao hypotheli- 
ca OS radicaes suppostos simples da chimica mineral aos ra- 
dicaes compostos da chimica organicaciij a. consliluicao eco- 
nhecida, differindo todavia os primeiros dos segundos por 
uma cslabilidade infinitamentc maior etal, queasforcas, de 
que a chimica dispoe seriam insudicientes para operar o seu 
desdobramento. 

ccEstes problemas, que devem seguramenle collocar-se 
enlre os mais elevados que a chimica pode proper e resol- 
ver, podem tralar-se com o auxilio dos numeros reunidos 
com lanta perseveranca etalento por Bcrselius ? Naoocreio, 
diz ainda o sr. Dumas. 

auclor confessa que depois de haver feito longo estu- 
do e muitas Icntativas, pela sua parle, para comparar esses 
numeros, como o sr. Jasiah Cooke havia feito, na esperan- 
ca de chegar a uma conclusao satisfatoria, nunca oblivera 
outro resultado senao a duvida. Entrealguns equivalentes de 
corpos, cujas propriedades chimicas sao analogas, descobrem- 
se essas relacoes de simplicidade numerica sem correccoes ; 
mas enlre outros, que conslituem inqueslionavelmente fami- 
lias chimicas, e cujos equivalentes sao bem delerminados 
nao foi possivel descubrir essas mesmas relacoes numericas. 

Nao podia o auctor olhar como vas e forluitas as rela- 
coes, notaveis pela sua simplicidade, precisao e frequencia, 
nem considerar como geral uma lei sujeita a graves e im- 
portantes excepcoes. Tomou entao a resolucao, que Ihe era 
indicada pelos principios da phylosophia experimental, de de- 
compor problema geral em questSes especiaes e circum- 
scriptas que podessem ser submettidas a contraprova da expe- 
riencia, aobservacao directa eaojuizo imparcial dabalanca. 

A primcira questao que na sua Memoria propoe e a se- 
guinte : 



.■)58 an\m:ji 

Os cqnhalenlcs de Indos oscorpos simples sdo multiplos 
do cquivalentc do hydrogenio por niimeros inteiros? 

Tralando de rcsolvcr csta qiiostiio o sr. Dumas conipa- 
ra OS cquivalcntcs dc todos os clomontos inctallicos e nao 
melallicos, e encontra unicaincntc dois que fazcm cxccpcao 
a rcgra do Dr. Proul, estes sao o do chloro, entre os me- 
lalloidcs, e do cobre, entre os mclaes. 

equivalente do chloro, cm resultado demuitas crigoro- 
sas verificacoes, fcilas pelo sr. Dumas, depois dasquejaha- 
viam foito os srs. Pelouze, Maumene e de Marignac, alem 
das anligas de Wenzel e Berselius, ficou sendo scmpre ex- 
presso pelo numero 33,5 sendo odo hydrogenio aunidade. 
equivalente do cobre acha-se do mesmo modo situado en- 
tre OS numeros 31 e 32 ainda que asdiversas determinacoes 
nao hajam fixado de uma maneira irrevogavel a fraccao que 
se deve addicionar ao numero 31. 

A lei do Dr. Prout acha-se ja confirmada nasuaexpres- 
sao maisabsolula, se, em \ez de adoptar por unidade o equi- 
valente do hydrogenio, se tomar como tal o peso da mo- 
lecula de um corpo cujo equivalente seja egual a melade da 
do mesmo hydrogenio. 

A conclusao do sr. Dumas 6 — que os equivalentes dos 
corpos simples sao quasi todos muhiplos por numeros intei- 
ros do equivalente do hydrogenio tornado como unidade ; que 
todavia qiiando se trata do chloro, pelo menos, a unidade 
a que convem comparal-o e egual a 0,5 do equivalente do 
hydrogenio. 

A segunda queslao e a seguinle = Exislem corpos sim- 
ples cuj OS equivalentes estejam entre si, cm peso, como os nu- 
meros 1 : 1 OM como 1:2? 

Depois de um estudo comparative entre varios corpos que 
entre si teem o mais notavel parentesco chimico, como sao o 
lungslcno c o molyboleno, o oxigenio c o enxofre, o manga- 
nesio e o chromio, o auclor chega a seguinle conclusao. 



DAS SCIENCIAS E LETTRAS. 5'i9 

« Os corpos analogos pelas suas propriedades podem ter 
equivalcntes lirjados exactamente entre si por meio de rela- 
coes mutto simples, lacs como de 1 : 1 ede 1 : 2 ; mas po- 
de lambem aconlecer que taes relacoes nfio exislam mesmo 
para os corpos mais analogos, poslo que os numeros que 
represenlam os iierdadeiros equivalentes parecam aproximar- 
se mais possivel da realisac~io d" essas relacoes. 

Esia quesliio liga-se inleiramente com a terceira, que 6 
ascguinle==ASVnf/o dados Ires corpos simples per lencendo a 
mesma famiiia, oequivahnte do corpo intermediario e sem- 
pre egual a semi-somma dos equivalentes dos dois corpos 
extremos ? 

Ainda que a resposla pareca ser affirmaliva para os cor- 
pos que conslitucm algumas das series dos corpos elcmen- 
tares, ha outros muitos que dcsmentiriam essa resposta abso- 
lula. Eis a este respeilo a conclusao apresentada pelo sr. 
Dumas. 

Para Ires corpos da mesma famiiia, o peso do equiva- 
lenle do corpo inlermedio pode ser egual a semi-somma dos 
pesos dos equivalentes dos dois corpos extremos ; mas o con- 
trario pode tambcm realisar-se a respeito dos corpos mats 
proximos pelas affmidades naturaes. 

,\ quarta e ultima queslao apresentada pelo sr. Dumas 
ainda seligacom asduas antecedenles cparece complefal-as. 
E' a seguinte=05 numeros que representam os equivalentes 
dos corpos simples pro2)riamente ditos, pertencendo a mesma 
famiiia natural, ojferecemnasuageracao algumas leisana- 
logas dquellas que sedescobrem nageracao dos numeros re- 
presentando os equivalentes dos radicaes organicos da mes- 
ma serie natural? 

auclor mostrando primeiramcnte como se geram por 
differenca ou por substituicao os equivalentes dos individuos 
das series conhecidas de muitos dos radicaes organicos, pas- 
sa a comparar entre si os equivalentes dos corpos simples 



que pcrlcnccni as familias naluracs bom recoiiliccidas, lanlo 
entrc os metaloides como onlre osnietaes, c chega fiiialnien- 
te a seguinte conclusao. 

Que se OS equivalenles dos corpos simples, pertencendo a 
nma mesma familia natural, constiluem sempre itma progres- 
sao por differen^a, a maneira dos equivalenles dos radicaes 
da chimica organica ; a razFio d'esla progressao, frequenles 
vezes conslante, e lodavia em muitos casos, nalguns lermos 
da progressao, suhstituida por uma razao equivalenle, a que 
occulta a simplicidade da lei. 

Todas asquestoes, indicadas n'este trabalho pelosr. Du- 
mas, e tendentes a esclarecer a questao da unidadc da ma- 
teria, referem-se unicamente ao p6so dos equivalenles, e a 
sua resolucao pode explicar as differencas e as analogias en- 
tre OS diversos elemenlos pela condcnsacao da materia, mas 
nas propriedados caracteristicas de urn corpo, istoe, noseu 
mode de actuar sobre os nossos sentidos e sobre os outros 
corpos, deve tambem influir a forma das moleculas ouoseu 
arranjo intimo cujas relacocs sao mais difficeis de avaliar. A 
influencia que certos corpos em dissolucao exercem sobre os 
rayos da luz polarisada, e cujo estudo se deve as infatiga- 
veis observacoes do illustre Biot e de outros physicos, deve, 
ale cerlo ponlo, ser considerada como caminho aberlo para 
a resolucao d'estas inleressantes questoes da alia philosophia 
chimica. 



sr. Payen, bem conhecido no mundo scienlifico e in- 
dustrial pelos seus importantcs traballios sobre chimica ap- 
plicada a industria, acaba de publicar um tralado sobre a 
distillacdo das materias que podem produzir o alcool. Esla 
nova publicacao pode ser considerada um manual indispen- 
savel para todos os dislilladores, e principalmente para os 
agricultores erendeiros, que pretenderem eslabelecer nas suas 



DAS Sr.lENOI.VS E LETTRAS. f)51 

exploracoes riiracs adistillacOio dos produclos vegetacs, que, 
pela sua riqueza cm assucar, sao proprios para csia indiis- 
Iria e que dcixam abundantes rcziduos iiteis para a alimen- 
taciio dos gados, e para servirem, na qualidade de adubos, 
no amanho das terras. 

As malerias, que podem servir a extraccao do alcool, e 
que siio espccialmente consldcradas n'aquellc tractado, sao : 
as uvas, os vinhos, os diversos fructos, os cereacs, as bata- 
tas, a fecula, os lopinamburs, a abrolcga, as canas do as- 
sucar, e do sorgho, os mclacos, o mel e muilas oulras, 

Esclareccr por moio de preceitos e regras pralicas, ba- 
seadas sobre observacoes scienlificas, uma iiidustria luo ge- 
ral e tao iniportanle como 6 actualmcnte a dislillacao dos 
alcools e um servi^o emineule feito a socicdade. 



Em maio d'este anno havia o sr. Boussingault commu- 
nicado a Academia das Sciencias de Pan's as suas experien- 
cias lendenles a demonstrar a inSuencia que exerce o azote 
assimilavel dos adubos sobre a produccao \egetal , quando 
este azote se acha associado ao phosphato de cal e aos saes 
alkalinos. Eu tiz ja mencao d'este trabalho em o numero de 
junho d'estes Annaes. Ultimamenle o illustre chimico agri- 
cultor, com o fim de avaliar completaraente a importancia do 
sal calcareo, tentou novas experiencias sobre a vegetacao, au- 
xiliada por meio de um adubo azotado, sem o concurso do 
» phosphato calcareo, e dos saes alkalinos. As suas experien- 
cias foram feitas em sementeiras de helianthus e de canha- 
mo com todos os cuidados necessarios, e com todas as pre- 

caucoes indispensaveis para poder alcancar conclusoes se- 

guras. 

Referindo circumslanciadamente as suas experiencias, o 

sr. Boussingault conclue do seguinte modo. « Na primeira 

parte d'estas indagacues, demonstrou-se que o phosphato de 

TOMO I.-NOVEMBRO DE 1857.-1.^ Cl-ASSE. 3G 



552 ANXAKS 

cal uilo aclua favoravelmcnte sobre as planlas senao quando 
sc aclia associado a malcrias que podcm fornoccr o azote, que 
chanici assimilavel para o diffcren^ar do azoic gazoso da 
alhinosphera que os vogctacs nito assimilam. N'esla scgunda 
parte', acaba do provar-so que uma sul)slancia, rica cm azote 
assimilavel, nilo funcciona lodavia como adubo senao com o 
concurso dos phosphatos, c que, sc na verdade uma plaiila 
debaixo da sua influcncia adquire mais extensao do que quan- 
do cresce debaixo da accao unica do phosphalo, nunca chega 
todavia a um dcsinvolvimento normal. Em quanio ao resto, 
esla no^iio da necessidade de dois agenles fertilisanles n'um 
adubo e hoje admiltida ; tern ella conlribuido fclizmente para 
afugentar a fraude de um genero de commercio que no mais 
alio grao inleressa as populacoes ruraes. 

« Que me scja permittido, diz o sr. Boussingaull, accres- 
cenlar que foi cssa noclio introduzida na sciencia, ha perto 
de \inle annos, por mini e pelo sr. Payen. Niio julgaria 
pois necessario cmprehendcr novas invesligacoes para corro- 
borar uma opiniao tao geral menterecebida, sc nao houvera 
tido parlicularmcnle em vista o apreciar c medir de algum 
modo efleito util que exerccm sobre a vegelacao cada um 
dos prlncipios mais efficazes dos cstrumes : o azoic conlido 
nas combinacues nilrosas ou ammoniacaes, e o acido phos- 
phorico conlido nos phosphatos. » 

Sirvam estes principios e eslas cxpcriencias de norma 
aos que no nosso paiz comegam hoje a querer emprehen- 
der em grande escala a fabricacao dos adubos artificiaes. » 

J. M. DE OLIVEIUA PIMENTEL. 



D\S SCIF.NCIAS i: LF.TTKAS. ."m'S 



REVISTA ESTRANGEIRA. 



SETEMBRO E OUTUBRO. 



AsTROXOMiA. — numero dos planetas vai crescendo com 
lal rapidez que em breve o nosso systema planelario contara 
por cenlenas o numero dos corpos celesles que o conslituem, 
e a mythologia nao tera nomes para baplisar lodos esses as- 
tros noYos. primeiro planela pequeno que o lelescopio des-- 
cobriu, alcm dos geralmenle conhecidos, excilou a admira- 
cao, mesmo porque o scu descobrimenlo foi acompanhado de 
circumslancias notaveis e honrosas para a sciencia ; mas de- 
pois, a observacao constante do ceo tern dado em resultado 
tantas novidades da mesma natureza, que ja o descobrimenlo 
de um astro novo passa quasi desapercebido para todos os 
que, especialmenle, se nao dedicam a astronomia. 

E 6 comtudo para maravilhar a facilidadc com a qual 
alguns exploradores do c(?o acham astros para enriquecer os 
calalogos astronomicos ; havendo um , o sr. Goldschmidt , 
que encontrou ja nas suas observacoes dez planetas novos 
ii'um curto espaco de tempo. 

Na nolle de 15 de outubro, o sr. Luther, do observalo- 
rio dc Bilk, descobriu o 46." planela na constellacao dos 
Peixes; quatro dias depois o sr. Goldschmidt encontrou dois 
planetas apenas a um grao de dislancia um do oulro. Um 

3G* 



nicz ilopois , observador do Bilk , para nilo ficar inferior 
ao scu fell/ compelidor de Pan's , descohriu oulro planela 
cgiial cm apparciicia a unia eslrella do deciina grandcza. De 
modo que o nunicro dos planctas era, no lim de oulubro , 
cincoenla. 

— lima edi^rio esplcndida da obra de Copernico , ondc 
se lancarani os primeiros fundamcntos da aslronomia nio- 
derna , a immobilidade do sol e o movimenlo dos planelas 
em roda d'csle cenlro conimum, acaba de ser piiblicada pelo 
director do observatorio de Yarsovia. Os que goslam de es- 
tudar a historia da sciencia nos seus monumentos lillerarios, 
poderao achar n'esta publicaciio feila pelo sr. Baranowski 
nao so a obra inlitulada : De rcvolutionibus orhinm cwJes- 
tium, senao outros opusculos do grande aslronomo, alguns 
dos quaes se consorvavam ainda manuscriplos. 

PHisiCA DO GLOBO — GEOLOGiA. — sr. Slruvo aprcseu- 
tou, na sessao de 12 d'outubro, a Academia das Scicncias 
de Paris urn Irabalho de alta imporlancia, para o esludo da 
forma real da terra, sobre um meridiano de 25" e 20', me- 
dido pelos geometras, aslronomos e engcniieiros russos, com 
concurso de horacns de sciencia da Suecia e Noruega, en- 
tre mar Glacial c o Danubio. sabio director do observa- 
torio central da Russia, dando conia d'este \alioso trabalho 
geodesico, indicou a importancia das medidas dos meridia- 
nos terreslrcs n'uma grande exlensao , por serem estas as 
medidas, em que os erros, e a induencia variada das attrac- 
coes locaes sobre os corpos collocados a superficie da terra, 
podem ter menor imporlancia para a delerminacao da forma 
e dimensoes do spheroide terrestre. 

Por esta occasiao o sr. marechal Vaillant participou a 
Academia, que o tim principal da \iagem do sr. Struve a 
Franca era propor ao governo d'este paiz o aproveitamento 
da cadcia de triangulos geodesicos, que hoje existe desde o 
Occano Allanlico ale ao mar Caspio, entrc Brest e Astra- 



D\S SCIF.NCIAS E LHTTRAS. 0.).> 

kliam, para o calciilo dc um arco do parallelo quo pode ler, 
pulo mcnos, Uli graos de longitude. i*oIa coniparacao das 
paries d'cste arco, assim ca!cu!adas, com as suas ampliludos 
aslronomicas poder-se-ha ciicgar a conhccer se a terra e um 
vcrdadeiro corpo de revolncao. Participando esta nolicia scicii- 
tilica a Academia, o sr. Vaillant assegurou implicitamente o 
apoio da Fi-anca ao gigantesco projecto. 

sr. Uiot, celebrc astroiiorao que executou com Me- 
chain, Delambre e Arago a medicao do graiide meridiano da 
Franca, entre Duukerque e Formentera, juigou do seu dc- 
ver fazcr aigumas reflexoes inlcressantes acerca dos Iraba- 
llios e projectos do aslronomo russo. Segundo o sr. Biot nao 
basta combinar o novo arco mcdido com os ja conhccidos, 
como fez Bessa com os meridianos coahecidos em 1837 e 
18 iO , para d'esta comparacao lirar as vcrdadeiras dimen- 
soes do spheroide lerreslre : esle methodo suppoe admillida 
a hypothcso do que a terra e um eliipsoide de rcvolucao re- 
gular, e procura consegiiir a altenuacao dos erros de obser- 
vacao, combinando muilas linhas raedidas em divcrsos loga- 
res, por ditlerenies ol)servadores. 

estudo, porcm, dos arcos raedidos tem mostrado que 
cxistem grandes modificacoes na gravidade em divcrsos pon- 
los, e circumslancias phenomenaes que o antigo methodo dis- 
simula por compensacao , mas nao cxplica. lioje coiivem 
nao occultar, mas tornar bem palenles essas circumslancias 
singulares dadas pela observacao ; e preciso estudar a at- 
Iraccao lerreslre na sua realidade absoluta, tal qual elhi ap- 
parece a superdcie da terra, com as particularidades que nos 
I'azem perceber que ha desegualdade na configuracao do sphe- 
roide lerreslre, assim como na sua constituicilo interior. Os 
meridianos ja sc nao podem nem devem considerar como 
ellipses, idcnlicas enlre si ; nao 6 possivel desprezar ncm de- 
pressoes lacs como as do Sahara c do mar Caspio, nem va- 
riacoes de gravidadc codio as que se aprcsenlam sobre algu- 



J) 5 6 ANNAES 

mas das linhas ja medidas. Estas considcracocs do sr. Biot 
nao podeni deixar do ser apreciadas devidanicnle por hoinens 
de sciencia, taes conio sao Slruve c Le Verricr. 

— No gres conhecido pelo nomc aleniao dc Bunter San- 
dstein (gres bigarr^ dos francezes) foi ondc ha lempo, pcrlo 
de Hildburgausen, se descobriram os Iracos singulares dos 
pes do iim animal , que tinham oilo pollogadas de compri- 
menlo e cinco de largura, e cinco dodos bem dislinclos. 
professor Kaup propoz, para o animal de que apenas se co- 
nheceni as pegadas, o nome de Chirolerium, e suppoz, por 
analogias liradas da forma dos pes, que esse animal era um 
mamifero, pertencenle ou alliado com o grupo dos marsu- 
piaes. descobrimento d'esles simples moldes accidentaes, 
cncontrados n'uma camada geologica antiga fixou a altencao 
dos geologos, porque elles inferessam o esludo do primeiro 
apparecimento de mamiferos nos lerrenos slralificados. Al- 
guns observadores , comtudo, nao acceilaram a opiniao de 
Kaup, attribuindo esles anligos vesligios a passageni de al- 
gum batraquio colossal. 

Ila pouco sr. Daubrde acaba de descobrir, na mesma 
camada geologica, em Sainl-Valbcrt, novas pegadas do mes- 
mo animal ; estas, porcm, eslao moldadas com lal perfeicao 
que n'cllas se conhece a forma dos pes e das unhas , e ale 
as descgualdades, as granulacoes, as pregas da pelle, nao 
dcixando duvida alguma de que foram deixadas por um ma- 
mifero. Este novo faclo geologico vcio provar que existiam, 
seni duvida, mamiferos a superficie do globo, quando se de- 
posilaram as mais antigas caraadas do jieriodo do trias. 

— E tao intercssanle a descripcao lida na sessao da Aca- 
demia de Paris, de 26 d'oulubro, da erupcao do Awoe, no 
Grande Sangir , quo tevc logar em 17 de marco de 183C, 
(juc julgo convcnienle copiar texlualmenle alguns pcriodos 
d'clla, para se poder admirar o immcnso, o horrivcl podcr 
das forcas subterrancas, e fazer idea, por csle exemplo mo- 



WAS SCIIiNCIAS E LETTRAS. 537 

dcrno, do iiiodo por que forani anligamenle deslruidas e siib- 
Diersas era cinzas imporlantes cidades. 

« A excepcao de leves abalos, diz o sr. Jansen, senlidos 
nos preccdeiites niezes, e que, por frequcnles iias ilhas San- 
gir, nao chaniam ja a atlencao, nada exlraordinario se ha- 
via nolado no cslado do volcao , nada havia feito susixjilar 
uma propiiiqua erup^ao. De modo que, Iranquillisados pela 
sua habitual supersti9ao e as narracoes de uiii hespanhol que 
fizera a ascencao do Awoe alguns mezes antes, os sangiren- 
ses \iviam na niaior seguranca ; linham eslendido as suas 
culturas de arroz pela encosta da montanha , e em lOruo 
d'esla se erguiam as negrarias (aldeas) sem receio , e sera 
inquielacao alguma. 

« Na tarde de 2 de marco, entre sete c oilo horas, uma 
detonacao de indescriptivel violencia annunciuu a crupcao 
imminente do volcao e encheu de pavor os habilanles. Ao 
mesmo tempo a lava incandescente precipitou-se por lodos 
OS lados com forca irresistivel, pela montanha abai\o, des- 
truiu quanto enconlrou c fez fervcr em cachao a agua do 
mar , com que veio misturar-se. Pontes de agua quenle se 
abriram violenlamente, e derramaram massas de agua a ier- 
ver que devaslaram e arraslaram tudo que o fogo nao havia 
consumido. Levanlado com exlraordinaria forca, corao im- 
pellido por um tremor sub-marinho , o mar com pasmoso 
ruido quebrava-se contra os rochedos ; arremecou-se sobre 
a terra firme , inundou a praia , arrebatando ao logo suas 
desaslrosas conquislas ; uma hora depois seguiram-se Iro- 
voes que fizcram Iremer o solo ; o lumulluar dos elementos 
era horrendo. Uma columna negra de pedras e cinzas saiu do 
cume da montanha, Icvantou-se ate ao ceo e caiu depois cm 
chuva de fogo sobre a lava incandecente ; a esle phenomeno 
scguiu-se uma obscuridade que so intorrompiam os relam- 
pagos que por cspacos brilhavam ; cram lao dcnsas as tre- 
vas que sc nao podiam distiuguir os objoctos ainda os mais 



liiiS ANNAES 

proximos; a confusao era goral , a desesperacao sem limi- 
tes. Pedras enorraes lancadas ao ar quebravain qiianlo en- 
conlravam no eaminho. Habilacocs e scaras, o que nao fora 
deslruido pelo fogo, foi tudo soterrado pelas cinzas e pelas 
pedras ; as torrenles que se precipilavam da monlanha, de- 
tidas pelos obstaculos que encontra\am , cslcndiam-se for- 
mando lagos cujas margeiis se alargavam conlinuamcnte, e 
depois adquiriam novas forcas para dcvaslar. 

« Tudo passou n'algumas horas. A meia noile os ele- 
menlos socegaram ; no dia seguinte comludo, ao meio dia, 
recomecaram, com nova forca, a sua obra de doaslacao. A 
chuva de cinzas durou o dia lodo ; foi por lal modo inten- 
sa, que os rayos do sol nao poderain penelral-a, e a obscu- 
ridade foi quasi completa. » 

As aldeas foram quasi totalmente deslruidas , mesmo a 
consideravel distancia , e o numero das viclimas sobiu a 
2806. 

MRGHANiCA. — Modificar a forma, o systema da conslruc- 
cao dos motores a vapor, combinar nao so a forma das cal- 
deiras e dos cylindros, mas tambem a nalureza dos liquidos 
emprcgados, de modo qus se aproveile o mais possivel a ac- 
ciio do calor que se procura transformar em movimcnto, tern 
sido e e ainda um dos objeclos que mais fixa a altencao dos 
physicos e dos mechanicos. Ja temos dado nolicia de varios 
apparelhos construidos com o iim de economisar o calor mais 
do que succede nas actuaes machinas de vapor, e entre es- 
Ics de alguns em que ao vapor da agua se associa a accao 
do vapor d'elher. A experiencia nao tern sido comludo fa- 
voravel as machinas em que se empregam vapores combina- 
dos, que lem feito dar preferencia aos motores cm que se 
emprega so o vapor d'agua. 

sr. Tissot procurou, na sua nova machina, supprimir 
vapor d'agua e subsliluir-lhc iinicamenle o vapor d'elher, 
mas d'elher preparado pela combinacao com um oleo cssen- 



DAS SCIENCI\S E LETTRAS. JJ.jiO 

cial. A caldeira esta aquecida pclo banho-niai'ia : por cada 
cem litres d'ether junta o sr. Tissol '2 de oleo essencial ; o 
ether, cada vez que entra na caldeira depots de exercer a sua 
accao, alravessa uma camada de azeite, que repousa sobre 
uma camiida d'agua onde se abre o tubo de injeccao, A 
agua tern uma porcao pcquena de soda, de modo que o oleo, 
que ether arrasta na sua passagcm, vem no estado de quasi 
sabiio. composto assira formado tera importantes qualida- 
des. Nao estraga, antes conserva as paredes do cylindro, o 
embolo e as outras partes que na niachina estao expostas a 
friccoes. Nao produz nenhuma abcrtura por onde o vapor 
possa sair. Dilata-se com mais facilidade e niais proveilo do 
que vapor d'ether puro. 

Por consideracoes bem fundadas conclue-se, que uma ma- 
china d'ether gasta so I'^^'.IS de hulha para produzir o mes- 
mo effeito que uma machina ordinaria, gaslando i kilogram- 
mes. Machinas d'estas, d'ether preparado, acham-sc ja func- 
cionando debaixo da inspeccao do sen inventor. 

— Para evitar os graves desaslres que resultam nos ea- 
rn inhcs de ferro do encontro de comboys , teni-se buscado 
achar um syslema de molas que possa, se nao amorlcccr, ao 
menos allenuar o effcito dos cheques. sr. Phillips buscou 
estudar mathematicamente esta queslao, partindo de um tra- 
baiho publicado ha annos por elle sobre as molas, no qual 
se prova que : o irabalho necessario para leva?' uma mola 
a um ccrto grdo de alongamento ou de encurlamento pro- 
porcional elaslico , commum a todas as suas folhas e uni~ 
forme na superfcie inteira de cada uma d'ellaSy e rigoro- 
samcnte independenle da sua forma, da sua resistencia abso- 
luta e da sua /texibilidadc, e mo dependc absolutamenle se- 
ndo do seu volume, islo e, do sen peso. Eslabelecendo for- 
mulas simples, e substituindo-Ihe depois valores numericos 
dados pelas cxperiencias, o sr. Phillips determinou qual de- 
veria ser o peso das molas, para se amorleocr o choque no 



560 Al^^,vl;s 

caso dc uiii trem expresso , de uni trcm omnibus , de urn 
trem mixlo, c de urn Irem dc mercadorias, c achou que : no 
primeiro caso devia scr o peso da mola egual a 30845 ki- 
logram inos ; no seguodo egual a 21590 kil. ; no Icrceiro 
egual a 24255 kil. ; e no quarto egual a 22850 kil. Esles 
calculos inleressanlcs provani Icrminanlemenle a inipossibi- 
lidade de applicar esle meio de proteccao nos caniiuhos dc 
ferro, porque su para Iransportar a mola seriaui nccessarios 
inuitos carros, alera da difficuldade de por cm exercicio um 
tal apparelho. 

— sr. Polignac , convencido da grande importancia 
que conservam as qu6das d'agua como molores, nao obstante 
OS consideraveis progresses que tem feito a construccao das 
machinas de vapor , buscou minorar uma das dilficuldades 
que apresenta o uso d'aquelles motores, a que resulta mui- 
tas vezes de ser necessario construir as ofiicinas no proprio 
logar onde existe a queda d'agua. Uma dislancia de 100 nie- 
tros apenas basla para tornar impossivel o empr^go de uma 
queda d'agua, sera grandes despezas, cuidados e difficulda- 
des; a menos que as condicoes locaes sc niio prestem a uma 
deri vacuo d'aguas e a creacao de uma queda arlilicial, por 
lal preco que a economia do emprego d'este molor, em vez 
do vapor, pague o juro do dinheiro empregado nas obras in- 
dispensaveis para cssa derivacao. 

Para cortar eslas difficuldades so ha um recurso , e o 
descobrir um meio simples de fazer a transmissao da forca 
produzida pela queda d'agua a uma distancia de 300 a 400 
mclros. E este meio que o sr. Polignac julga haver desco- 
berto. 

N'algumas minas d'Alemanha emprega-se uma columna 
d'agua, como orgao Iransmissor, cm machinas dcstinadas a 
levantar pesos. So n'um circuilo d'agua, fechado cm lubos, 
a agua for posta em movimento por uma machina, esle mo- 
vimcnto podcra ir dcpois pur cm movimento outra machina 



D\S iJClEISCIAS li LETTR.\S. 



561 



que se ache no mesmo circuilo, havcndo apenas perdas de- 
vidas as friccues. Parlindo dos exemplos d'AIeiuanha, e d'cs- 
tas consideracoes que ficam apontadas, o sr. Polignac pro- 
pOe um syslcma, que conslste u'uma bomba aspiranle e pre- 
mente, movida por uma machina de colunina d'agua acluada 
pela propria queda d'agua ; de tubos dc transmissao, e, fi- 
nalmente, de uma segunda machina de columna d'agua des- 
tinada a fabrica. Esta ultima machina e a que, no syslema 
do sr. Polignac, apresenla novidades de construccao ; tudo 
mais siio orgaos conhecidos e de provada efficacia. 

Se as esperancas do inventor do novo appareiho se rea- 
lisarem, poder-se-ha fazer uso dos motores hydraulicos, sem- 
pre importantes por serem economicos , mais facilmenle do 
(lue ate aqui, porque nao sera necessario collocar as olTici- 
nas no proprio logar em que existe a queda d'agua cuja forca 
se quer utilisar. 

PHYSiCA. — A convergencia dc muitos espiritos elevados 
para uni ponto importantissimo da sciencia , prova clara- 
mente que esta chegado o momento de ser descoberta uma 
d'essas grandes leis que transformam a marcha da sciencia, 
que illuminam de vivo clarao os factos ainda obscuros da 
natureza, e abrem novos horizontes as especulacoes philoso- 
phicas, e vaslo campo a cxperimentacao e a observacao. 
esludo da correlacao das forcas physicas vai constantementc 
progredindo ; numerosas expericncias vao provando as rela- 
coes mutuas que existem enlre essas forcas comparadas duas 
a duas, e importantes syntheses vao combinando os resulla- 
dos d'essas expericncias e mostrando que os dois principios 
da correlacao das forcas physicas , c da immutabilidade na 
(jiiantidade de forca existenle na nalureza, sao rigorosamente 
exactos. 

N'um discurso fcilo pclo prcsidcnle da Associacao Brila- 
nica doutor Lloyd, cncontra-sc uma d'essas syntheses lu- 
minosas, que marcam com exacfidao a altura a que a scicn- 



S62 AANAI-S 

cia leni chegado n'esla epoclia, c indicam (jiie csta proxima 
a descoberia da lei geral das forcas da nalureza. 

Ha muilo que sc sabe que a friccao de dois corpos pro- 
duz calor, sabe-se tambem que quando o calor produz a mu- 
danca d'estado de urn corpo (reduz, por exemplo, a agua a 
vapor) dcsapparecc , torna-sc latente , para reapparccer de- 
pois quando o corpo lorna a tomar o seu primitivo estado. 
Na evaporacao desinvolve-sc uma quantidade defmida do 
forca mcchanica, a qual e oulra \ez absorvida quando o va- 
por passa de novo a liquido. Estes factos levaram a suppor 
que sempre que o calor desinvohia forca niechanica, ou esta 
produzia calor, exislia entre as quantidades produzidas d'es- 
tas duas accoes uma relacao definida , e rigorosamente de- 
terniinavel. A experiencia mostrou que o calor e a potencia 
mechanica se correspoudiam reciprocamente , e represenla- 
vam uma relacao constanle. calor neccssario para elevar 
de um grao centigrado a temperatura do um kilogrammo de 
agua, equivale a uma forca capaz de levanlar 426 kilogram- 
mes a um metro d'altura n'um sogundo. 

Esle importanlo faclo experimental dirigiu o csludo da 
Iheoria dynamica do calor. A velha Iheoria, que considerava 
calor como uma substancia separada e distincia, d mani- 
fcstamenle falsa , porque , entre oulros defeilos , conduz a 
absurda consequencia de que no universo a quantidade de 
calor vai indefinidamente augmentando. As relacOes incon- 
leslaveis do calor e da luz provam, de mais, que o calor 
consisle nccessariamente n'um movimento vibralorio , sem 
que se possa reconhecer, comludo, rigorosamente a sua na- 
tureza. 

Uma hypothese se apresenta que parece poder explicar 
todos OS phenomenos do calor, c a dos turbiUwcs mollccu- 
larcs , do sr. Rankine, que esta de accordo com a Iheoria 
mechanica do calor proposta polo sr. Seguin. Consiste a hy- 
pothese do sr. Rankine, cm sunpor os corpos conslituidos por 



D\S SCIKXCIAS i; LKTTRAS. fJGlJ 

alomos formados por um nucko cercado por uma athmos- 
phera elastica. A radiacao da luz e do calor e allribuida a 
transmissao das oscillacOes dos nucleos : o calor thennome- 
trico suppoe-se rcsullar de turbilhoes, que circulam entre as 
particulas das athmosphcras , e tendem a affaslar estas par- 
liculas dos nucleos e a fazel-as occupar uni espaco maior. 
Os principios de niechanica applicados a esta theoria dao to- 
das as leis da thermo-dynaraica. sr. Rankine deduziu dos 
mesmos principios as relacOes, que ligam a pressao, a den- 
sidade , e a temperatura absolula dos fluidos elasticos ; a 
pressao e a temperatura da ebulicao dos liquidos. 

A theoria dynamica do calor leva-nos a achar a expli- 
cacao aproxiniada da continuidade do calor no globo. sol 
perde pela irradiacao uma enorme quantidade de calor : em 
um anno o sr. Pouillet calcula, que essa quantidade eguala 
a que produziria a combustao de uma camada de carvao com 
mais de 23 kilometros d'espessura. Mas no systema plane- 
tario existe uma provisao enorme de forca, que pode trans- 
formar-se em calor. Deve tambcm ter-se em conla que o sol, 
como provam a sua pouca densidade e outras circumstan- 
cias, ainda nao cliegou aos limites da sua compressibilidade ; 
quando um corpo se condensa exhala uma quantidade con- 
sideravel de calor ; condensando-se, o sol ganha pois calor 
com que compensa as perdas que faz pela radiacao. Cal- 
cula-se que uma condensaciio, que diminuisse de um deci- 
mo-millessimo o diametro do sol, baslaria para Ihe resti- 
luir calor que elle perde em 2000 annos. Na terra mes- 
mo muita forca se tranforma continuadamente em calor : o 
phenoraeno das mares, em que, segundo Bessel, se deslo- 
cam de um quarto da terra a outro quarto 75000 kilome- 
tros cubicos de agua , deve, pelas friccoes, dar origem a 
uma quantidade immensa de calor. De todas estas causas 
de resfriamento e de aquecimento, de todas as transforma- 
coes de forca era calor, e de calor em forca, resulla que o 



'iCl ANNAES 

calor (la lerra nao teui soffrido scnsivcis mudaucas dciUro do 
pcriodo historico. 

E cerlo que a forca mechanica que coniprime urn corpo 
desinvohe calor : o calor que aquece um corpo dilala-o, e 
produz forca mechanica. A relacao mutua cntrc o calor c a 
forca mechanica e conhecida ; qualquer d eslas forcas podc 
ser causa ou effeito da oulra. Sabe-se que a eleclricidade tern 
accao sobre as combinacoes chiniicas, e que as combinacocs 
chimicas desinvolvcm eleclricidade ; a eleclricidade gcra o 
magnelismo, o magnelismo produz eleclricidade. A cxislen- 
cia da correlacao das forcas physicas e pois'um faclo de- 
monslrado. Mas essas rclacoes muluas das forcas sao defni- 
das, de modo que se uma dobra ou triplica, a oulra dobra 
ou triplica tambem ! 

As experiencias dos srs. Joule, Mayer, Seguin e Monl- 
golfier, determinaram o equivalenle mechanico do calor ; a 
experiencia tambem lem raoslrado que a eleclricidade, o ma- 
gnelismo, as accoes chimicas empregadas era cerlas propor- 
coes produzem uma quanlidade definida de IrabaUio mecha- 
nico. 

conhecimento d'esles factos importanles, c do princi- 
pio da conservacdo das forgas, guia hoje os sabios nos sous 
esludos dos phenomenos physicos. Em revislas anleriores fi- 
caram indicadas algumas experiencias imporlanles, empre- 
hendidas com o fim de delerminar as relacoes das forcas : e 
vfi-se claramenle que o problema vai de dia para dia cami- 
nhando para a sua definitiva resolugao, e, conseguintemen- 
le, que nao esld longe a 6pocha em que a physica do mun- 
do se podera loda deduzir de leis tao simples como as da 
atlraccao newtonniana, e ser abrangida n'uma vasla e bri- 
Ihanle synlhese. 

— N'uma primeira Memoria « sobre as variacoes de in- 
tensidade que sofFre uma correnle eleclrica quando produz um 
trabalho mechanico » c de que ja demos nolicia, o sr. Sorel 



DAS SCIKNCIAS E LETTRAS. j6.') 

moslrou, que unia corrcnle eleclrica dimiiiuia d'inlensidade 
quando pela sua accao se produz ura trabalho nicchanico ; em 
oil Ira Memoria o mesmo sr. Soret expoz os resiiltados das 
suas observacoes « sobre o calor raanifeslado pela correnle 
electrica na porcao do circuito que exerce uma accao exte- 
rior. » Quando urn circuito \'oitaico nao exerce accao exte- 
rior, a lorca desinvolvida na pilha pela accao chimica ma- 
nifesfa-se por calor na pilha e nos conductores ; 6 esle o 
trabalho interno do circuito. Se o circuito exerce accao ex- 
terior, produzindo correnles d'induccao, magnetisacoes etc., 
forcas converliveis em calor ou em trabalho mechanico, csla 
accao pode chamar-se trabalho exterior do circuito . A nao 
admittir a possibilidade de se poder crear a forca, nao 6 pos- 
sivel suppor que um circuito voltaico, quando exerce traba- 
lho externo, conserva um trabalho interno egual ao que se 
manifesta quando tal trabalho externo se nao da. 

sr. Soret ja mostrou que uma correnle diminue d'in- 
tensidade quando exerce accao exterior ; mas isto nao explica 
modo por que se effectua a conversao da forca interna de 
ura circuito na forca externa, produzida pela accao d'aquella 
forca interna, porque o trabalho chimico produzido na pi- 
lha d sempre proporcional a intensidade da corrente : de 
modo que uma corrente, cuja intensidade primiliva se enfra- 
quece , porque produz um trabalho externo, se assimilha , 
debaixo do ponto de vista chimico, a uma corrente ordina- 
ria de intensidade naturalmente menor. Podcm-se, pois, en- 
conlrar dois circuitos, um que so produza trabalho interno, 
outro que produza, alem d'esle, um trabalho externo, mas 
tendo ambos a mesma intensidade, e conseguintemente con- 
sumindo a mesma porcao de zinco nas pilhas a que devem 
a sua origem. trabalho interno , pelas razoes que acima 
ficam indicadas, nao pode ser o mesmo nos circuitos , logo 
deve haver uma mudanca no circuito que produz trabalho 
externo. Sera essa mudanca uma diminuicao do calor mani- 



566 ANNAKS 

feslado na parte do circuilo quo excrco accao oxlcrior? Toi 
esla a questiio que o sr. Sorcl buscou rcsolvcr cxperimenlal- 
nienle. 

Era pois preciso indagar se um helice, alravcssado por 
lima corrcnte, se oquece do mcsmo niodo quando nao exercc 
accao exlcrior, ou quando cxcrce uma accao, tal como a dc 
magnctisar e de dcsmagnctisar uma barra de ferro, quando 
a corrcnlc 6 com frequencia inlerrompida. As experiencias 
execularam-se fazendo passar a mesma corrcnte por dois he- 
lices ; determinando primeiro a relacao das quanlidadcs dc 
calor nos dois helices, quando nenhum exerce accao exter- 
na ; dispondo depois dentro de um dos helices ura cylindro 
de ferro, sobre que elle exerca accao, e esludando de novo 
as rclacoes das quanlidades de calor. As experiencias exe- 
culadas com delicadeza e cuidado dcram um resullado nc- 
gativo, isto c, reconheceu-se por essas experiencias que « a 
relacao das quanlidades de calor maniiestado nos dois heli- 
ces nao soffre modificacao quando um d'eiles produz , por 
induccao, uma accao exterior. » 

(Conlinm.) 

JOAO DK ANDRADE CORVO. 



':^^>^ 



■-^(s^^ 



mm DAS SCIENCIAS 



LETTRAS 



i: CLASSE. 




-^^(^Dy' 



';^^te^. - -^(^ 

ANNAES 



DAS 




SCTOIAS E LETTMS, 



PUBLICADOS DEBAIXO DOS AUSPICIOS 



ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS. 



SCIENCIA8 MATHEMATICAS, PHYSICAS, HISTORICO-NATURAES, E MEDICAS. 



TOMO I. 

PRIMEIRO ANNO. 

DEZEMBRO.de 1857. 



LISBOA 

NA TYPOGRAPHIA DA MESMA ACADEMIA 

1858 



G^)^— 




INDICE 



DOS ARTIGOS CONTIDOS N ESTE NUMERO. 



TRABALHOS APRESENTADOS A' ACADEMIA. 

PAG. 

RECONHECiMENTO geologico 6 hydrologico dos terrenos 
das visinhancas de Lisboa corn relacao ao abasteci- 
menlo das aguas d'esta cidade, pelo sr. Carlos Ri- 
beiro 567 

HYGIENE publica 581 

REviSTA dos trabalhos chimicos 590 

REVisTA. eslrangeira. — Septembro e oulubro .... 601 

PARALLELOGRAMO daS fOFCaS 619 

OBSERVATORio metcorologico do Infante D. Luiz, na Es- 
cola Polytechnica 628 



DAS Sr,lENCI\S E LKTTRAS. 5'67 

)c<x)c<xx)cooo(m)coioooooc<x)0(^^ 



TRABALIIOS APRESENTADOS A ACADEMIA. 



RI'COINJIECIMEIVTO GEOLOGiCO E HYDROLOGICO DOS TERRENOS DAS 

MSINHANCAS DE LISBOA COM RELACAO AO ABASTECIMENTO DAS 

AfiUAS d'eSTA CIDADE, PELO SENKOR CARLOS RIBEIUO. 



SEGU.^DA PARTE. 

6/ SECCAO. 



CONSIDfiRATOES HYDUOLOGICAS SOBRK AS AGLAS DO 
MASSICO OCCIDEMAL. 



(continuacao.) 



Quarto grnpo do andar de Bellas. — Conlinuando na ordem 
descendente succede-se em stralificacao concordante 4." 
grupo, exclusivamenle composto de rochas arenosas e argi- 
losas. As camadas arenosas conslam de gres mais ou menos 
poroses, de graos siliciosos c feldspathicos, e cimento argi- 
loso ou argilo-ferruginoso. Entre estes gres mais ou menos 
grosseiros ha camadas de gres ferruginoso pouco micaceo de 
grao fino passando a bancos de ocra aproveilada para a 
pinlura em Rinchoa e Baralam. As camadas de gres gros- 
seiro sac habitualmcnle aquiferas, porque com ellas alternam 

Touo I.-Dezembro de 1857.-1,' Classk, 37 



508 ANNAF.S 

em toda a cspessura do grupo Icitos dc argila cinzenUi mais 
ou mcnos arenosos e impcrmeaveis. 

Esic grupo cslcndc-se com toda a regularidade de E a. 
0, desde a divisoria d'aguas da ribeira de Odivellas ale ao 
meridiano da montanha do Suimo ; mas como para o Poentc 
d'esla linha nao chegasse a scr lao completamentc desloca- 
do , como outros grupos , cujas partes foram arrojadas al- 
guns kilomelros para alem da grande linha divisoria d'aguas 
de lodo massico, succede que o limilc septentrional da zo- 
na, que vem do Nascente, dobra acima do barracao das mu- 
das na estrada de Mafra , ou a urn kilomelro a NO do Ca- 
sal da Carregueira, formando uma longa curva ; e volvendo 
oulra vez para o Nascente, vai ao Alto dos Gafanhotos, es- 
tendendo-se d'ahi ate a povoacao de D. Maria d'onde se di- 
rige para os Almornos, e passando pela vertenle N da mon- 
tanha da Piedade, desce para o Sabugo ; d'este ponto segue 
para SO pela Granja de Santa Cruz e Algueirao, d'aqui vai 
ao longo da margem esquerda da ribeira de Rio de Mouro, 
occupando lodo o lerreno desde esla ultima linha ale ao li- 
mite N do 3." grupo, que abrange Pechiligaes, Melecas, Ta- 
Iha, Molhapao e Casal da Carregueira. D'esta forma o 4." 
grupo vem a comprehender uma grande parte dos flancos e 
bacia da ribeira de Valle de Lobos , desde as visinhancas 
do Casal de Santa Anna ale as suas mais alias nascentes 
na Tapada ; occupando uma extensao superficial, dentro da 
bacia das Ires ribeiras, de quinze a dezeseis kilomelros 
quadrados proximaraenle e com uma possanca que or^a por 
60"". 

Em toda a parte meridional d'este grupo estao todas as 
camadas similhanlemente dispostas como as dos grupos pre- 
cedentes , e como elles inclinando 5 e 1 S" para S e para 
SSO ; por consequencia em condicoes analogas sob o ponlo 
de vista hydrologico ; o que todavia nao aconlece na maior 
parte das oulras localidades cobertas por estas camadas. f^' 



IJ.VS SCIENCIAS E LfiTTR.VS. ?)C9 

Em geral esle grupo apresenta-se muito niais accidenta- 
do do que os dois primeiros ; mas percorrendo as localida- 
des e que melhor so pode conhecer a exlensao e circumslan- 
cias d'esles accidenles, dos quaes passarei a indicar alguns 
que parecem exercer mais influencia nas condicoes hydrolo- 
gicas d'esles grupo. 

Entre o Casal da Quinlam e o sitio das Ponies Grandes, 
onde as margens da ribeira de Carenque se elevam a grande 
altura sobre o seu respectivo leito , estao as camadas dos 
gres divididas em grandes massas , iimas em posicao hori- 
zontal, inclinando em angulos de 5 a 50" para todos os pon- 
los do horizonte, e mais commummenle para os quadrantes 
de SE e SO ; eslas solucoes e desarranjos sao devidos a di- 
reccao lorluosa da falha da ribeira ajuzanle d'esla localida- 
de, a falha que determinou a formacao do valleiro da Quin- 
lam, pouco divergente da precedeule, e as erupcoes trappi- 
cas que se observam no earainho que conduz d'esle ultimo 
valie a povoacao de D. Maria : e d'esles desarranjos resulta 
a penuria de nascenles nas camadas d'esle grupo em toda a 
a porcao do valie de Carenque ja indicada. No Alto dos Ga- 
fanhotos, sobre a estrada de Bellas aos Almornos, dobram-se 
as camadas de gres com os calcareos do B° grupo que Ihes 
sao inferiores formando uma linha anliclinica ; esla linha se- 
para as aguas das duas ribeiras de Valie de Lobos e do Cas- 
lanheiro , mas achando-se denudadas inferiormenle para o 
lado d'esta ultima ribeira , deixa escapar pelo SE, para os 
calcareos fendidos, toda a agua pluvial que cahe sobre esla 
parte das camadas, ficando assira esterilisadas. Urn pouco 
mais ao N d'aquella linha sao as camadas d'esle grupo atra- 
vessadas por diversas massas de trappe que nao so as reta- 
Iharam e levanlaram fazendo-as inclinar para diversos pon- 
tes do horizonle, mas modificaram profundamente a nalu- 
reza dos gr^s e das argilas em volta dos affloramenlos, e do 
c^litacto d'estas rochas 6 que brota uma parte das copiosas 

37 * 



t>70 \NNAF,S 

nasccnlcs da plaga dos (iafanholos , na qual sc coniprchcn- 
dcm as da quinla de D. Luiza Caldas. Proseguindo ainda 
para o iN e sobrc o caminlio da Tapada, as camadas dc gres 
e argilas dobram dcslocando-se repelidas vezes e Icvaiilan- 
do-se cm angulos dc 20 a GO" cm conscqiiencia da iujcccao 
dc dikes de Irappc porphyroidc, brolando de todas eslas fen- 
das e deslocayoes oulras copiosas nascenles que sao as mais 
superiores do ribeira dc Yallc dc Lobos. 

Scguindo as margcns d'csta ribeira, por urn lado desde 
Alto da Tapada, Granja, Malta c Pcchiligaes, e por oulro 
desde o Alto dos Gafanhotos, \allc dc Urze, Moinho da Mal- 
ta, ate a quinta do Minhoto , cncontrar-sc-hao as camadas 
d'este grupo, especialmcnie na margcm direila de Yalle de 
Lobos , levantadas em angulos de 5 a 90" para differcntes 
pontes do horizonte. Na divlsoria d'aguas no Alto da Tapa- 
da inclinam as camadas para pontes opposlos por causa da 
linha anticlinica que all passa ; mas scguindo a mesma di- 
visoria para o Alto da Picdade veicm-se ahi as camadas de 
gr6s com inclinacocs em grandes angulos para o lei to da ri- 
beira e deslocadas mui perto d'elia na linha que forma a 
grande divisoria, abrindo-se uma larga falha por onde rom- 
pem OS calcareos de Olcllas , ficando occullas pclo lado do 
N, 6 a profundidade dcsconhecida , as camadas d'esle gru- 
po, D'esta disposiciio rcsulta a cxistcncia de menor numero 
de nascenles na parte da margem direita da ribeira de Valle 
de Lobos n'esla localidade do que na margcm fronteira. Da 
encosta da Picdade e para o SO descem estas camadas pela 
referida margem direita inclinando para aquelle quadranfe : 
mais para diante muda esta inclinacao para o NO percor- 
rendo os differentes pontos do horizonte cntre aquelles dois 
quadrantes, e penetrando para o interior da terra em angu- 
los de 30, 70 c 00", cm consequencia da falha que um pou- 
co mais a se dirigc das visinhancas do Sabugo ao sitio de 
Maria Dias, e a qual aproxima lanlo a divisoria d'aguas para 



D.vs S(:ii;m:ias e i.r.TTius. 371 

leito da ribeira de Valle de Lobos, que no silio do Sanla 
Cruz junto a Malta de Cima nao chegara a esfar affastada 
uns 100'". D'este modo a niargem direita da ribeira de Valie 
de Lobos desde as visinhancas da Piedado al6 a Malta con- 
linua successivamento a ter unia quasi absolula carcocia de 
nascentes nos gr6s d'este grupo, vendo-se apenas por este la- 
do alguns delgados filetes d'agua que brotam das paredes 
mais escarpadas. Na niargem esquerda aprcsenta-se o i.° 
grupo desde o Alto dos Gafanhotos ale ao povo da Malta, 
occupando uma depressao dos calcareos do S." grupo , cu- 
jas caniadas aiHoram n'aquelles dois pontos : eslcndem-se as 
camadas d'aquelle grupo sobre uma grandcA-irea para a Car- 
regueira c Molhapao, apresentando n'esta margem a sua ma- 
xima possanca, inclinando o solo bcm como as camadas em 
partes para o alveo da ribeira, na qual descarregam muitas 
e abundantes nascentes fornccidas por tVequenles e extensas 
camadas aquil'eras alimenladas por uma grande siiperficie de 
absorpcao. 

Alem dos accidenles ponderados nniitos oulros se mani- 
festam nas camadas d'esie grupo, sem comtudo affectarem 
•grandes areas e devidos a injeceao de dikes de Irappe como 
no Rocoveiro, Baralam, .Melccas, Taiha e Pechiiigaes, bro- 
tando de quasi todos nascentes mais ou menos copiosas. 

Os outros pontos occupados pelas rochas d'este grupo em 
que so raanifesia maior abundancia do agnas , sao desde o 
Casal da Carregueira ate Molhapao e Malta, e desde os Pe- 
chiligaes e Algueirao ale Melecas e quinta do Telhal. A ca- 
mada de argila arenosa impermeavel, cinzenta clara, man- 
chada de vermclho e amarello, que esta acima da parte me- 
dia do grupo e que determina a zona aquifera mais superior 
d'este mesmo grupo. Ve-sc afflorar esta camada a monlanic 
da Mae d'Agua Veiha ; nas terras e Casal da Quintam ; no 
valle da ribeira do Gastanheiro, ao N do Casal do Brouco ; 
na explanada que se estendc do Casal da Carregueira para 



571 ANNAES 

lado do N , e que vai passar algunias dezenas do nietros 
acima do Tanquinho dc Molhapao , no Sabugo e em Pcchili- 
gaes. Sobre esla camada impermeavel residem : 1 ." as nas- 
centcs do valleiro acima da Mae d'Agiia Velha ; do valle da 
ribeira do Caslanheiro, cada uma das quaes da de 10 a lo™, 
diarios na maior esliagcm ; 2.° as nascenles da C(}rca da Car- 
regueira que affloram por baixo de um lerreno alluvial um 
pouco argiloso, e formam as origens da ribeira do Jardim ; 
cslas nascenles niediram em dezembro findo 130 a liO""" de 
agua por dia. Uma parte d'estas aguas perde-se no solo cal- 
careo do grupo antecedenle ; 3." as nascenles de Abcturci- 
ra, e o terreno conliguo que se acha salurado de aguas na 
sua parle rnais baixa, na extensao de muitos cenlos de nie- 
tros quadrados ; 4." as aguas do Tanquinho de Molhapao, 
com as suas nascenles e encanamenlos, que apesar de esta- 
rem em parte desmoronados e obslruidos , mediram em de- 
zembro passado, 300 a 400""" d'agua diarios: eslas nascen- 
les acham-se em uma prega do solo, para a qual convergera 
as camadas, formando uma linha sinclinica, offerecendo por 
lanto favoraveis condicoes para uma exploracao \anlajosa na 
camada aquifera. Cabe aqui dizer que as camadas d'esta lo- 
calidade descahem fortemenle para o corrego do ribeiro de 
Molhapao, que vai encostado a barreira quasi aprumada dos 
calcareos do grupo antecedenle , os quaes devem por tanlo 
dar grandc quantidade d'aguas na ribeira de Valle de Lo- 
bes, quando sejam cortadas a jusante da foz do ribeiro ; 5." 
as nascenles de differentes camadas aquiferas taes conio as 
do ribeiro das Enguias, e as d'enlre a Baratam e Algueirao, 
que em dezembro findo attingiram 100""" diarios ; as nascen- 
les do valle da Urze, na margem esquerda de Valle de Lo- 
bes ; c as mais nascenles d'esta ribeira a monlanle da po- 
voacao dc Valle de Lobos , que , na sua tolalidadc , deram 
por estimaliva, na maior escassez, 2000""' diarios. 

Da parte inferior do gruiw brolam oulras nascenles, lac* 



DAS SCtENCUS E LETTRAS. 573 

Sao a fonle de Melecas e a nascente da quinta do viscondc 
de Exlremoz, ambas miii abuiidanles, nao dando talvcz oe- 
nos de ^OO™ diaries; as nascenles da parte superior do ri- 
beiro das Enguias ; as do povo de Pechiligaes ; e as das 
qumlas do Telhal, da Tala, e do Alto do Sabugo. Ha aleni 
d'estas muilas outras nascentes e pocos parliculares que fer- 
liiisam diversas exlensoes de lerreno cultivado tanto na mar- 
gem da ribeira de Valle de Lobos , como em Pechiligaes. 
Finalmento este grupo presta-se a acquisicao de no\as aguas, 
alem das conhecidas em diversos pontos, como na ribeira do 
Castanheiro ; na pr(3ga de Rio de Sapos ; na quinta de Mo- 
Ihapao ; e em Pechiligaes, por causa das formas parliculares 
do solo, e da posicao das camadas ; comludo, nao se creia. 
que volume que se podera obter seja coisa extraordinaria, 
porque de certo nao pode exceder a capacidade de saturacao 
das camadas aquiferas, ate ao nivel em que forem atacadas 
peia exploracao. 

5." grupo do andar de Bellas. — '6.° grupo do an- 
dar de Bellas e todo formado de rochas calcareas com pos- 
sanca superior a 100'" estimada na parte que esla entre Al- 
gueirao e Mem Martins : cm Cintra deve talvez ser muito su- 
perior a 200'". E cuborto ao S, Poente e NO pelas rochas 
arenosas do grupo antecedente ; mas nas alturas do Brejo c 
do povo de D. Maria mettc uma nesga para o valle de Ca- 
maroes passando junto aquelles sitios com os stratos verti- 
caes , onde similhanlemenfe e coberto por aquellas mesmas 
rochas ; ali reunc-se ao relalho que resultou d'uma desloca- 
cao e que csta encostado a scrra das Sardinhas, e torneando 
a parte Occidental da montanha de Monte-mor, descancando 
scmpre sobrc os gres do 6,° grupo , vai ligar-se pelo Nas- 
cente com OS stratos que atravcssam as ribeiras de Garenque 
c do Castanheiro. 

A ribeira de Valle dc Lobos nao bebc directamcntc das 
aguas pluviaes caidas sobrc os calcarcos do o." grupo que 



57 i ANNAES 

estao dcnlro da bacia respccliva : so entre a Matia e Mcle- 
cas e que se \6 oiiada d'um cstreito aflloramento dos mes- 
mos calcareos, que ali, e deslacadaniente, roriip^ra os gres 
do 4." grupo, na exlensao de 2,5 kilonielros de comprimenlo 
per 100 a 200"' do largura media; achando-se a parte da 
bacia correspondente as ribeiras de que se trata, que e occu- 
pada pclas rochas do 5." grupo, reduzida a i ou 5 kilome- 
tros quadrados somente. 

Os calcareos c marnes d'cslc grupo sao argilosos, ama- 
rellados, e, em geral, absolutamente identicos, no seu cara- 
cler mineralogico , aos calcareos dos grupos anlecedenles , 
observando-se na sua parte inferior repelidos stralos de mar- 
nes schistoides, e de argilas de cor cinzenta escura ; todavia 
em algumas partes apresentani-se as camadas endurecidas de 
textura compacla, cor acinzenlada, evidenlemenle alleradas 
por metamorphismo, e muito fendidas e rotas, como se pode 
ver no Brejo , e dcsde o sitio de D. Maria ale ao Brouco 
pelo valle do Castanheiro : alleracao cerlamente devida a 
presenca dos Irappes que, enlrc os Penedos Pardos e D. Ma- 
ria e no cimo do valle de Fornos affloram em repetidos 
ponlos. 

E sobre os calcareos d'estc grupo quo nascem os valies 
das ribeiras de Garcnque, e do Castanheiro, confundindo-se 
as suas plagas com o valle que corre Iransversalmente de D. 
Maria a Canecas, e do qual partem as primeiras aguas d'es- 
tas duas ribeiras ; a passagem porem d'estes valies e feita 
por uma dcslocacao nos stratos calcareos, que na ribeira do 
Castanheiro se repelc por muitas vezes, 

Nada ha mais eslcril do que os calcareos d'este grupo, 
com parlicularidade na parte que vem de D. Maria a Car- 
regueira, ao Brouco, e ao valle dc Fornos : a sua resistcn- 
cia a accao dos agcntes cxtcriores lorna-os escalvados, o que 
junto a sua estructura nimiamente fendida , que os iuhibe 
tambcm de podcrem reter as ag^uas, os lorna aridos, e in- 



( 



DAS SCIENCIAS E LETTRAS. it) 

Iralaveis para agricullura : por tanlo as aguas pluviaes cai- 
das sobre a superficie occupada pela parte d'este grupo, com- 
prchendida enlre as ribeiras de Garcnque c do Gastanheiro, 
e ainda sobre o solo adjacente as suas margens do Nascenle 
e do Poenle, precipitam-se immediatamentc pelas fendas e 
algares abertos no calcareo e vao ate as regioes mais infe- 
riores ; porem logo que esses recipientes subterrancos estao 
cheios, toda a raais agua, que circula nos massicos superio- 
res aos corregos d'cstas ribeiras, se escapa, •mais ou nieiios 
velozniente, para os seus leitos, resultando d'eslas desvanta- 
josas condicoes uma extrenia carencia de nascenles em to- 
da a zona indicada ; e so do silio das Pontes Grandes para 
Gasal do Brelao , onde comeca a plaga da ribeira de Ca- 
renquc , e sobre as indicadas camadas de marues e argiias 
cinzentas, que estao na base do grupo , e que se demora 
uma camada aquifera coberla em partes pelo terreno detri- 
tico, e sobre a qual se \6em alguns pocos de pouca profun- 
didade. 

Pelo que respeila a nascenle da Quintam, que brola no 
topo N da galeria tiltranle d'este nome, 15"* abaixo do solo e 
que, na estacao chuvosa, da urn prodigioso volume d'aguas, 
seccando completamenle no estio, nao pode deixar de ter a 
sua conserva na parte superior dos calcareos d'este grupo, 
(embora se nao veja a natureza do solo d'onde brota , por 
estarem revcstidas as paredes da galeria n'este sitio) porque 
^ incompativel com a estructura, e natureza do gr^s do 4.** 
grupo estancar-se de todo, nos mezes d'agosto ou de septem- 
bro , uma nascente como esta que chega a dar diariamenle^ 
no inverno 2000"'" d'agua ; em quanto que um tal volume 
e regimen quadra pcrfeitamente com a dureza, impermeabi- 
lidade , e cam as nuraerosas fendas e vasios praticados em 
loda a massa dos calcareos do S.** grupo. eerto e que per- 
correndo a parte d'este grupo que fica ao longo da estrada 
de Bellas para os Almornos, isto 6, dcsde o Alto dos Gafa- 



.1;7(> ANN A lis 

nholos al6 as visinhancas da serra da Carregueira, nao se 
enconlram , pelo menos que eu visse, nenliuraas nascenles 
brotando d'esles calcareos. 

A absolula carcncia, ou grande penuria d'aguas nas ro- 
chas do 5." grupo nao so deriva das causas que ficam pon- 
deradas coino lambem de oulras peculiares ao rel6vo geral 
do solo. Na verdade examinando a orograplua do massico 
Occidental, c comparando as alliludes no scntido do Poenlc 
para o Nascenle, reconhece-se que a supeificie do solo, alem 
da sua geral inclinacao de N para S, lem uma ligeira queda 
para SO, e que os pontos mais baixos na bacia hydrograpliica 
das tres ribeiras correspondem ao corrego da ribeira de 
Valle de Lobos , como adianle exporei mais delalhadamen- 
te : d'aqui, da forma d'esle relevo e da situaciio das camadas 
do 5." grupo, inclinando para S e para SO na parte Orien- 
tal, conclue-se que as aguas d'este grupo, recolhidas entre 
as ribeiras de Carenque e de Valle de Lobos, devem preci- 
pilar-se para as seccGes mais baixas, que as camadas aquo- 
sas offerecerem a superficie do solo nas ribeiras de Valle de 
Lobos, Rio de Monro, Oeiras, etc. : ora e exactamcnte o que 
acontece no atHoramento do calcareo do 5." grupo, desdc a 
Malta ate ao Telhal , descarregando-se por elle parte das 
aguas pluviaes, diffundidas no solo calcareo d'esle grupo, 
desde a estrada dos Almornos ale a ribeira de Carenque ; 
circumstancia que da origem as copiosas nascenles da Mal- 
ta, sobre a ribeira de Valle de Lobos, as quaes em junlio de 
1836 mediram o enorme volume de ld\i'"° diarios , e em 
dezembro do mesmo anno sc reduziram a oilava parte d'esle 
volume. Por tanlo as nascenles da 3Ialla, e a da galeria in- 
lillranle da Quinlam sao as unicas aguas de consideracao, que 
este grupo offerece em loda a bacia, reslando poucas cspe- 
rancas de achar oulras aguas , por trabalhos de exploracao 
pralicados a superficie do solo. So o emprego do furos ou 
pocos Acrlicacs, quo alravessem todo o grupo anlcccdcnlc 



DAS SCIENCIAS li LETTKAS. S77 

e quasi todas as camadas d'esle e em ponlos mais baixos 
do solo , e que poderao enconlrar as aguas que devem ja- 
zer em abundancia nas camadas argilosas da sua base, que 
se \6em a descoberlo nas Pontes Grandes , e no Casal do 
Bretiio. 

Terminarei a descripcao hydrologica d'este grupo com 
algumas consideracoes • sobre as importantes nascenles da 
Malta. 

As quatro nascenles da Matta, que atlloram niui proximas 
umas das outras em iima extensao de 200"\ e com peque- 
nas dilTerencas de nivel, pertencem a tres differentes cama- 
das aquosas. A nascente mais a juzante , siluada na Matta 
debaixo, que em junho de 1856 dava 25'i0'"° diarios, sec- 
cou em novembro do mesmo anno como cosluma nos outo- 
nos eslios. A nascente da Malta de cima, que fica immcdia- 
tamenle a raontante da precedente e brota 2'" acima do ni- 
vel d'ella , dava na primeira epocha iOOO"""^ e na segunda 
reduziu-se a pouco mais de (JOO™' diarios : a camada, po- 
rem, d'onde esta afllora, subjazendo aquella d'onde brota a 
primeira, moslra a independencia que existe entre ambas, e 
expiica o paradoxo de seccar a do nivel mais inferior, con- 
servando-se a mais alia. As duas nascenles a monlanle d'es- 
las, pertencem a uma outra camada ; a que fica mais pro- 
xima da nascente da Matta de cima esta 0™,6 mais alia do 
que esta, e brotava, nas duas epochas de junho e dezem- 
bro, 424 e 212'"" d'agua por dia ; a oulra 2™ mais elevada 
que a dila nascente da Malta, deu nas mesmas epochas 370 
e 132""". Comparadas as disposicoes relalivas d'estas tres ul- 
timas nascenles, e os volumes d'agua por ellas fornecidos , 
conclue-se ainda que as duas ultimas nascenles pertencem a 
umamesma camada, mas dilTerenle d'aquellas em que as au- 
Iras brotam ; scndo este facto tambem confirmado pela ob- 
servaciio dirccla. 

Procurar portanto a camada aquosa que alimenta a nas- 



cenle da Malta de baixo, poderc^ ser vanlajoso ; pretender, 
poriim, augmentar as nasceutes da Malta de cima, sera lal- 
vez arriscado e inconvcniente , tanto porqiie se imo podem 
prever as evenlualidades de um Iraballio de exploracao, em- 
prehendido nas visinhancas d'eslas nasccntes, que pode com- 
promeller o sen regimen, em conscqucncia da circulaeao das 
aguas se operar em camadas que alem de fendidas eslao con- 
torcidas e com inclinacoes para diversos ponlos do horizon- 
te, e em angulos de varia grandeza , como porque, augmen- 
tando a seccao de \asao, podera crescer o producto d'ellas 
na estacao ehuvosa, porem mais escasso se tornara lambcm 
no eslio, \islo que o seu reservalorio se ha de estancar com 
mais promptidao. 

6.** grupo do andar de Bellas. — Finalmenle os calca- 
reos do 5'.° grupo sao deslocados por um affloramento, de 
forma proximamente ellipUca, composlo de rochas arenosas 
que constituem 06." grupo do andar de Bellas. As cama- 
das d'esle grupo formam a grande divisoria de Canecas e D. 
Maria , na qual se clevam as alUiras ja indicadas na pri- 
meira parte d'esla Memoria : descem d'esla linha para N 
aos valles de Nogueira e Camaroes ate a serra das Sardi- 
nhas ; para S as visinhancas do povo de Canecas e Casal 
do Brelao, metlendo-se por baixo das camadas do 5." gru- 
po , que se dirigem de Canecas as Pontes Grandes ; para 
Lesle \ao encostar a meia vertcnfe da monlanha de Monte- 
Mor ; epelo Poente sao coberlas pelos calcareos do 5." gru- 
po nas alluras do Brejo, e proximo ao ponlo onde se rcpar- 
lem as aguas para as ribciras de Valle de Lobos, Casta- 
nheiro e Camaroes. Toda a superficie d'esle aflloramento , 
pcrlencenle a bacia hydrographica das duas ribelras de Ca- 
renque e do Castanheiro, nao excede um kilometro quadra- 
do ; comtudo e baslanle accidentada, e encerra, proporcio- 
na'.mcnlc, lanla abundancia d'agua como os Icrrenos do 4." 
grupo. 



1>AS iCIEiNCI.VS K LETTRAS, 579 

6.*' grupo cm nada differe do 2." e 4/' pclos cara- 
clcj-es inineralogicos das suas roclias, Icndo inesmo de corn- 
mum com 2.« as camadas de gre's fines micaceos proprios 
para a cutelaria na sua parle media, e as camadas de argila 
maruo-carbonosas com restos vegelaes na sua parte inferior. 
Toda a encosla que descae da grande linlia divisoria de 
aguas para o valle de Canecas e de D. 3Iaria, e muito aquo- 
sa , do que sao prova os numerosos pocos e nascentes que 
se \'6em por todo csle valle, na extcnsao de 3,.^ kilomelros. 
As aguas que os alimentam sao fornecidas por uma camada 
argilosa cinzenla, que esta na parte superior do grupo, cujo 
affloramenlo se encontra no Casal de Casteilo de Vide des- 
cendo de valle de Nogueira para Canecas e ainda por outra 
superior a primeira , a qual passa pela povoacao de Cane- 
cas e Casal do Bretao , fornecendo por infiltracao aguas ao 
aqueducto dos Carvalhciros, e brofando-as tambem proximo 
a povoacao de D. Maria, em pontes onde as camadas se 
acham desarranjadas pelas erupcoes trappicas. A encosta 
que descrevemos 6 accidentada por alguns barrancos mais 
ou nienos rapidos , que comecam proximo da divisoria, e 
separam diversas Jombas, que atravessam o valle, e dividem 
as aguas para a ribeira de Canecas, e para as ribeiras de 
Carenque e do Castanheiro. Nas seccoes d'esta lomba e que 
se mostram algumas outras nascentes , e mais designada- 
menle nas origens d'estes barrancos , aonde so nascem as 
primeiras aguas , que, ainda no fim do outono, davam co- 
medo as ribeiras de Carenque e de Canecas, com um volu- 
me diario de i;>0'"'= ; mas tambem as que alimentam os aque- 
ductos das Aguas Livres denominados do Olival , do Peco 
das bombas , de valle de Monro , e do Salgueiro, as quaes 
reunidas davam, em novembro de 1856, 26'0""= diaries. Te- 
das as nascentes acima indicadas perfencem a parle media 
do grupo, mas correspondem talvez a difforentes camadas 
aquiferas. 



•iSO ANNAES 

Tal e, cm geral, a naturcza das ruchas dos seis griipus 
do andar de Bellas, sua eslriiclura, siluacao, c condicoes 
hydrologicas cm loda a parte da bacia hydrographica corres- 
poiidenlc as ribeiras de Carcnque, do Castanliciro c de Vallc 
de Lobos ao N do parallelo d'Agualva. 

(Continva.J 



DAS SC.IKNCIAS F. I-HTTRAS. 



581 



HYGIENE PUBLICA. 

(CONTINUADO DA PAG. 5*14.) 



A infeccao das malerias corruptas denuncia-se geralmenle 
pelo cheiro desagradavel e repugnante que ellas emitlem. 
niau cheiro e, por conseguinte, reputado propriedade ca- 
raclerislica dos corpos infeccionados. Estes sao materias vi- 
rulentas que obram por conlagio, determinando nos seres 
vivos alleracoes inorbidas, e, como taes, origem de insalu- 
bridade ; mas neni sempre o mau cheiro e indicio da exis- 
tencia d'eslas materias ; e podem ellas existir na athmos- 
phera, gozando de aclividade morbifica, sem que sejam de- 
nunciadas ao olfacto pela minima sensacao penosa ou mo- 
lesla. 

As dejeccdes dos animaes sao acompanhadas de cheiro 
desagradavel desde o momento em que sao expulsas , mas 
esse cheiro , e com elle todas as outras qualidades d'essas 
materias variam a proporcao que ellas se transforraam pela 
accao do ar e pela putrefaccao em productos varies. As 
transform acoes de taes materias sao miiito complicadas e de- 
pendem , na sua forma e nos seus resultados , das circum- 
stancias e condicoes particulares a que eslao sujeitas. Stria, 
na verdade, muito ulil para a sciencia e para a humanidado 
estudo complelo d'estas transformacoes, por6m e necessa- 



rio ter grande coragcm c dedicacuo para eniprehcndcr uin 
estiido lao dilTicil o lao desagradavcl como esic, e e lalvez por 
cssa razao que sejam aiuila lao incomplelos os coiihcciinen- 
los da chimica a eslc respeito. que sc sabe com cerleza 6 
quo chciro fetido (juc cxhalam as dejeccocs rcccnles 6 de- 
\ido, na maxima parte, a principios divcrsos d'aqucllcs que 
so desinvolvem depois quo taes matcrias sc acham cm plena 
corrupcao. sulfhydrico, o sulfhydralo e carbonalo de am- 
monia, OS phosphurelos e carburetos de hydrogcnio, e, lal- 
vez, sulfurcto de carbonio manifcslam-se mais pronuncia- 
damenle, quando a putrefaccao sc estabelece. Esles princi- 
pios Yolateis, mais estaveis do que as materias organicas em 
via de decomposicao e que se designam geralmcnte pelo no- 
nie de miasmas, sao venenosos sim, mas actuam sobre o or- 
ganismo de modo diverso do que aquellas ultimas. A estas 
attribuem os medicos hygienistas a accao desorganisadora 
que e propria dos fermentos ; aos primeiros uma accao pu- 
ramenle deleteria e venenosa , porque sao inrespiraveis c 
iraproprios para as Iransformacoes vitaes ou porque tendem 
a contrarial-as. 

E inteiramente inutil para o objeclo de que prelendo tra- 
tar, seguir passo a passo as Iransformacoes que soffrem as 
dejeccoes, solidas ou liquidas, desde que sao expulsas, ate 
que OS elementos que as constituem se grupam de uni modo 
estavel, formando verdadeiros composlos inorganicos. Basta 
recordar que n'essas successivas Iransformacoes, que come- 
cam no canal digestivo, e se accclerara e complelam em pre- 
senca do ar, se formam productos volateis, dofados de cheiro 
infecto, gozando de propriedades deletereas c podendo exer- 
ccr na economia dos seres vivos altcracoes morbificas, 

A harmonia da nalureza ni\o permitte que se suspendam 
estas iransformacoes da materia crganica em materia inor- 
ganica ; a hygiene nao pode, por conseguinte, exigil-o, mas 
pode e deve regular estcsmovimcntos molleculares de modo 



DAS SCIENCIAS E LETTRAS. .183 

que elles se execulcm sem que sejam nocivos ao homcm. E 
para alcancar cstc fim que se cmpregam os meios de desin- 
feccao. A chimica pode effecluar a desinfeccao por dois mo- 
dos essencialmente dislinctos — ou sustando a decoraposicao 
— ou accelcrando-a de raodo que ella chegue rapidaraente 
ao seu ultimo termo. 

Para suslar a decomposicao basta converler a materia al- 
teravel em outra mais estavel ou rcsistenle a accao destrui- 
dora dos agenles alhmosphericos, ou, para melhor dizer, a 
accao combruente do oxygenio do ar. Uma temperatura ele- 
vada, ou muito baixa, a perfeita seccura, a exclusao com- 
pleta do ar e principalmente do oxygenio, a accao de diver- 
sas substancias como sao alguns acidos, a creosote, o alcool, 
e diversos saes melallicos, produzem, mais ou menos com- 
pletamente, esle effeito. Esles diversos meios denominam-se, 
em geral, antisepticos. 

Para acceierar a decoraposicao sao efficazes todos os meios 
que tendem a delerminar nas substancias putresciveis uma 
prompta e completa oxidacao, porque este e o termo das 
transform acoes organicas. A combustao rapida em presenca 
de um excesso de ar , e os corpos oxidantes, como sao o 
acido azotico, o chloro, os alkalis e terras alkalinas, produ- 
zem este effeito. carvao vegetal e os corpos porosos, que 
condensam nos seus poros grande quantidade de ar, facili- 
lam consideravelmente a oxidacao das materias putresciveis. 
Estes sao os verdadeiros meios desin fee tanks . 

Quando se pretende unicamente encobrii^ o cheiro ingra- 
to, que as materias corruptas espalham na athmosphera 11- 
mitada das casas, empregam-se, muitas vezes, substancias 
aromaticas, que nao sao essencialmente antisepticas ou des- 
infectantes, nem melhoram as condicoes de salubridade. 

Tambem a simples destruicao dos cheiros fetidos, ou a 
inodorisacao , ainda que seja por accao chimica, nao e indicio 
completo de desinfeccao, mas na maior parte dos casos, e 

ToMo I.-Dezembro dk 1857.-1." Classe. 38 



584 ANNAES 

principalmenlc no que faz o objecto d'esle cstudo, a inodo- 
risacfio pode tomar-se conio uni signal dc desinfcccrio. 

Na desinfocciio das malerias fecacs podcm cmprcgar-sc 
divcrsos ingredientes , mais ou mcnos efllcazes, segundo as 
circumstancias cm que cssas materias se achani. Sc as ma- 
lerias solidas csliio scparadas das liquidas a dcsinfeccao 6 
mais facil, prompta, economica e duradoura. Sc, pcio con- 
trario, csla separacito niio existe, e a fermentacao putrida se 
acha eslabclccida n'uma porcao considcravel d'cssas male- 
rias, a dcsinfeccao lolal c pcrmanenle 6 dillicil c pouco eco- 
nomica. 

Basla considerar que a pulrefacciio das malerias solidas 
gera produclos , em grande parte, divcrsos d'aquellcs que 
suo produzidos pelo mcsmo phenomeno nas materias liqui- 
das , e a razao principal d'esta dilTerenca esta na composi- 
cao diversa d'estas malerias. Na pulrefacciio das urinas, por 
exemplo, o producto gazoso que predomina c o carbonalo de 
ammonia , e esle, volalilisando-se, acarrela os corpusculos 
da materia organica em via de decomposicao, isto c, a ma- 
teria apla para gerar a infeccao. Evitar a formacao do car- 
bonalo de ammonia e portanlo o mcio mais conveniente para 
prevenir a corrupcao das urinas. Basla, para obler esle re- 
sultado, a presenca de um acido como e o chlorhydrico , 
para que lodo o carbonalo de ammonia, que se produzir pela 
decomposicao da urea, se converla logo em sal ammoniaco 
pouco volalil e que por isso se nao derrama pela athmos- 
phera ; e ja se ve que a quanlidade do acido, que se requer 
para produzir esle efTeito, basla que esleja em proporcao com 
a quanlidade de urea e acido urcio conlidos nas urinas, que 
nao excede a 31 por 1.000. 

Effeilo analogo se obtem em presenca dos saes de ma- 
gnesia ; porque, existindo sempre nas urinas o acido phos- 
phorico, esle, combinando-se com a ammonia c a magnesia, 
conslilue urn phosphato duplo pouco soluvel e fixo , emba- 



DAS Sr.lKNCIAS E LETTRAS. 5'83 

racando tl'esle niodo a formacao e volalilisaciio do carbonato 
de «immonia. 

E por lacs razues que nos podemos prevenir a corrup^ao 
das urinas por mcio da addicao de pequcna quanlidade de 
acido chlorhydrico, ou das dissolucoes de raagnesia, e nota- 
velmenle com as aguas macs das marinhas que conteem esta 
base em quanlidade avullada. 

Qualquer que seja o estado de combinacao em que en- 
tra a ammonia cm virlude d'esla operacao , nao ficara por 
isso inutil para a funccao a que a deslina a natureza na ali- 
menlacao dos vegelaes. Nao sera, por coiiseguinle, materia 
perdida para a agricultura. 

Se as urinas se acharem misluradas com as materias fe- 
caes solidas, como aconlece nos depositos das cloacas e nos 
canos de despejo, os meios de desinfeccao que acabo de in- 
dicar serao insufficientes, porque o phenomeno da decompo- 
sicao putrida se complica exlraordinariamenle. Esla e uma 
das principaes razoes que aconselham a previa separacao das 
dejeccoes, 

Na pulrefaccao das malerias fecaes mixlas, alem do car- 
bonato de ammonia, se produzem outros corpos volateis, en- 
tre OS quaes predominam o sulfiiydrico e sulfurcto de ammo- 
nium, excessivamcntc fclidos e delelerios, que acarretam a 
materia organica cm decomposicao e constiluem os miasmas 
peslilenlos. sulfiiydrico e sulfurcto alkalino nascem da de- 
composicao ou dcsoxygenacao dos sulfatos e da reduccao dos 
principios sulfurados da materia organica, em presenca da 
agua ; para fixar o enxofre empregam-se ordinariamenle os 
saes metallicos, cujos radicaes formam com aquelle elemento 
sulfurelos insoluveis, Os saes de ferro, de zinco, e de man- 
ganesio sao indicados com vanlagem para esle fim, porem a 
desinfeccao por esle meio, ou nao e complela ou e cxlrcma- 
mente dispendiosa quando se opera em grandes massas. 

A. corrupcao das malerias solidas pode facilmenle obslar-se, 

38* 



586 ANN\ES 

deterniinaiido n'ellas uma prompta soccura cm prcscnca de 
corpos absorvcnles. carvao vegetal em p6, as terras vc- 
gelaes carbonisadas, o coke das lurfeiras, a mislura da cal, 
ou do gesso, com o carvao, sao meios ellicazes para obter 
esle clTcilo. que d'cstes fOr o mais cconomico sera incon- 
leslavelmenlo o melhor debaixo do ponto de vista pralico. 
Eu teoho oblido semprc excellente resultado com a mistiira, 
em volumes eguaes, da cal e do carvao vegetal era po. A cal 
hydratada llxa o acido carbonico e o sullhydrico ; o carvao 
absorve e cpndeiisa os outros produclos gazosos e principal- 
meote a ammonia. Obslaiulo d'este modo a evolucao dos 
principios gazosos, o derramamento dos miasmas lorna-se 
impossivel ; a dcsinfeccao 6 complcta. 

Tornadas por este m.odo inodoras, e desiufectadas, as dc- 
jccc(5es solidas nao perdem coisa alguma dos elementos fe- 
cundanlcs que devem servir a alimentacao das plantas. As 
experiencias, que sobre esto ponto fiz, e parte das quaes ja 
publiquei n'esles Annaes, ahi eslao para testimunhar a ver- 
dade da minha asscrcao. 

Na presente conjunctura, em que nos achamos era Lis- 
boa, muitos homens, alias intelligentes e de grande talento, 
preoccupados simplesmente da insufficiencia dos meios de re- 
mocao das dejeccoes dos habilanles, e da insalubridade que 
se presume nascer da defeiluosa limpeza da cidade, querem 
separar inteiramente a queslao puramenle hygienica da ques- 
tao economica do aproveitamento d'aquellas malerias. Remo- 
vel-as para longe e rapidamente, embora se percam, e o seu 
unico fim. Nao posso de modo algum concordar com elles. 
aproveitamento das dejeccoes dos habitantes nao complica 
e muito menos torna insoluvel o problema hygienico. Cada 
homem emilte annualmente uma porcao de materias em que 
se conteem S^,id de azote, alem dos phosphates, e que po- 
dem servir a produccao de 400'' de trigo, de centeio, ou 
aveia, ou a de 450'' de cevada, fertilisando 20 ares de ter- 



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DAS SGIENCIAS E LETTRAS. 5*87 

ra. Quer islo dizer que, aproveitadas so para a cuUura do 
trigo, as dejeccoes dos habilanlcs da cidade de Lisboa scr- 
viriam a producciio de 100 milhoes de kilogramas de trigo 
ou perlo de 218 milhoes do arrateis da mesma senienle. 
Quero siippor que o pSo coiisumido pelos habilantes da ca- 
pital nao passa de 80 milhoes de arrateis; reslara 138 mi- 
lhoes, que represcntam as carnes, o leile, as hortalicas e 
mais generos consumidos pelos homens c uma grande parte 
dos que servem a alimenlacao dos animaes, cujas dejeccoes 
se nao aproveilam, sem contar com a grande massa do ma- 
teria que no eslado gazoso se mistura com a alhmosphera, 
e e Iransportada para longe. Esles productos gazosos, dos 
quaes o acido carbonico e a agua representam a maxima 
parte , sao o equivalenle da forca erapregada no trabalho , 
pelos homens e pelos animaes, assim corao os productos da 
combustao do carvao de pedra o sao , ale certo ponto , da 
forca das machinas de vapor em que se queiraa aquelle com- 
bust! vel. 

Sao estes os principios demcnstrados pela sciencia, e que 
n6s devemos applicar em proveito da sociedade a que per- 
lencemos. 

Prejudicando a questao economica, nao se resolve com 
mais facilidade a questao dc salubridade. Seria necessario 
que a cidade se transportasse para o meio da corrcnte das 
aguas do Tejo, para entao conseguir que as dejeccoes fossem 
levadas para longe ou dessiminadas n'uma grande massa de 
agua ; mas em quanto os habitantes de Lisboa se nao deci- 
direm a vivcr em embarcacoes ancoradas na bacia do Tejo, 
a remocao das suas dejeccoes ha de sempre ser incompleta, 
e nos havemos de ver essas materias depositarcm-se em gran- 
de parte nos lodos das nossas praias. 

aproveitamento das dejeccoes para adubos, principal- 
niente o das materias solidas, nao tern a dilllculdadc que 
muita gentc imagina. Que e necessario para isto se conse- 



588 ANNAF.S 

guir? A separacao, a doslnfecsao q o Iransporle. A separa- 
cilo pode fa/er-se ou pelo nielhodo que cu indiquei, que me 
parece o melhor, ou por oulro (jualquer, scgundo as conve- 
niencias locaes e pessoaes; parcialinenlc, ou cm grandes mas- 
sas, para cada iiidividuo , para cada habitacao, para cada 
predio, ou para cada grupo do predios. Tudo isso e ques- 
tao secundaria. Que os apparelhos scjam d'esta ou d'aquella 
forma, que os recipienles sejam fixos ou moveis , que cadai 
indiA'iduo haja do allcnder a execucao d'este processo , ou 
que elle se execute indcpendentemente da sua allencao ou da 
sua vontade, pouco imporla, com lanto que a separacao se 
faca mais completa que poder ser. Os apparelhos moveis 
niio sao caros, os fixos aiiida o sao menos. A cmpreza, que 
se inleressar no aprovcilamento das dejcccoes , compete re- 
duzir OS precos do estabelecimento d'csles apparelhos dc mo- 
do que elles sejam acccssiveis a todas as fortunas. 

A desinfeccao das materias separadas, que, em grande 
parte, deve ser feita por conta dos habitanles, e insignifi- 
canle, quando se mcltcm em consideraciio os beneficios que 
d'ella resultam para a coiilmodidadc e salubridade publica. 
Empregando a mistura da cal e carvao que cu indiquei, cada 
individuo tem a gaslar, para aquelle effeilo, annualmente de 
25* a 26 kilograramas d'esta mistura, a qual se compoe, 
proximamente de 16 kilogrammas de cal hydratada e de 10 
kilogrammas de carvao moido, o que tudo sommado nao deve 
custar mais de 200 reis annuaes pelos precos mais desfavo- 
vcis. Mas se em vez da mistura indicada quizermos empre- 
gar oulras materias mais econoniicas , como sao os lodos 
carbonisados ou o coke das turfeiras, enlao esta mesma des- 
peza deve sofl'rer consideravel diminuicao. 

Em quanlo a remociio nos temos simplesnieute a oonsi- 
derar a quanlidade de materia que se deve remover diaria- 
mente. A materia solida excrctada diariamentc por uma po- 
pulaciio dc 200.000 habilantcs equivale a 25.000 kilogram- 



UAS SCIENCIAS E LKTTRAS, 589 

mas ; se Ihe addicionarmos 50 por 100 de materia desinfe- 
ctanle, teremos 37.500 kilogrammas, ou o trabalho de 37 
carros por dia, suppondo que cada um d'elles faz urn so ca- 
minho, mas, como urn carro pode fazer 5 caminhos por dia 
na cidade, basta que se emprcguem n'este servico 8 carros 
diarios. 

Eis-aqui as- grandes difficuldades da limpeza que se tern 
chamado inodora, com a qual sc consegue nao so a remo- 
oao de um vasto foco de infeccao, exercendo conlinuamenle 
a sua accao mortifcra sobre os habitantes da capital, mas 
lambem o aprovcilaraento para a produccao agricola de uma 
enorme quantldade de preciosos adubos.' 

Sendo Icvado a sua perfeicao o systema que proponho, 
as dejeccoes liquidas devem tambem aproveilar-se, senao na 
sua tolalidade, pelo menos em grande parte, e a empreza